sexta-feira, 7 de abril de 2017

Guiné 61/74 - P17215: (De) Caras (70): A lavadeira Miriam e o furriel Mamadu... Comentários: da misogenia ao levirato, da tragédia da infertilidade feminina ao sexo em tempo de guerra...



A Miriam e o furriel Mamadu


Foto (e legenda): © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentários ao último poste do Mário Fitas (*)


[Mário Fitas foi cofundador e é "homem grande" da Magnífica Tabanca da Linha, escritor, artesão, artista, além de nosso grã-tabanqueiro da primeira hora, alentejano de Vila Fernando, concelho de Elvas, reformado da TAP, pai de duas filhas e avô; foto atual, à direita]


(i) Valdemar Queiroz:

Belo texto.
Esquisita aquela passagem 'apesar de ser negra Mariam não era nada de desperdiçar' Não percebo por que é que por ser uma mulher negra tinha que ser desperdiçada?  Mas desperdiçada de quê? (Por cá dizemos o mesmo, mas não é por ser branca)
Ainda bem que naquela pequena tabanca (o Mamudu não sabia se fula ou mandinga ?) a população dominava perfeitamente o crioulo e até o Aqueba tocava kora, mas, estranhamente, nada sabia da infertilidade das mulheres.
Venham mais textos
Valdemar Queiroz

5 de abril de 2017 às 18:46

(ii)  Tabanca Grande:

Mário, é um texto "corajoso", em que te expões, dás a cara... Concordo com o Valdemar, é um pouco "infeliz" a tua observação: "apesar de ser negra, Miriam não era nada de desperdiçar"... Tal como aquela outra, mais à frente: "ao fim de quinze dias na Guiné, as negras começam a ficar brancas”...

Bom, a Miriam é uma grande mulher e se ela foi tua lavadeira e amante, foste um tuga, além de "balente", com sorte na guerra e nos amores... Tiro-lhe o quico, a ela e ao Mamadu!

O teu texto é prosa e da boa. É literatura, é ficção, memso com um fundo autobiográfico. E o romancista, o novelista, o contista, não tem que ser "politicamente correto"!... Hoje temos dificuldade em abordar, com frontalidade, as questões de género...

Muitos de nós, na época, "pensavam" o mesmo... De resto, a misogenia (e o racismo) está ainda bem presente em muitos provérbios e outros lugares comuns da língua portuguesa... Aqui vai uma mão chão deles, selecionados por mim:

"A mulher e a mula o pau as cura";

"A raposa tem sete manhas e a mulher a manha de sete raposas";

"Até aos vinte, evita a mulher; depois dos quarenta, foge dela";

"Com mulher louca, andem as mãos e cale-se a boca";

"Da cintura para baixo não há mulher feia";

"De má mulher te guarda e da boa não fies nada" (Séc. XVI);

"Debaixo da manta tanto faz a preta como a branca";

"Desejo de doente, visita de barbeiro, serviço de mulher";

"Dia de Santo André, quem não tem porcos mata a mulher";

"Foge da mulher que sabe latim e da burra que faz ‘im’…";

"Frade e mulher - duas garras do diabo";

"Frade, freira e mulher rezadeira - três pessoas distintas e nenhuma verdadeira";

"Hábito de frade e saia de mulher chega onde quer";

"Guarda-te do boi pela frente, do burro por detrás e da mulher por todos os lados";

"Guarde-vos Deus de moça adivinha e de mulher latina" (Séc.XVI);

"Mulher beata, mulher velhaca";

"Mulher doente, mulher para sempre";

"Mulher não se enceleira: ou se casa ou vai ser freira";

"Mulher se queixa, mulher se dói, enferma a mulher quando ela quer";

"Não provam bem as senhoras que se metem a doutoras";

"O homem deve cheirar a pólvora e a mulher a incenso";

"Para perder a mulher e um tostão, a maior perda é a do dinheiro";

"Para se encontrar o Diabo não se precisa sair de casa";

"Três coisas mudam o homem: a mulher, o estudo e o vinho";

"Vaca triste e pançuda não presta e não muda".

