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domingo, 29 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27868: Esposas de militares no mato (4): Canjadude, lá no "cu de Judas" (José Martins)




Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > c.1973/74 > Um "foguetão 122mm" que atingiu o alvo mas, felizmente, não rebentou.  O PAIGC chamava-lhe pomposamente "jacto do povo", tinha um efeito mais psicológico do que eficaz em termos destrutivos (quando o artilheiro falhava o alvo; o alcance era de 20 km).

O foguete de 122 mm, apesar de ser originalmente concebido para ser lançado em salva pelo sistema BM-21 Grad, podia ser adaptado para ser disparado individualmente através de lançadores monotubo. Era uma solução prática para um movimento como o PAIGC, que operava em condições de recursos limitados e precisava de armamento eficaz, mas de fácil transporte e manuseamento. Estes projéteis eram equipados com espoletas que nem sempre funcionavam corretamente. Era de origem soviética. Na época a URSS era a "santa casa de misericórdia" dos movimentos nacionalistas como o PAIGC. 

Foto (e legenda): © João Carvalho (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Embora a Guiné fosse pequena (do tamanho do Alentejo), também tinha o seu "cu de Judas". Canjadude ficava a 20 e tal quilómetros a sul de Nova Lamego...  Depois da retirada de Beli (em meados de 1968), Madina do Boé e Cheche (em 6 de fevereiro de 1969), Canjadude era a posição mais isolada da parte meridional da região de Gabu. Não era seguramente um sítio "romântico, seguro e acolhedor" para um militar levar a sua esposa...Mesmo assim chegaram a passar por lá pelo menos duas senhoras. O aquartelamento era guarnecido pelo CCAÇ 5, os aguerridos "Gatos Pretos", e um pelotáo de milícia (o Pel Mil 254, em 1/7/1973).

Como mera curiosidade, refira-se que foi a 3 de junho de 1974 que teve lugar a última acção directa de fogo entre o IN e as NT, tendo as forças do PAIGC atacado o aquartelamento de  Canjadude e também a Tabanca em autodefesa de  Sinchã Maunde Bucó, na  zona leste, região de Gabu.
 

Comentário de José Marcelino Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) (foto à direita):

No meu caso, por estar colocado numa unidade da Guarnição de Recrutamento Local, estas questões (*) são um pouco atípicas.

As tropas africanas, na sua maioria, pelo menos na CCAÇ 5, eram casados e alguns com já bastante tempo de tropa. Em 1974, quando foi extinta, havia recrutados de 1961 tendo, nesse caso, feito o pleno da guerra.

As mulheres e os filhos, que viviam na parte civil agregada ao quartel, só não os acompanhavam nas operações no mato. Nas colunas à sede do batalhão, marcavam sempre presença.

No caso de europeus, e estou a tentar reportar desde 1961 a 1964, apenas houve uma residente efetiva. A esposa de um capitão que foi destacado do comando da CCS do Batalhão de Nova Lamego, para a CCAÇ 5 ("Gatos Pretos").


Em tempo recorde foi construido, dentro do perímetro militar, um abrigo para alojar o casal. A senhora ficou em Nova Lamego apenas o tempo da construção do abrigo. Assim que ficou "habitável" transferiu-se para Canjadude, frequentando o refeitório dos graduados, nas refeições, à exceção do pequeno almoço, que o serviço de "catering" lhes levava.

Um outro caso, posterior à minha presença,  foi o de um Furriel QP que esteve doente, vindo a falecer, que não foi evacuado, mas foi "patrocinada" a presença da esposa no aquartelamento.

Sim. Estiveram do aquartelamento mulheres e filhos, de militares, quer africanos quer europeus. (**)

E mais não sei.


(**) Último poste da série > 25 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27855: Esposas de militares no mato (3): Bissorã, em 1964/66 e em 1973/74