
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Agosto de 2026:Queridos amigos,
Estamos a passar em revista alguns dos pontos altos deste memorável romance de Lobo Antunes, tudo acontece num jantar de militares que anos antes regressaram de Moçambique, vamos ficar a saber como eram os interrogatórios, os espancamentos e os lugares lúgubres para onde eram lançados os adversários do regime; entramos na vida daquele grupo minoritário maoísta e assim chegamos ao 25 de abril, o alferes casado com uma menina muito bem vai contar-nos a reação de uma família abastada que até pensa logo em pirar-se para o estrangeiro, temem as violações das hordas comunistas que por aí vêm, com russos e checoslovacos à frente; a comandar no quartel da Encarnação, mandou às urtigas as ordens transmitidas pelo coronel Ricardo, este irá tornar-se num espantoso vira-casacas, o temível saneador de coronéis e majores, pôs ao seu serviço o tenente-coronel Artur, este, mais tarde, limpa-lhe o sebo. mas ainda há mais coisas a dizer sobre o PREC.
Abraço do
Mário
Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 4
Mário Beja Santos
Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. "Fado Alexandrino", considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.
Já aconteceu o 25 de abril, mas não vamos ainda disparados para o processo revolucionário, ficamos a saber que o alferes maoísta foi apanhado pela PIDE, ele diz durante o jantar que da cela se avistava um bocado da praia, a seguir ao muro, o guarda de metralhadora numa espécie de trono de cimento, ele via casas distantes e automóveis minúsculos nas estradas em obras, encontrou no pátio alguém da Organização, o Emílio, reconheceu-o logo apesar dos inchaços das feições, da órbita esquerda destruída, murcha e pendente como um lírio, fora bem espancado de cima a baixo, é um encontro convulsivo, extremamente doloroso, a Organização não dá sinal de vida. Algo tinha acontecido na vida do regime, houvera mudança de carcereiros.
“Já deviam desconfiar da revolução, sugeriu o alferes. Já deviam saber do que se tramava e andavam todos borrados de medo, a tirar as castanhas do lume, a preparar o salto. Querias tratamento de comité central, meu lindo, tortura, pancadaria da boa, isolamento, querias sentir-te importante, certificar-te que existias, mas já não tinhas nenhum interesse para eles. Em certo sentido a revolução lixou-te: fez-te compreender que quando toca a Santos ninguém dá meio tostão furado por ninguém.”
E explica os seus sentimentos de presidiário: “Se alguém comia porrada em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo, se alguém ia aos interrogatórios em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo, se alguém era castigado e posto em dieta em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo.”
É assim que ele rememora Caxias. E depois chegou a liberdade, voltou para o prédio perto da Feira Popular, a tia e a Esmeralda receberam-no, emocionadas.
Começa a vida agitada do período revolucionário, o marido da Inês ouve o telefone tocar, é a mulher que atende, do outro lado a sogra do alferes informa com toda a intensidade melodramática: “Houve uma revolução comunista esta noite, anda tudo aos tiros na Baixa, o povinho quer pendurar nos candeeiros as pessoas decentes. A mãe manda que aa gente vá quanto antes para Carcavelos.”
Segue-se o delírio da fantasia, vêm aí as violações, os roubos dos talheres de prata, engraxadores batendo com as escovas enormes em pobres administradores das empresas indefesos, os russos vão degolar gente, haverá checoslovacos e húngaros a dar tiros por toda a parte. O ambiente em Carcavelos é de gente em pânico, família e amigos, a mãe está consternada:
“Prenderam o governo e o Presidente da República, coitado, educadíssimo, uma joia, que mal é que ele fez seja a quem seja, prenderam centenas de pessoas, há por aí hordas de ateus, desses que dão a pílula às mulheres, a destruir as igrejas, a fuzilar os católicos. Eu aqui não fico, já mandei o pai arranjar bilhetes de avião para todos, não estou para que um bando de selvagens me invada sem mais nem menos a casa e me viole a família inteira.”
