sábado, 29 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8962: Notas soltas da CART 643 (Rogério Cardoso) (26): Calções da ordem



1. Em mensagem do dia 28 de Outubro de 2011 o nosso camarada Rogério Cardoso (ex-Fur Mil, CART 643/BART 645, Bissorã, 1964/66) enviou-nos esta Nota Solta da CART 643:


NOTAS SOLTAS DA CART 643 (26)

CALÇÕES DA ORDEM


1965-Pista de Bissorã - DO 27


Sabemos perfeitamente que a rapaziada nunca gostou de cumprir o regulamentado pelas Chefias Militares. Estava na vulgarmente chamada "massa do sangue" gostar de fazer o contrário e deste modo marcar a
diferença.

Isto vem a propósito do uso de calções, que no meu tempo da chamada farda amarela, e que segundo o permitido, o seu comprimento deveria ficar a 4 dedos de travessa do joelho, ficando a meia também a 4 dedos de travessa, da parte inferior do referenciado joelho, assim deste modo a zona a descoberto seria muito reduzida.

Com o passar do tempo, a malta começou a encurtar os ditos calções, e se olharmos com alguma atenção no Blogue, com certeza aparecem alguns.

Do pequeno encurtar ao exagero foi um instante, cada um aparecia com os calções mais curtos, que mais pareciam "fatos de banho", uns largos na perna, outros apertados, enfim uma variedade que seria como
vulgarmente se diz - cada cor seu paladar.

Também o uso de cuecas parecia ter os dias contados, sendo o calor o principal culpado.
As noites em meados de Abril de 1964, antes da ida dos Águias Negras para as bandas do Oio, eram passadas na esplanada do Bento, beber uma cerveja, um leite com chocolate ou outra bebida era o normal, além da cavaqueira.

A postura habitual era o traçar de pernas, e eis que com a eliminação da cueca e o encurtamento dos calções, por vezes os "apêndices" tentavam saltar para o exterior, talvez para apanhar um pouco de ar, o
fresco da noite, ou por outros motivos que só eles sabiam.

Aí começaram os problemas, pois a esplanada também era frequentada por senhoras, que estavam em grupo de amigos ou mesmo com os maridos militares sediados em Bissau.

O facto era reparado, havia as que achavam piada pelo descaramento, outras, na sua maioria, com um olhar reprovativo fuzilavam quem tinha esse descaramento.

A partir de então presumo que a PM tivesse tido algum trabalho, não sabendo nós qual o resultado final, motivado pela nossa ida para Bissorã, Mansabá e Mansoa, que durou praticamente até ao embarque para
a Metrópole em Fevereiro de 1966.

Rogerio Cardoso
Ex-Fur.Mil.-Cart.643-AGUIAS NEGRAS
____________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 14 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6731: Notas soltas da CART 643 (Rogério Cardoso) (25): O meu Irmão Álvaro

Guiné 63/74 - P8961: Notas de leitura (296): De campo em campo: conversas com o comandante Bobo Keita, de Norberto Tavares de Carvalho (Parte IV): Os 'Portuguis Nara' de Boké e de Conacri (Luís Graça)


Amílcar Cabral, 1966... Fotograma do filme documental Labanta Negro, do realizador italiano Piero Nelli, 1966, a preto e branco, 16 mm, 39' de duração... Passou recentemente no doclisboa2011, na retrospetiva 'Movimentos de Libertação'...


Foto de Luís Graça (2011).


1. Continuação da leitura do livro de memórias do Bobo Keita (BK), da autoria de Norberto Tavares de Carvalho (*)...
 

“Eu não fui mobilizado directamente pelo Partido” – confessa BK ao seu entrevistador, NTC. “Foi graças à minha actividade desportiva e sobretudo à conversa do Nkrumah no Gana [, por ocasião do torneio de futebol de 1959]” (p. 58).

BK sabia da existência do PAIGC, clandestino, mas não tinha contactos diretos com nenhum militante, em Bissau. “(…) Sabia que havia o Rafael Barbosa e que o meu primo Momo Turé fazia propaganda do Partido, mas não conversávamos sobre o assunto” (p. 59).

Já na clandestinidade e sob vigilância da PIDE (, instalada em Bissau desde 1956), Amílcar Cabral tinha estado na capital da província, de 14 a 21 de Setembro de 1959,  para trabalho de organização política, com os seus colaboradores mais próximos (o seu meio-irmão Luís Cabral, Aristides Pereira, Rafael Barbosa e João Silva Rosa), instalando-se depois em Conacri.

Em todo o caso não se percebe muito bem, pela leitura do livro do NTC, como é que BK decide, uma bela manhã, partir para o sul com o objetivo de chegar a Conacri, e oferecer os seus préstimos a Amílcar Cabral que, em boa verdade, ele mal conhecia. BK, que era o sustento da família, despede-se, com a aparente naturalidade das gentes africanas, da sua querida mãe e dos seus 3 manos (dois dos  quais irão mais tarde ingressar no PAIGC, na fase da luta de guerrilha). Presume-se que BK tenha ocultado à família os seus projetos.  Aparentemente ele ia para o sul fazer a “campanha da costura” (sci), numa altura propícia aos alfaiates, que era a colheita das nozes de cola.

Por outro lado, a sua saída de Bissau não parece ter sido um ato isolado… No dia 26 de Dezembro de 1960, “o primeiro grupo de colegas” (sic)  decide “organizar-se” e parte para o sul  (p. 60). Presume-se que BK se refira aqui a “colegas” do futebol e do Cupelom de Baixo. A 30, “foi a vez do meu grupo sair de Bissau” (p. 60).

Terá sido simples coincidência ou foi mesmo uma “fuga”, planeada e organizada, com a eventual cobertura do PAIGC ? BK  não é claro a este respeito, nem o seu entrevistador aprofundou (ou mostrou interesse em aprofundar) esta questão. 


Do “primeiro grupo” faziam parte craques da bola como o Julião Lopes, o Lino Correio (UDIB) e o João de Deus (primo do BK e também titular da seleção). Do outro grupo, além do BK, fazia parte o Ansumane Mané, “Corona”. Um e outro eram também jogadores da seleção. Ao todo eram apenas três, incluindo um “rapaz de Bissau”, não identificado.

Os três embarcam no porto de Bissau a caminho de Enchudé, frente a Bissau, no outro lado do Rio Geba, mas já na região de Quínara. Aqui apanham uma boleia, de carro, até 
Sangonhá, região de Tombali, já na fronteira com a Guiné-Conacri. 


“Quem nos levou foi um dos condutores do Camacho, um grande comerciante português instalado no sul”… Em Sangonhá, havia duas lojas, “a do Alfa Camará e a de um senhor mestiço que, segundo constava, colaborava com a PIDE” (p. 61).

O Alfa Camará era amigo do pai do BK. Não se se sabe se era simpatizante ou até militante do PAIGC. Muito provavelmente não, já que a mobilização no interior ainda não tinha começado. De qualquer modo, era um dos contactos do BK no sul. Ele já tinha levado, “em segredo”, as bagagens do BK, numa viagem anterior em que viera a Bissau abastecer-se (p. 61).

A escolha da rota do sul, para se chegar a Conacri, era aparentemente mais fácil do que a rota do norte, via Senegal. Para justificar a sua presença, perante as autoridades portugueses, BK apresentava-se sempre como alfaiate que ia fazer a “campanha de costura do sul”. O “Corona” era o seu “ajudante” (p. 60).

O grupo não entrou na Guiné-Conacri através do posto fronteiriço de Sangonhá. Daqui seguiu para Campaeane, na margem esquerda do Rio Cacine, a sul de Cacine. Dormiram na casa  de “um amigo que nos fora recomendado” (p. 61). Esse mesmo amigo levou os três, logo de manhã, para a “outra margem”, que já era território da Guiné-Conacri, a uma hora de distância.

Chegados lá, tiveram uma “agradável surpresa”, foram encontrar o grupo do Julião Lopes, que partira de Bissau a 26 de dezembro de 1960. (Este Julião Lopes será o futuro comandante da Marinha de Guerra da Guiné-Bissau,  depois da independência e até ao golpe de Estado de ‘Nino’Vieira, em 14 de novembro de 1980).

Continuo, no entanto, sem perceber se BK agiu sozinho,  por conta e risco, ou se beneficiou da eventual ajuda da “rede clandestina”  do PAIGC que, na época, ainda deveria ser bastante “incipiente” em Bissau (para não dizer "inexistente" no sul). De qualquer modo, BK chega a Conacri, são e salvo,  a 12 de Janeiro de 1961, doze dias depois de se ter despedido da mãe e dos irmãos em Bissau. Ele e os seus "colegas" da bola...

Antes disso, aos dois grupos (o do BK e do Julião Lopes), reagrupados em Canfandre, junta-se em Boké, um terceiro, também oriundo de Bissau. Formaram um equipa de futebol que ainda disputou algumas partidas. Os “Portuguis Nara” (expressão local, que queria dizer: 'São Portugueses'), com vários titulares da seleção de futebol da província portuguesa da Guiné, foram recebidos com entusiasmo pela população e pelas autoridades  da região de Boké,  não tanto pelo seu ardor nacionalista como sobretudo pelo seu talento futebolístico…

Chegados finalmente a Conacri, foram encaminhados para os serviços de imigração a fim de legalizarem a sua situação. Recorde-se que a Guiné-Conacri tinha-se tornado independente da França em 2 de Outubro de 1958, quase dois anos mais cedo que o Senegal (, que chegará à independência apenas a 20 de Agosto de 1960).


“Comunicaram então ao Cabral a nossa presença na capital guineense” (p.65)… 


BK conhecera o “senhor engenheiro” uns anos antes,  “quando era ainda muito jovem”… [, ou seja, entre 1952 e 1956, quando Cabral trabalhou na sua terra como engenheiro agrónomo, com a sua esposa, Helena, portuguesa]. BK lembra-se de ele lhe oferecer “uma bola” e de organizar “pequenos torneios na Granja do Pessubé para os mais jovens” (p. 65).

Em Conacri, BK e os seus amigos passaram a ficar no “lar do Partido”, que ficava no bairro de Almame-La. Nessa época Cabral preparava os primeiros combatentes da futura “luta de libertação”. Ele próprio vai à China, em Agosto de 1960, pedir apoio, à frente de uma delegação que integra o Luciano N’Dau, o Dauda Bangura e o Joseph Turpin. 


Um segundo grupo segue, no 2º semestre de 1960,  para a China,  para formação político-militar, do qual faziam parte 10 futuros destacados dirigentes do PAIGC, hoje todos desaparecidos, uns em combate outros na "voragem da revolução" (com exceção de Manuel Saturnino da Costa)… Aqui vão os seus nomes, por or ordem alfabética: 

(i) Constantino dos Santos Teixeira (“Tchutchu Axon”);


(ii) Francisco Mendes (“Tchico Tê”) (1939-1978);


(iii) Domingos Ramos (morto, em combate, em Madina do Boé, em 11 de Novembro de 1966);


(iv) Hilário  Rodrigues “Loló” (, comissário político, morreu em 1968, num bombardeamento da FAP, no Enxalé);


(v) João Bernardo “Nino” Vieira (1939-2009) (natural de Bissau; ex-Presidente da República);


(vi) Manuel Saturnino da Costa (será 1º ministro entre 1994 e 1997; ainda é vivo);


(vii) Pedro Ramos (fuzilado em 1977, às ordens de ‘Nino’ Vieira, ao que parece, no âmbito do chamado "caso 17 de Outubro");  


(viii) Rui Djassi (comandante da base de Gampará, morreu em 1964, por afogamento na sequência de um ataque das tropas portuguesas);


(ix) Osvaldo Vieira (1938-1974; morreu, por doença, em 1974, num hospital da ex-URSS, e com a terrível suspeita de ter estar implicado na conjura contra Amílcar Cabral; ironicamente repousam os dois, lado a lado,  na Amura); era também conhecido como "Ambrósio Djassi" (nome de guerra);


(x) Victorino Costa (morto, numa emboscada em 1962, antes do início oficial da guerra, por um grupo da CCAÇ 153 / BCAÇ 237, comandado pelo Cap Inf José Curto; era irmão de Manuel Saturnino da Costa).




“Quinze ou vinte dias  depois da nossa chegada a Conacri  regressou da China este segundo grupo”, esclarece BK  (p. 66).


Os primeiros tempos em Conacri – estadia que se vai prolongar até Outubro de 1961 – foram passados com aulas de “preparação política de base”, dadas pelo próprio Amílcar Cabral … As aulas chegavam a prolongar-se até às tantas da noite. Cabral utilizava, para o efeito, a garagem da casa onde vivia. 


"Aí é que começamos a vida dura de militantes. Cabral dava aulas de conhecimento geral sobre a nossa terra, sobre os motivos porque resolvera lutar contra os Tugas, as injustiças, e dava exemplos práticos que toda a gente compreendia. Falava muito de independência e de liberdade" (p. 66).


À pergunta de NTC sobre se alguma vez o BK teve dúvidas ou quis voltar para trás (“e entregar-se aos tugas”), BK é firme e peremtório, mas sobretudo "politicamente correto" (aos olhos do seu entrevistador, também ele antigo militante do PAIGC, e também ele vítima do golpe de Estado de 'Nino' Vieira), como seria de esperar, de resto, de um homem que passou mais de 13 anos na dura luta de guerrilha:

“Houve momentos de incertezas, felizmente esses momentos foram passageiros. De dúvidas não posso falar. Sabe que eu tenho um princípio que é o seguinte: palavra dada é coisa sagrada. A luta foi difícil, mas nunca pensei em abandonar. Quanto aos desertores, a lei do Partido exigia que fossem executados… Era a lei militar” (p. 67).

Não tenho dúvidas que Bobo Keita, sendo um homem coerente, se tivesse jurado bandeira, nas fileiras do exército português e não se tivesse sentido injustiçado (como aconteceu com o 1º Cabo Miliciano Domingos Ramos, vítima de racismo, segundo o depoimento do seu amigo Mário Dias), nunca teria chegado a comandante do PAIGC... Bobo Keita, por outro lado - é bom recordá-lo - foi dos poucos guineenses que, opondo-se ao golpe de Estado do guineense 'Nino' Vieira contra o caboverdiano Luís Cabral, se exilou voluntariamente, em Cabo Verde, em 1998, para vir morrer no país dos  tugas, em 2009...

Luís Graça,

Quinta de Candoz, Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, 27/10/2011

(Continua)

[ L.G. segue a nova ortografia. Respeita, no entanto, a ortografia antiga nas citações de outros autores ou fontes]

Guiné 63/74 - P8960: Antologia (73): Tarrafo, crónica de guerra, de Armor Pires Mota, 1ª ed, 1965 (7): Ilha do Como, 24 de Fevereiro e 1 de Março de 1964


Guiné > Região de Tombali > Ilha do Como >  Op Tridente > Jan/Mar 1964 > Desembarque anfíbio das NT. Foto publicada na 2ª edição de Tarrafo (Braga, Pax Editora, 1970), em anexo, com a seguinte legenda: "4. Quando a água sobe os joelhos e a cintura. Ilha do Como, 1964".

Foto: © Armor Pires Mota (1970-2011) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.





Fonte: © Armor Pires Mota (1965-2011) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.


1. Continuação da publicação de Tarrafo:  crónica de guerra, de Armor Pires Mota, 1ª ed., ed. de autor, Aveiro, 1965. Parte 2 (Ilha do Como, Jan / Mar 1964), pp. 75-78. (*)




2. Paralelamente estamos a seguir a crónica de outro combatente do Como, o Mário Dias, hoje sargento comando reformado, membro da nossa Tabanca Grande, desde a I Série do blogue. Em relação a este período (de 27 Fevereiro a 1 de Março de 1964), selecionámos o seguinte excerto (o resto pode ser lido na I Série do nosso blogue, aqui):


(...) Voltemos então para a praia.

Decididamente não me concedem o prazer de me entregar nos braços de Morfeu tranquilamente.
- Eh pá, ainda só são cinco horas.
- Deixa-te de tretas e vamos embora. Temos que explorar uma informação importante dada pelo prisioneiro que capturámos no dia 27.
- É isso? É para já.
Enfiar camuflado, botas, pegar no equipamento e armamento. Está tudo em ordem? Claro que está. A arma de um comando está sempre junto dele e pronta a funcionar ao segundo.

Progressão silenciosa, escondidos, calma, devagar, parar e escutar com frequência. Sem surpresa é impossível um golpe de mão bem sucedido.

Acampamento atingido e assaltado às 9 horas, praticamente sem resistência (o IN fugiu). Era constituído por cerca de 50 casas de mato com uma centena de camas de madeira e de ferro. Viva o luxo!...até havia mosquiteiros, colchões, lençóis, colchas e outras “mordomias”. Espalhados por diversos locais, máquina de escrever, máquinas de costura, roupa já confeccionada e peças de tecido, muitos livros de instrução primária em português, muita correspondência, e os habituais utensílios de uso doméstico. O acampamento estava rodeado por alguns abrigos e tinha postos de observação nas árvores.

Incendiadas as casas de mato começou o habitual estoiro de munições e granadas que ali se encontravam escondidas escapadas à nossa observação.

Nas proximidades estava um cemitério com 30 sepulturas recentes.

Desta acção, realizada no dia 1 de Março, trouxemos para a base (rica praia!): 1 cunhete com 800 cartuchos 7,9; 80 cartuchos 7,62; muitas munições de diversos calibres; 1 granada de mão incendiária; 1 cantil USA; catanas.

Aos poucos, a forte resistência inicial do PAIGC vai caindo por terra. Mostram já sinais evidentes da falta de agressividade, que é parte da doutrina da guerrilha: “ataca quando o IN está fraco; esconde-te se ele é mais forte”.

Mensagem de Nino aos seus guerrilheiros em poder de um prisioneiro por nós capturado:

“Hoje faz 48 dias que os nossos camaradas estão enfrentando corajosamente as forças inimigas. Camaradas, tenham paciência, porque não tenho outra safa senão o vosso auxílio… As tropas estão a aumentar cada vez mais as suas forças…camaradas, não tenho mais nada a dizer-vos, somente posso dizer-vos que de um dia para o outro vamos ficar sem a população e sem os nossos guerrilheiros. Já estamos a contar com as baixas de 23 camaradas… do vosso camarada, Marga - Nino “,

Emboscadas do grupo de comandos na mata de S. Nicolau, na noite de 5 de Março até à tarde do dia seguinte, mais uma vez os guerrilheiros não compareceram. (...)
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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 24 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8943: Antologia (73): Tarrafo, crónica de guerra, de Armor Pires Mota, 1ª ed, 1965 (6): Ilha do Como, 17 e 23 de Fevereiro de 1964


Com a amável autorização do autor, o nosso camarada  bairradino Armor Pires Mota, começámos, a partir de 14 do corrente, a publicar as crónicas do Tarrafo, relativas à Op Tridente, na Ilha do Como (15 de Janeiro a 15 de Março de 1994), recorrendo para o efeito a um exemplar, fotocopiado, da primeira edição do livro (pp. 47 a 85), onde ainda são visíveis as marcas do lápis azul da censura.  

Recorde-se que o livro foi retirado do mercado, logo a seguir à sua entrada nas livrarias, em Outubro de 1965, muito embora o autor já tivesse publicado estas mesmas crónicas num jornal da sua  região, o Jornal da Bairrada. Hoje, é praticamente impossível encontrá-lo, a não ser nalgum alfarrabista da região centro.

Na 2ª edição, autorizada, publicada em 1970 [, foto da capa à esquerda,] estas duas crónicas tiveram tratamentos diferentes: a primeira (A Praia) foi reformulada, eliminando-se as referências ao cansaço, ao desalento e à inoperacionalidade (parcial) das NT, ao fim de de mais de um mês de desembarque na ilha do Como (a 15 de janeiro); a segunda crónica (Oração) foi pura e simplesmente eliminada...

Em lado nenhum deste livro, que é um diário de guerra, se fica a saber os resultados finais da operação, e nomeadamente as baixas, de um lado e do outro: por exemplo, que num total de 1100/1200 homens desembarcados na ilha, houve cerca de 200 que foi evacuados por doença, insolação, esgotamento, etc.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8959: (In)citações (35): Ainda a Mutilação Genital Feminina (MGF), Excisão ou Fanado Feminino (J. Pardete Ferreira)



S/l > s/d > "Esta é uma imagem do 'peditório' para ajudar o 'ronco' do fanado. Neste caso masculino". [Imagem possivelmente retirada do livro Le noir d'Afrique, 1943].






Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto ou Canchungo > 1969 > "Nha manjaco arfero Mil Médico José Pardete Ferreira com mininos pró fanado fora do arame farpado"


Fotos (e legendas): © J. Pardete Ferreira (2011). Todos os direitos reservados.

1. Sobre o tema  candente, atualíssimo, da Mutilação Genital Feminina - problema de grande conflitualidade teórico-etnológica, de saúde pública, de direito penal e de direitos humanos - , já aqui abordado diversas vezes no nosso blogue, recebemos ontem, 27, o seguinte texto do nosso camarada, médico, reformado, José Pardete Ferreira (ex- Alf Mil Med, CAOP, Teixeira Pinto; HM241, Bissau, 1969/71):


Assunto - Ainda sobre a  MGF

A MGF [, Mutilação Genital Feminina], por vezes chamada de Excisão e mais raramente Fanado Feminino, pese embora o facto de, nos tempos que correm, ser uma verdadeira barbaridade, na sua origem foi uma necessidade fisiológica.


Assim, [apontam] os estudos antropológicos dos médicos do Serviço de Saúde das Colónias, quase todos, se não mesmo todos médicos, médicos do exército francês. 

Este texto é apenas uma súmula extraída do livro Le noir d’Afrique, anthropo-biologie et raciologie, escrito pelo Dr. G. Lefrou, Médico Chefe de 1ª classe do Corpo de Saúde Colonial, distinguido pelo Instituto e pela Academia das Ciências Coloniais. O livro foi publicado em 1943 pelo editor Payot, Paris [429 pp.], vd. páginas 235/236. [, foto da capa à esquerda].

Quanto ao citado, encontramos o facto de, na Abissínia, Somália e certas regiões do Sudão, as mulheres terem um clítoris de tal maneira desenvolvido que fazia lembrar a dos indivíduos hermafroditas. No coito, tal anomalia tornava extremamente difícil a penetração do pénis na vagina, com todas as consequências que tal situação implica, nomeadamente a propagação da espécie, pelo que a MGF se tornou uma necessidade.

Vem descrito por Loth, publicado por Hyrtl em 1881,  que quando o cristianismo foi introduzido na Abissínia [, hoje Etiópia,] , a Igreja proibiu esta mutilação, o que provocou a revolta dos homens e teve como consequência o envio pelo Papa de uma missão especial que inquiriu e acabou por aprovar a necessidade de tal operação.

Assim, o que foi uma necessidade fisiológica, rapidamente se espalhou por toda a África, passando a aplicar-se a torto e a direito, de forma indiscriminada, nalguns casos por espírito de imitação, eventualmente tornado religioso, entre as etnias animistas e algumas muçulmanas (esta última citação é minha e não vem no texto).

José Pardete Ferreira

Guiné 63/74 - P8958: Blogpoesia (162): Lama, sangue e água pura (António Graça de Abreu, Cufar, 27 de Agosto de 1973)


Guiné > Região de Tombali > Cufar > 1973 > CAOP1 > António Graça de Abreu  no rio Cumbijã... Atrás, um barco com "a  bandeira portuguesa e a bandeira branca, da paz".



Foto (e poema)s: © António Graça de Abreu (2007-2011). Todos os direitos reservados.



Lama, sangue e água pura (*)




A voz ágil ondulando no corpo da paisagem,
palavras, meninos a brincar,
sonhos magoados esfacelados no suor do vento,
a catarse pelo asco e a miséria.
O acordar das florestas, o chilrear dos pássaros,
o escorraçar do tédio, fome de paz e sol.
Os pedaços de medo à solta pelos dias,
os atalhos da ternura acorrentada,
os lábios abertos às tempestades de fogo,
os rios de lama, sangue e água pura.


Cufar, 27 de Agosto de 1973


António Graça de Abreu. In: Diário da Guiné: lama, sangue e água pura. Lisboa: Guerra e Paz, 2007, p. 143.
_________________


Notas do editor:


(*) É um dos raros poemas do autor que vem no seu Diário da Guiné... Fomos recuperá-lo. Para a futura antologia dos poetas da Tabanca Grande (**)... Foi escrito em Cufar, em 27/8/1973.  O título é da nossa autoria... Fomos buscar o último verso que, curiosamente, também foi escolhido por AGA para subtítulo do seu diário... Espero que ele nos perdoe esta ousadia...



(**) Último poste da série > 27 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8953: Blogpoesia (161): Hino aos combatentes do Ultramar (J.L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil, CCAÇ 728, Como, Cachil e Catió, 1964/66)



Guiné 63/74 - P8957: Caderno de notas de um Mais Velho (Antº Rosinha) (16): O Grito de Ipiranga das Colinas do Boé



Capa da revista mensal, editada em francês, PAIGC Actualités (dedicado à vida e à luta na Guiné e Cabo Verde), nº 54, Outubro de 1973. Título (em cima): 


"Reunida a 24 de Setembro, na região do Boé, a 1ª Assembleia Nacional Popular da história do nosso povo proclamou às 8h55 GMT o Estado da Guiné-Bissau". 


 A capa traz em grande plano a imagem de Amílcar Cabral, "o líder muito amado do nosso povo", que foi proclamado "fundador da Nação", tendo passado o dia do seu nascimento (12 de Setembro) a ser feriado nacional. (LG)


Imagem: © Magalhães Ribeiro / Luís Graça & Camaradas da Guiné (2008). Todos os direitos reservados.



1. Comentário de António Rosinha, de 21 do corrente, ao poste P8930:




A motorizada da Tina [Kramer] que foi à procura da história, faz-me lembrar as comemorações do 24 de Setembro por Luís Cabral em 1980, que tentou organizar uma comitiva de Volvos e várias carrinhas, para ir a Madina do Boé.


Nesse tempo ainda não tinham aparecido os Pajero, eram os Volvos pretos e carrinhas Peugeot.


Como sabemos, as chuvas na Guiné vão de Maio a Novembro. Pensar ir àquela região, de Volvo e umas tantas carrinhas sem tração às 4 rodas, em Setembro, só mesmo na euforia daquele PAIGC de Luís Cabral.


Talvez com a humildade de mais "motorizadas" e de uns burritos do Gabu Sara, o Luís chegasse mais longe do que com os Volvos, para bem da Guiné.


Claro que ao fim do dia as estórias que se contavam era que poucas viaturas nem a Bafatá chegaram pois que,  a partir de Mansabá, acabava o asfalto, e começavam as "lagoas".


Mas nesse tempo como hoje nunca existiu na Guiné, nem da parte do povo nem do partido, qualquer preocupação em localizar nem no tempo nem no espaço esse lugar além Corubal.


Nas Nações Unidas é que convinha oficializar o facto. E talvez esse facto é que terá consagrado a existência definitivamente no âmbito internacional, não só de um país que se chamaria Guiné-Bissau, mas de 5 países africanos de língua portuguesa.


Onde se deu o "Grito do Ipiranga" de Angola, Moçambique, Caboverde e São Tomé? Não teria sido nessa tal de "Colinas do Boé"? Se até temos fotos dos protagonistas da cerimónia, porque duvidar?


Contam os brasileiros, sobre o "Grito do Ipiranga, Independência ou Morte", como piada para o qual estão sempre dispostos, que Dom Pedro,  em passeio a cavalo nas margens plácidas do Ipiranga, fez alto à comitiva que o acompanhava, e de urgência salta do cavalo e vai a correr atrás de um arbusto e dá um grito... mas de alívio!


No fim de tudo e de tantos sacrifícios, foi pena que a Guiné, os outros 4 e nós aqui não tivéssemos o juizinho e o cuidado na governação, que tiveram os Caboverdianos, numa terra "inimaginável". (**)
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Notas do editor


(*) Vd. poste de 20 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8930: A nossa expedição à Guiné (Tina Kramer) (2): Bula e Cacheu (de 12 a 18 de Abril de 2011)


Guiné 63/74 - P8956: O Nosso Livro de Visitas (118): Cândido Filipe da Cunha, ex-Fur Mil da CART 11 (CART 2479) (Canquelifá)

1. Mensagem do nosso leitor e camarada Cândido Filipe da Cunha, ex-Fur Mil da CART 11 (CART 2479), Canquelifá, com data de 8 de Março de 2011:

Recordarei sempre o 1.º Cabo Laranjo* que, dias antes, me tinha tratado do paludismo e fazendo planos para vir à metrópole conhecer a filha, me ia mostrando a foto da bebé que tinha nascido há oito dias.

Tinha eu já entrado (Canquelifá), e tomava duche, quando ouvimos os rebentamentos.

O Cabo Laranjo foi um dos mortos e vi-o chegar deitado num Unimog...

Recordações muito tristes.

Abraços de
Candido Filipe da Cunha
Ex-Fur Mil da CART 11 (CART 2479)
____________

Notas de CV:

(*) Vd. no poste de 30 de Agosto de 2010 Guiné 63/74 - P6910: Falando do BART 2857, da CART 2479, da CART 11 e da CACAÇ 11 (J. M. Pereira da Costa):

[...]
Agora sou eu, Pereira da Costa: vou ter que ler as histórias do Renato Monteiro e a História da Unidade da CArt 2479, se alguém me facultar, pela razão que vou descrever.

O BArt 2857 iniciou o seu próprio blogue em 20 de Setembro de 2009. Acompanhamos outros, em especial, o vosso que me caiu de pára-quedas no meu email.

Estamos a preparar publicações entre elas uma de um acidente ocorrido, em 05/07/1969, na estrada Dunane/Canquelifá por accionamento de minas A/C sob Unimogs, onde estiveram envolvidas forças da CArt 2439, sediada em Canquelifá, pertencente ao BArt 2857 e forças da CArt 2479 / CART 11; pelo facto ocorreram mortos e feridos em número elevado, em ambas as forças com mais peso na CArt 2479 (pessoal ultramarino).

A publicação será em memória de um 1.º Cabo da CArt 2439*, porque quando a lerem compreenderão a razão. Contudo não queremos esquecer os africanos e um metropolitano da CArt 2479. Para isso para além de informação e fotografias que já possuímos, gostariamos de as ter da CArt 2479, pois esta esteve como Companhia de Intervenção durante certo tempo (???) adstrita ao BArt 2857, em Piche.

Apelo a quem puder contribuir com informação e fotografias que o faça ou indique os contactos para as obter.
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- Sobre a morte do 1.º Cabo Laranjo, vd. Poste de 14 de Fevereiro de 2010 > CANQUELIFÁ (Cart 2439) - B0 - Em memória a José Manuel Justino Laranjo ... e a todos os outros. (I) no Blogue do BART 2857

Vd. último poste da série de 5 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8860: O Nosso Livro de Visitas (117): Samuel Vieira, guineense da diáspora, engenheiro informático no Brasil, elogia o nosso blogue

Guiné 63/74 - P8955: Notas de leitura (295): Guiné - Apontamentos Inéditos, por General Henrique Augusto Dias de Carvalho (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Outubro de 2011:

Queridos amigos,
Estes apontamentos inéditos do general Dias de Carvalho que viveu na Guiné no final do século XIX constituem uma retumbante surpresa. O general percorreu o território continental e ilhas de lés a lés e deixou um documento manuscrito extraordinário, pelo pormenor e pela confiança depositada nas potencialidades da terra.
Devia ser lido por todos os guineenses, seguramente que esta leitura iria contribuir para o seu amor pátrio. Viveu ali dois anos a estudar culturas e perspectivas de desenvolvimento, mostrou querer conhecer o homem, os seus usos e costumes, a agricultura a hidrografia e até a etnografia e a etnologia.
Se fosse reeditado, este livro teria certamente farto acolhimento.

Um abraço do
Mário


A Guiné do final do século XIX, segundo o general Dias de Carvalho

Beja Santos

“Guiné, apontamentos inéditos”, de autoria do general Henrique Augusto Dias de Carvalho (edição da Agência Geral das Colónias, 1944) é um relato que não pode deixar insensível seja o investigador seja o amante das coisas guineenses. Este distinto oficial general cumpriu missões a fio por terras do Império.

Nascido em 1843, aparece em Macau em Fevereiro de 1867, encarregado de dirigir duas escolas regimentais e o serviço das obras públicas, e em 1872 foi nomeado condutor-chefe da colónia. Em 1877, foi nomeado para Moçambique, como administrador de concelho. Em 1878 passou para Angola entrando para o serviço das obras públicas de Luanda. Em 1884, organizou uma expedição científica às terras da Lunda, é um período em que se enche de prestígio quer pelos tratados celebrados, quer pela paz que obteve entre os povos da região, o reconhecimento da soberania portuguesa quer pelos estudos de valor científico extraordinário que realizou de colaboração com Luciano Cordeiro, Serpa Pinto, Capelo e Ivens, entre outros. Em 1895 é nomeado governador de um novo distrito e em 1889 escreve um livro fundamental A Lunda, onde demonstrou que aquela região fazia parte do Império português.

Em 1898 foi convidado pelo Marquês de Liveri a organizar com Vitor Cordon a Companhia de Comércio e Exploração da Guiné. Recorde-se que perto do final do século o futuro do desenvolvimento da Guiné era um verdadeiro quebra-cabeças, reabilitou-se a ideia das empresas majestáticas, o comércio guineense era na época liderado por franceses e alemães que se embrenhavam nos rios e rias. O general Dias de Carvalho desentendeu-se com o projecto do Marquês de Liveri, considerou inaceitável uma administração exclusivamente belga em território colonial português. Nesses cerca de dois anos que esteve na Guiné reuniu apontamentos científicos e tomou inúmeras notas que foram dadas à estampa neste livro editado em 1944. O general veio a falecer em 1908 e era possuidor de uma folha de serviços impressionante, tendo sido galardoado como homenagem póstuma, em 1934, com a ordem do Império Colonial.

O primeiro capítulo é dedicado à história da Guiné, não vale a pena determo-nos aqui, basta recordar que Avelino Teixeira da Mota, com o rigor científico que timbrava a sua investigação, escreveu em 1954 uma obra histórica definitiva que não tendo arrumado totalmente com as especulações e inúmeras lacunas (sobretudo ao nível da história anterior à presença colonial portuguesa) deixou esclarecido e arrumado o essencial sobre o descobrimento e história política posterior.

O capítulo seguinte é dedicado às ilhas e aqui o general, bem documentado, fala do sangue, suor e lágrimas que foi construir a fortaleza de Amura em S. José de Bissau. Escreve ele: “Durante a construção foi vitimado um batalhão completo de Cabo Verde com o seu comandante e governador, batalhão que foi substituído por um outro, tendo este e o anterior de combater de dia e de noite durante dois anos. A parte que ocupámos e ainda hoje ocupamos nesta ilha é limitadíssima; reduz-se a uma pequena área de 480 metros de cumprimento por 240 de largura, em que assenta a povoação mal alinhada, com algumas habitações de construção razoável, a maioria de paredes de adobes e também de palhoças”.

Refere a permanente instabilidade do viver dentro daquela praça-forte, com os Papéis sempre em desacato, a quem o governador Joaquim Correia e Lança apelida de “gentio traiçoeiro, cobarde e atrevido”. A vida fora de Bissau era praticamente impossível: “A população de Bissau quer expandir-se mas não se atreve. Muitos negociantes querem fundar feitorias agrícolas no interior da ilha mas não se arriscam no meio daquelas hortas selvagens. Na minha opinião deve ocupar-se militarmente a ponta do Biombo e o alto do Bandim, construindo-se pequenos fortes de onde a artilharia domine uma vasta extensão”.

É minuciosa a descrição das ilhas, seguramente que o oficial general pretendia fazer um levantamento de todas as potencialidades. O terceiro capítulo é dedicado à população, tem interesse pela observação e ingenuidade, se bem que etnográfica e antropologicamente esteja cheio de erros. Mas é bonito o que escreve, como se exemplifica: “O Fula é de cor, amarelo carregado ou mais propriamente vermelho acobreado, lábios delgados, dentes verticais, cabelos lisos que usam entrançados, com mais ou menos arte, feições inteligentes, extremidades finas, formas de corpo esbeltas e corpulência mediana. As mulheres são verdadeiros tipos de formosura cuja correcção de formas atrai a atenção”. Vai por aí fora, descre os Mandingas, os Beafadas, os Papéis, os Gurmetes, os Banhuns, os Balantas (são os povos mais democratas da Guiné: vivem em diversas povoações independentes entre si; não têm constituição política e nem reconhecem chefes de espécie alguma, cada Balanta é unicamente chefe da sua família), os Nalus e os Bijagós. E depois fala na lenda do Deus Branco. Tudo começara nas margens do Geba, ele viera das regiões do Norte, precedido de grande fama. O Deus Branco era contra o irã, e pregava a sua doutrina: quem tem muito reparte com quem não tem; ninguém pode matar o seu semelhante; as espingardas e pólvora só servem para festejos e defesa contra as feras; todos devem beber da água do Deus Branco, os que sobrevivem são considerados seus filhos. A fama desta entidade chegou a toda a parte. Dispôs-se a visitar os Bijagós mas recearam-se grandes complicações pelo fanatismo do irã e o Deus Branco desapareceu.

Escreve Dias de Carvalho: “Falando sobre este assunto com o Vigário Geral da Guiné, facultou-nos a leitura de um relatório do padre Henrique Lopes Cardoso, pároco do Cacheu, percorreu os diversos grupos de casas e foi recebido com regozijo geral”. É bem provável que se tratasse de um missionário francês proveniente da Senegâmbia, bem preparado para comunicar com a população nativa.

A seguir, o autor lança-se em vegetais conhecidos na Guiné e fica-se com a boca à banda. Ele escreve textualmente: abóboras, agriões e alface; algodão, ananás, arroz, bananeira e beldroegas, cacau, café, caju, couves, feijão, inhame, laranjeiras, mancarra, mandioca, mangueira, milhos, papaia, tabaco, tomateiro. Aparentemente, e segundo o seu relato, muitas das culturas europeias eram possíveis na Guiné. Falando da fauna, refere bois e búfalos, cabras e carneiros, burros e cavalos, elefantes, suínos, gazelas e veados, inúmeras aves, répteis e insectos. Estranhamente, é parcimonioso a falar do peixe: badejo, choco, dourada, garoupa, pargo e sarda. E diz laconicamente: há alguns mariscos e caranguejos. Misturado com o peixe, mas no contexto da fauna, refere a baga-baga como um dos maiores obstáculos aos trabalhos agrícolas.

(Continua)
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 24 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8942: Notas de leitura (291): Arquitectura Tradicional da Guiné-Bissau (Mário Beja Santos)

Vd. último poste da série de 27 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8952: Notas de leitura (294): De campo em campo: conversas com o comandante Bobo Keita, de Norberto Tavares de Carvalho (Parte III): Cupelom, Pilum, Pilom, Pilão..., um bairro que dava de tudo, fervorosos muçulmanos, bajudas giras, futebolistas talentosos, destacados militantes do PAIGC, bravos comandos africanos... (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P8954: Parabéns a você (330): Jorge Fontinha, ex-Fur Mil da CCAÇ 2791 (Guiné, 1970/72) e Luís Marcelino, ex-Cap Mil, CMDT da CART 6250 (Guiné, 1972/74)

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Nota do Editor:

Vd. último poste da série de 20 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8929: Parabéns a você (329): Rogério Cardoso, ex-Fur Mil da CART 643/BART 645 (Bissorã, 1964/66)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8953: Blogpoesia (161): Hino aos combatentes do Ultramar (J.L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil, CCAÇ 728, Como, Cachil e Catió, 1964/66)

1. Recuperação de um poema do nosso camarada J. L. Mendes Gomes, já aqui publicado no poste P1646 (*)... Esperemos que esta nossa série, Blogpoesia, um possa um dia dar à luz um livro de antologia dos nossos poetas...


O nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes, hoje jurista, reformado,  foi Alf Mil da CCAÇ 728, Os Palmeirins de Catió, (Como, Cachil e Catió,  1964/66)





HINO AOS COMBATENTES DO ULTRAMAR (**)
por J. L. Mendes Gomes


1


Corriam os anos sessenta.
Os clarins da guerra ressoaram, frementes,
Nos céus de Portugal, há muito,
Por artes do divino, do fado ou do destino,
Uma terra de paz, alegria e brandas gentes.


A cobiça de corsários, falsos,
Arautos de ideologias, vãs e malsãs,
Da igualdade e da fraternidade,
Servos do capital, cego e voraz,
Só do ouro, petróleo e diamante,
Da madeira, rica e do minério abundante,
Em filões,
Vestiu, de agna pele, e fez aliados,
Os eslavos cegos, os ianques e os saxões.


2


Avançar p'ràs terras da Índia, distantes,
E africanas, bem portuguesas.
Já e em força.
Foi o grito, presidente.
Imperativo, indiscutível, se tornou.
Defender as gentes e os haveres,
Muitos e imensos,
Até ao extremo,
Como glórias, lusas e sacras. Nossas.
Foi o lema, pronto e certo!


Queira ou se não queira,
A história do porvir, logo, aberto,
Bem claro, o demonstrou:


3


Aos sonhos do trabalho, da escola e da esperança,
Na flor d'aurora e no fulgor primeiro,
As gerações sucessivas, a gente jovem,
Pronta e digna, disse, adeus…


Vestiu farda e pegou armas, de guerreiro.
Fez-se aos mares, rasgou os ares,
Correu riscos…tantos… sofreu tormentos.
Só Deus o sabe…
Ofereceu tudo, a saúde e a vida, pela Paz!
Oh! Loucura e vã tristeza!… Para quê?!…
Tudo… em vão!


4


Com os ventos da discórdia,
Em desvario e revolução,
Não foi a mesma a pátria que os acolheu!
A que os mandou à guerra,
Cobarde e lesta, se despediu…
De tudo, aquela, hipócrita, se esqueceu.
Ou, bem pior, tudo… denegriu:
O sangue, o suor e as lágrimas,
Que Portugal, inteiro, verteu.
Ficou tudo letra morta…


5


Desfeitos os sonhos, a noite de breu
Dos novos mundos, incertos,
Pós-revolução,
Toldou-lhes as vontades traídas
E, em pé de igualdade, abertos
Foram os caminhos da fortuna,
Da escola e do sucesso…
Como se nada fosse e nada houvesse,
Ou
Do zero, tudo começasse…


Oh!…Vil e imperdoável traição,
A desta pátria, secular…
Que tão ingrata se tornou
Para os guerreiros nobres do ultramar!?…


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Notas do editor:


(*) Vd. poste de 5 de Abril de 2007 >  Guiné 63/74 - P1646: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (11): Não foi a mesma Pátria que nos acolheu


(**) Último poste da série > 18 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8789: Blogpoesia (160): Na morte de Mamadú Baldé, descendente do régulo Monjur: E o poeta pegou num pedaço de papel e escreveu (Artur Augusto da Silva)

Guiné 63/74 - P8952: Notas de leitura (294): De campo em campo: conversas com o comandante Bobo Keita, de Norberto Tavares de Carvalho (Parte III): Cupelom, Pilum, Pilom, Pilão..., um bairro que dava de tudo, fervorosos muçulmanos, bajudas giras, futebolistas talentosos, destacados militantes do PAIGC, bravos comandos africanos... (Luís Graça)

1. Continuação da leitura do livro de memórias do Bobo Keita (*)...

Norberto Tavares de Carvalho (abreviadamente, NTC) dedica bastante tempo e espaço à infância, adolescência e juventude de Bobo Keita (abreviadamente, BK). Grosso modo, até aos seus 21 anos, quando BK, jogador do Sport Bissau e Benfica,  decide “mudar de campo”. São cerca de 50 páginas, de um total de 300 (pp. 18-68). (*)



NTC nem sempre segue um fio condutor, lógico e cronológico, na longa entrevista (ou série de entrevistas) que ao longo de 2 anos conduziu com o comandante do PAIGC, até praticamente às vésperas (18/12/2008) da sua morte (que ocorreu em 29/1/2009, num hospital dos tugas).  


Há saltos e desvios, muitas vezes impostos pelo discurso torrencial do entrevistado. De qualquer modo é prodigiosa a memória de BK, capaz de recordar com grande acuidade e vivacidade episódios dos seus primeiros anos de vida, além de datas, lugares e nomes (para não falar já da sua dura vida como combatente e dirigente do PAIGC).


O livro, edição do autor [, aqui na foto à esquerda, com o seu amigo e nosso camarada A. Marques Lopes, em Lisboa, no verão de 2008] está dividido em cinco partes, por sua vez subdivididas em pequenos (às vezes minúsculos) capítulos: 


- De Sundiata Keita a Kwame Nkrumah (Parte I, pp. 18-46);
- Das rotas do sul ao tráfico de armas (Parte II, pp. 47-121);
- Cerco à volta de Amílcar Cabral (Parte III. Pp. 122-180);
- Aviões de caça, Mig 21 prontos a descolar (Parte IV, pp. 181-236);
- e Guerrilheiros caídos no campo da honra (Parte V, pp. 237-246).

Num total são cerca de 250 pp., com o epílogo e o posfácio (, da autoria do A. Marques Lopes). O resto são anexos, alguns despropositados, como as dez páginas de listas nominais não só dos governadores da Guiné e Cabo Verde, como dos presidentes e primeiros ministros destes dois novos países lusófonos. Despropositados, porque o horizonte temporal das conversas de NTC com BK vai dos seus primeiros anos de vida (ele nasceu em 1939) até à partida do último Governador português, Carlos Fabião, em Outubro de 1974.


Ao longo do texto, e inseridas no corpo do livro (e não em rodapé, como deveria ser) também há muitas notas, algumas bastante extensas e espúrias, com informação recolhida pelo autor (por ex., sobre o Cupelom, o futebolista Joãozinho Burgo, a PIDE) ou extraída de outras fontes secundárias (desde o livro de Luís Cabral, Crónica da libertação,  ao nosso blogue, passando pela Wikipédia), notas essas que cortam o fio e o ritmo de leitura.


Vamos tentar reorganizar e resumir a informação, de modo a perceber, por exemplo, a decisão do BK de se juntar, em Conacri, ao movimento liderado por Amílcar Cabral.


BK nasceu em 24/9/1939 no Cupelom de Baixo. Num das suas notas intercalares, NTC diz que o Cupelom era, desde os anos 40, um dos bairros mais populares e povoados de Bissau. Estava dividido em 2 partes, a de cima e a de baixo. O topónimo Cupelom foi imposto pela autoridade colonial. Para os seus habitantes, era o Pilum (ou Pilom). em crioulo. Os tugas, como eu, conheciam-no simplesmente como Pilão.


O pai era alfaiate e a mãe doméstica. A origem do pai remonta ao Mali, mas nasceu perto de Boké, na Guiné-Conacri, e onde o PAIGC vai ter uma base militar importantíssima. A mãe de BK, a quem o ligavam fortes laços afetivos, era oriunda de Bissau. A família era muçulmana, praticante.


BK tinha mais 3 irmãos, um rapaz e duas raparigas. O rapaz e uma das raparigas, esta como “socorrista”, também participaram na “luta de libertação”. De acordo com a tradição africana, BK deveria seguir a profissão do pai, que foi alfaiate por conta própria mas também assalariado da empresa francesa NOSOCO.

A família vivia numa casa de colmo, sem água, sem saneamento básico, sem luz elétrica. BK andava descalço, e de calções. As primeiras sandálias que teve foi na “escola do Padre” (p. 24).


Não conseguiu matricular-se na escola pública, de modo a poder frequentar o ensino primário. Alega que na escola primária, em Bissau, ao tempo (do Governador Sarmento Rodrigues, 1945-1950), “só aceitavam alunos da praça” (sic”), “filhos de funcionários [públicos e empregados das casas comerciais] e gente de primeira classe” (p. 28). Pelo que teve de ir bater à porta da escola das Missões Católicas.


Na “escola do Padre” (sic)  obrigaram-no a tirar o bilhete de identidade e adotar um nome português. O seu padrinho de ocasião, Padre Henrique Santos, “sem mais cerimónias pôs-me o nome de Henrique Santos Keita” (p. 28).


Na “escola do Padre” não havia turmas mistas (tal como não havia em lado nenhum, no Portugal da época, do Minho a Timor, segundo julgo saber). Além disso, BK era obrigado a ir à missa dominical e a fazer prova disso, sob a forma de senha de presença, a apresentar na 2ª feira seguinte, no início das aulas. Quem não ia à missa, apanhava falta.


BK devia ter nessa altura 9 anos. Estaríamos, portanto, em 1948 (p.29). A obrigação de ir à missa dominical (e eventualmente  o risco de ver o filho convertido ao cristianismo) encontrou no pai, fervoroso muçulmano, uma forte resistência. Felizmente que BK pôde contar com  o bom senso, a compreensão, a tolerância e a caridade do missionário. Foi dispensado de frequentar a igreja, atendendo que era um aluno com bom aproveitamento e assiduidade.


"Mas só fiz a escola primária" - acrescenta BK.  "Não cheguei a ir ao Liceu. Resolvi dedicar-me ao futebol. De qualquer modo,  diziam que o Liceu não era para  os coitados, pois aí só chegavam gente da praça, filhos de funcionários e malta bem situada" (p. 29).


BK tinha uma noção clara do seu lugar na fortemente estratificada sociedade colonial da época, tendo aprendido bem a lição de Amílcar Cabral, seu futuro professor em Conacri. "Na escala social daquela época colonial vinha logicamente a classe  representada pelos portugueses. Qualquer indivíduo, seja ele pobre e analfabeto ou abastado e instruído, uma vez que era branco ocupava um lugar social superior a todas as outras classes" (p. 54).


A seguir vinham os "grumetes", em geral portadores de nomes e apelidos portugueses e que tinham um papel auxiliar na administração colonial. Por fim, vinham "os negros civilizados que tiveram acesso à escola,  falam um bom português, vestem-se e comportam-se na sociedade como estes" (p. 54). Na base da pirâmide, estavam por fim os "gentios", a grande maioria dos guineenses que não eram "assimilados".


O gentio, segundo BK, era também designado por "indígena": nativo, animista, pagão, idólatra, "senão selvagem, bárbaro e sem bilhete de identidade", logo socialmente marginalizado, a não a ser para "pagar imposto"... Era gente, como os balantas, onde o PAIGC vai recrutar a sua base de apoio, os seus homens do mato... "Alguns deram bons militantes e quadros" (p. 55).






Guiné-Bissau > Bissau, capital do país > Planta da cidade, pós-independência. (Vd. mapa ampliado na página sobre sobre Bafatá e Bissau)

Cortesia de A. Marques Lopes (2005)





Sobre o bairro do Cupelom (ou Pilão, para os tugas), diz o NTC em nota intercalar: "As ruas não tinham nome, mas todos sabiam quem morava e onde. Neste bairro avizinhavam-se diversas classes e etnias que viviam em perfeita comunhão (...)". 


Havia uma numerosa comunidade muçulmana (ou islamizada), tanto no Cupelom de Baixo como no de cima, a par de cristãos e animistas, em especial Mancanhas no Cupelom de Baixo. Com o início da guerra colonial,  vieram outras gentes, mas o bairro continuou a ser  predominante de população islamizada. De dia, era um bairro com vida própria, com muita azáfama. À noite, enchia-se "dum certo secretismo ligado não só ao sector das ditas 'mulheres de vida' - escreve NTC com algum pudor - mas também às estranhas reuniões furtivas onde se falava de assuntos guardados preciosamente longe de orelhas indiscretas" (p. 56).

O Cupelom, para além de ter sido um "enorme canteiro de gente feminina que perfumava o bairo" (sic),  foi um viveiro de jogadores de futebol mas também de combatentes, quer de um lado quer do outro. "Vários  dos melhores jogadores de futebol foram aí recrutados, os mais destacados combatentes do PAIGC tiveram aí as suas influências e conhecidos elementos dos Comandos Africanos também aí fizeram história" (NTC, p. 56).

BK recorda com saudade os seus tempos de infância e adolescência no Cupelom.  Pilum era um bairro lindo, a gente hospitaleira, a juventude unida,  os  mais velhos protegiam os mais novos... Também tinha as suas histórias de conflitos de territória, por causa das "moças de outros bairros" (p. 57)...


Era, por outro lado, um lugar de passagem e de encontro, obrigatório, "para os que habitavam nos bairros circundantes" (Santa Luzia,  Plubá, Penha, Péfine, Calequir, etc.): "para descerem à cidade, [tinham de] passar pelo Cupelom", o que em si já era "um acontecimento" - sublinha o BK.(p. 56).

"Quando a mobilização começou nos anos 60, os jovens do nosso bairro foram os que mais aderiram à luta. Chamavam [ao] Pilum Bairro de Terroristas" (p. 56) (**). E porquê ? "A maior parte de nós não acreditava no futuro, não havia trabalho, a estiva pagava mal e era muito pesado, o desânimo era geral" (p. 57)...






Guiné > Bissalanca > Finais dos anos 50 > "Fotografia tirada na despedida do gerente da NOSOCO, Monsieur Boris, que nesse dia regressava a Paris (está ao centro de fato e gravata). O João Rosa, o guarda-livros, [e que foi um dos fundadores do MLG - Movimento de Libertação da Guiné] , está na segunda fila à direita; à sua frente, o 2º da direita é o Toi Cabral. Os restantes elementos da foto são alguns (quase todos) dos empregados do escritório da NOSOCO em Bissau (MD), incluindo eu próprio" (MD)... 


O terceiro elemento, a contar da esquerda, é o Armando Lopes (n. 1920), pai do nosso amigo Nelson Herbert, e antiga glória do futebol caboverdiano e guineense, e que o Bobo Keita, embora de outra geração, deve ter conhecido.  (NH/LG)


Foto (e legenda): © Mário Dias (2005).  Todos os direitos reservados. 




Mas voltando à adolescência do BK: aos 12/13 anos, por volta de 1951/52, teve a sua festa do fanado, na Granja do Pessubé, nos arredores de Bissau.  A cerimónia iniciática durou um mês. Foi circuncisado e tornou-se lambé (pp. 25-27).

Entretanto, a crise da NOSOCO  (onde, de resto, também trabalhou o nosso camarada Mário Dias, nos anos 50) levou o pai do BK  a procurar trabalho, no sul,  como alfaiate ambulante. Mas em breve deixou de dar notícias e a família perdeu-lhe o rasto.

BK tem agora de tomar conta da mãe e dos três irmãos. Pega na máquina de costura Singer que o pai deixara em casa, e começa a coser panos, a bordar, a vender. Os Saraculés é que tingiamos seus panos. Como jovem e como alfaiate, BK tinha a Guiné-Conacri como modelo de referência e fonte de inspiração (moda, vestuário, música e até política). Trabalhava muitas vezes até às tantas da madrugada.

Lembra-se da agitação que ia em Bissau no dia 3 de Agosto de 1959 (dia do chamado massacre do Pindjiguiti). Na altura, com quase 20 anos,  jogava à bola e trabalhava na "alfaiataria do tuga" (p. 24)... ...

No livro, BK refere-se sempre aos portugueses como tugas... NTC refere isso mesmo, "a irresístível tendência do ex-guerrilheiro em designar continuamente o português por tuga" (15)... O termo, depreciativo, designava originalmente os portugueses e, mais tarde por extensão,  os brancos.  Por parte dos combatentes do PAIGC, o termo era usado por oposição a turra (corruptela de terrorista)...

Este tratamento depreciativo do adversário é comum em todas as guerras, acrescenta NTC. Hoje o termo é usado, na Guiné-Bissau, com um outro sentido, sem a carga negativa que lhe atribuía Amílcar Cabral e os seus seguidores. Recorde-se, em todo caso, que o histórico fundador e dirigente do PAIGC sempre fazia questão de distinguir o povo português e os colonialistas,  Portugal e o regime político então em vigor...

O mais surpreendente é que BK não é coaptado diretamente pelo PAIGC. A sua ida para Conacri, largando tudo o que amava (a família, o bairro, a cidade, o futebol...), será contada em próximo poste. (**)


PS - Segundo informação do nosso camarada A. Marques Lopes, o livro está à venda no Porto, na UNICEPE, e em Lisboa, na Livraria Portugal, na Rua do Carmo, 70.

[Continua]

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Notas do editor

(*) Vd. 25 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8947: Notas de leitura (292): De campo em campo: conversas com o comandante Bobo Keita, de Norberto Tavares de Carvalho (Parte II): Futebol e Nacionalismo (Nelson Herbert / Luís Graça)

(**) Vd. poste de 13 de Agosto de 2010 > Guiné 63/74 - P6848. Memórias de um Combatente da Liberdade da Pátria, Carlos Domingos Gomes, Cadogo Pai (6): 1966, o ano das prov(oc)ações

(...) Numa sessão da Câmara Municipal, o Major Matos Guerra que era o Presidente anunciou-nos que ia destruir, com uma bulldozer nova encomendada, e por ordem do Sr. Governador Arnaldo Schultz, o bairro do Cupelom, suspeito de ser um ninho de terroristas.


Repliquei, pedindo-lhe para nos informar onde é que a população iria ser alojada. Respondeu que não sabia. Dei-lhe como exemplo o bairro de Alvalade, em Lisboa, onde se construiu o bairro, primeiro, para depois se desalojar as pessoas. 

Foi uma discussão que durou, foi suspensa para o jantar e depois retomada até de madrugada. Nós, a vereação, coesa, recusámos a proposta de decisão, que ficou suspensa. Isto pode ler-se na acta da Câmara Municipal. (...).

(***) Último poste da série > 26 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8949: Notas de leitura (293): A Última Missão, de José de Moura Calheiros (José Manuel M. Dinis)