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domingo, 26 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27954: O PIFAS, de saudosa memória (20): relembrando aqui o "senhor primeiro" Silvério Dias e a "senhora tenente" Maria Eugénia, figuras carismáticas do programa radiofónico das Forças Armadas (Rep ACAP / QG / CCFAG, 1969/74)


A mascote do Programa [de Informação] das Forças Armadas (PIFAS), da responsabilidade da Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica (Rep ACAP / QG / CCFAG). A mascote do PIFAS... tem pai(s): segundo informação do João Paulo Dinis, um dos locutores do programa em 1970/72, o pai da "ideia" foi o fur mil Jorge Pinto, que trabalhava no QG, ideia a que depois deu corpo um outro camarada, o José Avelino Almeida, cuja companhia estava em Mampatá e Aldeia Formosa...

Imagem cedida pelo nosso camarada Miguel Pessoa, cor pilav ref (ex-ten pilav, Bissalanca, BA 12, 1972/74).



Alguns de nós lembram-se do filme, "Good Morninbg, Vietanm"  (EUA, 1981, 121 m, a cores) (em portuguès, "Bom Dia, Vietname).  (Cartaz: cortesia da Wikipedia)

Sinopse: 

Em 1965, o DJ Adrian Cronauer, protagonizado pelo grande ator cómico  Robin Williams (1951-2014), é recrutado para dirigir o programa de rádio das forças armadas norte-americanass  no Vietname. 

Irreverente, ele agrada aos soldados, mas enfurece Steven Hauk, um segundo-tenente e superior imediato de Cronauer, que tinha uma necessidade enorme de provar que era o "patráo". Movido pela inveja e ciumeira, ele tenta lixar o Cronauer, mas a sua popularidade é tal que é protegido pelos altos escalões.


 Guiné > Bissau > PFA (Programa das Forças Armadas), o popular Pifas > c. junho de 1971 > Noite 7 (Emissão especial aos sábados).

Na foto, o 1º cabo José Camacho Costa e o 1º srgt Silvério Dias. Reconhecem-se do na gravação, excertos musicais de Carlos do Carmo, José Mário Branco, Beatles e outros... Faz-se referência á chegada do homem à lua, à guerra no Laos e no Camboja, e dá-se a notícia da flagelação, à cidade de Bissau, com foguetões 122 mm de origem russa (em 9 de junho de 1971)... O Pifas era considerado mais "liberal" do que a EN - Emissora Nacional, a "voz do regime".

[Ouvir aqui o compacto aúdio, de Garcez Costa, antigo locutor.  Vídeo (6' 31''): Alojado em You Tube > Nhabijoes ]

Foto (e ficheiro áudio): © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Silvério Dias, que acaba de falecer (*), soube aproveitar o talento de jovens radialistas (militares) (como o  José Camacho Costa, o Dias Pinto, o Garcês Costa, o João Paulo Dinis, o Armando Carvalhêda, etc.), era o "senhor Pifas", por antonomásia (**). 

A sua bela e potente voz era conhecida por toda a gente, pela tropa (em Bissau e no mato) bem como pela população civil. O programa era o nosso "Good Morning, Vietnam!", salvaguardadas algumas diferenças substanciais e o contexto.

Silvério Pires Dias (Vila Velha de Ródão, 1934 - Oeiras, 2026) esteve à frente do programa de rádio das Forças Armadas Portuguesas (PFA ou PIFAS, como era conhecido popularmente, Bissau, Rep ACAP /QG /CCFAG, de 1969 a 1974).

Trabalhou com "capitães de Abril" como Ramalho Eanes e Otelo Saraiva de Carvalho, depois de ter feito  em 1967/69 uma comissão de serviço  na CART 1802 (Nova Sintra, 1967/69). Veja-se aqui a ficha de unidade.


2. Ficha de unidade > Companhia de Artilharia n.º 1802

Identificação: CArt 1802
Unidade Mob: RAL 3 - Évora
Cmdt: Cap Mil Art António Nunes Augusto | Cap Art Luís Fernando Machado de Sousa Vicente  | Cap Mil Art Emílio Moreira Franco
Divisa: "Honra e Glória"
Partida: Embarque em 280ut67; desembarque em 02Nov67 | Regresso: Embarque em 23Ag069.

Síntese da Actividade Operacional

Em 03Nov67, seguiu para Farim a fim de efectuar a instrução de adaptação operacional sob orientação do BCaç 1887 e, seguidamente, reforçar temporariamente, este batalhão numa série de operações realizadas no sector respectivo.

Em 10Dez67, recolheu a Bissau, a fim de integrar as forças de intervenção e reserva à disposição do Comando-Chefe, tendo tomado parte em diversas operações em reforço de vários batalhões, nomeadamente na região de Ponta do Inglês, na operação "Grão-Duque", em reforço do BCaç 1888 e na região de Choquemone, nas operações "Bolo Rei" e "Buzinar Novo", em reforço do BCav 1915, entre outras.

Em 11Jan68, foi deslocada para S. João, onde substituíu um pelotão da CCaç 1566 e desenvolveu a actividade de reconhecimentos, patrulhamento e batidas na área e abertura e limpeza de itinerários, com vista à criação do subsector de Nova Sintra na zona de acção do BArt 1914. 

Em 06Mai68, assumiu então a responsabilidade deste novo subsector de Nova Sintra, com um pelotão destacado em S. João.

Em 030ut68, foi substituída, por fracções, pela CCav 2484, seguindo para Bissau, a fim de colmatar anterior saída do CArt 1689 no dispositivo do BCaç 1911 e colaborar na segurança e protecção das instalações e das populações da área.

Em 12Mar69, iniciou o deslocamento por pelotões para os destacamentos de Pelundo e ilha de Jete, tendo em 18Mai69 substituído, totalmente, por troca, a CCaç 1683, como força de intervenção e reserva do sector do BCaç 2845, com a sede em Teixeira Pinto.

Em 29Abr69, por criação do subsector respectivo, foi colocada em Pelundo, mantendo um pelotão destacado na ilha de Jete e continuando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 2845; em O1Ju169, por alteração dos limites dos sectores, passou à dependência do BArt 2866 e depois do BCaç 2884.

Em 06Ag068, foi rendida no subsector de Pelundo pela CCaç 2586 e recolheu temporariamente a Bula, onde se manteve até à véspera da data de embarque, seguindo então para Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

Observações - Não tem História da Unidade. Tem Resumo de Factos e Feitos (Caixa n." 124
- 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 456/457.


Maria Eugénia e Silvério Dias, em 2017. Foto de LG (*)

3. Numa entrevista ao programa da Antena 1, Reportagem Tarde, em 11/2/2024, o Silvério Pires Dias e a esposa Maria Eugénia Valente dos Santos Dias contam, à  Sílvia Mestrinho, como acabaram por trabalhar na rádio.



O Pifas - Silvério Pires Dias era militar de carreira na Guiné e, meio por acaso, acabou aos microfones da rádio. Memórias contadas à jornalista Sílvia Mestrinho | 11 fev 2014 (vd.ficheiro aúdio aqui)

 
4. O "senhor primeiro" e a "senhora tenente" são figuras lendárias desses tempos da rádio, e do programa que ficou comnhecido por Pifas. (Poderia ter- se chamado"Bom Dia, Guiné!".)

