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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27612: In Memoriam (568): António José Mendes Matias (1949-2022), ex-Soldado At Inf da CCAÇ 3305/BCAÇ 3832; fica inumado, simbolicamente, à sombra do nosso poilão, no lugar n.º 910

IN MEMORIAM

António José Mendes Matias (Vide, Seia, 12/08/1949 - Coimbra, IPO, 22/02/2022)
Ex-Soldado At Inf da CCAÇ 3305/BCAÇ 3832
Mansoa, 1971/73

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1. Mensagem de Paulo Matias, filho do nosso camarada António José Mendes Matias, com data de 5 de Janeiro de 2026:

Chamo-me Paulo Matias e sou filho de um soldado atirador da CCaç 3305/RI2 (pertencente ao BCac 3832 que esteve em Mansoa) chamado António José Mendes Matias.

Tomei conhecimento deste website através de um amigo meu que o encontrou e me aconselhou a visitar.

Lamento informar, mas o meu pai faleceu em 2/2/2022, no IPO de Coimbra, vitima de cancro. Ele nasceu a 12 de Agosto de 1949 no lugar de Vide, concelho de Seia, onde vivia.

Gostaria de conhecer histórias desse tempo e partilhar algumas histórias que o meu pai me contava em conversas. Ele tinha muitas vezes reservas em falar destes assuntos e pouco me contava.

Em anexo junto 2 fotos antigas (não sei se foram tiradas em Mansoa ou no quartel de Abrantes antes de embarcar) e 1 atual do meu pai.

Caso pretendam contactar-me ou enviar noticias do vosso blog, utiliem o meu email

Com melhores cumprimentos,
Paulo Matias

Fotos sem data e sem indicação do local
António José Matias, o primeiro a partir da esquerda, de pé

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2. Mensagem enviada ao nosso amigo Paulo Matias no mesmo dia:

Caro Paulo Matias

Muito obrigado pelo seu contacto.
Primeiro que tudo, aceite os nossos sentimentos pela perda do senhor seu pai.
Falando do meu camarada António José Matias, ele ainda foi meu contemporâneo, eu estava cerca de 30 km mais a norte, em Mansabá.

Do batalhão do seu pai, faleceram dois furriéis sapadores em Fevereiro de 1971, pouco tempo após terem chegado à Guiné e a Mansoa. O incidente aconteceu uns quilómetros a norte de Mansabá, quando me encontrava a gozar férias em Portugal. Foi um choque para mim quando regressei e me deram a triste notícia. Mal tive tempo de os conhecer.

Uma vez que nos mandou fotografias do pai, se aceitar, gostaríamos de o receber a título póstumo na nossa Tabanca Grande, nome por que é conhecido o nosso Blogue. O seu nome ficará a constar na listagem dos nossos camaradas que já partiram. Veja aqui:
https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/p/tabanca-grande-lista-alfabetica-dos-897.html

No próximo contacto diga-nos se aceita a inclusão do seu pai na tertúlia.

Também queríamos que identificasse o seu pai na foto do grupo. Veja nas costas da foto se por acaso tem o local onde foi tirada.
Deixo-lhe dois links para explorar, um da CCAÇ 3305 (https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/search/label/CCA%C3%87%203305) e
outro do BCAÇ 3832 (https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/search/label/BCA%C3%87%203832)

Não esquecer que ao fim de cada página apresentada tem de clicar em "Mensagens antigas" até receber a mensagem para voltar à página inicial.

Ficamos na expectativa do seu contacto.
Receba um abraço dos editores e da tertúlia.

Carlos Vinhal
Coeditor


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3. Mensagem enviada ao blogue no dia 6 de Janeiro pelo Paulo Matias:

Caro sr Carlos Vinhal

Relativamente à proposta de inclusão do meu pai na tabanca, autorizo sem qualquer problema, estejam a vontade.

Agora que falou nos 2 furrieis, lembro me que o meu pai me contou uma história envolvendo uma emboscada. Que ele é que costumava levar o cinto das munições (se não for termo correto, as minhas desculpas) e que certa vez sairam para missão qualquer e um colega dele lhe disse que naquele dia ele quis levar o cinto e trocaram de lugar, passando para a frente do meu pai. 

Durante o trajeto lá no carreiro, foram atacados e esse colega dele foi atingido com uma bala e acabou por morrer. Talvez tivesse sido por este eventual trauma ele não gostasse de recordar esses tempos, digo eu. Ele dizia se tivesse ido normalmente no lugar, eu não teria nascido. Gostaria de saber mais sobre esse soldado, mas meu pai nunca me disse mais nada sobre isso.

Em relação a foto do grupo, o meu pai é o que está de pé atrás com a boina e camisa, e mãos à cintura, do lado esquerdo quem olha para a foto. Já verifiquei atrás e só tem números "25" e "11" e mais nada escrito. Talvez através dos edificios surgem atrás e comparando com outras fotos se consiga descobrir o local onte foi tirada. Mas dá ideia ser no quartel, talvez em Mansoa.

Cumprimentos,
Paulo Matias


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4. Comentário do editor CV:

Caro amigo Paulo Matias,

O seu pai vai passar a partir de hoje a figurar no nosso obituário e terá o n.º 910 da nossa tertúlia.

A história que ele contava àcerca da troca de lugar nas progressões apeadas ou em colunas auto, eram frequentes pelo que ele não teve teve culpa do infortúnio que vitimou o seu camarada, que tinha a sua morte destinada para aquele dia e naquele local.

Quanto ao transporte das munições, os pelotões normalmente eram compostos pela secção da metralhadora, que seguia à frente, pela secção da bazuca, que seguia a meio, e pela secção do morteiro 60 mm, por acaso a que eu comandava no meu pelotão, que seguia atrás. 

O pessoal de cada secção levava as respectivas munições, tais como fitas para a metralhadora e granadas para a buzuca e para o morteiro. Muitas vezes alombei com granadas de morteiro ao ombro quando em progressões apeadas no mato. Cada um ainda tinha de carregar, além da sua G3, 4 carregadores de reserva para a arma, 4 granadas ofensivas/defensivas, 1 ou 2 cantis com água e, por vezes a ração de combate para o dia.

Inclino-me para que as fotos sejam tiradas na Guiné (Mansoa?), primeiro pelo piso tão maltratado, talvez por chuvadas recentes, depois porque na Metrópole não se admitiam militares em troco nu.

