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sexta-feira, 27 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27862: Humor de caserna (252): O anedotário da Spinolândia (XXIV): Na "cidade" em construção de Nhabijões, com o comandante dos fuzileiros "encallhado" no rio Geba (Jorge Mariano, ex-alf engenheiro químico, BA 12, Bissalanca, jan 71/out 72)



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca / CAOP 2) > Nhabijões (ou Nha Bidjon) > 197 2> Vista aérea do reordenamento de Nhabijões (Fonte:   "Diário de Lisboa",   31 de Agosto de 1972, com a devida vénia)


Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca / CAOP 2) > Nhabijões (ou Nha Bidjon) > c. 1973 > Vista aérea do reordenamento de Nhabijões: o maior ou um dos maiores do CTIG, com 300 casas de zinco...(Fonte:  CECA, 2015, pág. 276)

 

1.  A forte mobilidade aérea foi uma marca da estratégia de Spínola na Guiné. Ele visitava frequentemente  aquartelamentos, destacamentos, reordenamentos e tabancas no interior,  sem falar das operações no mato que acompanhava de perto, usando de preferência o helicóptero Alouette III e também, ocasionalmente, avião ligeiro DO-27.  Era o terror de muitos comandantes de batalhão aparecendo a horas impróprias a quem via a guerra como um emprego das 9 as 5.

E praticamente saía todos os dias, o que criou uma convivência muito direta (e até uma certa cumplicidade) com pilotos e mecânicos da Força Aérea que, como se sabe, estavam instalados na BA 12, em Bissalanca. No período de 1968/70, um dos seus pilotos de heli preferidos era o nosso Jorge Félix. 

O anedotário da Spinolândia (*)  nunca poderia ficar completo sem o concurso  de pilotos, mecânicos e outros camaradas da FAP. A estes veteranos da guerra da Guiné estamos gratos pela recolha e partilha de algumas das melhores anedotas do nosso governador e comandante-chefe António Spínola. 

Esta é uma delas, contada pelo Jorge Mariano, ex-alf engº químico, da FAP, que vive em Coimbra.  Oficial do exército, foi requisitado pela FAP. Cumpriu uma comissão na BA 12, de janeiro de 1971 a outubro de 1972. Empresário e professor universitário reformado, é um excelente contador de histórias do nosso tempo (mesmo que não seja bom a recordar nomes de militares e de lugares).

(...) "Na BA12 fui comandar o serviço de Combustíveis – bombas Auto e Abastecimento de Aviões na linha da Frente e ainda os depósitos de Combustíveis no “Mato”: Farim; Aldeia Formosa; Bafata; Teixeira Pinto; Nova Lamego e outra que não recordo. [Devia ser Cufar, a Bissalanca do sul... (LG).] Dos pilotos existia também um oficial de combustíveis que era o Alf Carpinteiro. "(...)

Não resistimos a reproduzir aqui no nosso blogue, com a devida vénia ao autor e  ao blogue em boa hora criado, em junho de 2007, pelo nosso histórico e saudoso grão-tabanqueiro Victor Barata (1951-2021).  
Referimo-nos ao blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65-74, agora sob o comando do João Carlos Silva, também membros da Tabanca Grande, e do Mário Aguiar).

É uma história deliciosa, mas esquecida, publlicada há 14 anos, sexta-feira, 23 de março de 2012 > Voo 2773 > A “Cidade”. (No blogue do Victor, o "voo" corresponde a "poste": neste caso voo nº 2773.)


A “cidade” a sul do Geba, o gen Spínola e o grumete brincalhão

por Jorge Mariano


A meio da Comissão consegui lugar num quarto em Bissau junto à messe de oficiais, e passei a montar o meu escritório nocturno neste local que,  depois de uns uísques, fechava todos os dias.

Passava por lá também nessa ocasião,  a horas mortas, o major  ['cmd' Almeida] Bruno,  das Operações Especiais , onde se encontrava com o cap pára  [António] Ramos (já falecido), tmbém das Operações Especiais.

Um dia vi chegar o major Bruno e contar com grande entusiasmo uma decisão magistral que o gen Spínola teria tomado, que era de construir uma nova “cidade” a sul do Geba, pelo que entendi na altura, a sul de Bambadinca,  na outra margem para cortar as infiltrações do IN por esta zona. 

Estava longe de saber que, para aí, um mês depois, esta decisão iria dar lugar ao episódio mais cómico a que assisti durante toda a comissão.

Certo dia, passado o mês sobre o atrás referido, estava na Sala de Operações com o comandante Moura Pinto, o piloto Oficial de Dia e o srgt pil que normalmente transportava em heli  o gen Spínola (cujos nomes não recordo) e este piloto conta a seguinte cena, que passo a transcrever.

Parece que a operação para a construção da tal “cidade” teria sido iniciada, teria sido marcado o dia D para o arranque, tinha sido enviado um pelotão de Engenharia com as máquinas e uma companhia de Fuzos para fazer a segurança.

Como de costume, o gen Spínola ás 06h30 foi de heli com Srgt Pil que contou a estória,  para inspeccionar o andamento dos trabalhos.

Chegados,  aterraram junto ao acampamento dos Fusos e estava tudo muito desorganizado, era muito cedo, e o general chama um fuzo e pergunta:

 − Quem é comanda desta m*rda…? ( Overnáculo era uma característica do general)

Bom o nosso fuzo não sabia e foi procurar a outro,  até que lá disseram que era o sr comandante fulano tal (que não recordo o nome)

O general perguntou:

− Onde está ele? 

Aí os fuzos informaram que o senhor comandante teria pernoitado na LDG que se encontrava ao largo no Geba.

Como facilmente se percebe o general começa a ficar nervoso e pede que o chamem imediatamente. Bom,  mas agora há outro problema: não há rádio para comunicar com a LDG.

