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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28429: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (3): Património Material e Cultural, Economia e Figuras de destaque (Cherno Baldé)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Fajonquito > Junho de 1972  > De esquerda para a direita, soldados condutores da CCAÇ 3549, "Deixós-Poisar" (1972/74): (i) José Maria, João Vasconcelos, Carvalho, Fernando Silva, o Mandinga;  e (ii) os seus jovens amigos, Jorge Suleimane Baldé, Mamadu Saido Candé (Barbosa), Braima Baldé (Banda6) e Cherno Abdulai Baldé (Francisco ou Chico), junto da caserna da Ferrugem.

Foto original, a preto e branco, e baixa resolução, do álbum do Cherno Baldé.  Restauro, melhoria técnica e colorização: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI).

MONOGRAFIA DE FAJONQUITO-SANCORLA

“UMA PEQUENA CONTRIBUIÇÃO”


Natural de Fajonquito (Farimbali), nascido em meados de 1960 e baptizado em Sintchã Samagaia ou Luanda na margem direita de Berecolom.
Frequentou o Curso Geral dos Liceus em Bafata (1975/79) e o Complementar no Liceu Nacional Kuame N’krumah em Bissau.
De 1985 a 1990 fez estudos superiores de licenciatura e mestrado no Instituto Superior de Economia de Kiev que ostentava o nome do lider Soviético de origem ucraniana Demyan Serhiyovich Korotchenko (ex-URSS).
De 1993 a 1995 fez um Curso de Pós-graduação no Centro de Estudos Africanos do ISCTE-IUL de Lisboa e de 2001/2003 frequentou um curso de mestrado sobre a Cooperação Internacional e Desenvolvimento no ISEG/UT, Lisboa, Portugal.
Trabalhou sempre em Bissau com varias deslocações aos países da sub-região, primeiro como funcionário Publico do Ministério das Obras Públicas, Construções e Urbanismo, depois como Director Executivo da Associação Profissional das Instituições de Microfinanças (AP-SFD-GBissau) tendo, de seguida, trabalhado como Consultor/Gestor e Analista Financeiro em vários projetos de Desenvolvimento ligados a organizações internacionais, nomeadamente Banco Mundial, BAD, UE (FED-Célula de apoio ao MEF em Bissau) e no Sistema das NU/PNUD, de 2013 a 2026.



7. PATRIMÓNIO MATERIAL E CULTURAL

Suncudjuma – Bolanha situada a ocidente de Fajonquito e continuação da bacia hidrográfica do rio de Canjambari e que, por sua vez, é o prolongamento natural dos rios Farim ou Cacheu. O ponto principal de atracção da juventude e actividades recreativas era a ribeira (Mahel) de Saré-Tchumo, onde as jovens iam lavar roupa nos fins de semana e onde a juventude se concentrava para as suas diversões de fim de semana.

Berécolom ou Bercolon – Sítio importante pelo seu significado histórico, constituído pelas ruínas da antiga localidade mandinga de Bercolon, um dos sítios mais importantes do antigo império mandinga de Gabu (Farim-B’rassu) e pela bolanha de mesmo nome que, juntamente com a bolanha de Suncudjuma, fornece os principais cereais como arroz e milho, produtos base de alimentação da população das redondezas. À volta de Bercolon existiam vários matagais (Suru Marebaghé, Suru Sintchã, Suru Farimbali) com nascentes onde as mulheres iam buscar água fresca e potável para suas casas e também existia a lagoa de Bantaghel, o paraíso das aves pernaltas (Cunhgas-Guelodhé) e dos jovens pastores.

Djuncoré – Bolanha a Sudeste da Fajonquito, fronteira natural entre os Regulados de Sancorla e de Mansonna, perto de St. Adjango. Neste local existia uma grande lagoa que, sobretudo na época era o local, onde as mulheres vinham fazer a lixívia e onde os animais vinham matar a sede. Local mítico que, segundo a crença local, era a residência do chefe dos Irãs que viviam na zona. Durante o período nocturno, era visível a claridade que irradiava do seu grande Poilão situado mesmo ao lado da Lagoa, na sua margem esquerda (Mansonna). Muitas pessoas traziam para aqui as suas oferendas destinadas a satisfazer os pedidos ligados à sua vida económica, social e espiritual, manifestações de crenças e rituais de culturas pré-islâmicas que continuavam a animar e regular o ritmo da vida do dia a dia.

Na margem esquerda do lago Djunkoré encontrava-se um poilão bem alto e que, durante o período nocturno, irradiava uma luz florescente provocando o efeito bômina (claridade), que era visível a uma grande distância. Djunkoré funcionava como o refúgio dos homens e das aves, onde se praticavam as cerimónias e rituais masculinos. Todas as gerações passadas fizeram-se homens neste espaço mítico e verdejante. Deste ângulo subia uma linha de força de retorno à aldeia de Canhamina, sede do Regulado de Sancorla, completando assim, com as outras duas linhas de força invisíveis, uma espécie de triângulo místico, o famoso triângulo de vida de Canhámina. O conjunto formava assim um ambiente natural propício para a vida animal, em particular das aves selvagens. Mas, também constituía o centro da vida económica, social e cultural das aldeias e suas redondezas que incluia também a localidade de Fajonquito.

