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terça-feira, 28 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28222: Humor de caserna (284): 1 de junho de 1965, Alcanena: o dia da minha ida às "sortes" (inspeção militar) (Carlos Pinheiro, ex-1.º cabo trms op msg, Centro de Mensagens, STM/QG/CTIG, Bissau, 1968/70)

















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto e Imagens: Carlos Pinheiro (2010)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


A Inspecção Militar 
por Carlos Pinheiro

A Inspecção Militar era um acontecimento local, regional e nacional pois era aí que eram lidas “as sortes” dos rapazes que nesse ano faziam vinte anos, os “mancebos”, já em linguagem militar. A mesma era feita nos primeiros dias de junho no ano em que os “mancebos” completavam 20 anos. 

Não era preciso fazer-se inscrição. Eles não se esqueciam de convocar a malta através de edital e ninguém faltava porque era perigoso.

De qualquer forma, sempre havia um ou outro que antecipadamente, à socapa, dava à sola e ia até França. Era a época da emigração clandestina, "a salto”,  como se dizia, porque, não nos esqueçamos, o país estava em guerra em três frentes – Angola, Guiné e Moçambique.

Mas o acto da Inspecção em si merece ser recordado. Em Alcanena, a malta comparecia no Salão Nobre do Edifício dos Paços do Concelho. Depois de identificados, passado pouco tempo era distribuído um papel para ser apresentado aos médicos militares que estavam no gabinete ao lado, o gabinete do Presidente da Câmara, mandavam despir o pessoal e ali estavam, os mancebos, todos nus com um papel na mão, até à chamada ao gabinete.

Os mancebos eram medidos, pesados, auscultados e lá vinham todos contentes, “apurados” para todo o serviço militar. Logo ali, havia sempre um soldado ou um cabo que vendia uma fita verde e vermelha a significar o apuramento e que a malta, para ser bem referenciada, colocava logo na lapela do casaco do fato que era estreado nesse dia.

Os raros, raríssimos, que ficavam “livres”,  também tinham direito a uma fita, mas neste caso branca, que também era paga e nesse ano, em Alcanena, falando da freguesia, houve dois que ficaram “livres”,  sabe-se lá porquê.

Havia ainda os “esperados”, que passavam para o ano seguinte, porque não tinham peso, porque tinham peso a mais, ou por outro motivo qualquer. 

Depois o dia era de festa por um lado, mas por outro também de alguma preocupação acerca do futuro que já estava marcado,  com a mobilização para Angola, Guiné ou Moçambique.

 Nesse dia havia almoço em casa com a família, mas o jantar era de convívio entre todos e o baile até às tantas estava garantido e era sempre muito concorrido.


Carlos Pinheiro
Alcanena 01.06.1965-

Anexos:


À direita, acima :  Reprodução do Cartaz do Baile da Inspecção de 1965, devidamente selado e assinado por um companheiro que já nos deixou, o Arlindo Abrantes.

À esquerda, acima: mancebos de 1945 - Fotografia do jantar da véspera da Inspecção no Restaurante do “Primo” Necas que nessa noite esteve por nossa conta.

À direita, ao lado: Fotografia do palco do baile da Inspecção de 1965, com dois Conjuntos, no Pátio do lagar de azeite da Viúva de José Bento, junto à Igreja

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)


2. Nota sobre o autor, Carlos Pinheiro (ex-1.º cabo trms op msg, Centro de Mensagens do STM/QG/CTIG, Bissau, 1968/70: 

(i) de seu nome completo, Carlos Manuel Rodrigues Pinheiro

(ii) natural de Alcanena, reside em Torres Novas; 

(iii) assentou praça na EPC em Santarém em 10 de outubro de 1967: 

(iv) chumbou  no CSM, como tantos outros; 

 (v) tirou a especialidade no RTM no Porto;

 (vi) veio para o  BT em Lisboa; 

(viii)  foi colocado no QG da 2.ª RM em Tomar;  

(ix) foi mobilizado para o CTIG pelo RI 15 de Tomar;

Carlos Pinheiro, natural de Alcanena,
a viver em Torres Novas

 (x) embarcou  em 23 de outubro de 1968 em rendição individual destinado ao BCAÇ 1911 (não no T/T Niassa, como  vem acima na BD,  mas no T/T Uíge)

(xi) passou a sua comissão no Centro de Mensagens do STM no Quartel General de Bissau; 

(xii) também trabalhou, nas horas vagas, num das casas comnercais mais conhecidas de Bissau, que pertencia a um parenhte seu, o Costa Pinheiro;

(xiii) é bancário reformado:

(xiv) integra a nossa Tabanca Grande desde 25/10/2010; 

(xv) tem 92 referências no nosso blogue.


