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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28291: Retalhos da vida militar (8): Prémios de especialidade (Artur Conceição)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 21 de Agosto de 2026:


Prémios de especialidade

Os condutores dos veículos militares com destino à guerra em África recebiam formação adequada nos chamados CICA e CIACA.

A quarta incorporação de 1963 no CICA 4 em Coimbra não foi destinada a condutores, mas antes a outras especialidades, com uma complementar de condução.

Terminada a recruta no final do ano de 1963, uma parte dos incorporados foi enviada para Caçadores 5 em Lisboa, para tirar a especialidade de Transmissões de Infantaria, um outro grupo foi enviado para o Entroncamento, para tirar a especialidade de Ponteneiros. Condutor Auto e finalmente um grupo mais reduzido, enviado para o Trem Auto para tirar a especialidade de Auxiliar de Serviços Religiosos. Era este último grupo que eu deveria ter escolhido, tendo em conta que era só preciso dizer que sabia ajudar à missa, como era o meu caso. Optei por Transmissões, mas acredito que debaixo da Sotaina do Capelão sempre era menos arriscado. Nem o Capelão nem o seu auxiliar tinham viatura atribuída. Então qual era a razão desta segunda especialidade de condutor auto que até dava a garantia de um posto 1.º Cabo? Quem puder que explique.

Quando o Capelão ia na sua missão para Jumbembem, o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC tratavam dessa missão. Ao grupo que foi para a especialidade de Transmissões de Infantaria Condutor Auto, veio juntar-se um grupo de reprovados da Especialidade de Radiotelegrafistas, realizado em Tancos.

Esta Companhia de Instrução tinha como Comandante o Capitão Carlos Fabião que mais tarde viria a ser Governador da Guiné.

A meio da especialidade falou-se da escolha para frequentar a Escola de Cabos. No final da especialidade os reprovados de Tancos ficaram todos 1.º Cabo de Transmissões de Infantaria e os restantes, Soldados de Transmissões de Infantaria Condutor Auto (STICA).

Concluída a especialidade foram distribuídos por várias unidades, tendo cabido ao Regimento de Infantaria 11 de Setúbal quatro elementos a saber: O Artur 2712/63, o Morato 2714/63, o Adolfo 2716/63 e o Manuel 2720/63.


Por ocasião do São Martinho do ano de 1964, o Morato resolve fazer um disparate e é punido com 10 dias de prisão disciplinar. A pena acabou por ser alterada para 20 dias de prisão disciplinar agravada que tinha como pena acessória uma mobilização imediata. A CART 730 tinha partido para a Guiné com algumas faltas na secção de transmissões. Quem vai para a Guiné fazer companhia ao Morato? Seria o Adolfo. O Morato tinha um Tio Coronel que não conseguiu evitar a mobilização, mas conseguiu arranjar maneira de o sobrinho não ir para zona de conflito. Assim o Morato foi passar dois anos férias a São Tomé e Príncipe. O Adolfo arranjou maneira de ser amparo de mãe e o Manuel ofereceu-se para ir para a Guiné no lugar dele. E agora quem vai para a Guiné fazer companhia ao Manuel. Esta é a história de como se ia parar na Guiné por culpa de terceiros.

Em 1964, a 2.ª incorporação do CICA 2 na Figueira da Foz enviou para o Porto um grupo para dar origem aos primeiros e últimos Radiotelegrafistas Condutor Auto.

Dessa recente especialidade a CART 730 também tinha dois, embora um deles, o Manuel Carvalho só lá tenha estado dois meses.

A secção de transmissões da CART 730 era composta por:
- Um Furriel natural da Ilha da Madeira, que aparecia uma vez por semana, que era o CMDT da secção.

- Um 1.º cabo operador cripto
- Um 1.º cabo de transmissões de infantaria
- Dois 1.ºs cabos radiotelegrafistas
- Um 1.º cabo radiotelegrafista condutor auto
- Dois soldados de transmissões de infantaria condutor auto (STICA)

O prémio de especialidade era algo que não fazia parte das conversas do dia-a-dia. Era recebido por três 1ºs cabos com a especialidade de radiotelegrafistas. O facto de não ser falado nem criar qualquer tipo de mal-estar entre o grupo, não lhe tira o caracter de injustiça adjacente. O grupo era unido e muito colaborante. Se os apelidos ajudam... um dos elementos do grupo era LEAL Matias e outro era LEAL Chagas.

O prémio era recebido pelos radiotelegrafistas, mas uma coisa pode e deve ficar clara. Nunca foi emitida nem recebida qualquer mensagem em grafia durante todo o tempo em que a CART 730 esteve sediada em Jumbembem.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas. Foto e Legenda: © Artur Conceição

Aprendi e treinei a transmissão em grafia durante os últimos seis meses de comissão enquanto estive na PIDE. Os radiotelegrafistas da PIDE permitiam, mas era preciso que o recetor não desse o recado, que consistia: “Essa tarefa é feita com as mãos não é com os pés”. Era fundamental uma boa concentração e acima de tudo um ouvido apurado.

A conceção deste prémio não era famosa e como tal estava envolta em algumas injustiças sendo algumas mais flagrantes do que outras.

Os condutores auto rodas como eram designados não tinham direito a tal prémio. O 1.º cabo auxiliar de enfermagem tinha direito e muito bem. Neste caso concreto o que não estava bem era, o soldado maqueiro não ter igualmente direito. Para quem participou em situações de feridos, sabe muito bem qual era a missão de cada uma destas especialidades.

