1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 21 de Julho de 2026:
Boa tarde amigos e Camaradas Editores
Um pequeno texto para recordar.
O meu Grande Abraço
Com votos de muita saúde para todos
Artur António da Conceição
A minha ida para o serviço militar obrigatório
A minha ida para cumprimento do serviço militar obrigatório não me retirou hábitos de trabalho, diria mesmo que talvez por uma questão relacionada com o sistema nervoso, terá dado o seu contributo.
Durante vários meses do ano de 1964, enquanto estive no Regimento de Infantaria 11 na cidade de Setúbal, tinha a missão de atender às 8 e às 18 horas uma chamada via rádio relacionada com a segurança da Região Militar.
Como tinha muito tempo disponível, durante o dia ia trabalhar para o Conselho Directivo, onde havia sempre muita coisa para fazer.
Guiné > Região do Oio > Jumbembém > CART 730 (1965/67) > Artur Conceição, o hortelão na sua horta onde se gabava de cultivar os melhores tomates e alfaces do CTIG.
Durante os dois anos de estadia na Guiné e no tempo de Jumbembem fazia a escala de serviço da qual fazia parte, fazia a manutenção das baterias, fazia os autos de destruição, fazia a requisição de material, fazia a gestão de stocks e ainda tinha tempo para tratar da horta de onde vinha o tomate e a alface para a salada destinada à secção de transmissões e para a Messe de Oficiais.
Permitam-me que aqui recorde, com a mesma amizade e admiração, dois dos Furriéis mais “malandros” e da mesma forma os dois mais “trabalhadores”.
Começando pelos dois com que não era possível contar com eles, para fazer qualquer coisa de jeito temos:
O Furriel de Manutenção Auto, Ilídio Barros dos Reis. Um grande abraço.
O Furriel de Transmissões, Higino José Gama Passos, que era natural da Ilha da Madeira. Um grande abraço meu Furriel.
Agora os dois que inventavam algo para ocuparem os seus tempos livres.
O Furriel José Joaquim Nunes da Venda, atirador.
O Furriel Amadeu Júlio Neves Cruz, atirador.
Os restantes jogavam à lerpa durante os seus tempos livres, onde se obtinham lucros que davam para uma viagem à Metrópole. O meu abraço para todos.
Permitam-me agora um especial realce para o Senhor Furriel Amadeu Cruz.
Sendo atirador, desempenhou com a mais elevada competência, a função de Vaguemestre durante muito tempo da sua estadia em Jumbembem.
Encontrei-o em 1973 como gerente de uma loja de uma famosa marca de móveis em Lisboa. “Móveis Baía”.
Encontrei-o mais uma vez num almoço do Batalhão 733, que teve lugar na Cidade de Lagos no Algarve.
Ao aproveitar para enaltecer as qualidades do Amigo Amadeu Cruz, tive como resposta palavras que nunca mais esquecerei.
- Enquanto estive a cumprir o serviço militar senti-me sempre em serviço. Enquanto estou em serviço não bebo. Daí que durante todo o tempo que estive na tropa nunca apanhei uma
bebedeira.
De todos os Sargentos e Oficiais da CART 730, todos nascidos em 1943 ou antes, só tenho conhecimento do falecimento do Furriel Vira, natural de Setúbal. Descansa em PAZ.
Damaia, 16 de julho, 2026
Artur Conceição
_____________
Nota do editor
Último post da série de 16 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28187: Retalhos da vida militar (6): História da Pista de aterragem de Jumbembem (Artur Conceição, ex-Soldado TRMS)
Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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quinta-feira, 23 de julho de 2026
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Guiné 61/74 - P28187: Retalhos da vida militar (6): História da Pista de aterragem de Jumbembem (Artur Conceição, ex-Soldado TRMS)
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 13 de Julho de 2026:
Boa tarde amigos e Camaradas Editores.
Como não tenho Quintal, nem Horta, nem Apiário tenho de contentar-me com os meus hábitos matinais de ligar o computador, consultar a meteorologia, ver as gordas do dia, dar uma espreitada ao blogue e verificar com vai a conta bancária, não vá o diabo tecê-las… Gato escaldado da água fria tem medo.
Escrevi algumas linhas sobre a famosa pista para aeronaves em Jumbembem que envio em anexo.
Escrevi também algumas linhas sobre um tema que serviu de mote para o primeiro.
Estou por cá a tentar cumprir com as indicações do Luís Graça. Vamos correr com o Alemão.
O meu Grande Abraço
Muita saúde para todos
Artur António da Connceição
Sendo a Guiné uma região plana tem e sempre teve excelentes condições para a criação de pistas de aterragem para qualquer tipo de aeronaves.
Jumbembem não fugia à regra e tinha condições excelentes para a criação de uma pista de aterragem.
A CART 730, enquanto sediada em Jumbembem, sempre recebeu a sua correspondência largada do Céu, a partir de uma avioneta, por não haver uma pista para aterragem.
As condições geográficas eram boas, havia tempo até de sobra, mas faltou sempre a boa vontade para levar a obra para diante.
Chegou a estar em Jumbembem uma máquina de terraplanagem para proceder à criação da tão almejada pista de aterragem. Essa máquina era manobrada por um 1.º Cabo pertencente à Engenharia sediada em Brá na cidade de Bissau.
A CART 730 enquanto esteve em Jumbembem dispunha de Messe para Oficiais, Messe para Sargentos e Rancho Geral. O 1.º Cabo, Operador de Máquinas considerando que como tinha de trabalhar oito horas por dia, pediu para que as suas refeições tivessem lugar na Messe de Sargentos. Tal não lhe foi concedido, mas logo na primeira oportunidade o nosso 1.º Cabo montou-se na máquina foi embora.
A dada altura o Senhor Comandante da CART 730, Capitão Amaro Rodrigues Garcia não comprou uma “cabritinha”, mas sim uma cabra adulta, que trazia consigo dois filhotes. O objectivo era passar a haver leite para o pequeno almoço na Messe de Oficiais. A cabra mãe e os filhotes pernoitavam em espaços separados e só tinham direito a mama depois de a cabra ser mugida para tirar o leite para a Messe de Oficiais. O cozinheiro da Messe, que era quem mugia a cabra logo pela manhã, quando foi para buscar os filhotes verificou que um deles havia desaparecido durante a noite.
O cozinheiro da Messe teve de dar conhecimento ao Senhor Capitão. Iniciadas as primeiras averiguações para saber o que se tinha passado, verificou-se ao fim de algumas horas de que tinha havido furto. Havia na Companhia um grupo de Alentejanos especialistas em petiscadas muito boas que logo se tornou suspeito. Feita uma minuciosa pesquisa na caserna foi encontrado, já sem vida, o cabritinho dentro de um caixote de guardar farda, mas que tinha ficado com o rabo de fora. Descoberto o crime e os criminosos, procedeu-se ao julgamento e leitura da sentença.
A sentença foi a seguinte: Tinham direito a comer o cabrito, mas como castigo teriam de derrubar 12 árvores na zona onde iria ser construída a futura pista de aterragem.
Pela manhã o grupo dos “condenados”, munidos de machados, pás e picaretas dirigiam-se ao local para cumprimento da pena que lhes havia sido aplicada. Para controlar o stresse iam também munidos de uns baralhos de cartas e algumas bebidas.
Volvidas duas semanas, o senhor Capitão resolveu ir verificar o ponto da situação em relação à execução da pena aplicada. Verificou de que todas as árvores sinalizadas para serem abatidas continuavam de pé.
Chamado o grupo, foi-lhes transmitido de que a sentença passava a ter a seguinte redacção: se no prazo de duas semanas todas as árvores não estiverem tombadas a sentença será revertida e substituída por 15 dias de detenção para cada um.
A sentença foi cumprida, mas as árvores permaneceram tombadas no mesmo local até à retirada de Jumbembem da CART 730.
O helicóptero que procedeu à evacuação do Senhor Capitão Rui Romero entrou pelo lado da futura pista e poisou ao fundo da parada junto aos abrigos subterrâneos.
Esta era a situação, em termos de pista de aterragem para aeronaves, quando da retirada da CART 730.
Eu sei, eu vi, eu estava lá.
Tudo o que se passou posteriormente a 17 de julho de 1966.
Eu não sei, eu não vi, eu não mais lá voltei.
Primeiro interveniente
Deves estar a fazer uma grande confusão... Jumbembem com Iemberem ou outra terriola qualquer terminada em "em" desculpem a cacafonia provocada.
O Artur Conceição é que diz que no tempo dele 1965 em Jumbembem não havia pista e os editores vão na onda e fazem o descritivo da legenda nesse sentido.
Pois segundo reza a História do BArt 733 no dia 2/08/1965 1 GComb/CArt 730 continuou a construção da pista de aterragem e executou melhoramentos diversos no aquartelamento.
Portanto, talvez quando se verificou a morte do Cap Romero 10/07/66 quase um ano depois, talvez a pista já estivesse concluída. Não sei.
Segundo interveniente
O Luís é que escreve o seguinte:
"Segundo a última conversa que tive com o Artur, em Jumbembem não havia pista de aviação. O correio era largado às quintas-feiras, de avioneta. Acabada de chegar a Jumbembem, a CCÇ 1556 [1565] só recebeu o primeiro correio, no domingo, 10 de julho de 1966. Veio diretamente de Farim, por coluna auto."
Atenta no que acima escrevo invocando a História do BArt 733, não sei se a pista estava concluída ou não em 10/07/1966 um ano depois do início da sua construção, mas quase posso afirmar categoricamente que a evacuação que se vê na foto não é da parada de Jumbembem. É isso sim da pista ou do campo de futebol que ficava/fica paralelo à picada Cuntima>Jumbembem>Lamel>Farim e Jumbembem>Canjambari.
Pois a parada estava envolvida pela tabanca antiga que ainda é do meu tempo e fomos nós que a demolimos para construir uma tabanca nova a norte do aquartelamento e paralela à pista.
Donde da parada não se viam as árvores ao fundo nem em 1966 e nem quando fui para lá e só depois da demolição da tabanca velha é que se passou a ver, como se vê na minha foto a preto.
Em 2014
O SITREP era uma mensagem diária de classificação R (Rotina) transmitida ao fim da tarde e que tinha como objectivo enviar o ponto da situação. De um modo geral era transmitida pelo Artur porque o seu envio era sempre por volta da hora do jantar.
Todas as mensagens enviadas a partir de Jumbembem eram emitidas em fonia. Pelo fim da tarde as condições eram mais difíceis. Como o Artur tinha uma das melhores gargantas. Lá teria de ser, o que não significa que a mensagem onde veio este conteúdo tenha sido enviada pelo Artur.
São referidas neste retalho de SITREP 3 acções de elevado significado:
1. Patrulhamentos diários nas imediações da povoação e patrulhas de reabastecimento a FARIM, CANJAMBARI E CUNTIMA.
2. Melhoramentos e construção de edifícios e instalações para a criação de condições de vida e higiene em JUMBEMBEM e CANJAMBARI.
3. Construção da pista de aterragem de JUMBEMBEM e conservação da existente em CANJAMBARI
O terceiro ponto já foi censurado pelo 1.º Cabo António Bastos do Pelotão 953 que esteve em Canjambari.
Agora as mesmas 3 acções, mas com alguma mistura de verdade.
1. Logo pela manhã teve lugar banhinho matinal porque o pessoal da companhia admira a boa higiene, seguido de uma visita à tabanca para apalpar as bajudas.
2. Antes do almoço ainda houve tempo para uma suecada e para uma visita aos arredores para se possível apanhar alguma presa mais distraída.
3. Depois do almoço e após uma merecida sesta e depois de uma suecada, teve lugar um jogo de futebol entre as equipas, Alentejanos e não Alentejanos, que os não Alentejanos ganharam por 3 a zero.
Acreditar naquilo que está escrito nas actividades de Companhias e Batalhões é como acreditar no que está escrito na História de Portugal sobre a Padeira de Aljubarrota, Dona Brites de Almeida que terá matado com a pá de meter o pão no forno sete Castelhanos que se teriam escondido no forno onde Dona Brites cozia o seu pão. Isto para não falar daqueles que ainda acreditam no Pai Natal.
