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domingo, 22 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27846: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): No Dia Mundial da Poesia (que foi ontem)


No Dia Mundial da Poesia (que foi ontem)
 

Chegas sempre atrasado ao Dia Mundial da Poesia
que foi ontem.
Estavas distraído. 
Ou a tomar conta das netas.

Foste há dias, de borla, a um concerto da Gulbenkian
numa tarde de sábado em que fluía a música.
Abriram-te as cortinas para o mundo,
e tu viajaste romântico ma non troppo
do Atlântico aos Urais,
passando pela Geórgia do Mar Negro.
Não chegaste a Persópolis nem a Ormuz,
nem paraste no silêncio fatigado dos grandes vales e rios.
Regressaste, enfim, são e salvo,
pela docas e pelos cais, à noite, 
da velha Europa insonorizada.

Havia uma orquestra sinfónica do império austro-húngaro,
decadente, macambúzia,
a tocar Schuman
no meio das ruínas do terramoto.

Nunca suportaste os orgasmos colectivos
dos finais das sinfonias.
Nem o Bela Bartok a martelar as teclas do piano.
Muito menos o Hino da Alegria
nem as viúvas alegres do Strauss.

As palavras não já têm corpo
nem cores nem cheiros nem sabores.
Apenas códigos e algoritmos.

E sobretudo do que mais tens pena
é da menina que outrora se sentava ao pé do pianista
para ir virando a página da partitura.

Agora o primeiro violino é careca
e o maestro maneta. Ou marreta.
E o público cego, surdo e mudo.

Alguém grita:
- Siga a fanfarra!

Alguém sussura:
- O rei vai nu.

O comissário e o curador garantem:
- O povo é quem mais orde...nha!

Enquanto lá fora  o grafiteiro escreve, às três da madrugada,
 nos muros do Palácio do Rei:
- A Poesia, imbecil! A Poesia…

Só acordaste do pesadelo, hoje, domingo,
o "day-after" do Dia Mundial da Poesia.



Luís Graça, 2010. Revisto, 22 de março de 2026.
__________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27825: Manuscrito(s) (Luís Graça) (283): Maratona da amizade e da camaradagem

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