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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28467: Retalhos da vida militar (15): A Guerra do Ultramar e as Doenças Tropicais (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 27 de Outubro de 2026:

Boa tarde meu caro Carlos Vinhal,
Mais um pequeno texto recordando coisas que já vão longe.

Um forte abraço com votos de muita saúde.
Artur António da Conceição



A Guerra do Ultramar e as Doenças Tropicais

Eu não tenho formação nem conhecimentos suficientes para falar de um tema tão abrangente como este. Sei que tanto o paludismo como outras doenças tropicais têm os seus nomes científicos destinados a quem tem capacidade para os saber usar. Desejo muito boa sorte e muito bom proveito a todos. Eu nunca fui invejoso. Sei que já existem no blogue alguns postes sobre o mesmo assunto onde o tema é abordado de uma forma bastante científica. Permitam-me meus caros que vos deixe uma abordagem mais “baixinha” sobre o mesmo assunto.

Quase no fim da Recruta e antes da ida para fim de semana, resolveram dar-nos uma prenda de Natal. Estávamos em dezembro, quero tudo em frente ao refeitório do CICA 4 em fila indiana e em tronco nu. Vinha o primeiro com algodão e desinfetava a zona que fica entre o ombro e o pescoço, talvez no chamado lombo. Vinha um segundo espetava uma agulha com dimensões pouco habituais. Mais adiante estava um terceiro que injetava o veneno. Para finalizar ainda vinha mais um para retirar a agulha e desinfetar o buraco que ela tinha originado.

Não me senti totalmente confortável, mas não me impediu de trabalhar nesse fim de semana.

Depois de ter sido mobilizado fui mandado ao Instituto de Medicina Tropica sediado na Rua da Junqueira em Lisboa, onde me foi atribuído um certificado internacional de vacinação de cor amarela depois de ter levado umas boas picadelas.

Nasci no ano de 1942, dois meses depois da minha mãe ter completado vinte anos. O meu avô, pai da minha mãe, era manajeiro e vinha com ranchos de ratinhos para a monda dos arrozais na zona de Alcácer do Sal.

A minha mãe aos 18 anos apanhou uma febre a que os ratinhos, migrantes da zona do Caramulo, chamavam de Sezões. Não quero meter foice e seara alheia, mas penso que Sezões e paludismo são a mesma coisa. Haverá alguma relação entre este facto e a razão pela qual eu nunca apanhei o paludismo.


Assisti a um diálogo entre dois médicos, sendo que um deles era maçarico, a perguntar ao velhote se davam quinino aos militares, uma vez que o quinino matava. Se eu já era anti comprimidos ainda fiquei pior.

Aprendi a dar sangue durante o tempo em que estive na Guiné. A primeira vez foi uma transfusão direita para um camarada a quem estavam a amputar uma perna porque tinha rebentado uma mina. Fui apanhado pelo Médico Psiquiatra, Dr. Pimenta que me estava a tratar. Nos últimos 6 meses em que estive em Bissau ainda dei sangue mais duas vezes. Regressado da Guiné fui dador de sangue até a idade o permitir. Dar sangue e colocar a agulha não custava nada. Quando eu dizia que tinha estado na Guiné, lá vinha a pergunta, então teve paludismo.

Quando dizia que não, era certo e sabido que não acreditavam. Então lá vinha a pica na ponta do dedo que me irritava solenemente.

Indicam as estatísticas de que durante a guerra do ultramar teriam morrido por doença 475 militares em Angola, 320 em Moçambique e 266 na Guiné. Não é indicado o tipo de doença pela qual foram vitimados.

As doenças venéreas em Bissau existiam e cada um as escondia da maneira mais airosa que conseguia sem dar muito nas vistas, o que não acontecia em Jumbembem onde todos sabiam que em Jumbembem catota cá tem.

Fui fortemente mordido por mosquitos, abelhas e formigas, mas nunca causaram problemas de maior.

Na minha ida de Bissau para Jumbembem fui de “avião” até Farim e depois tive de ficar em Farim à espera de coluna para Jumbembem. A CCS do meu Batalhão, que já estava em Farim, quando pedi um local para dormir mandaram para um armazém sem portas onde se encontravam em monte uma catrefada de camas. Montei uma cama e deitei-me. Não tinha mosquiteiro e dormi vestido. Por meio da noite, quando acordei, tinha sido invadido por semelhante praga de percevejos que tive de andar a matá-los com uma tábua das caixas das batatas.

