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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27702: Os nossos capelães (20): José Júlio Antunes (1939 - 2025), ex-alf grad capelão, BART 6523/73 (Nova Lamego, 1973/74): pertencia à diocese da Guarda (Ricardo Figueiredo)




Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Cabuca > 2ª CART /BART 6523/73 (1973/74) > c. 1973 >  Missa campal, rezada pelo alf grad capelão José Júlio Antunes. A assitsir ao ato religioso, estaria ao todo uma meia centena de militares. 

Não sabemos o mês, mas deve ser do início da comissão. O Carlos Boto ainda estava lá.   O BArt 6523173 rendeu em 8/9/73 o BCav 3854, assumiu a responsabilidade
do sector L3 com sede em Nova Lamego. lª Comp: Madina
Mandinga; 2ª Comp: Cabuca; e 3ª  Comp: Nova Lamego.


S/l > S/d> Convívio da 3ª CART / BART 6523/73 (Cabuca, 1973/74) > O Ricardo Figueiredo (à esquerda) e o padre José Júlio Andrade, à entrada do restaurante. Terá sido a último vez ques e encontraram. De acordo com o blogue "Abustres de Cabuca", a malta 2ª Companhia só ao fim de 34 anos é que se encontrou, uns tantos elementos, almoço da 3ª Companhia, 6.9.2008 em Vilar do Pinheiro. Nesse encontro apareceu tanto antigo comandante,ex-cap mil Franquelim Vaz.


Fotos ( e legendas)o: © Ricardo Figueiredo (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Padre José Júlio Andrade (1939 - 2025). 
Foi alf grad capelão no CTIG, de 9/3/73 a 18/9/74. 
Esteve em Nova Lamego, com  o BART 6523/73 (1973/74)


1. A notícia é da Agência Ecclesia, a que só agora tivemnso acesso:


Guarda: Faleceu o Padre José Júlio Antunes
6 Novembro, 2025 11:06

Guarda, 06 nov 2025 (Ecclesia) – A Diocese da Guarda comunica o falecimento do padre José Júlio Antunes, nascido a 25 de maio de 1939, natural do Casal de Cinza, naquela cidade

Filho de António Joaquim Antunes Morgado e Maria Justina, o padre José Júlio frequentou os Seminários Diocesanos do Fundão e da Guarda entre 1951 e 1963, onde se formou para o sacerdócio.

Foi ordenado diácono a 19 de dezembro de 1962, na capela do Seminário da Guarda, e presbítero a 28 de julho de 1963, na Sé Catedral, por D. Policarpo da Costa Vaz.

O seu ministério sacerdotal foi marcado por dedicação pastoral e espírito de serviço. Logo após a ordenação, foi nomeado coadjutor da Sé e de São Vicente (Guarda). Em 1965, tornou-se pároco de Algodres, Vilar de Amargo e Vale de Afonsinho.

Em 1972, iniciou o serviço como capelão militar, primeiro na Academia Militar e no Hospital Militar da Estrela, em Lisboa, e, entre 1973 e 1974, na Guiné, ao serviço das Forças Armadas Portuguesas.

Regressado à diocese, foi capelão do Quartel da Guarda (1974-1975) e, a partir de 1976, pároco de Pínzio e Safurdão, acumulando depois o cuidado pastoral de Gagos. 

Em 1987, foi nomeado pároco de Atalaia e Carvalhal, permanecendo depois responsável por Pínzio, Safurdão e Carvalhal até 2004.

A partir desta data, enquanto a saúde lhe permitiu, colaborou com colegas sacerdotes em diversos serviços paroquiais.

O Padre José Júlio Antunes deixa a memória de um sacerdote simples, próximo das comunidades e fiel à sua vocação. As cerimónias fúnebres acontecem dia 07 de novembro, pelas 15h00, na Igreja Matriz de Casal de Cinza.

LFS


2. Mensagem do Ricardo Figueiredo (ex-fur mil at inf, 2ª CART / BART 6523, Cabuca, 1973/74)



Data - 02/02/2026, 15:58 
Assunto - Capelão José Júlio Antunes

Olá,  Luís,

Não sabia do falecimento recente do nosso Capelão. Que descanse em paz.

Da Guiné, que seja do meu conhecimento, não me lembro de qualquer facto importante de que ele tivesse sido protagonista.  De resto, a passagem dele por Cabuca foi pontual, dois ou três dias, tendo sido um deles ocupado pela Missa campal.

Já cá, e num almoço da 3ª Companhia em que participaram três ou quatro elementos da 2ª Companhia, sendo um deles, eu próprio, e em que também esteve presente o Capelão José Júlio, tivemos oportunidade de ficarmos na mesma mesa e a meu lado o também já saudoso José António Sousa, da CCav 3404 e,  salvo erro,  também o 1º cabo cripto da nossa Companhia, o Victor Machado.

O almoço, caríssimo para a época,foi muito mal servido e as sobremesas miseráveis. O Padre José Júlio, que era um bom garfo, também ele manifestou o seu desagrado como de resto a maioria dos convivas.

Porém, junto à nossa mesa, encontrava-se um expositor de bolos. Lancei um desafio ao Padre José Júlio:

- Se eu desviar uns bolitos para a nossa mesa, absolve -me ?!

A resposta não se fez esperar:

-  Absolvidissimo !

E lá desviei dois bolitos ,que souberam que nem ginja !

Anexo :

(i) a fotografia da Missa Campal, celebrada pelo Capelão José Júlio, em Cabuca;

(ii) a última fotografia que tirámos, antes da entrada para o restaurante, num almoço da 3ª Companhia,  em que fomos três ou quatro elementos da 2ª.

Um Alfabravo com amizade,
Ricardo

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sábado, 24 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27664: In Memoriam (570): Carlos Alberto Machado de Brito (1932-2025), cor inf ref, 1º cmdt da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, jun 1969/mar 1971): vivia em Braga, e foi comandante da GNR, comando territorial de Braga - II (e última) Parte

Foto nº 1 > Carlos Alberto Machado de Brito (1932-2025).

cor inf ref, 1º comdt CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71). Na foto, aos 37 anos, na estrada Xime-Bambadinca. 

A CCAÇ 2590/CCAÇ 12 sempre foi uma família (éramos umas escassas 6 dezenas de graduados e especialistas metropolitanos, a que se juntaram depois mais 100 praças, do recrutamento local,  98% fulas, em junho de 1969, no CIM de Contuboel). Diversos camaradas da CCAÇ 12 são membros da Tabanca Grande, de longa data.  Por todas as razões, o "nosso capitão Brito"   também cá faz falta. Tem já uma dúzia de referências. Tomo a liberdade de o apresentar à Tabanca Grande, inumando-o simbolicamente à sombra do nosso poilão, no lugar nº 911, no talhão dos camaradas e amigos da Guiné que "da lei da morte já se libertaram". Até sempre, comandante!...(LG)

Foto: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº  2 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca > Comando e CCS/BCAÇ 2852 (1968/70)  >  A
 equipa de futebol de oficiais de Bambadinca que acabara de jogar contra uma equipa de sargentos.