A escola pública de Fajonquito – Oficialmente, começou a funcionar no início dos anos 60 e teria beneficiado do seu primeiro pavilhão em 1962, cujo o primeiro Professor teria sido Inocêncio Kani, futuro quadro e combatente do PAIGC que, com o Mamadu Turé (Momo), Aristides Barbosa, Mamadu Indjai, entre outros, fizeram parte do grupo dos conspiradores que assassinaram Amílcar Cabral, fundador e Secretario-Geral do PAIGC em 20 de Janeiro de 1973, em Conacri. Mas os Professores e também Directores mais carismáticos que trabalharam nesta escola foram, sem sombra de dúvida, o Mambucar Sanhá (1966-1972) e Luis Abulai Mané (1970-1978?).

A Capela de Fajonquito – Construída em 1967, pela Companhia 1501, funcionou até 1974 e com a partida dos soldados portugueses em 1974, foi abandonada e mais tarde demolida para cosntruir em seu lugar a casa da associação das mulheres horticultoras de Fajonquito no centro da vila.

A Cooperativa Agricola de Fajonquito (CAF) – Uma inicitaiva do Governador Spínola (1968/73) no quadro da sua politica “Por uma Guiné melhor”, foi construída em 1970 para melhor organizar a produção e venda da fileira do amendoim e garantir a conservação e distribuição de sementes de qualidade logo no início das chuvas. No local ainda se podem observar as paredes e algumas poucas estruturas sobreviventes.

Mesquita de Fajonquito – Fundada em 1972, foi construída no espaço que servia inicialmente de campo de futebol, mesmo no centro da vila. Foi demolida em 2017 e no mesmo ano se iniciou a sua reconstrução num perímetro maior e com fundações, alvenaria e tecto em betão armado. A família de Aladje Coli-Waga Baldé (1915?-1993?) foi impulsionadora e garante da primeira mesquita e os seus filhos na pessoa de Tcherno Corca que o substituiu na direcção da mesma ao seu irmão mais novo, Aladje Amadu Baba, são os seus actuais continuadores.

Centro de Saúde de Fajonquito – Construído em meados de 1973/74, começou a funcionar após a independência em finais de 1974, com a partida dos soldados portugueses que se iniciou em Agosto de 1974, na sequência do golpe militar de 25Abril74 em Portugal, e culminou no dia 1 do mês de Setembro do mesmo ano com a cerimónia de hastear da bandeira nacional na parada do quartel. O seu primeiro Enfermeiro foi o Dr. Mamadu Candé, actualmente quadro superior do Ministério da Saúde e Técnico do Centro Piloto de Tratamento de Noma em Safim a seguir seria dirigida, durante muitos anos, pelo Enf. António Mendes Tavares, ja falecido.


8. ECONOMIA (COMÉRCIO E ARTESANATO)

Durante muito tempo a economia da zona baseou-se na produção do milho, do arroz de bolanha e do amendoim (mancarra) que sucederam paulatinamente a Borracha e o Coconote, para consumo das famílias e para comercialização. Ultimamente, com a baixa da procura e dos preços do amendoim no mercado internacional, o cajú transformou-se no principal e único produto comercial para obtenção de rendimentos na economia familiar segundado pelo Gergelim cuja procura tem aumentado nos últimos tempos.

Na época colonial, as principais casas comerciais da vila e da zona eram: A Casa Gouveia (Depois Armazéns do Povo), Casa Ultramarina (depois SOCOMIN), Casa Cardoso, Casa Mario Lima, Casa Esteves, Casa Luciano (Carvalho de Alvarenga), Casa Campos, Irmãos Casimiro e Costa Pinheiro, (mais tarde Denane Sissé).

Actualmente em Fajonquito funciona uma Feira semanal (Lumo), ao ar livre no espaço do antigo aquartelamento militar, todas as quartas feiras onde comerciantes de várias origens, incluindo da vizinha República do Senegal vêm vender as suas mercadorias e artefactos, evento que concentra toda a população das redondezas e constitui um acontecimento importante de troca de produtos, de abastecimento as famílias em produtos de primeira necessidade, principalmente arroz que, paulatinamente vem substituindo os outros produtos agrícolas como o milho, o fundo e o feijão que antes constituiam a base alimentar das populações da secção. A ocasião, também, serve para troca de informações e de encontros de natureza diversa.

No domínio do artesanato é de destacar a ourivesaria de Botché Baldé (Botché Bailo), as ferrarias de Djinnôh Sandem, Djammeh Cassama, de Braima Gumbo Baldé, entre outros.



9. FIGURAS DE DESTAQUE

Dadiina Baldé – Um rico ganadeiro é o mítico fundador do regulado de Sancorla, que após a guerra entre a confederação dos muçulmanos (fulas, mandinga-moris e Djacancas do império de Gabu), teria adquirido ou concedido as terras que hoje constituem o espaço do regulado de Sancorla das mãos dos homens de confiança de Alfa Molo. Todavia, existe uma outra versão que aponta o próprio Dadiina como um dos Fula-forros e homens de confiança de Alfa Molo que o apoiaram durante a guerra de libertação conduzida pelos fulas de Firdu, e a quem ele teria confiado a continuação da conquista desta região nas mãos dos Farinados Soninqués ainda muito activos, com os quais teria conseguido negociar para estabelecer uma convivência pacífica e que se mantém até hoje entre as duas étnias que partilhavam muito em comum a começar pela própria cultura e línguas.

Braima Djamé Baldé – Branjame (1856/1948) – Filho de Ellá Samba Baldé, neto de Samba Sáhabu e bisneto de Dadhina Baldé, líder carismático e que marcou a fase da ascenção e autonomia do regulado de Sancorla na sua aliança com a administração Portuguesa entre 1886 (batalha de Fanca entre os homens de Mussa Molo e a coluna do Tenente Marques Geraldes onde se teria distinguido levando à fuga definitiva de Mussa Molo para a Gambia) e 1935/36 (última guerra de pacificação contra os Canhabaques), onde perdeu a vida seu filho Abdu Buram, príncipe herdeiro de Sancorla. Segundo uma versão ainda por confirmar, o Branjame morreu em Canhâmina em 1938, vítima de ganância de uma das suas numerosas mulheres que o teria envenenado, pensando poder conquistar o seu coração, com uma posologia mágica, preparada por mãos inimigas.

