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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28488: A nossa guerra em números (51): a epopeia dos transportes: só por via fluvial, e por mês, Bissau enviava em 1966 c. 3 mil toneladas para o interior (o "mato")



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >  Sector L1 (Bambadinca) > Rio Geba > Xime > A LDG 101 "Alfange" a abicar ao porto fluvial do Xime... O pessoal desembarcado, mais as bagagens e o armamento, seguiam depois em coluna auto para os seus destinos, mais a leste (Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego, Canjadude, Madina do Boé, Piche, Pirada, Buruntuma, Canquelifá etc.)...

Em 7 de maio de 1968, desembarcaram aqui, nesta ou noutra LDG, os elementos que constituíam o Pel Rec Daimler 2046, comandado pelo alf mil cav Jaime Machado, e colocado no setor L1 (Bambadinca). Vinte e dois meses depois, em fevereiro de 1970, terminada a comissão, os nossos camaradas de cavalaria voltavam apanhar a LDG, de regresso a Bissau onde, em abril de 1970, regressavam a casa, no mesmo T/T Niassa, que os tinha trazido 


Foto (e legenda): © Jaime Machado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Sabe-se que uma companhia (160 homens, em média, de atiradores, de infantaria, de artilharia ou de cavalaria) precisava de cerca de 40 toneladas de abastecimentos por mês...o que é equivalente à capacidade de carga de:

  • 1 motor"Bor", "BM1" ou "Bm2";
  • 3 a 4  LDM (Lancha de Desembarque Médio);
  • 1/5 de uma LDG (Lancha de Desembarque Grande) (como a foto acima),

Imaginemos que o transporte fosse apenas feito por via fluvial e por LDG: ao fim da um comisssão de serviço de 22 meses, a carga transportada (880 toneladas por companhia) implicaria:

  • 22 viagens de um motor como o "Bor";
  • 4  viagens de LDG;
  • c. 80  viagens  de LDM.

2. Discriminam-se a seguir, por tipologia de abastecimento, os respetivos valores por mês (em percentagem do total e em quilogramas) (*)

(i) 38,7 %; víveres (alimentação): 14,5 mil  kg, sendo 12 mil kg de víveres secos, e 2,5 mil kg de víveres frescos:

(ii) 34,7%: artigos de cantina (cerveja, tabaco, higiene, papelaria, etc.): 13 mil kg:

(iii) 21,4%: combustíveis (gasóleo, gasolina, petróleo): 8 mil kg;

(iv) 1,6%: munições:  700 kg;

(v) 1,3%: medicamentos; 500 kg:

(vi) 1,1%:  lubrificantes (óleo para viaturas e armamento, etc.): 500 kg;

(vii) 0,7%: fardamento e calçado: 300 kg;

(viii) 0,5%: correio: 250 kg.

Total= 100% | 37750 kg (a dividir por 160 homens=235,9 kg).

3. Os transportes foi sempre um "problema bicudo" no TO da Guiné, do princípio ao fim.  Por muitas razões, a começar por:

  •  falta de meios (homens, viaturas, embarcações, aeronaves, etc.);
  • escassez de  infraestruturas (terminais portuários, estradas, aeródromos, etc.); 
  • crescente aumento de efetivos e de guarnições;
  • incremento da resposta às necessidades de desenvolvimento socioeconómico (reordenamentos, estradas, equipamentos sociais, etc.).

No 4° trimestre de 1964, no 2º ano ano oficial da guerra, o CTIG dispunha de um total estimado de 15150 militares. Nove anos depois, em 1973, as NT (Exército, FAP e Marinha) ultrapassavam os 35 mil efetivos.

O número de companhias (caçadores/atiradores de infantaria, mais atiradores de artilharia e infantaria, vai crescendo com a intensificação da guerra: 

  • 30 (1963), 
  • 50 (1965), 
  • 60 (1967),  
  • 84 (1969), 
  • 87 (1971), 
  • 98 (1974)... 