Convém aqui recordar de que as batatas para a Guiné não iam em sacos, mas sim em caixas de ripas de madeira fina.

Falava-se muito em sarna, mas nunca tive, nem me apercebi que existisse.

Havia o péssimo hábito do uso da alpercata de enfiar o dedo. Claro que esse péssimo hábito era um chamariz para apanhar matacanha. Pela minha parte dei sempre preferência às botas de lona. Em Jumbembem havia disso a dar com pau e também me calhou uma. Havia nativos que usavam uma ferramenta feita em madeira para tirar a matacanha. Não era permitido nessa tarefa fazer sangue. Os apanhadores de matacanhas eram apelidados de Calonjandas.

Resumindo: Durante todo o tempo que estive na Guiné fui escapando ao paludismo por entre os pingos da chuva que na Guiné até eram bem grossos.

No Quartel General em Bissau, eu ocupava para dormir uma casinha de rés do chão que ficava nas traseiras do lado da bolanha que ia desde a Administração Militar até às proximidades de Bissalanca. A “vivenda” tinha uma sala onde estava instalado um AN-GRC 9, dois quartos e uma casa de banho. Um dia por volta das 4 ou 5 da tarde lembrei-me de ir para o banho. Toalha pela cintura alpercata de enfiar o dedo e aí vai ele para debaixo do chuveiro. Não sei precisar quanto tempo lá estive debaixo do chuveiro, mas deve ter sido um bom bocado. Quando saí comecei a sentir uma forte comichão na sola dos pés. Esfreguei os pés no chão de tal maneira e com tal gana que quando dei por ela sangrava a bom sangrar. Fui direito à enfermaria e fui enviado para o Hospital. Uma vez tratado no Hospital mandaram-me lá estar à meia noite para fazer uma análise ao sangue para detectar um bicharoco que só atuava depois da meia noite. Vim para o QG e por volta da meia noite fui ter com o Senhor Oficial Dia pedindo-lhe que mandasse o Condutor Dia levar-me ao Hospital. O Senhor Alferes riu-se e disse-me. -Vai dormir e vais ver que amanhã pela manhã já estás bom. Eu fui, mas passados 10 minutos andava tudo à minha procura porque já tinham telefonado do Hospital a pedir a minha presença, porque os outros dois já lá estavam. Dei sangue para fazerem a análise, mas o resultado nunca me foi comunicado.

No início da década de 80 e durante uns anos quando era chegado o mês de outubro apareciam-me na sola dos pés umas bolhas com cerca de um centímetro de diâmetro que me impediam de calçar um calçado normal. Tinham de ser lancetadas de uma forma em que a anestesia era morder a aba do chapéu. Isto aconteceu durante uns quatro ou cinco anos e não mais voltou. Não tenho conhecimentos que me permitam relacionar este facto com aquilo que me aconteceu em Bissau.

Regressado a Lisboa, entrei de férias regulamentares durante um mês, tendo passado à disponibilidade a 15 de março do ano de 1967.

Quando fui fazer o resto espólio da roupa que tinha trazido vestida ainda tive de pagar sete escudos e cinquenta centavos para a lavagem dessa roupa, que o nosso primeiro atirou para um monte de trapos.

Com a passagem à disponibilidade foi-me entregue um documento que me obrigava a uma vez em cada mês ir a um departamento militar localizado na Rua Dona Estefânia em Lisboa para levantar medicamentos para o paludismo. O destino dado a esses medicamentos já foi dito num comentário feito ao Post 7012 de 20 de setembro de 2010.[1] Esta obrigatoriedade tinha origem no facto de não ter tido o paludismo durante o tempo que estive na Guiné.

Diziam os entendidos que quem não teve paludismo na Guiné iria ter em Portugal, mas com gravidade muito mais elevada.

Eu não nasci num berço de ouro. O meu berço foi uma canastra velha de ir ao pinhal mais próximo apanhar os chamiços dos pinheiros para alimentar a lareira onde eram colocadas as panelas de ferro para fazer o caldito dos pobres.

Deixo alguns pedidos neste meu documento, que espero sejam respondidos nos comentários.

Desde já os meus agradecimentos com um forte abraço e com votos de muita saúde para todos.

