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terça-feira, 31 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27873: Humor de caserna (254): O anedotário da Spinolândia (XXVI): "P*rra, não é só alferes, estão todos apanhados

 

Rússia > Moscovo > Praça Vermelha > 2019 > "O meu pai, em Moscovo, no verão de 2019 (uma das várias viagens que fiz com ele) na Praça Vermelha, com o seu olhar curioso e atento, tão característico." Foto de Pedro Almeida Cabral, com a devida vénia.


Foto (e legenda): © Pedro Almeida Cabral  (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Gosto,  de tempos a tempos,  de revisitar a cabralolândia, o universo picaro das estórias cabralianas, nascidas da genial veia humorística do Jorge Cabral, o mais lídimo representante da corrente literário-filosófico da guerra do absurdo (possivelmente só a par do nosso saudoso Raul Solnado)... 

Infelizmente, em vida, ele só conseguiu publicar o I Volume, lançado em plena pandemia:  teve de ser no Jardim Constantino, ao ar livre, e não num bar de alterne, como chegámos a sugerir-lhe, na zona ribeirinha da suja, porca, lumpen Lisboa dos anos 60/70, que já não existia mais em 2021. 

O facto de eu lhe ter escrito  o prefácio, "pro bono",  dá-me o direito de não ter de bater a pala a ninguém para, de vez em quando, "repescar" (e refrescar) uma ou outra das suas "estórias cabralianas",  tanto mais que elas foram todas,  previamente, publicadas no nosso blogue, desde os primórdios... (Ele é um dos históricos da Tabanca Grande.)

 Caros amigos e camaradas "spinolistas",  náo entendam esta "estória" como sinal de menos respeito pelo nosso antigo Com-Chefe, nascido  na Madeira em 1910, de ascendência italiana, e entretanto subid0, em 1996, como marechal, ao Olimpo dos Deuses e dos Heróis...

 Mas perguntam os leitores mais recentes: mas quem é esse "alfero Cabral" ? 

O "nosso alfero", como lhe chamavam os seus soldados guineenses, era o alferes miliciano de artilharia, Jorge Cabral, filho de militar, com avoengos ilustres que se notabilizaram (e nobilitaram) nas Armas & Letras, estudante universitário, menino-boémio das Avenidas Novas, amador do Teatro do Absurdo, enfim, comandante, no TO da Guiné,  do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1,  Bambadinca, Zona Leste, 1969/71; mais tarde, depois de passar à "peluda", tornou-se advogado e professor universitário, especialista em direito penal. 

"Trata-me bem deste homem, porque já não há disto": ainda me lembro bem da recomendação do seu fur mil António Branquinho (irmão do Alberto, o escritor), há muitos anos atrás,  em Coruche, no convívio do pessoal da CCS / BART 2917 (Bambadinca, 1970/72) e subunidades adidas...

 O episódio que a seguir se descreve, passa-se em dezembro de 1970, em plena Spinolândia, uma terra que em boa verdade nunca existiu, a não ser no nosso imaginário palúdico, mas que desempenhou um papel importante na história das "alterações climáticas"... 

Ainda não se falava neste chavão, quando no TO da Guiné se começaram a manifestar os primeiros sintomas de uma nova "síndrome", que escapou, na época, não só aos "mentirologistas" como   aos "psiquiatras castrenses" (que em rigor não existiam, pelo menos devidamente diplomados). 

Essa síndroma, se bem se recordam, ficou conhecida como a dos "apanhados do clima"... O "Alfero Cabral", a par do "Gasparinho"  (major) e de tantos outros militares, anónimos,  do CTIG, eram o protótipo destes "panhados do clima".


Quando Sexa, o CACO, em Missirá, ia perdendo o dito cujo

por Jorge Cabral (1944-2021)


Poucos dias faltavam para o Natal, e a tarde estava quente. Todo nu no meu abrigo, fazia a sesta, quando sou despertado por enorme algazarra misturada com os ruídos do helicóptero.