Termino, deixando-lhe um abraço em nome da tertúlia e dos editores.
Ficamos à sua disposição
Carlos Vinhal

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Nota do editor

Último post da série de 6 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27609: In Memoriam (567): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): "Maldita pátria amada, odiada, esquecida, / e quase sempre perdoada, / que tantos filhos pariste e rejeitaste!" (Luís Graça)

Guiné 61/74 - P27609: In Memoriam (567): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): "Maldita pátria amada, odiada, esquecida, / e quase sempre perdoada, / que tantos filhos pariste e rejeitaste!" (Luís Graça)



Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > O Horácio Fernandes e, em segundo plano, à esquerda  o Jaime Silva. (A Tabanca de Porto Dinheiro não existe mais, desde que morreu o seu régulo, o Eduardo Jorge Ferreira, 1953-2019).


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
Vista da tasca da Ti Augusta, sobranceira à praia e ao mar 


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
Embarcações de pesca artesanal, todas cokm nomes de... mulher


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
A tasca da Ti Augusta,  na altura explorada por um filho, sargento da marinha reformado.


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > Tasca da Ti Augusta > 
A famosa sopa de navalheiras.

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados 


Praia do Porto Dinheiro

por Luís Graça

À memória dos meus antepassados Maçaricos
marinheiros, mareantes, navegantes, mariscadores
pescadores, peixeiros, mercadores, missionários, 
construtores navais... desde Quinhentos

Ao António Fernandes (Patas, também Maçarico)
último construtor naval de Ribamar, Lourinhã,
que irá morrer na Califórnia, talvez nos anos 50.

E ao seu neto, e meu primo e camarada,
Horácio Fernandes (1935-2025).
capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor de "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)

Porto Dinheiro:
um espesso nevoeiro cobre as falésias e os caniçais.
Até aqui 
chegavam,   à tua praia, as galés dos romanos
e os barcos dos piratas de perna de pau.
Não sei se o sítio tem padroeiro ou orago, 
mas por certo que por aqui passava o caminho atlântico 
de Santiago.

Aqui deito contas à vida,
aqui conto as marcas do tempo,
aqui lanço a âncora para escrever o meu testamento vital.
Aqui fui carpinteiro de naus,
aqui, Plínio, o Velho,
poderia ter fundado a paleontologia.
Mas, não: morreria em 69 depois de Cristo 
a observar a  erupção do Vesúvio.

À tua esquerda, a praia do Valmitão.
Ou do Vale do Ermitão.
Podia ter sido ilha de corsário ou baía de tubarão,
mas a ter bandeira, só a preta, com caveira.

Porto Dinheiro:

Horácio Fernandes
(1935-2025)
Finisterra, p
órtico do tempo, 
és gare, és algar,
porto dos portos das Atlântidas perdidas!

Foste estaleiro de vasos de guerra,
galeões, naus e caravelas
por haver ou nunca havidas,
diz o livro do almoxarife.

Hoje já não se constroem mais catedrais
nas tuas fossas submarinas
nem moinhos de vento  no teu recife de corais,
nem traineiras de grosso cavername
nas rampas das tuas arribas fósseis.

Dóceis são as ondas com que afagas
a pele e apagas
a púbis das raparigas.

Porto Dinheiro: 
o irresistível apelo das algas
que são as hormonas do mar,
espigas, chicotes, valquírias, ninfas, najas, canibais,
que vêm do fundo dos tempos imemoriais
para seduzir os filhos dos homens,
inebriar as suas almas, 
enlear os seus corpos.

Ah!, quantos dos teus não ficaram insepultos
a muitas milhas náuticas de casa!

Porto Dinheiro, Ribamar, Porto das Barcas, Atalaia, Lourinhã:
tens a tua quota-parte na história trágico-marítima de Portugal.
entre 1968 a 2000,  Hades, o rei dos infernos,
contabilizou seis naufrágios de barcos de pesca
e neles morreram três dezenas dos  teus filhos:
Deus é Pai, Certa, Altar de Deus, 
Arca de Deus, Amor de Filhos, Orca II...

Há ainda olhos que perscrutam a linha do horizonte
e rasgam a colina de neblina, por detrás das Berlengas.
O Mar do Cerro, dizia o meu velho.
É de lá que vêm piratas e corsários, 
monstros, mostrengas, adamastores,
dissauros, loucos menestréis, 
contadores de lendas, mouras encantadas, 
mercadores, invasores, conquistadores,
vikings e outros predadores... 

E os bretões com os seus barcos a vapor, 
que vinham aqui pescar lagostas entre as duas grandes guerras,
mais o Bateau ivre, do Rimbaud!

É de lá, do mar fundo,  que vêm os portadores da peste…
Mercator ergo pestiferus, de que Deus nos livre!

Deste nomes de fêmeas aos teus barcos que são machos,
máquinas fálicas de lavrar e violar
o vento, a água, o ar,
Jessica, Mafalda, Sofia,
Inês, Patrícia, Maria.

Porto Dinheiro:
formidáveis muralhas de palavras e moluscos
emparedam-me vivo
na canícula desta tarde de verão.
em que espero em vão 
os mercadores fenícios,
as legiões romanas, 
devidamente equipadas e alinhadas nas suas galeras,
ou as hordas bárbaras, teutónicas, a cavalo, blindado.
Ou, cara ou coroa, 
o simples mensageiro da paz,
o carteiro que me há-de trazer a carta a Garcia,
com a solução alquímica da vida
ou o algoritmo da felicidade
ou a password do sítio 
A gruta de Alibabá e os 40 ladrões.


Porto Dinheiro:
estou sentado na esplanada da tasca da Ti Augusta,
que eu ainda conheci em vida,
depois de saborear uma sopa de navalheiras,
e comer uma posta de arraia frita,
e beber um copo de branco, em vidro fosco e grosso,
recuando ao tempo dos meus avoengos Maçaricos
que tinham tempo e vagar para viver e morrer cedo.
E eram pescadores de moreira e safio.

E aqui penso em como a vida às vezes é tão simples,
se descartada da econometria, 
da sociometria 
e da psicometria…
e da geometria variável do poder.

Dizem que aqui reinou o rei Midas,
o mesmo que transformava lagostas e algas em barras de ouro.

Porto Dinheiro,
dos casais por detrás das tuas colinas,
onde a tua gente se escondia dos piratas e corsários,
até ao mar imenso,
por aqui andaram, Horácio,  os nossos antepassados.


Um dia há de desaparecer nas Américas

o último carpinteiro de naus, 

António Fernandes
 (c. 1890 - c. 1950)
caravelas e traineiras.
Não sobreviveu à industrialização da construção naval
nem à crise do capitalismo dos anos 20.
Já não te lembras dele.
Nem ele chegou a ver netos 
nem filhos com barba,
morreu longe, na Califórnia, 
na diáspora, no exílio, no desterro.
Nunca mais voltou nem deu notícias.
Era Patas e era Maçarico, meu parente, 
teu avô, Horácio.

Maldita pátria amada, odiada, esquecida, 
e quase sempre perdoada,
que tantos filhos pariste e rejeitaste!

Luís Graça (18/11/2011). Revisto em 5/1/026

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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69)

Vd. poste de2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27595: In Memoriam (565): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): Do Colégio Seráfico a Capelão Militar do BART 1913 (Catió, 1967/69) (Beja Santos)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69);

1. O poeta, de origem açoriana, Nuno Dempster, nome literário de Manuel Gusmão Rodrigues, morreu na sexta-feira passada, dia 2 de janeiro de 2026,  na sua casa em Viseu. A notícia dada foi comunicação social. (*)

O Nuno Dempster era membro da nossa Tabanca Grande desde 9/2/2011 (**). Tinha página no Facebook. Era também amigo do Facebook da Tabanca Grande.

Nasceu em 1944, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel Açores (donde era originária a família paterna, sendo a  família materna de Amarante). 

Foi fur mil SAM, ou seja, vagomestre, da CCAÇ 1792, a companhia dos lenços azuis, que andou por Farim, Saliquinhedim/K3, a norte, mas também, Mampatá, Colibuía e Aldeia Formosa, a sul... 

Além de poesia, Nuno Dempster cultivou o conto e o romance. Obras mais recentes do autor, publicadas pela Companhia das Ilhas, sediada nas Lajes do Pico,  
  • “Seis histórias paralelas” (contos, 2023), 
  • “Limbo, inferno e paraíso” (poesia, 2022), 
  • “Variações da perda” (poesia, 2020), 
  • “Há rios que não desaguam a jusante” (romance, 2018) 
  • e “Na luz inclinada” (poesia, 2014).

Em 2021, Nuno Dempster organizou, com Anabela Almeida, a antologia de poemas do seu avô, Armando Côrtes-Rodrigues (1881-1971), “Um poeta rodeado de mar” (Companhia das Ihas,  2021).

Além de poesia, Nuno Dempster cultivou o conto e o romance. Outras obras do escritor:
  • “Uma paisagem na Web” (poesia, editado pela & etc, 2013), 
  • “Elogia de Cronos” (poesia, Artefacto Edições, 2012), 
  • “O papel de prata, o reflexo e outros contos pelo meio” (Companhia das Ilhas, 2012), 
  • “Pedro e Inês. Dolce Stil Nuovo” (poesia, Edições Sempre-em-Pé, 2011),
  •  “K3” (poesia em que faz uma incursão no tema da guerra colonial, & etc, 2011);
  • “Uma flor de chuva (poesia, Escola Portuguesa de Moçambique, Maputo, 2011),
  •  “Londres” (poesia, & etc, 2010) 
  • e “Dispersão – Poesia reunida” (Edições sempre-em-pé, 2008) 
Tinha também um blogue, que mantevce de 2007 a 2021, A Esquerda da Vírgula, dedicada aos livros, aos seus e aos dos outros.

Vivia em Viseu (cidade, onde vivo exilado por força dos meus erros e suas consequências", escreveu ele algures, no seu blogue).


Capa do livro com o longo poema K3 (& Etc., 2011, 64 pp.) (Autoria da capa: Maria João Lopes Fernandes)

Sinopse: Nuno Dempster (autor de "Londres, ed. & etc) revisita o Horror. Felizmente para elas, as jovens gerações (também de poetas) desconhecem esse Horror que foi, para quem o sofreu nos ossos e no que houvesse de alma, a Guerra Colonial. Algures na Guiné e algures num quartel subterrâneo: o K 3. Nossa palavra: não conhecemos, na literatura sobre o tema, tão fundo, tão magistral testemunho desse Horror. Elegia, catarse, contrição, K3 combate o esquecimento. (Fonte: Wook)



Dedicatória do autor à nossa Tabanca Grande:

 "Para o Luís Graça & Camaradas da Guiné, todos meus companheiros nesta guerra que em muitos ainda está por digerir, com o afecto e a camaradagem do Nuno Dempster. 3/2/2011. Na Guiné, de [1967-1969,], no K3, Mampatá, Colibuía e Quebo (Aldeia Formosa), por esta ordem".


2.  Comentário do editor LG:

Morreu mais um poeta da nossa terra. Morreu mais um canarada nosso. Morreu mais um grão-tabanqueiro. É uma tripla perda. Os meus votos de pesar para a família e os amigos mais íntimos, sem esquecer a companhia dos lenços azuis, a CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (1967/69).

Não conheci pessoalmente o Nuno Dempster. Trocámos apenas alguns emails. Li com grande emoção, e de um só fôlego, o seu extenso poema K3. Ele teve a gentileza de mandar uma cópia, autografada, do livro, com dedicatória a todos os camaradas da Guiné.

A CCAÇ 1792 tem 14 referências no no blogue. E o Nuno apenas meia dúzia. A companhia dos lenços azuis andou por Farim, Saliquinhedim/K3, a norte, mas também, Mampatá, Colibuía e Aldeia Formosa, a sul... 

Pertencia ao BCAÇ 1933 (Nova Lamego, Bissau, S. Domingos). Teve  3 comandantes:  
  • Cap Mil Art Antóno Manuel Conceição Henriques (que ficaria sem as pernas numa mina A/C); 
  • Cap Art Ricardo António Tavares Antunes Rei, 
  • Cap Inf Rui Manuel Gomes Mendonça. 
A companhia foi mobilizada pelo RI 15, tendo partido para a Guiné em 28 de Outubro de 1967 e regressado à Metrópole em 20/8/1969.

Sobre estes comandantes, o Nuno Demspster escreveu o seguinte, em mails que trocámos em 2011:

(...) Recordei, no link que enviaste, o capitão Rei, de carreira, que teve a ideia dos lenços [azuis] e que substituiu o capitão miliciano, cujo nome já não recordo, um homem lúcido, vítima de um fornilho, na estrada de Farim, uma das passagens mais intensas do poema [Cap Mil Art António Manuel Conceição Henriques]. (***)

Isso sucedeu dentro dos seis primeiros meses do início, quando estávamos no K3. Até sairmos de lá, o aquartelamento ficou entregue ao alferes miliciano, segundo comandante, bem como em Mampatá e Colibuia, penso. O Cap [Art Ricardo António Tavares Antunes] Rei chegou já no tempo de Quebo. (...)