Artur António da Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578
26 de outubro de 2026

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2. Comentário do Coeditor CV

Como a partir da caixa dos comentários não se pode publicar imagens, aproveito este post do amigo Artur Conceição para publicar, complementando ao mesmo tempo o seu texto, três boletins de vacina a que fui sujeito durante a minha estadia no Exército Português.

O primeiro boletim diz respeito à célebre injecção em série que se levava ainda na recruta. 
Diz no registo que fomos vacinados em 9 de Maio de 1969 contra a varíola.
No Funchal, sensivelmente um mês antes do embarque para a Guiné, exactamente no dia 12 de Março de 1970, fomos todos em filinha ao Centro de Saúde do Funchal onde fomos vacinados contra a febre amarela.
Finalmente e, provavelmente não menos importante, já na Guiné fomos revacinados, segundo o que está registado, contra a Febre Amarela. Curiosamente a data que consta é 12/3/70, que está errada, porque desembarcámos na Guiné só no dia 17 de Abril de 1970. Talvez quisessem escrever 12/3/71. O carimbo não deixa dúvida, "Serv. Saúde da Guiné Portuguesa Vacinação"
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Notas do editor:

[1] - Comentário de Artur Conceição no post Guiné 63/74 - P7012: Doenças e outros problemas de saúde que nos afectavam (1): Paludismo (Rui Silva)

Anónimo disse...
Eu não sei se posso dizer isto!...
Picadelas em Brá, em Bissorã e no Olossato e depois em Farim e Jumbembém apanhei umas boas centenas. Efeitos das picadelas não foram além das coçadelas habituais. Comprimidos nunca engoli nenhum, não pelo seu tamanho, porque até eram pequenitos, mas outra qualquer maluqueira de que não me recordo.
Matacanha apanhei uma que o Mamadu tirou com um canivete de madeira sem consequencias de maior. Das outras só vi no Hospital de Bissau.
Como durante os 24 meses de Guiné não apanhei paludismo, e como os Médicos entendiam que quem não apanhava na Guiné apanhava cá e com consequencias mais graves, acabei por ficar 6 meses de quarentena, pelo que uma vez em cada mês tinha de me deslocar a um Departamento na Rua D. Estefânia onde me era fornecido um saco de medicamentos. E agora não vou dizer o que lhes fazia porque já todos advinharam.
Na Guiné dei sangue por 3 vezes e nunca alguém me perguntou se já tinha tido paludismo.
Depois do regresso dei sangue várias vezes, e a cada vez o Médico perguntava, esteve no Ultramar? Estive na Guiné. Teve paludismo? Não tive. Nunca nenhum acreditou, e só depois da picadela no dedo para retirar sangue para análise, que custava bem mais do que dar sangue, é que acreditavam.
Não digo mais...
Os meus respeitos e a minha admiração para todos aqueles que não tiveram a mesma sorte. Vi muitos aflitos e em grande sofrimento.
Um grande abraço para todos os que apanharam paludismo e para os outros também...
Artur Conceição

segunda-feira, 20 de setembro de 2010 às 15:58:00 WEST

Último post da série de 20 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28451: Retalhos da vida militar (14): A (des) Vantagem de ter duas Especialidades (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28451: Retalhos da vida militar (14): A (des) Vantagem de ter duas Especialidades (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 14 de Outubro de 2026:


A (des) Vantagem de ter duas Especialidades

Durante a especialidade de Transmissões e de Condutor Auto, após ter terminado a recruta no CICA 4 em Coimbra, (Centro de Instrução de Condução Auto), que teve lugar na Unidade de Caçadores 5 em Campolide, Lisboa, a indefinição da nova especialidade manteve-se. O espaço onde hoje se situa o Campus de Justiça, era pertença do Trem Auto que tinha a sua sede na Avenida de Berna. Os futuros soldados de Transmissões Condutores Auto iam ter instrução de condução a partir desse espaço que era contíguo ao Quartel de Caçadores 5.

Tratava-se de uma companhia de Instrução comandada pelo então Capitão Carlos Fabião que mais tarde veio a ser Governador Geral da Guiné.

Os instruendos que só tinham a especialidade de transmissões ficavam em Caçadores 5. Como só tinham uma especialidade foram todos para 1.ºs Cabos. Era assim, era assim e bico calado.

Durante a instrução de condução aconteceram vários episódios, mas apenas vou mencionar dois.