 Alfero, Alfero, é Spínola!   − gritam os meus soldados.

(Estou tramado, o quartel está uma merda. Que visto? Apresento-me em estado de nudez? Não há tempo a perder. O pássaro já poisou e o General avança. Enfio uns calções antigamente verdes, umas chinelas, e claro uma boina, para poder fazer a devida continência).

Eis-me assim, garboso comandante, apresentando a tropa, e os milícias, todos eles mal fardados, como era habitual.

 Sua Excelência, pede um intérprete, pois vai botar discurso. E começa:

− Debaixo desta bandeira… − e aponta o braço na direcção onde pensava que a mesma existia. Fica-lhe o braço no ar, mas continua:
 
− ... A Pátria… − e notando a atrapalhação do tradutor, pergunta-lhe:

− Sabes o que é a Pátria, rapaz ?

− Não  − responde aquele.

(Lixei-me! Vou ser despromovido, talvez preso. Dentro de mim, um turbilhão de maus presságios começa a fervilhar. Mentalmente preparo réplicas. Não é necessária bandeira, pois a Pátria está dentro de nós, e por isso, meu General, é indefinível, responderei,)

Mas o Caco nada me pergunta. Vem acompanhado de três majores e um capitão. Querem ver tudo. Primeiro a Escola. Onde funciona?

(Escola? Qual Escola?!... Pensa rápido, Jorge! Inventa!)

− Sabe, meu major, estas crianças também frequentam o ensino corânico, que decorre ao ar livre. Por isso considerei que a nossa escola não devia ser enclausurada, pois tal podia traumatizá-las.

− Ainda assim… − começou o major, impedido de continuar por um olhar do Com-Chefe.

− E o Heliporto?  − indagou um outro major.   − Parece muito atrasado.

− É que, meu major, faltam os materiais e também operários especializados.

− Operários especializados? Então... e os seus soldados?!º
 
− Todos homens de fé, meu major. Tirando a actividade operacional, dedicam-se à reflexão e oração.

Nem respondeu este major. Logo outro se adiantou, interrogando o Amaral, sobre as povoações mais próximas. Em sentido, sério, calmo, respondeu o Amaral:
 
− Mato a norte, mato a sul, mato a leste, mato a oeste, meu major.

(Ah! Grande Amaral, vais fazer-me companhia na porrada!)

Mas o pior estava para vir! Sua Excelência queria testar o plano de defesa:

− Qual o sinal, nosso alferes?
 
− Uma granada   − improvisei eu.

Tendo-me dirigido à arrecadação, não encontrei nenhuma granada ofensiva. Peguei então numa defensiva, e zás, lancei-a. Tudo tremeu! Manteve-se de pé o General, mas o Caco caiu.

Entretanto os meus soldados, querendo mostrar heroicidade, encostaram-se ao arame, de peito descoberto, alguns mesmo sem arma.

(Agora sim, está tudo perdido! Que vergonha! E logo eu, neto de um herói de Chaimite!)

Recomposto o Caco, olhou-me uma última vez e disse:

− Já vi tudo!.

Ao encaminhar-se para o helicóptero, ainda lhe ouvi comentar para a comitiva:

−  Porra, que não é só o alferes! Estão todos apanhados!

Deve porém ter ficado bem impressionado, pois três dias depois voltou. Eu não estava. Tinha ido a Fá, buscar uma garrafa de uísque, prenda mensal do capitão João Bacar Djaló

Contou-me o Branquinho que, quando o informaram da minha ausência, Sua Excelência exclamou:

− Ainda bem!

© Jorge Cabral (2006).

(Revisão / fixação de texto, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27864: Humor de caserna (253): O anedotário da Spinolândia (XXV): "Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem", disse em maio de 1968 Spínola, ao acabar de conhecer o Alpoim Calvão, o qual lhe retorquiu: "Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.

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