E,m 1969, o Silvério Dias, já 1º srgt art, acabou por tornar-se "o homem por trás da voz", o "senhor Pifas".

Era conhecido pelo seu  lado  humano e proximo,  pela sua empatia, e pela sua bela voz...Daí o epíteto de “senhor Pifas” entre a tropa. Depois da guerra acabou por ficar em Bissau como civil (delegado de propaganda médica) e mais tarde em Portugal manteve uma veia literária, com o blogue “Poeta Todos os Dias”. (Publicou inclusive, em 2017, um livro de poesia.)


A "senhora tenente" (Bissau, c. 1970/72)
 Foto de Garcês Costa  (2012)
A referência à “senhora tenente” também é mais que justa: Maria Eugénia (bastante mais nova do que ele, e com quem casou em 1960, e de quem um filho, Manuel Valente, a viver na Dinamarca):  era uma rapariga "alta e esbelta", com vinte e poucos anos quando se juntou ao marido em Bissau, por volta de 1969 (provavelmente no fim da comissão na CART 1802). 

Tornou-se, por sugestão de Ramalho Eanes (que em 1969/71,chefiava  o Serviço de  Radiodifusão e Imprensa), um elemento fundamental da equipa,  quase uma extensão emocional do "senhor Pifas", sobretudo na gestão dos aerogramas que os ouvintes (nomeadamente militares) enviavam ao programa) e na resposta aos “discos pedidos”, mas também quando aparecia no mato com o "senhor primeiro" para fazer uma reportagem ou para gravar as mensagens de Natal. ( O material era depois montado no estúdio, uma vivenda em Bissau; não havia emissões em direto.)

O Silvério Dias (e a Maria Eugénia, que era uma simples civil, que envergava camuflado e usava galões de tenente, com a cumplicidade dos responsáveis da Rep ACAP)  foram duas figuras agregadoras,  um belo par que fazia companhia à distância, pelas ondas hertzianas,  aos homens no mato.

Na realidade, o Pifas foi  mais que um programa de rádio. O PFA / PIFAS (Programa das Forças Armadas) era emitido a partir de Bissau e tornou-se de algum modo lendário. 

Silvério Dias, nesta entrevista à Antena 1, não esconde a razão de ser da sua criação, que  era obviamente política. Mas também sublinha que a sua função principal era, de facto, o entretenimento da tropa e a elevação do seu moral.

Era, igualmente, a ligação afetiva com a metrópole, a terra, a casa (através de cartas, mensagens, música). Tinha, por fim, um papel de ação psicossocial (integrado na estrutura militar e  na prossecução da política spinolista "Por uma Guiné Melhor"). 

Não era por acaso que o Pifas  era gerido pela Rep ACAP (Repartição dos Assuntos Civis e Acção Psicológica). 

A Rep ACAP/QG/CCFAG, na Amura, era uma das 4 repartições do Com-Chefe. Era responsável por conquistar a população local ("ganhar corações e mentes") através de apoio social, educação, saúde, melhorias de infraestruturas, informação e  propaganda (como o programa de rádio Pifas). 

A Rep ACAP articulava-se  com a estratégia de Spínola de "portugalizar" a Guiné, focando-se na ação psicológica e no apoio à população civil para contrariar a influência do PAIGC. Incluía a organização de manifestações de apoio à política do Governador, prestação de cuidados de saúde, administraçao,   ensino, distribuição de medicamentos e alimentos (nomeadamenmet arroz) e, claro, propaganda radiofónica, destacando-se nesse papel o Pifas (Programa de Informação das Forças Armadas).

Esta repartição funcionava no âmbito do Quartel General do Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné (QG/CCFAG), sob o comando direto de Spínola, e era uma estrutura fundamental na "guerra de contrassubversão"

Falaremos, noutro poste, dos conteúdos típicos do programa, que tinha três emissões diárias, e era feito em instalações próprias do QG/CCFAG, numa vivenda,  na Av Arnaldo Schulz. Incluíam discos pedidos (o coração do programa), leitura de aerogramas e mensagens pessoais, música da época (pop portuguesa e internacional), conversa leve, humor, notícias culturais. Diz a Maria Eugénia na entrevista que os discos mais pedidos eram os do conjunto Maria Albertina e a Valsa da Meia-Noite"...

 Há quem defenda que o Pifas era o equivalente português de “Good Morning, Vietnam!”. E a afirmação não anda longe da verdade, embora haja diferenças substanciais.

O impacto psicológico nas NT era grande. Era ouvido pelas NT, pelo IN e pela população. Do lado dos nossos militares, há  testemunhos que sugerem que “uma hora do Pifas" podia ser tão ou mais importante que uma carta ou aerograna da família.

Se quisermos, um programa radiofónico como o Pifas, em contexto de guerra e de isolamento da tropa,   tinha efeitos positivos: criava rotina num ambiente "caótico" (que era a vida em tempo de guerra no mato); humanizava a guerra; dava sensação de pertença (“alguém que falava para nós”); enfim, era ouvida em todo o lado, de Bissau a Buruntuma, do Cacheu a Cacine, nos quartéis e destacamentos do mato,  mas também nas messes e  repartições de Bissau,  na BA 12 em Bissalanca, nas embarcações da marinha, nas tabancas, etc,

Havia alguma liberdade criativa, mais solta (e até com alguma irreverência) do que a rádio em Portugal, a Emissora Nacional, mas sempre com limites de censura (e sobretudo autocensura, como disse o Armando Carvalheira).  Misturava informalidade com disciplina militar, Silvério Dias recebia instruçóes do Ramalho Eanes e mais tarde Otelo. 

Tinha até uma feliz “mascote” (o boneco do Pifas), uma espécie de "branding" avant la lettre.
 
Conhece-se alguma coisa da estrutura e dinâmica do programa, embora, e ao contrário do universo popularizado por "Good Morning, Vietnam!", o Pifas tenha ficado muito menos documentado e estudado de forma sistemática. Temos uma série, que merece ser revisitada, "O PIFAS., de saudosa memória" (de que se publicaram até agora 20 postes) (*)
 
O PIFAS (Programa de Informação das Forças Armadas) surge no contexto da governação de António de Spínola na Guiné (1968–1973), integrado numa estratégia mais ampla de ação psicológica: comunicação interna com as tropas, e com populações locais. Não era apenas rádio, articulava-se com um sistema de comunicação militar com várias vertentes: emissões radiofónicas, folhas informativas / boletins, semanário, cinema itinerante, campanhas cívico-militares, etc.

A rádio dentro do PIFAS: a componente radiofónica existia, mas não era uma “estrela solitária” como no caso americano. Funcionava mais como: 
  • rádio de apoio às tropas (música, muito dela pedida pelos ouvintes, militares e vivis), dedicatórias (“para o aquartelamento X, do camarada Y…”), mensagens de apoio moral;
  • informação controlada: notícias filtradas sobre a guerra,  relatos de operações com tom positivo, ausência de críticas ou ambiguidade;
  • ligação emocional: leitura de cartas, referências à “metrópole”, reforço da ideia de missão e camaradagem, humor,  notícias deptortivas,  chave do totoloto, etc.
Aqui nota-se a diferença entre o Pifas e o "Good Morning, Vietnam!": não havia espaço para figuras “à Robin Williams”, irreverentes ou disruptivas.
 