Primeiro Caso: Ao fundo da Rua de Campolide que fazia parte do circuito autorizado para instrução de novos condutores, existia ao tempo um Laboratório. O instrutor pediu ao instruendo para parar e fazer marcha atrás. Até aqui tudo bem, só que aparece de frente um trabalhador desse mesmo Laboratório que terá demorado mais um pouco a deixar as criancinhas na creche, e resolve tentar passar por trás da Morris que estava a fazer o movimento de recuar, para estacionar. Claro que levou uma trancada. Parece não haver dúvida em relação ao executante que cometeu uma Manobra Perigosa.

Segundo Caso: Do equipamento dispensado para os instruendos fazerem a sua aprendizagem fazia parte uma GMC, que a todos metia medo. Tinha o volante do lado direito e para endireitar um palmo era preciso dar duas voltas ao volante.

Numa manhã de instrução num percurso onde até já tinha havido uma corrida de automóveis com a participação de Filipe Nogueira, passa por nós a alta velocidade um carro topo de gama.

As condições de ocupação da via não permitiam velocidade tão excessiva pelo que o instrutor de serviço fez comentários que não foram do agrado dos ocupantes da viatura em causa. Como alguém diria. Chamou-lhe tudo menos Bom Rapaz.

Quando a viatura apressada parou e sai do seu interior um senhor Coronel fardado com galões e tudo o pavimento estremeceu um pouquito.

Em 1964 ainda continuava em vigor a lei do Senhor General Fernando Santos Costa publicada para acabar com os acidentes com veículos militares, que atribuía a culpa sempre ao condutor militar.

Terminada a especialidade(s) quatro dos prontos foram enviados para o RI 11 em Setúbal, que era uma unidade pertencente à Região Militar de Lisboa. Pela minha parte o meu destino era Castelo Branco, mas como o Senhor Primeiro Sargento era meu amigo consegui uma troca em que só um dos intervenientes teve conhecimento.

Em Setúbal, três dos recém-chegados faziam serviço de telefonistas e o Artur foi colocado numa arrecadação, onde estava instalado um rádio muito antigo que pertencia a uma rede da Região Militar de Lisboa. As instalações no interior da unidade eram uma espécie de aldeia de João Franco em Mafra. A tarefa era duas vezes por dia, de segunda a sexta, às 8 e às 18, responder a uma espécie de “Sentinela Alerta”. Todo o tempo restante era disponibilidade. O ambiente na Unidade era muito bom. O rancho tinha uma excelente característica: dia sim dia sim o jantar era caldeirada de peixe.

Desde que o Vitória não perdesse o Primeiro Carretas era do melhor que se podia ter. Falava muito à moda de Setúbal com o “rr” muito mal pronunciado. Era viva o “Vitóguia” em vez de Viva o Vitória. Deixava-me vir de fim semana à sexta-feira o que me permitia fazer dois dias de trabalho para o meu patrão de Lisboa.

Estava ao tempo no RI 11 um Aspirante da área de transmissões que tinha sido vítima de acidente de Viação e tinha ficado com várias sequelas, entre elas uma relacionada com a fala.

A um canto do barracão que servia de garagem estava estacionada uma viatura tipo Ramona que teria vindo da primeira Guerra Mundial, onde estava colocado um rádio muito antigo. A viatura tinha o volante do lado direito, não tinha manutenção nem revisão, mas andava. O rádio também funcionava.

O Senhor Aspirante, talvez para aumentar o curriculum e levando à letra a especialidade, “Transmissões e Condutor Auto” convenceu-me a irmos com a viatura até à Serra da Arrábida para fazermos alguns ensaios de transmissões.

De regresso a Setúbal, descendo a Serra da Arrábida, a antena de cobre com alguns três metros de altura obrigava, para não bater nas árvores que se podia partir, a circular mais junto ao eixo da via. Ao chegar ao Outão ainda na descida, aparece de frente um Autocarro de Serviço Público de Passageiros que nos jogou em cima com quantas luzes e buzinas tinha ao seu dispor. Eu apanhei um susto monumental, o Senhor Aspirante, cujo nome por delicadeza não indico, ainda ficou um pouquito mais gago.

Estava ao tempo em Setúbal um Cabo Readmitido, conhecido na gíria militar como “Cabo Xico”, usava divisas iguais às dos Cabos Milicianos, futuros Furriéis Milicianos.