Sambel Koiô Baldé (1916-1975/6) – Régulo de Sancorla após a morte do pai e o desaparecimento de Abdu Buran, príncipe herdeiro e seu irmão, na guerra de Canhabaque, foi durante a sua regência que eclodiu a guerra colonial. Juntamente com os seus irmãos e toda a família do regulado, defendeu com valor e muita bravura as terras de Sancorla de Cambaju a Suna, de Panambo a Cansonco, graças ao qual foi possível suster o avanço da guerrilha e proteger o território e as suas populações da fuga iminente para o Senegal. Consta que o PAIGC e seus principais dirigentes tudo fizeram para o mobilizar para a causa da luta que levavam a cabo, sem sucesso. Após a independência, em 1975 ou 76 um dos comandantes da guerrilha sediada em Fajonquito aconselhou-o a fugir, secretamente, pois tinham recebido ordens para a sua detenção. Sambel Koio teria abanado simplesmente a cabeça e respondido que ele nunca fugiu na sua vida e que, se tivesse que morrer, preferia morrer em Sancorla, a terra dos seus pais e avós. Segundo consta, foi preso e fuzilado em Bambadinca em 1975/76?, juntamente com o seu irmão mais novo, Demba Djulde Baldé, pelos homens do PAIGC (Madina Cudjido?). Os seus corpos nunca foram entregues às suas famílias para o luto a que tinham direito como homens, chefes de famílias e da sua comunidade.

Maudê Tôdhju Baldé (1917/1973?) – Alferes de 2.ª linha e Comandante do Pelotão de Milícias, tendo passado por Cambaju, Saré-Uale, Fajonquito e Suná, agraciado com a Medalha de Cruz de Guerra de 3.ª Classe e Prémio Governador da Guiné em 1966 por feitos heróicos como militar, morreu de crise cardíaca no Hospital Principal de Bissau, onde estava hospitalizado, em 1973.

Fanca Djau – Indigitado chefe da Tabanca de Fajonquito de 1964 a 1989..?, pai de Carlos Bubacar Djau, Alferes da 2.ª Companhia de CMD Africanos e do Professor Djibril Djau (Iddé), Director da escola de Fajonquito durante muitos anos, originário da aldeia de Bancô, abandonada com a eclosão da guerra colonial em 1963/64.

Alfa Módi Bailo Djaló – Originário de Futa-Djalon, República da Guiné-Conacri, no início do séc. XX, foi o primeiro Almame e um dos primeiros habitantes Fulas de Fajonquito, faleceu em (1995..?) na localidade de St. Samba (Samansata) a meio caminho entre Canhamina e Fajonquito, para onde se tinha mudado para se juntar ao seu sobrinho e genro, Alfa Umaro Djalo, iminente figura do Isláo e da comunidade local após ter perdido a liderança da mesquita a favor dos filhos de Coli Waga, regressados do Senegal, Futa-Toro após seus estudos coránicos.

Denane Sissé - Comerciante dinâmico e proprietário de uma das mais antigas casas em Fajonquito que teria adquirido nas mãos dos irmãos Pinheiro, aconselhado pelas autoridades locais, era também detentor de uma outra loja na localidade de Cambaju. Denane teria sido um dos primeiros filhos de Fajonquito a serem escolarizados e, mais tarde, a entrar no mundo dos negócios com a compra de uma das casas comerciais, no início da guerra colonial a conselho das autoridades militares e civis em Fajonquito que, segundo consta, temiam pela fuga da família para o Senegal como tinha acontecido com muitas famílias mandingas, logo no início da guerra colonial (1963-1974).

Professor Mambucar Sanha (Bafata) – Foi um dos primeiros e mais antigos professores em Fajonquito, onde trabalhou por mais de 10 anos e ajudou na formaçáo da primeira geração de alunos que saíram desta escola nos anos 60/70.

Carlos Borges Figueiredo (Portugal) – Capitão e comandante da companhia metropolitana do exército português, (CART 2742) que esteve estacionada em Fajonquito durante dois anos (1970/72) onde morreu vitima da explosão de uma granada defensiva accionada por um dos seus soldados, a 2 de Abril de 1972. Durante a sua permanência e, no quadro da política Spinolista “Por uma Guiné melhor” contribuiu para melhor a formação dos alunos da escola de Fajonquito bem como a relação entre os soldados e a população local, através de uma maior abertura e animação cultural da vila com a vinda de artistas e músicos da metrópole (grupo de Eva Maria em 1971).

Dr. Carlos Bubacar Baldé (1958/…) - Nascido na aldeia de Farimbali, arredores de Fajonquito, o primeiro Fajonquitense a concluir o 11.º Ano de escolaridade e depois a Licenciatura (em Farmácia na Universidade Nova de Lisboa em 1989). Foi um aluno e médico brilhante que sob a orientaçao sábia do professor Mambucar Sanhá concluiu o ciclo do ensino primário (4.ª Classe), no tempo recorde de 3 anos lectivos (1968/71), que, normalmente, era feito em 5 anos, tendo seguido para Bissau a fim de frequentar o Ciclo Preparatório na Escola Marechal Carmona (hoje Salvador Allende). Terminou o curso complementar dos Liceus (Honório Barreto, actual Kuame N’krumah) em 1978, com honra e distinção, integrando o melhor grupo de sempre deste liceu nacional, na companhia de destacados filhos da Guiné, em particular do também médico cirurgião e PhD, Joaquim Tavares (vulgo Djoca) actualmente a exercer nos Estados Unidos.