Então o general manda levantar o heli para comunicar com a LDG. Ao fim de algumas tentativas, conta o srgt pil, lá consegue comunicar com a LDG e diz que o gen está no acampamento e quer falar com o comandante da força.

Bom,  agora outro problema acontece. Para viajar da LDG para terra havia apenas um zebro mas um grumete atrevido andava a fazer piões no meio do Geba e naturalmente não tinha levado rádio.

O general ainda mais furioso manda o srgt pil ir com o heli indicar ao grumete do zebro para ir para LDG. O que acontecia, é que quanto mais sinais o sargento fazia, mais entusiasmado ficava o grumete e mais acelerava sem perceber que o estavam a chamar.

O general já estava “possesso”! Manda apresentar o comandante da força em Bambadinca e dirige-se para lá, aterra e fica á espera.

Depois desta cena o nosso comandante de Marinha, já sabia o que lhe ia acontecer, vestiu a farda branca,   tomou o zebro e dirigiu-se a Bambadinca.

O pior foi que entretanto a maré tinha descido e o zebro não chegava ao cais, ficava naquele lodo castanho a uns 5 metros da costa.

O Comandante de Marinha nessa altura disse:  

− Meu general,  não posso desembarcar,   o navio não chega á costa.

O General furibundo diz:

  Salte! 

O nosso homem saltou mas ficou todo sujo, de modo que, quando se perfilou para fazer a continência e se apresentar ao general, contava o srgt pil, mais parecia um pedinte com a farda branca toda salpicada de castanho, e todos que assistiam á cena riam a bom rir.

Também nós nos rimos até não podermos, quando ele, mal regressado de trazer o general, nos contou estas peripécias. Parece que o general retirou o comando ao oficial de Marinha e terá deixado o então major Fabião a comandar os fuzos.

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos,  título: LG)


3. Comentário do editor LG:

A  "cidade" a sul do Geba, aqui referida, só pode ser o reordenamento de Nhabijões, tão profundamente ligada às nossas memórias... Mais difícil é dizer com exatidão quando é que ocorreu esta história, já que o início do reordenamento remonta a finais de 1969 (estudo prévio, trabalhos preparatórios, formação de equipas, etc.).

Da história da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, maio de 1969 / março de 1971), reproduzo estes excertos:

(...) "A partir deste mês, novembro de 1969, 1 Gr Comb da CCAÇ 12 passaria a patrulhar quase diariamente as tabancas de Nhabijões cujo projecto de reordenamento estava então em estudo, a cargo da CCS/BCAÇ 2852.

"Nhabijões era considerado um centro de reabastecimento do IN ou pelo menos da população sob seu controle. As afinidades de etnia e parentesco, além da dispersão das tabancas, situadas junto à bolanha que confina com a margem sul do Rio Geba, tornava-se impraticável o controle populacional. 

"Impunha-se, pois, reagrupar e reordenar os 5 núcleos populacionais, dos quais 4 balantas (Cau, Bulobate, Dedinca e Imbumbe) e 1 mandinga, e ao mesmo tempo criar "polos de atracção" com vista a quebrar a muralha de hostilidade passiva para com as NT, por parte da população que colabora com o IN." (...)

A CCAÇ 12 participaria directamente neste projecto de recuperação psicológica e promoção social e económica da população dos Nhabijões, fornecendo uma equipa de reordenamentos e autodefesa, constituída pelos seguintes elementos (que f
oram tirar o respectivo estágio a Bissau, de 6 a 12 de Outubro de 1969):
  • alf mil at inf António Manuel Carlão (1947-2018) (originalmente o cmdt do 2º Gr Comb, que passou a ser comandado por um fur mil) (já falecido);
  • fur mil at inf  Joaquim Augusto Matos Fernandes (comdt da 1ª secção 4º Gr Comb):
  • 1º cabo at inf Virgilio S. A. Encarnação (cmd da 3ª secção do 4º Gr Comb);
  • e sold arv at inf Alfa Baldé (Ap LGFog 3,7, do 2º Gr Comb)
e ainda 2 carpinteiros (na vida civil), entre eles um 1º cabo aux enf.
 
A CCAÇ 12, além de ficar desfalcado de seis importantes elementos operacionais (e dois grupos de combate desfalcados),  participou ainda indiretamente neste projeto.  criando as condições de segurança aos trabalhos.

Numa primeira fase estava previsto levar a efeito:
  • a desmatação do terreno;
  • a fabricação de blocos de adobe;
  • a construção de 300 casas de habitação com portas, janelas e cobertura de zinco;
  • a construção de equipamentos sociais  (1 escola, 1 mesquita, fontes, acessos, etc.).
(...) "Durante este período a CCAÇ 12 realizaria várias acções, montando nomeadamente linhas descontínuas de emboscadas entre os núcleos populacionais de Nhabijões, além de constantes patrulhas de reconhecimento e/ou contacto pop.

"A partir de janeiro/70 seria destacado um pelotão da CCS/BCAÇ 2852 a fim organizar a autodefesa de Nhabijões. Admitia-se a possibilidade do IN tentar sabotar o projecto de reordenamento, lançando acções de represália e intimidação contra a população devido à colaboração prestada às NT.

"A partir de abril de 1970, o reordenamento em curso passaria a ser guarnecido por 1 Gr Comb da CCAÇ 12. Na construção de novo destacamento estiveram empenhados o Pel Caç Nat 52 e a CCAÇ 12, a 3 Gr Comb, durante vários dias.

"A segunda fase do reordenamento (colocação de portas e janelas e cobertura de zinco em todas as casas, abertura de furos para obtenção de água, etc.) começaria quando o BART 2917 passou a assumir a responsabilidade do Sector L1 (em 8 de junho de 1970).

"A partir de julho, a CCAÇ 12 deixaria de guarnecer o destacamento de Nhabijões, tendo-se constituído um pelotão permanente da CCS/BART 2917 enquadrado por graduados da CCAÇ 12." (...)