O Senhor Cabo Santos era altamente respeitado, fazia a chamada não pelo número, mas pelo nome, era convocado para as reuniões de Oficiais, o que deixava o Primeiro Sargento Carretas, e o Segundo Sargento Ameixa à beira de um ataque de nervos. Terminou a sua Licenciatura em Direito em 1964.

O Senhor Aspirante fez uma segunda tentativa de saída, mas desta vez para maiores distâncias, com a qual eu não concordava pelo perigo que envolvia. Eu não tinha nenhuma prática, o que aumentava o risco, a apetência também não era brilhante.

O Senhor Cabo Santos funcionava como Advogado de Serviço e ajudou-me a elaborar a justificação para a minha recusa em não querer colaborar com saídas que poderiam por em risco a vida de terceiros.

O Senhor Cabo Santos foi convidado a aceitar uma graduação em Tenente com promoção a Capitão do Quadro Permanente logo que indigitado para Comandante de uma Companhia com destino ao Ultramar. Não aceitou e terminou a sua Carreira Militar.

A distância entre os vários postos da carreira militar, não me parece algo de mensurável, mas com toda a confiança posso afirmar de que essa distância era bem maior no Continente do que era no Ultramar.

O Artur entrou de férias no início de dezembro e a meio do mês foi informado de que havia sido mobilizado para a Guiné.

Fui a Setúbal buscar a trouxa, despedir-me de alguns amigos e fui apresentar-me no Regimento de Artilharia Ligeira (RAL 1) em Lisboa ao então Capitão Garcia Leandro, que fez o favor de me colocar de Serviço na noite de Natal de 1964 e também na noite de início do ano de 1965.

Como diz o Povo, “Ano Novo vida nova”, começou também aqui uma nova etapa da minha vida, como militar.

Artur Conceição
SPM 2578

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Nota do editor

Último post da série de 13 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28433: Retalhos da vida militar (13): O último quartel da minha Comissão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28291: Retalhos da vida militar (8): Prémios de especialidade (Artur Conceição)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 21 de Agosto de 2026:


Prémios de especialidade

Os condutores dos veículos militares com destino à guerra em África recebiam formação adequada nos chamados CICA e CIACA.

A quarta incorporação de 1963 no CICA 4 em Coimbra não foi destinada a condutores, mas antes a outras especialidades, com uma complementar de condução.

Terminada a recruta no final do ano de 1963, uma parte dos incorporados foi enviada para Caçadores 5 em Lisboa, para tirar a especialidade de Transmissões de Infantaria, um outro grupo foi enviado para o Entroncamento, para tirar a especialidade de Ponteneiros. Condutor Auto e finalmente um grupo mais reduzido, enviado para o Trem Auto para tirar a especialidade de Auxiliar de Serviços Religiosos. Era este último grupo que eu deveria ter escolhido, tendo em conta que era só preciso dizer que sabia ajudar à missa, como era o meu caso. Optei por Transmissões, mas acredito que debaixo da Sotaina do Capelão sempre era menos arriscado. Nem o Capelão nem o seu auxiliar tinham viatura atribuída. Então qual era a razão desta segunda especialidade de condutor auto que até dava a garantia de um posto 1.º Cabo? Quem puder que explique.

Quando o Capelão ia na sua missão para Jumbembem, o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC tratavam dessa missão. Ao grupo que foi para a especialidade de Transmissões de Infantaria Condutor Auto, veio juntar-se um grupo de reprovados da Especialidade de Radiotelegrafistas, realizado em Tancos.

Esta Companhia de Instrução tinha como Comandante o Capitão Carlos Fabião que mais tarde viria a ser Governador da Guiné.

A meio da especialidade falou-se da escolha para frequentar a Escola de Cabos. No final da especialidade os reprovados de Tancos ficaram todos 1.º Cabo de Transmissões de Infantaria e os restantes, Soldados de Transmissões de Infantaria Condutor Auto (STICA).

Concluída a especialidade foram distribuídos por várias unidades, tendo cabido ao Regimento de Infantaria 11 de Setúbal quatro elementos a saber: O Artur 2712/63, o Morato 2714/63, o Adolfo 2716/63 e o Manuel 2720/63.