O Pifas (que emitia em protuguès, crioulo e principais línguas nativas) estava muito ligado à doutrina de “ganhar corações e mentes”, semelhante (em teoria) ao que os EUA também tentavam no Vietname sem sucesso (ao que parece).

Mas no caso português havia especificidades... Era uma programa mais "institucional"; integração com a política do “Portugal plurirracioal e pluricontinental”; tentativa de legitimar a presença histórica portuguessa na Guiné; dirigido em simultâneo aos militares e à população guineense (incluindo a que se encontrava sob controlo do PAIGC). Ou seja, não era só entretenimento, era  guerra psicológica estruturada.

O conhecimento sobre o Pifas vem sobretudo de memórias de militares (como as recolhidas no nosso blogue) (*), alguns estudos sobre ação psicológica na guerra colonial, documentação militar dispersa

Lamentavelmente, falta o arquivo sistemático das emissões, O  estudo académico aprofundado da rádio militar portuguesa e a comparação internacional detalhada (com o que foi feito noutras guerras coloniais...).

Com base nos testemunhos que temos, uma emissão típica do Pifas poderia soar assim: (i) abertura com música do filme "2001 - Odisseia no Espaço",; (ii)  locutor com voz vibrante mas mais sóbrio que o Robin Williams no filme "Good Morning, Vietname!", em todo o caso próximo do ouvinte; (iii)  leitura de mensagens entre unidades, notícias “positivas” de operação recente,  informaçáo desportiva, humor, etc.; (iv) fecho com música ou saudação...

Sem sarcasmo, sem confronto, mais próximo de uma “rádio de companhia disciplinada" do que de um palco criativo. Até por que o Silvério Dias, embora fosse um "homem da palavra", não era propriamente um radialista em 1969. 

O PIFAS foi discreto, mas importante, estruturado, mas pouco estudado, eficaz em alguns aspetos do moral da tropa, mas limitado pelos constrangimentos da hierarquia militar e pela censura. Mesmo assim, mais "liberal" do que a Emissora Nacional (EN), que era a voz do regime.
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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27945: In Memoriam (578): Silvério Pires Dias (1934 - 2026), o "senhor Pifas", por antonomásia, radialista do Programa das Forças Armadas em Bissau (1969/74), faleceu no passado domingo, aos 91 anos; era casado desde 1960 com a Maria Eugénia, a "senhora tenente"


Oeiras > Galeria-Livraria Municipal Verney > 4 de março de 2017 > 15h00 - 16h30> A antiga equipa que deu voz e alma ao PIFAS (Programa de Informação das Forças Armadas): o primeiro sargento Silvério Pires  Dias (nosso grã-tabanqueiro nº 651) e a famosa "senhora tenente", a sua esposa.Matria Eugénia. 
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Foto tirada na sessão de lançamento do livro de fotografia, da autoria de Jorge Ferreira, "Buruntuma: algum dia dia serás grande!... Guiné, Gabu, 1961-63" (edição de autor:  Oeiras, 2016; impressão: Jotagrafe - Artes Gráficas Lda)...    A apresentação esteve a cargo do nosso editor Luís Graça.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Silvério Pires  Dias  (Vila Velha de Ródão, 1934- Oeiras, 2026). Viveu nove anos na Guiné, desde 1967 a 1976, os últimos dois como "delegado de propaganda médica", e cinco locutor e apresentador na rádio das Forças Armadas, gerida pela Rep ACAP / QG / CCFAG.



Silvério Dias, ex-2º sargt art, CART 1802, Nova Sintra, 1967/69; 1º srg art, locutor do PFA - Programa das Forças Armadas, Bissau, Rep ACAP,/QG/CCFAG, 1969/74m

Fotos : Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



A mascote do Programa [de Informação] das Forças Armadas (PIFAS), da responsabilidade da Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica Rep ACAP / QG / CCFAG. Autor da imagem:  (até à data) desconhecido. Imagem cedida pelo nosso camarada Miguel Pessoa, cor pilav ref (ten pilav, Bissalanca, BA 12, 1972/74).

Silvério Dias, que os jovens radialistas (militares) (como o Garcês Costa, o João Paulo Dinis,  o José Camacho Costa, o Armando Carvalheda, etc.)  tratavam por "paizinho", era o "senhor Pifas", por antonomásia. A sua bela e  potente voz era conhecida por toda a gente, pela tropa (em Bissau e no mato) bem como pela população civil e inclusive pelo IIN   O programa era o nosso "Good Morning, Vietnam!".


1. Através do formulário de contacto do Blogger, soubemos, pelo João Paulo Dinis, do falecimento (*) do nosso camarada Silvério Dias.  A notícia foi-lhe dada pelo "pifaniano" Jorge Varanda,  e conformada pela própria viúva, Maria Eugénia, a nossa conhecida "senhora tenente".

Segundo a sua página no Facebook, o Silvério Dias tinha orgulho nas suas raízes beirãs:  (i) nasceu em 19 de agosto de 1934, em Sarnadinha, Vila Velha de Ródão;  (ii) frequentou a Escola Industrial Machado de Castro, Lisboa; (iii) fez careira militar (passou pela Índia, Moçambique e Guiné);  (iv) vivia em Oeiras; (v) era casado e tinha pelo menos um filho, Manuel Valente vive na Dinamarca.
 
No CTIG, o Silvério Dias  esteve como 2º srgt art, CART 1802 (Nova Sintra, 1967/69) e depois, por convite, como 1º srg Art, locutor do PFA, Bissau QG/CCFAG, 1969/74 (onde trabalhoou na Rep ACAP com, entre outros oficiais,  Ramalho Eanes e Otelo Saraiva de Carvalho). Como  civil, foi delegado de propaganda médica, em Bissau (1974/76). 

Disse ele: 

(...) Para descrever as minhas (memórias), diria que só num livro de muitas páginas. Basta referir que "por lá andei" (na Guiné ) durante 9 (nove) anos, de 1967 a 1976. Granjeei amigos de todas as etnias e credos, admiradores ouvintes do PFA. e agradecimentos pelo bem-fazer, na minha condição de Delegado de Propaganda Médica, após abandono voluntário do Exército. (...) (**).

Era nosso grão-tabanqueiro nº 651 (desde 24/3/2014),  e um  caso extraordinário de "resistência e resiliência" contra os "males da idade"...Tem c. 3 dezenas de referências no nosso blogue.

Tinha deixado, infelizmente, de nos dar notícias, depois do último convívio da malta do Pifas no "Páteo Alfacinha", em Lisba, em 9/9/2023, com a presença do general Ramalho Eanes (***).

Tinha então 89 anos completados em 18 de agosto. Ainda me desafiou para aparecer, o que não me foi possível por estar fora de Lisboa. Um das últimas vezes que o vi, terá sido em Oeiras, na Galeria-Livraria Municipal Verney, em 4 de março de 2017, na apresentação do livro do Jorge Ferreira.