(Excluem-se outras subunidades: companhias de comandos, esquadrões e pelotões de reconhecimento, pelotões de artilharia,  pelotões de caçadores nativos,  pelotões de armas pesadas de infantaria, companhias de milícas, etc.)

Vale a pena citar a CECA (2014), que faz uma boa síntese sobre a situação dos transportes (fluviais, terrestres e aéreos) em 1966, e nos dá alguns números que merecem reflexão  (**):


Transportes

Generalidades

Embora já tenha sido criada a Chefia do Serviço de Transportes do CTIG, cujos QO foram aprovados superiormente, continua a existir na 4ª Rep por não ter sido ainda nomeado o respectivo Chefe, o Major do Serviço de Transportes.

Compete à 4ª Rep o planeamento do emprego dos meios da Companhia de Transportes, cujo QO, já aprovado, prevê a constituição de 8 Secções de Transportes e a dotação de 40 viaturas TG. 

Presentemente esta Companhia dispõe apenas de 4 Secções e 20 viaturas, das quais 50% operacionais, em média, o que é manifestamente insuficiente para as necessidades. 

Num futuro próximo, serão atribuídas ao CTIG 30 viaturas "Mercedes" tipo civil, para serviço não operacional o que em muito virá beneficiar os transportes rodoviários e permitir a recuperação de algumas viaturas operacionais para a Companhia de Transportes.

Pelas dificuldades verificadas na estiva do porto de Bissau e pela necessidade de se proceder a carregamentos noutros locais e às mais variadas horas, houve que manter a constituição dum grupo de estivadores assalariados privativo do CTIG, o qual se tem mostrado extremamente útil e rendoso. 

Também para alguns terminais do interior está autorizada a utilização de pequenos grupos de estiva, até 15 homens, com a finalidade e aliviar as guarnições respectivas, libertando-as para o seu emprego operacional, como é lógico. 

Em muitos casos e para carregamentos da ordem das 100 ton, ou superiores, têm-se utilizado grupos de estivadores acompanhando a carga até aos respectivos pontos de descarga.


1. Transportes Fluviais

Em média, é a seguinte a tonelagem que mensalmente se torna necessário enviar de Bissau para o interior, por via fluvial: Total Geral = 2.920 ton

Meios Disponíveis:

- Serviços de Marinha

Os Serviços de Marinha da Província dispõem das seguintes embarcações:

  • Rebocador "Diana";
  • Rebocador "Atro";
  • Motor "Bor" ( 40 ton);
  • Motor "Corubal" (30 ton):
  • Motor "BM 1" (40 ton);
  • Motor "BM 2" (40 ton);
  • Motor "Formosa" (25 ton);
  • Draga "Geba"

Embora empenhados, na sua maior parte, em carreiras normais dentro da Província, às FT (Forças Terrestres)  são sempre cedidos 2/3 da carga.

Por outro lado, sempre que necessário, estas embarcações são dispensadas ao CTIG no regime de frete redondo para fazerem face ao transporte quer de pessoal quer de carga.

Tem sido a seguinte a aplicação dos meios dos Serviços de Marinha da Província:
  • Rebocadores "Diana" e "Atro": reboque de batelões ou lanchas fretados às casas comerciais de Bissau (Casa Gouveia, Sociedade Ultramarina, Manuel Barbosa, etc.);
  • Motores "Bor", "Corubal", "BM 1", "BM 2" e "Formosa": transporte de carga e pessoal quer em carreiras normais quer em frete redondo;
  • Motor "Rui Manuel": transporte de pessoal e de pequenas cargas, utilizando as carreiras normais;
  • Draga "Geba": transporte de pessoal e carga dos T/T (navios de transporte de tropa)  para o cais e vice-versa, em regime de fretamento.

