Joaquim Mexia Alves
Ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492 / BART 3873, Xitole/Ponte dos Fulas;
CMDT do Pel Caç Nat 52, Ponte Rio Udunduma, Mato Cão e CCAÇ 15, Mansoa, 1971/73
Ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492 / BART 3873, Xitole/Ponte dos Fulas;
CMDT do Pel Caç Nat 52, Ponte Rio Udunduma, Mato Cão e CCAÇ 15, Mansoa, 1971/73
VIAGEM PELA PICADA
Sentas o rabo no ferro do Unimog que separa a frente da caixa traseira, porque a cadeira ao lado do condutor afunda-te e não podes ver com clareza tudo o que se vai desenrolando à tua frente e à tua volta, na picada e na mata.
A picada tem buracos que te vão calejando o rabo sobre o ferro onde estás sentado e vais olhando para trás, gritando por cima do ruído, aos militares sentados em bancos de pau, que estejam atentos a tudo, sobretudo à mata que envolve a picada.
Olhas sempre apreensivo, não para as bermas perto de ti, mas para a orla da mata que se vai desenrolando à velocidade do Unimog que vos transporta.
Raios parta, pensas tu, a nossa Companhia já devia ter desmatado, para que as árvores e arbustos não estivessem tão perto da picada.
Olhas para o lado e gritas ao condutor para ir devagar com a viatura, que aquela “estrada” não é para velocidades e para que, se o pessoal tiver que saltar em andamento por causa de alguma emboscada, não partir nenhuma perna e ficar incapacitado para responder ao inimigo.
Tu bem te concentras, e tal é o esforço, que parece que por detrás de cada árvore, de cada arbusto, de cada baga-baga, já vês RPGs e outros mimos que o inimigo tem para vos “oferecer”.
O sol bate com força, o calor é quase extenuante, a humidade quase insuportável e a G3 que levas contigo parece que se cola às tuas mãos suadas.
É já ali à frente, são poucos quilómetros, tinham-te dito, mas que raio, os quilómetros na Guiné parecem bem maiores do que os da tua “santa terrinha”.
Mais umas curvas, mais uns buracos, mais uns solavancos e a viagem continua cheia de tensão e atenção.
Ris-te para dentro, sem ninguém ver, porque te lembraste que podias colocar todo o pessoal a cantar coisas lá da terra, como se fossem numa excursão turística.
Limpas o suor da testa, aliás de toda a cara, e gritas mais uma vez por cima do ruído do motor e do rolamento na picada: Estamos quase a chegar! Atenção redobrada, pessoal!
Passados alguns minutos que parecem eternidades, entram finalmente na Tabanca onde vão levar alimentos ao Pelotão que faz segurança naquele local.
São logo rodeados pelas crianças da população da Tabanca que por ali saltam e brincam, falando um crioulo que mais parece cantado do que falado.
Depois dos abraços e das perguntas como está tudo por ali, se não falta nada de importante, começas a preocupar-te outra vez, porque agora há que regressar pela mesma picada ao aquartelamento principal.
Insistes com os militares para se despacharem, porque não queres dar tempo a algum inimigo que esteja por aquela zona, a montar uma emboscada no vosso regresso.
E também porque o dia vai avançando e não queres ser surpreendido pela falta de luz.
Finalmente tudo pronto, inicia-se a viagem de regresso.
A tua preocupação é maior agora, porque se o inimigo estiver por aquelas matas, sabe bem que tens de regressar pela mesma picada e pode estar à vossa espera para vos “cumprimentar”.
O sol já está mais baixo e projecta as sombras das árvores sobre o terreno que quase parecem fantasmas dançando.
Deixas-te de imagens poéticas, olhas mais uma vez para trás para ver se o pessoal está atento e lembraste dos Pai Nossos e Avé Marias que os teus pais te ensinaram e, embora neste tempo da tua vida não penses muito em Deus, sempre rezas interiormente um Pai Nosso e uma Avé Maria para que Ele vos proteja na viagem de regresso.
Mais uns solavancos, mais umas curvas, (já te dói o rabo do raio do ferro e a G3 pesa agora “toneladas”), e chegam ao aquartelamento, sede da Companhia.
Mandas o pessoal para as suas casernas e vais direito ao bar beber uma, ou mesmo duas ou três, cervejas fresquinhas, porque a sede é muita!
Fechas os olhos, fumas agora calmamente um cigarro, e pensas com satisfação que esta já está passada e. graças a Deus, sem problemas.
Outras viagens virão, mas neste momento gozas a calma do fim de tarde, com um copo de whisky cheio de gelo e água Perrier na mão, (a cerveja foi só para tirar a sede), olhas para o horizonte vendo o pôr do sol que “incendeia” a terra vermelha da Guiné, e dando uns goles na bebida, pedes interiormente ao bom Deus, que, já agora, o inimigo não se lembre de mandar umas “canhoadas” para o quartel, porque estas são as horas habituais de tais ataques.
Amanhã será um novo dia e será também menos um dia na tua Comissão na Guiné.
Marinha Grande, 4 de Novembro de 2026
Joaquim Mexia Alves
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Texto: © Joaquim Mexia Alves
Foto: © Carlos Vinhal
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Nota do editor
Último post da série de 13 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28343: (In)citações (290): Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes (Artur Conceição da CART 730)


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