Editava o blogue "Poeta Todos Dias" ( criado em janeiro de  2011). E todos os dias, publicava um, dois, três, quatro , cinco ou seis apontamentos poéticos (em geral, quadras populares, sobre temas do quotidiano). Foram mais de 15 mil postes, até quase ao final de 2023. O blogue (ainda "on line") tem c. de 700 mil visualizações. 

Publicou em vida o livro de poesia "Neste lugar onde nasci" (2017).

 À viúva, filho, demais família e amigos "pifanianos", o nosso abraço de solidariedade na dor pela perda deste camarada, que foi um referência para muitos de nós que passámos pela "Spinolândia".



Lisboa > Páteo Alfacinha > 31 de maio de 1985 > Convívio do pessoal do emissor regional da Guiné e do PFA - Programa das Forças Armadas.

Foto: © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



 Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas, c. junho de 1971 > Noite 7 (Emissão especial aos Sábados).

Na foto, o 1º cabo José Camacho Costa e o 1º srgt Silvério Dias. Reconhecem-se excertos musicais de Carlos do Carmo, José Mário Branco, Beatles e outros... Faz-se referência á chegada do homem à lua, à guerra no Laos e no Camboja, e dá-se a notícia da flagelação, à cidade de Bissau, com foguetões 122 mm de origem russa (em 9 de junho de 1971)... O Pifas era considerado mais "liberal" do que a EN - Emissora Nacional, a "voz do regime".

[Ouvir aqui o compacto aúdio, de Garcez Costa, antigo locutor.  Vídeo (6' 31''): Alojado em You Tube > Nhabijoes ]

Foto (e ficheiro áudio): © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27880: In Memoriam (577): Mário Magalhães (1937-2026), membro da Tabanca da Linha e da Tabanca Grande, ex-srgt mil, CCAV 252 (Bafatá, Nova Lamego, Buruntuma, Bula, Caió, Mansabá e S. Domingos, 1961/63)



O nosso "veteraníssimo" Mário Magalhães (1937-2026), membro da Tabanca da Linha e Tabanca Grande (nº 742), ex-srgt mil da CCAV 252 (Bafatá, Bula, Mansabá e S. Domingos, 1961/63).




Tabanca da Linha > 34º almoço-convívio > Algés > Restaurante "Caravela de Ouro" > 16 de novembro de 2017 > Da esquerda para a direita, o Jorge Ferreira e o Mário Magalhães,  na altura já membros, recentes, da Tabanca Grande. O Jorge Ferreira, que passou a frequentar a Tabanca da Linha, no almoço-onvívio nº  32 ( Riviera Hotel, Carcavelos, 20/6/2017) deve ter trazido o  Mário Ferreira (que se estreou no almoço-convívio nº 34, aqui no Caravela d'Ouro, Algés).

Foto (e legenda): © Manuel Resende (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Oeiras > Algés > Restaurante "Caravela de Ouro >36º Convívio da Magnífica Tabanca da Linha > 22 de março de 2018 > Da esquerda para a direita, Jorge Rosales (1939-2019) e Mário Magalhães (1937-2026), dois meninos da Linha, dois veteraníssimos da guerra da Guiné, 


Foto (e legenda): © Manuel Resende (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].




Leiria > Monte Real > 25 de maio de 2019 > XIV Encontro Nacional da Tabanca Grande >  Mário Magalhães, o veteranos dos veteranos da Guiné, mais a esposa, Fernanda (Sintra)«

Foto: © Manuel Resende  (2019). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1.  Soubemos, pelo Manuel Resende, régulo da Magnífica Tabanca da Linha (que se vai reunir no próximo dia 16, para o seu 64º almoço-convívio), da morte recente (*), em finais de janeiro, do nosso veteraníssimo Mário Magalhães, membro da Tabanca Grande (nº 742, desde  12/4/2017) e Tabanca das Linha (desde 16/11/2017) (**), ex-srgt mil da CCAV 252 (Bafatá, Bula, Mansabá e S. Domingos, 1961/63). Tinha 88 anos.

Eis algumas notas biográficas do nosso camarada:

(i) data de nascimento: 13 de setembro de 1937;

(ii) estado civil: casado:

(iii) habilitações literárias 7º ano do liceu;

(iv) teve dois períodos de serviço militar: 
um 1º período, de 7 de abril de 1959 a 7 de março de 1961 (Escola Prática de Cavalaria, Curso de Sargentos Milicianos; BA 4, Açores, Polícia Aérea); e um 2º período, em que foi reintegrado,  em 6 de junho de 1961, no CIOE, Lamego, sendo entratanto mobilizado para a Guiné em agosto de 1961,  como furriel miliciano da CCAV 252;

(vi) até novembro de 1963, passou por Bafatá, Nova Lamaego, Buruntuma, Bula, Caió e S. Domingos; e ainda por Bula, Binar,Caió, Mansoa, Farim, Olossato, Oio/Morés, Susana, Varela, S. Domingos, Ingoré, etc.;

(vii) foi promovido a 2º srgt mil em 28/2/1963;

(viii) a sua subunidade, a CCAV 252 teve um louvor coletivo do comandante-chefe, o brigadeiro Fernando Louro de Sousa (**).

(ix) esta subunidade foi a primeira, da arma de cavalaria, a chegar à Guiné; mobilizada pelo RC 3, Estremoz, partiu em 10/8/1961 e regressou a 6/11/1963; esteve sediada em Bissau, Bula, São Domingos e Bula; o seu 1º comandante, o  cap cav António Lopo Machado Carmo   morreu em combate em 14/3/1963, nas proximidades de São Domingos; foi condecorado com a Cruz de Guerra de 2ª Classe; foi substituído pelo cap cav Luís Alberto do Paço Moura dos Santos.

2.  Para a família e amigos mais próximos, vão as condolênicias da Tabanca Grande. 

Ontem dei a triste notícia ao Jorge Ferreira, nosso grão-tabanqueiro nº 728,  contemporâneo do Mário no CTIG: o Jorge foi alf mil, 3ª CCAÇ (futura CCAÇ 5, "Gatos Pretos", a partir de meados de 1967), tendo passado por  Bolama, Nova Lamego e Buruntuma, 1961/63); o fur mil cav Mário Magalhães comandava o destacamento de Buruntuma, ainda antes da chegada do Jorge Ferreira (em outubro de 1961).
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Notas do editor LG:

quinta-feira, 26 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27860: In Memoriam (576): Fafe também teve os seus heróis, entre eles o meu amigo e companheiro de escola, Coronel José Augusto Nogueira Ribeiro (1940-2017) (Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro)

IN MEMORIAM



Coronel José Augusto Nogueira Ribeiro
(Fafe, 6 de Janeiro de 1940 - Guarda, 8 de Janeiro de 2017)




Milhares, muitos milhares de jovens perderam uma boa parte da sua juventude ao longo da guerra colonial.

Fafe, como todo o país, respondeu ao chamamento e muitos por lá deixaram a vida ou vieram estropiados.