A média mensal transportada nestas embarcações pode computar-se como se segue:

  • Regime de fretamento: 100 ton;
  • 2/3 carga carreiras normais: 200 ton;
  • Total=300 ton
Nota do editor LG: Não sei se o motor "Rui Manuel" não era também conhecido por "Pecixe" (operava mais no rio Cacheu, segundo informação do António Bastos). 

Na lista de embarcações do Serviço da Marinha da Província, não se incluem as embarcações civis, privadas, pertencentes às casas comerciais (como a "Manuel Barbosa"), ou a armadores que operavam os chamados "barcos turras": a "Bubaque" (do pai do Manuel Amante da Rosa), a "Mampatá", a "Olhão"... Quatro embarcações  (cito de cor) que foram atacadas no Geba Estreito; Ponta Varela, Mato Cão, São Belchior... (Mas a LDG Bombarfa também atacada em plena do dia, em 3 de agosto de 1970, na Pona Varela.)

Voltando à CECA (2014, pp. 481/484)...


Comando da Defesa Marítima (CDM)

O CDM continua a estabelecer quinzenalmente um crédito para transportes logísticos, de acordo com as suas disponibilidades; sendo porém as necessidades do CTIG muito superiores, neste crédito são incluídos um determinado número de LDM (entre 2 e 4) e uma ou duas LDG em serviço na Província ("Alfange" e "Montante").

  • Uma LDM transporta 10/12 ton;
  • As LDG apresentam uma capacidade de carga de cerca de 200 ton, o que nem sempre aconselha o seu emprego;
  • No entanto, as LDG vêm sendo permanentemente empenhadas em carregamentos de grande vulto, como seja, para Bambadinca, Teixeira Pinto, Farim, Rio Grande de Buba e Rio Cacine [...].

Casas Comerciais

Estas embarcações continuam a ser, em geral, orientadas para os portos
que interessam às casas comerciais e só podem ser fretados quando disponíveis,
o que raramente acontece, sucedendo também que muitas vezes  o batelão está disponível, mas não há rebocador. 

Além disso estes meios por pertencerem a firmas civis, pelas suas más condições de serviço e por insuficientes, não permitem um emprego regular nem um planeamento prévio; no entanto, note-se que a grande corrente de reabastecimento é através destas embarcações (os chamados "barcos turras", LG).

Cargas e descarga de barcos fretados

Durante o mês de novembro  de 1966 chegaram a Bissau, vindos da metrópole, dois T/T (navios de transporte de tropa) que exigiram um empenhamento da quase totalidade dos meios (CDM, Serviços de Marinha e Casas Comerciais). 

No mês de dezembro chegam a Bissau um T/T e outro barco em carreira comercial transportando uma Companhia de Comandos. O volume de trabalho é um factor negativo que contribui para o desequilíbrio do sistema Disponibilidades-Necessidades pelos meios que se tornam necessários desviar dos serviços normais de reabastecimento. 

Assim, o sistema de transportes encontra-se em permanente crise pois quando se procura atenuar, de novo se agrava com a chegada de novos T/T [...].

(Continua)

Fonte: Excertos de: Fonte: Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 481/485.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

______________________

Notas do editor LG:


(*) Vd. poste de 11 de novembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22707: A nossa guerra em números (4): Cada militar necessitava em média, por mês, de 240 kg de abastecimentos (no essencial, víveres e artigos de cantina, mais de 70%)... O consumo "per capita" mensal de outros artigos era o seguinte: 50 kg de combustíveis; 4,4 kg de munições; 3,1 kg de medicamentos; 1,6 kg de correio... E, miséria das misérias, tínhamos direito a... 520 gramas de víveres frescos por dia!