Na segunda fila, da esquerda para a direita, de pé:

  •  o alf mil Beja Santos (cmdt do Pel Caç Nat 52, 1968/70);
  • o major Cunha Ribeiro, 2º cmdt do BCAÇ 2852 )já falecido, como coronel);
  • o alf mil médico, David Payne Pereira (já falecido, era um conhecido psiquiatra);
  • o cap inf Carlos Alberto Machado de Brito (cor inf ref) (1932-2025), comandante da CCAÇ 12;
  • e ainda o alf mil at int Abel Maria Rodrigues, também da CCAÇ 12.

Na primeira fila, da esquerda para a direita:
  • um militar que ainda não conseguimos identificar;
  • alf mil cav  José António G. Rodrigues, da CCAÇ 12 (já falecido), 
  • o António Carlão, da CCAÇ 12 (já falecido) 
  • e o Ismael Augusto (CCS); (o Fernando Calado, alf mil trms, também fazia parte da equipa mas fracturou um braço, não aparecendo por isso na foto).

O major Cunha Ribeiro  tinha  substituido,  em setembro de 1969,  o major Viriato Amílcar Pires da Silva, transferido por motivos disciplinares. 

Foto (e legenda): © João Pedro Cunha Ribeiro (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Foto nº 3



Foto nº 3A 




Foto nº  3B

Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > c. 1970 > Não, não é uma sessão de cinema, no refeitório das praças (ou sala de convivio das praças, a avaliar pela mesa de pingue-pongue)... É um simples projeção de "slides" ou diapositivos... Tudo servia para ajudar a passar o tempo, embora não fosse habitual esta mistura de "classes" (oficiais, sargentos e praças, ou como  eu gosto de dizer, com graça, "nobreza, clero e povo")... 

Recorde-se que o nosso exército era "classi(ssi) sta" e, em aquartelamentos como o Bambadinca, com razoáveis e desafogadas instalações, a regra era a da estratificação socioespacial, ou seja, nada de misturas...

A esta sessão  de projeção de "slides!" ou diapositivos assistiram,  no refeitório das praças, pelo menos dois capitães (a olhar para o seu lado direito)... O primeiro era o comandante da CCS/BCAÇ 2852, o cap inf Manuel Figueiras... O segundo era o cmdt da CCAÇ 12, cap inf Carlos Brito (Foto nº 3A).

O "artista principal", neste caso,  é o alf mil at cav José António G. Rodrigues, natural de Lisboa, e já falecido, comandante do 4º Gr Comb da CCAÇ 12.

 Em segundo plano, por detrás dos capitães, o alf mil op esp/ranger Francisco Magalhães Moreira, comandante do 1º Gr Comb da CCAÇ 12, e também 2º cmdt da companhia. Nunca maios soube dele, dizem-me que seguiu a carreira das armas e ainda terá feito uma comissão de serviço em Angola. 

O seu Gr Comb, incontestavelmente, era o melhor. Ele tinha talento, carisma e treino para comandar homens no mato. O capitão confiava nele e delegava-lhe missões, porque sabia que ele era o melhor de todos nós. Só se delega a quem é competente e empenhado. Dos outros 3 oficiais (e sem ofensa para nenhum deles, e dois já morreram),  podia-se dizer que eram competentes mas não empenhados, ou então eram empenhados mas menos competentes. (Afinal, nem toda a gente tem jeito para a guerra...).

 De facto, o "projecionista", à civil, era o alf mil cav José António G. Rodrigues... Devia ser também o "dono" dos diapositivos, cujas caixas, de plástico, são visíveis à frente do projeto (Foto nº 3B).

Nessa época, este material fotográfico era tratado na "nossa inimiga"... Suécia, principal aliada, no mundo ocidental, do PAIGC a aquem forneceu importante apoio (político, humanitário, financeiro, logístico...). Era de lá,  da terra dos "vikings" (e das loiras de olhos azuis do nosso imaginário febril!),  que vinham as mágicas caixinhas com os "slides"... Não sei quanto custavam por unidade...

Pormenor interessante: devido ao excesso de calor e humidade do ar, usava-se uma ventoínha para "refrigerar" o ar à volta do projetor...

Mas agora: que raio de "slides" seriam estes para atrair a atenção de tanta gente, oficiais, sargentos e praças ?!... Possivelmente, "recuerdos" das férias do nosso alferes Rodrigues... A ser assim, esta sessão só pode ter acontecido já no 2º semestre de 1970, ao tempo do BART 2917... 

Mas, digam-me lá, quem estava interessado em saber onde e com quem passou férias, na metrópole, o nosso alferes Rodrigues ?... Ainda não havia gajas de biquini no Algarve... E as férias do Rodrigues só poderiam ter sido passadas na metrópole, porque nessa época nenhum militar, em princípio,  podia ter passaporte para ir passar férias ao estrangeiro no "intervalo" da guerra (a licença de férias era de 30/35 dias)...  

Ao lado do alf Rodrigues, reconheço o alf at inf Abel Rodrigues, comandante do 3º Gr Comb da CCAÇ 12, e nosso grão-tabanqueiro (nasceu no mesmo dia e ano que eu, 29/1/1947; é transmontano de Miranda do Douro; acabei de lhe telefonar a dar a triste notícia da morte do nosso capitão...  

Na ponta direita, o nosso 1º cabo escriturário e acordeonista, Eduardo Veríssimo de Sousa Tavares, também já falecido.

Talvez o Abel se lembre do teor dos "slides", sobre os quais tenho imensa curiosidade... (Esqueci-me de lhe perguntar; infelizmente, também não tenho qualquer contacto com familiares do meu malogrado camarada José António G. Rodrigues, com quem alinhei no mato muitas vezes, a par dos outros alferes, o Moreira e o Carlão, com este tive o meu infeliz batismo de fogo, em 7 de setembro de 1969; como prémio, e por ser casado, com a mulher a viver com ele em Bambadinca, teve a sorte grande: foi para a equipa de reordenamentos de Nhabijões; era oriundo do CSM).



Foto nº 4 > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > c. 2º semestre de 1969 >  Messe de sargentos > Almoço de "confraternização" entre oficiais e sargentos da CCAÇ 2590/CCAÇ 12: ao centro, o cap inf Carlos Brito, à civil... .

Do lado direito, em primeiro plano o fur mil op esp / ranger Humberto Reis, e a seguir o alf mil cav, já falecido, José António G. Rodrigues; do lado esquerdo, em primeiro plano, o fur mil trms José Fernando Gonçalves Almeida ( seguido de outro furriel, de cuja identidade não tenho a certeza: Joaquim Fernandes ou Luciano Almeida ?), e ainda do 2º srgt inf José Martins Rosado Piça e do 1º srgt cav Fernando Aires Fragata (que depois iria frequentar a Escola Central de Sargentos, em Águeda).

A CCAÇ 2590 passou a designar-se CCAÇ 12 a partir de 18 de janeiro de 1970, ainda no tempo do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70)... 

Ainda a propósito da foto, era a cerveja Cristal que estava na moda..E o petisco, se bem me parece, incluia ostras.