O Nuno Dempters, ou melhor, o Manuel Gusmão Rodrigues era engenheiro técnico agrícola (trabalhou em cooperativas) e empresário. 
 
3. Comentário de Nuno Dempster, quinta, 1/07/2010, 21:51, ao poste P4782, do Cherno Baldé (****);

(...) "A vontade de suplantar o outro, o dominador, e de ocupar o seu lugar mas no sentido de que tudo continue na mesma, apenas mudando a sua posição de baixo para cima, afastando para isso o outro, o estranho que o impedia de usufruir de privilégios e de ser o epicentro das atenções das imaculadas bajudas."

A propósito do escrito acima, para Cherno Baldé, de quem estou a ler aqui, interessadíssimo, as suas crónicas, um trecho de um muito longo poema que acabei há dois dias e que se publicará como livro, julgo, em 2011. O poema intitula-se K3, onde em 1968 estive enterrado.

(...) Não fazemos história,
a História não regista
a sina dos anti-heróis
que pululam em toda a parte,

o mundo sublevado em armas,
o mundo velho que noutro se transforma,

mas a essência do mundo
não é tornar-se novo,
é afinar o modo de fazer
que o novo permaneça antigo,

anti-heróis
que não chegam a ser anti-heróis,

são uma chapa com número
no fio ao peito, à prova de fogo,
o corpo esturricado,
a medalha de Fátima, fundida,

mas não o número,
útil aos funerais anónimos
dos que «morreram pela pátria»,
dizia-se em Lisboa.(...)


Nuno Dempster
quinta-feira, 1 de julho de 2010 às 21:51:35 WEST

(***) Vd. poste de 12 de novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9028: Blogpoesia (167): K3, de Nuno Dempster: excerto: "Capitão, meu capitão, não nos deixes sós!"

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27595: In Memoriam (565): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): Do Colégio Seráfico a Capelão Militar do BART 1913 (Catió, 1967/69) (Beja Santos)


Horácio Fernandes (Lourinhã, Ribamar, 1935 -
Porto, 2025)



Capa do livro de Horácio Neto Fernandes  -  "Francisco Caboz, A construção e a desconstrução de um Padre”. Porto: Papiro Editora, 2009. 

Fotos: arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. A nota de leitura é da autoria, como é habital, do nosso crítico literário, o Mário Beja Santos (ex-alf mil, cmdt, Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) (*)

Vale a pena reediatá-la em homenagem ao nosso camarada ex-alf graduado capelão Horário Neto Fernandes (1935-2025). O seu livro de memórias está esgotado.

Horácio Neto Fernandes, nascido em Ribamar, Lourinhã, é um dos 113 capelães militares que prestaram serviço no CTIG (**).  Vi nº 42 da lista, era também franciscano (fui à sua "missa nova!,  em 1959), e esteve lá dois anos, primeiro em Catió e depois em Bambadinca e Bissau, de novembro de 1967 a novembro de 1969.

Há aqui um pormenor intrigante, para mim: nunca nos encontrámos em Bambadinca, nem eu conheci nenhum capelão, entre julho de 1969 e maio de 1970, em Bambadinca, no primeiro batalhão, a que esteve adida a minha companhia, a CCAÇ 2590/CCAÇ 12: refiro-me ao BCAÇ 2852 (1968/70). 

Além do Horácio Neto Fernandes (nº 42) (que esteve no CTIG de 1/11/1967 a 3/11/1969), cite-se mais os seguintes capelães, da Ordem dos Frades Menores (OFM), por ordem alfabética (pode ser que alguém nos diga a que batalhão pertenceram estes capelães):
  • José António Correia Pereira (nº 84): de 26/3/1972 a 21/3/1974;
  • José de Sous Brandão (nº 79): de 25/9/1971 a 22/12/1973:
  • José Marques Henriques (nº 97): de 28/4/1974 a 9/10/1974):
  • Manuel Gonçalves (nº 58): de 19/7/1969 a 30/6/1971;
  • Manuel Maria F. da Silva Estrela (nº 11): de 27/9/1963 a 14/8/1965;
  • Manuel Pereira Gonçalves (nº 91): de 28/5/1968 a 29/6/1974):

Do Colégio Seráfico a Capelão Militar do BART 1913

por Beja Santos


Beja Santos
1. O livro de Horácio Neto Fernandes é de um sofrimento pungente, uma longa viagem de construção e desconstrução de um sacerdote católico.

Os primores literários, diga-se sem qualquer hesitação, situam-se fundamentalmente nas memórias registadas a fogo no menino de 11 anos que, muito mais tarde, cursará Filosofia e Teologia, e que depois rezará missas por casas senhoriais.

O narrador insiste que a desconstrução desse padre está diretamente associada aos seus tempos de capelão militar, esteve no BART 1913, na região Sul e depois em Bambadinca. A prosa aqui afrouxa, o que temos que lamentar, não possuímos de forma integral nenhum relato do género, há um desequilibro na desconstrução do padre. Mas é um documento que tem parágrafos arrepiantes, pode imaginar-se o tormento que foi passar a escrito tais memórias.

Horácio Fernandes
(1935-2025)
2. "Francisco Caboz, A construção e a desconstrução de um Padre”, por Horácio Neto Fernandes (Papiro Editora, 2009), é um relato ímpar pela simplicidade do que documenta, pela coragem em pôr por escrito recordações por vezes pungentes da criança sofrida que o adulto guardou em bom recato. 

Algures, na Lourinhã [, em Ribamar,] num ambiente de pobreza austera, um menino solícito e participativo nas fainas duras do campo e das pescarias do pai, guardou esculpido a cinzel as memórias de um meio rústico, das brincadeiras das crianças e da religiosidade dos actos litúrgicos, dos bodos e da catequese. 

