1. Dizia o meu pai, filho e neto de gente do mar (pescadores, negociantes de peixe de...) que no dia 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, o diabo andava à solta...
Também passei por esse ritual, traumático, de iniciação... O meu tio Silvano Constâncio, casado com a minha tia materna Ema Barbosa, com casa no Nadrupe (terra dos meus avós maternos, e a onde a minha mãe, que vivia na Lourinhã, me foi parir...), levava-nos na sua carroça à Praia da Areia Branca, eu, a minha irmã Graciete, mais os nossos primos e as nossas mães, em dias de festa, com destaque para o São João, 24 de junho, feriado municipal na Lourinhã. Mas também no 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, se calhasse a um domingo. O meu pai ia lá ter, de bicicleta.
Deve ter sido no domingo de 24 de agosto de 1952. Só se ia à praia, no verão, nos dias feriados e domingos. Duas a três vezes por ano, no máximo, mesmo com o mar ali a 3 km... Eu tinha 5 anos. Tive o meu batismo de mar. Recordo-me ainda hoje, passados 74 anos (!), de o meu tio Silvano, que era o meu "herói" (e que morreu tão cedo aos 40 e tal anos, para meu/nosso grande desgosto!), me ter pegado pelos fundilhos dos calções e eu, a berrar e a espernear, ter sido lançado, sem dó nem piedade, às "ondas gigantes" do Oceano Atlântico!...
Ainda hoje não confio muito no mar e só tomo banho com pé... Mas gosto agora de recordar essas memórias da minha ida à praia (e do meu "batismo atlântico" )... São memórias precoces da minha infância, que já deixei em verso algures:
(..) Ah, os camponeses e os seus burros com as albardas e as canastas,
que ainda não estavam em extinção,
nem uns nem outros,
iam aos magotes até à praia da Areia Branca,
no feriado do são João,
entre brincadeiras e dichotes,
levavam a trouxa e a merenda, os tremoços e as pevides,
as peras, os peros, os alperces, as ameixas e os abrunhos,
os melões e as melancias,
o pão de trigo do moleiro cozido em forno a lenha,
a broa de milho com sardinha,
as azeitonas mal curadas,
bebiam vinho pelo palhinhas, o garrafão de palha,
comiam o arroz de cabidela, de galo ou de coelho,
misturado com a areia e o vento e as lágrimas de sal,
em cima de mantas grossas, feitas de trapos, berrantes, multicolores.
(...) Sangravam de saúde os camponeses da tua aldeia,
“muita saúde, pouca vida, que Deus não dava tudo”,
no tempo em que “beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses”.
Nunca lhes perguntaste se eram felizes,
nem essa era pergunta de se lhes fazer!...
Por uma questão de vergonha, de pudor.
Mas achavas que sim, que eram felizes,
com o pouco que tinham,
já que a bem pouco podiam aspirar naquele tempo (...)
Passei a ter medo do mar e prometi a mim mesmo ( vã promessa de menino!) nunca vir a ser marinheiro, que “na água de mares, não procures cabelos para te agarrares”.
Misóginos os provérbios da minha terra que, quando o mar estava manso, lhe chamava “mar de mulher” (sic), para logo a seguir acrescentar que “da mulher e do mar, não há que fiar”. Ou então: “do mar se tira o sal e da mulher muito mal”.
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São Bartolomeu, Penafiel |
Reza a lenda que, nesse dia, São Bartolomeu solta o diabo, o qual durante o resto do ano traz preso, simbolizado num medonho cão negro com uma grossa corrente de ferro. E só volta à noite.
É esse o motivo para levar as crianças ao mar, durante o dia 24 de agosto, para que aproveitem as águas excepcionalmente puras e terapêuticas. O "banho santo" é um dos pontos altos da romaria de São Bartolomeu, uma das mais importantes do Minho.
Os romeiros levam os filhos transportando consigo ao colo uma galinha preta (aqui diz-se "pito"), dando três voltas em redor da capela, antes de nela entrarem e procederem à oferenda sacrificial. Colocam na cabeça a imagem de São Bartolomeu.
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| Foto: Alfredo Cunha (2025) (com a devida vénia...) |
De tarde, faz-se o chamado agradecimento ao santo, através de uma imponente procissão. Apesar de o percurso ser curto, menos de dois quilómetros da igreja à praia e regresso, pode demorar duas a três horas.
Nela se incorporam centenas de figurantes, que reconstituem episódios bíblicos, e andores de grande porte. Durante a romaria, a praia local enche-se de gente, incluindo muitos forasteiros, apesar do frio e da temperatura gelada da água.
Além de Sao Bartolomeu do Mar (Esposende), é um santo venerado em muitas terras, de Norte a Sul do País, a começar por São Bartolomeu dos Galegos (Lourinhã), Penafiel, Ponte da Barca, Sabugal, Cavez (Cabeceiras de Basto), etc.
Camaradas do Portugal ribeirinho, esta tradição do "banho santo", das nossas terras e das nossas gentes, merece esta bela e bem humorada BD como só o ilustrador do ChatGPT sabe fazer, embora seja muito conservador, púdico e teimoso como um raio...(Imaginem, obrigou-me a ir ao mar de calções!... Com 5 anos, em 1952!...Nada de mostrar a pilinha!).
Tive um diálogo áspero com a menina IA do ChatGPT que não aceitou a foto do Alfredo da Cunha (foto acima, capa do livro "Mar de Fé: S. Bartolomeu do Mar: 1996 -2024", da autoria de Alfredo da Cunha, fotografia, e Rui A. Faria Viana, texto. Lisboa: Guerra e Paz, 2026, 154 pp.)
Eis o nosso diálogo de surdos (de resto, frequente, entre nós):