Naturalmente que os sargentos não frequentavam (pelo regulamento) a messe de oficiais que era ali ao lado. Mas o cap  Brito dignava-se, de vez em quando (e sobretudo no princípio) aparecer na messe de sargentos que era muitíssimo mais animada, mesmo sem garotas...

O bar e a messe de sargentos de Bambadinca, no meu tempo (julho de 1969/março de 1971) tinham  uma certa tradição de hospitalidade. Recebiamos gente de fora, estavamos abertos aos vizinhos do lado (messe de oficiais, embora o inverso não fosse verdadeiro)... E sobretudo havia uma bom espirito de camaradagem entre operacionais e não operacionais. a nível de sargentos (CCS/BCAÇ 2852 e depois BART 2917, CCAÇ 12 e outras subunidades adidas). Fazíamos festas conjuntas (por ex., Natal, aniversários), havia preocupação com a qualidade da comida, havia cantorias até às tantas da noite... Bebia-se
 O bar era bem recheado.

Foto do álbum do Arlindo Roda (ex-fur mil at inf, 3º Gr Comb, CCAÇ 12, 1969/71)



Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (1969/71) > Cambança, descontraída.  de uma bolanha, na região do Xime, no decurso de uma operação que não conseguimos identificar.

A foto (aliás, um diapositivo) deve ter sido tirada ainda em 1969, no final da época das chuva. Infelizmente não temos as legendas das magníficas imagens que o Arlindo Roda, que vive em Setúbal, teve a gentileza de nos mandar, através do Benjamim Durães (CCS / BART 2917, 1970/72). Falei com ele, finalmente, ao telefone há poucos meses, depois do nosso último encontro há mais de 30 anos.

Em primeiro plano, vê-se o 1º cabo Manuel Monteiro Valente, que viria a ser ferido por estilhaços de morteiro em janeiro de 1970 (Op Borbeleta Destemida)...

Em 2º plano, vê-se o fur mil at inf Roda, o alf mil op esp / ranger Francisco Moreira (comandante do 1º Gr Comb). Atrás deles, descortinam-se ainda as cabeças do fur mil op esp / ranger Humberto Reis e o fur mil at inf António Branquinho (já falecido). 

O cap Brito frequentemente alinhava no mato com a malta, sobretudo em operações de maior responsabilidade e risco, a nível de sector. Apesar dos seus já 37/38 anos de idade... E nós, com 22... Tínhamos outra pedalada naquele tempo, com aquela idade.

 
Fotos: © Arlindo T. Roda (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Crachá da CCAÇ2590 ("Excelente e Valorosa) e da CCAÇ 12 ("Sempre Mais Além")
1969/71).   Design: Tony Levezinho. Cortesia do autor (2006).


1. Declaração de conflito de interesses:

Este e o anterior In Memoriam (*), não assinados como a  grande maioria dos postes publicados pelos editores LG e CV, são da minha lavra. Estive no CTIC às ordens do então Cap Brito. 

O único louvor que tive na tropa foi-me atribuído do, recomendado ou sugerido por ele. O louvor é, formalmente,  do comandante do BART 2917, por quem nunca morri de amores... 

Foi coisa que nunca mostrei a ninguém (a não ser aqui no blogue há muitos anos).  Nem nunca utilizei, para efeito nenhum, na minha vida civil e professional. E no início até tinha algum pudor,   pelo evidente exagero dos encómios.

Pensando bem, deveria ter razões para sentir-me honrado pela distinção... Só se fala, é verdade, das minhas qualidades (que também escondem defeitos), o que  é sempre lisonjeiro. 

De qualquer modo, não há, no teor do louvor, nada que me envergonhe como português, cidadão, homem e militar.

E mais acrescento: nem eu nem o meu capitão ficámos a dever favores um ao outro. Sendo eu de armas pesadas de infantaria, e estando numa companhia de intervenção ( e não de quadrícula), depressa tive que  esquecer tudo o que aprendi no CISMI, em Tavira. 

Fui rapidamente  "promovido a atiruense". Deram-me uma G3 e passei a ser o "pião de nicas" da companhia... tapando todos os buracos no comando de secções dos 4 Gr Comb...

Afinal, "não era mais do que os outros", meus camaradas e bons amigos, a começar pelos que dormiam no mesmo quarto...

Por outro lado, eu e o capitão estávamos,  política e ideologicamente,  em campos opostos: eu era, desde os meus 15 anos, um jovem do "reviralho", do "contra" e estava recenseado nos cadernos eleitorais aquando das eleições para a Assembleia Nacional em 26 de outubro de 1969.

Fui,  aliás,  dos poucos militares em Bambadinca a poder exercer o direito de voto. Eu, o meu capitão, e mais um 1º cabo (cujo nome não fixei). Nem sequer os sargentos do quadro estavam recenseados! ... Ou não votaram, o Piça, o Videira...

Patriótico paradoxo. já aqui escrevi em tempos: um português podia morrer pela Pátria mas podia não ter direito de voto nas eleições para a Assembleia Nacional...  

Eu sei que votei em branco, o meu capitão seguramente que votou no  candidato da União Nacional que representava o círculo eleitoral da Guiné, o infortunado James Pinto Bull (Bolama, 15 de Julho de 1913 – Rio Mansoa, 26 de Julho de 1970).

O então cap Brito era minhoto, dizia-se que já tinha feito uma primeira comissão na Índia (o que não posso confirmar), era católico, política e ideologicamente conservador e "situacionista"...

Nunca fez, em contrapartida, o mais pequeno reparo em relação à minha pessoa e à minha posição contra a guerra. Aliás, nunca falámos de "política"... E mais: confiou-me, no final da comissão, a tarefa (ciclópica) de fazer a história da unidade. Eu tinha dado como profissão a de jornalista (da imprensa regionla), mesmo nunca tendo tido carteira profissional,

Já agora registo a seguir os nomes dos outros graduados da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 que foram louvados no final da comissão, a começar pelo próprio capitão, 2 alferes mil, 1 sargento QP e 4 furriéis mil  (além de 19 praças):
  • Carlos Alberto Machado Brito, cap inf, CCAÇ 2590 / CCAÇ 12 (Louvor do Brigadeiro Cmdt Militar do CTIG, em 01.06.71):
  • Abel Maria Rodrigues, alf mil at inf / CCAÇ 12  (Louvor do cmtd CCAÇ 12, em 13.03.71);
  • Francisco Magalhães Moreira, alf mil op esp / CCAÇ 12  (Louvor do cmdt BART 2917,  em 12.03.71);
  • José Martins Rosado Piça, 2º srgt inf / CCAÇ 12 (Louvor do cmdt BART 2917 em 11.03.71);
  • António Fernando R. Marques, fur mil at inf / CCAÇ 12 (Louvor do cmdt  CAOP 2 em 04.05.71);
  • Humberto Simões Reis, fur mil op esp /CCAÇ 12 (Louvor do cmdt BART 2917,  em 12.03.71);
  • José Luís Vieira Sousa, fur mil at inf / CCAÇ 12 (Louvor do cmdt BART 2917,  em 25.02.71);
  • Luís Manuel da Graça Henriques, fur mil arm pes inf / CCAÇ 12 (Louvor do cmdt BART 2917,  em 25.02.71). 