Terá sido na escola primária, no princípio dos anos 40, que se sentiu impelido a ser padre. Com 11 anos partiu para o Colégio Seráfico, em Braga, partiu com o enxoval mínimo, como ele descreve: 

“As botas que deviam ser dois pares: umas pretas, para usar com o uniforme da mesma cor e outras para trazer no dia-a-dia ficaram reduzidas a um só par, dado pelo padrinho, sapateiro, que também era pobre. O sobretudo preto para completar o uniforme e fazer face ao rigoroso Inverno minhoto, também foi riscado da extensa lista enviada pelo seminário, por falta de dinheiro"

Mais tarde, vai ser fortemente penalizado por estas carências. Não teve outro remédio senão pintar as botas de tinta preta, quando havia saídas em que se usasse o uniforme. A princípio, ainda resultou, mas depois este artifício foi descoberto pelo Perfeito que passava revista aos uniformes, antes da saída do Colégio Seráfico para o passeio semanal, às quintas-feiras. A sentença foi varrer os recreios e o salão.

O padre construiu-se a partir deste colégio que era um pesado e frio edifício de quatro pisos, circundado por densa e verdejante mata. Outra nota: 

“O portão sul, apenas utilizado pela comunidade para sair para a cidade, dava para um bairro chamado Areal, de gente pobre, vivendo em condições higiénicas miseráveis e que eram os principais clientes da igreja do Colégio. Quando avistavam os frades, as criancinhas descalças e de grandes barrigas ao léu, aproximavam-se para pedir um santinho, pequenas pagelas com imagens de santos”

Tudo compartimentado na organização deste Colégio, e bem hierarquizado. O regulamento era muito severo, cheio de proibições, à menor desobediência o Perfeito disparava duas ou mais bofetadas.

Francisco não esqueceu a composição do pequeno-almoço, do almoço e do jantar, as diversões, os passeios, as orações e a composição dos estudos. É uma descrição por vezes arrepiante, o leitor segue-o pelos lugares, envolve-se nos sacrifícios e nas medidas disciplinares, Francisco é tão evidente que aceitamos que se tenha habituado a cumprir sem pestanejar, sentindo-se sempre devedor dos padres. 

Cresce e habitua-se a afastar as tentações da carne. Aliás, segundo o director espiritual, as mulheres catalogavam-se da seguinte maneira: 
  • as freiras que se tinham consagrado a Deus; 
  • as mulheres casadas, sobretudo as mães dos padres, porque tinham dado um filho a Deus; 
  • depois as outras mulheres que procriavam; 
  • e as solteiras eram sempre um perigo porque causavam maus pensamentos aos homens. 
No final do 5º ano partiu para o Convento do Varatojo, agora era um rapaz de fato preto e chapéu na cabeça, é aqui que ele vai fazer um ano de noviciado, aqui também há castigos e penitências para as faltas. A nova etapa serão três anos de curso filosófico e depois quatro anos de curso teológico, no Seminário da Luz, em Carnide. 

De vez em quando, Francisco corre o risco de ser expulso, uma vez enviam uma carta anónima denunciando um tio que vivia amancebado, era o suficiente para a sua expulsão, felizmente que tudo se esclareceu. Temo-lo agora padre, em Agosto de1959, começa a sua missão, reza missas em casas senhoriais, presta serviço religioso nas igrejas, é professor.

A desconstrução de um padre começa nas suas hesitações ou vacilações: está apto a exercer a sua missão de sacerdote? 

Se o autor carpinteirou admiravelmente o contexto onde nasceu um padre e o modo como ele foi construído, há que confessar que esta desconstrução é descosida, frouxa, perdeu o nervo, é uma narrativa arrancada à força, um testemunho que não agarra o leitor pela gola.

3. Imprevistamente, é indigitado para capelão militar, frequenta a Academia Militar, aprende a manejar a G3 e ouve o bispo de Madarsuma a explicar a razão do compromisso com a pátria e a razoabilidade da guerra aos terroristas, Portugal estava a defender a civilização cristã contra as agressões externas.

É nomeado capelão militar no BART 1913, segue para Catió num DO pilotado pelo lendário sargento Honório. É logo praxado na sala de oficiais, à mesa, no almoço, o major passa-lhe fotografia com mulheres nuas e Francisco pergunta-lhe se eram fotos da mulher dele, valeu o médico do batalhão que conseguiu que o caso ficasse abafado. 

Temos uma descrição de Catió como uma vila isolada e cercada de florestas e rios com um administrador cabo-verdiano, um administrador adjunto alentejano e uma dúzia de cipaios; havia duas casas comerciais e um comerciante conservava o seu estabelecimento na outra margem do rio, num local chamado Ganjola, onde esteve um destacamento que depois veio a ser abandonado com consequências sérias para Catió. 

É uma descrição cuidada mas pouco vibrante, sabemos que houve ataques à sede do batalhão mas ele é praticamente omisso quanto ao seu relacionamento com os militares. Há igualmente uma descrição de Cabedu, um aquartelamento mais a sul onde Francisco apanhou um susto quando os guerrilheiros invadiram a pista e entraram na povoação. 

Pouco também ficamos a saber do seu múnus apostólico fora do quartel, ele é lacónico: 

“Francisco nunca foi visita assídua nem das populações nem dos comerciantes brancos. Naturalmente reservado, nunca actuou como se fosse o pastor do rebanho com as obrigações inerentes. Tinha o papel de capelão, procurava desempenhá-lo, mas pouco mais do que isso”

As suas homilias eram obrigatoriamente para falar do heroísmo dos nossos soldados e da vida difícil da Guiné. O BART 1913 foi rendido, Francisco foi colocado em Bambadinca, numa zona que ele classifica como a mais cobiçada pelo inimigo. Adoece e entretanto a sua comissão chegou ao fim, regressa em Dezembro de 1969. Com o dinheiro que juntou, vai estudar e ajuda a irmã, que está a tirar o curso de contabilidade.

Já muito hesitante sobre a sua missão sacerdotal, alistou-se no clube Stella Maris, uma organização religiosa que cedia capelões para as companhias marítimas. Descreve o seu trabalho com um pouco mais de vivacidade, é neste tempo que toma a decisão de não voltar ao convento: 

“Era levado por uma explosão de vida, nunca antes sentida”

E fica-se por aqui, diz ao leitor de uma forma sacudida que havia experimentar uma nova vida: 

“Sentia dentro de si a primavera da vida a borbotar de uma forma quase imparável”

Escandalizando a família e as senhoras mais devotas da terra, passou a usar o traje civil, depois escreveu ao provincial a comunicar-lhe que ia abandonar o sacerdócio. Concluiu os seus estudos universitários e dedicou-se a muitas actividades no Ministério da Educação. Não sente nostalgia do que deixou para trás.

