O jornalista, João Diogo Correia (JDC), autor do artigo supracitado, diz de Olof Palm (OL):(...) figura central da social-democracia europeia, que aliava rebeldia, ao marchar ao lado do embaixador do Vietname do Norte em Moscovo, em oposição aberta aos Estados Unidos, com diplomacia e pezinhos de lã, fazendo valer a posição de não alinhado para não chocar de frente com nenhum dos blocos da Guerra Fria"...
O contexto, económico, social, político e ideológico, torna-se pois favorável ao apoio (financeiro e humanitário) primeiro da sociedade civil e depois do Estado sueco aos "movimentos de libertação africanos", da Namíbia ao Zimbabué, passando pela África do Sul, na luta pelo fim do 'apartheid', aos territórios sob domínio português.
JDC cita o livro, já nosso conhecido, “Sweden and National Liberation in Southern Africa” (“A Suécia e a Libertação Nacional na África Austral”), da autoria de Tor Sellström (TS), cientista político. (Já reproduzimos largos excertos deste livro, na sua versão portuguesa, em 9 postes da série "Antologia") (**).
Na altura, chamámos, logo no início, a atenção para alguns factos e dados que mereciam a nossa contestação ou reparo crítico, nomeadamente quando o autor, o TAS, fala do trajeto do PAIGC e do seu líder histórico, não citando fontes independentes e socorrendo-se no essencial da propaganda do PAIGC (ou de fontes que lhe estavam muito próximas)...
Já apontámos alguns exemplos desse enviesamento político-ideológico (que iremos retomar em próximo poste):
(i) a greve dos trabalhadores portuários do Pijiguiti e o alegado papel ativo do PAIGC;
(ii) a batalha do Como;
(iii) o controlo de 2/3 do território e de 400 mil habitantes por parte do PAIGC;
(iv) as escolas, as clínicas de saúde e as lojas do povo nas "áreas libertadas";
(v) o assassinato de Amílcar Cabral. etc.
O jornalista JDC cita dados também já nossos conhecidos, relativos ao montante da ajuda sueca :
(...) "Dos 67,5 milhões de coroas suecas, à época perto de 13,5 milhões de dólares, distribuídas aos movimento de libertação entre os orçamentos de 1969-70 e 1974-75, 45,2 milhões de coroas foram para o Partido da Independência de Guiné e Cabo Verde (PAIGC), ou seja, dois terços do total. " (...) (JDC)
Enfim, é de há muito sabido por nós, que a partir de 1969 a Suécia passou a dar uma "ajuda humanitária" (sic) ao PAIGC, substancial, que se prolongou muito para além da independência (da Guiné-Bissau e de Cabo Verde), até meados dos anos 90.
Citando TS, sabemos que "as exportações financiadas com doações da Suécia representavam, durante este período, entre 5 por cento e 10 por cento do total das importações da Guiné-Bissau".
Estamos a falar de valores que chegaram aos 2,5 mil milhões (!) de coroas suecas [c. 269,5 milhões de euros] durante o período de 1974/75-1994/95 Pode então perguntar-se, como o faz JDC:
Porque é que os dois pequenos territórios, a futura Guiné-Bissau e o arquipélago de Cabo Verde, caíram no goto dos suecos ?
A explicação estaria num conjunto de circunstâncias favoráveis:
(i) a participação de Amilcar Cabral (AC) no congresso do Partido Social-Democrata (SAP), em setembro de 196;
(ii) a sua ida á Universidade de Uppsala, uns dias depois
(iii) As eleição de OP como novo secretário-geral do SAP, tornando-se primeiro-ministro em 14/10/1969, e sucedendo a Tage Erlander.
JDC socorre-se das memórias de Pierre Schori, "membro do SAP", "um dos mais próximos de Palme, do qual viria a ser conselheiro para a política externa, e figura central desta história com 50 anos":
(...) “A audiência perguntou ao Amílcar Cabral o que podíamos fazer por eles, e ele disse duas coisas: ‘a vossa própria revolução, porque tudo começa em casa’, e a segunda: ‘precisamos de um livro para que os nossos alunos comecem a ler corretamente’.” (...)
Já conhecemos o resto da história, e fartámo-nos de apanhar, em operações no mato, exemplares do livrinho de capa amarela, impresso na Suécia, em 1970, “O Nosso Livro, 1ª Classe”. (Convenhamos que 20 mil cópias era pouco para as necessidades do PAIGC, que reclamava ter o controlo de 400 mil habitantes (!) nas "áreas libertadas", ou seja, 80 % do total da população, quando o inverso é que era correto: os 20% da quota do PAIGC era obtida com os refugiados nos países vizinhos, Senegal e Guiné -Conacri mais os desgraçados que viviam, mal e porcamente, nas "regiões libertadas", Oio, Cantanhez e pouco mais).
Além do AC, há outro militante do PAIGC que entra nesta história, o mindelense Onésimo Silveira (OS), que foi aluno de Lars Rudebeck (LR), talvez o académico sueco mais influente neste processo, para além de alguns dos político já citados (é autor de Guiné-Bissau: A Study of Political Mobilization, Scandinavian Institute of African Studies, Uppsala, 1974).
(Continua)
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