Louvor. Reprodução da página 12 da minha caderneta militar... e onde se faz referência ao trabalho de elaboração da história da unidade

Foto (e legenda): © Luís Graça (2010). Todos os direitos reservados. [Edição:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. O "making of" da história da CCAÇ 12 merece ser aqui recontado, até como forma de homenagem ao "nosso capitão Brito":


(i) escrita por mim (LG), contou com a cumplicidade e a colaboração de vários camaradas, milicianos, incluindo um sargento do quadro, infelizmente já falecido , o 2º srgt Piça ("o Grande Piça, para os amigos!"), que me chamava , com piada, o "Soviético" ( só por ser do " contra");

(ii) oficialmente, o documento não tem (nem podia ter) autor, mas é unanimemente reconhecido que foi escrita por mim;

(iii) mais, foi-me  expressamente incumbida, a sua elaboração, pelo comandante da companhia, o afável capitão inf Carlos Brito;

(iv) o então capitão Brito (em vésperas de ser promovido a major, se não mesmo já major) não autorizou a sua divulgação, nem muito menos o comando do batalhão de quem estávamos hierarquicamente dependentes, o BART 2917, a partir de junho de 1970 até fevereiro de 1971); alegava ter informação "classificada" (o que era inteiramente verdade);

(v) um versão, dactilografada e impressa à luz do dia, a stencil, na secretaria da companhia, foi discretamente distribuída aos alferes e furriéis milicianos (mesmo assim, não sei se a todos...), numa tiragem necessariamente reduzida, na véspera da partida; como era sabido, os quadros metropolitanos e os especialistas da CCAÇ 12, num total de 60, eram de rendição individual;

(vi) em 1994, quando reencontrei o meu antigo capitão, na altura já cor inf ref,  dei-lhe conta desta "deslealdade" que cometi em março de 1971 (a única, em relação a ele, que julgo ter cometido).

Esta pequena homenagem que lhe faço é já tardia, é post-mortem. Sempre quis trazê-lo para o blogue. Ele participou em diversos encontros da malta de Bambadinca de 1968/71. E, quando não podia, tinha sempre a cortesia de contactar o organizador, agradecer o convite e apresentar a competente justificação para a ausência. 

A CCAÇ 2590/CCAÇ 12 sempre foi uma família (éramos escassas 6 dezenas de graduados e especialistas metropolitanos, a que se juntaram depois mais 100 praças, do recrutamento local, todos 98% fulas, em junho de 1969, no CIM de Contuboel).

 Diversos camaradas da CCAÇ 12 são membros da Tabanca Grande, de longa data.  Por todas as razões, o "nosso capitão Brito"   também cá faz falta. Tem já uma dúzia de referências. Tomo a liberdade de o apresentar à Tabanca Grande, inumando-o simbolicamente à sombra do nosso poilão, no lugar no 911, no talhão dos camaradas e amigos da Guiné que "da lei da morte já se libertaram".

Até sempre, "capitão Brito", bom amigo e camarada!...LG


Foto nº 5


Foto nº 5A


Foto nº 5B

Esposende > Fão > 1994 > A primeira vez que a  malta de Bambadinca (1968/71), camaradas da CCAÇ 12, e outras subunidades adidas ao comando do BCAÇ 2852, mas também malta do BART 2917 (1970/72)... 

Este primeiro encontro foi organizado pelo António Carlão, já falecido (ao centro)


Na primeira fila, da esquerda para a direita: 

(i) fur mil MAR Joaquim Moreira Gomes (vivia no Porto, na altura(; 

(ii)  sold cond auto Diniz Giblot Dalot (empresário na área dos transportes, vivia em Aljubarrota, Prazeres,  ou em Samora Correia, não sei ao certo); 

(iii) um antigo escriturário da CCS/ BART 2917 (morava em Fão, Esposende); 

(iv) alf mil at  inf António Manuel Carlão (1947-2018) (casado com a Helena, comerciante, vivia em Fão, Esposende);

(v)  fur mil at inf Arlindo Teixeira Roda (natural de Pousos, Leiria; professor  reformado, vive em Setúbal; grande jogador de king e de lerpa, no nosso tempo, a par do Humberto Reis, e depois de damas, cuja federação portuguesa cofundou e dirigiu); 

(vi)  fur mil armas pes inf Luís [Manuel da ]  Graça [ Henriques]  (prof univ ref., fundador deste blogue, vive entre Alfragide / Amadora e Lourinhã, e com ligações também ao Marco de Canaveses, Quinta de Candoz); 

(vii) Arménio Monteiro Fonseca (taxista, no Porto, da empresa Invictuas, táxi nº 69, mais conhecido no nosso tempo como o "vermelhinha"); 

(viii) fur Mil José Luís Vieira de Sousa (natural do Funchal, onde vive, agente de seguros reformado).

Na segunda fila de pé, da esquerda para a direita: 

(ix) Fernando [Carvalho Taco]  Calado (1945-2025), ex-allf mil trms, CCS/BCAÇ 2852 (vivia em Lisboa, natural de Ferreira do Alentejo(;

(x) alf mil manutenção material, Ismael Quitério Augusto, CCS/BCAÇ 2852, 19698/70 (vive em Lisboa);

(xi)  fur mil at inf, António Eugénio Silva Levezinho [, Tony para os amigos, reformado da Petrogal, vive em Martingal, Sagres, Vila do Bispo]; 

(xii)  capitão inf Carlos Alberto Machado Brito [cor inf ref, vivia em Braga, tendo passado pela GNR] (1932-2025);

(xiii) camarada, de óculos escuros, que não sei identificar [diz-me o Fernando Andrade Sousa que se trata do Pinto dos Santos, ex-furriel mil de Operações e Informações, CCS / BCAÇ 2852, natural de Resende, já falecido];

(xiv) major Ângelo Augusto Cunha Ribeiro, mais conhecido por "major elétrico", 2º comandante do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70) (1926-2023) (vivia no Porto, era natural de Gondomar);

(xv) fur mil op esp / ranger, Humberto Simões dos Reis (engenheiro técnico, vive Alfragide / Amadora; era o grande fotógrafo da CCAÇ 12, a par do fur mil Arlindo Roda;  na foto, escondido, de óculos escuros); 

(xvi) camarada não identificado;

(xvii) alf mil cav,  José Luís Vacas de Carvalho, cmdt Pel Rec Daimler 2206 (Bambadinca, 1969/71) (vive em Lisboa; natural de Montemor-o-Novo);

(xviii) alf mil at inf,  Mário Beja Santos, cmdt do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70 (vive em Lisboa, nosso colaborador permanente);

(xix)  Fur mil  at inf António Fernando R. Marques (DFA, natural de Abrantes, vive em Cascais, empresário reformado);: 

