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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28346: Notas de leitura (1960): "O Imenso, Sereno e Doce Rio", de Rui de Azevedo Teixeira; Guerra e Paz Editores, 2023 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A literatura da guerra colonial tem uma dívida impagável com o labor de Rui de Azevedo Teixeira, ele organizou congressos internacionais sobre a guerra colonial e a sua literatura, publicou livros como A Guerra Colonial e o Romance Português, é autor de uma biografia de Jaime Neves, oficial dos Comandos que teve um papel preponderante no 25 de novembro de 1975 e como romancista escreveu uma trilogia, aqui se apresenta uma síntese da sua última obra intitulada o Imenso, Sereno e Doce Rio, apresenta-se como o termo de um itinerário que começou na guerra de Angola, Angola a que ele voltará no segundo romance, está agora na meia idade e vai viver uma vibrante paixão com uma militante do PCP, viverão entre os jardins do Éden e os do Inferno, ambos sentiam no outro o fascínio pelo melhor inimigo. O escritor questiona se não se viveu neste romance o triângulo dramático de Circe, Ulisses e Penélope.

Um abraço do
Mário



Oficial dos Comandos em Angola, professor universitário, e agora uma violenta paixão

Mário Beja Santos

A literatura da guerra colonial tem uma dívida impagável com o Rui de Azevedo Teixeira, na foto à direita. Este Doutor em Literatura Portuguesa Contemporânea organizou os dois primeiros congressos internacionais sobre a Guerra de África, bem como os respetivos livros; deve-se-lhe um indispensável estudo sobre a guerra colonial e o romance português, escreveu sobre a guerra em Angola e, mais recentemente, no estatuto de romancista, publicou O Elogio da Dureza, O Longo Braço do Passado e em 2023 O Imenso, Sereno e Doce Rio, Guerra e Paz Editores.

Vamos acreditar que se trata de uma trilogia, em O Elogio da Dureza temos uma mocidade com muitas leituras, uma vida familiar cruenta, sentiu-se impelido pelo fascínio da força, iremos ler o que era a preparação de um Comando, tudo entremeado com passagens daquilo que o autor chama Diário Incerto; fará a guerra em Angola que será um palco revisitado no seu romance O Longo Braço do Passado (não esquecer que o autor foi professor em Angola nos tempos dramáticos da guerra civil). Acabada a guerra lançou-se nos estudos universitários e após a licenciatura ensinou na ilha da Madeira, aqui conhece Iza, haverá casamento “sublime, sólido, sagrado”. E afastamento relacional com os seus pais. No segundo romance, portanto, em Angola, haverá uma paixão que terá triste fim porque Iza é o pilar da vida de Paulo de Trava Lobo.


Estamos agora no terceiro romance, já morreram os pais de Paulo, ele e Iza caminham para a meia-idade, vivem no Porto, ele gosta de estadear umas temporadas na Toca do Lobo, lugar onde passou a sua infância e juventude, continua a dedicar bastante atenção ao seu Diário Incerto, sente-se envelhecer muito devagar, o casal passa férias em antigas colónias e depois recebe convite para vir lecionar em Lisboa. Aqui volta a encontrar Ana Roriz, sua colega e militante comunista no tempo em que ele fora assistente universitário no Porto. Paulo instalou-se perto do Campo Pequeno, a mulher ajudou-o a retocar o ambiente, só que Iza foi convidada a dar aulas em Zurique. Está criada a atmosfera para uma segunda infidelidade, a inevitável tentação e a dita Ana Roriz. Vai agora tecer-se uma tapeçaria em torno de uma relação que se poderia tornar à partida improvável entre uma mulher filiada do PCP e um académico de boa cepa conservadora.

Começam por almoçar juntos, depois passeiam do Saldanha ao Rossio, depois descobrem o Alentejo juntos, vão até Marvão. Muita conversa com muitas tiradas literárias. Iza aparece nos sonhos de Paulo. No seu Diário Incerto, ele apresenta Ana Maria de Jesus Almeida Roriz:
“Licenciada em Clássicas, professora do ensino secundário, requisitada pela universidade para assessorar a vice-reitora. Depois do primeiro divórcio, a senhora dra. Ana Roriz desligou-se um tanto da militância. Regressou em força anos mais tarde. Tão em força que chegou a ser controleira. Os seus dois ex-maridos eram militantes comunistas e o homem com quem vive, um tal João Gomes, também da militância.”