Esta é uma segunda imagem das várias que foram tiradas. Talvez nesta foto dê para identificar melhor a diferença entre o chão da parada e o chão do campo de futebol. De pista de aterragem nem vale a pena falar.
Partindo da “Porta de Armas” do acampamento de Jumbembem e seguindo sempre em linha recta até ao arame farpado entrava-se no espaço previsto para a tal pista.
Para lá do arame farpado do lado esquerdo ficava uma árvore de grande porte que dava frutos pequenos parecidos com figos e que em determinada época foi invadida por bandos de pombos bravos que vieram colher esses mesmos frutos. O Senhor Capitão tinha uma caçadeira que entregou ao Gamito que abateu umas quantas dezenas. Só não comeu pombo de churrasco quem teve preguiça de os depenar.
Do lado direito logo a seguir ao arame farpado ficavam as latrinas da Companhia. Uns 20 ou 30 metros mais adiante ficava uma cova onde eram testadas algumas munições.
Num desses ensaios já na presença do 1.º Sargento da Companhia 1565, aconteceu que uma granada de bazuca foi percutida, mas não saiu. O Primeiro Sargento da CART 730, Maurício Martins Clemente, quando se apercebeu do sucedido arremessou a bazuca para a maior distância que conseguiu, mas não conseguiu evitar ferimentos, não muito graves, mas que o forçaram a regressar a Bissau alguns dias mais cedo.
Entre o posto de rádio e o arame farpado e daí para diante apenas foi construída uma peanha para colocação de uma Metralhadora Antiaérea.
_____________
Nota do editor
Último post da série de 10 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)
Boa tarde amigos e Camaradas Editores.
Como não tenho Quintal, nem Horta, nem Apiário tenho de contentar-me com os meus hábitos matinais de ligar o computador, consultar a meteorologia, ver as gordas do dia, dar uma espreitada ao blogue e verificar com vai a conta bancária, não vá o diabo tecê-las… Gato escaldado da água fria tem medo.
Escrevi algumas linhas sobre a famosa pista para aeronaves em Jumbembem que envio em anexo.
Escrevi também algumas linhas sobre um tema que serviu de mote para o primeiro.
Estou por cá a tentar cumprir com as indicações do Luís Graça. Vamos correr com o Alemão.
O meu Grande Abraço
Muita saúde para todos
Artur António da Connceição
História da Pista de aterragem de Jumbembem
Sendo a Guiné uma região plana tem e sempre teve excelentes condições para a criação de pistas de aterragem para qualquer tipo de aeronaves.
Jumbembem não fugia à regra e tinha condições excelentes para a criação de uma pista de aterragem.
A CART 730, enquanto sediada em Jumbembem, sempre recebeu a sua correspondência largada do Céu, a partir de uma avioneta, por não haver uma pista para aterragem.
As condições geográficas eram boas, havia tempo até de sobra, mas faltou sempre a boa vontade para levar a obra para diante.
Chegou a estar em Jumbembem uma máquina de terraplanagem para proceder à criação da tão almejada pista de aterragem. Essa máquina era manobrada por um 1.º Cabo pertencente à Engenharia sediada em Brá na cidade de Bissau.
A CART 730 enquanto esteve em Jumbembem dispunha de Messe para Oficiais, Messe para Sargentos e Rancho Geral. O 1.º Cabo, Operador de Máquinas considerando que como tinha de trabalhar oito horas por dia, pediu para que as suas refeições tivessem lugar na Messe de Sargentos. Tal não lhe foi concedido, mas logo na primeira oportunidade o nosso 1.º Cabo montou-se na máquina foi embora.
A dada altura o Senhor Comandante da CART 730, Capitão Amaro Rodrigues Garcia não comprou uma “cabritinha”, mas sim uma cabra adulta, que trazia consigo dois filhotes. O objectivo era passar a haver leite para o pequeno almoço na Messe de Oficiais. A cabra mãe e os filhotes pernoitavam em espaços separados e só tinham direito a mama depois de a cabra ser mugida para tirar o leite para a Messe de Oficiais. O cozinheiro da Messe, que era quem mugia a cabra logo pela manhã, quando foi para buscar os filhotes verificou que um deles havia desaparecido durante a noite.
O cozinheiro da Messe teve de dar conhecimento ao Senhor Capitão. Iniciadas as primeiras averiguações para saber o que se tinha passado, verificou-se ao fim de algumas horas de que tinha havido furto. Havia na Companhia um grupo de Alentejanos especialistas em petiscadas muito boas que logo se tornou suspeito. Feita uma minuciosa pesquisa na caserna foi encontrado, já sem vida, o cabritinho dentro de um caixote de guardar farda, mas que tinha ficado com o rabo de fora. Descoberto o crime e os criminosos, procedeu-se ao julgamento e leitura da sentença.
A sentença foi a seguinte: Tinham direito a comer o cabrito, mas como castigo teriam de derrubar 12 árvores na zona onde iria ser construída a futura pista de aterragem.
Pela manhã o grupo dos “condenados”, munidos de machados, pás e picaretas dirigiam-se ao local para cumprimento da pena que lhes havia sido aplicada. Para controlar o stresse iam também munidos de uns baralhos de cartas e algumas bebidas.
Volvidas duas semanas, o senhor Capitão resolveu ir verificar o ponto da situação em relação à execução da pena aplicada. Verificou de que todas as árvores sinalizadas para serem abatidas continuavam de pé.
Chamado o grupo, foi-lhes transmitido de que a sentença passava a ter a seguinte redacção: se no prazo de duas semanas todas as árvores não estiverem tombadas a sentença será revertida e substituída por 15 dias de detenção para cada um.
A sentença foi cumprida, mas as árvores permaneceram tombadas no mesmo local até à retirada de Jumbembem da CART 730.
O helicóptero que procedeu à evacuação do Senhor Capitão Rui Romero entrou pelo lado da futura pista e poisou ao fundo da parada junto aos abrigos subterrâneos.
Esta era a situação, em termos de pista de aterragem para aeronaves, quando da retirada da CART 730.
Eu sei, eu vi, eu estava lá.
Tudo o que se passou posteriormente a 17 de julho de 1966.
Eu não sei, eu não vi, eu não mais lá voltei.
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Posição relativa de Jumbembem na estrada Farim-Colina do Norte. © Infogravura Luís Graça & Camaradas da GuinéMote para a Pista
Primeiro interveniente
Deves estar a fazer uma grande confusão... Jumbembem com Iemberem ou outra terriola qualquer terminada em "em" desculpem a cacafonia provocada.
O Artur Conceição é que diz que no tempo dele 1965 em Jumbembem não havia pista e os editores vão na onda e fazem o descritivo da legenda nesse sentido.
Pois segundo reza a História do BArt 733 no dia 2/08/1965 1 GComb/CArt 730 continuou a construção da pista de aterragem e executou melhoramentos diversos no aquartelamento.
Portanto, talvez quando se verificou a morte do Cap Romero 10/07/66 quase um ano depois, talvez a pista já estivesse concluída. Não sei.
Segundo interveniente
O Luís é que escreve o seguinte:
"Segundo a última conversa que tive com o Artur, em Jumbembem não havia pista de aviação. O correio era largado às quintas-feiras, de avioneta. Acabada de chegar a Jumbembem, a CCÇ 1556 [1565] só recebeu o primeiro correio, no domingo, 10 de julho de 1966. Veio diretamente de Farim, por coluna auto."
Atenta no que acima escrevo invocando a História do BArt 733, não sei se a pista estava concluída ou não em 10/07/1966 um ano depois do início da sua construção, mas quase posso afirmar categoricamente que a evacuação que se vê na foto não é da parada de Jumbembem. É isso sim da pista ou do campo de futebol que ficava/fica paralelo à picada Cuntima>Jumbembem>Lamel>Farim e Jumbembem>Canjambari.
Pois a parada estava envolvida pela tabanca antiga que ainda é do meu tempo e fomos nós que a demolimos para construir uma tabanca nova a norte do aquartelamento e paralela à pista.
Donde da parada não se viam as árvores ao fundo nem em 1966 e nem quando fui para lá e só depois da demolição da tabanca velha é que se passou a ver, como se vê na minha foto a preto.
Em 2014
O SITREP era uma mensagem diária de classificação R (Rotina) transmitida ao fim da tarde e que tinha como objectivo enviar o ponto da situação. De um modo geral era transmitida pelo Artur porque o seu envio era sempre por volta da hora do jantar.
Todas as mensagens enviadas a partir de Jumbembem eram emitidas em fonia. Pelo fim da tarde as condições eram mais difíceis. Como o Artur tinha uma das melhores gargantas. Lá teria de ser, o que não significa que a mensagem onde veio este conteúdo tenha sido enviada pelo Artur.
São referidas neste retalho de SITREP 3 acções de elevado significado:
1. Patrulhamentos diários nas imediações da povoação e patrulhas de reabastecimento a FARIM, CANJAMBARI E CUNTIMA.
2. Melhoramentos e construção de edifícios e instalações para a criação de condições de vida e higiene em JUMBEMBEM e CANJAMBARI.
3. Construção da pista de aterragem de JUMBEMBEM e conservação da existente em CANJAMBARI
O terceiro ponto já foi censurado pelo 1.º Cabo António Bastos do Pelotão 953 que esteve em Canjambari.
Agora as mesmas 3 acções, mas com alguma mistura de verdade.
1. Logo pela manhã teve lugar banhinho matinal porque o pessoal da companhia admira a boa higiene, seguido de uma visita à tabanca para apalpar as bajudas.
2. Antes do almoço ainda houve tempo para uma suecada e para uma visita aos arredores para se possível apanhar alguma presa mais distraída.
3. Depois do almoço e após uma merecida sesta e depois de uma suecada, teve lugar um jogo de futebol entre as equipas, Alentejanos e não Alentejanos, que os não Alentejanos ganharam por 3 a zero.
Acreditar naquilo que está escrito nas actividades de Companhias e Batalhões é como acreditar no que está escrito na História de Portugal sobre a Padeira de Aljubarrota, Dona Brites de Almeida que terá matado com a pá de meter o pão no forno sete Castelhanos que se teriam escondido no forno onde Dona Brites cozia o seu pão. Isto para não falar daqueles que ainda acreditam no Pai Natal.
Esta é uma segunda imagem das várias que foram tiradas. Talvez nesta foto dê para identificar melhor a diferença entre o chão da parada e o chão do campo de futebol. De pista de aterragem nem vale a pena falar.
Partindo da “Porta de Armas” do acampamento de Jumbembem e seguindo sempre em linha recta até ao arame farpado entrava-se no espaço previsto para a tal pista.
Para lá do arame farpado do lado esquerdo ficava uma árvore de grande porte que dava frutos pequenos parecidos com figos e que em determinada época foi invadida por bandos de pombos bravos que vieram colher esses mesmos frutos. O Senhor Capitão tinha uma caçadeira que entregou ao Gamito que abateu umas quantas dezenas. Só não comeu pombo de churrasco quem teve preguiça de os depenar.
Do lado direito logo a seguir ao arame farpado ficavam as latrinas da Companhia. Uns 20 ou 30 metros mais adiante ficava uma cova onde eram testadas algumas munições.
Num desses ensaios já na presença do 1.º Sargento da Companhia 1565, aconteceu que uma granada de bazuca foi percutida, mas não saiu. O Primeiro Sargento da CART 730, Maurício Martins Clemente, quando se apercebeu do sucedido arremessou a bazuca para a maior distância que conseguiu, mas não conseguiu evitar ferimentos, não muito graves, mas que o forçaram a regressar a Bissau alguns dias mais cedo.
Entre o posto de rádio e o arame farpado e daí para diante apenas foi construída uma peanha para colocação de uma Metralhadora Antiaérea.
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Nota do editor
Último post da série de 10 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)
sexta-feira, 10 de julho de 2026
Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 10 de Julho de 2026:
Caríssimos camaradas, Administradores e Editores
Completam-se hoje, dia 10 de julho, 60 anos que ocorreu este trágico acontecimento.