Fafe também teve os seus heróis, sendo de destacar o meu amigo e companheiro de escola, Coronel José Augusto Nogueira Ribeiro que, com a devida vénia, aqui exalto, valendo-me do livro “Os últimos Guerreiros do Império”:




Alf mil Nogueira Ribeiro, 4ª CCAÇ,
Bedanda, c. 1964/66.
Arquivo do blogue Luís Graça
& Camaradas da Guiné
(i) nasceu na freguesia de São Gens, concelho de Fafe em 6 de Janeiro de 1940 e faleceu na cidade da Guarda, cidade que adotou, em 8 de Janeiro de 2017;

(ii) aluno inteligente e vivo, frequentou a escola primária da freguesia, seguindo os estudos no Seminário Diocesano de Braga até ao 7.º ano;

(iii) continuou estudando, agora no Ensino Secundário em Guimarães e no Porto; foi aluno da Faculdade de Direito de Lisboa até ser incorporado no Serviço Militar;

(iv) em 1963, como Oficial Miliciano, foi mobilizado para o CTI da Guiné-Bissau onde cumpriu a primeira comissão até Maio de 1966, na 4ª CCAÇ (Bedanda, 1964/66) (futura CCAÇ 6, a partir de 1967):

(v) em1967-1969 cumpre a segunda comissão na Região Militar de Moçambique;

(vi) regressado à Metrópole, é colocado no RI 5 (Caldas da Rainha) de onde segue para mais uma comissão, desta vez, Angola, 1973-1975;

(vii) em Agosto de 1974 ingressou no Quadro Especial de Oficiais (QEO) e em 1975 foi colocado no Batalhão de Infantaria da Guarda e, de 1979 a 1990 no Batalhão de Infantaria Mecanizada da 1.ª Brigada Mista Independente; nesse período, mais propriamente, em 1983, foi promovido, por distinção, ao posto de Major;

(viii) foi ferido duas vezes em combate.

(ix) recebeu várias condecorações, como:

- Grau de Oficial da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, de Lealdade e Mérito, com Palma;
- Medalha da Cruz de Guerra de 2ª. Classe;
- Medalha da Cruz de Guerra de 3ª. Classe, Medalha de Cruz de Guerra de 4ª. Classe;
- Medalha de Mérito Militar de 2.ª. Classe;
- Medalha de Mérito Militar de 3.ª. Classe;
- Medalha da Ordem de Aviz – Grau de Cavaleiro;
- Medalha de Prata de Comportamento Exemplar;
- Medalha de Ouro de Comportamento Exemplar;
- Medalhas Comemorativas das Campanhas da Guiné, de Moçambique e de Angola;
- Prémio Governador Geral da Guiné e 22 louvores, 12 dos quais em Combate.

Manuel Barros Castro
Fafe, 24 de Março de 2026.


domingo, 8 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27805: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça) (3): O beijo, tardio, da Pátria: para o António Lobo Antunes que ontem se despediu da Terra da Alegria...

Capa, à direita da edição do semanário Visão, de 27 de setembro de 2007, em que o escritor António Lobo Antunes (1942-2026) deu uma notável entrevista a Sara Bela Luís sobre "A Vida Depois do Cancro" (Vd. a antiga página, não oficial, do escritor, recuperada pelo Arquivo.pt: https://arquivo.pt/wayback/20081023014032/http://ala.nletras.com/)


1. Comentários dos nossos leitores aos postes P27802 e P3003 (*):

(i) Joaquim Costa
Subscrevo. Esta geração vai a chegar ao fim sem o tal beijo!
sábado, 7 de março de 2026 às 16:05:39 WET

(ii) Hélder Sousa

Muito oportuna esta repescagem. E que bem escrito! E que comovente! Só não se comoverá quem não conseguir "sentir" os ambientes. E, sim, a geração vai seguir o seu destino sem "beijos de despedida" pelo Poder. Mas talvez até seja bem melhor assim, sem falsidades, sem hipocrisia.
saábado, 7 de março de 2026 às 16:38:55 WET

(iii) Alberto Branquinho
(...) Vamos ver se conseguimos saber o número do micro-ondas para verificar se ainda mora lá alguém? (...)
sábado, 7 de março de 2026 às 17:37:37 WET

(iv) Abilio Duarte
Simplesmente bonito...que este camarada Lobo Antunes, descanse em paz.
sábado, 7 de março de 2026 às 18:15:38 WET

(v) Santos Oliveira
Também me correm algumas lágrimas, Graça Abreu, de alguma raiva e muita desilusão, pela minha impotência de não ver a minha Pátria, em nome de quem lutámos e morremos, ter dignidade para reconhecer, sem panaceias, o que é de plena justiça. Grato, Graça Abreu, por nos trazeres ao de cima as palavras do A.Lobo Antunes. No fundo, são uma âncora que nos amarra a uma esperança, e que, para nós, será a última a morrer.
segunda-feira, 30 de junho de 2008 às 18:49:00 WEST 

(vi) Hélder Sousa
Muito obrigado amigo A. Graça Abreu por teres tido a lembrança de colocares à disposição de todos (assim o entenderam, e bem, os nossos editores) este belo, duro e comovente artigo do Lobo Antunes. O raio do homem escreve mesmo bem e, quanto a entender estes sentimentos de quem andou "a batê-las lá longe", no mato, "onde o sol castiga mais",  é duma sensibilidade e acutilância, envolvida na crueza das situações, que é mesmo como se ainda estivesse tudo fresco.
terça-feira, 1 de julho de 2008 às 00:11:00 WEST 



2. Nenhum de nós, aqui, no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, seria levado a sério se escrevesse o que António Lobo Antunes escreveu, na sua crónica habitual na revista 
Visão, edição de 19 de Junho de 2008, a propósito dos antigos combatentes,  e que o nosso António Graça de Abreu em boa hora repescou, replicou e nos pediu para publicar (*):

"Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa!"...

O antigo alferes miliciano médico do BART 3835 (Angola, 1971/73) e em 2008 já famoso, aquém e além fronteiras, como escritor, põe o dedo na ferida da guerra colonial, ainda longe de ter sarado. 

Aliás, mesmo mais de meio século depois, é uma ferida que custa a sarar. O país espera que morramos todos, uns atrás dos outros ou então em massa, na próxima pandemia que há de vir: quando morre o bicho, morre a peçonha. 

Mas é aqui que o António Lobo Antunes, que também andou pelo "cu de Judas", volta bater na tecla do abandono e da ingratidão da Pátria em relação aos seus antigos combatentes. 

Para além do que o António Graça de Abreu, oportunamente acrescentou (*), apraz-nos registar mais o seguinte, podendo todavia esse mais parecer se redundante e até irritante (**).

2. Esta crónica do Lobo Antunes, já com 18 anos, não perdeu atualidade e também não passou despercebida a alguns de nós. 

Para além da sua beleza literária,  há aqui mágoa e dor que só quem viveu a guerra colonial pode compreender na sua plenitude. Não importa por onde passou (Angola, Guiné, Moçambique, Índia Portuguesa, Timor...). (Dor e mágoa que outros portugueses de antanho também sentiram e expressaram, com ironia ou sarcasmo,  de Camões ao padre António Vieira.)