 Uma estimativa grosseira do custo deste reordenamento aponta para 2700 contos, em 1972 (300 casas de zinco x 9 mil escudos) (**)

Nhabijões tem 63 referências no nosso blogue. É um dos topónimos míticos da guerra no leste. O reordenamento foi um dos maiores sucessos da política spinolista "Por Uma Guiné Melhor"... E era a menina bonita do general Spínola, parando com frequência lá.

Mas também pagámos (a CCAÇ 12 e a CCS/BART 2917) um alto preço por este êxito: recordemos as duas minas A/C accionadas no dia 13 de janeiro de 1971, vitimando mortamente o sold cond auto da CCAÇ 12, Manuel da Costa Soares, e ferindo, com gravidade, o alf mil sapador Luís Moreira (da CCS/BART 2917), os fur mil Joaquim Fernandes e António F. Marques (este, esteve dois anos no hospital), os sold Ussumane Baldé, Tenen Baldé, Sherifo Baldé, Sajuma Baldé (todos da CCAÇ 12, 4º Gr Comb) e ainda um soldado da CCS / BART 2917 (cujo nome não me ocorre agora).

No meu caso, foi o meu dia de sorte, ia na GMC, no lugar do morto, que accionou a segunda mina, a explosão deu-se n0 rodado duplo, traseiro, do meu lado.

_______________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 4 de novembro de 2023 > Guiné 61/74 - P24821: As nossas geografias emocionais (15): o reordenamento de Nhabijões (ou Nha Bidjon), 300 casas de zinco que terão custado mais de 2700 contos (c. 700 mil euros a preços de hoje), fora a mão-de-obra, civil e militar, e ainda os custos indiretos e ocultos

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27325: A nossa guerra em números (41): quantos eram os elementos do serviço de saúde por batalhão ? E por companhia ? Médico, enfermeiro, auxiliar de enfermeiro, maqueiro...


Guiné > Região de Bafatá >Sector L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) > Finete > Elementos da 1.ª secção do 2.º Gr Comb da CCAÇ 12 , num patrulhamento ofensivo ao Mato Cão, para montagem de segurança à navegação do rio Geba Estreito >

"Eu, Fernando Andrade Sousa, à esquerda, na primeira fila, com a mala de primeiros socorros, e a minha G-3 (nunca usei pistola), com malta de da 1ª secção do 2º Gr Comb, da CCAÇ 12. 

Além do Arménio Monteiro da Fonseca, de alcunha o "Campanhá" [que vive no Porto, em Campanhã], a secção era composta por: (i) soldado arvorado Alfa Baldé (Ap LGFog 3,7); e ainda os sold Samba Camará, Iéro Jaló, Cheval Baldé (Ap LGFog 8,9) [, à direita do Arménio), Aruna Baldé (Mun LGFog 8,9) [, à minha esquerda], Mamadú Bari, Sidi Jaló (Ap Dilagrama) (FF) [, dado como tendo sido fuzilado depois da independência], Mussa Seide, e Amadú Camará, todos fulas ou futa-fulas. Desta vez, o  comandante de  a secção foi  o fur mil arm pes inf Henriques [o nosso editor, Luís Graça], de óculos escuros, ao lado do Arménio". 

Foto (e legenda): © Fernando Andrade Sousa (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Crachá da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71)



1. Cada Batalhão  (Infantaria, Artilharia ou Cavalaria)  ou deveria ter, segundo as famosas NEP que ninguém conhecia:
  • quatro médicos (um por companhia);
  • quatro sargentos enfermeiros (um por companhia);
  • nove cabos auxiliares de enfermeiro (três por cada subunidade de quadrícula ou companhia operacional);
  • quatro maqueiros (só a CCS).
Na prática isso não acontecia, ou só muito raramente, vinham sempre desfalcadas de médicos e de 1ºs cabos auxiliares de enfermeiro. 

2. Pegando na História da Unidade do BCAÇ 4612/72 (Mansoa, 1972/74):

Constata-se que tinha 1 capelão (com o era a norma), mas não tinha médico quando chegou ao CTIG em 28/9/72 (o comando e a CCS) (com regresso a 27/9/1974).
  • a CCS levava um furriel enfermeiro;
  •  dois 1ºs cabos aux enf;
  • e dois sold maqueiros;
A 1ª C/BCAÇ 4612/71 desembarcou com:
  •  um fur mil enf;
  •  dois 1ºs cabos aux enf.
 A 2ª Companhia não tinha, originalmente, nem fur enf nem 1ºs cabos aux enf. 

A tinha um fur enf, e um 1º cabo aux enf.

Este batalhão vinha, pois, desfalcado de pessoal sanitário. Pelos complementos e recomplementos, que constam da história da unidade, vê-se que o pessoal de saúde teria maior taxa de turnover ou rotação... O então havia já, na metrópole, escassez deste pessoal...


3. Um batalhão, a que eu estive adido (de julho de 1969 a maio ou junho de 1970), o BCaç 2852 (Bambadinca, 1968/70), parecia ter o quadro orgânico completo:
  • a CCS tinha 3 médicos (mas eu só conheci um; também não tinha capelão);
  •  dispunha de um fur enf + um 1º cabo aux enf + 2 sold maqueiros (e ainda um 1º cabo de análise e depósito de águas);

Das companhias de quadrícula, a CCAÇ 2404, CCAÇ 2405 e CCAÇ 2406, verifico, pela história da unidade, que todas estavam dotadas de:
  • um fur enf;
  • três 1ºs cabos aux enf.
  • os soldados maqueiros só existiam nas CCS.
4. Outro batalhão, a que esteve adida a CCAÇ 12, o BART 2917 (Bambadinca, 1970/72) tinha, a CCS: 
  • 2 alferes médicos (mas eu, em meados de 1970, só conheci um) (trazia também um capelão, o nosso amigo Arsénio Puim);
  • 1 fur mil enf;
  • 1 cabo aux enf;
  • 4 soldados maqueiros;
  • 1 cabo analista de águas.
As CART 2714 (Mansambo)  e 2715 (Xime)  tinham,  cada um delas:
  • 1 fur mil enf;
  • 3 cabos aux enf.
A CART 2716 (Xitole) só dispunha originalmente de 1 fur mil enf + 2 cabos aux enf.