Há momentos de grande elevação em toda esta carpintaria narrativa. Temos aqui rememorações que mereciam ser revistas, acompanhamos uma formação mediante um esforço quase pungente de tudo dizer, sem azedumes nem ressaibos. Mas há um desequilíbrio na desconstrução do padre que merecia mais afeiçoamento à escrita, ganhava o depoimento e teríamos aqui um relato suficientemente vigoroso para poder constar no que há de melhor no memorialismo e nas confissões de um capelão militar.

(Revisão / fixação de texto: CV / LG)
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Notas de CV/LG:


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27585: In Memoriam (564): Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025): ele foi, para mim, o irmão mais velho que eu nunca tive (João Crisóstomo, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, Nova Iorque)


Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro. Régulo: Euardo Jorge Ferreira (1953- 2019), ex-alf ex-alf mil, Polícia Aérea,Bissalanca, 1973/74

(i) Da esquerda para a direita, na primeira fila:
  • António Nunes Lopes e João Crisóstomo (ambos pertenceram à CCAÇ 1439, 1965/67); 
  • Helena do Enxalé (mulher do Álvaro Carvalho, fotógrafo; era filha  do Pereira do Enxalé, que morreu em Bissau, em agosto de 1974);
  • Vilma Crisóstomo (esposa do João);
  • Dina   (esposa do Jaime) e Milita (esposa do Horácio) (as duas últimas naturais de Fafe); 
(ii) na segunda fila:
  • Eduardo Jorge Ferreira;
  • Maria Alice Carneiro e  Luís Graça;
  • Alexandre Rato (então presidente da junta de freguesia de Ribamar);
  •  Horácio Fernandes (1936-2025);
  • Jaime Bonifácio Marques da Silva. (Falta o fotógrafo, o Álvaro Carvalho.)

Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro > João e Horácio  

Fotos: © Álvaro Carvalho (2015) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Braga > Convento e seminário de Montariol > 1959 > Esta foto foi a foto dos “finalistas" de Montariol de 1959 (5º ano), prontos a ir para o Varatojo, em Torres Vedras, ao pé da minha casa, “tomar o hábito de noviços". 

Sem desprimor para os outros, permito-me identificar o padre capelão (falecido), José Sousa Brandão, que é o segundo na última fila, da direita para a esquerda [assinalado a amarelo, com o nº 1]; ao centro está o padre, meu primo direito, António Alves Sabino (de Vale Martelo, Silveira, Torres Vedras); ea o prefeito do colégio nessa altura [2].

A seu lado, estou eu, o único de braços cruzados [3] …A meu lado, a à minha esquerda, está o Padre Diamantino Maciel [4], fundador duma paróquia ( igreja St.António da Arancária, Vila Real ). 

O Horácio, quase dez anos mais velho do qu eu, não está nesta fotografia. Encontrámo-nos pela primeira vez em Leiria no convento franciscano da Portela, ele já padre franciscano (desde 1959, ano em quer disse missa),  estava como prefeito do que era na altura uma “escola” para miúdos que fazia parte desse convento, mas sem qualquer relacionamento com “vocação religiosa”.

Foto (e legenda): © João Crisóstomo (2020). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Mensagem do João Crisóstomo, que vive em Nova Iorque, é o régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, e que está por estes dias em Alter do Chão com a Vilma e o Rui Chamusco, devendo lá passar o fim de ano. 

Data - segunda, 29/12/2025, 22:08
Assunto - O choque da notícia da morte do Horácio

Meu mano Luís Graça,

Bem Hajas!  

Obrigado por este poste "In Memorian” do nosso Horácio (*). “Nosso” porque vejo que temos muitos elos comuns que nos ligavam e continuam a fazer que ele fique sempre connosco. 

De certa maneira, ele é mais teu do que meu pois que no meu caso não sou da família e não sou tão seu conterrâneo como tu, pois a Bombardeira onde nasci fica a uns bons quilómetros de Ribamar. 

Por outro lado o destino fez de nós irmãos em várias outras vertentes: a sua meninice não deve ter sido muito diferente da minha: ambos fomos criados com poucos meios materiais. No caso dele ainda bem mais difícil do que eu. 

Depois da escola primária os nossos caminhos foram os mesmos: frequentamos os mesmos colégios onde recebemos a mesma "agridoce educação”: se por um lado recebemos uma cultura franciscana de altruísmo, desapego a bens materiais e outros ensinamentos que podemos considerar positivos, por outro lado fomos desde miúdos sujeitos a uma lavagem cerebral a muitos títulos desastrosa que a ele, a mim e tantos outros nos marcou e que tivemos de lutar para dela nos livrar para o resto das nossas vidas.

Mas tudo isto sucedeu sem mesmo nos conhecermos por muito tempo: ele nascido a 15 de setembro de 1935 era portanto quase dez anos mais velho do que eu. Encontrámo-nos pela primeira vez em Leiria no convento franciscano da Portela, ele já padre franciscano , estava como prefeito do que era na altura uma “escola” para miúdos que fazia parte desse convento, mas sem qualquer relacionamento com “vocação religiosa”. 

E eu frequentava os estudos de filosofia. E lembro que quando ele precisou de ajuda para preparar o presépio e outros decorações de Natal nessa escola , que de certa maneira era independente do convento, eu e outro “estudante franciscano de filosofia” oferecemo-nos. Foi nessa altura que nos conhecemos e começou a nossa amizade.

Sucede que no fim destes meus três anos de estudos eu resolvi sair. E logo se me pôs o problema do serviço militar, pois ninguém me queria dar trabalho antes de eu ter acabado o serviço militar. Esta espera levou-me a voltas e contactos, entre estes com uma família da Cerca, Silveira.

A verdade é que o que me atraía nessa família eram as três irmãs com quem eu queria a todo o custo manter boas relações. Estas conheciam o João Maria Maçarico e o Padre Horácio de Ribamar, que eu conhecia já. E cedo os pais e irmãs do (padre) Horácio "adoptaram-me” também . E a minha vida era uma correria entre Ribamar e a Cerca , a ponto de os meus pais me censurarem, que “parecia que eu gostava mais daquelas casas do que da casa deles”, que eram meus pais.

E comecei a conhecer melhor ainda o padre Horácio, o seu amor e dedicação aos seus paupérrimos pais e irmãs. Mas não só: ele era um amigo de toda a gente, e mesmo na sua pobre condição de frade franciscano, a todos queria ajudar. 

Recordo-me que um dia, estávamos nós— eu, ele e um grupo de rapazes e raparigas, sempre os mesmos —  nas imediações de Porto Dinheiro, e ele, pensando que  eu que já não era frade e devia estar "mais à vontade", de longe berrou-me:
 
 —  Oh,  João, tu podes-me emprestar vinte escudos?