(xx)  Manuel Monteiro Valente (de bigode e de perfil, ex-1º cabo, 1º Gr Comb, CCAÇ 12, apontador de dilagrama, vive em Vila Nova de Gaia, organizou o convívio, em 2019, do pessoal de Bambadinca, 1968/71):

(xxi) Abel Maria Rodrigues (hoje bancário reformado, vive em Mirando do Douro, ex-alf mil at inf, 3º Gr Comb, CCAÇ 12); 

(xxii) alf mil op esp / ranger,  Francisco Magalhães Moreira (vive em Santo Tirso, se não erro; nunca mais o vi, desde este 1º encontro, em 1994; terá seguido a carreira militar; não é membro da Tabanca Grande, o que é pena(; 

(xxiii) Fur mil at inf,  Joaquim Augusto Matos Fernandes (de óculos escuros, engenheiro técnico, vive ou vivia no Barreiro; também não é membro da Tabanca Grande, infelizmente, mas não costuma falhar os encontros da malta de Bambadinca de 1968/71); 

(xxiv) 1º cabo Carlos Alberto Alves Galvão (o homem que foi ferido duas vezes numa operação, vive na Covilhã; não integra a Tabanca Grande; dizem-me que não comunicou à tropa as habilitações literárias que tinha, para não ir para o CSM); 

(xxv)  Fernando Andrade Sousa (ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 12, vive na Trofa); 

(xxvi) e, por fim, 2º sarg inf Alberto Martins Videira (vivia em Vila Real,já falecido, tal como o outo 2º srgt, o José Manuel Rosado Piça, que vivioa em Évora).


Foto (e legenda): © Fernando Calado (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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Nota do editor:

Último poste da série > 22 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27662: In Memoriam (569): Carlos Alberto Machado de Brito (1932-2025), cor inf ref, 1º cmdt da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, jun 1969/mar 1971): vivia em Braga, e foi comandante da GNR, comando territorial de Braga - Parte I

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27662: In Memoriam (569): Carlos Alberto Machado de Brito (1932-2025), cor inf ref, 1º cmdt da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, jun 1969/mar 1971): vivia em Braga, e foi comandante da GNR, comando territorial de Braga - Parte I

 


1. Morreu "o nosso capitão Brito". Foi ele que nos levou para a Guiné, no T/T Niassa, em 24 de maio de 1969. Ao pessoal (éramos 6 dezenas de militares, graduados e especialistas), da CCAÇ 2590, mais tarde CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, mai 69/ mar 71).

O funeral já foi no passado dia 5 de dezembro último. Tinha 93 anos. De seu nome completo Carlos Alberto Machado de Brito. Viúvo, duas filhas. Vivia em Braga. Era um homem crente. Requiescat In Pace / Que Descanse em Paz.





Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca)  > Estrada Xime- Bambadinca > 1969 > Carlos Alberto Machado Brito, cap inf nº 50156311, foi o primeiro cmdt da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71)... Já tinha 37 anos e e pelo menos duas comissões no ultramar. No fim desta comissão no CTIG, foi promovido a major. Era um pesadelo, na época, a carreira militar para oficiais e sargentos do quadro. A grande vítima era a família.


Foto: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Que recordações guardo dele ? Que lembranças temos dele, malta de Bambadinca, de 1969/71) ?

Para já, era uma um homem afável e civilizado no trato, como poucos, não tendo nada a ver com a imagem (negativa e estereotipada) que alguns de nós, milicianos, tínhamos de alguns oficiais do QP que conhecemos ao longo da nossa carreira militar de quase três anos (com o tempo da Guiné a dobrar, faz quase cinco!)...

Com os seus 37 anos, e duas comissões anteriores no Ultramar (a primeira em Angola,  CCAÇ, 309, Cabinda e Malanje, 1962/64, e depois Moçambique, se não erro), foi tão explorado pelo comando do Sector L1 (no tempo do BCAÇ 2852 e. depois,  do BART 2917) como os seus milicianos e os seus soldados, metropolitanos ou do recrutamento local (as nossas praças, fulas).

No final da comissão na Guiné, lá ganhou, com justiça, os galões de major. Em fevereiro de 1971, se não me engano.

Carlos Alberto Machado Brito, o nosso capitão Brito, estava reformado como coronel de infantaria. Julgo que era natural de Braga e vivia em Braga. Esteve também à frente do comando territorial de Braga, da GNR. São escassas as referências na Net sobre a sua carreira. Resta o nosso blogue.

Eu já em tempos tinha formulado o desejo de o voltar a ver, bem de saúde e, até por que não, como membro desta tertúlia... Foi ele que manifestou, pelo formulário de contacto do Blogger, o seu interesse em falar comigo:

segunda, 27/03/2023, 18:04

Queria entrar em contacto com o Luis Graça, ainda estou vivo com 90 anos e
5 meses

Cumprimentos,
Cor Carlos Alberto Machado Brito | macbrito@netcabo.pt


Estupidamente, a mensagem ficou esquecida na caixa de correio, sem resposta imediata. Respondi-lhe por mail, apenas ano e meio depois:

domingo, 27/10/2024, 17:08

Meu caro coronel,

Folgo muito em saber de si...Fiquei de lhe responder na devida altura, mas a oportunidade escapou-se-me. Mande-me o seu contacto telefónico, por favor; terei muito gosto em telefonar-lhe amanhã ou noutro dia, com tempo e vagar. 

A última vez que o vi (e a primeira, depois do nosso regresso) foi em 1994, em Fão, Esposende, no 1º encontro do pessoal de Bambadinca (1968/71)...

Alguns de nós já deixaram a Terra da Alegria, a começar pelo Rodrigues, o Carlão, o Branquinho, o Piça, o Videira, o Quadrado,  e outros.

Tem aqui quase uma dezena de referências ao seu nome, meu coronel... Mas gostaria de ter muitas mais. Falta o seu nome na lista alfabética dos amigos e camaradas da Guiné, são já 894 entre vivos e mortos.

Sobre a nossa CCAÇ 12 são já perto de 500 as ferências, no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (...)

Deixo-lhe o meu nº de telemóvel... Luís Graça (eu era o furriel Henriques, o seu "pião de nicas"...) (...)

Estou cá para baixo, para o sul, mas vou muito ao Porto e ao Marco de Canaveses (Quinta de Candoz, perto do Rio Douro). 

Um abraço caloroso, Luís

Falámos depois longamente ao telefone. Estava num lar de professores, em Braga, sentia-se muito bem, em boa forma. Tinha o seu quarto, o seu conforto, a sua privacidade. Dava todos os dias o seu passeio higiénico pela cidade. E tinhas as filhas e netos por perto.

Hoje ao tentar ligar-lhe de novo e a
o pesquisar o seu nome no  Facebook,  é que me dei conta, com tristeza, da notícia da sua morte, em 4 de dezembro de 2025.

