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domingo, 22 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27847: Humor de caserna (250): O anedotário da Spinolândia (XXII): A carecada do Arfan Jau e o "embaraço" da senhora do capitão


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Canquelifá > CART 2479 / CART 11 (1969/70) Canquelifá > 1970 > Festas do fim do Ramadão > Lutas fulas, de corpo a corpo... Repare-se no risco, dividindo os dois campos...

Foto (e legendagem)  © Valdemar Queiroz (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Nova Lamego > Quartel de Baixo > Junho de 1970 > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > O Valdemar Queiroz (12) ao lado do alf mil Pina Cabral (13) e o 4º.Pelotão...  Restantes furriéis: Pinto (5) e Macias (9). 

O Arfan Jau desta história é o nº 8 (imagem à esquerda; vd,. também em cima à direita). A seu lado o ex-fur mil Manuel Macias, membro da nossa Tabanca Grande e da Tabanca da Linha.

Ambos pertenciam à "nova força africana", que começou a ser constituída no CIM de Contuboel, com a CART 11 (depois, CCAÇ 11) e a CCAÇ 12, no  1º semestre de 1969, e que era uma das "coqueluches" do novo comandante-chefe, António Spínola. (No CIM de Bolama, estavam a formar-se a CCAÇ 13 e CCAÇ 14.)
 
A propósito das poucas esposas de oficiais e sargentos, do QP e milicianos, que também "foram à guerra" (leia-se: acompanharam os maridos no mato, durante a comissão ou parte da comissão) (*), há uma história deliciosa que o Valdemar Queiroz quis partilhar connosco, há quase uma década atrás (**). E que se encaixa bem na série "Humor de caserba" e na subsérie "O amedotário da Spinolândia" (***)-

Recorde-se que o Valdemar Queiroz  foi fur mil,  CART 2479 /CART 11 (Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70), e que a sua morte, ainda recente (fez agora um ano, em 3 de março) deixou-nos a todos desolados.

É impossível ler ou reler este texto sem sentir a sua falta np blogue.  Ele tinha um talento único para contar, geralmente na caixa de comentários,  pequenos apontamentos do nosso dia-a-dia  que ajudavam  humanizar a guerra. E tinha um especial carinho pelos seus soldados guineenses.  A cena final desta história com a resposta do Arfan Jau, é um exemplo perfeito de como o humor nasce da mistura de línguas, culturas e situações absurdas. Em honra da sua memória, espero que o brindem com os comentários que ele e a sua história merecem.

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



A carecada do Arfan Jau e o "embaraço" da senhora do capitão

por Valdemar Queiroz (1945-2025)


O Arfan Jau, soldado do meu 4º. Pelotão, da CArt 11, era um lutador profissional, ou quase, dado que

 tinha 18 anos e fazia vida, para ganhar algum dinheiro, com as lutas 'à fula' (género greco-romana) em dias de festa.

Era, ainda com pouca idade, um grande campeão. Mas o Arfan Jau também era nosso soldado. E que grande soldado, em valentia, porte físico e humildade.

Ele era da secção do ex-fur mil Manuel Macias e logo entendeu que o furriel precisava dum guarda-costas. Para onde ia o Macias lá estava o Arfan Jau (ver acima foto do 4º Pelotão em Nova Lamego e lá está o Arfan ao lado do Macias).

O ex-alf mil Pina Cabral, cmdt do nosso Pelotão, achou que o Arfan Jau estava adquirir um estatuto especial e a tornar-se muito refilão e, para levar uma carecada por grande 'reguila', faltou pouco e assim foi. E lá o valente lutador Arfan Jau levou uma carecada disciplinar.

Coitado já não podia lutar, parece que era o cabelo que lhe dava força [tal como o Sansão da Dalila].

Um dia, o Arfan Jau ainda com uma grande carecada e com
o quico debaixo do braço, entrou, na hora do almoço, na messe de oficiais e sargentos a perguntar pelo furriel Macias . 


Cap mil Aniceto Pinto
 (****)
Logo à entrada era a mesa do Capitão e dos Alferes e também da esposa do nosso cap mil art Analido Aniceto Pinto  [foto á direita] que já estava a viver com ele em Nova Lamego.

– Então,  Jau? O que é que te aconteceu? – perguntou a senhora quando o viu careca.

Respondeu o Arfan Jau, com toda a humildade e com palavras em bom português que tinha aprendido com soldados do Porto;

– Senhora, Arfan Jau cá tem cabelo,  manga de fodido.

Que maravilha!!! 

Já não me lembro se houve um silêncio embaraçoso ou umas gargalhadas estridentes.[Provavelmente, um silêncio embaraçoso, por atenção à senhora do capitão e ao seu estado interessante: "embaraço, em português, tanto quer dizer "constrangimento" como  "gravidez". LG]

A esposa do Capitão ainda por lá ficou uns meses, depois por já estar em estado avançado de gravidez foi evacuada.


Valdemar Queiroz,  22 de outubro de 2016 às 00:11

(Revisão / fixação de texto, título: LG) 
 
_________________



(***) Último poste da série >  21 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27844: Humor de caserna (249): O anedotário da Spinolândia (XXI): O frango Hubbard

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