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sábado, 28 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27866: Os nossos seres, saberes e lazeres (728): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não posso dizer que coro de vergonha pelo facto de não ter publicado em tempo oportuno este relato de visita a uma importantíssima exposição sobre a obra neorrealista de Rogério Ribeiro. Do itinerário do artista, do seu experimentalismo permanente em que deixou a obra no desenho gráfico, na cerâmica e na faiança, no mural, na tinta-da-china, na linogravura e na gravura, na água forte, na litografia, no guache e na aguada, e fiquemos por aqui, se deixou notícia no texto anterior chamando a atenção para a organização da exposição que abre com um módulo de Mar e Sargaço, o seguinte intitulado de Terra e Campesinato, e hoje aqui se dá o destaque aos módulos sobre o Operariado e outras Fainas, a Família e o Quotidiano, o Corpo e Rosto e, finalmente, Ecos do Realismo, em que se pode apreciar que o artista evoluiu, mas nunca deixou de revelar o valor da dignidade humana, nunca escondeu a sua frustração, num mundo que oprime os mais desfavorecidos. E convido os interessados a adquirir o catálogo de referência da exposição, para além de nos mostrar o extraordinário talento de Rogério Ribeiro, traça o que de mais importante e significativo foi o fenómeno cultural que deu pelo nome de neorrealismo.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249):
Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2

Mário Beja Santos

Decorreu no Museu do Neorrealismo uma exposição intitulada Fazer Crescer a Vida, Rogério Ribeiro e o neorrealismo, aconteceu entre finais de maio e outubro do ano passado. A tudo assisti na inauguração, uma apaixonante apresentação feita por David Santos, o diretor científico da casa, lá voltei duas vezes, e sabe-se lá por que negligência ou inércia fui demorando a intenção de pôr por escrito a chamada de atenção para este acontecimento cultural de gabarito, ainda por cima acompanhado de um catálogo de referência.

Penitencio-me da minha falta, o que se segue não passa de uma tentativa de redenção.

A homenagem que o Museu do Neorrealismo prestou a Rogério Ribeiro é, a todos os títulos, tocante. O magnífico catálogo, é uma obra de referência. O curador e diretor científico da casa disserta sobre este fenómeno artístico assente no amor ao povo, no mostrar a dignidade do trabalhador como mensagens indutoras à alegoria à transformação do mundo. Todos estes artistas plásticos, pode hoje ponderar-se à distância, acompanhavam um cânone, mas possuíam uma sintaxe específica, e Rogério Ribeiro revelou desde muito novo um olhar distinto, quer quando ele trabalhou a obra plástica sobre a recolha do sargaço, a monda do arroz ou a ceifa; o trabalhador, fosse a mulher arranjando peixe ou mondadeira, o homem como feirante, cosendo redes, ou ambos em duros trabalhos, o que há peculiar neste artista são cores, traços, ajuntamento de gentes que nos falam do real do quotidiano.

A exposição organizava-se em módulos, logo no primeiro intitulado Mar e Sargaço, logo destaque para a figura feminina, na recolha das algas, mas não faltam pescadores, a simbologia de que a união faz a força, e fica bem claro e o artista plástico vê com previsão um conjunto de formas que o que lhe dará no futuro, caso dos quadros com representação de barcos. Segue-se o módulo de Terra e Campesinato, aparece a máquina, a debulhadora, cores por vezes ciclâmicas em contraponto com linogravuras a preto e branco, mondadeiras trabalhando numa atmosfera quase tropical. É muito vasto o campo de observação de Rogério Ribeiro, experimentando formas com que possa mostrar o trabalho das mulheres nos arrozais, camponeses embiocados, sentados em tendas, estudou à minúcia as posições de homens e mulheres acocorados, em grupos ou isolados.

Outro módulo é dedicado ao Operariado e outras Fainas, aqui se pode ver, se dúvidas subsistem, que o valor do realismo social é uma constante do seu traço desde a década de 1950 até à viragem do século, é como se houvesse uma ética inabalável na atenção aos homens e mulheres sobretudo no exercício das mais duras posições. Rogério Ribeiro nunca escondeu que era um artista político, e nunca cedeu a uma liberdade criativa que fazia parte do seu engajamento, expressões do seu sonho de libertação social.

O módulo Família e Quotidiano é um tópico sempre presente na obra de Rogério Ribeiro, claramente associado a um sentimento de comunidade e solidariedade: a figuração da maternidade, a manifestação de afetos, a apresentação do pai como figura protetora e o núcleo familiar como expoente da coesão, o último reduto da confiança e do amor. Era um dos vetores da ficção neorrealista, a família inspira e sustenta uma ideia de progresso, um mundo melhor, não disfarçando o trabalho político, mostrando um quotidiano humilde, marcado por pequenos trabalhos domésticos, mas onde o lazer e a esperança constituem valores que definem um horizonte a alcançar.

Estamos agora no penúltimo módulo intitulado Corpo e Rosto. Escreve-se no texto da exposição:
“Desde os seus tempos de iniciação artística que o retrato e a representação dos corpos constituem na obra de Rogério Ribeiro eixos decisivos de perceção sobre o real, numa consciência de observação que o conduzirá à expressão do social. Os retratos produzidos por Rogério Ribeiro confirmam, como em todo o neorrealismo, uma realidade social que não abdica da esperança da sua transformação. Porém, esse vínculo humanista não inviabiliza, antes exige, soluções estéticas alimentadas pela arte moderna. Na sua diversidade estética, é possível identificar nestes retratos valores que vão do realismo ao expressionismo.”

O último módulo intitula-se Ecos do Realismo, assim identificada no texto de apresentação da exposição:
“Mesmo nos trabalhos que ecoam já uma memória do realismo original, a obra do Rogério Ribeiro prioriza o reconhecimento sobre o valor da dignidade humana e a sua frustração por um mundo que oprime os mais desfavorecidos. Determinada por um vínculo de compromisso e firmeza, uma tensão formal, baseada numa crescente gestualidade, percorre o trabalho do artista neste período.”

Porventura trabalho de mondadeiras, a tinta-da-china e guache sobre papel
Pastores, linogravura sobre papel, 1954
Porventura mulher em trabalho de recolha, tinta-da-china e aguada sobre papel, 1953
Alentejo, tapeçaria mural decorativa, 2011
Rogério Ribeiro no seu ateliê na Póvoa de Varzim, 1951
Rendilheiras, 1958, linogravura
Homens laborando provavelmente com uma debulhadora, tinta-da-china, aguada e grafite sobre papel
Trabalho de mulheres, não se sabe se é uma lota ou trabalho de conserveiras, aguada e grafite e lápis litográfico sobre papel
Família, óleo sobre platex, 1951
Sem título, tinta-da-china, aguada e anilina sobre papel, 1961
Sem título, óleo sobre tela, 1959
Pastel sobre papel, 1959
UCP – Unidade Coletiva de Produção, óleo sobre tela, 1976
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Nota do editor

Último post da série de 21 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27843: Os nossos seres, saberes e lazeres (727): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1 (Mário Beja Santos)

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