Para o efeito que acharem por mais conveniente escrevi o texto em anexo que deixo à elevada consideração.
Um grande Abraço e votos de muita saúde.
Artur António da Conceição
Como era Jumbembem no ano de 1966
Partindo da Cidade de Farim a caminho da Fronteira com o Senegal sensivelmente a meio do caminho ficava o acampamento de Jumbembem na bifurcação com a estrada para Canjambari. Logo à chegada do lado direito ficava o campo de futebol onde os mais habilidosos da Companhia jogavam à bola. Importa recordar o mestre Gamito que a todos dava baile.
No topo do campo de futebol havia o desvio para Canjambari do lado direito e a entrada no acampamento de Jumbembem do lado esquerdo. Logo após a passagem da “Porta de Armas”, não havia porta nem cancela, do lado esquerdo estavam as instalações da “Ferrugem” e afins, e onde antes teria sido a serração de madeiras, a avaliar pela existência de muitos pedaços de serras no local. Ainda do lado esquerdo seguia-se a caserna, a cantina, o refeitório, a cozinha, as arrecadações de material e o paiol. Para o lado direito após a entrada ficava o espaço designado por parada, onde alguns condutores gostavam de fazer as suas gracinhas mesmo arriscando uma enxertia, espaço esse que tinha logo do seu lado direito os abrigos que ficavam junto à estrada. No lado a seguir ficavam as moranças de alguma população, muito reduzida, não mais de 30 moranças. Em frente ficava uma casa de habitação com telhado de quatro águas sensivelmente quadrado com varanda larga cimentada e coberta, a toda a volta da casa.
Na parte da frente da moradia voltada para a parada havia uma pequena escada para acesso à varanda da frente a partir da qual havia do lado direito a entrada para a secretaria e do lado esquerdo a entrada para o Posto Clínico. Na parte traseira da vivenda o acesso à varada era feito por um pequeno degrau, ficando do lado direito o Comando da Companhia e do lado esquerdo as Transmissões, posto de rádio e centro cripto.
A varanda lateral esquerda havia sido fechada e servia de dormitório do pessoal das Transmissões. Imediatamente a seguir à varanda traseira e do lado direito ficava uma arrecadação “irmanamente” dividida para guarda do material de Enfermagem e de Transmissões.
Em frente da varanda lateral direita ficava um terraço em cimento logo seguido da Messe e Dormitório dos Sargentos da Companhia. Foi neste pequeno terraço que vi pela primeira vez a chamada cobra minuto. Não estivera ao lado de Alferes Valdez que deu o alerta e não lhe teria dado a mínima importância. Era uma lagartixa de cor preta com cerca meio metro de comprimento e um centímetro de diâmetro. Naquele tempo ainda prevalecia a lenda, que por aquilo que hoje se conhece é muito diferente da realidade. Afinal o animal é inofensivo.
Pelo fundo das moranças havia uma bomba de balanço para tirar a água de um poço ali existente, essa bomba era a única fonte de abastecimento de água até à abertura de um furo. A partir da abertura do furo passou a haver água com fartura para todos. A bomba ficou praticamente em exclusivo para regar as hortas. As hortas ficavam junto ao ribeiro e eram pertença do Artur e dos Alentejanos entre eles me recordo apenas dos parentes Vaqueirinhos.
Do lado direito da parada havia ainda uma invocação à primeira Companhia a ocupar este espaço. Antes da Companhia 730 esteve neste mesmo local a Companhia de Cavalaria 488 pertencente ao mesmo Batalhão a que pertenceu o nosso Alferes Virgínio Briote. Batalhão de Cavalaria 490.
Entrando na estrada para Cuntima onde esteve sediada a CART 732 e logo após a passagem de um pequeno ribeiro tínhamos do lado direito a pequena bolanha de Jumbembem onde era plantado o arroz, tarefa exclusiva das mulheres grandes. Ao cimo da bolanha ficava um grande barracão que em tempos terá servido de arrecadação dos produtos agrícolas.
A seguir ao barracão do lado esquerdo e do lado direito ficava uma área agrícola de alguns hectares onde eram semeados o milho e a mancarra. Esta tarefa tinha também exclusividade dos homens grandes.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas.
Continuando esta amostra de levantamento, resta apenas uma visita ao Rio de Jumbembem que por ali passa a muito curta distância do aquartelamento de Jumbembem.
Entrando na estrada com destino a Canjambari ficava a cerca 100 metros uma ponte sobre o Rio de Jumbembem ao lado da qual existia um enorme pego onde a pesca era feita à granada de mão. A montante da ponte, por falta de canas de pesca, também a pesca era feita com bala de pistola ou de G3. A perícia da pesca à bala consistia em não acertar no peixe. O deslocamento da água provocado pela bala rebentava a membrana natatória deixando o peixe a boiar. Peixe a boiar é fácil de apanhar.
O Rio de Jumbembem continuava o seu percurso em direcção a Farim onde a poucos quilómetros antes se juntava com o Rio de Canjambari. A partir desta junção o rio passa a ter a designação de Rio Cacheu.
É no cenário acima descrito que no dia dez de julho do ano de mil novecentos e sessenta e seis, pelo meio dia, aconteceu uma das muitas tragédias ocorridas ao longo dos treze anos de guerra em África.
Sobre a referida tragédia está tudo escrito nos posters 2335, 13729 e 13736. [1]
Para terminar quero deixar duas pequenas correções ao perfil do Soldado de Transmissões Condutor Auto 2712/63, Artur António da Conceição.
Foi mobilizado pelo Regimento de Artilharia Ligeira 1 em dezembro de 1964. Embarcou com destino à Guiné a 11 de fevereiro de 1965, a bordo do Navio Timor. Chegou a Bissau a 17 de fevereiro e foi levado para o quartel de Brá onde se encontrava a CCS do Batalhão 733. Depois de ter visto passar por cima da sua cabeça o helicóptero transportando o corpo do soldado Jozé da Graça Bexiga Troncão morto em combate no Olossato durante uma operação efetuada pela CART 730 foi enviado em coluna militar para Bissorã. Mais tarde foi enviado para Jumbembem de onde regressou a Bissau em finais do mês de julho de 1966.
No início de agosto do ano de 1966, a CART 730 regressa a Lisboa deixando na Guiné, qual mãe desnaturada, seis dos seus elementos, entre eles o médico da Companhia 730, Dr. Jaime Afonso. Terá sido o Dr. Afonso, que ao dar um tiro no pé, acabou por levantar a lebre que deu origem a tal situação. O Artur foi forçado a ficar mais seis meses na Guiné, regressando a Lisboa em 14 de fevereiro do ano de 1967, tendo embarcado em Bissau a nove do mesmo mês de fevereiro. Assim sendo, o Artur esteve na Guine de 1965 a 1967 e não de 1964 a 1966 como aparece em algumas publicações.
No segundo caso, quero recordar que passados quatro meses após o regresso da Guiné o Artur ingressou nos quadros da DGTT (Direcção Geral de Transportes Terrestres) em três de julho do ano de 1967.
Durante os 36 anos que desempenhou funções públicas passou por várias categorias: foi Dactilógrafo, Operador, Programador de Aplicações, Técnico Superior de Informática, Assessor de Informática e Assessor de Informática Principal. Quando se aposentou tinha a categoria de Especialista de Informática Grau 3, nível 2, como consta da sua ficha de utente existente na Caixa Geral de Aposentações.
_____________
Notas do editor:
[1] - Além dos posts citados pelo camarada Artur Conceição sobre a trágica morte do Capitão Rui Romero, vd. os posts de:
14 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13734: Tabanca Grande (448): Ana Romero, filha do cap mil inf Rui Romero (Portalegre, 1934 - Jumbembem, 1966)
18 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13757: Consultório militar, de José Martins (5): Processo do cap mil inf Rui Romero, no Arquivo Histórico Militar.... Algumas "dicas" para a Ana Romero
e
31 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14100: In Memoriam (216): Rui Romero (1934-1966), cap mil inf, 1º cmdt da CCAÇ 1565 (1966/68)... Finalmente... a Verdade (Ana Romero)
Caríssimos camaradas, Administradores e Editores
Completam-se hoje, dia 10 de julho, 60 anos que ocorreu este trágico acontecimento.
Para o efeito que acharem por mais conveniente escrevi o texto em anexo que deixo à elevada consideração.
Um grande Abraço e votos de muita saúde.
Artur António da Conceição
Como era Jumbembem no ano de 1966
Partindo da Cidade de Farim a caminho da Fronteira com o Senegal sensivelmente a meio do caminho ficava o acampamento de Jumbembem na bifurcação com a estrada para Canjambari. Logo à chegada do lado direito ficava o campo de futebol onde os mais habilidosos da Companhia jogavam à bola. Importa recordar o mestre Gamito que a todos dava baile.
No topo do campo de futebol havia o desvio para Canjambari do lado direito e a entrada no acampamento de Jumbembem do lado esquerdo. Logo após a passagem da “Porta de Armas”, não havia porta nem cancela, do lado esquerdo estavam as instalações da “Ferrugem” e afins, e onde antes teria sido a serração de madeiras, a avaliar pela existência de muitos pedaços de serras no local. Ainda do lado esquerdo seguia-se a caserna, a cantina, o refeitório, a cozinha, as arrecadações de material e o paiol. Para o lado direito após a entrada ficava o espaço designado por parada, onde alguns condutores gostavam de fazer as suas gracinhas mesmo arriscando uma enxertia, espaço esse que tinha logo do seu lado direito os abrigos que ficavam junto à estrada. No lado a seguir ficavam as moranças de alguma população, muito reduzida, não mais de 30 moranças. Em frente ficava uma casa de habitação com telhado de quatro águas sensivelmente quadrado com varanda larga cimentada e coberta, a toda a volta da casa.
Na parte da frente da moradia voltada para a parada havia uma pequena escada para acesso à varanda da frente a partir da qual havia do lado direito a entrada para a secretaria e do lado esquerdo a entrada para o Posto Clínico. Na parte traseira da vivenda o acesso à varada era feito por um pequeno degrau, ficando do lado direito o Comando da Companhia e do lado esquerdo as Transmissões, posto de rádio e centro cripto.
A varanda lateral esquerda havia sido fechada e servia de dormitório do pessoal das Transmissões. Imediatamente a seguir à varanda traseira e do lado direito ficava uma arrecadação “irmanamente” dividida para guarda do material de Enfermagem e de Transmissões.
Em frente da varanda lateral direita ficava um terraço em cimento logo seguido da Messe e Dormitório dos Sargentos da Companhia. Foi neste pequeno terraço que vi pela primeira vez a chamada cobra minuto. Não estivera ao lado de Alferes Valdez que deu o alerta e não lhe teria dado a mínima importância. Era uma lagartixa de cor preta com cerca meio metro de comprimento e um centímetro de diâmetro. Naquele tempo ainda prevalecia a lenda, que por aquilo que hoje se conhece é muito diferente da realidade. Afinal o animal é inofensivo.
Pelo fundo das moranças havia uma bomba de balanço para tirar a água de um poço ali existente, essa bomba era a única fonte de abastecimento de água até à abertura de um furo. A partir da abertura do furo passou a haver água com fartura para todos. A bomba ficou praticamente em exclusivo para regar as hortas. As hortas ficavam junto ao ribeiro e eram pertença do Artur e dos Alentejanos entre eles me recordo apenas dos parentes Vaqueirinhos.
Do lado direito da parada havia ainda uma invocação à primeira Companhia a ocupar este espaço. Antes da Companhia 730 esteve neste mesmo local a Companhia de Cavalaria 488 pertencente ao mesmo Batalhão a que pertenceu o nosso Alferes Virgínio Briote. Batalhão de Cavalaria 490.
De pé e da esquerda para a direita, o Artur, o Norberto e o Florival. Sentados estão o Mathias e o Campos.
Entrando na estrada para Cuntima onde esteve sediada a CART 732 e logo após a passagem de um pequeno ribeiro tínhamos do lado direito a pequena bolanha de Jumbembem onde era plantado o arroz, tarefa exclusiva das mulheres grandes. Ao cimo da bolanha ficava um grande barracão que em tempos terá servido de arrecadação dos produtos agrícolas.