António Mendes Tavares (1937..?/2018) - Enfermeiro colocado em Fajonquito desde (1977...?), depois de passar alguns anos por Contuboel, desempenhou com um grande brio profissional as suas funções e, graças ao seu elevado grau de profissionalismo, humanismo, talento natural e carisma, conseguiu cativar a atenção e a estima da população de Fajonquito e arredores tendo-se reformado em meados de 1995.



GENEALOGIA DA CASA REINANTE DE SANCORLA (CANHAMINA)

DOS FILHOS DE DADINA (Patriarca de Sancorla)

- DADINA gerou SAMBA SAÁBU;

- SAMBA SAÁBU gerou DJOMEL SAMBA, HELLÂ SAMBA e NHIMA;

- DJOMEL SAMBA gerou ALIU FANTA …;

- HÊLLA SAMBA gerou MALAM HELLA, TOMBOM QUEBA, EGUÊ FILY, BRAIMA DJAME (BRANJAME), SAMBA UDÉ, DEMBA UDÉ, MERRA UDÉ, KUMBA UDÉ e N’DUNDE.

- NHIMA gerou MUSSUNDIM e MAMA.



DA DESCENDENCIA DOS FILHOS DE HELLÂ SAMBA

- MALAM HELLÂ gerou ALACOM e DJABU DANDJO.

- TOMBOM QUEBA gerou TCHERNO TOMBOM, MERA TOMBOM e SAMBA TOMBOM.

- EGUÊ FILY gerou NAÔH (NDÔ), AWA EGUÊ, SAMBA EGUÊ (SAMAGAIA), DEMBARO, PATÉ/PARÉ (PARERO) e TAMBA MAUDÔ.

- BRAIMA DJAME (BRANJAME) gerou ABDU, BONDHÔ, MÉRA, DEMBA, WUDÉ, SAMBEL KOIÔ, DEMBA NUMÔ, DJARI, GUNDÔ, FENDA, KUMBA NHAMA, MÂNSARA, MANUEL (MANELI), GUELA, NHARÔ, MÉRA, SÊGA, MBUNHA, DJOMEL, TÔBHO REDI, BAMBA, FANTA, ANSA, MANA NUIA, KINDI, MAUNDÊ TÔDJHU, MABÔ, DJAMANTI, KÔIO AWA, KUMBA AWA, NHAMA, TCHOMONKOLI, MUSSUNDIM, TUMANE, MAMUDO DJENA, CADI DJENA, SAMBA, KUNDJA, QUENDÔ, SANCULÉ, CADI BUIA, MADIU TATA, NDJUCAW, TAMBADU, MAMADU KUMA BAMBI, BINTA, DJHÔNHA, YOBA SIREM e BHOIDÔ TENEM. (49 filhos).

- SAMBA UDÉ (SAMA-UDÉ) - irmão de Branjame indicado para chefiar a “Diwal” de Kerwane/Panambo a Leste - gerou WALI, MUTARO, SIDI, NHANA, MARIAMA KINDI, MAKI, MARIAMA, DJIBA KULUNDO, NDUNDE KUMBA, DJADJA KOBA, KUMBA LAO, KUMBEL, BINTA BODJEL, BRANJAME, TUMANE, SIRANDIM, RUDDO, TCHEDEBEL, TALARA, KITALI e KUMBA BODJEL.

- DEMBA UDÉ (DEMA-DUORA) - indicado por consenso da familia para chefiar a “Diwal” de Lenkebémbe/Cambaju - gerou ALA BURI, YOBA I, ALFA, BINTA, DJAME, BOTA, GUELA, YOBA II, MAMADU ALIU (MAMA ALIU), HAMADU SHERIFO (HAMA-SHERIFO), MAMARE, NHANHA, TENEM DJUBA, ADULAI DJUBA, SIRAEL DJUBA, BOBOGUEL, USSAINATU (ASSINATU), SAMBA BODEDJO, UBBA, BEDJA e BACARI TCHOMONKOL.



DOS FILHOS DA EGUÊ FILY BALDÉ E MOLO BALDÉ
(seu primo nascido da mesma familia de Dadina, Patriarca de Sancorla):

MOLO (ou MOR-SEIDE) E EGUÊ FILY (ou MARIAMA BALDÉ), nascidos respectivamente em meados da década de 1850/60 em Panambo (?), o primeiro falecido por volta de 1922/23 em Kerewane onde residiam na altura e a segunda em 1967 na localidade de Cambaju, onde estavam refugiados após o inicio da guerra colonial de 1963/74 na entao Guiné Portuguesa hoje Guiné-Bissau.

DO CASAMENTO DE EGUÊ FILY E DO SEU PRIMO MOLO BALDÉ nasceram : NAÔH mais conhecido por N’DÔ (1907/8), AWA EGUÊ (1909/10), SAMBA GAIA (1911/12), DEMBARO (1913/14), PATÉ (1915/16) e TAMBA MAUDHO (1917/18).

- NAÔH, após a morte do pai em Kerewane e a mudança da familia para Canhâmina, casou com a Kumba Nhama, filha do seu tio Branjame com quem gerou BASSIRO, MARIAMA (MARÂ) E YOBA.

- SAMBA GAYE, tendo casado com Mansara, também filha de Branjame e gerou ALIU, ADAMA …

- DEMBARO gerou BOBO SUNCA, AWA SUNCA, ANSARU SUNCA.