3. Comentário do editor LG:

Este testemunho do Carlos Pinheiro é de grande valor etnográfico e histórico. É um dos melhores textos que já aqui publicámos sobre a inspeção militar ou o dia da ida à sortes (*). Temos um vintena de referências no blogue com este descritor. 

O Carlos Pinheiro  não descreve apenas um procedimento administrativo a que todos nós,  mancebos de 20 anos, estávamos sujeitos, ao tempo do serviço militar obrigatório; retrata um verdadeiro rito de passagem da juventude portuguesa durante o Estado Novo.

O cartaz que ele anexou é, por si só, um documento valioso. A sua linguagem gráfica diz muito sobre a época: feito à mão, com letras de diferentes tamanhos e cores, anunciando "O Tradicional Baile da Inspecção", em Alcanena, a 1 de junho de 1965, com os conjuntos "Os Tártaros" e "Os Isolé". Vê-se ainda o selo fiscal e a assinatura exigidos para a licença do espetáculo, lembrando como até um simples baile estava sujeito ao controlo administrativo.

Há, neste texto do Carlos Pinheiro, vários aspetos que merecem ser sublinhados.

Em primeiro lugar, a universalidade da convocação. Não era preciso o "mancebo" inscrever-se. O Estado, através das conservatórias do registo civil, sabia quem eram os jovens que completavam vinte anos e convocava-os por edital, afixado à porta da Càmara Municipal. A ausência podia ser entendida como fuga ao serviço militar, com consequências graves. (Mesmo assim terá havidos mais de duzentos mil faltosos, entre 1961 e 1974).

Depois, o ambiente da inspeção. A descrição dos rapazes nus, à espera da chamada para o gabinete do presidente da Câmara transformado em consultório médico, é muito expressiva. Misturavam-se o embaraço, o pudor, a curiosidade, a ansiedade e até algum humor. Era um momento que quase todos os homens daquela geração recordam, passadas décadas.(Claro que nem todos, como o Alberto Branquinho, na Covilhã, nesse ano,  tiveram direito a uma presença feminina, nessa altura ainda insólita, como era o caso da enfermeira que  coadjuvava  os médicos, em geral dois, sendo um militar).

Muito interessante é também a referência às fitas, vendidas no fim por um Cabo RD: fita verde e vermelha para os "apurados"; fita branca para os "livres". Eram afixafas na lapela, do lado esquerdo (do coração). É um apontamento etnográfico deveras curioso, do qual muitos de nós já estávamos esquecidos.

Outro aspeto muito importante é o contraste entre a festa do dia das "sortes" e a compreensível apreensão em relação ao futuro.

De manhã fazia-se a inspeção. Ao almoço reunia-se a família. À noite havia jantar entre amigos e, em muitas terras, como Alcanena,  baile.

Mas todos sabiam que, dentro de um ano, dois ou três, no máximo anos, muitos daqueles jovens estariam já em África. Em 1965, a guerra em Angola decorria desde 1961, na Guiné desde 1963 e em Moçambique desde 1964. O baile era, em certo sentido, a última grande festa da juventude antes da incorporação militar. Parece um baile inocente (e até num sítio insólito: o lagar de azeite da viúva do Zé Bento, a par do jantar no restaurante do "primo Necas")... Só no fim se percebe que aquele jantar e aquele baile eram, para muitos, a despedida de uma juventude que nunca mais voltaria a ser a mesma.
 
Este testemunho merece voltar a ser reproduzido no blogue, agora ilustrado com uma pequena BD.  Completa muito bem outros relatos que temos recolhido sobre a inspeção militar, mostrando que ela não era apenas um exame médico: era um ritual cívico, social e masculino, vivido pela comunidade inteira, marcado por símbolos (as fitas), cerimónias (o jantar e o baile), expectativas e receios. 

