

Guiné > Região Oeste > Sector O4 > Mansoa > CCS / BCAÇ 2885 (1969/71) > c. 1970 > O alferes graduado capelão José Torres Neves brincando com um periquito"... Foto da legenda: "Salta, periquito, salta!"... Que é como quem diz: "Periquito, assim começa a tua comissão”
Foto (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI) ]

Vídeo (1' 02'' ). Alojado em You Tube > ADBissau
(Cortesia do nosso saudoso Pepito, 1949-2014.
Gravação feita em Gadamael Porto, em setembro de 2013,
cinco meses antes de morrer)
1. O termo "periquito" (ou "Pira") é um dos termos mais divertidos e amplamente reconhecidos da giria militar portuguesa, que nos ficaram do tempo Guerra Colonial na Guiné (1961-1974). (Em Angola, era "maçarico", em Moçambique, "checa"!.) Só o nosso blogue tem já cerca de 40 referências.
A transição e a passagem de testemunho entre quem chegava, vindo da metrópole, e quem partia, geraram um tipo de humor de caserna (*), riquíssimo, picaro, brejeiro, amplamente documentado nas memórias dos antigos combatentes, como no caso do nosso blogue.
O recém-chegado a Guiné recebia o nome de "periquito" (leia-se: "piriquito" ou "pira"), contrastando em tudo com os "velhinhos", a começar pela farda e o comportamento verbal e não-verbal:
- farda novinha em folha 'versus' a farda desbotada, puída, roída pelo suor, pelo sol, pela chuva, pelaagu do rio e pelo mato dos "velhinhos" (se tivessem mais de 24 meses, eram "VCC", "velhinhos como o car*lho");
- o "periquito" andava de cabeça erguida, a girar como um radar, assustado, atento a todos os ruídos e sinais;
- a pele branca de quem vinha da metrópole;
- enquanto o "velhinho" já tinha o olhar "vazio", o andar arrastado e a pele queimada pelo sol tropical, "completamente apanhado do clima".
A chegada dos "periquitos" desencadeava um ritual ruidoso, um clima festivo, um ambiente eufórico nos aquartelamentos que contagiava tudo e todos (incluindo a população ao lado, e em especial, as mulheres, bajudas e crianças).
As cantorias serviam para "humilhar" ritualmente o novato e, simultaneamente, aliviar a tensão de quem ia finalmente regressar a casa.
"Periquito vai no mato..." era a cantilena mais famosa entoada pelos "velhinhos" , e que dizia algo como: "Periquito vai no mato, / Ó lé, lé, lé!, / Velhice vai no Bissau ,/ Ó lé-lé – lé-l!" (**)...
Uma cantilena que ficou na memória da própria populaçãoque conviveu coma tropa portuguesa (vd. video acima)....
No fundo, era também um aviso implacável de que a guerra real começava ali e que a inocência ia desaparecer no primeiro embate com os "turras", o "batismo de fogo"... Misturava bravata, bazófia, rivalidade piscológica, humor, praxe...
Outro ritual era a contagem dos dias: enquanto o "periquito" contava os meses em falta para a o regersso a casa e a"peluda" (22/24 longos meses), os "velhinhos" cantavam vitória, arremessavam os quicos ao ar, gritando os dias que lhes restavam para partir para Bissau e embarcar nos navios Niassa ou Uíge ou nos aviões da TAM (Transportes Aéreos Militares, a partir de finais de 1972).
As praxes, à chegada, eram uma forma, se quisermos, de "batismo de fogo artificial", para integrar o pobre do "periquito" na dura realidade da Guiné (ou de Angola ou Moçambique). Algumas das partidas mais comuns podiam incluir:
- o batismo do balde ou agarrafa de água fria: despejar água sobre o novato enquanto este dormia;
- falsos alarmes: os "velhinhos# simulavam ataques com rebentamentos de petardos ou tiros para o ar a meio da noite para ver os "periquitos" a saltar aterrorizados para as valas ou abrigos, ainda de pijama ou descalços; fazê-los acordar com a ponta da pistola Walther ou da G3 na nuca;
- as missões inventadas: mandar o periquito procurar a "chave do teto do jipe", o "óleo de pirilampo" ou ser chamado a um oficial fictício.
