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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)












Reconstituição da Venda de Medas, Gondomar, 1944

Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.

Texto: António Carvalho (2026) 

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Amigos e camaradas, é um pedaço de prosa que vale ouro. É uma autêntica pepita de ouro, esta descrição de duas páginas e meio do nosso escritor António Carvalho, o "Carvalho de Mampatá" (ex-fur mil enf, CART 6250, 1970/72, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. )




Capa do livro, publicado pela editora Vida Económica, com apoio da Fundação Hermínia Vilar  Ribeiro. Preço de capa (em papel): 16,20 euros (promoção até final do ano).




A "Venda" (misto de taberna, mercearia, pensão, loja, local de encontro e convívio...) teve o seu papel na economia, geografia e história de Portugal. Havia uma Venda em todas as aldeias. E ao longo dos eixos rodoviários. E às vezes em pontos isolados. Deu inclusive nome a diversas povoações: Venda das Raparigas, Venda da Gaita, Venda do Pinheiro, Venda da Porca, Vendas Novas...  

A "Venda" faz parte das nossas geografias emocionais. Remete para um tempo que nasceram e cresceram os nossos pais... E ainda muitos de nós.  É, sem dúvida,  uma das instituições mais fascinantes do património socioantropológico e da geografia humana de Portugal. Antes do aparecimento das redes de distribuição modernas, dos supermercados e dos postos de abastecimento, a venda era o verdadeiro «nó de rede» do mundo rural e do eixos viários de um país, como o nosso,  acidentado (sobretudo a Norte), entrecortado por rios, com uma economia até à II Guerra Mundial, de base agrícola e em grande parte de autosubsistência. 

A "Venda" era uma espaço multifuncional:  operava como entreposto comercial ponto de apoio para o viajante e sobretudo como espaço de sociabilidade,  sobretudo dos homens. Era à "Venda" em muitas terras, de Norte a Sul do país, que chegavam as notícias (o jornal, a rádio), mas também o correio, os boatos, as anedotas...

Na série "Coisas & loisas do nosso tempo de meninos", merece o devido destaque este excerto do livro do António Carvalho, a quem bem podíamos chamar o "etnógrafo de Medas" ("Emendadas", no romance, e que é a história, verídica, de um "brasileiro de torna-viagem", que em pela II Guerra Mundial, depois de 15 anos de vida numa fazendo de café no Estado de São Paulo, regressa à terra, Medas/Emendadas, e torna-se  um bem-sucedido negociante de madeira, carqueja e carvão de choça;  de nome Abel, é assassinado em 1944, a caminho de Avintes, sendo o móbil do crime não apenas os 20 contos que trazia consigo, mas a inveja, a vingança, enfim, um crime em que está envolvido, Caim, outro nome de ressonância bíblica; em 1942, Abel está viúvo, a arranja um vizinha, Micas, mulher de mineiro, como ama de leite dos seus  dois filhos pequenos)... 

Nesta reconstitituição da "Venda da igreja" (e que o autor nos autoriza a reproduzir), o que  nos fascinou, numa primeira leitura, foi   ela aparecer como uma verdadeira instituição social da aldeia.

 Faremos depois uma analíse mais detalhada, na série "Nomadizações de um marginal-secante", deste excerto o livro que andamos agora a reler, em Candoz, em plena época das vindimas. Em homenagem ao autor, nosso querido amigo e e camarada António Carvalho, elaborámos , com a ajuda da IA, a ilustração acima publicada.

Uma nota explicativa rápida: em 1944, ainda não tinha chegado a iluminação pública a Medas. Mas havia a gente a trabalhar, como toupeiras, nas minas do Pejão, cuho início de exploraçáo remomnta a 1884 (do outro do rio Douro: a distância de Medas era de c. 4 quilómetros, que os mineiros da aldeia faziam em geral a pé; quando recebiam o salário, vinham no tejadilho da camioneta, e gastavam mais alguns tostões na "Venda"; era dura e perigosa a vida destes homens, alguns terão morrido de acidentes e de silicose).

