
- o Joaquim Costa também aqui já publicou um texto delicioso sobre a venda da sua aldeia minhota (**);
- e o nosso saudoso António Eduardo Ferreira (1950-2023) escreveu sobre a taberna da sua aldeia de Moleanos nos anos 50 (na verdade, um "venda", já ali se vendia também quase tudo o que as pessoas necessitavam para o dia a dia, desde o acúcat e o café, "para fazer na cafeteira", ao petróleo e ao bacalhau (***).
2. Vamos então, de relance, (re)descobrir o que os nossos escritores, desde o séc. XIX, têm dito sobre a "Venda", um lugar que faz parte do nosso imaginário e das nossas vivências de meninos e moços (não podíamos frequentá-la, era reservada aos "homens feitos", mas íamos lá fazer "recados").
Recorde-se que, embora o comércio se começasse já a especializar quando nascemos, em muitas aldeias e vilas do Portugal profundo, a venda, misto de mercearia, tasca e até pensão ou estalagem, ainda chegou até pelo menos ao 25 de Abril de 1974, nomeadamente no Norte e Centro do País. Uma ou outra ainda chegou aos nossos dias: é caso, por exemplo, da "Venda, Taberna e Mercearia", com sede em Grândola.
Camilo Castelo Branco(Lisboa, 1825 - São Miguel de Seide, Famalicão, 1890)
Camilo Castelo Branco: a "Venda" romântica e passional
Em Camilo, a venda é muitas vezes palco de encontros clandestinos, pousada de caminheiros e cenário de confrontos impulsivos entre fidalgos de província e camponeses. Aparece sobretudo como espaço rural, de memórias e costumes tradicionais. Ponto de encontro. Local central para o convívio e o comércio local. Espaço de intriga e retrato social.
A Brasileira de Prazins (1883):
- Amor de Perdição (1862):
Eça de Queiroz (Póvo do Varzim, 1845 - Neuilly-sur-Seine, França, 1900)
Eça de Queiroz: o realismo dialético do campo e da cidade
Em Eça, a venda, a taberna e a merceria ganham o detalhe realista. Mas tendem a ser espaços diferenciados, sobretudo a mercearia, que surge como lugar quotidiano mas urbano, não só de compras e vendas mas como de intrigas e rotinas, enfim símbolo da vida burguesa lisboeta.
- Alves & Cia (1885, 1925)
A mercearia é um elemento recorrente, associado à vida urbana e aos costumes burgueses, onde se misturam o lado pessoal e o lado profissional.
- O Crime do Padre Amaro (1875):
De qualquer, estas três instituições (venda, taberna, mercearia) servem para ilustrar o contraste entre a rusticidade das gentes do interior e a sofisticação (ou afetação) da capital.
- A Ilustre Casa de Ramires (1900):
(...) "Ao fundo da calçada, na Venda do Pintor, sob a parreira fresca, dous almocreves descansavam, com os alforges no chão, bebendo em tigelas de louça branca. Gonçalo deteve a égua para lhes perguntar pelas novas de Oliveira e se vira passar o regedor..."
Gonçalo Mendes Ramires, ao percorrer as terras de Santa Ireneia e os caminhos de Vila Clara, cruza-se constantemente com estes estabelecimentos rurais,A Cidade e as Serras (1901):
Aquilino Ribeiro: o vigor telúrico das Terras do Demo
Ninguém retratou a venda com tanta materialidade e riqueza lexical como Aquilino Ribeiro. Na Beira Alta aquiliniana, nas Terras do Demo, a venda é o coração pulsante da aldeia: misto de comércio de víveres, tribunal popular e centro de intriga política, social e comunitária. O escritor explora o interior de Portugal, onde a venda é um espaço de transição entre o rural e o urbano.
Terras do Demo (1919):
(...) "A venda do Ti Gregório cheirava a uma mescla azeda de bacalhau seco, sabão macaco, fumo de cera e vinho derramado sobre o balcão de carvalho. Ao canto, junto à arca do sal, os homens da aldeia, de croça aos ombros, discutiam as partilhas dos montes enquanto o quartilho de tinto passava de mão em mão, grosso e escuro como sangue." (...)