5. Descendo ao nível de uma subunidade, como a CCAÇ 12, companhia de recrutamento local, que foi subunidade de intervenção ao serviço do BCAÇ 2852  (Bambadinca, 1969/70) e depois do BART 2917 (Bambadinca, 1970/71)...

Em comentário à publicação do álbum de Fernando Andrade Sousa que foi 1º cabo aux enf, CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, entre maio de 1969 e março de 1971), e mora na Trofa
, já escrevemos aqui me tempo o seguinte:

É inacreditável como é que a CCAÇ 12, uma subunidade de intervenção, só tinha dois enfermeiros operacionais para alinhar no mato, aliás, dois 1ºs cabos aux enf, o Fernando Sousa e o Carlos Alberto Rentes dos Santos.

E este último só por pouco tempo, já que foi trabalhar como carpinteiro (!) no reordenamento de Nhabijões!... 

O 1º cabo aux enf José Maria S. Faleiro foi cedo evacuado para a metrópole, por doença infetocontagiosa (hepatite, segundo creio) e só muito mais tarde foi substituído pelo 1º cabo aux enf Fernando B. Gonçalves [de quem já nem me lembro a cara].

Os alf mil medicos e os furrieis mil enfermeiros (como era o caso do nosso João Carreiro Martins, de resto já enfermeiro na vida civil ) não alinhavam no mato (!), sendo cada vez mais absorvidos pelas tarefas de prestação de cuidados de saúde às populações civis!... E não tinham mãos a medir!

Spínola parecia confiar apenas no HM 241, nos helicópteros da FAP e nas enfermeiras paraquedistas que vinham fazer as evacuações Ypsilon!... 

Mas é legítimo perguntar-se: quantos camaradas nossos não terão morrido por falta de primeiros socorros e reanimação no mato?!... 

A vida ali contava-se ao segundo... 

E nenhum de nós, graduados, capitão, alferes, furriéis ou cabos, tinha aprendido na academia militar, ou recruta e na especialidade (tratando-se de milicianos ou praças do cointingente geral) a fazer um simples garrote para estancar um ferimento de bala numa perna ou num braço!... Muito menos administrar um soro... Ou dar uma injeção de morfina!... É que os enfermeiros também eram alvos a abater, no caso de uma emboscada no mato...

Nunca vi ninguém protestar por esta insólita situação. Aliás, protestava-se pouco. A nossa geração nasceu já com a canga em cima! A malta comia e calava
...

A política "Por uma Guiné Melhor" levou Spínola a "canibalizar", literalmente,  o seu próprio exército: alguns dos nossos melhores operacionais eram afetados a missões civis, como os reordenamentos, os postes militares escolares e os serviços de saúde! ... E mais: os nossos melhores operacionais (alferes e furrieis) iam para as "africanas"...

Spínola tinha pressa em "roubar" as populações ao PAIGC... Spínola sempre quis superar o Amílcar Cabral... Ficar na história da Guiné. E até de África. Não o deixaram, os capitães do MFA, fazer o referendo que ele tanto secretamente ambicionava. 

Não temos dúvidas que, taco a taco, ele ganharia ao Amílcar Cabral em 1972, antes de este ser assassinado. Miseravelmente, pelas suas próprias criaturas. 

Tinha os fulas e os manjacos e os felupes, a seu lado, e um parte dos balantas e mandingas e dos papéis. E a pouco e pouco reconquistaria o coração dos "guinéus". Era só uma questão de tempo... Mas ele tinha o tempo contra si!... O tempo histórico.  E depois do 25 de Abril de 1974, já era tarde... demais. 

Sim, Spínola queria conquistar os guinéus. Não pela força das armas mas pela força da razão e do coração. Ouvi este trocadilho por diversas vezes. 

Com a melhor das intenções, seguramente, mas a verdade é que Spínola e os spinolistas acabaram por desfalcar as companhias que andavam na "porrada"... 

Enfim, não sabemos  o que se passava com as tropas especiais,que tinham outro estatuto e poder reivindicativo... Seria interessante saber como estavam organizados os serviços de saúde nos destacamentos de fuzileiros especiais, nas companhias de comandos, no BCP 12...

Mais: a CCAÇ 12 é obrigada a participar diretamente no "projecto de recuperação psicológica e promoção social da população dos Nhabijões", ao tempo do BCAÇ 2852 (e depois do BART 2917), fornecendo uma equipa de reordenamentos e autodefesa, constituída pelos operacionais:
  • alf mil António Carlão (cmdt do 2º Gr Comb, transmontano, oriundo do CSM,  já falecido);
  • fur mil at inf Joaquim M. A. Fernandes (cmdt da 1ª seção do 4º Gr Comb; será ferido numa mina /AC à porta do reordenamento, em 1371/1971);
  • 1º cabo at inf Virgílio Encarnação (cmdt da 3ª seção do 4º Gr Comb);
  • sold arv at int Alfa Baldé;
  • (e adicionalmente) sold cond auto Manuel Costa Soares (morreu  na mesma mina A/C a 13/1/71 em Nhabijões; nunca conheceu a filha pequena que deixou na terra).

Foram tirar o respectivo estágio a Bissau, de 6 a 12 de Outubro de 1969, os quatro primeiros, estava  a CCAÇ 12 há três meses em Bambadinca, às ordens dos "veteranos" do  BCAÇ 2852...

Foram ainda requisitados à CCAÇ 12 dois carpinteiros, um  1º cab at inf (cujo nome ainda consegui saber) e próprio 1º cabo aux enf Carlos Albertos Rentes dos Santos.

