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domingo, 22 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27846: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): No Dia Mundial da Poesia (que foi ontem)


Lisboa > Rio Tejo > Ponte Vasco da Gama > 28 de fevereiro de 2026

Foto (e legenda): © Luís Graça (2019). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


No Dia Mundial da Poesia (que foi ontem)

por Luís Graça

Chegas sempre atrasado ao Dia Mundial da Poesia
que foi ontem.
Estavas distraído.
Ou a tomar conta das netas.

Foste há dias, de borla, a um concerto da Gulbenkian
numa tarde de sábado em que fluía a música.
Abriram-te as cortinas para o mundo
e viajaste romântico ma non troppo
do Atlântico aos Urais.

Não chegaste a Persépolis nem a Ormuz,
nem paraste nos grandes vales e rios
onde Deus criou o mundo
e naufragou a arca de Noé.

Regressaste, enfim, são e salvo,
pelas docas e pelos cais, à noite,
da velha Europa insonorizada.

Nunca suportaste os orgasmos colectivos
dos finais das sinfonias do Tchaikovsky,
nem Bartók a martelar as teclas do piano.

As palavras já não têm corpo
nem cores nem cheiros nem sabores.
Apenas códigos e algoritmos.

Do que mais tens pena
é da menina que se sentava ao pé do pianista
para ir virando a página da partitura.
Usava óculos de lentes grossas
e fora a primeira aluna da sua classe do Conservatório.

Há um mundo que nunca chegou a ser o teu
e que está a acabar.

Agora o primeiro violino é careca
e o maestro maneta.
E o público cego, surdo e mudo.

Enquanto lá fora um grafiteiro escreve
nos muros do palácio do rei:

— A Poesia, imbecil! A Poesia…

Só acordaste do pesadelo hoje, domingo,
o day after do Dia Mundial da Poesia.


Luís Graça, 2010. Revisto, 22 de março de 2026.
______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27825: Manuscrito(s) (Luís Graça) (283): Maratona da amizade e da camaradagem

2 comentários:

Victor Costa disse...

Eu não sei se atravessei o Caucaso porque sou muito novo, mas podem ter a certeza que visitei a Citânia de Sanfins.
Acordem Camaradas, deixem os cafés! Há tanta coisa com História em Portugal.

Alberto Branquinho disse...

Ora, histórias!
"Agora o primeiro violino é careca"
(O nosso 1º. não era careca. Careca era o 2º. sargento.)
_____
"E o público cego, surdo e mudo"
(Cego - é das cararatas ... nas baixas de tom.
Surdo - é dos (des)concertos demasiados.
Mudo - enquanto se toca, não se fala).

Ite, post est !