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domingo, 27 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P27380: Verso & reversos (6): A "fêmea", o "anjo mau", a "Eva", a graça Macute, do conto de Artur Augusto Silva (1912-1983), "O Cativeiro do Bichos" (escrito na Prisão de Caxias, 1966)...



Excerto da BD "O Cativeiro dos Bichos" (*)


1. Comentários so poste P22953 (**):

(i) Tabanca Grande Luís Graça

É interessante verificar que neste conto ou fábula da literatura oral fula, o "anjo mau" que introduziu o pecado, o mal, o conflito, a guerra no mundo seja também uma "Eva", uma "fêmea", a garça Macute (**)..

"Misoginia" das sociedades patriarcais, gerontráticas,  teocráticas, bíblicas ? Afinal da nossa comum cultura judaico-cristã ? ... Misoginia: o grego miseó ("ódio") e gyné ("mulher").

Por outro lado, o rei da selva não é o leão mas o elefante... 

Talvez o Cherno Baldé possa acrescentar algo mais ou contestar a minha "leitura". 

De resto este conto ou fábula, como toda a literatura oral tradicional,  não tem uma leitura "única"...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022 às 10:11:00 WET 

Cherno Baldé,
Kiev, 1989

(ii) Cherno Baldé 

Caro Luis Graça, a tradição africana e fula em particular não menospreza a mulher nem a segrega como alguns estudiosos ocidentais apresentam em seus estudos. 

Os africanos, sobretudo, nas comunidades de cultura ou roupagem isláâmica, onde eu cresci e fui educado, protegem a mulher, poupando-a de muitos trabalhos físicos e da exposição exagerada ao público, ao mesmo tempo que fazem tudo para se proteger da inteligência superior e argúcia das mulheres. 

Mais tarde, ao ler a Bíblia (antigo testamento, livros poéticos e sapienciais) nos capítulos dos Salmos, provérbios, Eclesiástico, Cântico dos Cânticos, e sabedoria do Salomão, percebi a ligação com o fundo da cultura judio-cristã e asiática em geral.

No fanado (ritual de iniciação a vida adulta entre os africanos da região ocidental) a ferramenta mais importante consiste em dotar aos jovens rapazes a técnica de descobrir os malefícios e artimanhas inerentes ao sexo feminino e de capacidades de reconhecer as sementes da discórdia que as mulheres são capazes de semeiar entre irmãos da mesma familia. 

Diziam-nos (em letras musicais): "Se as fronteiras que nos dividem aparentam ser normais, são as mulheres que nos dividem, posto que, se todas as portas (da morança) são idênticas, cada uma limpa a porta da sua casa e cria a sua fronteira". 

Desta forma, a sociedade patriarcal tentava proteger-se da divisão, cada vez, em unidades menores das famílias extensas, que era um dos desafios maiores que as sociedade rurais africanas enfrentavam no limiar dos séculos XIX/XX, com recursos muito escassos do ponto do vista económico e com várias ameaças à coesão social a partir do exterior das comunidades.

A garça Macute do conto, com a ambição de se coroar em rainha da espécie,  representa a mulher pretensiosa que é uma ameaça à ordem estabelecida e à coesão familiar que alimenta a semente da discórdia e da divisão.

Em muitas comunidades e famílias africanas existem práticas e crenças, fundadas ou não, que atestam a "diabolização" da mulher, ligando-a a forças ocultas e/ou ao azar, má sorte para o homem em viagem ou que parte para a guerra.

Lembro-me que na nossa familia as mulheres se escondiam quando os homens partiam para uma viagem difícil ou para a guerra e ai de quem se atrevesse a cruzar-se de frente com o "bravo" à saida da morança e mesmo da aldeia, porque era um mau augúrio.

Infelizmente, por força destas vivências, mesmo não o impondo a ninguém, sou perseguido por estas crenças e não raras vezes sou confrontado com a opção difícil de acreditar ou não acreditar, de recuar ou avançar.  A verdade é que, tenho constatado, o encontro com a mulher, em muitas ocasiões, sempre me deu azar, infelizmente. 

A minha "kontrada", pelos vistos, como dizem os guineenses,  é homem. Faz parte das pancadas ou taras que carreguei desde a infância. (***)

Quanto ao rei dos animais, de facto, é o elefante e não o leão.
É incrível como os contos encerram realidades vividas no passado. O elefante era sempre dotado de paciência, sabedoria e de capacidades extraordinárias de sobrevivência entre os animais em situações extremas de penúria e seca. Mais tarde, através de filmes, documentáros ocidentais, constatei a veracidade daquelas palavras dos antepassados, vendo como os elefantes conseguiam detectar a presença d'água e de a fazer aparecer à superfície salvando a manada e restantes animais de uma morte mais que certa.

Com um abraço amigo,

PS - Queria responder desde ontem, mas fui interrompido pelos acontecimentos lamentáveis que todos já sabem. (Alegada tentativa de golpe de Estado contra o Presidente Umaro Seco Embaló.)  