A CCAÇ 12 tinham 24 operacionais (graduados e 1ºs cabos atiradores), 
metropolitanos ( os restantes eram especialistas), e uma centena de praças do recrutamento local, praticamente todos fulas,  distribuídos por 4 grupos de combate.

 Os especialistas, metropolitanos (condutores auto,  mecânicos, transmissões, cripto, enfermagem,  etc..) eram  menos de 4 dezenas elementos ( viemos todos, uns 60, no T/T Niassa em 24/5/ 1969; pertencia os á CCAÇ 2590).

Os 4 elementos operacionais brancos que são retirados à companhia (futura CCAÇ 12), representavam... um 1/6 do total!

Na prática, e durante muitos meses, o pobre do 1º cabo aux enf Fernando Andrade Sousa era o único a "alinhar no mato", dos 4 elementos iniciais da equipa de saúde!... (A CCAÇ 12 não tinha, de resto, soldados maqueiros, que só existiam nas CCS;  é possível que, por vezes, tenha alinhado o pessoal sanitário da CCS em operações a nível de batalhão.)

E o Fernando também tinha, além disso, de integrar as equipas de "ação psicossocial
" (!), por exemplo, as visitas às tabancas, vacinação, etc....

E mais: ia todos os dias para o posto de saúde quando estava em Bambadinca!... E ainda foi destacado, dois ou três meses, no princípio de 1970, para o Xime da CART 2520, que estava sem enfermeiro!...

Em conclusão foram homens como o Fernando Andrade Sousa, "marca car*lho...",, como se diz no Norte, que seguraram as pontas desta "p*ta... de guerra"!... 

Julgo que levou, no fim, um louvor, averbado na caderneta militar, como seria, de resto, da mais elementar justiça!... Era o mínimo que  o capitão lhe podia dar!

O Sousa vive na Trofa. E infelizmente não está  bem de saúde. Já não me reconhece quando lhe telefono. Era o campeão dos convívios anuais. Até há uns anos atrás não faltava a nenhum. É uma dor de alma, amigos e camaradas!
________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27321: A nossa guerra em números (40): em 1967, no CTIG, existiam 76 tabancas em autodefesa, 350 com armamento distribuído, e 20 mil "mausers" (c. 12 mil em mãos de civis)

sexta-feira, 14 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26582: As nossas geografias emocionais (48): Bissau, Bairro da Ajuda (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)



Foto nº 1A - Guiné > Bissau  Bairro da Ajuda > Outubro de 1967 > "Iniciado em 1965. Mandado construir por Sua Excelência o Governador da Província,  General Arnaldo Schulz, sob a direção da Administração do Concelho de Bissau". 


Foto nº 1 - Guiné > Bissau > Bairro da Ajuda > Outubro de 1967 > O alf mil SAM Virgílio Ferreira, mais um militar guineense, junto ao monumento que sinalizava a construção deste bairro suburbano.



Foto nº 2  - Guiné > Bissau > Bairro da Ajuda > Outubro de 1967 > Vista parcial do bairro (1)


Foto nº 2A  - Guiné > Bissau > Bairro da Ajuda > Outubro de 1967 > Vista parcial do bairro (2)


Foto nº 3  - Guiné > Bissau > Bairro de Santa Luzia > 1969 >  Estrada de Santa Luzia, ao cair da noite.


Foto nº 4  - Guiné > Bissau > Bairro de Santa Luzia  > Outubro de 1967 >  Uma moça cabo-verdiana com quem convivivi.


Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2025). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Bissau >  Planta de Bissau (edição, Paris, 1981) (Escala: 1/20 mil) > Posição relativa do bairro do Cupelon, ou "Pilão", como diziam os "tugas" (assinalado com retângulo a amarelo)... Hoje é conhecido como Cupelum. 

Fica(va) à esquerda da nossa conhecida estrada de Santa Luzia, portanto paredes meias com o QG/CTIG, em Santa Luzia... O Pilão fazia parte das nossas geografias emocionais... 

A noroeste,  a seguir a Missirá, no sentido de Brá e Bissalanca, ficava o bairro da Ajuda, reconstruído entre 1965 e 1968 (assinalado a azul), após um pavoroso incêndio. Do outro lado da estrada, era o HM 241.

A oeste e sudoeste da cidade, ficava Bandim (famosa pelo seu mercado a céu aberto) e Chão de Papel (onde nasceu o nosso querdido Estácio)
´
Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)



1. Mensagem do Virgílio Teixeira (ex-mil SAM, BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 19567/69):


Data - quinta, 27/02/2025, 02:08

 Luis, boa madrugada.

Acerca deste poste de hoje sobre as entranhas do Pilão e outras (*), estou a ficar confuso, acho que não há nada certo.

As pessoas devem saber pouco do assunto e alguns falam aquilo que ouviram e acrescentam 10 pontos.

Quem sabe mais disto do meu tempo sou eu, que tinha uma grande facilidade de transporte para percorrer aquilo tudo (**) e o Pilão em particular, ao ponto de lá ficar muitas noites, sozinho e nunca me aconteceu nada nem vi nada de estranho, mas ouvíamos falar!

Já estão a pôr o Pilão no bairro de Bandin à entrada da capital!

O bairro da Ajuda está aqui documentado, ficava perto do HM241,em frente, para  quem seguia para Bissalanca. Fiz uma visita pormenorizada ao novo Bairro, mas não sabia da tal explosão e fogo em 1965. (***)

O Pilão ficava atrás do Palácio do Governador, quem descia de Santa Luzia, ver foto, virava à direita e aí estava ele. Não sei se era preciso coragem ou não, na minha motoreta ia a todo lado sem depender de ninguém.

A minha ingenuidade levava aquilo que eu chamo de "as minhas loucuras na Guiné". Posso dar mais um contributo para a procura da verdade, que não é uma questão sagrada.