- TAMBA MAUDHO (ALIU TAMBA) gerou IBRAIMA, BUBACAR TAMBA (CARLOS), CHERNO TAMBA, RAMATULAI, AISSATU FANTA, CANTABA, UMO ASSY, ROSA ASSY, MAMADU BOBO e ASSANA YOBA.


(Fim)
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Nota do editor

Vd. post de 10 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28424: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (1): Localização geográfica e população; Origem e significado do nome Sancorla e Significado e origem do nome Fajonquito (Cherno Baldé)
e
11 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28426: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (2): Sancorla no contexto das guerras entre fulas e mandingas...; Início da guerra e a deslocação das primeiras Unidades Militares para Fajonquito e Imagens de Fajonquito (1964-1974) (Cherno Baldé)

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Após dois textos em que se sumariou o pensamento de Patrick Chabal que analisou em grande angular a guerra e a descolonização, a emergência de políticas pós-coloniais, como se tentou construir o socialismo, quais as falhas do Estado de partido único e como se operou a transição para o pluralismo político, segue-se agora o estudo da Guiné-Bissau, trabalho que coube ao renomado investigador Joshua Forrest.
Veremos neste primeiro texto como o PAIGC não se mostrou capaz de atingir os seus objetivos em matéria de construção do sistema político ou do desenvolvimento económico, analisam-se as reformas económicas, como e porque falharam e, igualmente, como a liderança do PAIGC, desprezando o pensamento de Cabral, se foi afastando de auscultar e fazer vingar as aspirações populares.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 3


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Como observa no proémio Patrick Chabal, o livro tem o objetivo de superar a perspetiva especificamente lusófona que penaliza a maioria das descrições da África língua portuguesa, a discussão anda em torno do desenvolvimento destes cinco países. Dedicámos dois textos ao estudo que Chabal fez sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada: a guerra e os seus efeitos; o nacionalismo e o exercício político pós-colonial: como se criou a nação e quis construir o socialismo; o que falhou nas experiências do partido único e como se transitou, mesmo nos estados de guerra civil para o pluralismo político. Sendo a segunda parte do livro dedicada à análise dos cinco países, obviamente, atendendo à natureza do nosso blogue, socorri-me do estudo da Guiné-Bissau elaborado por um incontestado especialista da região, Joshua Forrest.

A Guiné-Bissau nasce num quase estado de graça, confiava-se no PAIGC pelo seu comportamento durante a luta armada, a liderança de Amílcar Cabral colocara a Guiné com uma enorme visibilidade internacional. Cabral avisara os seus companheiros dos perigos emergentes da independência e da afirmação de comportamentos ingénuos e até imitativos da herança colonial. Foi exatamente o que veio a acontecer, as opções de política económica beneficiaram diretamente as elites do Estado; subavaliaram-se as heranças sociais, políticas e económicas do período colonial e a atividade política do PAIGC tornou-se facciosa, desfasou-se a direção política dos reais interesses da população. As elites políticas tomaram decisões que levaram à explosão da dívida externa; no período de Luís Cabral (1974-1980) alimentou-se a ideia de que o país tinha que acelerar a sua industrialização, o desenvolvimento da agricultura viria depois, isto esquecendo a lição de que a infraestrutura estatal colonial praticamente não é à lei de Bissau, o mesmo é dizer que o Governo não possuía capacidade administrativa para a pôr em prática com êxito. Com empréstimos externos e com a ajuda internacional, sonhou-se na construção de um gigantesco complexo agroindustrial que custou milhões e nunca funcionou; numa fábrica de montagem de automóveis; recebeu-se uma fábrica de refrigerantes pronta a funcionar e não se instituiu um plano de gestão viável, etc. etc. Como observa Forrest, enquanto cresciam as falhas de abastecimento e faltava dinheiro e era bem visível que as elites estavam de costas voltadas para as populações fora dos principais aglomerados, o interior rural onde vivia cerca de 85% da população, as pessoas mantiveram vivas as instituições políticas na dimensão comunitária.

Não se conseguiu romper com este problema existente em toda a África subsariana: a ausência de burocracias bem institucionalizadas e falta de familiaridade com uma cultura política baseada em regras. Problema que se manteve durante a presidência de Nino Vieira, esta agravada pelo personalismo e pelo florescimento da discórdia entre fações. Forrest analisa a reforma económica, seria a trave-mestra para transitar para o socialismo, nacionalizou-se tudo, a economia formal passou a ser gerida através dos Armazéns do Povo, uma cadeia de 120 pontos de venda de mercadorias e da SOCOMIN (Sociedade Comercial Industrial) um organismo governamental de importação-exportação que procurava proporcionar aos guineenses uma troca justa dos seus produtos agrícolas por bens importados. Acontece que se impuseram preços baixos aos produtores, estes procuraram melhores preços fora dos organismos nacionalizados, cresceram as práticas corruptas, como a especulação por parte dos gestores.

As reformas falharam, o Estado tornou-se cada vez mais dependente da ajuda externa e dos projetos internacionais de desenvolvimento. A classe política revelou-se incapaz de criar uma visão rigorosa nos métodos de produção. “Por exemplo, decidiu-se utilizar tratores e vários dispositivos mecânicos modernos em substituição do trabalho normal e da participação local da construção de barragens fluviais, com vista a criar arrozais ou a restaurar os mais antigos. No entanto, tal como sucedera no período colonial, a coordenação múltipla e os erros técnicos produziram resultados insatisfatórios – foi o caso das eclusas dos canais incorretamente instaladas. Como resultado destes e de outros fatores, metade das minibarragens e dos diques modernos teve efeito negativo na produção de arroz.”