Fonte: Graça (2000) -

http://www.ensp.unl.pt/luis.graca/textos76.html

Já quanto à Miriam ter sido "herdada" pelo velho sargento de milícias Aqueba Baldé, por morte do marido, temos que ter alguma "cuidado" com a palavra... O nosso Cherno Baldé é capaz de te vir dizer que a lei islâmica proibe que uma mulher seja "herdada"... Mas uma coisa é a lei e outra a prática social dos fulas, há meio século atrás...

Em todo o caso estamos perante um caso de levirato, que remonta ao antigo Testamento: é um tipo de casamento no qual o irmão de um falecido é obrigado a casar com a viúva de seu irmão, e a viúva é obrigada a casar com o irmão do seu falecido marido.

O casamento levirao foi (e continua a ser) praticado por sociedades com uma forte estrutura tribal e clânica em que o casamento fora do clã (exogamia) era proibido. A prática é semelhante à "herança" da viúva, em que os parentes do falecido marido podem decidir com quem a viúva pode casar.

O termo deriva do latim "levir", o "irmão do marido".

5 de abril de 2017 às 20:06
 

(iii) Tabanca Grande: 

"Jarama" ou "djarama" em fula quer dizer obrigado...

O que é que o velho sargento de milícias queria dizer com a frase:
-Jaramááááá… furiel Mamadu qui na bai na mato e cá tem medo, Jaramááááá!...

Mário, levantas outra questão interessante, e aqui pouco abordada, o uso de "mezinhas" contra bala do inimigo... É interessante a tua descrição do ritual a que o furriel Mamadu foi submetido, com o propósito de "fechar o corpo" contra as balas... Era uma prática "animista", corrente na Guiné... Toda a gente usava "amuletos", tanto os cristãos, como os muçulmanos como os animistas, a começar pelo 'Nino' Vieira... E o pobre do Amílcar Cabral, que combatia a prática "irracional" dos amuletos, também devia usá-los... Se calhar as balas da Kalash do "traidor" Inocêncio Kano não lhe teriam entrado no corpo, na noite de 20 de janeiro de 1973...

5 de abril de 2017 às 20:46

(iv)  Tabanca Grande

O que diz a Bíblia, Antigo Testamento, sobre o levirato:

Deuterónimo, 25: 5-10

5. Se alguns irmãos habitarem juntos, e um deles morrer sem deixar filhos, a mulher do defunto não se casará fora com um estranho: seu cunhado a desposará e se aproximará dela, observando o costume do levirato.

6.Ao primeiro filho que ela tiver se porá o nome do irmão morto, a fim de que o seu nome não se extinga em Israel.

7.Porém, se lhe repugnar receber a mulher do seu irmão, essa mulher irá ter com os anciães à porta da cidade e lhes dirá: meu cunhado recusa perpetuar o nome de seu irmão em Israel e não quer observar o costume do levirato, recebendo-me por mulher.

8.Eles o farão logo comparecer e o interrogarão. Se persistir em declarar que não a quer desposar,

9.sua cunhada se aproximará dele em presença dos anciães, tirar-lhe-á a sandália do pé e lhe cuspirá no rosto, dizendo: eis o que se faz ao homem que recusa levantar a casa de seu irmão!

10.E a família desse homem se chamará em Israel a família do descalçado."

Deuteronômio, 25 - Bíblia Católica Online

Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/deuteronomio/25/

5 de abril de 2017 às 20:57

(v)  Tabanca Grande:

Mário, a tua "Miriam" dá... pano para mangas!... Levantas outra questão que é uma tragédia em África, a da infertilidade "feminina"...