(**) Último pposte da série > 3 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28153: A nossa guerra em números (50): o custo de uma chamada telefónica, de 3 minutos, em 1969, para a Metrópole, podia ir de 100 a 130 escudos (37 a 48 euros, a preços de hoje)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Guiné 63/74 - P14038: (Ex)citações (256): Afinal, a foto do "BOR" era de 1978/79, tirada em Bolama por um casal de brasileiros (João Parreira)


Guiné-Bissau > Bolama > c. 1978/79 > O ferry boat Bor, em fim de vida... Fazia a carreira Bissau-Bolama


Guiné-Bissau > Bolama > c. 1978-79 > O barco de carreira "Corubal" que fazia a ligação Bolama-Bissau.

Fotos: Cortesia do sítio Guiné-Bissau Recordações em Imagens (*)


1. Mensagem enviado ao nosso camarada Manuel Amante da Rosa [, atual embaixador de Cabo Verde em Roma: ex-fur mil, QG/CTIG, Bissau, 1973/74]

Data: 13 de dezembro de 2014 às 07:23
Assunto: "BOR"

Boas festas, embaixador!..

Tinhas razão em relação à agonia do "BOR"... Vou publicar esta nota do João Parreira, comando de Brá, 1965/66...

Um natal sem vulcões nem tsunamis...

Bebo um grogue à tua saúde e à felicidade do teu povo.
Luis

2. Mensagem do João Parreira  [, foto atual, à esquerda]:

[ex-fur mil op esp, CART 730 / BART 733, Bissorã, 1964/65; ex-fur mil comando, Gr Cmds Fantasmas, CTIG, Brá, 1965/66]

Data: 12 de dezembro de 2014 às 23:09
Assunto: "BOR"

Boa noite Luís,

Os meus camaradas que fizeram a viagem para Bolama na "BOR"[, em 1964,]  e que contatei, já me responderam a dizer que não tinham nenhuma foto.(**)

Assim, comecei a procurar e acabei agora de descobrir onde fui buscar a foto do ferry-boat "BOR" com a qual ilustrei o meu diário na parte referente à minha viagem para Bolama em 1964.

Foi no blog guinebissaulembrancas.blogspot.com . A foto da balsa "BOR" foi tirada em 1978 por um casal de brasileiros que viveu na Guiné em 1978-79.

Um abraço.
João


3. Comentário de LG:

O nosso camarada Manuel Amante, que conheceu bem as embarcações que sulcaram os rios e braços de mar da Guiné, já nos tinha chamado a atenção para o facto de esta foto do "BOR", enviada pelo João Parreira, ser de alguns anos após a independência da Guiné, sendo mais provavelmente  do "início possível do seu desmantelamento". E comentava: 

" Uma sombra triste e desolada de uma embarcação que, sob qualquer tempo ou contingência, muito navegou pelos rios e canais da Guiné". (***)

No sítio Guiné-Bissau Recordações em Imagens, encontrámos uma foto de outra embarcação que faz parte parte das memórias do Manuel Amante, o "Corubal"
________________

Notas do editor:

 (*) Sítio Guiné-Bissau Recordações em Imagens (*):

(...) De um casal de brasileiros que viveu naquele grande pequeno país em 1978-79, voluntários das Nações Unidas, professores do Jardim Escola e da Escola Piloto do PAIGC, na ilha de Bolama, arquipélago dos Bijagós.(...) 

(**) Vd. poste de 3 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13969: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (90): Foto do ferryboat BOR que levou a CART 730, de Bissau para Bolama, um dia depois de desembaracar do T/T Niassa (João Parreira, ex-fur mil op esp e cmd, CART 730 / BART 733, Bissorã, 1964/65; Gr Cmds Fantasmas, CTIG, Brá, 1965/66)

(***) Último poste da série > 7 de dezembro de  2014 > Guiné 63/74 - P13981: (Ex)citações (255): Fomos pioneiros numa série de coisas: (i) a colorir fotos a preto e branco para matar o tempo; (ii) a recliclar garrafas de cerveja; (iii) a fazer cadeiras de baloiço com as aduelas dos barris ... (José Nunes, ex-1º cabo eletricista, BENG 447, Brá, 1968-70)