O autor recorda que no final da década de 1970 assistia-se a uma paralisia do setor comercial formal, o Governo iniciou reformas de privatização em 1984, apareceu uma linha de crédito do FMI, iniciaram-se programas de ajustamento cultural, que incluíam o incentivo à iniciativa privada, a desvalorização da moeda, a redução da despesa pública, cortes dos subsídios alimentares e o aumento dos preços ao produtor, nomeada no caju e nos óleos.

Estas reformas do ajustamento estrutural e a nova política de privatização teve consequências bem problemáticas. Apareceram em grande quantidade propriedades rurais, as chamadas “pontas”, estas têm uma longa história desde o século XIX. “A expansão destas pontas no final dos anos 80 e no decénio seguinte refletiu a viragem do Estado pós-colonial para a privatização, tendo sido os seus proprietários, os ponteiros quem mais beneficiou de empréstimos a médio e longo prazo. O problema é que a maioria desses ponteiros se compunha de altos funcionários do Governo que não eram comerciantes ou agricultores e, portanto, não possuíam as competências nem o compromisso de transformar as suas novas contas em empresas produtivas. Como consequência, poucos hectares de terra foram efetivamente dedicados à agricultura comercial, apesar de estes ponteiros terem recebido empréstimos favoráveis no âmbito do processo de privatização agrícola.”

Com a dependência do regime de Nino Vieira face às fontes de financiamento externas, acreditou-se no milagre da moeda, integrou-se a Guiné-Bissau na zona do franco CFA, passou a ser a moeda oficial em janeiro de 1997. Alguns comerciantes tiraram proveito da liberalização do comércio. A maior parte dos guineenses continuou a sobreviver à custa dos mercados informais locais e de longa distância. De modo insidioso, o regime no poder deslocava-se confiante para órbitas estrangeiras, completamente indiferente às repercussões mais alargadas das suas decisões para a população em geral.


Patrick Chabal (1951-2014)
Joshua Forrest

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 16 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27826: Notas de leitura (1905): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Faço juz ao intenso trabalho de pesquisa e leitura a que José Alvarez procedeu. A grandiosidade de Cabral supera o desastre que se seguiu, revela que aquela geração de políticos e guerrilheiros se revelou incapaz de pôr em prática um plano patriótico de desenvolvimento e de democracia participativa, mesmo quando esta, na ótica de Cabral, se aparentava a um tipo de democracia vigiada por uma elite dominante. 

Ele advertiu que a chegada a Bissau e o acomodamento da direção do PAIGC à atmosfera existente traria corrupção, vigarices, apadrinhamentos, uma completa adulteração das ajudas internacionais, como aconteceu. 

É expectável que este trabalho de José Alvarez suscite novos avanços na investigação e que esta não se confine exclusivamente tanto à luta nascionalista como aos acontecimentos da guerra colonial. Já passou o centenário de nascimento deste líder revolucionário, se podemos lamentar que poucas obras de estofo sobre Cabral foram editadas na efeméride, é de crer que este impulso dado por uma biografia romanceada abra caminho a novos olhares sobre o fundador da Guiné-Bissau.

Abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 6

Mário Beja Santos

Salazar toma a decisão de escolher um militar prestigiado para substituir o Governador e Comandante-chefe Arnaldo Schulz que regressara em abril de 1968, visivelmente doente e desmotivado. 

Em 19 de fevereiro desse ano, um grupo armado do PAIGC, chefiado por André Pedro Gomes e Joaquim N’Com atravessou o rio Mansoa perto de Bula e alcançou a proteção de arame farpado do aeroporto de Bissalanca, abriu fogo e atingiu edifícios aeroportuários e pistas. 

A conversa havida entre Salazar e Spínola consta de numerosa documentação, José Alvarez releva algumas das alegadas tomadas de posição de Spínola, bem como a sua exposição de motivos numa reunião havida na Cova da Moura.

Entretanto Salazar sofre um traumatismo craniano que o irá incapacitar por completo, ocorre, entretanto, em Madina do Boé, um julgamento em que Honório Sanchez Vaz e Miguel Embaná serão condenados à morte por provado envolvimento numa tentativa de negociar a rendição de vários elementos do PAIGC, sob o seu comando, e conversações havidas com um dirigente da PIDE. 

Chegado à Guiné, Spínola inicia uma serie de remodelações que inclui a atividade das tropas especializadas, surge a consigna Por Uma Guiné Melhor, no fundo uma vasta campanha para a conquista social das populações. A PIDE vai informando Spínola que existem divisões no seio do PAIGC, e que ela própria os incrementa. A questão cabo-verdiana continua a ser uma dor de cabeça para Amílcar Cabral, os soviéticos davam apoio militar ao PAIGC, mas reconheciam a inviabilidade de guerrilha no arquipélago.

O autor também põe em destaque o descontentamento de guerrilheiros guineenses quanto ao tratamento que Cabral dava aos cabo-verdianos, refere uma reunião havida em Ziguinchor em que já se pede a morte de Cabral. 

Dentro da nova lógica de só haver destacamentos onde há população civil, abandona-se Madina do Boé, toda a região do Boé fica despovoada, abrindo novas oportunidades a incursões do PAIGC, que irão surgir em 1970, o desastre de uma jangada no Corubal vitimou na região de Cheche quarenta e sete homens. 

No secretariado do PAIGC analisa-se a política de Spínola, a libertação de presos políticos, com Rafael Barbosa à cabeça, o apoio do Governador aos régulos e o aparecimento de um lema perigosíssimo “A Guiné para os Guinéus”. 