E  eu que fazia tudo a pé (Bombardeira-Ribamar ; Bombardeira-Cerca, etc.), porque não tinha um tostão, fiquei muito embaraçado, mas triste também por o não poder ajudar. 

Ainda hoje se me aperta o coração quando lembro esse dia.  Como lembro o dia em que — o mesmo grupo   fomos todos numa traineira de pesca às Berlengas: o dono da traineira não só nos levou e trouxe com ainda fomos para casa depois comer sardinhas e chicharros que ele fez questão em nos presentear. 

Era assim o Horácio. Todos gostavam dele. Até que um dia mais tarde ele “saiu” também. Mas não vou falar sobre essa parte da sua vida de que ele fala com hombridade e coragem no seu livro que tu conheces bem.

Quando eu estava na Guiné e já depois de ter acabado o meu serviço militar e ele mesmo esteve na Guiné e depois num barco, eu correspondia-me com ele. E segui o que foi a sua luta (e sucesso) para ajudar as irmãs a tirarem os seus cursos de enfermagem e de professora e os seus próprios pais….

Talvez porque sofremos os dois tanta coisa comum — meninice, colégio, educação boa e má, lavagem cerebral , dificuldades financeiras, situações que felizmente no fim ele e eu conseguimos vencer e sobreviver… 
— mas sobretudo porque ele era para mim um irmão mais velho, a sua passagem foi dura para mim.

Já há bastante tempo que não sabia dele: era sempre a esposa, a Milita, que apanhava o telefone e agora nem isso. Pelo que ontem lembrei-me de ir ver a Carmitas, que habita no que era a sua casa onde nasceu, agora feita numa residência muito confortável, para lhe dar um abraço e saber notícias. Quando ele me disse "o meu mano faleceu“ foi como se me tivessem dado um "knock-out”. De que não me foi fácil despertar e aceitar.. Duro, duro!

E, mais do que informação que achei devia partilhar contigo, era o teu abraço e empatia que eu precisava. Obrigado, meu caro Luís Graça. Obrigo-me a mim mesmo a ter coragem. Mas não é fácil.

Um abraço grande, João

(Revisão / fixação de texto: LG)
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27584: In Memoriam (563): Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025), ex-alf grad capelão, BART 1991 (Catió, set 67/ mai 69) e BCAÇ 2852 (Bambadinca, mai /dez 69); nosso grão tabanqueiro nº 565


Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).
Nosso grão-tabanqueiro nº 565, Tem cerca de 3 dezenas de 
referências no nosso blogue



Lourinhã > Ribamar > c. 1959 > Da esquerda para a dfireita  os então padres franciscanos  Horácio Neto Fernandes (1935-2025) e Júlio Alberto Maçarico Fernandes (1934 -  falecido, no Canadá, em data desconhecida)

De acordo com o   "livro da família Maçarico", o Horácio é meu parente, as nossas bisavós, nascidas por volta de 1860, eram irmãs...  

O Júlio, que foi missionário em Moçambique (João Belo, Mavila, Zvala, Maxixe)  e depois foi para o Canadá, já morreu. Saiu da ordem, franciscana,  em 1970. Também era do clã  Maçarico, e portanto meu parente... Fui de resto à missa nova de ambos, em agosto de 1959 (se não erro).

Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio - Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor. 2002,  pag.123


1. Ao chegar à Lourinhã ontem vindo do Norte onde fui passar o Natal, recebo, via telemóvel, por parte do João Crisóstomo, uma triste notícia: morreu o nosso Horácio Fernandes!... Já em novembro passado. 

O João Crisóstomo, a Vilma e o Rui Chamusco passaram ontem, de manhã, por Ribamar e bateram à porta da irmã mais nova... O João, na infância e juventude, frequentava a casa paterna do Horácio, filho de José Fernandes Nazaré e Elvira Neto. 

Era meu conterrâneo, e para mais parente: ambos pertencíamos ao clã Maçarico... Nasceu em Ribamar, em 15 de setembro de 1935.

Eis algumas notas biográficas (*):

(i) alferees graduado capelão, no CTIG (1967–1969)

Horácio Fernandes serviu como alferes graduado capelão integrado no BART 1913, tendo estado colocado em Catió, no sul da Guiné (entre setembro de 1967 e maio de 1969).

Foi uma comissão difícil num dos setores mais fustigados da guerra. A sua presença é recordada pelos camaradas (c0mo o Alberto Branquinho) como a de um homem simples e solidário, que vivia de perto as angústias e as contradições dos soldados.

Em maio de 1969, o BART 1913 acaba a sua comissão e regressa a casa... Como o Horácio é de rendição individual, e ainda lhe faltam alguns meses para terminar a sua comissão, é colocado em Bambadinca, num batalhão que não tinha capelão, o BCAÇ 2852 (1968/70)...

Em conversa com ele, conclui que não se lembrava do ataque, m 28 de maio de 1969, a Bambadinca. Pode ter chegado mais tarde... Eu e os meus camaradas da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 estávamos a chegar a Bissau no T/T Niassa... Em 2 de junho, passei por Bambadinca a caminho de Contuboel. Menos de dois meses depois, a minha companhia é colocada em Bambadinca, setor L1, como subunidade de intervenção. Nem eu nem o capelão Horácio Fernandes nos haveremos de encontrar nos meses em que estivemos no mesmo sítio, comendo e dormindo a escassos metros um do outro... Lembrava-se de sítios como o Xime, o Xitole, Saltinho...

Eu por lá ficarei, em Bambadinca, até março de 1971. O Horácio só até dezembro de 1969, altura em que, acometido por uma crise de  paludismo, teve de ser evacuado, de heli, para o HM 241, em Bissau. 

Razões possíveis para o nosso desencontro em Bambadinca: (i) eu tive um 2º semestre de 1969 de intensa atividade operacional; (ii) não ia à missa; (iii) já não via o Horácio desde 1959; (iv) o capelão passava boa parte do seu tempo das unidades de quadrícula do setor L1...

Mesmo assim, ainda hoje não me posso perdoar o facto de, a milhares de quilómetros de casa, nunca ter sabido da presença, em Bambadinca, de um conterrâneo meu, e para mais meu parente.

O Horácio participava  nos convívios anuais do pessoal do BART 1913, não tendo ficado com ligações afetivas com o pessoal do BCAÇ 2852. 