Arroz na bolanha de Jumbembem. Na parte mais alta cresce milho de grandes dimensões.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas.
Continuando esta amostra de levantamento, resta apenas uma visita ao Rio de Jumbembem que por ali passa a muito curta distância do aquartelamento de Jumbembem.
Entrando na estrada com destino a Canjambari ficava a cerca 100 metros uma ponte sobre o Rio de Jumbembem ao lado da qual existia um enorme pego onde a pesca era feita à granada de mão. A montante da ponte, por falta de canas de pesca, também a pesca era feita com bala de pistola ou de G3. A perícia da pesca à bala consistia em não acertar no peixe. O deslocamento da água provocado pela bala rebentava a membrana natatória deixando o peixe a boiar. Peixe a boiar é fácil de apanhar.
O Rio de Jumbembem continuava o seu percurso em direcção a Farim onde a poucos quilómetros antes se juntava com o Rio de Canjambari. A partir desta junção o rio passa a ter a designação de Rio Cacheu.
É no cenário acima descrito que no dia dez de julho do ano de mil novecentos e sessenta e seis, pelo meio dia, aconteceu uma das muitas tragédias ocorridas ao longo dos treze anos de guerra em África.
Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565
Sobre a referida tragédia está tudo escrito nos posters 2335, 13729 e 13736. [1]
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Para terminar quero deixar duas pequenas correções ao perfil do Soldado de Transmissões Condutor Auto 2712/63, Artur António da Conceição.
Foi mobilizado pelo Regimento de Artilharia Ligeira 1 em dezembro de 1964. Embarcou com destino à Guiné a 11 de fevereiro de 1965, a bordo do Navio Timor. Chegou a Bissau a 17 de fevereiro e foi levado para o quartel de Brá onde se encontrava a CCS do Batalhão 733. Depois de ter visto passar por cima da sua cabeça o helicóptero transportando o corpo do soldado Jozé da Graça Bexiga Troncão morto em combate no Olossato durante uma operação efetuada pela CART 730 foi enviado em coluna militar para Bissorã. Mais tarde foi enviado para Jumbembem de onde regressou a Bissau em finais do mês de julho de 1966.
No início de agosto do ano de 1966, a CART 730 regressa a Lisboa deixando na Guiné, qual mãe desnaturada, seis dos seus elementos, entre eles o médico da Companhia 730, Dr. Jaime Afonso. Terá sido o Dr. Afonso, que ao dar um tiro no pé, acabou por levantar a lebre que deu origem a tal situação. O Artur foi forçado a ficar mais seis meses na Guiné, regressando a Lisboa em 14 de fevereiro do ano de 1967, tendo embarcado em Bissau a nove do mesmo mês de fevereiro. Assim sendo, o Artur esteve na Guine de 1965 a 1967 e não de 1964 a 1966 como aparece em algumas publicações.
No segundo caso, quero recordar que passados quatro meses após o regresso da Guiné o Artur ingressou nos quadros da DGTT (Direcção Geral de Transportes Terrestres) em três de julho do ano de 1967.
Durante os 36 anos que desempenhou funções públicas passou por várias categorias: foi Dactilógrafo, Operador, Programador de Aplicações, Técnico Superior de Informática, Assessor de Informática e Assessor de Informática Principal. Quando se aposentou tinha a categoria de Especialista de Informática Grau 3, nível 2, como consta da sua ficha de utente existente na Caixa Geral de Aposentações.
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Notas do editor:
[1] - Além dos posts citados pelo camarada Artur Conceição sobre a trágica morte do Capitão Rui Romero, vd. os posts de:
14 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13734: Tabanca Grande (448): Ana Romero, filha do cap mil inf Rui Romero (Portalegre, 1934 - Jumbembem, 1966)
18 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13757: Consultório militar, de José Martins (5): Processo do cap mil inf Rui Romero, no Arquivo Histórico Militar.... Algumas "dicas" para a Ana Romero
e
31 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14100: In Memoriam (216): Rui Romero (1934-1966), cap mil inf, 1º cmdt da CCAÇ 1565 (1966/68)... Finalmente... a Verdade (Ana Romero)
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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
Guiné 61/74 - P27570: Retalhos da vida militar (4): Aconteceu há 60 anos, um presépio em Jumbembem (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 24 de Dezembro de 2025:
Aconteceu há 60 anos
No ano de 1965 foram colocados na Companhia de Artilharia 730 do Batalhão de Artilharia 733 dois Soldados de Transmissões Condutor Auto, que viria estar sediada em Jumbembem, de seu nome Artur António da Conceição, o Artur, e Manuel Mendes Almeida Santos, o MC.
Jumbembem, pertencia ao Sector de Farim e ficava a meio caminho entre Farim e Contima na bifurcação da estrada que vinha de Canjambari. Das instalações de Jumbembem fazia parte uma Casa Residencial, que terá sido a habitação de um Industrial de Serração de Madeiras.
O Artur indigitado para fazer a gestão do material de transmissões, localizou a dada altura um baú contendo todas as figuras necessárias para fazer um Presépio. Nas proximidades do Natal do ano de 1965 o Artur desafiou o MC, catequista tal como a Artur, a construir um presépio em Jumbembem usando para o efeito o material encontrado. O Homem sonha, a Obra nasce.
O Batalhão tinha maioritariamente origem no Sul do País, onde determinadas caraterísticas não permitem grande aceitação a eventos de carácter religioso.
Quando o Padre Maia se deslocava a Jumbembem o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC asseguravam as tarefas do auxiliar de Serviços Religiosos.
Se a Missa era por alma do Cachopo e do Baleizão, os dois mortos em combate, a Companhia comparecia em peso, mas se fosse uma Missa para cumprir calendário, só aparecia o Artur e o MC o Senhor Capitão e mais meia dúzia de especialistas.
Permitam-me a imodéstia, mas o Artur teve mais um posto enquanto militar que desempenhou com todo orgulho e aceitação. O Artur foi Decano das Praças da Companhia de Artilharia 730. Para além escala de serviço fazia os autos de destruição, as requisições de material, a manutenção das baterias e ainda tinha tempo para tratar da horta onde cresciam as melhores alfaces e o melhor tomate de Jumbembem.
Artur Conceição
_____________
Nota do editor
Último post da série de 18 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27545: Efemérides (380): No passado dia 10 de Dezembro, a Força Aérea Portuguesa condecorou as nossas Enfermeiras Paraquedistas com a Medalha de Mérito Aeronáutico, Primeira Classe. A cerimónia decorreu no Comando Aéreo, em Monsanto, e contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional
Aconteceu há 60 anos
No ano de 1965 foram colocados na Companhia de Artilharia 730 do Batalhão de Artilharia 733 dois Soldados de Transmissões Condutor Auto, que viria estar sediada em Jumbembem, de seu nome Artur António da Conceição, o Artur, e Manuel Mendes Almeida Santos, o MC.
Jumbembem, pertencia ao Sector de Farim e ficava a meio caminho entre Farim e Contima na bifurcação da estrada que vinha de Canjambari. Das instalações de Jumbembem fazia parte uma Casa Residencial, que terá sido a habitação de um Industrial de Serração de Madeiras.
O Artur indigitado para fazer a gestão do material de transmissões, localizou a dada altura um baú contendo todas as figuras necessárias para fazer um Presépio. Nas proximidades do Natal do ano de 1965 o Artur desafiou o MC, catequista tal como a Artur, a construir um presépio em Jumbembem usando para o efeito o material encontrado. O Homem sonha, a Obra nasce.
Presépio de Jumbembem no Natal de 1965
O Batalhão tinha maioritariamente origem no Sul do País, onde determinadas caraterísticas não permitem grande aceitação a eventos de carácter religioso.
Quando o Padre Maia se deslocava a Jumbembem o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC asseguravam as tarefas do auxiliar de Serviços Religiosos.
Se a Missa era por alma do Cachopo e do Baleizão, os dois mortos em combate, a Companhia comparecia em peso, mas se fosse uma Missa para cumprir calendário, só aparecia o Artur e o MC o Senhor Capitão e mais meia dúzia de especialistas.
Permitam-me a imodéstia, mas o Artur teve mais um posto enquanto militar que desempenhou com todo orgulho e aceitação. O Artur foi Decano das Praças da Companhia de Artilharia 730. Para além escala de serviço fazia os autos de destruição, as requisições de material, a manutenção das baterias e ainda tinha tempo para tratar da horta onde cresciam as melhores alfaces e o melhor tomate de Jumbembem.
Artur Conceição
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Nota do editor
Último post da série de 18 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27545: Efemérides (380): No passado dia 10 de Dezembro, a Força Aérea Portuguesa condecorou as nossas Enfermeiras Paraquedistas com a Medalha de Mérito Aeronáutico, Primeira Classe. A cerimónia decorreu no Comando Aéreo, em Monsanto, e contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional
sábado, 21 de setembro de 2019
Guiné 61/74 - P20165: Controvérsias (139): louvor, em ordem de serviço, do comando do BART 733 (Farim, 1964/66), aos seus militares, pelo pronto, abnegado e eficiente socorro prestado às vítimas do atentado terrorista de 1 de novembro de 1965 (João Parreira, ex-fur mil op esp, CART 730 / BART 733, Bissorã, 1964/65; ex-fur mil cmd, CTIG, Brá, 1965/66)
1. Mensagem do nosso grã-tabanqueiro João Parreira ( ex-fur mil op esp, CART 730 / BART 733, Bissorã, 1964/65; ex-fur mil cmd, CTIG, Brá, 1965/66):
Data: sexta, 20/09/2019 à(s) 19:40
Assunto: o incidente em Farim, em 1/11/1965
Boa tarde Luís Graça,
Não me esqueci do que falámos no almoço da Magnífica Tabanca da Linha [, no passado dia 19,] e fui procurar saber se, além do que publicaste no P20130 do passado dia 7 (*), tinha mais elementos sobre o incidente em Farim em Novembro 1965.
Assim, para o caso de ter interesse, transcrevo uma ordem de serviço do comando do BART 733 (Farim, 1964/66) (**):

Após o incidente ocorrido na Vila de Farim em que perderam a vida alguns nativos (mulheres e crianças) e outros ficaram feridos, é dever deste Comando pôr em destaque o trabalho do pessoal militar em serviço nesta Sede que desde o momento do acontecimento até ao dia seguinte trabalhou afanosamente durante toda a noite socorrendo os feridos, transportando-os aos postos de socorros e enfermarias, iluminando o campo de aviação para que o avião de socorro pudesse vir em auxílio dos feridos, o que se realizou de maneira impecável na opinião dos pilotos, acorrendo ainda a diversos pontos da Vila onde a sua presença se tornava necessária, recolhendo alguns cadáveres, ajudando o pessoal especializado em número muito reduzido, nos tratamentos, ministrando até injecções, colocando pensos e realizando outros trabalhos para os quais não estavam preparados, tudo executado com o máximo de desembaraço, rapidez e sobretudo boa vontade inexcedível, compenetração e espírito de abnegação e de bem servir, contribuindo assim com a sua acção para socorros mais rápidos e evitando perda de maior número de vidas, factos que foram reconhecidos pela população que de certo modo nos manifestou o seu agradecimento e nos retribuiu a solidariedade demonstrada.
Por todos estes motivos, a acção das NT aquarteladas na Sede deste Batalhão, merece ser posta em realce, pelos altos serviços prestados nesta situação de emergência, tudo decorrendo com tal método, ordem, disciplina e sem pânico que mais parecia um serviço previamente planeado e determinado.