Por ocasião do São Martinho do ano de 1964, o Morato resolve fazer um disparate e é punido com 10 dias de prisão disciplinar. A pena acabou por ser alterada para 20 dias de prisão disciplinar agravada que tinha como pena acessória uma mobilização imediata. A CART 730 tinha partido para a Guiné com algumas faltas na secção de transmissões. Quem vai para a Guiné fazer companhia ao Morato? Seria o Adolfo. O Morato tinha um Tio Coronel que não conseguiu evitar a mobilização, mas conseguiu arranjar maneira de o sobrinho não ir para zona de conflito. Assim o Morato foi passar dois anos férias a São Tomé e Príncipe. O Adolfo arranjou maneira de ser amparo de mãe e o Manuel ofereceu-se para ir para a Guiné no lugar dele. E agora quem vai para a Guiné fazer companhia ao Manuel. Esta é a história de como se ia parar na Guiné por culpa de terceiros.

Em 1964, a 2.ª incorporação do CICA 2 na Figueira da Foz enviou para o Porto um grupo para dar origem aos primeiros e últimos Radiotelegrafistas Condutor Auto.

Dessa recente especialidade a CART 730 também tinha dois, embora um deles, o Manuel Carvalho só lá tenha estado dois meses.

A secção de transmissões da CART 730 era composta por:
- Um Furriel natural da Ilha da Madeira, que aparecia uma vez por semana, que era o CMDT da secção.

- Um 1.º cabo operador cripto
- Um 1.º cabo de transmissões de infantaria
- Dois 1.ºs cabos radiotelegrafistas
- Um 1.º cabo radiotelegrafista condutor auto
- Dois soldados de transmissões de infantaria condutor auto (STICA)

O prémio de especialidade era algo que não fazia parte das conversas do dia-a-dia. Era recebido por três 1ºs cabos com a especialidade de radiotelegrafistas. O facto de não ser falado nem criar qualquer tipo de mal-estar entre o grupo, não lhe tira o caracter de injustiça adjacente. O grupo era unido e muito colaborante. Se os apelidos ajudam... um dos elementos do grupo era LEAL Matias e outro era LEAL Chagas.

O prémio era recebido pelos radiotelegrafistas, mas uma coisa pode e deve ficar clara. Nunca foi emitida nem recebida qualquer mensagem em grafia durante todo o tempo em que a CART 730 esteve sediada em Jumbembem.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas. Foto e Legenda: © Artur Conceição

Aprendi e treinei a transmissão em grafia durante os últimos seis meses de comissão enquanto estive na PIDE. Os radiotelegrafistas da PIDE permitiam, mas era preciso que o recetor não desse o recado, que consistia: “Essa tarefa é feita com as mãos não é com os pés”. Era fundamental uma boa concentração e acima de tudo um ouvido apurado.

A conceção deste prémio não era famosa e como tal estava envolta em algumas injustiças sendo algumas mais flagrantes do que outras.

Os condutores auto rodas como eram designados não tinham direito a tal prémio. O 1.º cabo auxiliar de enfermagem tinha direito e muito bem. Neste caso concreto o que não estava bem era, o soldado maqueiro não ter igualmente direito. Para quem participou em situações de feridos, sabe muito bem qual era a missão de cada uma destas especialidades.

Durante os 24 meses de comissão nunca recebi mais do que os 400 pesos que me estavam destinados.

Canjambari era um local onde estava sediado um pelotão independente. As condições eram degradantes e muito penosas para os militares ali sediados.

Decidiram as altas patentes do sector de Farim e arredores que passaria a haver uma alternância com um pelotão da CART 730, permitindo assim ao Pelotão de Canjambari vir mês sim mês não a Jumbembem recuperar energias. Esta nova situação implicava algumas adaptações nalgumas áreas nomeadamente na Secção de Transmissões.

À partida havia dois elementos que estavam isentos de ir para Canjambari, sendo um deles o “Fininho” 1.º cabo operador cripto a quem o estatuto relacionado com a especialidade não permitia exercer a sua actividade em estrutura abaixo de Companhia. O segundo caso era o Artur que por via das muitas tarefas extras exercidas não lhe era permitido sair de Jumbembem. Canjambari recebia e emitia mensagens via rádio que tinham de ser codificadas e descodificadas. No final da comissão todos os elementos da secção eram capazes de executar essa tarefa.

Para terminar permitam-me uma pequena história para tema dos nossos camaradas que adoram a Banda Desenhada. Recordo a todos que a Cidade da Amadora é a Capital Portuguesa da Banda Desenhada.