Em homenagem ao camarada e ao escritor que ontem se despediu da Terra da Alegria (e que em vida sobreviveu a 3 cancros), permitam-me,  os nossos caros  leitores,  que destaque alguns pontos-fortes do texto (ou dos excertos que foram republicados) (*):

(i) A fraternidade dos "irmãos de armas"

Lobo Antunes não idealiza a guerra, mas também não nega a fraternidade que ela cria (ou criou, no seu/nosso caso) entre homens que, de outra forma, nunca se teriam cruzado em África 

A expressão "irmãos de armas" não é uma figura de retórica: é literal. E é talvez até vez mais do que irmãos de sangue, diz ele. 

O texto aca por ser um hino a esses laços de camaradagem que sobrevivem ao regresso a casa, à "peluda", à solidão, e até à miséria, à doença, ao esquecimento.

 O Cabo Sota, o "Pontinha", o Zé Jorge... são todos heróis anónimos, cujas vidas o país esqueceu, mas cujas histórias o Lobo Antunes (e nós, aqui, no Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné) nos recusamos a deixar apagar.

Quem passou pelos vários teatros de operações (Angola, Guiné, Moçambique, mas também Índia Portugues, Timor-Leste...) sabe bem o que é essa fraternidade forjada no fogo e, em muitos casos, no abandono. 

A guerra não escolheu lados, escolheu vítimas, e os que sobreviveram, carregam, de algum modo, a marca dessa irmandade até hoje.

(ii) O humor não como arma de arremesso como escudo protetor:

A cena do "Pontinha" e do microondas é de uma comicidade trágica. O "Pontinha" não tem telemóvel... "Não meu furriel, mas a minha mulher tem um microondas."

É o humor (desconcertante) dos que não têm nada, dos que sobrevivem à custa de muito pouco, incluindo os que entretanto morreram precocemente, sem abrigo, sem saúde, e que mesmo assim encontra(ra)m forma de rir. 

 Os antigos combatentes dão provas, nos seus convívios, nos seus testemunhos (orais e escritos) da notável capacidade, própria do ser humano, que é de rir do absurdo, muitas vezes para não chorar.

Lobo Antunes usa o humor, a ironia, o sarcasmo para "desarmar a dorm", para exorcizar os pesadelos... Não é por acaso que o texto termina com a piada do microondas: é uma forma de dizer que, apesar de tudo, a vida continua, mesmo que seja à custa de um electrodoméstico (empresta)dado. Afinal, hoje quem não é o pobre diabo que não tenha um telemóvel?!


(iii) A crítica ao abandono

"Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa."

Esta frase é um murro no estômago. É a denúncia de um país que usou os seus filhos como moeda de troca numa guerra sem sentido, que as elites, o poder político (e militar), sabiam (ou tinham a obrigação de saber) que estava a ser feita no "beco sem saída da História" ) e depois os atirou para o caixote do lixo quando já não serviam ou chegavam ao fim do prazo de validade.

Sabemos do que fala Lobo Antunes, explícita ou implicitamente: a falta de liderança política, de lucidez histórica, de visão estratégica da guerra., mas também de "genuino amor" pelos seus soldados portugueses, guineenses, cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos, etc., que, na guerra, deram o seu melhor (e,  mais de 10 mil, a vida). 

 Quem lá esteve, sabia, de maneira mais lúcida ou mais confusa, o que era esse beco sem saída em que nos atolámos.

Mas não posso deixar de destacar o comentário final do nosso António Graça de Abreu, quando também evoca (e exorta) os combatentes da Guiné-Bissau que estiveram nos dois lados da barricada:

(...) "Camaradas de Portugal e da Guiné, depois de ler este texto, duas grossas lágrimas correram-me pelo rosto. Que o nosso País nos 'beije antes de nos deitar fora e nos peça desculpa'. Que a vossa Guiné-Bissau vos beije também, 'antes de vos deitar fora e vos peça desculpa.'

Sem complexos nem traumas de colonialista, sem complexos, sem traumas de colonizado, vamos ler outra vez o texto do António Lobo Antunes". (...)


E conclui: "Depois, vamos adormecer em paz."

Obrigado, Lobo Antunes, obrigado, Graça de Abreu. É uma frase que reconhece que a dor não foi só de um lado.  Quantos guineenses, fulas, balantas, mandingas, biafadas, papéis, manjacos, etc., de um lado e do outro, não foram usados e deitados fora!

Em muitos casos, o "beijo da Pátria" já virá tarde, se algum dia chegar a vir...

(iv) Nem santos nem heróis

Lobo Antunes recusa a glorificação da guerra. Aqui não há heróis aqui. Há apenas homens. "Eram duros"; eis o maior elogio que se pode fazer.  Não há medalhas, não há discursos pomposos, não há paradas do 10 de junho. Há apenas a resistência silenciosa de quem aguentou o que ninguém deveria ter aguentado, ao longo de tanto tempo...

Para ele, que era médico e, de algum modo, um marginal-secante, a guerra é um absurdo, e aquela guerra um absurdo prolongado. A verdadeira coragem não estava, por isso, nos feitos de guerra, mas na capacidade de sobreviver a ela sem perder o rosto humano, a  humanidade. Lobo Antunes sabia que a guerra não cria santos,  cria homens quebrados, mas também homens que, apesar de tudo, se recusam a deixar de ser humanos.
 
(v) O legado de Lobo Antunes 

Lobo Antunes, nesta crónica (e noutras ocasiões) (***),  deu voz aos que a não tinham. Lobo Antunes, com a sua prosa poética, polifónica, cortante e genial,  faz o que nós aqui fazemos (ou procuramos fazer), discretamente, sem o talento dele.  que é impedir que o esquecimento apague o que não pode ser apagado, é recusar a "vala comum do esquecimento", é reivindicar o direito à memória, é exercer o direito de memória.

No final, apetece-me, sem imodéstia, repescar e refrescar o meu velho poema "Quando o Niassa apitou três vezes" (que remonta a 24-29 de maio de 1969)...Tanto este poema como a crónica do Lobo Antunes aqui citada falam da mesma coisa: da partida, do regresso, e dos que ficaram pelo caminho, mas também dos que voltaram, sem nunca terem realmente regressado (nesta, como de resto em todas as guerras, é bom que se diga!).
 _______________


Vd. também poste de 30 de junho de 2008 > Guiné 63/74 - P3003: Blogoterapia (58): Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa (António Lobo Antunes / A. Graça de Abreu)

(***) Vd. por exemplo poste de 9 de outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2169: Antologia (63): Zé, meu camarada, eras um dos nossos e cada um de nós um dos teus (António Lobo Antunes, Visão, 4 Out 2007)

sábado, 7 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27802: In Memoriam (575): António Lobo Antunes (1942-2026): "Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa" (seleção de uma crónica de 2008, por António Graça de Abreu)


António Lobo Antunes (1942-2026) (*)
Foto: Cortesia de Instituto Camões (2018). com a devida vénia.
Editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa

por António Lobo Antunes / António Graça de Abreu


Caríssimos tertulianos, camaradas e amigos:

António Lobo Antunes, enorme escritor, foi alferes médico no leste e centro de Angola, de 1971 a 1973.  Na sua crónica na revista Visão, ontem, quinta feira, a 19 de Junho de 2008, escreveu:

(…) Todos os anos a minha companhia lá da guerra [CART 3313 / BART 3835, Angola, 1971/73] faz um almoço com os que sobejam da miséria em que andámos. 