A cultura africana, e nomeadamente subsariana, impõe aos casais uma prole numerosa. Os filhos são a principal riqueza de um homem. E o papel da mulher é a reprodução. A mulher infértil (... não há homens infertéis!) é vítima de discriminação, estigmatizados, marginalização social, rejeição. Sem um filho biológico, a mulher cai facilmente no círculo vicioso da pobreza e da marginalização... Na África subsariana, a proporção dos casais inférteis é muito alta (quase um terço dos indivíduos em idade fértil, segundo estima da OMS - Organização Mundial de Saúde.

Miriam, provavelmente, também sentia culpa e vergonha por não ter filhos... E desejo de os ter, mesmo que fosse um "filho do vento"... Mal sabia ela que os não podia ter...

Mário, é comovente o desfecho da história:

(...) Regresso junto ao pântano, fizeram conversa giro com aquele como fundo. O furriel esquecendo o carregamento e camaradas sentiu-se na obrigação de partilhar alguma coisa com aquela mulher-criança. O corpo de Miriam estremeceu, sentiu algo de novo que nunca tinha conhecido e a lavadeira chorou. As causas ninguém as saberá. No espírito e corpo Miriam nunca mais esqueceria aquele momento em que não houve cor, raça ou fêmea, mas simplesmente foi considerada mulher a corpo inteiro, a quem a sua própria crença e raça tinham castrado, retirando-lhe parte desse estatuto de um ser livre. E acreditou que teria sido o momento do seu sonho. Pelo contrário o militar sentiu-se safado e triste por utilizar os seus instintos brincando com os sentimentos de um ser humano.

Perdoa, mulher negra, mas o teu sonho não será realizado nem por branco safado nem por outro homem qualquer. Serás eternamente uma flor que não transformará a sua polinização em fruto. (...) (**)

_________________

Notas do editor:


14 comentários:

Anónimo disse...


"Apesar de ser branco" custa-me a aceitar o subjacente racismo de muitos dos jovens militares das áfricas guerreiras.
Frustrados nos seus recalcamentos de regras e costumes caseiros feitos, encontravam na negra a terra prometida.
Pobrezinho,muito pobrezinho.

Rui Santos Lima

Tabanca Grande disse...

Para se evitar leituras apressadas e moralistas do capº X ("Miriam") do livro (inédito) "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra", 2ª versão, 2010, 99 pp.), da autoria de Mário Vicente, convém esclarecer o seguinte:

(i) o Furriel "Vagabundo" e depois "Mamadu" é um "alter ego" do autor;
(ii) embora com um fundo autiográfico, o livro tem de ser visto como um romance, ou uma história de vida romanceada;
(iii) como em todas as obras literárias, a excessiva atenção do leitor para um detalhe (a árvore) pode levar facilmente à perda da visão de conjunto (a floresta).

Esta história (e a sua personagem principal) é um "puzzle", feito com as "peças" de cada de nós... Saibamos lê-la e analisá-la sem "preconceitos"... E, para já, sublinhe-se o talento literário do autor. "Mário Vicente" é o nome literário de Mário Fitas, o nosso querido grã-tabanqueiro de longa data.






5 DE ABRIL DE 2017
Guiné 61/74 - P17209: Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra", 2ª versão, 2010, 99 pp.) - XIX Parte: Cap X - Miriam quer fazer cumbersa giro com furiel Mamadu

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2017/04/guine-6174-p17209-pre-publicacao-o.html

Tabanca Grande disse...

È bom lembrar aqui, mais uma vez, como nasceu este livro, agora em segunda versão... O autor explica-nos na introdução, que reproduzimos. (O livro tem uma 1ª versão impressa; Putos, gandulos e guerra / Mário Vicente, ed. de autor, 2000, 174 p.):

Não era imaginável, quando em Setembro de 1997, ao sair da imponente St. Romboudskathedraal em Mechelen (Malines), que nessa noite, ao entrar no Hotel Molenhof em Erpe-Mer, se processaria mais uma transmutação na vivência deste errático ornitófilo, criador de passeriformes, (inseparáveis) Love Birds.