(ii) Livro de memórias, "Francisco Caboz: A Construção e a Desconstrução de
um Padre"
 (Papiro Editora, Porto, 2009) (esgotado) (imagem da capa à direita)

É  um testemunho raro e corajoso. Nele, o Horácio usa o heterónimo "Francisco Caboz" para descrever:

  • a sua formação no seminário e a "construção" da sua identidade como padre franciscano;
  • o impacto da Guerra Colonial nas suas convicções
  • o processo de "desconstrução" que o levou a abandonar o sacerdócio em 1972, pouco depois de regressar da Guiné (tendo ainda chegado a ser capelão da marinha mercante antes da rutura definitiva);
  • o início de uma nova vida laica, tendo-se casado na Igreja de Cedofeita, no Porto, cidade onde se radicou;
  • casado com a Emília ("Milita"), natural de Fafe; o  casal têm 3 filhos, Ana, Joana e Ricardo (que vive em Inglaterra).

(iii)  Carreira civil e académica

Após deixar a Igreja, Horácio Fernandes investiu fortemente na educação e na vida académica:

  •  foi professor dos três níveis de ensino (básico, secundário e superior); foi orientador pedagógico, 

  • inspetor superior coordenador na Inspeção Geral da Educação;

  • licenciado em história (Universidade do Porto); mestre em Ciências da Educação (Universidade do Porto; a sua disseração de mestrado de 1995 foi a base para o seu livro posterior);

  • doutor em Ciências da Educação (Universidade de Santiago de Compostela); 

  • autor ainda de diversos livros didáticos na área das ciências sociais e humanas...


(iv) A ligação a Ribamar, Lourinhã,  e ao "Clã Maçarico"


Capa do livro sobre a família Maçarico, que tem centenas de descendentes, originários de Ribamar, Lourinhã. Estão hoje espalhados pela diáspora lusitana (por ex., Brasil, Estados Unidos, Canadá). Há um rano em Mira, que deve ter emigrado para lá no séc. XIX. Uma das caraterísticas dos Maçaricos é que sempre viveram junto ao mar, e ligados a atividades maritímas (desde a marinha mercante à marinha de guerra, desde a pesca à construção naval).

Na sua página na Net pode ler-se: 

"Ribamar na época dos Descobrimentos era já um importante centro de construção naval, tendo ainda existido até cerca de 1930 um estaleiro que situava no local onde está hoje a escola primária.

"E já nesses tempos idos os Maçaricos eram reconhecidos como especialistas nessa área tendo acompanhado diversas expedições navais. E provavelmente estabeleceram-se também noutras localidades onde existiam estaleiros, possível explicação para haver outras famílias Maçarico espalhadas pelo Pais, como por exemplo em Mira."

Apesar de viver no Porto há décadas, o Horácio Fernandes manteve sempre a ligação à Lourinhã. O nosso blogue regista a sua participação em convívios da "Tabanca de Porto Dinheiro"  (em que participaram, entre outros, o seu grande amigo João Crisóstomo, o Eduardo Jorge Ferreira, o Rui Chamusco, o Jaime Bonifácio Marques da Silva, o Joaquim Pinto de Carvalho, entre outros),.

O facto de ser do clã Maçarico reforça essa identidade de uma família resiliente. A sua vida foi um exemplo de como é possível servir o país, questionar as instituições quando a consciência o exige e construir uma segunda vida de sucesso e respeito no mundo civil.

De acordo com o  "livro da família Maçarico", supracitado, o Horácio é meu parente, as nossas bisavós, nascidas por volta de 1860, eram irmãs... A sua bisavó paterna era a Maria da Anunciação e a minha, a Maria Augusta (1864-1920), as duas únicas mulheres de uma família de 7. Eu e o Horácio somos parentes... Os seus pais, nascidos por volta de 1830, eram Manuel Filipe e Maria Gertrudes... Os seus avós, nascidos no virar do séc. XVIII, eram Joaquim Filipe e Rosa Maria, pelo lado paterno, e Joaquim Antunes e Maria Rosa, pelo lado materno...

A nossa árvore genealógica remonta à época dos Descobrimentos..., quando os nossos antepassados eram arrebanhados como pau para toda a obra e postos ao serviço das caravelas e das naus que demandavam os novos mundos que Portugal dava ao mundo... Também se especializaaram na arte da construçáo naval, na navegação, na marinhagem, na pesca do alto, etc. Incapazes de viver longe do mar, espalham-se hoje ao longo da costa portuguesa, em particular em dois núcleos, Ribamar-Lourinhã e em Mira, para além da diáspora (Lisboa, Brasil, EUA, Canadá,  etc.):

O percurso de Horácio Neto Fernandes, filho de gente humilde de Ribamar da Lourinhã,  foi extraordinário e a sua morte, no Porto, aos 90 anos, encerra o ciclo de uma vida marcada por uma profunda honestidade intelectual e coragem para se reinventar. 

É uma perda significativa para a nosssa memória histórica e familitar, para a nossa  terra, para o clã Maçarico,  e para a comunidade de veteranos da Guiné.  

Em meu nome pessoal e da Tabanca Grande, desejo que descanse em paz.  Infelizmente só agora nos chegou a notícia. Aqui fica a minha solidariedade na dor à família (Milita e filhos), e demais família e amigos do peito (com o João Crisóstomo). (**)

(Seleção, revisão / fixaçãpo de texto, negritos, título: LG)


Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro. Régulo: Euardo Jorge Ferreira > Três grandes amigos: João, Horácio e Milita

Foto: © Álvaro Carvalho (2015) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de:


24 de maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9941: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (55): O alf mil capelão Horácio Fernandes, natural de Ribamar, Lourinhã, no álbum fotográfico do nosso saudoso Victor Condeço (1943-2010) (ex-fur mil mec arm, CCS/BART 1913, Catió, 1967/69)


16 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14885: Nas férias do verão de 2015, mandem-nos um bate-estradas (6): Convívio da Tabanca de Porto Dinheiro, 12 de julho de 2015 (Parte III): Álvaro e Helena do Enxalé, sejam bem-vindos à Tabanca Grande!...Oxálá / inshallah / enxalé nos possamos voltar a reunir mais vezes para partilhar memórias (e afetos)... Vocês passam a ser os grã-tabanqueiros nºs 695 e 696

(**) Último poste da série > 21 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27448: In Memoriam (562): José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73): o funeral é hoje, dia 21, às 16h00, no cemitério da Foz do Douro, Porto