- O Malhadinhas (1922):
(...) Um entrudo, quinta-feira mesmo das comadres, à boca da noite, o Bisagra desafiou-me na venda do Zé Pinto para jogar uma partida de chincalhão. Vossorias sabem: o Bisagra era senhor duma destas galhaduras, mais formosas, compridas e retorcidas como não há memória que andasse armada a testa dum serrano. Mais abundante nem paliteiro com palitos, e assim falada nem a porca de Murça. Tão coitadinho, que seria caridade dizer-lhe ao passar um portal: baixa que marras!
A mulher era fêmea de alto lá com ela, sempre mais frescal que alface, requestada de fidalgo e de padre cura. (..)
(...) – Sou homem conho!... Sou homem!...Desapareceu e estávamos nós deitando contas à pachouchada, quando se ouviu grande banzé: o Bisagra fora encontrar a mulher com o Padre Antunes de Lousadela e zupava nos dois como em amassadoira de linho. Foi preciso arrancar das mãos o coroado, senão, matava-o. Mesmo assim, ficou com uma sobrancelha deitada abaixo e mais pingou e lastimável que um dos palhaços que, por folgança de carnaval, se tinham esfaldegado no largo naquela quinta-feira das comadres. (...)
Trindade Coelho(Mogadouro, 1861 - Lisboa, 1908)
Trindade Coelho: a vida aldeã em Os Meus Amores
Nas narrativas rústicas de Trindade Coelho (finais do séc. XIX), a venda é o local da infância e da tradição comunitária. Retrato da vida rural e dos costumes tradicionais.
Os Meus Amores: contos e baladas (1891):
No conto "O Idílio Rústico", a venda surge associada aos dias de mercado e romaria:
Fialho de Almeida: A Cidade do Vício (1881)
Raúl Brandão: Húmus (1917)
(Condensação, revisáo //fixação de tecto, negritos, italicos: LG)
____________________
(*) Vd. poste de 14 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)
(**) Vd poste de 12 de fevereiro de 2024 > Guiné 61/74 - P25164: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (25): A mercearia e a taberna da aldeia (Joaquim Costa, Vila Nova de Famalicão)
(...) Eram as duas instituições mais importantes da aldeia: uma alimentava a alma e a outra o corpo (A César o que é de César a Deus o que é de Deus!). Razão pela qual o padre e o dono da mercearia eram as pessoas mais respeitadas na terra. Mais do que a do próprio regedor! (...)
(***) Vd. poste de 5 de novembro de 2023 > Guiné 61/74 - P24824: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (18): a taberna em meio rural (António Eduardo Ferreira, 1950-2023, Moleanos, Alcobaça)
Quando o álcool já era quem mais ordenava, por dá cá aquela palha, algumas vezes, aconteciam cenas de pancadaria, nada que passado alguns dias os contendores, por iniciativa própria ou com a ajuda de alguém, não resolvessem fazendo as pazes. Chegava a acontecer a alguns ficarem mesmo amigos. (...)









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5 comentários:
Li, numa das publicações dedicadas ao tema das vendas, um comentário do nosso camarada Fernando Ribeiro, da Areosa, no qual manifestava estranheza, não necessariamente desconfiança sobre a veracidade do episódio da camioneta com mineiros acomodados nos bordos do tejadilho. Ora, a estranheza do Fernando Ribeiro não me surpreende, porquanto Areosa e o seu entorno era já na altura uma área citadina ou periurbana, logo policiada. Na década de cinquenta, na minha freguesia não me lembro de ter visto, alguma vez, polícia ou guarda. Bastava o regedor, o guarda-rios e o cantoneiro, mas estes não tratavam de assuntos de trânsito. Em todo o caso, na minha freguesia, alguns meus coevos e daqui naturais nunca assistiram a tais transgressões dos mineiros. Azar o deles, porque eu e outros Medenses tivemos esse prazer. E há muito mais coisas que, mesmo pessoas daqui nunca viram...mas eu vi, claramente visto. Nos anos cinquenta havia texugos por aqui. Os lavradores matavam-nos porque eles destroçavam os milheirais...e eu vi matar um ... e vi alguém a assá-lo...e julgo que comi algum bocado. Mas muita gente da minha idade nunca viu nenhum, ao vivo.
