1. Já chegou a Primavera. Já vi andorinhas, melros, boeiras (ou lavandiscas), pardais do telhado, pombos bravos, peneireiros, águias-de-asa-redonda (espécie comum na serra de Montedeiras, aqui ao lado)... E poupas (que não via há muito; são migrantes) (vd. foto à esquerda) (Tal como não tenho, nos últimos tempos, visto ou ouvido o cuco, a pega, o moxo ou até o gaio.)
Ligando isso ao ciclo natural das 4 estações (inverno, primavera, verão, outono), temos uma metáfora poderosa da própria vida:
- inverno: recolhimento, morte aparente, silêncio, sono; é tempo da espera e da introspeção;
- primavera: renascimento, esperança, poesia; tudo volta a florir, sem licença em papel selado para recomeçar;
- verão: plenitude, intensidade, explosão dos sentidos, maturidade da vida, excessos;
- outono: declínio, transformação, preparação para o fim (que já contém em si um novo ciclo, um recomeço).
A “poesia da primavera” nasce exatamente desse contraste: depois da dureza do inverno (e este foi particularmente duro!), a vida regressa com uma força quase milagrosa. É isso que nos querem dizer os poetas que celebram a primavera como símbolo de renovação (exterior e interior).
2. Longe da cidade, em plena natureza, aqui em Candoz, rodeado de serras (Aboboreira, Marão, Meadas, Gralheira, Montemuro, Montedeiras...) e dois rios, o Tâmega e o Douro, vejo que nada é fixo, tudo passa, tudo regressa, tudo morre, tudo renasce...
E cada omega/fim traz escondido um alfa/princípio. O eterno retorno não é só repetição: é também a possibilidade de aceitar (ou até de amar) esse ciclo.
Recordo Alberto Caeiro, de quem nem sempre gosto (depende da estação do ano, do dia e da hora, dos meus quatro contraditórios humores, dos títulos de caixa dos jornais, etc.), mas é o poeta que vê o mundo como ele é, sem metafísica, com uma ingenuidade desarmante. E que canta a primavera como se ela se bastasse a si própria.
Caieiro, o poeta que aceita, com indiferença serena e serenidade indiferente, a efemeridade da vida humana e a naturalidade da morte, como se houvesse uma realidade objetiva, independente de nós e da nossa existência humana...
Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
CAEIRO, Alberto, Poesia (Poemas Inconjuntos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 109
Último poste da série > 22 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27846: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): No Dia Mundial da Poesia (que foi ontem)
3 comentários:
Havia cucos na Quinta de Candoz... E pegas... E gaios... Não têm aparecido nos últimos tempos... Mas todos os anos aparece a poupa. Nunca descobrimos o ninho. E as andorinhas...Há mais de 30 anos que fazem aqui ninho, na varanda de uma casa abandonada, à volta do fio da lâmpada elétrica da entrada da antiga casa de caseiro ... Uma obra-prima de engenharia e arquitetura, esse ninho, quase todos os anos reconstruído...
É bonito o renascer. Fascina-me a elegância e o colorido das poupas e há duas andorinhas que me visitam quase todos os dias de há dois anos para cá. Chegam a entrar em casa quando a porta está aberta e pousam nas traves do telhado do alpendre a cumprimentar-nos.
Abraço
Eduardo Estrela
Ainda bem que vêm essa bonitas criaturas mas, o mundo não é só isso.
Ontem fui ao Braço Sul do rio Mondego. Há muitos anos que não via o leito tão limpo, pode-se andar até de sapatos por cima da areia mas, está cheio de cascas de bivalves mortos já há muito tempo. Agora toda a gente c.ga paras os rios e os estuários pagam a factura. Mas nem tudo foi mau com os temporais de Janeiro e Fevereiro. A água foi tanta e o deslocamento volumétrico foi tão elevado, que levou toda a me.da para o mar.
Eu aproveitei para fotografias daquilo que já não via há muitos, leito limpo e água transparente.
Os meninos do ambiente são cidade, ca.am para o rio e os problemas dos estuários são causados pelas alterações climáticas. Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo, Amen...
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