Um abraço. João Parreira
(*) Vd. 7 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20130: Controvérsias (133): Os trágicos acontecimentos de Morocunda, Farim, de 1 de novembro de 1965, um brutal ato de terrorismo, cuja responsabilidade material e moral nunca foi apurada por eunda ou Morocunda, Farim: "pessoal bandido não gostava de fulas e mandingas", era o que se ouvia dizer na época... Vi a "cara amassada" do Júlio Pereira... Infelizmente queimaram-me, em Bissau, o rolo de fotografias que tirei, onde estavam os suspeitos, detidos num campo vedado a arame farpado (António Bastos, testemunha dos acontecimentos)ntidade independente: causou sobretudo vítímas civis, que estavam num batuque: 27 mortos e 70 feridos graves
Data: sexta, 20/09/2019 à(s) 19:40
Assunto: o incidente em Farim, em 1/11/1965
Boa tarde Luís Graça,
Não me esqueci do que falámos no almoço da Magnífica Tabanca da Linha [, no passado dia 19,] e fui procurar saber se, além do que publicaste no P20130 do passado dia 7 (*), tinha mais elementos sobre o incidente em Farim em Novembro 1965.
Assim, para o caso de ter interesse, transcrevo uma ordem de serviço do comando do BART 733 (Farim, 1964/66) (**):

Após o incidente ocorrido na Vila de Farim em que perderam a vida alguns nativos (mulheres e crianças) e outros ficaram feridos, é dever deste Comando pôr em destaque o trabalho do pessoal militar em serviço nesta Sede que desde o momento do acontecimento até ao dia seguinte trabalhou afanosamente durante toda a noite socorrendo os feridos, transportando-os aos postos de socorros e enfermarias, iluminando o campo de aviação para que o avião de socorro pudesse vir em auxílio dos feridos, o que se realizou de maneira impecável na opinião dos pilotos, acorrendo ainda a diversos pontos da Vila onde a sua presença se tornava necessária, recolhendo alguns cadáveres, ajudando o pessoal especializado em número muito reduzido, nos tratamentos, ministrando até injecções, colocando pensos e realizando outros trabalhos para os quais não estavam preparados, tudo executado com o máximo de desembaraço, rapidez e sobretudo boa vontade inexcedível, compenetração e espírito de abnegação e de bem servir, contribuindo assim com a sua acção para socorros mais rápidos e evitando perda de maior número de vidas, factos que foram reconhecidos pela população que de certo modo nos manifestou o seu agradecimento e nos retribuiu a solidariedade demonstrada.
Por todos estes motivos, a acção das NT aquarteladas na Sede deste Batalhão, merece ser posta em realce, pelos altos serviços prestados nesta situação de emergência, tudo decorrendo com tal método, ordem, disciplina e sem pânico que mais parecia um serviço previamente planeado e determinado.
Um abraço. João Parreira
__________
Notas do editor:(*) Vd. 7 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20130: Controvérsias (133): Os trágicos acontecimentos de Morocunda, Farim, de 1 de novembro de 1965, um brutal ato de terrorismo, cuja responsabilidade material e moral nunca foi apurada por eunda ou Morocunda, Farim: "pessoal bandido não gostava de fulas e mandingas", era o que se ouvia dizer na época... Vi a "cara amassada" do Júlio Pereira... Infelizmente queimaram-me, em Bissau, o rolo de fotografias que tirei, onde estavam os suspeitos, detidos num campo vedado a arame farpado (António Bastos, testemunha dos acontecimentos)ntidade independente: causou sobretudo vítímas civis, que estavam num batuque: 27 mortos e 70 feridos graves
(**) Último poste da série > 15 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20149: Controvérsias (138): Ainda o atentado terrorista de 1 de Novembro 1965, em Morc
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
Guiné 61/74 - P20151: Controvérsias (139): o atentado terrorista de 1/11/1965, em Farim e a versão da PIDE sobre o "dinheiro sujo"... os alegados 14 contos a pagar pelo crime eram, na época, uma pequena fortuna, era quanto o Júlio Pereira, gerente da sucursal da Ultramarina, pagaria a um camponês de Farim por 14 toneladas de mancarra (!)
Não chegaram a ser pagas as 140 notas de 100 pesos que alegadamente o Júlio [Lopes] Pereira, gerente da sucursal da casa Ultramarina, terá prometido ao renegado milícia Issufo Mané para cometer o hediondo crime de 1 de novembro de 1965... E se tudo não passou de uma falsa confissão, arrancada pela PIDE sob tortura ? 14 contos, na época, na Guiné, era uma pequena fortuna, o equivalente á produção de mancarra... num campo de 23 hectares, 46 campos de futebol...
Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2019)
Citação:
(1965), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_35160 (2019-9-12)Casa Comum
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07071.123.034
Assunto: Dificuldades na fronteira Norte (Senegal) apresentadas pelo Responsável Lourenço Gomes.
Remetente: Lourenço Gomes
Destinatário: Luís Cabral
Data: Quarta, 3 de Março de 1965
Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Relatórios IV 1963-1965.
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral
Tipo Documental: Correspondencia
(Reproduzido com a devida vénia...)
1. Voltamos a publicar esta carta, datilografada, a duas páginas, com data de 3 de março de 1965, dirigida por Lourenço Gomes, representante do PAIGC, em Samine, Casamansa, Senegal, ao Luís Cabral, da Direção do Partido, em Conacri (*)...
Através dela, podemos ficar com uma ideia, bastante clara, das grandes dificuldades, nomeadamente financeiras, por que passavam os responsáveis e os militantes do PAIGC a viver no Senegal...
Lourenço Gomes é o responsável de "toda a fronteira norte", dede 1964, está sozinho, cansado, esgotado, sem meios para resolver todos os problemas que lhe surgem: não tem dinheiro para pagar os "fiados" na farmácia local, não tem medicamentos nem material médico-cirúrgico para socorrer os feridos que vêm da frente Norte, não tem dinheiro para meter gasolina no carro e levar 10 camaradas até Dacar, de acordo com instruções recebidas superiormente....
Lourenço Gomes admite mesmo a hipótese de, inclusive, pedir a substituição no cargo por se sentir impotente para continuar a desempenhar a sua missão, que, no fundo, é a do "bombeiro" que é chamado para apagar todos os fogos... Compara a sua situação, desesperante, com a da fronteira sul, onde há pelo menos 3 responsáveis de zona: em Koundara, em Gaoual, em Boké...
Enfim, a carta é mais um dos seus "desabafos", dirigido à pessoa do Luís Cabral, mas ao mesmo tempo é uma crítica velada ao Aristides Pereira e à sua incapacidade para compreender e minimizar as dificuldades por que ele, Lourenço Gomes, estava a passar. O dinheiro, desde dezembro de 1964, chegava tarde e a conta gotas à delegação do PAIGC em Samine...
Face ao teor desta carta, o mínimo que se pode dizer é que o PAIGC, na época, no 1º trimestre de 1965, dois anos após o início da "luta armada", tinha grandes "dificuldades de tesouraria" (, para além de graves problemas de logística na área da assistência médico-hospitalar)...
Diríamos mesmo, em linguagem de caserna, que não tinha dinheiro para cantar um cego (ou, por outras palavras, e com mais propriedade, para mandar cantar um "didjiu").
2. Pode por isso pôr-se em causa alguns detalhes (importantes) da versão que a PIDE de Farim mandou para Lisboa, através de mensagem rádio (e de que existe cópia no Arquivo Oliveira Salazar, 1908-1974 - Arquivo Nacional Torre do Tombo) (**), a propósito do "atentado terrorista" de 1 de novembro de 1965:
(...) "No dia 1 de Novembro de 1965, cerca das 20 horas, [foi] lançado um engenho explosivo para o meio dos africanos que se encontravam num batuque em Farim. A explosão teria provocado 63 mortos e feridos, na sua maioria mulheres e crianças.
"Foi detida meia centena de pessoas. Confissões obtidas levaram à detenção de um tal Issufo Mané, que declarou pretender atingir militares (?). Para o fazer, teria recebido 14 contos de Júlio Lopes Pereira, o qual, por seu lado, actuara por indicação do chefe da Alfândega de Farim, Nelson Lima Miranda. E este teria vindo a declarar que a bomba fora lançada a mando da direcção do PAIGC (AOS/CO/UL- 50-A, Informações da PIDE, 1965-1966, 86 subdivisões, pasta 2, fls. 636, 637, 638, 641 e 642)."[Citado por Dalila Cabrita Mateus] (**)
A versão que consta da história do BART 733,(***) é ligeiramente diferente no que toca, nomeadamente, à proveniência do "dinheiro sujo":
(...)" O engenho foi fabricado com o fim de ser lançado num batuque ou ajuntamento festivo por um nativo que prestava serviço na Companhia de Milícias [nº 5] [, o soldado Issufe Mané], e que se prontificou a fazer tal trabalho a troco de 14.000$00.
"Foram apreendidos pela PIDE 18500$00, destinados ao PAIGC, donde sairiam os 14000$00 para o autor do lançamento que não [os] chegou a receber porque após o incidente [sic] foram as prisões dos indivíduos suspeitos." (...)
2. Quatorze contos é equivalente hoje, de acordc com o conversor da Pordata, a 5.485,20 € (ou tratando-se de escudos da Guiné, 4936,68 €, dada a diferença cambial real de 10%, na época, entre o escudo da metrópole e o "peso" local)...
Donde terão vindo, então, os tais 14 contos (!) que alegadamente o Júlio Pereira teria recebido, diretamente de Conacri, para subornar o soldado milícia da Companhia de Milícia nº 5, o Issufe Mané ? Dos cofres do PAIGC ou, eventualmente, de coleta feita entre os militantes e simpatizantes do PAIGC de Farim ou até do próprio bolso do "autor moral do atentado" ?...
Em qualquer dos casos, temos de reconhecer que 14 contos era, na época (1965), uma pequena fortuna...Será que o agente da PIDE de Farim tinha a noção do ridículo ? Será que o homem conhecia a realidade da economia local, os preços do mercado, e todas essas coisas elementares que qualquer "agente das secretas" tem a obrigação de conhecer ?
Em 1965, 14 contos era quanto o Júlio Pereira, gerente da sucursal da Sociedade Comercial Ultramarina, do BNU, pagaria a um camponês de Farim por 14 toneladas (!) de mancarra, ou sejam, 14 mil quilos, 140 sacos de 100 quilos, a 1 escudo, 1 peso, por quilo! (***)
Donde terão vindo, então, os tais 14 contos (!) que alegadamente o Júlio Pereira teria recebido, diretamente de Conacri, para subornar o soldado milícia da Companhia de Milícia nº 5, o Issufe Mané ? Dos cofres do PAIGC ou, eventualmente, de coleta feita entre os militantes e simpatizantes do PAIGC de Farim ou até do próprio bolso do "autor moral do atentado" ?...
Em qualquer dos casos, temos de reconhecer que 14 contos era, na época (1965), uma pequena fortuna...Será que o agente da PIDE de Farim tinha a noção do ridículo ? Será que o homem conhecia a realidade da economia local, os preços do mercado, e todas essas coisas elementares que qualquer "agente das secretas" tem a obrigação de conhecer ?
Em 1965, 14 contos era quanto o Júlio Pereira, gerente da sucursal da Sociedade Comercial Ultramarina, do BNU, pagaria a um camponês de Farim por 14 toneladas (!) de mancarra, ou sejam, 14 mil quilos, 140 sacos de 100 quilos, a 1 escudo, 1 peso, por quilo! (***)
Em 1965, a Guiné exportou 15,2 mil toneladas de mancarra, a 4,23 contos por tonelada (contra 40,0 mil em 1961, a 3,17 contos por tonelada)... o que dá uma ideia da margem de lucro dos intermediários (comerciantes locais, casas comerciais, exportadores), a par do dramático decréscimo da produção e da produtividade na primeira metade da década de 1960, na sequência do início e agravamento da guerra...
Em meados da década de 1960, a área cultivada pelos produtores de mancarra atingia os 100 mil hectares, ou seja, um 1/4 do total da área cultivada da província, comprometendo a segurança alimentar da população!... A produtividade, em contrapartida, era muito baixa: 600 kg / ha (2 mil kg /ha em casos excecionais)(****)
O camponês de Farim para ganhar 14 contos, de rendimento bruto, precisava de cultivar mais de 23 hectares de mancarra!... O milícia Issufe Mané, se tivesse chegado a receber os "trinta dinheiros" da sua safadeza, ou sejam, os 14 contos, teria ficado rico!...