A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas"

por António Carvalho 

(...) Micas não gostava nada que o seu homem, antes de chegar da mina do Pejão, se deixasse ficar na venda da igreja, a dar à língua e a beberricar por copo ou caneca, como se não tivesse pressa de entrar em casa. 

Não é que ele lhe batesse ou resmungasse sequer, quando chegava meio avermelhado, mas gastava sempre algum tempo e alguns tostões que lhes fariam falta para outras precisões.

Por esses anos austeros, as vendas eram os estabelecimentos onde os que não tinham terra se obrigavam a mercar quase tudo e os que a tinham compravam apenas o que ela lhes não dava. 

Mas eram também locais de encontro, por onde passavam, no fim da jornada, mineiros e gente de outros ofícios, juntando-se, em inférteis tagarelices, a velhos gastos e tossegosos, antes da última etapa que os levava a casa, a direito ou aos esses. 

Distinguiam-se os mineiros dos outros fregueses da venda cuja porta ficava a meia dúzia de metros das cancelinhas da igreja, pela roupa enegrecida de farruscas, que envergavam dentro e fora da mina. 

Alguns não cuidavam sequer de lavar a cara, depois da jornada de trabalho, como se se sentissem orgulhosos das marcas do seu penoso e insalubre labor, debaixo do chão, sempre sujeitos a perder a vida numa imprevisível derrocada ou explosão de grisu. 

Algumas vezes, quando a hora de saída do turno lhes permitia alcançar a carreira que partia de Rio Bom e passava por Emendadas, lá vinham eles empoleirados, como passageiros de segunda categoria, na cobertura da ronceira camionete pintada de azul e amarelo, bem agarrados ao gradeamento que bordejava todo o tejadilho, de pernas penduradas sobre as vidraças das janelas. 

Assim empoeirados de carvão, não lhes era permitido sujar os assentos lustrosos do autocarro, pelo que se sujeitavam a viajar naquelas condições desconfortáveis e pouco seguras, não obstante pagarem, por inteiro, o bilhete. 

Quando chegavam à paragem da tal venda de Emendadas, desciam aqueles dez ou mais enfarruscados, pela
mesma escada por onde tinham subido, apensa à traseira da camionete. 

Alguns deles apressavam-se a caminho de casa, onde os esperavam tarefas que a força das mulheres não tinha sido capaz de realizar, ou que fosse mesmo,como então se dizia, trabalho de homem. Mas outros faziam da venda uma paragem intermédia, de retempero de energia e animação da alma, antes de se encaminharem para os sítios onde moravam. 

Nesse estabelecimento, onde se vendia de tudo, havia um balcão separando o espaço dos fregueses da área onde se arrumavam, em prateleiras, gavetas e gavetões, os diferentes produtos alimentícios, tecidos, ferramentas e outras coisas precisas. 

Neste espaço do interior do balcão, de uso reservado ao vendeiro, havia ainda uma pipa de vinho verde tinto, por vezes emparelhada com outra de verde branco, de onde ele enchia, com indisfarçada satisfação, por uma chiante torneira de madeira, canecas de vinho, ao ritmo da sede e do vício dos clientes. 

Pendentes sob o teto, um perfeito expositor, havia, pendurados em pregos, toda a sorte de ferramentas, vasilhas de alumínio ou de folha zincada e todos os
apetrechos de utilidade doméstica
, alguns já enferrujados pelo tempo. 

Era sobre esse balcão, onde a pequenada se pendurava furtivamente para ver o que estava para além dele, que o vendeiro, avezado aos gostos e aos bolsos dos
fregueses, dispunha, sobre uma folha de papel mata borrão, um pedaço de broa, uma talhada de toucinho salgado, um punhado de azeitonas, um chouriço que os clientes cortavam com um canivete que traziam no bolso, ou até um cibo de bacalhau seco. 