Era, afinal, a passagem oficial da adolescência para uma idade adulta que, para muitos, começava com uma farda e terminava, um, dois ou três anos depois, numa comissão em África.

Antes da guerra, "ir às sortes" era uma festa para os rapazes em Portugal...Depois de 1961, com o início da guerra em Angola, deixava de ser "brincadeira", toda a gente era apurada, desde que não fosse... "cego, surdo e mudo", e tivesse "o dedo de dar ao gatilho" (havia quem o cortasse)...Toda a gente, salvo seja... Os filhos das elites tinham todas as condições para se safarem,  se não de ir à tropa, pelo menos de ir parar ao mato...

A imagem dos "cegos, surdos e mudos" é uma metáfora, uma hipérbole mas não longe quanto isso,  da realidade social sentida pela nossa  geração. A mobilização aumentou muito com a guerra, e a margem para dispensas diminuiu drasticamente (mesmo os de "pés-chatos" era apurados para os serviços auxiliares). 

Coexistia, entretanto,  uma outra realidade: a desigualdade social. Nem todos partiam nas mesmas condições. O dinheiro, as cunhas, o estatuto social, a escolariodade, etc., podiam fazer a diferença.

Havia jovens das famílias mais influentes que conseguiam adiar incorporações, obter relatórios médicos favoráveis, prolongar estudos, ingressar em cursos de oficiais milicianos com percursos diferentes ou, em alguns casos, emigrar legal ou clandestinamente, emfim,  permanecer no estrangeiro largos anos, etc. 

Isso não significa que as elites escapassem sempre à guerra (muitos oficiais, médicos, engenheiros e estudantes combateram em África e alguns morreram lá), mas as possibilidades de evitar o teatro de operações eram, em média, muito maiores para quem dispunha de recursos, influência ou redes de contactos.

Seria precisa outra BD para apanhar e dar conta dessa realidade complexa,  sem cair na caricatura nem na demagogia.

Há, de facto, uma mudança dramática de significado entre o antes e o depois de 1961. Até aí, "ir às sortes" era quase um ritual iniciático. Os rapazes estreavam o melhor fato, iam ao fotógrafo, almoçavam com a família, jantavam com os amigos e acabavam a noite no baile. Era uma celebração da entrada na idade adulta.

Depois da guerra, o mesmo ritual passou a ficar  carregado  com a sombra ou o fantasma da guerra. Todos sabíamos que ela ia sobrar para todos nós, os nascidos entre o início dos nos anos 40 e os princípios de 50.  O baile continuava, mas já não era inocente. No meio da música havia um pensamento que ninguém verbalizava em voz alta: "Daqui a um, dois ou três anos posso estar em Angola... ou na Guiné... ou em Moçambique."
 
Esta BD é também uma bonita homenagem ao nosso Carlos Pinheiro, que soube preservar fotografias, cartazes e, sobretudo, a memória de um ritual que desapareceu com o fim do serviço militar obrigatório tal como a nossa geração o conheceu.

Escolhi, com a cumplicidade da menina IA do ChatGPT, a linha clara franco-belga, inspirada em grandes mestres da Banda Desenhada como  Hergé, Jacques Ferrandez e Juillard, com cenários rigorosos, expressões contidas e um +aleta de cores ligeiramente sépia, evocando fotografias da época, ou seja, a memória dos anos 60 que não voltam mais. 

É uma BD onde não está apenas o  Carlos Pinheiro e os seus camaradas que foram às sortes em 1 de junho de 1965, em Alcanena; está lá uma geração inteira que foi "às sortes" a pensar que ia a um passeio, uma jantar de conterrâneos e um baile improvisado e acabou por ir parar à  guerra.

De qualquer modo, queremos surpreender o Carlos Pinheiro, agora "herói de banda desenhada". Achamos  que ele vai sorrir ao reconhecer-se naquele rapaz de vinte anos, de fato domingueiro, com uma fita verde e vermelha na lapela... sem imaginar que, vinte e nove meses depois, em 23 de outubro de 1968,  pisaria o chão verde-rubro da Guiné.

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Nota do editpor LG:

Último poste da série : 23 de julho de 2026 Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

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