1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Julho de 2026:Queridos amigos,
Poder-se-á dizer que este trabalho de investigação de Howard W. French está implicado na defesa de uma causa: retirar o papel do negro africano do nével secundário em que a historiografia o pôs, dando ênfase ao papel que os escravos tiveram nos seis séculos de desenvolvimento mundial, isto a contrariar a historiografia que atribui a criação do mundo moderno ao desempenho europeu, às explorações marítimas e aos avanços científicos e tecnológicos ou mesmo a expansão dos ideiais judaico-cristãos. Sendo verdade que a Europa teve um papel central na criação do mundo moderno, o que Howard French vem contrapor é que se impõe trazer África dos africanos para contar verdadeiramente a história detalhada de seis séculos de desenvolvimento mundial, não deixa de trazer um elemento polémico, tal desenvolvimento construiu-se à custa da desumanização e da exploração da África e dos negros, e este continente e este grupo humano precisam de retomar no quadro histórico o papel primacial que lhes cabe.
Um abraço do
Mário
África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 6
Mário Beja Santos
Despedimo-nos hoje deste apanhado de notas ao estudo histórico Origem: África, por Howard W. French, Bertrand Editora 2022. Em jeito de recapitulação, recorda-se que o autor inicia a sua investigação pelas primeiras explorações do litoral africano, século XV, segue-se a criação da fortaleza de São Jorge da Mina, ouro e escravos começam a inundar a Europa, nos séculos subsequentes o comércio negreiro tornar-se-á crucial para a agricultura de plantação, primeiro o açúcar, seguir-se-á o tabaco e por último o algodão, este elemento económico determinante na industrialização.
Haverá guerras neste Oceano Atlântico, nos dois continentes, África e América, como o autor observa:
“A transição da era do comércio transatlântico de escravos para o advento das colónias europeias em África foi um processo gradual e prolongado, que se estendeu desde o final do século XVIII até ao final do século XIX. Depois dos Estados Unidos terem conquistado a sua independência da Grã-Bretanha, este país começa, pela primeira vez, a pensar seriamente acerca do império em África. O continente tinha sido vital enquanto fonte de escravos para as suas colónias geradoras de prosperidade nas Caraíbas. No entanto, no final da guerra da independência americana, a França tinha-se tornado, graças à sua colónia de Saint-Domingue, o maior beneficiário europeu do complexo de plantação de escravos da região.”
Também o autor questiona as frágeis fundações económicas e institucionais africanas, partiram milhões de escravos de África, o que não impediu que este continente tenha passado no século XX de cerca de 130 milhões para 1000 milhões de pessoas. Durante séculos, os escravos foram submissos, mas no início do século XIX começaram a dar sinais declarados de rebelião. Em dezembro de 1810, um pequeno grupo de escravos, que trabalhava nas terras agrícolas no vale do Baixo Mississípi, conspirou para levar a cabo a maior revolta de escravos da história dos Estados Unidos. Espalharam-se as contestações, a plantação e colheita do algodão era trabalho brutal, atingia as raias do desumano.
A repressão dos colonos foi igualmente brutal, teve um grande impacto na história política do Luisiana e o autor observa:
“Comunidades de plantadores que em tempos tinham olhado para a ideia de integração dos Estados Unidos com desconfiança e hostilidade mostravam-se agora aberto à ideia do Estado. Isto foi fruto de uma crença partilhada de que as suas milícias jamais voltariam a ser adequadas à tarefa de impor a desigualdade radical.”
Temos depois um extenso curso de eventos sobre a Revolução Haitiana, todo o poder branco que a procurou sufocar, de britânicos a franceses, falhou rotundamente. E a análise que o autor faz a estes acontecimentos leva-nos até Nova Orleãs, à cultura dos blues, ao aparecimento de uma dimensão musical que irá ganhar expressão universal. A historiografia norte americana considera que a criação dos Estados Unidos e a sua expansão para oeste se deveu à componente tecnológica, ao engenho dos homens brancos que partiram da Costa Leste e fizeram nascer o vasto deserto americano que se situa a oeste e a sudoeste das montanhas Apalaches. A componente tecnológica teria sido a invenção de um dispositivo, o descaroçador de algodão, introduzido em 1793. Não querendo contestar o papel deste descaroçador, o autor recorda a componente negra e o aumento maciço da produtividade dos escravos nas plantações depois da Luisiana ter sido vendida pelos franceses aos Estados Unidos.
E o autor enfatiza o papel colonizador da expansão americana com sucessivos massacres de nativos americanos para terras dos territórios ocidentais para além do Mississípi. Não esquecer que muitos dos fundadores americanos eram esclavagistas. Tendo procurado comprovar que foram estes africanos que catapultaram a ascensão económica da Europa e conduziram os EUA ao quadro de uma superpotência, o autor deixa aqui derradeiras reflexões:
“O principal pensamento que gostaria de deixar aos leitores é o da participação crucial do povo negro na sua própria libertação e na preservação da jovem união americana. Este foi o segundo ato extraordinário da diáspora africana no sentido de tornar o Novo Mundo seguro para a democracia, sessenta e um anos após a Revolução Haitiana. Em cada secção deste texto, através de histórias sobre o ouro e escravatura em África e de açúcar e algodão, cada uma mais importante do ponto de vista económico e mais transformadora do que a anterior, esforcei-me não só por colocar os africanos e as pessoas de origem africana no Novo Mundo no centro da história da Modernidade e do seu advento, mas também para retratá-los como impulsionadores fundamentais em todas as fases desta história.
A história da escravatura, das plantações e do trabalho negro que gerou o produto mais importante daquela época, o algodão, é, à luz de qualquer padrão razoável, um elemento central nesta imensa mudança humana. Mas isso não é tudo: a atividade económica relacionada com o algodão também impulsionou a banca e os seguros e promoveu o comércio globalizado em escalas nunca vistas. Reformulou profundamente os mapas políticos dos continentes. Posicionou os Estados Unidos como a maior e mais dinâmica potência económica do mundo já no final do século XIX. E ajudou a propulsionar o novo colosso americano a atingir rapidamente o dobro da dimensão da economia britânica em 1914.”
As grandes revoltas do Sul propulsionaram a migração negra para outras partes do país, Chicago foi uma delas. A ideologia da supremacia branca passou a reclamar a deportação do negro para África, foi uma tentativa fruste de querer apagar o movimento historicamente transformador dos povos que saíram de África, atravessaram o Atlântico e chegaram depois ao que se tornou os Estados Unidos continentais. Vinham acorrentados e aprenderam a lutar pelos seus direitos, espalharam-se depois do êxodo dando ao país líderes municipais negros, grandes escritores como Toni Morrison e James Baldwin.
O autor despede-se a falar de si e a razão que o levou a esta investigação:
“A história dos meus antepassados colocou-me no caminho certo para estudar a história mais alargada do mundo Atlântico contida no interior deste livro. O fim da invisibilidade de África na construção daquilo que todos nós conhecemos e experienciamos como o moderno está no cerne dessa luta.”
Impossível não deixar de ter em conta este livro que reconta a história da expansão marítima colocando o continente africano e os seus povos no centro das atenções, o mesmo é dizer que oferece um novo enquadramento da história mundial.
Professor Howard W. French
_____________Notas do editor
Vd. poste anterior de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 17 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28353: Notas de leitura (1961): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império (por Recaredo / Angelino Santos Silva, ed. autor, 2026, 455 pp.): "como recordar uma guerra sem apagar os homens que nela combateram nem simplificar as razões que os levaram a combater?", eis a pergunta da IA (ChatGPT)


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