O Comité Executivo de Luta reúne-se em Conacri para analisar os efeitos da política introduzida por Spínola, recorda-se os efeitos sempre devastadores da Força Aérea, Cabral fala nos mísseis e nas unidades de artilharia antiaérea, reclama-se a presença do líder do PAIGC no interior do território, ao que Cabral responde que não há ninguém que o possa substituir no relacionamento com o estrangeiro.

É o relato de uma reunião onde não faltam tensões: a colónia de refugiados no Senegal era um fator de destabilização para os combatentes do PAIGC; continuava-se a alcatroar estradas, com destaque para o Chão Manjaco, os fuzileiros especiais apreendiam embarcações do PAIGC na fronteira sul. 

O autor sublinha que é visível uma certa hostilidade de Osvaldo e Nino Vieira nas reuniões presididas por Cabral. Os foguetões do PAIGC marcam presença no ataque a Bolama em 3 de novembro de 1969, embora com estragos mínimos. 

Numa reunião no sul do Senegal presidida por Luís Cabral e em que estão presentes comandantes e comissários políticos também há muitas críticas desde falta de munições a falta de comida, é nisto que irrompe um ataque das tropas portuguesas àquela posição de Kumbamory que obriga a evacuar Luís Cabral e os comissários políticos da frente norte.

Cabral continua o seu imparável roteiro internacional; perante a tentativa portuguesa de negociar com bigrupos do PAIGC do Chão Manjaco, é decidida emboscar a força negociadora, supunha-se mesmo que viria Spínola em pessoa, massacraram-se três majores, um alferes e outros membros da comitiva, caía na água a operação de aliciamento de guerrilheiros do PAIGC. 

Cabral encontra-se com a sua filha mais velha em Moscovo por ocasião do centenário do nascimento de Lenine, a filha faz-lhe saber que se conspirava contra ele e contra os cabo-verdianos, o pai pede-lhe para ela não se preocupar com ele.

José Alvarez elenca eventos que dão conta ressentimentos dos guerrilheiros guineenses. A reunião em Roma dos três líderes dos movimentos de libertação com o Papa Paulo VI é uma vitória para os revolucionários e crispa as relações de Lisboa com a Santa Sé. Segue-se a Operação Mar Verde, um verdadeiro desaire diplomático para a política portuguesa, a repressão de Sékou Touré é sanguinária, com fuzilamentos e encarceramentos.

Entre 9 e 16 de agosto de 1971 ocorre em Boké uma reunião do Conselho Superior de Luta do PAIGC, reacendem-se as críticas e as reclamações: resistência dos pais em deixar sair as crianças para a escola, desaparecimento de equipamento hospitalar, a falta de médicos, a má gestão dos Armazéns do Povo, Cabral não esconde o exagero. Começam a ser tomadas medidas para efetuar em 1972 eleições gerais por sufrágio universal e secreto para a constituição da primeira Assembleia Nacional Popular. A PIDE/DGS obtém informações do que se passa nestas reuniões de Direção do PAIGC, a rede de infiltrados era fértil em informações.

O processo dos mísseis Strela fica concluído entre a URSS e o PAIGC, constituiu-se uma equipa que foi receber formação na URSS. Esse ano de 1972 foi de uma enorme azáfama para Cabral, o reconhecimento do PAIGC era cada vez maior, Portugal perdera aliados na ONU; independentemente de andar muito tempo no estrangeiro, Cabral estava notificado de atos de corrupção e negociações de guerrilheiros com as forças portuguesas.

E assim chegamos aos acontecimentos do assassinato de Cabral, Alvarez ficciona conversas de Cabral com Osvaldo Vieira e com outros protagonistas com quem conviveu ao longo do dia de 20 de janeiro de 1973. E há uma última palavra para as cerimónias fúnebres de Amílcar, a 31 de janeiro de 1973, em Conacri. Segue-se uma referência aos devastadores acontecimentos de Guidaje, Guileje e Gadamael.

Alvarez termina a sua biografia romanceada dizendo:

“Cabral foi, sem dúvida, uma das mais notáveis figuras nacionalistas de África e um incansável lutador pelas causas que acreditava. Era um ideólogo marxista, um carismático defensor dos negros, brilhante como estratega militar e genial na condução da política externa. Foi o pai da independência da Guiné, promovendo a integração social, o ensino e o respeito pela mulher, mas acabou traído pelos camaradas guineenses do partido, tendo sido assassinado na condição de cabo-verdiano.

Desconhece-se quem ordenou a sua morte, sabendo-se apenas que quem o assassinou e os seus cúmplices eram todos elementos da fação do PAIGC que pretendia afastar os cabo-verdianos da direção. Também se ignora o grau de responsabilidade da PIDE no homicídio, apesar de a sabermos interessada na divisão do PAIGC.”


Há que reconhecer o intenso trabalho em leituras e consultas que José Alvarez efetuou para nos dar a primeira biografia romanceada de Amílcar Cabral. Como é compreensível, não esgotou todas as temáticas do estratega, do líder revolucionário e até do visionário.

 Cabral terá sido demasiado complacente quanto ao relacionamento de guineenses e cabo-verdianos, tinha uma fé inabalável, digamos cega, de que as duas nações iriam entrelaçar-se para benefícios comuns, terá sido este sonho que o levou a uma vitória onde ele não pôde participar. E suficientemente visionário para saber que a entrada da direção do PAIGC em Bissau sem um rigoroso e ponderado projeto de regionalização e descentralização redundaria num desastre. Tal como aconteceu.
24 de setembro de 1973, o PAIGC declara unilateralmente a independência em local da região do Boé
Casa de Amílcar Cabral em Conacri
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Notas do editor:

Vd. post de 9 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27818: Notas de leitura (1904): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (6) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 9 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Temos agora as consequências sociopolíticas e militares das deliberações do Congresso de Cassacá, dá-se formalmente a rotura na relação entre Maria Helena e Amílcar Cabral, entretanto num encontro em Praga, Amílcar e Ana Maria Voss perdem-se de amores, o ativismo de Cabral é imparável e em janeiro de 1966 terá a sua consagração após uma intervenção que deixou muita gente atónita na Tricontinental de Havana. 