Essas lambarices vinham sempre acompanhadas de uma caneca de verde onde todos pousavam os beiços, não se podendo assim contar a quantidade que cada um bebia. Era por isso que, algumas vezes, chegavam a casa, cambaleantes. 

Havia sempre três ou quatro homens que se constituíam clientes mais assíduos e ficavam por lá horas seguidas, em poiso certo, numa lambança pegada, fazendo daquele sítio movimentado o centro de dia dos tempos atuais. Eram quase sempre idosos de pouco poderem fazer, padecentes de silicose ou de qualquer outro mal sem cura, que ali se acoitavam. 

Afeitos àquele recanto de convívio, sentavam-se sobre o tampo de uma grande caixa de milho, defronte do balcão que fazia de mesa, levantando-se intermitentemente, cada um, para mais um gole de verde tinto da caneca de cerâmica, até a escorripichar consolado deixando-a repousar sobre a boca, de fundo para o ar. 

Noutras ocasiões, em perfeita comunhão, beberricavam, um a um, por um enorme copo de vidro de meia canada, no qual misturavam vinho, gasosa e açúcar, num gesto que se repetiria em sucessivas rodadas entremeadas por palavrório emaranhado que se ouvia cada vez mais longe. As mãos serviam de guardanapo que passavam pela boca e logo limpavam nas calças de cor já pouco decifrável.

As mulheres também ali entravam, mas pelo tempo estrito de se proverem da despesa para uma semana, que havia de caber numa pequena giga tecida de tiras de madeira de salgueiro que mãos habilidosas de um gigueiro do lugar teciam. 

Cabisbaixas, encostavam-se ao balcão, mas no extremo oposto ao dos homens, fazendo de conta não os ouvirem, pedindo artigo por artigo, baixinho, como se quisessem evitar que se soubesse o que levavam, mesmo que quase todas comprassem o mesmo. 

A vendeira, enquanto o marido aturava mais os homens, ia enchendo, em cartuchos de papel mata-borrão, um quilo de açúcar, um quarto de café de mistura, um quarto de azeitonas e dois ou três quilos de arroz… acomodados numa saca feita de diferentes pedaços de tecido que as mulheres emendavam pacientemente nas suas horas de sesta. 

Havia ainda que encher uma garrafa de azeite para alegrar as batatas cozidas com couves galegas e bacalhau, e outra de petróleo para as candeias, que a freguesa trazia vazias, de casa. 

Não podia faltar, naquele artístico cesto de duas asas, um bacalhau, um quilo de carboneto para o gasómetro e uma barra de sabão para lavar a roupa e ensaboar, sobretudo ao domingo, antes da missa, senão o corpo, pelo menos as partes dele que andassem à mostra. 

Algumas mulheres tinham que levar, também, tabaco e palhetes para o marido, que chegassem para o mês todo. Essas podiam até discordar do vício dispendioso dos seus homes, mas acediam a comprar-lhes os cigarros, porque eles sempre eram homens ou, pior, porque temiam desobedecer-lhes.

Esporadicamente compravam também, na venda onde havia de tudo, um par de socos, dois metros de ganga e uma foucinha de segar erva. 

Só pagavam no fim do mês, quando o marido arrecebia do patrão, confirmando então se os valores parcelares anotados no livro mestre da venda correspondiam aos apontados no seu pequenino livro de capa preta que traziam sempre no bolso de asseado avental escolhido para aquela ocasião. (...)

O pão que [Micas] cozia todas as semanasm era todo do milho que o marido  levantava na cantina damina do Pejãom com as senhas de racionamento a que tinha direito. Sob rava-lhe assim, para vender, a bom preço, o milho que semeava, num campo lenteiro, perto da porta, regado com água da mina. (...) (pp. 33/37)


Fonte: Adapt. de António Carvalho "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026), pp. 33/37. (Com a devida vénia...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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16 comentários:

Eduardo Estrela disse...