Durante os 24 meses de comissão nunca recebi mais do que os 400 pesos que me estavam destinados.

Canjambari era um local onde estava sediado um pelotão independente. As condições eram degradantes e muito penosas para os militares ali sediados.

Decidiram as altas patentes do sector de Farim e arredores que passaria a haver uma alternância com um pelotão da CART 730, permitindo assim ao Pelotão de Canjambari vir mês sim mês não a Jumbembem recuperar energias. Esta nova situação implicava algumas adaptações nalgumas áreas nomeadamente na Secção de Transmissões.

À partida havia dois elementos que estavam isentos de ir para Canjambari, sendo um deles o “Fininho” 1.º cabo operador cripto a quem o estatuto relacionado com a especialidade não permitia exercer a sua actividade em estrutura abaixo de Companhia. O segundo caso era o Artur que por via das muitas tarefas extras exercidas não lhe era permitido sair de Jumbembem. Canjambari recebia e emitia mensagens via rádio que tinham de ser codificadas e descodificadas. No final da comissão todos os elementos da secção eram capazes de executar essa tarefa.

Para terminar permitam-me uma pequena história para tema dos nossos camaradas que adoram a Banda Desenhada. Recordo a todos que a Cidade da Amadora é a Capital Portuguesa da Banda Desenhada.

Para além dos guarda costas, havia também alguns soldados com missões específicas conhecidas de todos.
Uma dessas missões era fazer-se acompanhar de um isqueiro, uma caixa fósforos ou algo que pudesse lançar fogo de uma maneira rápida.
Terminada uma operação a um objectivo, o Garcia diz para o “incendiário” fogo nisso. Isso eram meia dúzia de moranças abandonadas pelos nativos.
Obedecendo à ordem recebida, o nosso camarada puxa da G3 e dispara uma rajada contra a inofensiva morança.

O Garcia que tinha alguma dificuldade em aceitar este tipo de maus entendimentos enfia-lhe um merecido par de estalos que quase iam dando fagulhas.

Existe assim para primeira mão uma outra história relacionada com um nosso camarada, que no final de um assalto a uma Casa de Mato, se fazia acompanhar de um burro transportando uma máquina de costura quase em estado novo.

Mais uma vez o Garcia deve ter tido um descontrolo emocional. Prega dois tiros no pobre do burro que não tinha nenhuma culpa do que se estava passar. Que pena não haver alguém por perto para enfiar dois bufardos no Garcia.

Deixo o mote para o nosso camarada Furriel João Parreira que conhece muito bem esta história, para que nos possa brindar com mais alguns pormenores que ele tão bem conhece.

Um Abraço
Artur Conceição
STICA 2712/63

SPM 2578
_____________

Nota do editor

Último post da série de 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28207: Retalhos da vida militar (7): A minha ida para o serviço militar obrigatório (Artur Conceição)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17777: O que é feito de ti, camarada (7): Coelho, meu colega de escola (até à 3ª classe, nos Casais da Vestiaria, Alcobaça), e que fez comigo a recruta, em 1971, no CICA 4 (Centro de Instrução de Condução Auto), Coimbra... Depois perdi-lhe completamente o rasto (Juvenal Amado)


Foto nº 1 A


Foto nº 1 B


Foto nº 1 - Coimbra > CICA  (Centro de Instrução de Condução Auto) 4  > 1971 > Camaradas da recruta.  Ao meu lado (foto nº 1 A), o Coelho, meu colega de escola (até à 3ª classe), nos Casais da Vestiaria, Alcobaça.

Foto (e legenda) © Juvenal Amado (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Em mensagem de 17 de julho de 2017, o nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74),  enviou-nos um poema de sua autoria, "Tempo" (*), e a seguinte nota:.

"Carlos e Luís,  nesta foto tínhamos dias de recruta no CICA4 em Coimbra.

Só me lembro do nome do camarada mesmo ao meu lado direito. Chamava-se Coelho, andamos os dois na escola primária até à 3ª classe,  nos Casais da Vestiaria, deixei de o ver quando vim morar para Alcobaça onde fiz a 4ª a classe e me empreguei.

Reencontrei-o na recruta em 1971, depois voltámo-nos a perder de vista nas voltas que a vida dá."


2. Comentário do editor:

Juvenal,  está tudo dito no belo poema que escreveste sobre o "Tempo" (*)... Muita da poesia que os poetas escrevem é sobre esta "matéria", o tempo que nos escapa das mãos, como areia do deserto, e as nossas memórias esburacadas e doridas...  

O que é será feito do Coelho, teu colega de escola  (**) ?  Tu foste parar à Guiné, e o Coelho (e outros "filhos  dos monges cistercenses de Alcobaça") ?  Foi mobilizado, para Angola, Guiné ou Moçambique ? Foi para a peluda ?  Regressou  "são e salvo" do ultramar ? Emigrou ? Casou, teve filhos ? É vivo ? Se sim, por onde pára ?... É muito pouco provável que conheça o nosso blogue e te/nos descubra... A tua foto tem 46 anos... Mas, mesmo assim, "o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca.. é Grande!",,, 

(...) Na neblina julgo ver vultos,
fugazmente vislumbro algo indefinido,
vejo jovens enlaçados que flutuam,
não sabem ainda que a juventude
é um momento fugaz,
é uma pétala que se solta,
que se esmaga entre os dedos
e solta a fragância.
Esse é o aroma do tempo que passa,
e os cemitérios são os nossos fieis depositários (...)

_____________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 20 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17604: Blogpoesia (520): Não é possível conservar o tempo (Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor Auto)