Paulo desabafa, tem uma longa história relacional com os comunistas, como estudante em Coimbra, diz ter apanhado o comunismo nas matas de Angola, apanhou o comunismo no PREC e, sob o comando de Jaime Mendes, tiraram a tosse aos comunas, voltou a apanhar com o comunismo em Angola, considerava-se definitivamente vacinado, não podia deixar de apreciar o idealismo ingénuo de Ana Roriz. Há, contudo, ambivalências e paradoxos comportamentais em Paulo: “O comunismo era um inimigo pelo qual, sem deixar de sentir um ódio consistente, Paulo sentia também curiosidade e, em relação a alguns comunistas mais velhos, respeito e até admiração.” Paulo e Ana personificavam o defeito perfeito.


Em determinados momentos, Paulo via Ana como um robô, engessada na criminosa ideologia marxista-leninista. Têm arrufos momentâneos, há roturas curtas, logo a seguir vibra a paixão, há toques permanentes no telemóvel, separam-se e reconciliam-se. Paulo recorda o seu caso com Diana Sotirova, assunto tratado no segundo romance desta trilogia. Quando a paixão vibra mais forte, evitam-se as discussões políticas. Paula entende que deve dar um quadro da sua formação, ele que foi alferes dos Comandos, “nessa guerra em que uma esmagadora maioria de homens bons lutou por uma ideia, mais do que errada, romântica, fora do tempo”, recorda que o professor da escola primária metia na cabeça dos miúdos a fervente ideia do Império, e fala concretamente de si: “O alferes, o rapaz de vinte anos que, comandando outros rapazes, tinha de se desenrascar mandando matar e matando ele próprio. Um posto bem pior do que o do soldado.” Ana ouve todas estas declarações e já fala em casamento simbólico.

Procuram ter uma habitação para viverem juntos, a solução encontrada foi dececionante, uma autêntica alfurja em Cascais. Paulo viaja até Zurique, regressa e temos novamente os arroubos da paixão. Os meses passam, Paulo já vai dormir a casa de Ana, o tal Gomes vai ficando arredado, um dia será mesmo mandado embora. Temos cenas de ciúmes, aparecem cartas anónimas. Paulo é convidado pela Universidade de Colónia para dar um cursinho sobre temas literários, antes de ele partir viveram a desesperada paixão física, Iza aparece vinda de Zurique, no regresso a Lisboa, Paulo desanca no Diário Incerto a ideologia comunista, não obstante retoma-se o idílio, vivem juntos, aquilo que Paulo chama uma conjugalidade adúltera, há um ciclo de conferências na universidade, Ana tem funções de secretariado, Iza aparece inesperadamente.

O ambiente na universidade não é favorável aos dois, Paulo parte para a Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, já se sente em rotura final com Ana. Paulo organiza com Iza quinze dias de férias na África do Sul, o comboio é assaltado por elementos da RENAMO, consegue escapar são e salvo. Em Lisboa, Paulo vê Ana à distância, encontra-se com outros elementos dos Comandos, temos aqui um outro quadro ideológico, falando da situação mesquinha e sem grandeza nenhuma em que vive o país, eles consideram-se os leopardos, os leões, a seguir a eles vieram os chacais, as hienas, tipos que tiraram licenciaturas trafulhadas e pedófilos e condecorações para ladrões. E depois destas jaculatórias de exaltação nacionalista vão pelos bares, como o Procópio e o Hipopótamo.

Paulo acusa os sinais de envelhecimento, passou a viver sob a ditadura das análises clínicas, amolecia com a idade, passou a estar muito mais atento ao sofrimento dos velhos e dos pobres. Iza e Paulo voltam para o Porto, aparece Ana desvairada a querer apunhalar Paulo, o casal Iza e Paulo sai reforçado desta horrível contenda, é um casal que constitui a unidade de contrários, dois rios de vida que, após se terem colado na paixão formaram um imenso rio único. E aqui finda a terceira e porventura última obra deste ciclo romanesco, Paulo de Trava Lobo e Iza Maria Possolo d’Ornellas de Trava Lobo parecem ter pela frente uma velhice pacata, sem sombra de novas infidelidades.

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Nota do editor

Último post da série de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)

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