Não neste último almoço, no penúltimo, o furriel Firmino Alves começou a anotar os telemóveis dos nossos camaradas para os contactos da refeição seguinte, até que chegou ao 'Pontinha'. 

'Pontinha' é a alcunha do ordenança da messe de oficiais, que morava na Pontinha. Como a cabeça dele era grande (continua a ser grande), chamavam-lhe também 'Porta-aviões', porque dava para os aviões aterrarem.

O 'Pontinha', como muitos dos soldados, vive com dificuldades. Ao fim de semana engraxa sapatos para equilibrar o orçamento.

(…) Falar dos meus camaradas comove-me: a expressão irmãos de armas é tão verdade. Enquanto nos aguentamos por cá. Mesmo depois. Zé Jorge, continuamos irmãos de armas. Cabo Sota: admiro a tua coragem até ao fundo da alma. Sozinho com a Breda, uma metralhadorzeca, aguentou um ataque. E vive mal, percebem? Como se deixa viver mal um herói? Ao acompanhá-lo ao táxi em que voltava, doente, ao Alentejo, avisei o condutor:

- Você leva aí um grande homem, sabia, um dos maiores homens que conheço e, como todos os grandes homens da guerra, de uma infinita modéstia, bondoso, sereno. Não lhe chego aos calcanhares. Cabo Sota, tu mereces a continência de um general. O Zé Luís, oficial de operações especiais que em matéria de coragem não necessitava de aprender com ninguém:

- Eram duros

expressão que constitui para nós o supremo elogio. Adiante. Contava eu que o furriel Firmino Alves anotava os telemóveis até que chegou ao 'Pontinha' e como fizera com os outros perguntou:

- Tens um telemóvel, 'Pontinha'?

E o 'Pontinha' logo a mostrar serviço:

-Não, mas a minha mulher tem um microondas.


(…) Boaventura, Nini, Licínio, vocês todos, caramba, como a gente somos irmãos. Unamuno, que muito respeito, tem páginas admiráveis sobre a valentia dos portugueses. 

Tens razão, Zé Luís, eram duros. Ganas de explicar às mulheres deles, aos filhos deles, o orgulho que tenho em ser amigo dos pais, em que os pais sejam meus amigos. Não: irmãos de armas. Não: irmãos. E bons como o pão. 

Ao lado disto que maior elogio se pode fazer? Ao menos que o País os beije antes de os deitar fora e lhes peça desculpa. E há mais anjos para além dos padeiros, de arma nas unhas mata fora. 

Nenhum deles é banqueiro, claro. Nem administrador. Nenhum deles joga golfe. Jogaram golfe num campo de um só buraco onde não é a bola que cai. É um rapaz de vinte anos.

E acabo aqui, antes que seja tarde para marcar o número de um microondas. (...)


Camaradas de Portugal e da Guiné, depois de ler este texto, duas grossas lágrimas correram-me pelo rosto. Que o nosso País nos “beije antes de nos deitar fora e nos peça desculpa”. Que a vossa Guiné-Bissau vos beije também, “antes de vos deitar fora e vos peça desculpa.”

Sem complexos nem traumas de colonialista, sem complexos, sem traumas de colonizado, vamos ler outra vez o texto do António Lobo Antunes.

Depois, vamos adormecer em paz.

Um abraço,
António Graça de Abreu
S. Miguel de Alcainça,

20 de Junho de 2008
Ano do Rato
________________

Nota do editor  L.G.:

(*) Último poste da série > 6 de março de 2026 >
Guiné 61/74 - P27801: In Memoriam (574): António Lobo Antunes (1942-2026): até sempre, camarada! (Luís Graça)

sexta-feira, 6 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27801: In Memoriam (574): António Lobo Antunes (1942-2026): até sempre, camarada! (Luís Graça)


António Lobo Antunes, alf mil médico,
Angola, c. 1971/73, nosso camarada
antes de ser escritor famoso.
Foto: arquivo da família, com a devida vénia,
editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas
da Guiné (2026)


1. O António Lobo Antunes morreu ontem, dia 5, quinta feira, aos 83 anos (*). 

Um dia, daqui a uns anos, vai ter honras de Panteão Nacional, a avaliar pelas homenagens que o país e as suas elites lhe estão a prestar. 

Hoje o seu corpo está em câmara ardente, desde as 16h00, na Igreja de Santa Maria de Belém, no Mosteiro dos Jerónimos, um privilégio que é só para os nossos "maiores". O Governo decretou um dia de luto nacional em sua homenagem. Vai ser amanhã, dia em que se realiza o seu funeral.

Vai ser também condecorado, a título póstumo, com o Grande-Colar da Ordem de Camões, 
por serviços relevantes à língua portuguesa e à projeção  da cultura lusófona no mundo. Como sabemos, foi durante  anos e anos um "nobelizável", um candidato ao Nobel. 

Como alguém disse (o editor e escritor Francisco José Viegas, entrevistado ontem pelo "Diário de Notícias"), não foi o Lobo Antunes que perdeu o Nobel, foi o Nobel que perdeu o  Lobo Antunes. Como perdeu muitos grandes escritores universais, desde o russo Tolstói ao irlandês James Joyce, do argentino José Luís Borges ao  nosso Fernando Pessoa (os suecos têm uma desculpa: não podiam adivinhar o que estava lá dentro, no seu baú)...

Segundo a RTP,  e de  acordo com a agência funerária responsável, as cerimónias fúnebres realizam-se, sábado,  a partir das 10h00, com a celebração de uma missa de corpo presente,  pelas 12h00.

 O funeral seguirá depois para o cemitério de Benfica, em Lisboa, o bairro onde ele nasceu e cresceu, e que é também uma das fontes primordiais das suas memórias.

Recorde-se que o António Lobo Antunes  (um de seis irmãos de uma "ínclita geração") foi nosso camarada, tendo cumprido o serviço militar como alferes miliciano médico, em Angola, no BART 3835 (1971/73), e tendo ficado com uma ligação muito especial à malta da CART 3313.

O título deste poste pode parecer  ser pretensioso: "até sempre, camarada!"... Mas, não, não estamos a pôr-nos no pedestal, à boleia desta triste notícia necrológica: afinal, ele foi nosso camarada, mesmo sendo o Dr. Lobo Antunes, e antes de ser um escritor famoso, tendo cumprido o serviço militar como alferes miliciano médico, em Angola, no BART 3835 (1971/73). Ficou com um ligação muito especial ao pessoal da CART 3313. E emocionava-se ao falar, em público, dos seus camaradas de armas.

Contrariamente ao que alguns pensam ou opinam, ele não foi o chefe de fila da literatura da guerra colonial, embora a guerra colonial seja um tema recorrente e obsessivo dos seus livros (e são mais de 4 dezenas). Mas, se não fosse a guerra, muito provavelmente ele nunca teria sido o escritor que foi (e é, porque as suas obras vão sobreviver à sua morte física).