(Continua)

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27612: In Memoriam (568): António José Mendes Matias (1949-2022), ex-Soldado At Inf da CCAÇ 3305/BCAÇ 3832; fica inumado, simbolicamente, à sombra do nosso poilão, no lugar n.º 910

IN MEMORIAM

António José Mendes Matias (Vide, Seia, 12/08/1949 - Coimbra, IPO, 22/02/2022)
Ex-Soldado At Inf da CCAÇ 3305/BCAÇ 3832
Mansoa, 1971/73

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1. Mensagem de Paulo Matias, filho do nosso camarada António José Mendes Matias, com data de 5 de Janeiro de 2026:

Chamo-me Paulo Matias e sou filho de um soldado atirador da CCaç 3305/RI2 (pertencente ao BCac 3832 que esteve em Mansoa) chamado António José Mendes Matias.

Tomei conhecimento deste website através de um amigo meu que o encontrou e me aconselhou a visitar.

Lamento informar, mas o meu pai faleceu em 2/2/2022, no IPO de Coimbra, vitima de cancro. Ele nasceu a 12 de Agosto de 1949 no lugar de Vide, concelho de Seia, onde vivia.

Gostaria de conhecer histórias desse tempo e partilhar algumas histórias que o meu pai me contava em conversas. Ele tinha muitas vezes reservas em falar destes assuntos e pouco me contava.

Em anexo junto 2 fotos antigas (não sei se foram tiradas em Mansoa ou no quartel de Abrantes antes de embarcar) e 1 atual do meu pai.

Caso pretendam contactar-me ou enviar noticias do vosso blog, utiliem o meu email

Com melhores cumprimentos,
Paulo Matias

Fotos sem data e sem indicação do local
António José Matias, o primeiro a partir da esquerda, de pé

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2. Mensagem enviada ao nosso amigo Paulo Matias no mesmo dia:

Caro Paulo Matias

Muito obrigado pelo seu contacto.
Primeiro que tudo, aceite os nossos sentimentos pela perda do senhor seu pai.
Falando do meu camarada António José Matias, ele ainda foi meu contemporâneo, eu estava cerca de 30 km mais a norte, em Mansabá.

Do batalhão do seu pai, faleceram dois furriéis sapadores em Fevereiro de 1971, pouco tempo após terem chegado à Guiné e a Mansoa. O incidente aconteceu uns quilómetros a norte de Mansabá, quando me encontrava a gozar férias em Portugal. Foi um choque para mim quando regressei e me deram a triste notícia. Mal tive tempo de os conhecer.

Uma vez que nos mandou fotografias do pai, se aceitar, gostaríamos de o receber a título póstumo na nossa Tabanca Grande, nome por que é conhecido o nosso Blogue. O seu nome ficará a constar na listagem dos nossos camaradas que já partiram. Veja aqui:
https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/p/tabanca-grande-lista-alfabetica-dos-897.html

No próximo contacto diga-nos se aceita a inclusão do seu pai na tertúlia.

Também queríamos que identificasse o seu pai na foto do grupo. Veja nas costas da foto se por acaso tem o local onde foi tirada.
Deixo-lhe dois links para explorar, um da CCAÇ 3305 (https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/search/label/CCA%C3%87%203305) e
outro do BCAÇ 3832 (https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/search/label/BCA%C3%87%203832)

Não esquecer que ao fim de cada página apresentada tem de clicar em "Mensagens antigas" até receber a mensagem para voltar à página inicial.

Ficamos na expectativa do seu contacto.
Receba um abraço dos editores e da tertúlia.

Carlos Vinhal
Coeditor


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3. Mensagem enviada ao blogue no dia 6 de Janeiro pelo Paulo Matias:

Caro sr Carlos Vinhal

Relativamente à proposta de inclusão do meu pai na tabanca, autorizo sem qualquer problema, estejam a vontade.

Agora que falou nos 2 furrieis, lembro me que o meu pai me contou uma história envolvendo uma emboscada. Que ele é que costumava levar o cinto das munições (se não for termo correto, as minhas desculpas) e que certa vez sairam para missão qualquer e um colega dele lhe disse que naquele dia ele quis levar o cinto e trocaram de lugar, passando para a frente do meu pai. 

Durante o trajeto lá no carreiro, foram atacados e esse colega dele foi atingido com uma bala e acabou por morrer. Talvez tivesse sido por este eventual trauma ele não gostasse de recordar esses tempos, digo eu. Ele dizia se tivesse ido normalmente no lugar, eu não teria nascido. Gostaria de saber mais sobre esse soldado, mas meu pai nunca me disse mais nada sobre isso.

Em relação a foto do grupo, o meu pai é o que está de pé atrás com a boina e camisa, e mãos à cintura, do lado esquerdo quem olha para a foto. Já verifiquei atrás e só tem números "25" e "11" e mais nada escrito. Talvez através dos edificios surgem atrás e comparando com outras fotos se consiga descobrir o local onte foi tirada. Mas dá ideia ser no quartel, talvez em Mansoa.

Cumprimentos,
Paulo Matias


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4. Comentário do editor CV:

Caro amigo Paulo Matias,

O seu pai vai passar a partir de hoje a figurar no nosso obituário e terá o n.º 910 da nossa tertúlia.

A história que ele contava àcerca da troca de lugar nas progressões apeadas ou em colunas auto, eram frequentes pelo que ele não teve teve culpa do infortúnio que vitimou o seu camarada, que tinha a sua morte destinada para aquele dia e naquele local.

Quanto ao transporte das munições, os pelotões normalmente eram compostos pela secção da metralhadora, que seguia à frente, pela secção da bazuca, que seguia a meio, e pela secção do morteiro 60 mm, por acaso a que eu comandava no meu pelotão, que seguia atrás. 

O pessoal de cada secção levava as respectivas munições, tais como fitas para a metralhadora e granadas para a buzuca e para o morteiro. Muitas vezes alombei com granadas de morteiro ao ombro quando em progressões apeadas no mato. Cada um ainda tinha de carregar, além da sua G3, 4 carregadores de reserva para a arma, 4 granadas ofensivas/defensivas, 1 ou 2 cantis com água e, por vezes a ração de combate para o dia.

Inclino-me para que as fotos sejam tiradas na Guiné (Mansoa?), primeiro pelo piso tão maltratado, talvez por chuvadas recentes, depois porque na Metrópole não se admitiam militares em troco nu.

Termino, deixando-lhe um abraço em nome da tertúlia e dos editores.
Ficamos à sua disposição
Carlos Vinhal

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Nota do editor

Último post da série de 6 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27609: In Memoriam (567): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): "Maldita pátria amada, odiada, esquecida, / e quase sempre perdoada, / que tantos filhos pariste e rejeitaste!" (Luís Graça)

Guiné 61/74 - P27609: In Memoriam (567): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): "Maldita pátria amada, odiada, esquecida, / e quase sempre perdoada, / que tantos filhos pariste e rejeitaste!" (Luís Graça)



Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > O Horácio Fernandes e, em segundo plano, à esquerda  o Jaime Silva. (A Tabanca de Porto Dinheiro não existe mais, desde que morreu o seu régulo, o Eduardo Jorge Ferreira, 1953-2019).


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
Vista da tasca da Ti Augusta, sobranceira à praia e ao mar 


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
Embarcações de pesca artesanal, todas cokm nomes de... mulher


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
A tasca da Ti Augusta,  na altura explorada por um filho, sargento da marinha reformado.