Um grande abraço
Carvalho de Mampatá
Depois apareceram também uns legionários a fazer lei.
Pelo império fora foram levadas para lá por transmontanos, minhotos, durienses e beirões, todos esses tipos de vendas.
E com paciência de santos, aturaram toda a variedade e raça de clientes.
Em plenos subúrbios do grande Rio de Janeiro e São Paulo, em 1979, funcionavam em pleno, lojas em que uma parte tinha um balcão para os pinguços, e a outra desde pronto a vestir e a mercearia, não faltava nada.
No entanto já havia as célebres padarias do português, grande negócio, e os maiores centros comerciais e hipermercados à americana.
E em Angola o tal comerciante do mato era igualmente essas lojas, com a complexidade do sistema de permuta.
Havia a "piada do português" penso que de origem brasileira, já velha, referente a esse comerciante:
O português pregou os socos atrás do balcão, de manhã sai da cama, enfia os pés nos socos, até se deitar novamente.
No interior de Portugal, as tabernas e mercearias e talho que vendiam tudo era nas aldeias enormes, e nas vilas e cidades bem reduzidas (anos 40/50).
E nalgumas dessas vendas, no interior, muitas tinham garagem com palha e feno, para guardar o meio de transporte dos clientes.
Pena que nesse tempo não havia SNS, se houvesse, éramos pelo menos mais 10% para a guerra do ultramar e para a França.
Em vez de 4 ou 5 irmãos éramos 6 ou 7.
Antº Rosinha
Volto à questão dos mineiros transportados no tejadilho da camioneta e que o Carvalho de Mampatá relembra. Também eu terei sido um " priviligiado " que bastas vezes viu essa " transgressão" . Havia nos anos 50 , 60 em Faro, uma empresa de camionagem denominada Santos, a qual fazia a carreira Faro/ S Brás de Alportel e vice versa. Vi várias vezes essa situação. A empresa tinha salvo erro três veículos e essa era uma forma de transportar os excedentários.
E em Faro havia polícia. Não me perguntem se era legal. Se não era, aceitava-se.
Abraço
Eduardo Estrela
Amigo Carvalho de Mampatá, havia, sim senhor, um posto da Polícia de Viação e Trânsito (antecessora da Brigada de Trânsito da GNR) na Estrada da Circunvalação, a cem ou duzentos metros de distância do cruzamento da Areosa. Porém, as leis da Física não dependem da existência de policiamento ou não nas estradas. A representação feita pela IA para o Luis Graça, de dez ou mais homens DE PÉ, em cima do tejadilho de uma camioneta, é fisicamente impossível. Uma camioneta que circulasse naquelas condições estava condenada a tombar na primeira curva que lhe aparecesse.
Por outro lado, os mineiros em questão trabalhavam no Couto Mineiro do Pejão. Ora o carvão extraído do Pejão devia ser transportado em barcaças pelo rio Douro abaixo a caminho do Porto, onde seria encaminhado para os seus destinos finais. Não custa nada imaginar que os referidos mineiros viriam sentados em cima do carvão transportado por uma dessas barcaças, desde Pedorido (nas proximidades do Pejão) até Melres, por exemplo, onde a barcaça que os transportava deveria acostar para eles desembarcarem. De Melres até Medas, a distância devia ser de meia dúzia de quilómetros apenas. Ainda por cima, devia haver uma comunicação direta entre as duas localidades (uma estrada municipal ou caminho municipal), que permitiria que as camionetas não precisassem de entrar na estrada nacional Porto–Entre-os-Rios, patrulhada pela Polícia de Trânsito. A distância entre Melres e Medas era curta, os solavancos da camioneta não deviam ser muitos, e os mineiros (SENTADOS no tejadilho da camioneta e agarrados ao gradeamento de proteção, com as pernas de fora) conseguiriam assim chegar sãos e salvos a casa. Confesso que não sei se era assim que as coisas se passavam. Estou só a especular.
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