É efectivamente um texto poético escrito em prosa, onde identificamos parte da nossa juventude repleta de lutas e de sobrevivência pelo quotidiano. Esse era o país e a sociedade que agora alguns " iluminados" pretendem resgatar.
Vou arranjar forma de ter um exemplar da obra que tem como autor o António, o Carvalho de Mampatá.
Abraço
Eduardo Estrela

Anónimo disse...

Já li o suficiente para dar uns palpites a este belo texto, que me leva aos anos 1943, quando nasci, e os meus sentidos parabens ao Carvalho de Mampata.
Fica para mais logo os comentários, caso este texto não apague de um momento para o outro.
Mas para já, venho humildemente, dar o braço (ou a mão) à palmatória.
Disse em tempos,a não gostar muito dos bonecos do IA.
Mas com este, mudei de opinião, pois retrata bem o que eram os anos do periodo da II guerra mundial.
Muito embora se vai lendo , aqui e ali, dos perigos dos viciados em IA.
Eu já ando metido nisso !!!!!!
Ab,
Virgilio Teixeira

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Gosto do "artista gráfico" da IA do ChatGPT... Mas, atenção, é preciso estar atento aos "anacronismos" .. E aos detalhes. Algumas destas vinhetas tiveram que ser refeitas, ou corrigidas manualmente...

(i) A electricidade em Medas, disse-me o António Carvalho, só apareceu em 1947... Pelo que não fazia sentido um poste de iluminação pública numa "cena" de 1944...

(ii) O anúncio à cerveja Sagres (que fora lançada em Lisboa, em 1940) era uma completa idiotice, numa venda, em Medas, em 1944... Tive que o apagar o anúncio...

(iii) O relógio na igreja ( a foto é de 2024...) não sei de que data é... Mas é capaz ser dos anos 50, oferta de um brasileiro benfeitor...

(iv) As prateleiras da parte da mercearia estão demasiado recheadas com produtos e rótulos, coloridos, que não deviam existir em 1944.

Não toquei nestes pormenores. Gasta-se demasiado tempo (muitas horas) com estas "brincadeiras"... Mas, neste caso, penso que valorizam o texto...

Aguardo o veredicto do nosso escritor... LG

Anónimo disse...

Eduardo Estrela
14e set 2026 14:05


Boa tarde Luís!
Estão a correr bem as vindimas? Preciso da tua ajuda.
Gostava de ter um exemplar do livro que o António Carvalho ( de Mampatá) publicou. Para isso preciso de combinar com ele a forma de o fazer. Em tempos o Carlos Vinhal mandou-me uma listagem dos contactos da malta da Tabanca mas a minha idiotice no manuseamento destas artes novo/tecnológicas já devem ter mandado a lista para um sítio qualquer que agora não localizo. É possível saber o número do telemóvel do nosso amigo e comparsa?
Muito obrigado. Abraço
Eduardo

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Obrigado, Eduardo. As nossas vindimas estão a correr. E para mais tive a "visita" dos meus filhos e netas...Fizeram 800 km para estar connosco... Para o próximo sábado há mais, é a vindima maior... Temos uma cuba de inox com alcoól provável de 14 graus...Para o vinho verde, é demais...

Quanto ao teu pedido, já te mandei por email o nº de telemóvel do António. Mas podes encomendar o livro diretamente à editora, Vida Económica:

https://www.grupovidaeconomica.pt/pt-pt/produto/71-edicoes-evida/3x44-abel-e-caim-em-contrape-livro1368

Mas provavelmente quererás o livro em papel com uma dedicatória autografada... Dou-lhe conhecimento. Ab, Luis

Anónimo disse...