Efectivamente, quando o sono se foi, e instintivamente a mão pegou na pena rabiscando o papel timbrado do hotel, as palavras brotaram do pensamento nascente, consubstanciando o escrito: “Recordar Vivendo”.

Ficou descrita, nesse pequeno e atormentado texto, a promessa de escrever até que as mãos doessem e a mente não atraiçoasse.

Sem dormir, fazendo uma directa, até à bela e antiquíssima Bruges, finalizando em Knokke no Mar do Norte. Foi pois, viajando com três simpáticos jovens, “doentes” ornitófilos também, que entre a narração de anedotas, aventuras e desventuras deste já velho alentejano (maltês), germinou a ideia semente de juntar as velhas folhas, agendas e outros escritos, à já um pouco esclerosada memória. Assim nasceu a hipótese deste livro. Sem qualquer pretensão literária, será simplesmente uma conversa quase íntima, viajando pelo passado. Tentando nestas mal alinhavadas palavras, descrever o sinuoso percurso de um rapaz da planície que se vê envolvido na interrogativa vivência e análise das profanas e espirituais coisas.
Durante dezoito anos, dos seis aos vinte e quatro, na metamorfoseante transfiguração, trilhando a trilogia de puto, gandulo e guerreiro, ele vai entrar na observação directa deste mundo cão, enjaulado no canil da vida.

Na sua aldeia da planície, por terras deste velho Portugal, enterrado na lama das bolanhas e pântanos, embrenhado nas matas e capim da Guiné.

Assim nasceu “ Putos, Gandulos e Guerra”.


Mário Vicente

Tabanca Grande disse...

Estas situações não eram tão invulgares quanto isso: as propostas "ousadas" de algumas mulheres, como a Miriam, e os "problemas de consciência" (para não dizer os "temores"...) dos "assediados"...Mas, é óbvio, que isto não era a "regra", era a "exceção"... As mulheres na Guiné estavam, então, numa dupla situação de "inferioridade", económica e social... Vale a pena reproduzir e reler este excerto... As barreiras entre os "tugas" e as mulheres guineenses eram muitas, a começar pelas relações assimétricas de poder, a língua, a cultura, o estatuto, a religião...

– Furiel!... tu é Mamadu, home balente, bó na bai na mato e cá tem medo, Miriam gosta de furiel. Eu sabo tu é branco, a mim preto! Miriam quer fazer cumbersa giro com furiel Mamadu!

Vagabundo poderia esperar tudo menos isto! Grande morteirada! Havia normas e conceitos que, como graduado responsável, tinha de respeitar. Além do mais, Miriam, para todos os efeitos, era mulher do sargento da milícia e tudo traria problemas que teriam reflexos em toda a CCAÇ 763.

Henrique Cerqueira disse...