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > Tasca da Ti Augusta > 
A famosa sopa de navalheiras.

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados 


Praia do Porto Dinheiro

por Luís Graça

À memória dos meus antepassados Maçaricos
marinheiros, mareantes, navegantes, mariscadores
pescadores, peixeiros, mercadores, missionários, 
construtores navais... desde Quinhentos

Ao António Fernandes (Patas, também Maçarico)
último construtor naval de Ribamar, Lourinhã,
que irá morrer na Califórnia, talvez nos anos 50.

E ao seu neto, e meu primo e camarada,
Horácio Fernandes (1935-2025).
capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor de "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)

Porto Dinheiro:
um espesso nevoeiro cobre as falésias e os caniçais.
Até aqui 
chegavam,   à tua praia, as galés dos romanos
e os barcos dos piratas de perna de pau.
Não sei se o sítio tem padroeiro ou orago, 
mas por certo que por aqui passava o caminho atlântico 
de Santiago.

Aqui deito contas à vida,
aqui conto as marcas do tempo,
aqui lanço a âncora para escrever o meu testamento vital.
Aqui fui carpinteiro de naus,
aqui, Plínio, o Velho,
poderia ter fundado a paleontologia.
Mas, não: morreria em 69 depois de Cristo 
a observar a  erupção do Vesúvio.

À tua esquerda, a praia do Valmitão.
Ou do Vale do Ermitão.
Podia ter sido ilha de corsário ou baía de tubarão,
mas a ter bandeira, só a preta, com caveira.

Porto Dinheiro:

Horácio Fernandes
(1935-2025)
Finisterra, p
órtico do tempo, 
és gare, és algar,
porto dos portos das Atlântidas perdidas!

Foste estaleiro de vasos de guerra,
galeões, naus e caravelas
por haver ou nunca havidas,
diz o livro do almoxarife.

Hoje já não se constroem mais catedrais
nas tuas fossas submarinas
nem moinhos de vento  no teu recife de corais,
nem traineiras de grosso cavername
nas rampas das tuas arribas fósseis.

Dóceis são as ondas com que afagas
a pele e apagas
a púbis das raparigas.

Porto Dinheiro: 
o irresistível apelo das algas
que são as hormonas do mar,
espigas, chicotes, valquírias, ninfas, najas, canibais,
que vêm do fundo dos tempos imemoriais
para seduzir os filhos dos homens,
inebriar as suas almas, 
enlear os seus corpos.

Ah!, quantos dos teus não ficaram insepultos
a muitas milhas náuticas de casa!

Porto Dinheiro, Ribamar, Porto das Barcas, Atalaia, Lourinhã:
tens a tua quota-parte na história trágico-marítima de Portugal.
entre 1968 a 2000,  Hades, o rei dos infernos,
contabilizou seis naufrágios de barcos de pesca
e neles morreram três dezenas dos  teus filhos:
Deus é Pai, Certa, Altar de Deus, 
Arca de Deus, Amor de Filhos, Orca II...

Há ainda olhos que perscrutam a linha do horizonte
e rasgam a colina de neblina, por detrás das Berlengas.
O Mar do Cerro, dizia o meu velho.
É de lá que vêm piratas e corsários, 
monstros, mostrengas, adamastores,
dissauros, loucos menestréis, 
contadores de lendas, mouras encantadas, 
mercadores, invasores, conquistadores,
vikings e outros predadores... 

E os bretões com os seus barcos a vapor, 
que vinham aqui pescar lagostas entre as duas grandes guerras,
mais o Bateau ivre, do Rimbaud!

É de lá, do mar fundo,  que vêm os portadores da peste…
Mercator ergo pestiferus, de que Deus nos livre!

Deste nomes de fêmeas aos teus barcos que são machos,
máquinas fálicas de lavrar e violar
o vento, a água, o ar,
Jessica, Mafalda, Sofia,
Inês, Patrícia, Maria.

Porto Dinheiro:
formidáveis muralhas de palavras e moluscos
emparedam-me vivo
na canícula desta tarde de verão.
em que espero em vão 
os mercadores fenícios,
as legiões romanas, 
devidamente equipadas e alinhadas nas suas galeras,
ou as hordas bárbaras, teutónicas, a cavalo, blindado.
Ou, cara ou coroa, 
o simples mensageiro da paz,
o carteiro que me há-de trazer a carta a Garcia,
com a solução alquímica da vida
ou o algoritmo da felicidade
ou a password do sítio 
A gruta de Alibabá e os 40 ladrões.


Porto Dinheiro:
estou sentado na esplanada da tasca da Ti Augusta,
que eu ainda conheci em vida,
depois de saborear uma sopa de navalheiras,
e comer uma posta de arraia frita,
e beber um copo de branco, em vidro fosco e grosso,
recuando ao tempo dos meus avoengos Maçaricos
que tinham tempo e vagar para viver e morrer cedo.
E eram pescadores de moreira e safio.

E aqui penso em como a vida às vezes é tão simples,
se descartada da econometria, 
da sociometria 
e da psicometria…
e da geometria variável do poder.

Dizem que aqui reinou o rei Midas,
o mesmo que transformava lagostas e algas em barras de ouro.

Porto Dinheiro,
dos casais por detrás das tuas colinas,
onde a tua gente se escondia dos piratas e corsários,
até ao mar imenso,
por aqui andaram, Horácio,  os nossos antepassados.


Um dia há de desaparecer nas Américas

o último carpinteiro de naus, 

António Fernandes
 (c. 1890 - c. 1950)
caravelas e traineiras.
Não sobreviveu à industrialização da construção naval
nem à crise do capitalismo dos anos 20.
Já não te lembras dele.
Nem ele chegou a ver netos 
nem filhos com barba,
morreu longe, na Califórnia, 
na diáspora, no exílio, no desterro.
Nunca mais voltou nem deu notícias.
Era Patas e era Maçarico, meu parente, 
teu avô, Horácio.

Maldita pátria amada, odiada, esquecida, 
e quase sempre perdoada,
que tantos filhos pariste e rejeitaste!

Luís Graça (18/11/2011). Revisto em 5/1/026

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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69)

Vd. poste de2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27595: In Memoriam (565): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): Do Colégio Seráfico a Capelão Militar do BART 1913 (Catió, 1967/69) (Beja Santos)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69);

1. O poeta, de origem açoriana, Nuno Dempster, nome literário de Manuel Gusmão Rodrigues, morreu na sexta-feira passada, dia 2 de janeiro de 2026,  na sua casa em Viseu. A notícia dada foi comunicação social. (*)

O Nuno Dempster era membro da nossa Tabanca Grande desde 9/2/2011 (**). Tinha página no Facebook. Era também amigo do Facebook da Tabanca Grande.

Nasceu em 1944, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel Açores (donde era originária a família paterna, sendo a  família materna de Amarante). 