Vd. poste de 31 de janeiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22951: Antologia (83): O Cativeiro dos Bichos, conto de Artur Augusto Silva (Cabo Verde, 1912 - Guiné-Bissau, 1983), escrito na Prisão de Caxias, em 1966, e que era uma fabulosa fábula que tinha também uma contundente crítica, implícita, à hipócrita política colonial do Governo Português da época

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Guiné 61/74 - P17215: (De) Caras (62): A lavadeira Miriam e o furriel Mamadu... Comentários: da misoginia ao levirato, da tragédia da infertilidade feminina ao sexo em tempo de guerra...



A Miriam e o furriel Mamadu


Foto (e legenda): © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentários ao último poste do Mário Fitas (*)


[Mário Fitas foi cofundador e é "homem grande" da Magnífica Tabanca da Linha, escritor, artesão, artista, além de nosso grã-tabanqueiro da primeira hora, alentejano de Vila Fernando, concelho de Elvas, reformado da TAP, pai de duas filhas e avô; foto atual, à direita]


(i) Valdemar Queiroz:

Belo texto.
Esquisita aquela passagem 'apesar de ser negra Mariam não era nada de desperdiçar' Não percebo por que é que por ser uma mulher negra tinha que ser desperdiçada?  Mas desperdiçada de quê? (Por cá dizemos o mesmo, mas não é por ser branca)
Ainda bem que naquela pequena tabanca (o Mamudu não sabia se fula ou mandinga ?) a população dominava perfeitamente o crioulo e até o Aqueba tocava kora, mas, estranhamente, nada sabia da infertilidade das mulheres.
Venham mais textos
Valdemar Queiroz

5 de abril de 2017 às 18:46

(ii)  Tabanca Grande:

Mário, é um texto "corajoso", em que te expões, dás a cara... Concordo com o Valdemar, é um pouco "infeliz" a tua observação: "apesar de ser negra, Miriam não era nada de desperdiçar"... Tal como aquela outra, mais à frente: "ao fim de quinze dias na Guiné, as negras começam a ficar brancas”...

Bom, a Miriam é uma grande mulher e se ela foi tua lavadeira e amante, foste um tuga, além de "balente", com sorte na guerra e nos amores... Tiro-lhe o quico, a ela e ao Mamadu!

O teu texto é prosa e da boa. É literatura, é ficção, memso com um fundo autobiográfico. E o romancista, o novelista, o contista, não tem que ser "politicamente correto"!... Hoje temos dificuldade em abordar, com frontalidade, as questões de género...

Muitos de nós, na época, "pensavam" o mesmo... De resto, a misoginia (e o racismo) está ainda bem presente em muitos provérbios e outros lugares comuns da língua portuguesa... Aqui vai uma mão chão deles, selecionados por mim:

"A mulher e a mula o pau as cura";

"A raposa tem sete manhas e a mulher a manha de sete raposas";

"Até aos vinte, evita a mulher; depois dos quarenta, foge dela";

"Com mulher louca, andem as mãos e cale-se a boca";

"Da cintura para baixo não há mulher feia";

"De má mulher te guarda e da boa não fies nada" (Séc. XVI);

"Debaixo da manta tanto faz a preta como a branca";

"Desejo de doente, visita de barbeiro, serviço de mulher";

"Dia de Santo André, quem não tem porcos mata a mulher";

"Foge da mulher que sabe latim e da burra que faz ‘im’…";

"Frade e mulher - duas garras do diabo";

"Frade, freira e mulher rezadeira - três pessoas distintas e nenhuma verdadeira";

"Hábito de frade e saia de mulher chega onde quer";

"Guarda-te do boi pela frente, do burro por detrás e da mulher por todos os lados";

"Guarde-vos Deus de moça adivinha e de mulher latina" (Séc.XVI);

"Mulher beata, mulher velhaca";

"Mulher doente, mulher para sempre";

"Mulher não se enceleira: ou se casa ou vai ser freira";

"Mulher se queixa, mulher se dói, enferma a mulher quando ela quer";

"Não provam bem as senhoras que se metem a doutoras";

"O homem deve cheirar a pólvora e a mulher a incenso";

"Para perder a mulher e um tostão, a maior perda é a do dinheiro";

"Para se encontrar o Diabo não se precisa sair de casa";

"Três coisas mudam o homem: a mulher, o estudo e o vinho";

"Vaca triste e pançuda não presta e não muda".

Fonte: Graça (2000) -



Já quanto à Miriam ter sido "herdada" pelo velho sargento de milícias Aqueba Baldé, por morte do marido, temos que ter alguma "cuidado" com a palavra... O nosso Cherno Baldé é capaz de te vir dizer que a lei islâmica proibe que uma mulher seja "herdada"... Mas uma coisa é a lei e outra a prática social dos fulas, há meio século atrás...