Isso dá trabalho e pode causar conflitos de interesse, tenho muitas histórias, umas de contar aqui e outras não é possível. E posso desiludir muita gente como a mim me desiludiram sobre o trabalho que tive com os CA dos BR no CTIG (****). (E não houve nenhum comentário ou pergunta a não ser da tua parte. Hoje já não o faria se soubesse o que ligavam a isso. Mas ficou escrito, coisa que nunca tinha pensado fazer.)

Temos de ter em atenção os períodos a que nos referimos e só respondo pelo meu tempo. Não havia nada que não fosse visitavel, eu além da vantagem de não depender de ninguém, não tinha mais ninguém a mandar em mim. Só as minhas motorizadas e a lanterna, além das câmaras fotográficas.

A minha pena, que não tem remédio,  é que centenas de fotos foram queimadas devido a um acidente doméstico, além das milhares de folhas de cartas que as perdi, à exceção de 5 que guardo. Ali tinha a minha história toda e hoje só aquilo que me lembro.

Ontem tive um dia cheio de acontecimentos, a começar pelos exames, TAC s e fui para a cama com uma grande dor de cabeça, que já passou. A ansiedade também mata!

Diz por favor o que achas do meu projecto a que chamo de "O Pilão do Meu Tempo". Acho que tive muita sorte no fim de tudo.

Agora passadas as coisas das guerras,  temos o que nos resta, aquilo que deixamos ficar com aquela boa gente..

São 2h da madrugada é quando tenho mais disposição para escrever.

Abraço, Virgílio.

2. Comentário do editor LG:

Virgílio, não gosto da expressão elistista, preconceituosa, "dar pérolas a porcos"... Quando fui professor, tinha colegas que me diziam isso, por causa da "minha excessiva" preocupação em dar textos de apoio (meus!) aos alunos...

A gente partilha o que sabe e pode, e a mais não é obrigado... Como editor do blogue, só tenho que agradecer a tua generosidade. Os interesses e conhecimentos dos nossos leitores são muito variados, leem e comentam o que lhes interessa... É verdade que  nem sempre os autores têm aqui o "feedback" que deviam merecer. Mas também temos que saber captar a atenção dos outros... 

Foi se calhar o caso do teu poste, que te deu tanto trabalho,  sobre os conselhos de administração dos batalhões de reforço no CTIG. Mas é como dizes, o assunto ficou documentado, é  menos  um buraco no "puzzle" da nossa memória da Guiné (que é uma manta de retalhos). 

A gente não está aqui para ganhar audiências.  Como dizes, e bem, "agora passadas as coisas das guerras temos o que nos resta, aquilo que deixamos ficar com aquela boa gente"... 

Por exemplo, considero um "achado" a tua foto no bairro da Ajuda,  tu posando junto à placa comemorativa do início daquele "reordenamento",  depois do incêndio de 1965. Claro que hoje já não está lá, deve ter sido sido vandalizada, destruída, arrancada.  Mas tudo tem uma história, princípio, meio e fim, e há por certo gente que lá vive e continua a adorar o seu bairro, que faz este ano 60 anos...

Já que tinhas uma motoreta e fizeste a  fotorreportagem possível da Bissau do teu tempo, pois então continua a partilhar connosco essas tuas memórias. Mas tens que aceitar que a maior parte de nós só conheceu Bissau "de passagem"... Eu, por exemplo, não sabia nada sobre  este e outros bairros populares, que cresceram com o êxodo provocado pela guerra: no teu tempo, a periferia de Bissau já teria mais de 30 mil habitantes... Hoje deve viver meio milhão de pessoas em Bissau, a maior parte em condições muito precárias...

Bissau, a Bissau, de ontem, hoje e amanhã, continuará a fazer a parte das nossas "geografias emocionais"... 

segunda-feira, 10 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26571: Notas de leitura (1779): Habitação para indígenas em Bissau, 1968 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Novembro de 2023:

Queridos amigos,
A cidade de Bissau que conheci em 1968 ganhou outra fisionomia quando lá estive a última vez, em 2010. Sou capaz de identificar as imagens deste artigo de 1968 e custa-me dizer o que senti quando percorri os bairros de Missirá, Santa Luzia e Militar, instalou-se o caos urbano, via-se à vista desarmada que o crescimento demográfico não era acompanhado de infraestruturas minimamente capazes. Não sei a que título o arquiteto Fernando Varanda estudou os bairros do tempo de Sarmento Rodrigues e Arnaldo Schulz, mas há que reconhecer que faz observações pertinentes e a sua crítica assentava num tipo de habitação aberto à convivência e ao diálogo interétnicos, já que, do que vira em Safim e no Biombo, as etnias revelavam-se fechadas e seccionadas. Fernando Varanda, como poderão ver no Google, teve uma lustrosa carreira internacional em vários continentes trabalhando em planeamento urbano. Pode dar-se o caso de quem trabalha no planeamento urbano na Guiné-Bissau ache interessante as suas propostas.

Um abraço do
Mário



Habitação para indígenas em Bissau, 1968

Mário Beja Santos

A revista Geographica, da Sociedade de Geografia de Lisboa, publicou no número relativo a julho de 1968 um trabalho do arquiteto Fernando Varanda (1941-2023), doutor em Geografia Urbana, com assinalável carreira internacional, um artigo intitulado “Um estudo de habitação para indígenas em Bissau”. 

Refere o autor que no propósito do seu estudo se visa um princípio de organização de habitação para as populações indígenas alojadas em Bissau em condições muito precárias. A guerra provocara um autêntico êxodo para os centros urbanos, a população negra de Bissau aumentara nos últimos 5 anos de 22 mil para 30 mil habitantes (números aproximados). Em Bissorã, a população era de mil habitantes antes do início da guerrilha, ascendia agora a 12 mil. Impunha-se, pois, encontrar soluções para integrar as populações que poderiam não mais voltar aos seus ambientes anteriores.