Foi fur mil SAM, ou seja, vagomestre, da CCAÇ 1792, a companhia dos lenços azuis, que andou por Farim, Saliquinhedim/K3, a norte, mas também, Mampatá, Colibuía e Aldeia Formosa, a sul... 

Além de poesia, Nuno Dempster cultivou o conto e o romance. Obras mais recentes do autor, publicadas pela Companhia das Ilhas, sediada nas Lajes do Pico,  
  • “Seis histórias paralelas” (contos, 2023), 
  • “Limbo, inferno e paraíso” (poesia, 2022), 
  • “Variações da perda” (poesia, 2020), 
  • “Há rios que não desaguam a jusante” (romance, 2018) 
  • e “Na luz inclinada” (poesia, 2014).

Em 2021, Nuno Dempster organizou, com Anabela Almeida, a antologia de poemas do seu avô, Armando Côrtes-Rodrigues (1881-1971), “Um poeta rodeado de mar” (Companhia das Ihas,  2021).

Além de poesia, Nuno Dempster cultivou o conto e o romance. Outras obras do escritor:
  • “Uma paisagem na Web” (poesia, editado pela & etc, 2013), 
  • “Elogia de Cronos” (poesia, Artefacto Edições, 2012), 
  • “O papel de prata, o reflexo e outros contos pelo meio” (Companhia das Ilhas, 2012), 
  • “Pedro e Inês. Dolce Stil Nuovo” (poesia, Edições Sempre-em-Pé, 2011),
  •  “K3” (poesia em que faz uma incursão no tema da guerra colonial, & etc, 2011);
  • “Uma flor de chuva (poesia, Escola Portuguesa de Moçambique, Maputo, 2011),
  •  “Londres” (poesia, & etc, 2010) 
  • e “Dispersão – Poesia reunida” (Edições sempre-em-pé, 2008) 
Tinha também um blogue, que mantevce de 2007 a 2021, A Esquerda da Vírgula, dedicada aos livros, aos seus e aos dos outros.

Vivia em Viseu (cidade, onde vivo exilado por força dos meus erros e suas consequências", escreveu ele algures, no seu blogue).


Capa do livro com o longo poema K3 (& Etc., 2011, 64 pp.) (Autoria da capa: Maria João Lopes Fernandes)

Sinopse: Nuno Dempster (autor de "Londres, ed. & etc) revisita o Horror. Felizmente para elas, as jovens gerações (também de poetas) desconhecem esse Horror que foi, para quem o sofreu nos ossos e no que houvesse de alma, a Guerra Colonial. Algures na Guiné e algures num quartel subterrâneo: o K 3. Nossa palavra: não conhecemos, na literatura sobre o tema, tão fundo, tão magistral testemunho desse Horror. Elegia, catarse, contrição, K3 combate o esquecimento. (Fonte: Wook)



Dedicatória do autor à nossa Tabanca Grande:

 "Para o Luís Graça & Camaradas da Guiné, todos meus companheiros nesta guerra que em muitos ainda está por digerir, com o afecto e a camaradagem do Nuno Dempster. 3/2/2011. Na Guiné, de [1967-1969,], no K3, Mampatá, Colibuía e Quebo (Aldeia Formosa), por esta ordem".


2.  Comentário do editor LG:

Morreu mais um poeta da nossa terra. Morreu mais um canarada nosso. Morreu mais um grão-tabanqueiro. É uma tripla perda. Os meus votos de pesar para a família e os amigos mais íntimos, sem esquecer a companhia dos lenços azuis, a CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (1967/69).

Não conheci pessoalmente o Nuno Dempster. Trocámos apenas alguns emails. Li com grande emoção, e de um só fôlego, o seu extenso poema K3. Ele teve a gentileza de mandar uma cópia, autografada, do livro, com dedicatória a todos os camaradas da Guiné.

A CCAÇ 1792 tem 14 referências no no blogue. E o Nuno apenas meia dúzia. A companhia dos lenços azuis andou por Farim, Saliquinhedim/K3, a norte, mas também, Mampatá, Colibuía e Aldeia Formosa, a sul... 

Pertencia ao BCAÇ 1933 (Nova Lamego, Bissau, S. Domingos). Teve  3 comandantes:  
  • Cap Mil Art Antóno Manuel Conceição Henriques (que ficaria sem as pernas numa mina A/C); 
  • Cap Art Ricardo António Tavares Antunes Rei, 
  • Cap Inf Rui Manuel Gomes Mendonça. 
A companhia foi mobilizada pelo RI 15, tendo partido para a Guiné em 28 de Outubro de 1967 e regressado à Metrópole em 20/8/1969.

Sobre estes comandantes, o Nuno Demspster escreveu o seguinte, em mails que trocámos em 2011:

(...) Recordei, no link que enviaste, o capitão Rei, de carreira, que teve a ideia dos lenços [azuis] e que substituiu o capitão miliciano, cujo nome já não recordo, um homem lúcido, vítima de um fornilho, na estrada de Farim, uma das passagens mais intensas do poema [Cap Mil Art António Manuel Conceição Henriques]. (***)

Isso sucedeu dentro dos seis primeiros meses do início, quando estávamos no K3. Até sairmos de lá, o aquartelamento ficou entregue ao alferes miliciano, segundo comandante, bem como em Mampatá e Colibuia, penso. O Cap [Art Ricardo António Tavares Antunes] Rei chegou já no tempo de Quebo. (...)

O Nuno Dempters, ou melhor, o Manuel Gusmão Rodrigues era engenheiro técnico agrícola (trabalhou em cooperativas) e empresário. 
 
3. Comentário de Nuno Dempster, quinta, 1/07/2010, 21:51, ao poste P4782, do Cherno Baldé (****);

(...) "A vontade de suplantar o outro, o dominador, e de ocupar o seu lugar mas no sentido de que tudo continue na mesma, apenas mudando a sua posição de baixo para cima, afastando para isso o outro, o estranho que o impedia de usufruir de privilégios e de ser o epicentro das atenções das imaculadas bajudas."

A propósito do escrito acima, para Cherno Baldé, de quem estou a ler aqui, interessadíssimo, as suas crónicas, um trecho de um muito longo poema que acabei há dois dias e que se publicará como livro, julgo, em 2011. O poema intitula-se K3, onde em 1968 estive enterrado.

(...) Não fazemos história,
a História não regista
a sina dos anti-heróis
que pululam em toda a parte,

o mundo sublevado em armas,
o mundo velho que noutro se transforma,

mas a essência do mundo
não é tornar-se novo,
é afinar o modo de fazer
que o novo permaneça antigo,

anti-heróis
que não chegam a ser anti-heróis,

são uma chapa com número
no fio ao peito, à prova de fogo,
o corpo esturricado,
a medalha de Fátima, fundida,

mas não o número,
útil aos funerais anónimos
dos que «morreram pela pátria»,
dizia-se em Lisboa.(...)


Nuno Dempster
quinta-feira, 1 de julho de 2010 às 21:51:35 WEST

(***) Vd. poste de 12 de novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9028: Blogpoesia (167): K3, de Nuno Dempster: excerto: "Capitão, meu capitão, não nos deixes sós!"