Na primeira publicação não comentei pelo simples facto de ter receio de ser injusto na minha apreciação em relação a certas frases do texto que induzem hoje em dia a palavras "chavões"racistas.
No entanto eu lendo com mais atenção verifico que é errado pensar nesses moldes,isto porque no meu humilde entender existem vários factores na época que deita por terra essas ideias de racismo. Conforme o Luís lembra e muito bem
" para um detalhe (a árvore) pode levar facilmente à perda da visão de conjunto (a floresta)."
Estes factos embora aqui no texto um pouco "romanceados" existiram com muita frequência e com maior incidência com militares graduados ( creio eu que seria mais atractivo para as mulheres e familiares),tal como os metropolitanos escolhiam muitas vezes as suas namoradas baseado nos interesses materiais.Acho que se entende não?
Depois eu quero uma vez mais lembrar aqui que uns dias antes de embarcar para a Guiné nós tivemos uma espécie de "Workshop como hoje se diz"em que foi passado umas projecções em que mostravam as coisas belas da Guiné e seus habitantes em que usavam e abusavam de fotos das mulheres belas e negras de peito firme.E claro que essas imagens tiveram grande influência no imaginário de todos nós. Por tal era muito natural que nos primeiros meses de Guiné sempre que víamos uma rapariga de seios empinados e totalmente expostos a nossa imaginação funcionava a mil á hora. E depois eu acredito mesmo que muitos dos nossos camaradas se apaixonassem de verdade pelas suas lavadeiras assim como existiram mulheres Guineenses que de igual modo se apaixonaram pelos militares.
Hoje em dia é muito mais fácil sermos críticos em relação a certos comportamentos que os militares tiveram nas colónias durante o período de comissão militar...Mas caros Camaradas foram tantos e tantos os factores que nessa altura nos influenciavam.A nossa própria formação não era aquela que hoje em dia é proporcionada, que apelidar de racismo certas frases do texto é mesmo " detalhar (a árvore) e esquecer o resto da floresta.
Concluindo : Mário Fitas eu gostei do teu texto e não acredito que o "furriel Mamadu"seja racista.
Um abraço a todos
Henrique Cerqueira

Tabanca Grande disse...

Hnerique, tu, que tiveste a tua companheira, branca, contigo, alguns meses, na Guiné, mais o teu filho, e ao mesmo tempo conviveste com camaradas do recrutamento local, guineenses. de várias étnias, que compunham a tua CCAÇ 13, és um homem "sábio" para nos ajudar a ler nas entrelinhas... Um abraço. LG

alma disse...

Mário Fitas, escreve e bem ficção, sobre factos passados há mais de 50 anos.Os valores de ontem, não são os de hoje..Relatar esse tempo, não se compadece, com " o políticamente correcto"...Abraço J.Cabral

Juvenal Amado disse...

Penso que o escritor faz um retrato daquela época
O Mário descreve numa ficção um tempo em que a maioria hera assim. Uns mais e outros menos, todos fomos um pouco racistas embora pensássemos que não. Fazíamos às bajudas o que nunca nos passava pela a ideia fazer cá a uma branca.

Lembro-me do meu camarada Carlos Filipe ter levado um valente estalo após ter-se insurgido contra os abusos praticados nas lavandeiras há porta do quartel.

Numa ficção o escritor veste uma pele, que pode ser boa ou má tendo em conta o ditames de cada época. Quem não leu já um livro ou uma estória em que o escritor, assume uma personagem que é o contrário daquilo que é ou sente?
Criticar o que o livro diz nunca pode ser uma critica a quem o escreve, uma vez que este se limita a um relato ficcional e não deve ser julgado à luz do que a sociedade pensa hoje.

Mas é bom haver da parte dos camaradas este discurso anti racista num tempo em que o racismo cresce no seio das nossas sociedades. Leio vezes sem conta discursos, que expressam nas redes sociais as suas deformações cívicas e falta de cidadania.

Um abraço para todos

Anónimo disse...

Avante,homens sábios nas entrelinhas.
Porque os adjetivos lá vieram e,muitos.
Mas racistas nós?
Uma boa dúzia e meia de militares terá tido a oportunidade de ouvir, à entrada da sala de jantar da messe de oficiais de Bissau, no início dos anos setenta,um grupo de senhoras brancas que ,com voz elevada para serem ouvidas, comentavam criticamente o facto de um oficial dos comandos africanos se ter feito acompanhar no local por 3 senhoras africanas.
Racismo social? Mais social que rácico?

Adjetivos.Adjetivos.Entrelinhas.Entrelinhas.
Teriam estas exaltadas mulheres brancas também "mama firmada"?

Depois de tantos anos olvidei o detalhe!

Rui Santos Lima

Anónimo disse...

Caro ex-Alferes Cabral.