Apesar da aparente crueza e estupidez de algumas praxes, a rendição da comissão tinha um papel prático fundamental. Nos dias em que a subunidade que ia ser rendida ("velhinhos") e a subunidade que vinha render ("periquitos") coexistiam no mesmo aquartelamento (a chamada "sobreposição", dormindo muitos ao relento), os velhinhos passavam o conhecimento de sobrevivência aos periquitos:
- ensinavam os trilhos mais perigosos e onde o PAIGC costumava montar emboscadas;
- mostravam como detetar minas e armadilhas no mato;
- ajudavam na habituação ao clima hostil, à humidade extrema e às doenças tropicais (como a malária);
- davam instruções úteis para lidar com as lavadeiras, a população, as milícias, etc.
2. Em relação à legenda foto acima, do capelão militar de Mansoa (“Salta, salta, periquito!”), há uma distinção particularmente interessante: “periquito” não era apenas uma alcunha depreciativa para o recém-chegado, erra também uma categoria transitória dentro da vida militar. Na Guiné, começámos a "comissão de serviço", com a alcunha de "periquito", do soldado básico ao general... (O general Spínola, que veio "render" o "velhinho" Schulz, foi tão "periquito" como tdoso nós...)
Cada homem chegava como "periquito"; depois, com a experiência, tornava-se “velhinho”; e, finalmente, regressava a Portugal, deixando atrás de si outros "periquitos". A comissão tinha, assim, uma espécie de ciclo geracional próprio.
De facto, quando os "velhinhos" finalmente embarcavam de regresso a Portugal, os "periquitos" deixavam instantaneamente de ser os "alvos das piadas" para passaarem a ser os "donos do chão" (o subsecvtor) que lhes fora destinado e para assumirem a responsabilidade total pelas suas vidas e pelas vidas das populações à sua guarda.. Passados 22 meses, seriam eles os novos "velhinhos" a cantar para a próxima geração de "periquitos".
E há um pormenor que é importante voltara a sublinhar, e que está subentendido na foto do nosso padre José Torres Neves: o “periquito” podia ser simultaneamente alvo da brincadeira e objeto de proteção/ensino. A praxe marcava a diferença entre os dois grupos, mas a passagem de informação (como se comportar no mato, conhecer o terreno, os perigos, os hábitos da população local) fazia parte da transmissão da experiência.
De facto, quando os "velhinhos" finalmente embarcavam de regresso a Portugal, os "periquitos" deixavam instantaneamente de ser os "alvos das piadas" para passaarem a ser os "donos do chão" (o subsecvtor) que lhes fora destinado e para assumirem a responsabilidade total pelas suas vidas e pelas vidas das populações à sua guarda.. Passados 22 meses, seriam eles os novos "velhinhos" a cantar para a próxima geração de "periquitos".
E há um pormenor que é importante voltara a sublinhar, e que está subentendido na foto do nosso padre José Torres Neves: o “periquito” podia ser simultaneamente alvo da brincadeira e objeto de proteção/ensino. A praxe marcava a diferença entre os dois grupos, mas a passagem de informação (como se comportar no mato, conhecer o terreno, os perigos, os hábitos da população local) fazia parte da transmissão da experiência.
António Murta
A cena não é a de uma simples “praxe”, ou de um refrão de uma cantilena para "humilhar". O capelão está a brincar com um recém-chegado, aparentemente num momento descontraído. A frase “Salta, salta, periquito!” tem precisamente aquela ambiguidade muito própria da guerra: brincadeira, iniciação, gozo com o novato e, ao mesmo tempo, uma forma de camaradagem.
2. Já aqui publicámos um excerto do diário (***) do nosso camarada António Murta, ex-alf mil inf MA, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba (**), 1973/74): merece ser recordado, agora na série "Humor de caserna" (*):
(...) À chegada da coluna a Nhala, e ainda antes de termos descido das viaturas, num ápice, formou-se uma pequena multidão vinda da tabanca, sobretudo mulheres e crianças, que nos receberam com palmas, cânticos, enfim..., se não em apoteose, pelo menos com grande euforia.
Fiquei entre contente e surpreso, a achar tudo um bocado exagerado. Seria sempre assim? Não foi preciso passarem muitos dias para ter uma explicação, plausível, para aquele acolhimento tão efusivo.
2. Já aqui publicámos um excerto do diário (***) do nosso camarada António Murta, ex-alf mil inf MA, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba (**), 1973/74): merece ser recordado, agora na série "Humor de caserna" (*):
(...) À chegada da coluna a Nhala, e ainda antes de termos descido das viaturas, num ápice, formou-se uma pequena multidão vinda da tabanca, sobretudo mulheres e crianças, que nos receberam com palmas, cânticos, enfim..., se não em apoteose, pelo menos com grande euforia.