14 contos era o valor que um soldado meu, da CCAÇ 12, recebia, em dois anos de guerra, entre meados de 1969 e meados de 1971, no meu tempo: um soldado de 2ª classe, do recrutamento local, ganhava, de pré, 600 escudos (pesos), por mês...
Independentemente do apuramento da verdade sobre os factos ocorridos nesse trágico dia 1 de novembro de 1965, e sobre a autoria moral, política e material do atentado, a "narrativa" da PIDE e do comando do BART 733 continua a merecer-nos todas as reservas (*****)...
Oxalá, Inshallah, Enxalé!... que apareçam outros testemunhos, credíveis, sobre o que o se passou nesses dias de terror e contraterror em Farim, bem como sobre o antes e o depois...Sabemos que houve mais prisões na Região nesse mês de novembro de 1965, não só em Farim, como em Bigene e Cuntima (aqui, o comerciante César de Ramos Fonseca, por exemplo, foi detido e entregue, em Farim, pela CART 732) ... Estes acontecimentos (, incluindo as prisões em massa,) marcaram indelevelmente a história da vila de Farim e das suas gentes... (LG)
PS - Pela exploração do Arquivo Amílcar Cabral (ou do que resta dele), disponível "on line", no portal Casa Comum, desenvolvido em bora hora pela Fundação Mário Soares, não há "indícios" que apontem para a filiação, como militante do PAIGC, do Júlio Lopes Pereira, genro de um dos maiores "colonos" da Guiné, o Benjamim Correia... Nem do Nelson Lima Miranda, antigo utente da Casa dos Estudantes do Império... Eles pertenciam à "pequena burguesia" do território da Guiné, na sua maioria com aspirações e simpatias "nacionalistas", ligados ao comércio e às principais casas comerciais... donde, de resto, vieram alguns dos dirigentes, mais políticos do que operacionais, do PAIGC: Luís Cabral, Aristides Pereira, Elisée Turpin... Muitos destes homens (e mulheres) não eram militantes do PAIGC, eram considerados "reviralistas e comunizantes"...
_____________
Notas do editor:
(*) Vd. poste de 23 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19224: (D)o outro lado do combate (38): Carta de Lourenço Gomes, datada de Samine, 3 de março de 1965, dirigida a Luís Cabral, expondo a dramática situação da farmácia do PAIGC (Jorge Araújo)
Vd. também poste de 25 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19232: PAIGC - Quem foi quem (11): Lourenço Gomes, era uma espécie de "bombeiro" para situações difíceis ... A seguir à independência era um homem temido, ligado ao aparelho de segurança do Estado (Cherno Baldé, Bissau)
(**) Vd. poste de 18 de agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2060: Bibliografia de uma guerra (14): o testemunho de Pedro Pinto Pereira. "Memórias do Colonialismo e da Guerra", de Dalila Cabrita Mateus (Virgínio Briote)
(***) Vd. poste de 10 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20140: Controvérsias (135): as duas noites de terror, em Farim, as de 1 e 2 de novembro de 1965, para as vítímas (mais de uma centena) do atentado terrorista, e para os indivíduos (mais de sessenta, o grosso da elite económica local) detidos e interrogados pela tropa pela PIDE, por "suspeita de cumplicidade"...
(****) 31 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15309: Historiografia da presença portuguesa em África (64): Cem pesos era "manga de patacão" para o camponês guineense, produtor de mancarra... Era por quanto venderia um saco de 100 kg ao comerciante intermediário... Em finais de 1965 o governo de Lisboa garante a compra pela metrópole da totalidade da produção exportável da mancarra guineense e fixa o preço por quilo em 3$60 FOB (Free On Board)
(*****) Último poste da série > 15 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20149: Controvérsias (138): Ainda o atentado terrorista de 1 de Novembro 1965, em Morcunda ou Morocunda, Farim: "pessoal bandido não gostava de fulas e mandingas", era o que se ouvia dizer na época... Vi a "cara amassada" do Júiio Pereira... Infelizmente queimaram-me, em Bissau, o rolo de fotografias que tirei, onde estavam os suspeitos, detidos num campo vedado a arame farpado (António Bastos, testemunha dos acontecimentos)
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Notas do editor:
(*) Vd. poste de 23 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19224: (D)o outro lado do combate (38): Carta de Lourenço Gomes, datada de Samine, 3 de março de 1965, dirigida a Luís Cabral, expondo a dramática situação da farmácia do PAIGC (Jorge Araújo)
Vd. também poste de 25 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19232: PAIGC - Quem foi quem (11): Lourenço Gomes, era uma espécie de "bombeiro" para situações difíceis ... A seguir à independência era um homem temido, ligado ao aparelho de segurança do Estado (Cherno Baldé, Bissau)
(**) Vd. poste de 18 de agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2060: Bibliografia de uma guerra (14): o testemunho de Pedro Pinto Pereira. "Memórias do Colonialismo e da Guerra", de Dalila Cabrita Mateus (Virgínio Briote)
(***) Vd. poste de 10 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20140: Controvérsias (135): as duas noites de terror, em Farim, as de 1 e 2 de novembro de 1965, para as vítímas (mais de uma centena) do atentado terrorista, e para os indivíduos (mais de sessenta, o grosso da elite económica local) detidos e interrogados pela tropa pela PIDE, por "suspeita de cumplicidade"...
(****) 31 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15309: Historiografia da presença portuguesa em África (64): Cem pesos era "manga de patacão" para o camponês guineense, produtor de mancarra... Era por quanto venderia um saco de 100 kg ao comerciante intermediário... Em finais de 1965 o governo de Lisboa garante a compra pela metrópole da totalidade da produção exportável da mancarra guineense e fixa o preço por quilo em 3$60 FOB (Free On Board)
(*****) Último poste da série > 15 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20149: Controvérsias (138): Ainda o atentado terrorista de 1 de Novembro 1965, em Morcunda ou Morocunda, Farim: "pessoal bandido não gostava de fulas e mandingas", era o que se ouvia dizer na época... Vi a "cara amassada" do Júiio Pereira... Infelizmente queimaram-me, em Bissau, o rolo de fotografias que tirei, onde estavam os suspeitos, detidos num campo vedado a arame farpado (António Bastos, testemunha dos acontecimentos)
terça-feira, 10 de setembro de 2019
Guiné 61/74 - P20140: Controvérsias (135): as duas noites de terror, em Farim, as de 1 e 2 de novembro de 1965, para as vítímas (mais de uma centena) do atentado terrorista, e para os indivíduos (mais de sessenta, o grosso da elite económica local) detidos e interrogados pela tropa pela PIDE, por "suspeita de cumplicidade"...
Cabeçalho do jornal "O Democrata", Guiné-Bissau, edição de 13 de novembro de 2014
Guiné > Região do Oio > Mapa de Farim (1954) > Escala de 1/50 mil > Posição relativa de Farim, Nema e Morocunda, bairros de Farim, e Bricama.
Infografias: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2019)
1. Reproduzimos, agora em texto, excertos da História da Unidade - BART 733 (Farim, 1964/66), págs. 116/118, relativos ao massacre da noite do dia 1 de novembro de 1965, em Morocunda, à evacuação imediata dos feridos graves, por um Dakota (que aterrou em Farim em plena noite, à luz de archotes e de faróis de viaturas automóveis, facto então inédito no CTIG), bem como à subsequente detenção e interrogatório pela PIDE e pelos militares de mais de 60 indivíduos da população local, suspeitos de envolvimento no atentado, representando o grosso da "elite económica" de Farim, na época: nada menos do que 8 comerciantes, 4 industriais, 4 escriturários da administração local, 3 enfermeiros, 2 gerentes, 2 empregados comerciais e 2 empregados dos CTT, entre outros (*)
(...) Período de 1 a 30 de novembro [de 1965}:
Secções da CART 731 [mais] secções da CCS do BART 733] transportaram feridos e mortos devido ao rebentamento de um engenho explosivo lançado por elementos subversivos durante um batuque, que se realizava no bairro da Morocunda [, no original, Morucunda,] pelas 21h30
O rebentamento do engenho causou a morte de 27 indivíduos, 70 feridos graves e vários feridos ligeiros, todos civis.
As NT sofreram um ferido grave que assistia ao evento, o qual foi evacuado com os civis mais graves num Dakota no dia [ seguinte,] 2 [ de novembro,] pelas 1h30 para Bissau e 3 feridos ligeiros, sendo dois da CART 731 e um da CCS.
Em virtude deste atentado, foram logo detidos pelas NT 12 indivíduos considerados suspeitos.
(…) O atentado no bairro de Morocunda [, no original, Murucunda,] em Farim, de características inéditas na Província, foi puro acto de terrorismo visando a população civil a fim de suster o regresso da população refugiada no Senegal e fazendo debandar a já existente, ferindo a economia da Província e tornando difícil a vida às NT nas quais se espelharia um estado de confusão que, convenientemente explorado, espalharia o ódio e a desconfiança entre a população que permanecesse em Farim e as NT.
A pequena percentagem de baixas sofridas pelas NT reside no facto de, [na véspera,] no dia 31 de outubro [ de 1965,] se ter realizado a “Operação Canhão” e a maioria do pessoal já estar recolhido na hora do atentado.
Das primeiras averiguações efectuadas pode concluir-se o seguinte: foram lançadas duas granadas de mão, acopladas com duas cargas explosivas, constituindo um único bloco ao qual tinha[m] sido adicionado[s] pregos e lâminas.
O engenho foi fabricado com o fim de ser lançado num batuque ou ajuntamento festivo por um nativo que prestava serviço na Companhia de Milícias [nº 5] [, o soldado Issufe Mané], e que se prontificou a fazer tal trabalho a troco de 14.000$00 [,o equivalente hoje a 5.485,20 €, ou tratando-se de escudos da Guiné, 4936,68 €, dado a diferença cambial real de 10% entre o escudo da metrópole e o "peso" local].
O planeamento para o lançamento do engenho teve lugar na primeira quinzena de setembro [de 1965], quando esteve em Farim, vindo de Conacri, um emissário do Partido, transmitindo então ao Júlio Lopes Pereira, gerente da sucursal da Casa Ultramarina em Farim, instruções para o seu lançamento.
Duas granadas vieram de Conacri, na segunda quinzena de outubro [de 1965], com destino a Bricama, e trouxe-as Paulo Cabral, preso a 28 de outubro na sua canoa com um carregamento de coconote. O mesmo Paulo Cabral deveria trazer, mais tarde, outras duas, para continuar a série de atentados.
O autor da manufatura e composição do engenho foi [o] Júlio Lopes Pereira, chefe na zona, que, juntamente com Jorge João Campos Duarte, dirigia e concentrava as atividades do PAIGC, re que se encontrava diretamente dependente do diretório do PAIGC em Conacri, donde recebia instruções e para onde enviava os seus relatórios.
Foram apreendidos pela PIDE 18500$00, destinados ao PAIGC, donde sairiam os 14000$00 para o autor do lançamento que não [os] chegou a receber porque após o incidente [sic] foram as prisões dos indivíduos suspeitos.
Há muito que o Comando do Batalhão vinha insistindo superiormente para a substituição, a casa Ultramarina, do autor moral do crime, Júlio Lopes Pereira, em virtude de factos ocorridos e relatados que o tornavam fortemente suspeito. Os factos presentes vieram confirmar que a opinão , várias vezes expressa pelo Comando, a respeito do indivíduo referido, não era produto de facciosismo ou animosidade injustificada para com este.
No dia 2(…), um 1 Gr Comb da CART 731 patrulhou a vila de Farim. Na manhã deste dia encontravam-se já detidos 60 indivíduos [, no aquartelamento de Nema] , na sua maioria já de há muito referenciados como colaboradores do IN. Na prisão dos referidos indivíduos colaborou com as NT o agente da PIDE [, de apelido Prosídio (?), e que não era "bafa meigo", segundo o nosso camarada António Bastos, do Pelotão de Caçadores 953, que o conheceu, e que estava em Farim nessa noite, em trânsito para Canjambari], numa atuação rápida e eficiente digna de registo.
De salientar o facto de a maioria dos presos serem civilizados (sic: leia-se, gente de origem europeia e cabo-verdiana), servindo-se das suas atividades normais para propagar a subversão do meio da população nativa (sic). (...)