Em todo o caso estamos perante um caso de levirato, que remonta ao antigo Testamento: é um tipo de casamento no qual o irmão de um falecido é obrigado a casar com a viúva de seu irmão, e a viúva é obrigada a casar com o irmão do seu falecido marido.

O casamento levirao foi (e continua a ser) praticado por sociedades com uma forte estrutura tribal e clânica em que o casamento fora do clã (exogamia) era proibido. A prática é semelhante à "herança" da viúva, em que os parentes do falecido marido podem decidir com quem a viúva pode casar.

O termo deriva do latim "levir", o "irmão do marido".

5 de abril de 2017 às 20:06
 

(iii) Tabanca Grande: 

"Jarama" ou "djarama" em fula quer dizer obrigado...

O que é que o velho sargento de milícias queria dizer com a frase:
-Jaramááááá… furiel Mamadu qui na bai na mato e cá tem medo, Jaramááááá!...

Mário, levantas outra questão interessante, e aqui pouco abordada, o uso de "mezinhas" contra bala do inimigo... É interessante a tua descrição do ritual a que o furriel Mamadu foi submetido, com o propósito de "fechar o corpo" contra as balas... Era uma prática "animista", corrente na Guiné... Toda a gente usava "amuletos", tanto os cristãos, como os muçulmanos como os animistas, a começar pelo 'Nino' Vieira... E o pobre do Amílcar Cabral, que combatia a prática "irracional" dos amuletos, também devia usá-los... Se calhar as balas da Kalash do "traidor" Inocêncio Kano não lhe teriam entrado no corpo, na noite de 20 de janeiro de 1973...

5 de abril de 2017 às 20:46

(iv)  Tabanca Grande

O que diz a Bíblia, Antigo Testamento, sobre o levirato:

Deuterónimo, 25: 5-10

5. Se alguns irmãos habitarem juntos, e um deles morrer sem deixar filhos, a mulher do defunto não se casará fora com um estranho: seu cunhado a desposará e se aproximará dela, observando o costume do levirato.

6.Ao primeiro filho que ela tiver se porá o nome do irmão morto, a fim de que o seu nome não se extinga em Israel.

7.Porém, se lhe repugnar receber a mulher do seu irmão, essa mulher irá ter com os anciães à porta da cidade e lhes dirá: meu cunhado recusa perpetuar o nome de seu irmão em Israel e não quer observar o costume do levirato, recebendo-me por mulher.

8.Eles o farão logo comparecer e o interrogarão. Se persistir em declarar que não a quer desposar,

9.sua cunhada se aproximará dele em presença dos anciães, tirar-lhe-á a sandália do pé e lhe cuspirá no rosto, dizendo: eis o que se faz ao homem que recusa levantar a casa de seu irmão!

10.E a família desse homem se chamará em Israel a família do descalçado."

Deuteronômio, 25 - Bíblia Católica Online

Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/deuteronomio/25/

5 de abril de 2017 às 20:57

(v)  Tabanca Grande:

Mário, a tua "Miriam" dá... pano para mangas!... Levantas outra questão que é uma tragédia em África, a da infertilidade "feminina"...

A cultura africana, e nomeadamente subsariana, impõe aos casais uma prole numerosa. Os filhos são a principal riqueza de um homem. E o papel da mulher é a reprodução. A mulher infértil (... não há homens infertéis!) é vítima de discriminação, estigmatizados, marginalização social, rejeição. 

Sem um filho biológico, a mulher cai facilmente no círculo vicioso da pobreza e da marginalização... Na África subsariana, a proporção dos casais inférteis é muito alta (quase um terço dos indivíduos em idade fértil, segundo estima da OMS - Organização Mundial de Saúde.

Miriam, provavelmente, também sentia culpa e vergonha por não ter filhos... E desejo de os ter, mesmo que fosse um "filho do vento"... Mal sabia ela que os não podia ter...

Mário, é comovente o desfecho da história:

(...) Regresso junto ao pântano, fizeram conversa giro com aquele como fundo. O furriel esquecendo o carregamento e camaradas sentiu-se na obrigação de partilhar alguma coisa com aquela mulher-criança. O corpo de Miriam estremeceu, sentiu algo de novo que nunca tinha conhecido e a lavadeira chorou. As causas ninguém as saberá. No espírito e corpo Miriam nunca mais esqueceria aquele momento em que não houve cor, raça ou fêmea, mas simplesmente foi considerada mulher a corpo inteiro, a quem a sua própria crença e raça tinham castrado, retirando-lhe parte desse estatuto de um ser livre. E acreditou que teria sido o momento do seu sonho. Pelo contrário o militar sentiu-se safado e triste por utilizar os seus instintos brincando com os sentimentos de um ser humano.

Perdoa, mulher negra, mas o teu sonho não será realizado nem por branco safado nem por outro homem qualquer. Serás eternamente uma flor que não transformará a sua polinização em fruto. (...)
(**)

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Notas do editor: