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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27693: Notas de leitura (1892): "Náufragos do Império", por Albano Dias Costa, Prémio Literário Antigos Combatentes 2025, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2025

Queridos amigos,
Albano Dias da Costa é autor de um livro intitulado Os Celeiros da Guiné, de que em tempo se fez aqui a recensão. Recentemente, aludiu-se ao primeiro prémio literário de 2022 Antigos Combatentes, o seu livro Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa. Chegou agora a vez de referir o seu primeiro prémio literário de 2023, com o título "Náufragos do Império". É uma obra de carácter didático-pedagógico, é imaginada uma família Cardoso que participou em guerras que travámos deste Naulila, em 1914, até aos três teatros africanos, com realce para a Guiné onde Albano Dias da Costa combateu entre 1963 e 1965. Todos esses embates são passados em Angola, Moçambique, na I Guerra Mundial, há um Cardoso na Guerra Civil de Espanha e prisioneiro em Dachau, há um prisioneiro em Timor, há um prisioneiro após a invasão da União Indiana, membros da família Cardoso combateram em Angola, Guiné e Moçambique. É numa tirada inicial, no convívio anual da Companhia de Carlos Cardoso que o Coronel Calado, que fora o Comandante da Companhia, tece considerações amargas sobre as condições dos antigos combatentes. Para o autor, será a língua portuguesa o elemento mais aglutinador da irmandade que Portugal estabelecerá com as antigas parcelas do seu antigo Império.

Um abraço do
Mário



As guerras que travámos no Império, por longas décadas, agora em prosa narrativa

Mário Beja Santos

A obra intitula-se Náufragos do Império, o vencedor do Primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes foi de novo Albano Dias Costa. O autor parte de uma ideia tentadora, a que já se abalançaram, com fronteiras mais confinadas, escritores como João de Melo e João Céu e Silva, estes encontraram enredos em que os seus personagens percorrem, ao longo da trama, todos os teatros de guerra africanos entre 1961 e 1975. Albano Dias da Costa dilata o campo de ação. Há o ex-alferes miliciano Carlos Cardoso que parte para um convívio anual da sua companhia, descreve um convívio como aqueles em que nós participamos, aparecem filhos e netos e há cada vez mais desaparecidos. Conversa com outro oficial sobre a condição dos ex-combatentes, as críticas são duríssimas, o interlocutor do ex-alferes, o coronel Calado, tem mesmo um espírito bem funério sobre o nosso tempo:
“Eis-nos a padecer o esboroar da certeza adquirida da paz e da prosperidade económica; a ameaça da perda da coesão social e da insegurança nos espaços públicos; a trituração dos seres humanos pela crise financeira, económica, social e política a todos submergirá como onda imparável sem deixar ninguém a salvo; o confisco do pequeno património de cada um e das suas exíguas economias por impostos incomportáveis; a fatalidade da emigração dos nossos filhos, aos milhares, como na geração anterior, a da Guerra Colonial, nos anos 60, mas agora com um diploma universitário em vez da ‘mala de cartão’; a insegurança dos empregos com salários no limiar da sobrevivência e sem garantias de estabilidade; a angústia do desemprego dos nossos filhos com a deslocalização das suas fábricas para a Ásia, sobrevivendo de biscates, de subsídios do Estado e da venda do que têm à mão, tendo os pais de continuar a alimentá-los com as suas escassas reformas…”.

O ex-alferes regressa a Lisboa e vai visitar a sua mãe, fazia nesse dia noventa anos.
Acomodado no sofá, terminado o almoço, viu numa mesinha um álbum, já muito desbotado. Uma tia tinha nele arrumado as fotografias que os irmãos lhe foram enviando, de 1914 a 1945, e nesse mesmo álbum havia fotografias dos seus sobrinhos, tiradas entre 1971 e 1974. Ao lado, repousava uma velha caixa repleta de cartas, postais e papéis com apontamentos enviados pelos combatentes. Esta tia, sentindo a proximidade da morte, entregou estes testemunhos à mãe de Carlos Cardoso. Nessa noite, Carlos começou a folhear o conteúdo do álbum. É deste modo que vamos conhecer as vivências destes náufragos do Império, seus familiares.

O tio Fernando em Naulila, no sul de Angola, 1914. Ainda não estávamos em guerra com a Alemanha, mas uma reduzida força alemã chegou ao Forte de Naulila para esclarecimento das circunstâncias porque entrara naquela colónia portuguesa, vinda do Sudoeste Africano; ocorreu um incidente trágico em que resultou a morte de dois oficiais alemães e na sequência deste incidente os alemães atacaram Naulila, devastando-a. Fernando Cardoso estava ferido e foi tratado por um médico alemão, regressou a Portugal em agosto de 1917.

Escreve o autor: “Naulila, uma batalha esquecida no fim do mundo, travada por uma tropa mal preparada, mal-armada, enquadrada por milicianos inexperientes, bode expiatório da incompetência dos políticos, foi o pronúncio do fim do Império: outras Naulilas se seguiriam, ao longo de sessenta anos.”

Havia no álbum fotografias do tio Alberto, que combatera em Moçambique. “Em Moçambique, morriam mais homens do que na Flandres, não pelas balas inimigas, mas pela sede, pela fome, pela exaustão física e, acima de tudo, pelas doenças.” Este tio Alberto na sua última carta, datada de 1917, referia-se a uma missão atribuída à sua Unidade, sob o comando do coronel Massano de Amorim, para ocupar Kionga, na foz do Rio Rovuma, no extremo norte de Moçambique. Nada mais se soube dele, um missionário escrevera que os mortos eram enterrados em qualquer lado.

Há também fotografias do tio Joaquim, soldado na Grande Guerra. Mandara postais ilustrados a partir de Brest. O regimento de Joaquim viveu a madrugada do dia 9 de abril de 1918 em La Lys, batalha em que o Corpo Expedicionário Português contou com mais de 7500 baixas, entre mortos, feridos e prisioneiros. Joaquim foi aprisionado pelos alemães, regressou do cativeiro em 1921.

Carlos Cardoso folheia agora fotografias do tio José, que combateu ao lado dos republicanos na Guerra Civil de Espanha, escapou por milagre de ser fuzilado, fugiu para França, foi colocado no campo de concentração de Dachau, escapou às câmaras de gás, terminada a guerra, depois de novas peripécias chegou a Portugal, aqui morreu.

O tio Manuel foi mobilizado em 1940 para Timor, viveu a invasão japonesa em 19 de fevereiro de 1942. Manuel escreveu uma carta falando da repressão brutal dos japoneses.
Numa tarde chuvosa e fria de novembro, Manuel apareceu em casa, extremamente debilitado pelos anos de cativeiro.

O álbum tinha agora as fotografias daqueles que representavam a geração dos combatentes da Guerra Colonial. João, o filho do tio José, embarcou para o Oriente, nos princípios de 1960, já nessa altura se temia a anexação das parcelas do Estado da Índia pela União Indiana. A ocupação ocorreu em 18 de dezembro de 1961. João foi prisioneiro de guerra, metido no Campo de Pandá. Regressou a Portugal em condições muito constrangedoras, quando desembarcou foi enviado diretamente para a sua Unidade mobilizadora, Vila Real, só passou à disponibilidade em princípios de 1963.

Temos agora a história de Pedro, o filho mais velho do tio Manuel, foi mobilizado para Angola, a sua Companhia foi transferida para a Fazenda de Cacuaco. Se a atividade operacional corria de feição até março de 1968, tudo se veio alterar quando a Zâmbia permitiu que Agostinho Neto instalasse as bases dentro das suas fronteiras, seguir-se-ão violentos combates entre o MPLA e as forças portuguesas, os guerrilheiros foram obrigados a recuar. A parte final da sua Comissão foi passada em Naulila. Pedro regressou a Portugal e a funcionário público.

Rui, o segundo filho do tio Manuel, partiu a Moçambique como capitão miliciano, colocado em Mueda, acompanhou todos os acontecimentos até ao final da guerra, quando se preparava para tomar o avião que o ia levar a casa o jipe que o transportava calcou uma mina, Rui Cardoso teve morte imediata.

Carlos Cardoso assistiu às cerimónias da morte da tia Maria. Mais tarde, regressou à Guiné, fala-se sumariamente da história desta colónia, da sua atividade operacional numa região perto de Bula, Binar e Mansoa, recordou um desastre ocorrido com a jangada de João Landim, vemo-lo de volta a Lisboa, rememora a diferentes vicissitudes por que sofreram os seus familiares, resta-lhe agora a esperança de que a língua portuguesa continue a irmanar os antigos territórios ultramarinos na CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

E assim termina a narrativa da família Cardoso que combateu em diferentes parcelas do Império ao longo de todas as guerras, são estes os náufragos do Império que deixam os portugueses de hoje praticamente indiferentes.

Albano Dias da Costa recebendo o Primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes das mãos do Ministro da Defesa
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Nota do editor

Último post da série de 1 de fevereiro de 2026 > iné 61/74 - P27691: Notas de leitura (1891): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VII: O "monge-guerreiro", Abel Matias, major graduado 'cmd' capelão, ref, esteve em Angola, de 1965 a 1971

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27673: Notas de leitura (1889): "Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa", por Albano Dias da Costa; primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional, 2022 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Agosto de 2025:

Queridos amigos,
Faz todo o sentido uma breve recapitulação da trajetória da literatura da guerra colonial. Primeira fase: a exaltação das façanhas do soldado português, lembre-se Armor Pires Mota, as reportagens propagandísticas, a literatura encriptada de Álvaro Guerra. Segunda fase: o 25 de abril, os ajustes de contas, a procura da certidão da verdade sob a forma de romance, poesia, novela, conto, entra em cena a literatura memorial. Terceira fase: a matura idade, o período dos grandes romances, caso de Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz, as obras de Lobo Antunes, de João de Melo. Quarta fase: as investigações, a manutenção de um quadro caleidoscópico para toda esta literatura, algo que se irá prolongar até aproximadamente década de 2010; daí em diante, vai pontificando a literatura memorial, pode bem acontecer que haja inéditos guardados nas gavetas, mas está praticamente tudo inventariado, resta o rodopio da memória. É o que faz Albano Dias da Costa com a sua prosa narrativa, andou pela Guiné nos primórdios da guerra, reduz ao essencial as atribulações e as perdas humanas, inesquecíveis; regressa à infância e dá-nos alguns parágrafos luminescentes do Alto Douro Vinhateiro. Não sou de profecias, mas estamos a voltar à guerra com os cartuchos que nos restam, não se pode subestimar o antes e o depois.

Um abraço do
Mário



A literatura memorial destronou todo o processo ficcionista da guerra colonial

Mário Beja Santos

Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa, prosa narrativa, por Albano Dias da Costa, primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional, 2022, é mais uma evidência de que a literatura memorial deixou muito para trás todos os processos de ficção, desde o romance ao diário. O protagonista e narrador, o Tenente Miliciano Luís Lapa, é o alter ego de Albano Dias da Costa, como ele próprio escreve: “Na presente narrativa, o autor transpõe temas de uma reflexão ensaística para uma narrativa ficcionada; procura exprimir numa diegese (realidade própria da narrativa) memorialística, o testemunho de quem também a viveu e padeceu.” Temos um prologo com o regresso de Luís Lapa da Guiné até à terra natal, a Folgosa, no Alto Douro, que ele escreve com o sobrepeso da emoção, envolvendo-nos com o colorido dos detalhes.

O primeiro episódio narra a sua partida para a Guiné, ele pertence à CCAÇ 413, bolanha do rio Mansoa, vai experimentar-se os horrores da guerra. Segundo episódio temos a tormentosa viagem numa operação em que ele irá desativar uma mina, voltaremos a tal ambiente, Lapa conhecerá os ferimentos. No terceiro episódio, no regresso a casa, agraciado com uma Cruz de Guerra, haverá uma extensa reflexão acompanhada de uma conversa com um Major no comboio, temo-lo em Coimbra, na retoma dos seus estudos. E o epílogo, o reencontro com a mãe, acompanhado de um poderosíssimo texto de amor à terra onde nasceu e se criou, aquele ponto do Alto Douro.

O regresso a casa é feito das lembranças: “Quando, antes, se deslocava ao Porto, recordava ele, a viagem era feita nos bancos duros de madeira das carruagens da terceira classe. Respirava-se o cheiro doloroso das merendas e o odor acre do vinho à mistura com discussões intermináveis intercaladas de impropérios.” Nessa viagem irá conhecer Maria Inês, encontro decisivo para o futuro dos dois. No apeadeiro toma a barca que o vai levar a casa, rememora o caminho poeirento que calcorreara para apanhar o comboio para ir à Régua, a Lamego, aos estudos em Coimbra, vem-lhe à mente mais recordações deste Alto Douro Vinhateiro, chega a casa: “A Folgosa era uma rua. Nascia lá em baixo, à beira do rio, junto da paragem da carreira de Tabuaço. Subia, depois, íngreme, estreita e sinuosa, até morrer lá em cima, junto da igreja. Aí, acabava o mundo.” Mais recordações da escola, dos exames, das brincadeiras, a dureza das caminhadas. O tenente miliciano Luís Lapa não gostou do acolhimento, perguntas incómodas. “Depois da guerra, os combatentes desmobilizados tinham ainda de suportar as agruras e as incompreensões de um país rural à deriva, alheado do conflito interminável que se desenrolava nas colónias da África distante.”

Chegou à Guiné ainda a guerra mal começara, a sua unidade é lançada na grande bolanha do rio Mansoa. Lança-se em profundas meditações, não faltam os filósofos gregos nem a pensadora Hannah Arendt, nem Santo Agostinho. Ouve no seu gira-discos a pilhas a Missa Solene de Beethoven. Esteve destacado na povoação de Encheia, localizada na margem noroeste da bolanha do rio Mansoa. “Lá chegado, em finais de junho do ano anterior, encontrou uma pequena povoação perdida no meio de cajueiros, constituída apenas por três habitações edificadas no alto de uma pequena elevação sobranceira à extensa bolanha serpenteada pelo rio Mansoa: a casa do chefe do posto, o celeiro anexo e o pequeno estabelecimento de um comerciante libanês, uma construção rudimentar de paredes de adobe cobertas de chapas de zinco. Adiante, de um lado e de outro da estrada de Bissorã, alinhavam-se algumas palhotas com uma ampla varanda onde homens de balandrau branco exerciam ofícios vários, de ferreiro, de alfaiate, de cesteiro.” E experimentam-se as flagelações.

Prometi voltar ao episódio em que Luís Lapa desmonta uma mina anticarro: “Pousou a arma no chão. Com o sabre, começou a afastar lentamente a terra que a envolvia. E, de repente, surgiu a cabeça da espoleta do temível engenho. Muito devagar, retirou as pedras que restavam à sua volta. A seguir, soprou para afastar a poeira que ainda a ocultava. E ei-la, brilhante e desafiadora, feita atração do abismo! Por breves instantes, contemplou-a, emudecido, sentia-se como se estivesse hipnotizado diante da cabeça de uma serpente que ia atacá-lo a todo o momento com a língua bífida.” A dureza do momento merece-lhe um digno desenvolvimento, o episódio acaba bem, mas a continuação da operação é manchada por o Cabo Serafim, moleiro de Temilobos, ter pisado uma mina antipessoal, não resistirá aos sofrimentos. A marcha prossegue, inesperadamente a coluna é sacudida por uma emboscada, o Sargento Santos atingido mortalmente na cabeça, há feridos, Luís Lapa incluído, ficará longo tempo internado no Hospital Militar de Bissau.

Dá-se a rendição da CCAÇ 413, ansiosamente esperada perante 751 infindáveis dias e noites. O texto polvilha-se de muitas considerações à posteriori, a conversa com o sr. Major no comboio só pode ser aceite ao nível da ficção, era totalmente impensável em 1965.

O texto tem agora parágrafos magníficos, já Luís Lapa despiu a farda, e ao som da missa solene vamos acompanhar uma esplêndida ode ao Douro de Cima-Corbo, terra de bom vinho, espesso e rijo. A mãe falece, o tenente na disponibilidade volta para Coimbra, de onde não alberga recordações amigáveis, vem ao encontro de Maria Inês, toda a missa solene de Beethoven irá acompanhar o derradeiro escrito. “Apenas iria persistir dentro de si, transfigurada pelo distanciamento no tempo, a Guiné dos Balantas fiéis ao barrete vermelho com que coroavam as suas cabeças, algumas paisagens ainda com a virgindade deslumbrante com que o criador lhes ofereceu aquando do Génesis e o cheiro da terra quente e avermelhada da grande África.”

Esta prosa narrativa é precedida de uma apresentação pelo General Chito Rodrigues, tece considerações sobre a guerra e enfatiza o trabalho de Albano Dias da Costa, sobretudo a magnífica descrição dos cinco momentos do ciclo da vinha, texto entremeado pelo reencontro com a mãe que irá falecer.

Estou em crer que o leitor não contestará quando digo que depois de décadas estuantes de romance, conto, novela, poesia, diarística, reportagem e afins, a idade confina o combatente aos escaninhos da memória, à trajetória que vai do antes ao durante, até ao peso maior do remanescente que fica como saudade, resquício de solidariedade, mágoa pela indiferença dos outros, talvez culpa por acontecimentos em que interveio e em que se pensa que podiam ter decorrido de outra maneira, agora só resta o apaziguamento.

Quartel de Mansoa. Imagem do Padre José Torres Neves, publicada no nosso blogue, com a devida vénia
Ponte sobre o rio Mansoa. Imagem do Padre José Torres Neves, publicada no nosso blogue, com a devida vénia
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Nota do editor

Último post da série de 23 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27663: Notas de leitura (1888): "Porto, 1934 a Grande Exposição", por Ercílio de Azevedo; edição de autor, 2003 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Guiné 63/74 - P15477: Notas de leitura (787): "Nos Celeiros da Guiné - Memórias de Guerra", de Albano Dias Costa e José Jorge de Campos Sá-Chaves, ex-alf mil da CCAÇ 413 (1963/65)

1. Mensagem do nosso camaradada, de Torres Novas,  Carlos Pinheiro [, ex-1.º cabo trms op msg, Centro de Mensagens do STM/QG/CTIG, 1968/70]


Data: 11 de dezembro de 2015 às 15:09
Assunto: Nos Celeiros da Guiné - Memóriasde Guerra


Nos Celeiros da Guiné - Memórias de Guerra


Caros companheiros, camaradas e amigos

Tomei hoje conhecimento, através de mão amiga, da edição do Livro com o titulo em epígrafe, obra de Albano Dias Costa e José Jorge Sá-Chaves, com prefácio do general António Ramalho Eanes e edição da Chiado Editora.

Ainda não o li tudo, nem mais ou menos, mas já li o suficiente para o poder classificar como um dos melhores livros que retrata passagens das Guerras de África.

Sem qualquer tipo de interesse, permitam-me que vos recomende a leitura desta magnifica obra que foi conseguida pelos autores com a ajuda do Arquivo Geral do Exército e do Arquivo Histórico Militar que disponibilizaram para consulta toda a documentação relativa às unidades em que a CCAÇ 413 esteve integrada, da Viúva do Comandante da Companhia pela documentação disponibilizada, relativa à actuação da Companhia na Guiné e a muitas outras entidades,  sem esquecer os ex-combatentes da CCAÇ 413 que facultaram fotografias, documentos e testemunhos pessoais.

Esta obra é dedicada pelos autores "À memória dos camaradas da CCAÇ 413 que não envelheceram, tombados na Guiné, no cumprimento da missão de serviço que lhes foi imposta, o Ataliba Pareira Faustino, o Francisco Matos Valério, o José Gonçalves Pereira, o José Basilio Moreira, o José Rosa Camacho, o José Pereira Rodrigues, o José Ramos Picão e o Joaquim Maria Lopes, em relação aos quais carregamos a culpa de continuarmos vivos".

Permitam-me ainda que transcreva uma pequena passagem do Prefácio, com o titulo "Metamorfose dolorosa":

 "Encontros anuais que pretendem ser festa, mas que, no fundo, são de mágoa, mágoa sentida pela incompreensão do País, do Exército, dos seus próximos até, pelos sacrificios, pelo tempo passado na Guiné que, não tendo morto neles a esperança, matou muitos dos seus sonhos, muitas das suas certezas, muitos dos percursos de vida almejados. Não aceitam nem conseguem aceitar, ainda, que os tenham mandado para a guerra com desfile, fanfarra e discursos patrióticos, e que os tenham "descartado" depois da guerra, desembarcando-os discretamente, condenando-os a uma quase "clandestinidade social", sem reconhecimentoi público, sem apoio psicológico para os que dele careciam, sem apoio médico especializado para todos mas em especial para aqueles que na guerra se perderam e não mais conseguiram econtrar motivação e sentido suficiente para a vida.

Não constitui este não reconhecimento, esta preversa negligência, excepção na nossa vida histórica... Lembre-se, a propósito, a razão intemporal que terá levado o grande Padre António Vieira, em 1669, a afirmar: "Se serviste à Patria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devieis, ela o que costuma".

Se com este pequeno escrito consegui motivar os meus amigos para a leura do livro, fico satisfeito. Se não o consegui, paciência.
´
Um abraço para todos,

Carlos Pinheiro



2. Ficha técnica

Título: Nos Celeiros da Guiné
Editora: Chiado Editora, Lisboa
Data de publicação: Maio de 2015
Número de páginas: 382
ISBN: 978-989-51-2859-4
Colecção: Bíos
Género: Biografia
Preço de capa: 16 €


Sinopse

A guerra é, para o combatente, uma metamorfose dolorosa, de enorme custo, de insuportável sofrimento, em que se morre um pouco com a morte de cada camarada. Metamorfose, sim, mas em que a fase final é um recomeço da vida, já sem sonhos, já desgastado e, mesmo, frustrado pela incompreensão dos sacrifícios sofridos.

E se os cínicos lhes perguntarem porque não abandonam a guerra, os olhos dos combatentes, marejados de lágrimas, respondem: quem pode abandonar, trair um camarada irmão, sobretudo o que morreu por nós, também?

Sentindo-me um irmão ex-combatente, destes ex-combatentes da CC 413, entendi não os abraçar com uma frase para a capa do livro, como me pediram, mas, sim, abraçá-los com este manifesto despretensioso, pequeno, mas sentido manifesto de solidariedade.

António Ramalho Eanes

Fonte: Chiado Editora, com a devida véniagoogle+

3. Sobre os autores:

Albano Dias Costa nasceu em 1939, em Luanda, tendo-se licenciado em Letras e em Direito pela Universidade de Coimbra.

Em 1963, com a especialidade de sapador de Infantaria e com o curso de explosivos, minas e armadilhas, foi mobilizado para a Guiné como alferes miliciano atirador.

Desmobilizado em Maio de 1965, regressou à Faculdade de Letras de Coimbra, onde apresentou a dissertação “O Crioulo da Guiné, uma Abordagem Etno-Linguística,” preparada a partir das notas que coligiu naquela ex-colónia, e onde foi também co-autor do “Curso de Língua Portuguesa para Macuas,” solicitado pelo Estado-Maior do Exército para o ensino do português aos soldados Macuas de Moçambique, depositado no Arquivo Histórico Militar.

Licenciado também em Direito, enveredou pelo exercício exclusivo da advocacia, no Porto, como profissional liberal e como assessor jurídico em organismos do Estado.

José Jorge de Campos Sá-Chaves nasceu em 1937, em Lisboa.

Licenciado em Educação Física, fez estudos curriculares de Mestrado em Ciências da Educação, na UTL [Universidade Técnica de Lisboa]

Leccionou, durante mais de duas décadas, nos ensinos básico e secundário.

Por concurso público, foi colocado no CIFOP da Universidade de Aveiro como docente para a orientação da Formação em Serviço.

Desempenhou, durante oito anos, funções como Vice-presidente e Administrador dos Serviços de Acção Social da Universidade de Aveiro, tendo sido nomeado representante do Conselho de Reitores no Conselho Nacional da Ação Social no Ensino Superior.

Aposentado, ingressou na Fundação João Jacinto de Magalhães como responsável pelo Gabinete Editorial.

Como militar, frequentou o CEPM e estagiou no CIOE. Mobilizado em Julho de 1962,  integrou a CCAC 413 cumprindo missão, como Alferes Miliciano, na antiga Província Ultramarina da Guiné.

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Nota do editor:

Último poste da série > 11 de dezembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15476: Notas de leitura (786): “IMF no Palácio do Governador”, por Hildovil Silva e Iramã Sadjo, Ku Si Mon Editora, Bissau, 2011 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Guiné 63/74 - P15359: Notas de leitura (775): “Nos Celeiros da Guiné”, por Albano Dias Costa e José Jorge Sá-Chaves, Chiado Editora, 2015 (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Setembro de 2015:

Queridos amigos,
É evidente que este precioso relato se dirige em primeiro lugar aos que viveram aquela saga a partir dos últimos meses pacíficos de 1963, que cirandaram pelo Morés e foram pau para muita colher. Mas é igualmente um documento de relevo para entendermos como tudo se passou, na muita ignorância e na compreensível falta de previsão sobre o poder combatido daqueles guerrilheiros começavam a marcar presença por todo o Centro-Norte da Guiné.
Com o passar dos tempos, vou-me convencendo cada vez mais que faltam relevantes documentos sobre o que se passou entre 1963 e 1968, não há hipótese de ajuizar o que foi o bom ou o mau comando, do lado português, na eclosão e ascensão da guerrilha.

Um abraço do
Mário


Nos Celeiros da Guiné (2), por Albano Dias Costa e José Jorge Sá-Chaves

Beja Santos

“Nos Celeiros da Guiné”, por Albano Dias Costa e José Jorge Sá-Chaves, Chiado Editora, 2015, é uma obra muito particular nas chamadas publicações relacionadas com as histórias das unidades militares que combaterem em África. Tem a particularidade de se centrar na vida de uma companhia independente que percorreu um bom rincão do território guineense, no exato momento em que a guerrilha ganhou fôlego na região Centro-Norte. Referiu-se no texto precedente a atividade operacional desenvolvida até agosto de 1963, retoma-se a obra com a chamada de atenção para o período de 1 de Setembro de 1963 até finais de Junho de 1973.

Em 1 de Setembro, o BCAÇ 512 passa a ocupar a área que estava à responsabilidade da CCAÇ 413, o que imediatamente nos faz refletir o grau de improvisação e o desconhecimento do peso do PAIGC entre o Senegal e Mansoa. Com a chegada deste batalhão, a CCAÇ 413 passou a constituir a força de intervenção do Batalhão: assegurava escoltas, desimpedia itinerários, montava segurança a elementos da população durante as colheitas, e o mais que se sabe. Observa o autor que foi um período extremamente duro em combate e missões distintas em pontos diferentes do setor. Em 3 de Setembro o PAIGC ataca Porto Gole, foi necessário destacar um grupo de combate da CCAÇ 413, instalou-se o aquartelamento de raiz. A Companhia anda por toda a parte: Enxalé, Infandre, Enxugal. Em Outubro, primeira emboscada entre Porto Gole e Enxalé. A guerrilha anda à solta: ataques entre Porto Gole e Mansoa tornam-se um facto, com o crescendo das hostilidades o itinerário irá ficando sucessivamente cortado. Em 2 de Novembro decorre a primeira grande operação no Morés, no dia 4 destruíam-se no local 16 casas de mato. Em Novembro começam as destruições de viaturas entre Mansoa e Bissorã. Está tudo em movimento: Porto Gole fica na dependência de uma Companhia que está no Enxalé. Em Janeiro de 1964 repara-se a estrada Porto Gole Enxalé. Tudo se complica entre Mansoa e Bissorã, as emboscadas não faltam e a vida torna-se cada vez mais difícil entre Mansoa e Mansabá. Cutia é a primeira povoação em autodefesa, a população comporta-se galhardamente. Com minúcia, o autor vai detalhando o calendário das atividades operacionais e já estamos em Maio, o Brigadeiro Louro de Sousa é substituído por Arnaldo Schulz. O PAIGC tem uma base perto do Enxalé, é inicialmente desalojado e depois regressa. Em 1 de Julho de 1964, a CCAÇ 413, devido ao seu grande desgaste é rendida pela CART 564 e instala-se em Nhacra.


Este novo período da vida da CCAÇ 413 na Guiné é menos atribulado mas não menos agitado. Aos patrulhamentos, nomadizações e emboscadas para impedir infiltrações na área sensível da península de Bissau. Há um destacamento na ponte de Ensalmá. Fazem-se obras para melhorar as instalações, construem-se casernas, balneário, refeitório, paiol, etc.

Já estamos em Janeiro de 1965, começa a formação de companhias de milícias. Destroem-se canoas no rio Mansoa. Há um grupo de combate aquartelado em Encheia, aqui os guerrilheiros atacam forte e feio. Relata-se um dado que não se pode descurar: em Abril de 1965 já existiam 18 Companhias de Milícias, muitos destes homens irão até Bolama, no centro de instrução militar serão preparados para pelotões e companhias de caçadores. A prestação da CCAÇ 413 aproxima-se do seu termo, teve 6 mortos em combate, 47 feridos dos quais 10 foram evacuados.

A fotonarrativa é abundante, integra dados da preparação, a instrução em Faro, imagens em Mansoa, em inúmeros lugares por onde a Companhia andou disseminada, mostra-se o seu armamento, a sua alimentação, os lazeres, os trabalhos nos aquartelamentos, a vida dura em Encheia e em Cutia, as relações com a população, a atuação operacional, os convívios, imagens daqueles que voltaram à Guiné e que percorreram os aquartelamentos de outrora, deixando-nos imagens deslumbrantes de uma natureza que não se rende às dores de uma economia parada.

Um documento que nos obriga a pensar na chegada daqueles jovens a Bissau e depois a Mansoa, tudo parecia pacífico até que tudo se tornou explosivo e devastador para os nervos. É um longo documento sobre a metamorfose e o endurecimento. Só temos a ganhar em ler um relato destes primeiros combatentes que tiverem que se abrigar nos celeiros da Guiné.
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Nota do editor

Último poste da série de 9 de novembro de 2015 Guiné 63/74 - P15343: Notas de leitura (774): “Nos Celeiros da Guiné”, por Albano Dias Costa e José Jorge Sá-Chaves, Chiado Editora, 2015 (1) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Guiné 63/74 - P15343: Notas de leitura (774): “Nos Celeiros da Guiné”, por Albano Dias Costa e José Jorge Sá-Chaves, Chiado Editora, 2015 (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Setembro de 2015:

Queridos amigos,
É um livro bem distinto do que vai aparecendo sobre histórias de unidades militares, neste caso o álbum fotográfico é de grande importância.
O General Ramalho Eanes prefacia a obra e detém-se sobre todos aqueles que combateram e hoje regressam à Guiné, e então escreve: "As populações acolhem-nos com o carinho de outrora, mas vivendo conformadas na mesma miséria ou em miséria maior, porque, agora, se destruíram matas, se lhes retiraram bolanhas, se matou a fraterna igualdade então existente. Esta obra interpela-nos sob a metamorfose sofrida pelos jovens que foram transplantados das suas terras". E elogia a importância documental de todo este acervo, contemporâneo da fase perturbante da implantação militar, psicológica territorial do PAIGC.
Temos aqui um livro raro e um caso de solidariedade que não desfalece entre septuagenários que aportaram à Guiné e não a esquecem e não se esquecem do que devem uns aos outros.

Um abraço do
Mário


Nos Celeiros da Guiné, por Albano Dias Costa e José Jorge Sá-Chaves (1)

Beja Santos

Há cerca de 50 anos, a CCAÇ 413 partiu para a Guiné. Do seu mourejar vem agora a público um livro que aparenta ter um título intrigante: “Nos Celeiros da Guiné”, por Albano Dias Costa e José Jorge Sá-Chaves, Chiado Editora, 2015. Não se trata de uma convencional história de companhia independente, recheada de depoimentos e reprodução de relatórios, é um poderoso documento que, digo-o sem hesitação, se configura num indispensável material auxiliar para compreender a Guiné entre 1963 e 1965. Quanto ao título, os autores mostram uma imagem, conhecida de todos, e explicam aos seus leitores, poderá acontecer que haja leitores que não passaram pela Guiné: “Em quase todas as pequenas localidades, havia, junto do edifício do posto administrativo, um celeiro da administração, desocupado na sequência do início das hostilidades, que veio a ser utilizado como caserna pelos destacamentos militares entretanto instalados nessas povoações”. Dias Costa fica incumbido de justificar o enquadramento da CCAÇ 413 no contexto social e militar da Guiné. Companhia dada como “pronta” no Batalhão de Caçadores n.º 5, em Lisboa, e colocada em Faro, no Regimento de Infantaria n.º 4, a aguardar o embarque, sem data nem destino ainda definidos. Estão em Faro quando eclode a guerrilha na Guiné. A 3 de Abril embarcam ao som de “Angola é nossa”, num velho paquete da companhia colonial de navegação, o “Índia”.

Lá vão a caminho de Mansoa, têm à sua espera os camaradas da CCAÇ 91, estes rejubilam pela rendição. Conduzidos à caserna, adaptada de um celeiro aqui vão passar a primeira das 751 noites que têm pela frente na Guiné, ainda têm à sua espera os celeiros de Safim, Nhacra, Porto Gole, Encheia, Bissorã, Mansabá, Olossato, Barro, Bigene, Farim e Cuntima. As hostilidades estão no início, estes militares vão assistir ao separar das águas, à perseguição das populações, ao aparecimento dos santuários, à necessidade de ocupar posições. A CCAÇ 413 era constituída por cerca de 170 homens, distribuídos por quatro pelotões, três de caçadores e um de acompanhamento bem como pela Formação, adstrita ao Comando, constituída pela Secção de Saúde, sob a responsabilidade do oficial médico, pela Seção administrativa, pela intendência, pela seção de condutores e manutenção auto e pela secção de Transmissões. O equipamento era o próprio da época, o armamento já incluía a G3 mas havia também pistolas-metralhadoras UZI e FBP. Em 1963 não houve férias, foram canceladas todas as licenças.

Gente feliz em Mansoa

O autor espraia-se sob a infraestrutura dos celeiros e depois descreve a organização dos aquartelamentos, nesta época as valas em ziguezague tinham a primazia. Encheia e Olossato cedo dispuseram de uma pista de aviação rudimentar. Durante a sua permanência em Mansoa, a CCAÇ 413 prestou apoio à povoação de Cutia, na estrada para Mansabá e nas imediações do Morés, aqui decorria a primeira experiência de povoação em regime de autodefesa. O Morés já fervia, o Brigadeiro Louro de Sousa, ainda no decurso de 1963, reforça o dispositivo tático de Mansoa, fica aqui a sede do BCAÇ 512. O aquartelamento de que dispõe a CCAÇ 413 estava instalado na Escola das Missões, e englobava o celeiro, transformado em caserna uma construção rudimentar onde estava instalado o posto de transmissões, o posto de socorros, a arrecadação dos mantimentos e algo mais.