2. Nas páginas 117/118, vem a lista dos indivíduos detidos, por nome e profissão… Não era "normal" as histórias de unidade, no CTIG, trazerem listas nominais de civis, "suspeitos de atividades subversivas" (**)...
Do total dos 64 detidos, listados, apuramos o seguinte, por profissão e género:
(i) A grande maioria eram homens (91%), mas havia 6 mulheres, 4 domésticas, 1 costureira, e uma Maria da Conceição dos Reis Cabral (, pelo apelido, seria eventualmente esposa de Paulo Cabral, já preso dias antes, em 28 e outubro de 1965);
(ii) a maioria dos detidos eram lavradores (14), comerciantes (8), industriais (4), escriturários da administração de Farim (4) enfermeiros (3), gerentes (2), empregados comerciais (2), empregados dos CTT (2), gente "civilizada" (sic), uma boa parte talvez de origem metropolitana ou cabo-verdiano, como o José Maria Jonet, com exceção dos "lavradores", que tinham nomes "nativos"… [os gerentes eram de duas das casas comerciais mais importantes do território: a Casa Ultramarina, o Júlio Lopes Pereira, e a Casa Gouveia, o Henrique Morais Silva Lopes Ribeiro];
(iii) mas também havia nativos, maioritariamente de etnia mandinga, a avaliar pelos nomes: além dos lavradores (14), foram detidos gilas (4), furadores (2), sapateiros (2) e carpinteiros (2);
(iv) e ainda outros, de diversas profissões: além do soldado milícia (, de seu nome Issufe Mané, acusado de ser o autor material do atentado), um tingidor de panos, um auxiliar de mecânico, um ajudante de motorista, um pintor, um bailarino, um pescador, e ainda um cidadão estrangeiro, senegalês, ou residente em território do Senegal, de nome Iussufe Sané.
Tudo indica que, para estes civis, o dia seguinte, 2 de novembro de 1965 também terá sido de pesadelo. A vida económica de Farim deve trer ficado seriamente afetada por uns tempos. E, muito provavelmente, as vidas destes homens e mulheres não terão sido mais as mesmas. Conseguimos apurar alguns elementos informativos sobre alguns destes detidos... Alguns seriam nacionalistas, simpatizantes ou até militantes, de 2ª ou 3ª linha, do PAIGC. Mas a maioria terá sido a "apanhada a jeito e a eito"... Qual terá sido o seu destino ? Há rumores de que alguns terão sido torturados até à morte ou simplesmente executados pela tropa ou pela PIDE:
(i) José Maria Jonet, comerciante:
Nascido em São João Baptista, Ilha Brava, Cabo Verde, em 26 de dezembro de 1906: falecido em outubro de 1966, em Bissau, com 59 anos de idade [, repare-se: menos de um ano depois da sua prisão, em Farim]: era casado com Georgina do Livramento Quejas, deste 1937.
Fonte: página de Barros Brito, "Genealogia dos cabo-verdianos com ligações de parentesco a Jorge e Garda Brito, a seus familiares e às famílias dos seus descendentes"
(ii) Dionísio Dias Monteiro, comerciante:
(...) "Amílcar Cabral nos dizia que devíamos trabalhar como uma pirâmide. Isto é, o núcleo principal e de contactos permanentes seria pequeno, mas cada um devia ter a sua "Célula". Eu, por exemplo, tendo como Célula a Zona Velha da Cidade de Bissau (pois morava nessa zona), nunca tive contacto com Rafael Barbosa. Só mais tarde vim a saber dele, como sendo um dos principais activistas políticos desde anos 40 e um dos mentores da criação do Partido.
Para além das Células, estabeleceram-se pontos focais, ou seja elos de ligação no interior do País. Por exemplo, o elo de ligação em Farim era o Dionísio Dias Monteiro; em Bolama era Carlos Domingos Gomes (Cadogo Pai); em Catió era Manuel da Silva" (...)
Fonte: Depoimento de Elisée Turpin, cofundador do PAIG.
(iii) Pedro Tertuliano Ramos Salomão, comerciante: encontrámos um nome igual, a única informação disponível é de que terá morrido na Amadora, por volta de 2009; em 2014, constava, em aviso da CM da Amadora, o seu nome, indo-se proceder à exumação dos seus mortais, uma vez ultrapassado o prazo legal da inumação. Fonte: CM da Amadora
(iv) Júlio Lopes Pereira, gerente da Casa Ultramarina, sucursal de Farim, considerado o "autor moral" do atentado, e que terá morrido em novembro de 1965, às mãos da PIDE de Farim:
(...) "Desaparece uma jornalista em Angola, desde Junho de 2012, chamada Milocas Pereira e até hoje, ninguém sabe do seu paradeiro. Tudo indica que o seu desaparecimento esteja estritamente ligada a questões políticas e ligações entre o governo de Angola e governo então deposto na Guiné-Bissau. Desde o seu desaparecimento existiu, um silêncio total por parte das duas entidades, e nunca nenhum deles se pronunciou sobre o desaparecimento desta figura, docente numa Universidade em Luanda, analista de assuntos políticos e filha de um activo militante da luta contra o regime colonial português, morto em Farim nas celas da DGS/PIDE em Novembro de 1965. Os dados sobre a morte de Júlio Lopes Pereira, seu combate e desaparecimento, constam dos arquivos da Torre do Tombo em Portugal" (...).
Fonte: blogue de Paté Cabral Djob, "Conosaba do Porto" > 22 de maio de 2014 > Celina Tavares: "Onde está adra. Milocas Pereira?"]
3. Este será um dos mais tristes e negros episódios da história da guerra do ultramar, da guerra colonial, ou da "guerra de libertação" , como se queira (conforme o "lado da barricada"). Não nos honra como seres humanos, não honra ninguém que tenha estado envolvido nos acontecimentos. Passados mais de 50 anos, ainda é um acontecimento que ninguém quer lembrar. Raramente é referido pelas "cronologias" da guerra, e pelos historiógrafos, de um lado e do outro. Do lado do PAIGC, há um estranho silêncio sobre esse episódio. Do lado do exército português, também há pudor em evocá-lo. O horror ficou, indelevelmente marcado na memória das vítimas, na altura crianças, que lhe sobreviveram. "Mártires do terrorismo": há um monumento e um largo, hoje em Farim, que nos deixam apagar a memória...
Cite-se, por exemplo, o testemunho do sobrevivente e vítima do "ataque terrorista" (sic), Carlos Malam Sani [ou Sané ?], recolhido ainda há três anos atrás pelo jornal de Bissau, 'O Democrata':
(..:) "Um dos momentos marcantes da referida sessão foi quando o velho Carlos Malam Sani, um dos sobreviventes e vítima “do ataque terrorista” de Morkunda de 1 de Novembro de 1965, na altura com doze anos de idade, com uma voz trémula e emocionado, começou a narrar para os estudantes [da Universidade Lusófona de Bissau], na primeira pessoa, como tudo acontecera há 51 anos durante uma manifestação cultural da etnia mandinga “festa de Djambadon”, que decorria no coração de Farim, provocando mais de trinta mortos e vários feridos
graves. (...).
Fonte: O Democrata, Guiné-Bissau > Sene Camará > 2/5/2016 > Universidade Lusófona da Guiné resgata história de Farim.
Algo misterioso (mas abrindo pistas para outras leituras do que se terá passado nessa trágica noite de 1 de novembro de 1965, em Farim), é o comentário, em crioulo, o único de resto até agora, deixado por um tal Romaru, em 16/11/2014 às 00:05, na caixa de comentários à supracitada reportagem de Filomeno Sambú, em 'O Democrata', de 13/11/2014:
(...) lamento, e foi bom para relembrar d mumentos d trestes, ataque saiu d farim bedju a 3 a 4 klrs de morucunda para kem conhese farim sabe aonde fika farim bedju, ataki foi grande inganu, i ponto final cabu aqui ponto final. storia verdadeira; homem sorou quando splicou me mais sorou mesmo foi unico e grande ero que ele cometeu e nunca vai squeser, diz o homem com plavra dele que ele sorou mais e criancas e irmaos civils que tva n este tarde d disgaca" (...)
Este "Romaru" [, pseudónimo de alguém que, cinquenta anos depois (!) ainda não quis dar a cara...] insinua que o autor material do crime (, o soldado milícia da Companhia de Milícia nº 5, um tal Issufe Mané, a crer na versão das autoridades militares, o comando do BART 733), terá agido por engano, ou ter-se-á precipitado, que o alvo não era a população civil mas os militares portugueses, de acordo com as instruções do(s) mandante(s) do crime: "o homem chorou quando me explicou, mas chorou mesmo, foi o único e grande erro que ele cometeu, e que nunca vai esquecer, disse o homem com palavras dele, o que ele chorou mais foram as crianças e os irmãos civis que estavam lá nessa tarde [noite] de desgraça"...
Estranha-se, em todo o caso, que este antigo milícia (, que terá "confessado tudo" à PIDE e aos militares) tenha "sobrevivido aos acontecimentos", admitindo-se que o clima em Farim, de dor, revolta e luto, nessa altura, fosse mais propício ao linchamento do que à justiça...
Enfim, não podemos também ignorar o comentário (, ao poste P 20130), do nosso camarada Manuel Luís Lomba, contemporâneo dos acontecimentos (ex-fur mil, CCAV 703/BCAV 705, Bissau, Cufar e Buruntuma, 1964/66).
(...) "Na altura encontrava-me em Nova Lamego em 'consulta externa' e na messe dizia-se que os dois fornilhos foram mandados lançar por dois comerciantes brancos, que a tropa os liquidou e até se dizia o nome dum sargento do QP que rachou um deles com o machado da sua loja. "
____________
Notas do editor:
(*) Último poste da série > 9 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20135: Controvérsias (134): os trágicos acontecimentos de Morocunda, Farim, em 1 de novembro de 1965: a memória das vítimas e o risco de falsificação da história... Excertos de reportagem do jornal "O Democrata", Bissau, 13/11/2014
(**) Vd. também postes de:
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recortes de imprensa
sábado, 7 de setembro de 2019
Guiné 61/74 - P20130: Controvérsias (133): Os trágicos acontecimentos de Morocunda, Farim, de 1 de novembro de 1965, um brutal ato de terrorismo, cuja responsabilidade material e moral nunca foi apurada por entidade independente: causou sobretudo vítímas civis, que estavam num batuque: 27 mortos e 70 feridos graves
Guiné > Região do Oio > Mapa de Farim (1954) > Escala de 1/50 mil > Posição de Morocunda, bairro de Farim.
Guiné- Bissau > Região de Oio > Farim > Março de 2008 > Cádi ou Cati, uma sobrevivente dos trágicos acontecimentos de 1 de novembro de 1965. O António Paulo Bastos conheceu-a, ma Missão Católica, na altura da sua 3ª viagem à Guiné-Bissau.
Excerto de relatório sobre o período de 1 a 30 de novembro de 1965, inserido na história do BART 733, Bissau e Farim, 1964/66). Cortesia do nosso camarada e grã-tabanquerio António Paulo Bastos,
ex-1º Cabo do Pelotão de Caçadores 953 (Cacheu, Bissau, Farim, Canjambari e Jumbembem, 1964/66) (*).
1. Ainda está envolta em controvérsia a responsabilidade material e moral dos trágicos acontecimentos de 1 de novembro de 1965, em Morocunda [e não Morucunda...], nas imediações de Farim (**), aqui relatados em primeira mão pelo António Bastos, em 2009, em 3 postes (*) mas já referidos antes pelo Virgínio Briote (***)...
Só conhecemos a versão da PIDE e do BART 733, atribuindo a responsabilidade do atentado a "elementos subversivos"... Tanto quanto sabemos, o PAIGC nunca reivindicou a autoria deste horrendo atentado, que teve um balanço trágico, segundo o documento acima reproduzido: 27 mortos e 70 feridos graves, além de feridos ligeiros, entre a população civil; um ferido grave, entre as NT.