Antes de mais dizer, quero agradecer ao Luís por considerar o meu livro merecedor de divulgação, aqui no blog. Como já referi este meu livro deixou de me pertencer, no dia em que o ofereci à novel Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, a qual assumiu o custo da edição e beneficiará do produto da sua venda (caso venda coisa que se veja). Chegado a esta fase da vida, passo uma boa parte do meu tempo a escrever, com indizível prazer, sobre aquilo que sei ou julgo saber. Não tenho formação académica superior, por isso demoro muito a escrever um livro, escrevo, apago, reescrevo, emendo, torno a apagar e torno a escrever ,até que as orações se moldem ao que me parece bem. Gastei dois anos em cada um dos meus dois primeiros livros. Presentemente estou a escrever um outro romance que decorre exclusivamente em cenários que conheço bem. Penso que estará concluído quando perfizer um ano de nascimento, lá para Maio do ano que vem. Nessa altura decidirei sobre o modo de o editar.
Claro que gostaria muito que muitos camaradas lessem o meu livro, apesar dele não extrair qualquer proveito material, mas sei que o tema nele desenvolvido pouco interesse desperta.
Em todo o caso, o livro pode ser solicitado pelo correio electrónico e recebido pelo correio físico, na morada. Entretanto parece que o Luís já enviou o endereço da editora Vida Económica ao Eduardo Estrela. Mas parece que o Eduardo quer o meu autógrafo. Pois bem, entre camaradas deve haver respeito, por isso vou esperar pelo telefonema do Eduardo para o meu Tlm. 919401036. Havemos de arranjar uma maneira. Eu até posso comprar o livro e proceder ao envio para a morada que o Eduardo me indicar. Acontece que eu não tenho o número do Eduardo, ainda.

Um grande abraço
Carvalho de Mampatá

Anónimo disse...

A acção do meu livro decorre entre entre o princípio do século XX e 1944. É certo que a descrição que faço da "venda" é a conheço dos meus tempos de criança ( década de cinquenta e sessenta) , não muito diferente do ambiente dos anos trinta e quarenta. A primeira camioneta de passageiros chegou em 1930, o telefone em 1936 e a electricidade em 1947. Abel, personagem principal, nasceu em 1900, chegou a S. Paulo com 10 anos e regressou em 1924. No livro está lá tudo ou tudo o que eu sei ou julgo saber.
Obrigado camaradas
Carvalho de Mampatá

Anónimo disse...

Sobre a torre sineira da Igreja. Ofereceram-na, bem como os sinos e o relógio, os tios brasileiros do meu pai. Os MEDENSES de boa memória, quiseram agradecer-lhes na placa moldada em cimento. Até isso está no livro, bem como o sítio de onde veio o granito assim como os caminho por que passou, em 1930.
carvalho de Mampatá

Antº Rosinha disse...

A "terrinha" de António Carvalho já com carreira em 1930, e telefone em1936 e elecctricidade em 1946, já não foi uma terra tão esquecida como outras mais para o interior.
Aliás aquela localização em relação à região do Douro e ao rio, deve ser encantadora.
Para mim, o que fazia falta naqueles anos da 2ª guerra, e que hoje temos, era o SNS, primordial, o resto tudo secundário.
Atenção que as aldeias "esquecidas" de Portugal, que não pode ser a de António Carvalho, hoje estão a ser assediadas por imobiliarias, para habitação normal, para turismo rural, e para casa de férias, nacionais e estrangeiros.
Esperemos que o abandalhamento nacional se reduza à Lisboa Pombalina e arredores.
António Carvalho o teu lugar deve ser um lugar maravilhoso, basculhei no google earth e internet.
Fui encomendar o livro mas não funcionou tenho que pedir ajuda.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Os "brasileiros", ricos, voltavam nas férias, a Medas, como grandes benfeitores... Não sei (o António Carvalho pode confirmar), mas parece-me que o relógio na torre da igreja é já fruto da riqueza do café...E já existia em 1944...

Fernando Ribeiro disse...