Para além dos guarda costas, havia também alguns soldados com missões específicas conhecidas de todos.
Uma dessas missões era fazer-se acompanhar de um isqueiro, uma caixa fósforos ou algo que pudesse lançar fogo de uma maneira rápida.
Terminada uma operação a um objectivo, o Garcia diz para o “incendiário” fogo nisso. Isso eram meia dúzia de moranças abandonadas pelos nativos.
Obedecendo à ordem recebida, o nosso camarada puxa da G3 e dispara uma rajada contra a inofensiva morança.

O Garcia que tinha alguma dificuldade em aceitar este tipo de maus entendimentos enfia-lhe um merecido par de estalos que quase iam dando fagulhas.

Existe assim para primeira mão uma outra história relacionada com um nosso camarada, que no final de um assalto a uma Casa de Mato, se fazia acompanhar de um burro transportando uma máquina de costura quase em estado novo.

Mais uma vez o Garcia deve ter tido um descontrolo emocional. Prega dois tiros no pobre do burro que não tinha nenhuma culpa do que se estava passar. Que pena não haver alguém por perto para enfiar dois bufardos no Garcia.

Deixo o mote para o nosso camarada Furriel João Parreira que conhece muito bem esta história, para que nos possa brindar com mais alguns pormenores que ele tão bem conhece.

Um Abraço
Artur Conceição
STICA 2712/63

SPM 2578
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Nota do editor

Último post da série de 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28207: Retalhos da vida militar (7): A minha ida para o serviço militar obrigatório (Artur Conceição)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17777: O que é feito de ti, camarada (7): Coelho, meu colega de escola (até à 3ª classe, nos Casais da Vestiaria, Alcobaça), e que fez comigo a recruta, em 1971, no CICA 4 (Centro de Instrução de Condução Auto), Coimbra... Depois perdi-lhe completamente o rasto (Juvenal Amado)


Foto nº 1 A


Foto nº 1 B


Foto nº 1 - Coimbra > CICA  (Centro de Instrução de Condução Auto) 4  > 1971 > Camaradas da recruta.  Ao meu lado (foto nº 1 A), o Coelho, meu colega de escola (até à 3ª classe), nos Casais da Vestiaria, Alcobaça.

Foto (e legenda) © Juvenal Amado (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Em mensagem de 17 de julho de 2017, o nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74),  enviou-nos um poema de sua autoria, "Tempo" (*), e a seguinte nota:.

"Carlos e Luís,  nesta foto tínhamos dias de recruta no CICA4 em Coimbra.

Só me lembro do nome do camarada mesmo ao meu lado direito. Chamava-se Coelho, andamos os dois na escola primária até à 3ª classe,  nos Casais da Vestiaria, deixei de o ver quando vim morar para Alcobaça onde fiz a 4ª a classe e me empreguei.

Reencontrei-o na recruta em 1971, depois voltámo-nos a perder de vista nas voltas que a vida dá."


2. Comentário do editor:

Juvenal,  está tudo dito no belo poema que escreveste sobre o "Tempo" (*)... Muita da poesia que os poetas escrevem é sobre esta "matéria", o tempo que nos escapa das mãos, como areia do deserto, e as nossas memórias esburacadas e doridas...  

O que é será feito do Coelho, teu colega de escola  (**) ?  Tu foste parar à Guiné, e o Coelho (e outros "filhos  dos monges cistercenses de Alcobaça") ?  Foi mobilizado, para Angola, Guiné ou Moçambique ? Foi para a peluda ?  Regressou  "são e salvo" do ultramar ? Emigrou ? Casou, teve filhos ? É vivo ? Se sim, por onde pára ?... É muito pouco provável que conheça o nosso blogue e te/nos descubra... A tua foto tem 46 anos... Mas, mesmo assim, "o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca.. é Grande!",,, 

(...) Na neblina julgo ver vultos,
fugazmente vislumbro algo indefinido,
vejo jovens enlaçados que flutuam,
não sabem ainda que a juventude
é um momento fugaz,
é uma pétala que se solta,
que se esmaga entre os dedos
e solta a fragância.
Esse é o aroma do tempo que passa,
e os cemitérios são os nossos fieis depositários (...)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 20 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17604: Blogpoesia (520): Não é possível conservar o tempo (Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor Auto)