Mas todos reconhecemos que os seus primeiros livros tiveram um efeito de catarse na nossa geração de antigos combatentes, surgidos a partir de 1979, com Memória de Elefante, Os Cus de JudasConhecimento do Inferno (1980), Explicação dos Pássaros (1981)..., obras marcadas pela sua experiência da guerra e pela sua prática clínica como jovem psiquiatra. 

Tornou-se, de facto, o escritor de cabeceira de muitos de nós, nessa época. Nós, que com o 25 de Abril, tínhamos posto uma pedra em cima do vulcão das nossas memórias da guerra, da sua violência e do seu absurdo.

Temos 33 referências no nosso blogue ao António Lobo Antunes, e nem uma ao José Saramago, outro "mal-amado", o que não representa qualquer discriminação. Simplesmente, o José Saramago (1922-2010) não tinha vivências de (nem escritos sobre) a  guerra colonial. Era mais velho, era da geração dos nossos pais. (Referências, acrescente-se, que são, em boa parte, devidas às notas de leitura do nosso crítico literário, o Mário Beja Santos.)

Por estes dias vai-se falar, "ad nauseam!", do escritor e do homem, o António Lobo Antunes, que em vida tinha fama de "enfant terrible".  Muitos que o detestavam (sem nunca o terem lido...), vão pô-lo agora no altar da Pátria. Tem acontecido a todos os nossos grandes escritores. De Camões a Fernando Pessoa. É sempre assim, na hora da morte, ou muitos anos mais tarde (no caso de Pessoa). A morte  tem o condão, em Portugal, de fazer uma besta passar a bestial....

Conheço histórias (e anedotas) da vida dele (e algumas deliciosas mas impróprias para meninos de coro), porque ambos estávamos ligados à saúde, e de algum modo modo à psiquiatria, e ao Hospital Miguel Bombarda. E porque Lisboa é (ou ainda era nos  anos 80/90) uma aldeia. A relação do escritor com a sua "corporação" nunca foi fácil. Afinal, ele era um iconoclasta e um exorcista. Mas em 1986 os seus romances já eram "best-sellers".

A última vez que o vi, já depois da pandemia de Covid-19, foi num hospital privado, onde fui fazer um teste de avaliação neuropsicológica de diagnóstico precoce e diferencial de demências (sempre mais vale prevenir do que remediar, camaradas...).

Fiquei chocado de o ver: passou por mim, ia numa cadeirinha de rodas, empurrada por familiares, entubado, cabisbaixo, ao longo do corredor. O verdadeirpo retrato da nossa miserável condição humana. Bolas, não fomos feitos para sofrer e morrer (nem para matar...), dizia ele, nas inúmeras  entrevistas que deu. No elevador, encontro depois, nessa mesma tarde, a descer comigo no elevador, um outro grande escritor, o poeta algarvio Nuno Júdice (1949-2024), que morrerá uns tempos mais tarde... 

Escrevi no meu bloco de notas, nesse dia: "se calhar escrever, é isso mesmo, uma ilusão de eternidade, um combate (sempre desigual) contra a morte, o esquecimento, o absurdo da vida".

Fui repescar também o que escrevi sobre ele, no nosso blogue, há quase 20 anos atrás:

(...) "O Lobo Antunes conheceu, no Hospital de Santa Maria, aos 65 anos, a terrível e frágil condição do doente oncológico... 

Em março de 2007 deixou-se operar por um amigo de longa data. Ele próprio revelou, em crónica publicada na Visão (12 de Abril de 2007) e ainda escrita no hospital, que estava a lutar (mal) com um cancro...

Na crónica da última semana, publicada na Visão (4 de Outubro de 2007), evoca com grande ternura e com o seu talento de escritor genial o seu camarada Zé, que terá falecido recentemente em brutal acidente de viação na autoestrada de Cascais. Dele diz: 'África ficou para sempre dentro de ti, a roer-te, e deu cabo da tua vida'...

A crónica começa assim, dando a melhor definição que eu alguma vez li sobre o que é ser um camarada. Só o Lobo Antunes poderia escrever isto:

'Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes. Eras meu camarada, que é uma palavra da qual só quem esteve na guerra compreende inteiramente o sentido: não é bem irmão, não é bem amigo, não é bem companheiro, não é bem cúmplice, é uma mistura disto tudo com raiva e esperança e desespero e medo e alegria e revolta e coragem e indignação e espanto, é uma mistura disto tudo com lágrimas escondidas' (...). (**)

Nunca o conheci na intimidade, mas apenas como figura pública, e esporadicamente nas feiras do livro de Lisboa. Não fazia parte da Tabanca Grande. Nem nunca poderia fazer parte. Além de nunca  ter escrito sobre a Guiné, ao que eu saiba (nem por lá ter passado), não tinha, ao que se consta, email, computador ou telemóvel (nem carro)...

Não deixava por isso de ser nosso camarada, naturalmente ilustre. Tivemos aqui algumas picardias, de que ele nunca teve conhecimento porque também não nos lia, mas também nos demos conta, rapidamente, de que o mal-entendido foi nosso, que não o sabíamos ler nem tresler (***).
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 5 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27796: In Memoriam (573): Rui Manuel da Silva Felício (Coimbra, 09/10/1944-Ericeira, Mafra, 26/02/2026): Cerimónia fúnebre, hoje, às 14 horas, na igreja de Santa Marta de Casal de Cambra e cremação, amanhã, às 14 horas, no Complexo Funerário de Casal de Cambra

(**) Vd. poste de 6 de outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2161: Pensamento do dia (12): Camarada, uma palavra que só quem esteve na guerra entende por inteiro (António Lobo Antunes)

(***) Vd. poste de 25 de setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7034: Carta aberta a... (4): Camarada (de armas) António Lobo Antunes (António Graça de Abreu)

quinta-feira, 5 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27796: In Memoriam (573): Rui Manuel da Silva Felício (Coimbra, 09/10/1944-Ericeira, Mafra, 26/02/2026): Cerimónia fúnebre, hoje, às 14 horas, na igreja de Santa Marta de Casal de Cambra e cremação, amanhã, às 14 horas, no Complexo Funerário de Casal de Cambra


Rui Manuel da Silva Felício (09.10.1944-26.02.2026) (*)


1. Foto e informação da página do Facebook de Alina Lagoas, da filha do nosso já saudoso Rui Felício /1944-2026):

As últimas homenagens serão realizadas na Igreja de Santa Marta de Casal de Cambra, concelho de Sintra, a partir das 14 horas, quinta-feira dia 5 de março.

A cerimónia de despedida será na sexta-feira dia 6, pelas 14 horas,  na mesma igreja, seguida de cremação no Complexo Funerário de Casal de Cambra.

Agradecemos a todos que puderem comparecer a prestar a última homenagem.

Rosantina Felicio 
e Alina Lagoas
__________________

Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 26 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27773: In Memoriam (571): Rui Manuel da Silva Felício (1944-2026), ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Dulombi e Galomaro, 1968/70): natural de Coimbra, vivia na Ericeira, Mafra; era um dos sobreviventes do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão, em 6/2/1969)