Oh, Luís Graça, não te quero ofender, mas agora fizeste-me rir! Assim que vi a primeira imagem que publicaste, gerada por IA, desatei a rir à gargalhada. Então achas que uma camioneta de passageiros iria circular por essas estradas fora com vinte ou trinta marmanjos em cima do tejadilho?! Assim que a camioneta saísse de Medas, tombaria imediatamente na primeira curva, por causa do peso daquela carga humana toda lá em cima! Ainda por cima, a estrada que passa por Medas tem curvas às dúzias. Seria um desastre completo, com não sei quantos mortos e feridos!

Lá na Lourinhã, não havia desdobramentos, quando o número de passageiros ultrapassava a lotação de uma camioneta?

Eduardo Estrela disse...

Menciona o António Carvalho ( de Mampatá) que primeira camioneta chegou em 1930. Não devia haver assim tantos veículos que permitissem fazer os denominados desdobramentos e pelas imagens fica a ideia que os passageiros são todos ou quase todos trabalhadores mineiros. Seria uma carreira/corrida só para eles. O António poderá explicar melhor, através da recolha que fez.
Abraço
Eduardo Estrela

Anónimo disse...

Na verdade, os mineiros, pelo que eu tenho gravado na minha memória, seriam meia dúzia de cada lado da camioneta. Julgo que a camioneta comportava pouco mais de 30 passageiros sentados, no seu interior. Claro que a camioneta começou a circular em 1930, mas eu via esses mineiros a descer da camioneta por uma escada traseira, entre o fim da década de cinquenta e o princípio da de sessenta.
Sobre a torre da igreja, os sinos e o relógio, falo deles no meu livro.
Um grande abraço
Carvalho de Mampatá

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Fernando, essa é de engenheiro, e está muito bem observada... A IA é uma "exagerada" e4 sobretudo não conhece o traçado (nem o estado) das estradas de Portugal, sobretudo das que foram abertas durante o fontismo (2ª metade do séc. XIX)... A pá e pica e dinamite...

O António Carvalho, no seu romance, fala de uma dezena de passageiros enfarruscados no tejadilho da camioneta. E isso só acontecia em dia de "São Vencimento"... Durante o resto dos dias do mês, o mineiro fazia o trajeto até à mina (c. 4 km ) (e da mina até casa) a pé...Não havia passes, nem borlas, nem autocarros de empresa...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Fernando, já puxei as orelhas à IA e a minha mão esquerda já deu uma palmatoada à mão direita por este dislate de lesa-segurança!... Ainda por cima estamos a falar de mineiros sujeitos a morrer na mina de carvão, de acidente de trabalho... A "menina da IA" já reduziu a lotação da "cam'neta" (com o se dizia na minha terra nessa época)...Mesmo assim são "penduras" a mais...

Fernando Ribeiro disse...

Eu passei a minha infância na Areosa, que era um subúrbio industrial do Porto, situado no ponto de encontro dos concelhos do Porto, da Maia e de Gondomar e onde a vida era regulada pelas sirenes das fábricas, e não pelo toque dos sinos das igrejas. A Areosa era atravessada por uma estrada que saía do Porto e se dirigia para norte. Por ela circulavam não sei quantas dezenas de camionetas de passageiros por dia, com destino a Paços de Ferreira, Freamunde, Lousada, Santo Tirso, Guimarães, Fafe e outras terras mais. Nunca vi uma só camioneta que transportasse pessoas no tejadilho. Nunca, mesmo nunca. Só seguiam no tejadilho mercadorias leves, que pudessem ser içadas à força de braços, e nada mais. Até galinhas e capões vivos vindos de Freamunde viajavam no tejadilho, mas nunca pessoas. As empresas de transporte de passageiros faziam desdobramentos das suas carreiras para transportarem todos os passageiros que pretendessem viajar nelas. Faziam tantos desdobramentos quantos fossem necessários. Lembro-me de que, em concreto, as camionetas da empresa Pacense (de Paços de Ferreira) traziam no vidro da frente um letreiro dizendo "1.º desdobramento", "2.º desdobramento", etc.