A psicossocial fazia-se com engenho e arte, a dedo e sem esquadro, diretivas era coisa que ainda não existiam, faziam-se almoços, encontros, compareciam o médico e o enfermeiro e os mais curiosos começavam a trautear termos em crioulo, aprendiam-se os usos e costumes, dava-se ajuda aos civis no transporte de alimentos e matérias-primas. Os ex-militares da companhia procederam, em 1992, à constituição da Associação de Ex-Combatentes da CC 413 – Guiné, 1963-65, com o objetivo de “fomentar e desenvolver laços de camaradagem e de solidariedade entre os seus membros e as suas famílias”. José Jorge Sá-Chaves dedica muita atenção à vida operacional da Companhia. Ficaram inicialmente dependentes de um batalhão sediado em Bula, comandado por Hélio Felgas. Foi-lhe atribuído um setor operacional com uma área aproximadamente de 5100 km2, abrangendo a região do Oio, a região a norte do rio Cacheu, com toda a faixa entre aquele rio e a fronteira com o Senegal, de Barro a Cuntima. A Companhia espraiava-se por quatro destacamentos: Barro, Bigene, Farim e Cuntima, recebendo apoios de outras unidades para guarnecer as localidades de Bissorã, Olossato, Mansabá e para reforçar Farim. Estamos no início da guerra e era então possível ainda acontecer o que aqui se descreve: “Quer Barro, quer Farim, destinos das colunas, distavam aproximadamente 50km de Mansoa, distâncias que levaram cerca de hora e meia a percorrer (…) Aproximadamente a meio do percurso, localizavam-se, respetivamente, as povoações de Bissorã e de Mansabá. Os últimos troços da estrada até à margem do rio Cacheu, onde se fazia a cambança para a margem Norte apresentavam-se num estado deplorável (…) Transposto o rio, os últimos 3,6km até ao destino, em que a estrada cruza a bolanha, permitiu apreciar a beleza da paisagem que se abria à sua frente”. Temos igualmente uma descrição cuidada das povoações de Barro e Farim e mais adiante de Bigene e Cuntima.

Porto Gole, Casa do Chefe do Posto, que fez parte do aquartelamento, conjuntamente com o celeiro 

Mas tudo estava a mudar. Em 5 de Maio de 1963, o “Setor Norte” desencadeia a primeira ação militar flagelando Bigene. Em Maio, iniciam-se as patrulhas de reconhecimento. Em Junho, um dos grupos de combate da Companhia a patrulhar em Talicó sofreu uma emboscada, e em Julho temos nova emboscada no trilho de Madame. A tropa verificava que de mês para mês evoluía o armamento do inimigo. Em Julho, o Morés começa a revelar-se um objetivo difícil, as emboscadas sucedem-se umas às outras, surgem os primeiros mortos e feridos graves, tanto na Companhia como na Milícia. As abatizes aparecem na estrada Mansabá Bissorã e nas picadas para o Morés. É em Agosto que chega a Mansoa o BCAÇ 512, e nesse mês um grupo de combate da companhia sofre uma emboscada quando se dirige a Fajonquito.

Estamos perante um documento que dá que pensar: como se passou da aparente acalmia para a guerrilha dura e pura, tanto no Morés como à volta do Cacheu, em escassos meses a liberdade de movimentos deu origem a deslocações sempre com riscos de minas e emboscadas; surgiram as milícias, as populações em autodefesa, a ação psicossocial improvisada, iam-se distribuindo armas pelas populações e procurava-se, a todo o transe, fixar os destacamentos onde havia população. Como se sabe, continua a descer um manto de silêncio sobre o período de 1963 a 1968, às vezes até se insinua que não houve capacidade de resposta e que se espalharam abusivamente as tropas por todo o território. Enquanto o período do General Spínola está largamente documentado, os tempos correspondentes ao Brigadeiro Louro de Sousa e General Arnaldo Schulz permanecem na neblina. Deixa-se aqui o recado aos historiadores da guerra da Guiné.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 6 de novembro de 2015 Guiné 63/74 - P15334: Notas de leitura (773): “Dois Amigos, Dois Destinos”, por José Alvarez, Âncora Editora e DG Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Guiné 63/74 - P15273: Bibliografia de uma guerra (79): Acaba de ser lançado o livro "Nos Celeiros da Guiné - Memórias de Guerra", da autoria de Albano Dias Costa e José Jorge Sá-Chaves, com prefácio do Gen Ramalho Eanes, que conta história da CCAÇ 413

1. Mensagem do nosso camarada José Jorge Sá-Chaves, ex-Alf Mil da CCAÇ 413, Mansoa e Nhacra, 1963/65, com data de 12 de Outubro de 2015:

Prezado Camarada d’Armas Luís Graça:
Acaba de ser lançado o livro "Nos Celeiros da Guiné - Memórias de Guerra" da autoria dos ex-alferes milicianos Albano Dias Costa e José Jorge Sá-Chaves, com prefácio do Senhor General António Ramalho Eanes.

O livro traça a história de uma Companhia de Caçadores a CCaç 413, desde a incorporação dos seus elementos e posterior constituição da unidade, até ao seu regresso após dois anos de comissão na Guiné, entre 1963 e 1965, e integra-se na comemoração do 50.º aniversário do regresso à metrópole.

A obra editada pela Chiado Editora foi apresentada em Aveiro, Porto e Lisboa, sendo que nestas duas últimas cidades as apresentações tiveram o patrocínio da Direcção de História e Cultura Militar e dos Museus Militares onde decorreram as sessões.

Agradecemos a divulgação da publicação do livro, o qual poderá interessar aos camaradas que prestaram serviço na Guiné.

Em anexo remete-se a imagem da capa do livro.

Com os melhores cumprimentos,
Pelos autores,
José Jorge Sá-Chaves
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Nota do editor

Último poste da série de 19 de Outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15267: Bibliografia de uma guerra (78): Do meu livro "Quatro Rios e um Destino", excerto para o Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (1): Viagem de Abrantes a Lisboa (Fernando de Jesus Sousa)