Só conhecemos a versão da PIDE e do BART 733, atribuindo a responsabilidade do atentado a "elementos subversivos"... Tanto quanto sabemos, o PAIGC nunca reivindicou a autoria deste horrendo atentado, que teve um balanço trágico, segundo o documento acima reproduzido: 27 mortos e 70 feridos graves, além de feridos ligeiros, entre a população civil; um ferido grave, entre as NT.
CARNIFICINA EM FARIM
1 de Novembro de 1965
Camaradas,
No passado dia 1 [de novembro de 2009] completaram-se 44 anos, sobre um ataque que me marcou profundamente. Tenho duas fotos de uma das sobreviventes e lembrei-me de enviar para serem publicadas no blogue.
Tudo aconteceu em Farim, resultante do rebentamento de um engenho explosivo, em pleno batuque na tabanca do Bairro da Morocunda.
Eram 21h30, quando um elemento da milícia lançou um fornilho (uma granada embebida em pregos, lâminas e bocados de ferros), para o meio do pessoal presente.
27 mortos e 70 feridos graves, uma deles era uma senhora que podem ver nas fotos e que, nessa altura, era ainda uma criança de 10 anos. Chama-se Cáti, mora atualmente em Farim e, em março de 2008, fui encontrá-la numa festa na Missão Católica em homenagem a um grupo de turistas “tugas”, que por ali passaram 2 dias.
Como tudo aconteceu: eu pertencia ao Pelotão Caçadores 953 e estava nesse dia de passagem por Farim, a caminho de Canjambari. No momento da explosão, eu estava junto à porta da caserna do pelotão de morteiros. Logo de seguida, começaram a passar viaturas com corpos em cima, a caminho das enfermarias civil e militar.
O engenho, duas granadas reforçadas com explosivos, pregos e lâminas, foi lançado para o meio do batuque onde era suposto estar muita tropa, o que não aconteceu, porque se tinha feito uma operação e o pessoal estava ainda a descansar.
Pela primeira vez na Guiné um Dakota levantou de noite para proceder à evacuação dos feridos.
No dia seguinte já se encontravam presos na 1.ª Companhia de Caçadores em Nema (Farim), 60 indivíduos entre eles: Pedro Mendes Fernandes, Bernardo da Cunha, Raul Teixeira Barbosa, José Maria Jonet, Dionísio Dias Monteiro, Pedro Tertuliano, Dionísio da Silva Pires (este empregado dos CTT) e muitos mais, todos empregados das repartições públicas e casas comerciais.
As prisões foram feitas pelo agente da Pide, de nome Prodízio e militares da CCS do BART 733. (...)
(...) No relatório falam de um agente da PIDE. O seu nome era Prodísio (nunca mais me esqueci) e, em conversa com a Cáti (ou Cádi, não me lembro exactamente), ela confirmou-me que, depois de recuperada dos graves ferimentos que sofreu, regressou a Farim, tendo sido empregada na casa dele.
(...) Nota da historiadora: Confirmado o incidente, a PIDE, em mensagem por rádio existente nos arquivos de Salazar, afirma que, no dia 1 de Novembro de 1965, cerca das 20 horas, fora lançado um engenho explosivo para o meio dos africanos que se encontravam num batuque em Farim. A explosão teria provocado 63 mortos e feridos, na sua maioria mulheres e crianças.
Foi detida meia centena de pessoas. Confissões obtidas levaram à detenção de um tal Issufo Mané, que declarou pretender atingir militares (?). Para o fazer, teria recebido 14 contos de Júlio Lopes Pereira, o qual, por seu lado, actuara por indicação do chefe da Alfândega de Farim, Nelson Lima Miranda. E este teria vindo a declarar que a bomba fora lançada a mando da direcção do PAIGC.
(AOS/CO/UL- 50-A, Informações da PIDE, 1965-1966, 86 subdivisões, pasta 2, fls. 636, 637, 638, 641 e 642).
1 de Novembro de 1965
Camaradas,
No passado dia 1 [de novembro de 2009] completaram-se 44 anos, sobre um ataque que me marcou profundamente. Tenho duas fotos de uma das sobreviventes e lembrei-me de enviar para serem publicadas no blogue.
Tudo aconteceu em Farim, resultante do rebentamento de um engenho explosivo, em pleno batuque na tabanca do Bairro da Morocunda.
Eram 21h30, quando um elemento da milícia lançou um fornilho (uma granada embebida em pregos, lâminas e bocados de ferros), para o meio do pessoal presente.
27 mortos e 70 feridos graves, uma deles era uma senhora que podem ver nas fotos e que, nessa altura, era ainda uma criança de 10 anos. Chama-se Cáti, mora atualmente em Farim e, em março de 2008, fui encontrá-la numa festa na Missão Católica em homenagem a um grupo de turistas “tugas”, que por ali passaram 2 dias.
Como tudo aconteceu: eu pertencia ao Pelotão Caçadores 953 e estava nesse dia de passagem por Farim, a caminho de Canjambari. No momento da explosão, eu estava junto à porta da caserna do pelotão de morteiros. Logo de seguida, começaram a passar viaturas com corpos em cima, a caminho das enfermarias civil e militar.
A maioria das vítimas eram crianças e, entre elas, estava a Cáti. Foi chamado um Dakota e recorreu-se à iluminação da pista de aterragem, com os faróis das viaturas, para se evacuar aquela gente toda.
Agora, passados estes anos, fui encontrar uma das sobreviventes e, como não podia deixar de ser, estivemos a falar do assunto, tendo ela permitido que eu obtivesse as 2 fotos do seu cicatrizado corpo. (...)
Agora, passados estes anos, fui encontrar uma das sobreviventes e, como não podia deixar de ser, estivemos a falar do assunto, tendo ela permitido que eu obtivesse as 2 fotos do seu cicatrizado corpo. (...)
(ii) Poste P7205, de 1 de novembro de 2010:
(...) Neste fatídico Dia 1 de novembro de 1965, pelas 21:30, horas estava eu de passagem por Farim esperando transporte para Canjambari, quando se dá um rebentamento no Bairro da Morocunda em Farim que causou a morte a 27 pessoas, 70 feridos graves e vários ligeiros, todos civis. As NT sofreram 1 ferido grave e um ligeiro.
(...) Neste fatídico Dia 1 de novembro de 1965, pelas 21:30, horas estava eu de passagem por Farim esperando transporte para Canjambari, quando se dá um rebentamento no Bairro da Morocunda em Farim que causou a morte a 27 pessoas, 70 feridos graves e vários ligeiros, todos civis. As NT sofreram 1 ferido grave e um ligeiro.
O engenho, duas granadas reforçadas com explosivos, pregos e lâminas, foi lançado para o meio do batuque onde era suposto estar muita tropa, o que não aconteceu, porque se tinha feito uma operação e o pessoal estava ainda a descansar.
Pela primeira vez na Guiné um Dakota levantou de noite para proceder à evacuação dos feridos.
No dia seguinte já se encontravam presos na 1.ª Companhia de Caçadores em Nema (Farim), 60 indivíduos entre eles: Pedro Mendes Fernandes, Bernardo da Cunha, Raul Teixeira Barbosa, José Maria Jonet, Dionísio Dias Monteiro, Pedro Tertuliano, Dionísio da Silva Pires (este empregado dos CTT) e muitos mais, todos empregados das repartições públicas e casas comerciais.
As prisões foram feitas pelo agente da Pide, de nome Prodízio e militares da CCS do BART 733. (...)
(...) No relatório falam de um agente da PIDE. O seu nome era Prodísio (nunca mais me esqueci) e, em conversa com a Cáti (ou Cádi, não me lembro exactamente), ela confirmou-me que, depois de recuperada dos graves ferimentos que sofreu, regressou a Farim, tendo sido empregada na casa dele.
No mês de narço de 2008, ao passear com a Cáti em Farim, ela disse-me onde tinha morado o tal PIDE e onde trabalhava.
Sobre relatórios, tenho em meu poder, ainda, os do BART 733 e do BCAV 490, pois foram os batalhões onde estive adido. (...)
Em 2007, o Virgínio Briote já se te tinha referido a este ato de terrorismo, citando o testemunho de um preso político entrevistado pela historiógrafa Dalila Cabrita Mateus (**): Pedro Pinto Pereira, nascido em Bissau, em 1926, preso e desterrado para São Nicolau, Angola (1966-1969), libertado no tempo do Spínola. Será mais tarde preso depois da independência da Guiné-Bissau, acusado de colaboracionismo.
O Virgínio Briote também estava lá nessa altura, em Farim (***)
______________
(...) Que assistira ao fabrico de uma bomba. Quando eles (PIDE) é que tinham deitado uma bomba em Farim, onde mataram muita gente,
(...) (quem lançou a bomba?) Foi a PIDE que mandou, tenho a certeza disso. Lançou a bomba para depois dizer que nós até matávamos africanos. Ali não havia quartéis, só havia casas comerciais, onde era fácil lançar bombas e fugir. Porque é que não lançavam as bombas nos quiosques, frequentados pelos militares portugueses? E iam deitar onde só estava a população? Queriam arranjar pretexto para fazer prisões. Havia, então, uma festa numa tabanca e morreram mais de cem pessoas. Isto passou-se no dia 1 de Novembro de 1965. (...)
Notas do editor:
(*) Vd. postes de:
3 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5203: Efemérides (30): 1 de Novembro de 1965 - Carnificina em Farim (António Paulo Bastos)
4 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5211: Efemérides (32): 1 de Novembro de 1965 – Relatório Oficial da Carnificina em Farim (António Paulo Bastos)
(***) Vd. poste de 18 de agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2060: Bibliografia de uma guerra (14) : o testemunho de Pedro Pinto Pereira. "Memórias do Colonialismo e da Guerra", de Dalila Cabrita Mateus (Virgínio Briote)
1 de novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7205: Efemérides (54): O fatídico dia 1 de Novembro de 1965 (António Bastos)
(**) Último poste da série > 19 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16317: Controvérsias (132): Quem conta um conto, acrescenta-lhe sempre um ponto... A morte do comandante Mamadu Cassamá,e as viaturas blindadas, em Copá, em 7/1/1974 (confrontando duas versões, a do guineense Bobo Keita, "o comandante dos tanques anfíbios" e a do escritor cubano Ramón Pérez Cabrera)
(***) Vd. poste de 18 de agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2060: Bibliografia de uma guerra (14) : o testemunho de Pedro Pinto Pereira. "Memórias do Colonialismo e da Guerra", de Dalila Cabrita Mateus (Virgínio Briote)
(...) (quem lançou a bomba?) Foi a PIDE que mandou, tenho a certeza disso. Lançou a bomba para depois dizer que nós até matávamos africanos. Ali não havia quartéis, só havia casas comerciais, onde era fácil lançar bombas e fugir. Porque é que não lançavam as bombas nos quiosques, frequentados pelos militares portugueses? E iam deitar onde só estava a população? Queriam arranjar pretexto para fazer prisões. Havia, então, uma festa numa tabanca e morreram mais de cem pessoas. Isto passou-se no dia 1 de Novembro de 1965. (...)
(...) Nota da historiadora: Confirmado o incidente, a PIDE, em mensagem por rádio existente nos arquivos de Salazar, afirma que, no dia 1 de Novembro de 1965, cerca das 20 horas, fora lançado um engenho explosivo para o meio dos africanos que se encontravam num batuque em Farim. A explosão teria provocado 63 mortos e feridos, na sua maioria mulheres e crianças.
Foi detida meia centena de pessoas. Confissões obtidas levaram à detenção de um tal Issufo Mané, que declarou pretender atingir militares (?). Para o fazer, teria recebido 14 contos de Júlio Lopes Pereira, o qual, por seu lado, actuara por indicação do chefe da Alfândega de Farim, Nelson Lima Miranda. E este teria vindo a declarar que a bomba fora lançada a mando da direcção do PAIGC.
(AOS/CO/UL- 50-A, Informações da PIDE, 1965-1966, 86 subdivisões, pasta 2, fls. 636, 637, 638, 641 e 642).
(****) Vd. poste de 6 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P14975: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (IX Parte): Mais dois lugares è mesa; Bomba em Farim e Rumo a Barro
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