Fiquei entre contente e surpreso, a achar tudo um bocado exagerado. Seria sempre assim? Não foi preciso passarem muitos dias para ter uma explicação, plausível, para aquele acolhimento tão efusivo.
E cantavam acompanhando com palmas:
Periquito vai pró mato,
Ó lé, lé, lé!,
Velhice vai no Bissau ,
Ó lé-lé – lé-lé!.
Esta cantilena, soube depois, era conhecida em quase todo o território da Guiné (**). E eram-lhe acrescentados outros versos, que só aprendi mais tarde, muito brejeiros e, pareceu-me, ao sabor da inspiração do momento:
"Mulher grande cá tem cabaço,
Esta cantilena, soube depois, era conhecida em quase todo o território da Guiné (**). E eram-lhe acrescentados outros versos, que só aprendi mais tarde, muito brejeiros e, pareceu-me, ao sabor da inspiração do momento:
"Mulher grande cá tem cabaço,
Ó lé, lé, lé!,
Bajuda tem manga dele,
Ó lé-lé – lé-lé"
"Mulher grande cá tem catota,
"Mulher grande cá tem catota,
Ó lé, lé, lé!,
Bajuda tem manga dela,
Ó lé-lé – lé-lé"
E voltavam ao princípio com o Periquito vai pró mato, etc. etc. (...)
E voltavam ao princípio com o Periquito vai pró mato, etc. etc. (...)
A população de Nhala é Fula. Os adultos parecem muito indiferentes em relação a nós, ou mesmo frios. Dependem muito da tropa, mas estão fartos de tropa. As mulheres e as bajudas atravessam o aquartelamento para se deslocarem à fonte que fica a pequena distância, num baixio. Está sempre alguém a passar para um lado e para o outro com bacias à cabeça e com a roupa que nos lavam. (...)
As bajudas, algumas bonitas, e toda a criançada são uma simpatia. É contagiante a alegria delas e um bálsamo para a nossa saúde mental. Ainda assim, como já disse, os “velhinhos” de Nhala parece que já não beneficiam desse bálsamo. Aproveitando as recomendações deles, vamos escolhendo as nossas lavadeiras. A oferta é grande, de modo que se fazem “contratações” despreocupadamente.
E em matéria de sexo, como é? Já em Bolama aprendemos que há lavadeiras “que lavam tudo” por pouco mais que a mensalidade da roupa lavada. «Desiludam-se!». As fulas são muito reservadas e pouco permissivas.
Contam-nos um caso ou outro de envolvimento com militares, mas excepcionais e por questões de afecto. A tropa em geral vai brincando, mais ou menos inocentemente, com as bajudas mais velhitas, mas sem consequências nem gravidade. De vez em quando, por ocasião da entrega da roupa lavada aos soldados, lá vem uma delas fazer queixa:
As bajudas, algumas bonitas, e toda a criançada são uma simpatia. É contagiante a alegria delas e um bálsamo para a nossa saúde mental. Ainda assim, como já disse, os “velhinhos” de Nhala parece que já não beneficiam desse bálsamo. Aproveitando as recomendações deles, vamos escolhendo as nossas lavadeiras. A oferta é grande, de modo que se fazem “contratações” despreocupadamente.
E em matéria de sexo, como é? Já em Bolama aprendemos que há lavadeiras “que lavam tudo” por pouco mais que a mensalidade da roupa lavada. «Desiludam-se!». As fulas são muito reservadas e pouco permissivas.
Contam-nos um caso ou outro de envolvimento com militares, mas excepcionais e por questões de afecto. A tropa em geral vai brincando, mais ou menos inocentemente, com as bajudas mais velhitas, mas sem consequências nem gravidade. De vez em quando, por ocasião da entrega da roupa lavada aos soldados, lá vem uma delas fazer queixa:
- Alfero, o soldado Manel do teu pelotão apalpou minha mama!
E eu perguntava:
- Ai, sim? E não lhe deste uma estalada?
E estava o caso resolvido. (...)
(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:
Notas do editor LG:
(**) Vd. poste de 18 de outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1188: Periquito vai no mato, olé lé lé, velhice vai no Bissau, olaré lé lé (J. L. Vacas de Carvalho)
(***) Vd. postes de:
2 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14691: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (6): Chegada a Nhala