A população negra envolvia a cidade branca, eram cerca de 30 mil habitantes alojados em construções feitas de materiais de ocasião, a falta de alojamento era enorme, os preços incomportáveis. A população distribuía-se por zonas de afinidade étnica. Tomavam-se medidas administrativas para distribuir os alojamentos por colunas ao longo das vias principais de acesso, tinha-se em linha de conta a segurança das populações e a segurança militar.

O arquiteto começou por observar alguns aspetos da habitação urbana indígena em Bissau e nos arredores – povoações das etnias Papel, do Biombo, Mancanha e Balanta, em Safim. Verificou-se que as zonas habitacionais estavam sombreadas por árvores de grande porte; quanto às zonas suburbanas, fez-se a observação da zona dos Papeis do Biombo, a 60 km de Bissau e a zona dos Mancanhas e Balantas de Safim, a 15 km da cidade. 

O esquema de agrupamento é sensivelmente o mesmo: famílias que se agrupam numa morança, e conjunto de moranças, relativamente próximas, formando uma espécie de povoação. Cada morança tem, em média, de uma a seis famílias. A casa é de planta redonda, na sua forma mais tradicional. Mas por influência de costumes europeus caminha-se cada vez mais pela opção para a planta retangular ou quadrada.

Do inquérito efetuado abrangendo os regulados de Antula, Bandim, Intim, apurou-se haver sensivelmente 28,250 habitantes. O inquérito, na parte referente ao alojamento, foi dirigido a cerca de 200 chefes de família, amostragem pequena, verificou-se a composição do agrupamento familiar, os salários, o valor das rendas, quem tinha casa própria ou arrendada. 

As habitações são quase totalmente de planta retangular em Bissau, a área de cada casa era de cerca de 60 m2, excluindo quintais e zonas sanitárias. Cada casa tem entre quatro a seis divisões, servem de quartos. Os materiais de construção eram dos mais variados, veem-se casas de paredes de adobe e cobertura de folha de palmeira, veem-se outras com paredes em blocos de betão e cobertura de zinco e até de telha; o chão é de terra batida ou de cimento (este em caso de blocos de betão e cobertura de zinco). As instalações sanitárias e de banho existem foram de casa, nos chamados “cercados”. Não há esgotos, não há balneários ou retretes públicas. A cozinha existe no alpendrado ou no quintal. A água é fornecida por poços ou fontes abertas pela administração de Bissau. O mobiliário é escasso, camas ou esteiras, uma arca, bancos e cadeiras. 

Apenas os Fulas e Mandigas se mantêm fiéis às casas de planta circular, a planta retangular deve-se à influência europeia. Os espaços de convivência são praticamente inexistentes: cada família vive para si, dentro de casa ou ao alpendrado sempre existente, as crianças brincam na rua. Os arruamentos são os que a administração europeia criou.

Fernando Varanda analisa a solução apresentada pelas entidades administrativas e procede à sua crítica. O primeiro esquema de organização vinha do tempo do governador Sarmento Rodrigues, pretendeu-se, nessa altura, criar um bairro na estrada de Santa Luzia, uma casa por família, com dois quartos, sala, cozinha e instalações sanitárias, o projeto ficou na construção de umas 38 casas. 

Ao longo do tempo foi-se verificando uma infiltração progressiva de “palhotas” no meio das casas existentes. Estava em construção já muito avançada o bairro da Ajuda, a 6 km do limite da cidade, iniciativa de Arnaldo Schulz depois do bairro original ter sido destruído por um incêndio, em 1965; este bairro da Ajuda situa-se em frente ao Hospital Militar. 

O plano geral deste bairro era o seguinte: numa primeira fase, estavam já construídas 140 casas, numa área de 700 por 300 metros, isto num plano que incluía mercado, estabelecimentos comerciais, escola primária, posto médico, igreja católica, mesquita, centro social, cinema, lavadores públicos, oficina de carpintaria mecânica. São casas de planta quase quadrangular, com um alpendrado em toda a volta. A divisão interior da casa é uma sala grande, dois quartos, um quarto independente (para hóspedes), cozinha e instalações sanitárias, no alpendre.

Na admissão ao bairro privilegiava as vítimas do incêndio. A crítica de Fernando Varanda era de que no caso de Santa Luzia como no caso da Ajuda se escolher um planeamento urbano de régua e esquadro, dividindo regularmente uma área em retângulos e situando-a ao longo de uma grande via de comunicação. 

A solução não tem nada a ver com o sistema de vida em comunidade que faz parte da tradição guineense. Por tal razão, o arquiteto apresenta uma solução. Ele parte de um agrupamento de várias famílias, normalmente da mesma etnia, em disposição mais ou menos concêntrica, núcleo que está em relações de vizinhança próxima com outros. O conjunto de vários núcleos constituirá uma unidade dotada de equipamento próprio. A sua intenção era agrupar núcleos de 10 famílias em unidades de 6 núcleos, constituiria uma zona com serviços públicos bem definidos. As zonas separar-se-ão por amplos espaços verdes, tanto quanto possível naturais, com acessos próprios utilizáveis por viaturas. A intenção é proteger a intimidade dos habitantes permitindo-lhes a criação ou a continuação das suas estruturas tradicionais, mas também para abrir caminho a uma aculturação progressiva e compreendida.

Os núcleos eram concebidos em torno de uma origem de água, o espaço central serviria para recinto de convívio diário entre as famílias. E justifica a essência da sua solução que era a de visar a possibilidade de poderem habitar próximo três tipos de famílias: pequena, média e grande, em que a pequena terá 3 ou 4 elementos e a maior poderá ir dos 12 aos 15. 

Diz ter optado por uma forma poligonal de planta, faz-se assim convergir a vida de cada casa para um pátio interior alpendrado. Justifica dois tipos de casas, conforme a dimensão familiar; as paredes seriam em betão de adobe, assentes sobre uma fundação em betão ciclópico sobre-elevada, para evitar a entrada de água das chuvas no interior da habitação; a cobertura seria em folha de palmeira. Era propósito do arquiteto dar toda a facilidade aos habitantes para serem eles próprios a construir as suas casas, fornecia-se a planta base, o tipo geral de construção, permitindo aos habitantes que adequassem as suas casas à sua maneira de viver.