Há comentários cataclísmicos sobre prisões de gente de bem, quando os carros já estão atulhados de malas, repensa-se a fuga, descarrega-se a carga, fica-se por enquanto em Carcavelos, voltam as descrições delirantes de violações, de assaltos, de vagabundos a obrar sem cerimónia nos tapetes, o mais que se quiser. Inês, o marido e a filha voltam para a casa de Lisboa.
O soldado do serviço de mudanças entra na conversa, revela que o tio perdera o entusiasmo, a empresa prosperava por inércia, o que lhes tramou a vida foi a trombose da dona Isaura, a tia. Apareceu depois a contabilista, passou a tomar conta não só da escrita como dos negócios, ocupava autoritariamente o lugar da dona Isaura nas refeições. O genro daquela senhora despótica de Carcavelos interrompe a narrativa do soldado para falar das gritarias da sogra: “Leram a pouca-vergonha do jornal? Que vão dar o dinheiro dos ricos a todos, que os católicos se vão poder divorciar, que criam partidos políticos às dúzias. Ó Jaime, você livre-se de me trazer para casa mais porcarias dessas, ainda por cima com fotografias de comunistas horrorosos na primeira página.” Mas o genro também tem outras intimidades para contar, agora ganham uns cobres com relações homossexuais, sobretudo com um pintor, é uma descrição inultrapassável. E ficamos a perceber que a vida amorosa de toda esta gente que está agora a rememorar o 25 de abril fala de alterações profundas, o soldado apaixona-se por Odete, menina muito intelectual que vive lá em casa dos tios, irá saber-se mais tarde que é a maoísta Dália, é ela a controleira do alferes que trabalha no Ministério do Exército.
Mas talvez o episódio mais empolgante aqui narrado seja o que se passou com a vida do nosso tenente-coronel que irá passar a colaborar, como a unha com a carne com o coronel Ricardo, um espantoso vira-casacas que deu em Torquemada, o nosso tenente-coronel Artur recebe uma escabrosa missão:
“Estes revolucionários matam-me de trabalho, vais-me ser utilíssimo aqui. Por vontade de eles, sabes como é, todos os oficiais superiores iam à viola, temos de ceder nalguns casos para ganhar espaço de manobra para os restantes.
Saneamentos, graduações, produções, aí tens o tipo de chatices que te esperam. Consultas as folhas de serviço, elaboras um memorando, formulas o teu parecerzinho, discutimos os dois, em conjunto, a decisão a tomar, eu levo o que a gente resolveu lá acima e os artolas que mandem o que muito bem entenderem, não temos nada com isso.”
É mais um texto espantoso do Lobo Antunes, o vira-casacas torna-se num temível saneador, marca profundas distâncias com o tenente-coronel Artur, quer mais e mais saneamentos: “Assim não vamos lá, Artur: passa-me no mínimo noventa porcento dos oficiais superiores à reserva, eram esses cabrões quem segurava o regime. Dá-me os pareceres que eu carrego-os aqui e ali e convenço os nossos capitãezinhos de fraldas com manias de Guevara: são um bocado esquivos, percebes, mas correndo-lhes a mão pela garupa faz-se deles o que se quiser.” E o tenente-coronel conversa com a sua gente de Moçambique, um dia adoeceu gravemente, visitou-o no hospital, disse-lhe tudo na cara, o moribundo nem se contorceu, o tenente-coronel Artur tirou-lhe o tubo de soro e todo o equipamento que ligava o general Ricardo ainda à vida. A vingança servia-se fria.
Mas que o leitor se acautele, ainda temos 25 de abril e processo revolucionário pela frente.
António Lobo Antunes (1942-2026)
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Nota do editor
Vd. post anterior de 26 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28465: Notas de leitura (1974): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (3) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 30 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28476: Notas de leitura (1975): Meio século de lutas no Ultramar (Guiné), pelo Tenente-Coronel Bello de Almeida, edição da Sociedade de Geografia de Lisboa em comemoração da Semana das Colónias, 1937 - 1 (Mário Beja Santos)

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