Pilares do lusotropicalismo actualizados em politicamente correcto?
Os valores de ontem e os de hoje?

A ter sido o comando de um destacamento na Beira ou Trás-os-Montes seriam outras as regras sócio-morais?

Rui Santos Lima

Carlos Vinhal disse...

Diz o Juvenal: Fazíamos às bajudas o que nunca nos passava pela a ideia fazer cá a uma branca.
Digo eu amigo Juvenal, fala por ti. Prezo-me de, apesar do meu racismo latente, segundo o que estou a ler, nunca ter maltratado nenhum compatriota guineense, mulher, homem ou criança, porque sempre os achei semelhantes a mim. Ainda hoje recordo com ternura a minha lavadeira, a Binta, uma lindíssima bajuda mandinga. Tento imaginá-la, se ainda for viva, já com os seus sessentas e alguns anos.
Tanto quanto sei, o pessoal da minha Companhia nunca criou problemas à população de Mansabá, onde estivemos 22 meses e 1 semana, que aquando da saída dos dois últimos pelotões para Bissau, veio para a rua em peso para se despedir de nós.
Lembro aqui o maior embaixador da CART 2732 junto da tabanca, o Soldado Alfredo, que ocupava os seus tempos livres convivendo com a população, e falava crioulo como poucos brancos.
Já agora, aqui fica a minha opinião de que quem tratava mal os guineenses, trataria mal os portugueses de Portugal, se sobre estes tivesse alguma posição de superioridade relativa. Quanto a maltratar mulheres, é ver a quantidade delas já mortas este ano pelos portugueses "civilizados", ou consultar as estatísticas dos transactos. Vergonhoso.
Carlos Vinhal
Leça da Palmeira

alma disse...
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Tabanca Grande disse...

"Uma boa dúzia e meia de militares terá tido a oportunidade de ouvir, à entrada da sala de jantar da messe de oficiais de Bissau, no início dos anos setenta,um grupo de senhoras brancas que, com voz elevada para serem ouvidas, comentavam criticamente o facto de um oficial dos comandos africanos se ter feito acompanhar no local por 3 senhoras africanas."

O Rui Santos Lima terá sido, deduzo eu, um dos militares que assistiu a essa cena do grupo de senhoras brancas, na messe de oficiais em Bissau, o famoso "Biafra", protestando em voz alta contra a presença de senhoras africanas que acompanhavam um oficial dos comandos... Trata-se, portanto, de ex-camarada nosso, que terá estado no TO da Guiné no início dos anos 70...

Rui, obrigado, pelo seu contributo para a compreensão de um fenómeno complexo, que não tem leituras lineares... Racismo, misogenia, homofobia, etnocentrismo, etc. não são atitudes sociais fáceis de analisar e muito menos de prevenir e combater.

Não gosto de pôr chavões nos povos: é uma armadilha fazer comparações do género: "Os portugueses são mais racistas do que os alemães ?"... De que portugueses e alemães estamos a falar ? Em que época ?

Q Por outro lado, o termo "racismo" é hoje um conceito que tem de ser revisto, já que "raça" não é mais um "conceito", de base científica, é um termo de senso comum que usamos com falta de rigor... Não há raças humanas, sim indivíduos com diferentes "fenótipos"...

As apreciações que fazemos sobre estes temas têm muito a ver com as nossas vivências, experiências, idiossincrasias... Falemos antes de factos, histórias, cenas... que se passaram connosco, e evitemos o risco das generalizações, sempre abusivas, a menos que tenham por detrás estudos sérios no domínio da sociologia, antropologia, psicologia social, etc.

Há sempre uma tendência para fazermos "ciência espontãnea" e falarmos "de cátedra", a partir dos nossos próprios preconceitos, perceções, valores, sentimentos, experiências limitadas, etc. Cada um tem os seus óculos, uns de ver ao perto, poutros de ver ao longe...

Um alfabravro, LG

alma disse...
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