A evolução dos acontecimentos alterou tudo, os planeadores urbanos que me ditem as soluções propostas por Fernando Varanda como forma de criar condições confortáveis nos bairros caóticos que hoje existem em Bissau. É um estudo que vale como propósito de um tempo, mas a visão do arquiteto, conceituado geógrafo urbano, é merecedora da observação de todos aqueles que pretendem dar mais dignidade à vida dos habitantes em Bissau e em todos os outros aglomerados.

Estrada de Safim, as novas edificações, construídas pela administração. Quilómetros de casas em duas filas largamente separadas por uma faixa de trânsito para veículos
Morança Mancanha (estrada de Safim – embora de um tipo já decadente, aqui ainda é possível a vida com um certo intimismo e conforto). Foram aldeamentos deste tipo que a administração substituiu
Biombo, casa Papel. Trata-se de um agrupamento cuja unidade é a função da unidade familiar. Constrói-se um núcleo; aumentando a família, outro se ergue ligado por um alpendre
Bairro de Santa Luzia, a estrada passa junto à margem esquerda
Bissau, zona indígena, Chão Papel
Cupelom de Baixo
Cupelom de Cima
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Nota do editor

Último post da série de 7 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26561: Notas de leitura (1778): Philip J. Havik, um devotado historiador da Guiné: Negros e brancos na Guiné Portuguesa (1915-1935) (4) – 1 (Mário Beja Santos)

domingo, 9 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26567: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (55): Rachar cibes para a cobertura para a minha casa de praia, em Varela, que ardeu



Vídeo 0' 15'' > Trabalho da execução das rachas de cibe.
Até parece fácil...o martelo pesa de 15 a 20 kg
O rachador usa duas cunhas, uma em madeira e outra em metal...



Foto nº 1 > Guiné- Bissau > Região Cacheu > Varela > Catão > 5 de março de 2025 > Casa felupe (1)



Foto nº 2 > Guiné- Bissau > Região de  Cacheu > Varela > Catão > 5 de março de 2025 > Casa felupe (2)


Foto nº 3 > Guiné- Bissau > Região Cacheu > Varela > Catão > 5 de março de 2025 > Casa felupe > Troféus...Na foto, da varanda de uma casa Felupe...podem ver (desta vez) diversas queixadas de porco...(Fazem parte do cerimonial do pedido de casamento das meninas de 6 ou 7 anos aos respetivos pais, pelos rapazes com 18 a 20 anos, mas os casamentos só são celebrados quando elas têm 20 anos !)



Fotro nº 4 > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Varela >   Maio de 2021 > A minha casa ao entardecer, às 6h30



Foto nº 5 > Guiné- Bissau > ERegião Cacheu > Varela > 5 de março de 2025 > A minha "datcha" felupe... E tudo o fogo levou...







Foto nº 6B, 6A e 6 > Guiné- Bissau > Região Cacheu > Varela >  5 de março de 2025 > Rachar cibes, para a cobertura da minha casa (1)



Foto nº 7 > Guiné- Bissau > Região Cacheu > Varela >  5 de março de 2025 > Rachar cibes, para a cobertura da minha casa (2)





Foto nº 8 e 8A > Guiné- Bissau > Região Cacheu > Varela >  5 de março de 2025 >  Os famosos cibes...

 Vídeo e fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Português, natural de Águeda, da colheita de 1947, criado desde criança em Nova Lisboa, hoje Huambo, Angola, ex-fuzileiro em Angola (1969/72), a viver na Guiné-Bissau desde 1984, fundador, sócio-gerente e ex-director técnico da firma Impar, Lda; é um "histórico" nossa Tabanca Grande (que integra desde 6/1/2006): é o português que melhor conhece a Guiné e os guineenses; é o nosso "embaixador" em Bissau, colaborador permanente para as questões de ambiente, geografia e economia, autor da série "Bom dia, desde Bissau" (*)



1. O Ribeiro Patrício mandou-nos, no passado dia 5,  uma série de fotos da sua morança,  em Varela, que está  a ser reconstruída, depois de consumida pelo fogo, além de um pequeno vídeo sobre o trabalho de "rachar cibes", com cunha  e martelo...


Luis: Tentei enviar algumas fotos que não sei se passaram todas, a Net em Varela não é uma ciência excata. ciência exata.

As fotos nº 1 e 2 mostram casas felupes em Catão, nos arredores de Varela.

Na foto nº 3, na varanda de uma casa Felupe, podem ver (...desta vez) diversas queixadas de porco...São usadas nas cerimónias de  pedido de casamento das meninas de 6 ou 7 anos aos respetivos pais, pelos rapazes com 18 a 20 anos... (Mas os casamentos só são celebrados quando elas têm 20 anos !)
 
Na foto nº 4 (tirada em maio de 2021), eis  como era minha querida palhota na praia de Varela... Ardeu, com o fogo que veio do mato sem controle....Eis o que resta, ao fim de 27 anos, da minha casa de praia (Foto nº 5)... A palha é bonita...mas aconteceu também a uma tabaca Felupe próxima. Este ano tem estado vento muito forte, são as alterações climáticas.

Estou a reconstrui-la. E ficam a saber como se arranja "rachas de cibes" (que eram utilizadas nos reordenamentos). É a forma, muito antiga, de arranjar barrotes para cobrir as casas. É um trabalho difícil, duro (Fotos nºs 6 e 7).  O produto final  serve para cobrir 90% das casas da Guiné (Foto nº 8).

Envio também um pequeno vídeo. Até parece que é fácil rachar cibes...Mas  martelo pesa de 15 a 20 kg.
 
Fiquem também com uma informação metereológica: Carnaval em Varela durante o dia, 28 graus, à noite muito, frio 18 graus... Para quem não tem roupa quente passa mal.