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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28497: A Nossa Marinha (8): Os motores "Corubal" e "Formosa" (Manuel Amante da Rosa, ex-fur mil, QG/CTIG, Bissau, 1973/74; atual Ministro dos Negócios Estrangeiros, Comunidade e Defesa da República de Cabo Verde)

 












Foto nº  1F, 1E, 1D, 1C, 1B, 1A, 1


Guiné-Bissau >  Arquipélago dos Bijagós > Bolama > 1978 > Chegada a Bolama do "Corubal"  

Foto: Cortesia do sítio Guiné-Bissau Recordações em Imagens  

(Melhoradas com recurso à IA/Google | Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2026)



Foto nº 2 > Guiné > s/d > s/ l > O Motor "Bubaque", ostentando a bandeira portuguesa, a chegar a Bolama, vindo de Bissau... Antiga LP 4 (Lancha de Patrulha 4, da nossa Marinha, no ativo entre 1963 e 1964), terá sido anteriormente uma traineira de pesca, algarvia... Depois de abatida ao efetivo, foi comprada pelo pai do nosso camarada Manuel Amante da Rosa.

Foto: © Manuel Amante da Rosa (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine + IA (Gemini / Google AI]


Foto nº 3 


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >  Rio Geba > A caminho de Bissau > 1968 >  O nosso muito querido ex-fur mil Mil Carlos Marques dos Santos (1943-2019), natural de Coimbra, o primeiro "viriato", a integrar a Tabanca Grande: foi ele que nos trouxe o Torcato Mendonça (1944-2021) que também  e ele jã se despediu da Terra da Alegria, ex-alf mil at inf,  ambos da CART 2339, Mansambo (1968/69).

Ei-lo aqui um dos típicos barcos civis de transporte de pessoal e de mercadoria, que fazia a ligação Bissau-Bambadinca, e Bambadinca-Bissau, passando pela temível Ponta Varela, na confluência do Rios Geba e Corubal e, a seguir, o assustador Mato Cão, no Geba Estreito, entre o Xime e Bambadinca. 

Estes barcos (alguns ligados a empresas comerciais, como a Casa Gouveia, a  Ultramarina, a Manuel Barbosa) tinham, como principal cliente a Intendência militar. Pelo Xime e por Bambadinca passava a alimentação e tudo o mais que era preciso para saciar o "ventre da guerra" da Zona Leste. A malta chamava-lhes, na reinação, "barcos-turras", o que era uma forma engraçada de exorcizar o nosso nosso receio de andar neles, quando se se queria "desenfiar" até Bissau...  Às vezes  formavam um pequeno comboio com dois ou três batelões puxados por um rebocador.

Foto: © Carlos Marques dos Santos (2006). Todos os direitos reservdaos [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine + IA (ChatGPT ( Opena AI.]


Foto nº 4  > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Rio Geba >  1969 > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > 21 de julho de 1969 > "Efeméride: no dia que o homem chegou à Lua, eu descia o rio Geba (Bambadinca-Bissau, com passagem no célebre Mato Cão e depois na não menos temível Ponta Varela, a seguir ao Xime)...

"Era um barco fretado para levar material usado da tropa. Estivemos parados várias horas: primeiro por causa da maré, depois devido a avaria no motor do barco só resolvida (por desenrascanço...) com uma peça sacada dum carro que seguia no barco para sucata.... Viagem inesquecível, até ao fim da minha vida!", escreveu o nosso saudoso e querido Valdemar Queiroz (ex-fur mil, CART 2479/CART 11, 1969/70) (1945-2025).

Foto original, a sépia. Reconstituída e colorizada com recurso à IA

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine + IA (ChatGPT / Open AI




Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 > 1969 >O Fur Mil Ap Armas Pesadas de Infantaria Henriques, no cais de Bambadinca. Ao fundo, um dos barcos civis que faziam periodicamente a viagem Bissau-Bambadinca, passando pelo temível Mato Cão, no percurso Xime-Bambadinca, o primeiro troço do Geba Estreito. O Rio Geba era navegável até Bambadinca. As embarcações da Marinha Portuguesa (nomeadamente as Lanchas de Desembarque Grandes) já só iam até ao Xime, no meu tempo. Mas, uns meses antes de eu chegar,. ainda abicavam na "cova do lagarto, isto do crocodilo" (como os mandingas chamavam a Bambadinca).  Junto aos cais, frente à bolanha de Finete, havia um destacamento de intendência. Tanto o Xime como Bambadinca eram dois pontos de entrada da Zona Leste. Grande parte do abastecimento desta vasta zona (que ia da ponta doo Inglês a Madina do Boé) eram feitos por terra e por rio. (LG)

Foto: © Luís Graça (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine + IA (Gemini / Google AI]



1. Nunca fui marinheiro (nem pescador), nem nunca tive estaleca para o ser.  Não é para todos. Mas nasci à beira-mar. E preciso de ver e sentir o mar, com regularidade. Acho que tenho, dos meus avoengos Maçaricos, pelo menos o ADN do mar, o secreto apelo do mar... e das navegações. (Como também já aqui disse, foi o mar que nos salvou e foi o mar que nos perdeu.)

Estive aquartelado, com a minha CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, em Bambadinca, de julho de 1969 a março de 1971. Em Bambadinca não se via o mar. Mas tinha rio, o Geba Estreito, que fazia ligação ao rio Corubal e ao Estuário do Geba e por fim ao Oceano Atlântico. E chegavam até Bambadinca as marés. E o macaréu... 

Eu gostava de frequentar o porto fluvial de Bambadinca, onde também havia um destacamento da Intendência. Bambadinca (com o Xime) era a grande entrada do Leste. Aqui chegavam navios da marinha de guerra (LDG e LDL) e sobretudo navios a motor dos Serviços da Marinha da Província ("Bor", "BM1", BM2"), das casas comerciais  (Gouveia, Ultramarina, Manuel Brabosa...) e de armadores privados como o pai do Manuel Amante da Rosa, dono do "Bubaque", por exemplo. Parece que os motores "Corubal" e "Formosa" chegavam a Bambadinca antes da guerra. Na maré-cheia, claro. 

Toda a malta do sector L1 (Bambadinca) mas também de outros sectores das regiões de Bafatá (L2, L5) e Nova Lamego (L3, L4) deve ter feito pelo menos uma vez ou duas viagens em LDG e mais uma ou duas nos "barcos-turras" que,  para nós,  eram todos os outros que faziam transportes civis e/ou militares, e não tinham armamento à vista, nem eram escoltados pelos fuzileiros.

Podiam partir de Bambadinca ou do Xime (aqui evitava-se a sempre temível passagem por São Belchior e Mato Cão; depois do Xime, ainda havia a Ponta Varela, onde o IN também fazia pontaria às embarcações e até às lanchas da marinha de guerra).

Temos falado pouco da nossa marinha... na Guiné (*).

Manuel Amante da Rosa.
Fonte: Página do Facebook de
Pioneiros de Cabo Verde 
(com a devida vénia...)

Por isso é oportuno republicar estes excertos de postes do Manuel Amante da Rosa, nosso grão-tabanqueiro (desde 27 de maio de 2007): (i) foi fur mil,  Chefia dos Serviços de Intendência /QG/CTIG (1973/74); (ii) filho de Cabo Verde, nasceu e cresceu na Guiné, em 1952; (iii) tem mais de 4 dezenas de referências no blogue; (iv) diplomata de carreira, reformado, é o atual Ministro dos Negócios Estrangeiros, Comunidade e Defesa, da República de Cabo Verde.

(O governo de Francisco Carvallho, líder do PAICV, tomou recentemente posse, tendo regressado ao poder ao fim de uma década; é considerado de centro-esquerda; o histórico PAICV passa, assim, a acumular a maioria parlamentar, o governo e a Presidência da República, ocupada desde 2021 por José Maria Neves.) 

O Manuel Amante da Rosa (ou Amante da Rosa) foi sempre um apaixonado pelos viagens fluviais e pelos barcos do pai (n. 1929, já falecido), que em 1956 era comerciante em Belim, Fulacunda, antes de se tornar armador (dono, por exemplo, do motor "Bubaque"). Ainda pensou em ir para a Marinha, antes de de ir para o Brasil formar-se em diplomacia. (E parece que foi uma boa escolha, para ele e para o seu país.)


Os motores "Corubal" e "Formosa"

por Manuel Amante da Rosa
(ex-fur mil, QG/CTIG, Bissau, 1973/74; actual Ministro dos Negócios Estrangeiros, Comunidade e Defesa da República de Cabo Verde)


(...)  Quanto ao navio [que aparece na foto nº 3, da autoria de Carlos Marques dos Santos] quer me parecer, pelo mastro da proa, que a casa de leme estaria bem à popa e ser construído em ferro,  e que seria um dos batelões ou lancha da casa Gouveia ou da Ultramarina.

Talvez, mas ainda sem certeza, possa ser um dos batelões da Marinha (BM1, BM2), para emprego civil.

Como se pode observar do amontoado de passageiros, sem qualquer protecção contra o sol ou outras intempéries,  o número de feridos e mortos em caso de ataque à passagem por Mato Cão sempre era,  infelizmente, significativo.

O "Corubal" (30 t de carga)  (foto nº 1) e o "Formosa" (25 ton de carga) eram navios de bom porte, estilizados, lindos, velozes, com boas condições de segurança e navegabilidade, que faziam a carreira de Bolama, Bubaque nos Bijagós, Cacine, Cacheu e alguns outros portos.

Foram construídos nos Estaleiros de Viana do Castelo em 1952, pela placa que tinham no confortável camarote da primeira classe.

Dizia-se que o motor a diesel que tinham, penso que de oito ou dez cilindros, tinham sido construídos pela Alemanha nazi para os seus submarinos. Nunca comprovei este detalhe. Calavam mais de um metro e meio pelo que só vi uma vez o Formosa no porto de Xime na maré cheia. Mas que teriam chegado a Bambadinca antes da guerra.

Da última vez que viajei nele foi no fim da especialidade, em Bolama, com destino a Bissau acompanhado de mais de 300 militares que saíam do CIM [Centro de Instrução Militar]. Lembro-me de que viajou connosco o Capitão Moás, que era de Cavalaria. (...) (**)

(...) Na minha infância e adolescência fiz muitas viagens pelo interior da Guiné-Bissau durante a luta de libertação. Mas o que mais me encantava (70/73), pelas paisagens e desafios, era subir o Rio Geba, nas férias ou mesmo nos fins de semana, num dos barcos de passageiros do meu Pai (o "Bubaque", antiga traineira algarvia, adquirida pela Marinha portuguesa e transformada, nos inícios da guerra, em Lancha Patrulha nº4, até ser comprada pelo meu Pai e transformada em navio de transporte, mais popularmente conhecido por Djanta Kú Cia).

A jornada começava com a enchente da maré, passando por Portogole, Ponta Varela, Xime e daqui para a frente quase sempre a rasar as margens, ora de um lado ora de outro, ver passar o Mato Cão e Nhabijões até chegar ao pequeno mas movimentado porto de Bambadinca, onde sempre havia lanchas e batelões.

Não raras vezes, no regresso, saíamos de noite de Bambadinca rezando, tripulantes e passageiros, para que nada acontecesse até passarmos o Mato Cão. Salvo raras ocasiões as preces foram escutadas. O encanto era absorvente em noites de luar a descer o Geba a favor da maré, com o maquinista a ficar satisfeito, em termos de rotações do motor, só quando via faíscas e fumo espesso a sair da chaminé. Parecia que andávamos numa estrada cheia de curvas tal a velocidade com que descíamos o rio. As apreensões só desapareciam, na última curva, quando víamos as luzes do quartel do Xime. De noite Ponta Varela não constituía perigo. Passávamos a uma razoável distância. (...) (***)


2. Estas duas embarcações, o "Corubal" e o "Formosa",  faziam parte dos Serviços da Marinha da Província. (**). São dois dos mais de 220 navios construídos  pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC), fundados em 1944 no àmbito do esforço de modernização da frota de bacalhau.  

Foram uma  encomenda do Ministério do Ultramar. Foram desenhadas especificamente para a navegação fluvial e de cabotagem na Guiné Portuguesa. 

Foram dois  elementos crucial no complexo sistema de cabotagem e logística fluvial da Guiné Portuguesa antes e durante a  guerra colonial. Operavam ambas sob a égide dos Serviços da Marinha da Província. Ms tuteladas, com a guerra, pelo Comando da Defesa Marítima.

Em 1952 a ENVC era uma empresa jovem e forte, fundada por engenheiros e operários especializados que tinham vindo dos Estaleiros da CUF de Lisboa (Rocha Conde de Óbidos).

Os estaleiros minhotos tinham apenas 8 anos de atividade. Contudo, já tinham provado a sua alta capacidade técnica ao lançar navios emblemáticos de grande calado para a Pesca do Bacalhau (como o "Senhor dos Mareantes" e o "São Gonçalinho"). 

O início dos anos 50 foi a "época de ouro do aço": os estaleiros estavam em plena transição tecnológica, dominando a construção de cascos inteiramente em aço rebitado e soldado. A construção de barcos mais pequenos, mas altamente robustos (como as lanchas de cabotagem fluvial de 30 e 25 toneladas enviadas para as colónias), servia para consolidar a mestria dos soldadores e carpinteiros navais de Viana.

Para se ter uma noção da escala técnica da época, foi precisamente nesta mesma janela temporal que os estaleiros desenharam e iniciaram a construção do navio mais famoso da sua história: o Navio-Hospital "Gil Eannes" (entregue em 1955). As equipas que desenharam os interiores de madeira fina e as estruturas mecânicas do "Formosa" e do "Corubal" eram as mesmas que trabalhavam nos colossos da Frota Branca.

A ENVC não fazia apenas navios funcionais; havia uma forte tradição de acabamento artesanal. Mesmo em barcos destinados ao trabalho árduo ou ao ultramar,  utilizavam-se madeiras nobres nos camarotes, lemes de bronze bem equilibrados e placas de estaleiro em latão fundido que orgulhosamente exibiam a insígnia de Viana do Castelo em qualquer parte do mundo. Foi9 uma época de glória para a ENVC e para a cnstrução naval em Portugal.

Sendo navios de transporte e não de combate, faziam as rotas regulares de passageiros e mercadorias a partir de Bissau. Ligavam a capital a Bolama, a Bubaque (no arquipélago dos Bijagós), a Cacine, Cacheu e a portos comerciais ao longo do rio Geba, como o Xime e Bambadinca (antes de as restrições e o assoreamento dificultarem o acesso). 

Com o eclodir da Guerra Colonial em 1963, estas embarcações civis tornaram-se vitais.  Asseguravam o transporte de civis, o escoamento de produtos agrícolas (como a mancarra e o arroz) e, simultaneamente, o abastecimento logístico e militar de aquartelamentos das Forças Armadas isolados, mais isolados e com acesso por rio. jun

Do "Formosa" não temos nenhum foto. Nem dos outros motores, que também eram usados em transportes miliutares, como o "BM1", o "BM2" ou a draga "Geba" (que fazia o transbordo dos navios T/T para terra...).  Pode ser que algum leitor tenha fotos e mais documentação sobre estas e outras embarcações que também fazem parte das nossas memórias.
 
 
(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Notas do edito LG:




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