Na guerra da Guiné, em 1967, está-se num delicado impasse, progressos diminutos de parte a parte, Cabral debate-se, no interior do PAIGC, com atos de grande negligência e furtos, os ressentimentos profundos de Inocêncio Cani terão tido aqui origem quando ele foi expulso de cargos políticos. Vamos agora viver o terceiro e último ato na frente dos combates e no que, de muito profundo, irá acontecer no PAIGC, após o assassinato de Cabral.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 5

Mário Beja Santos

Em consequência das decisões tomadas no Congresso de Cassacá, dar-se-á a reorganização militar que levou à constituição das primeiras unidades do Exército Popular, as FARP. Uma reorganização que não esqueceu praxes institucionais como o juramento diante da bandeira do PAIGC. 

Cabral é um líder partidário que se confronta diariamente com atos de negligência, a falta de pontualidade, José Alvarez [foto à direita] recria alguns diálogos de um Cabral encolerizado, mesmo com Osvaldo Vieira, o comandante militar da zona norte.

Amores finados com Maria Helena, em 1965, na cidade de Praga, Cabral conhece Ana Maria Voss, dá-se rapidamente o coup de foudre, será a sua segunda mulher que assistirá na noite de 20 de janeiro de 1973 ao assassinato do marido. 

Haverá encontro em Rabat com Maria Helena, Alvarez recria uma discussão altamente tempestiva, assumem o divórcio, irá surgir Henrique Cerqueira na vida de Maria Helena. Em Conacri, ganha vida o projeto de uma escola-piloto no bairro de Ratoma, para o ensino dos jovens guineenses que se sentem atraídos pela Independência da Guiné, iremos conhecer as figuras preponderantes nesta escola de formação.

O autor chama a atenção para a propaganda bombástica e falseada de que Cabral não tinha pejo em manipular, veja-se a linguagem usada para cantar vitória sobre os acontecimentos da ilha do Como: 

“Três mil soldados portugueses que se tentaram apoderar da ilha do Como foram repelidos pelos guerrilheiros do PAIGC. Quinhentos ou seiscentos militares foram postos fora de combate e o comandante da operação morto. Dois aviões abatidos e uma dúzia de embarcações afundadas.”

Igualmente o autor recorda a preocupação de Cabral com a imagem do partido no exterior, convites a figuras gradas ao movimento revolucionário, como foi o caso de Gérard Chaliand (1934-2025) e também cineastas como Mario Marret.

Dentro das recriações que a trama romanesca permite, Alvarez pretende fazer sobressair um estado de ciúme de Sékou Touré, este considera que Cabral estava a roubar-lhe protagonismo, quer que os seus Serviços Secretos o tenham debaixo de olho. No secretariado do PAIGC, vemos Cabral a tecer considerações altamente críticas ao mau trabalho da Organização da Unidade Africana (OUA), reconhecendo a contradição que a guerra o obrigava a atacar lojas e a deitar por terra a economia guineense, o que iria levar, depois da Independência, a precisar de auxílio externo. Punha, no entanto, uma grande esperança nos Armazéns do Povo.

Esse ano de 1965 é pleno de atividade: a preparação da II Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP); encontrou-se com Che Guevara em Conacri, o guerrilheiro cubano ficou bem impressionado com Cabral, prometeu e concretizou apoios; ciente de que continuam os problemas de negligência, elaborou um documento intitulado Palavras de Ordens Gerais do Secretário-Geral.

“Amílcar Cabral, apesar das adversidades com que se confrontava diariamente, podia considerar-se um homem realizado pois o PAIGC dominava uma considerável área do território a Leste e mantinha os seus santuários principais incólumes, Morés, Oio, Cafine, Cantanhez e Cufar e a Frente Norte ativa. 

"Em finais daquele ano, para colmatar as dificuldades nas frentes de luta (como, por exemplo, em Gabu, onde mais de 40% dos efetivos do PAIGC tinham abandonado as suas unidades para regressar às regiões de origem), os dirigentes do PAIGC viram-se obrigados a lançar incentivos aos jovens voluntários para combater. Mesmo assim, o problema não ficou resolvido. Amílcar viu-se na necessidade de organizar uma reunião com os guerrilheiros das zonas Sul e Leste para melhor definir a estratégia que se impunha.”

A II CONCP realizou-se na Tanzânia, em outubro. Assim estamos chegados a 1966, em janeiro, em Havana, durante a I Conferência de Solidariedade dos Povos de África, Ásia e América Latina, a intervenção de Cabral gera admiração dos participantes, põe em causa o proletariado de índole operária, disseca os fenómenos sociais africanos e revela que o segredo do êxito do que está a acontecer na Guiné-Bissau é a estreita aliança entre uma burguesia consciente do seu poder revolucionário e a massa camponesa que está pronta a quebrar as grilhetas do colonialismo. 

Fidel Castro dirá no seu discurso de encerramento que estes movimentos revolucionários em África tinham em Cabral um dos líderes mais lúcidos e brilhantes. No rescaldo da Conferência, Fidel assegura-lhe um total apoio em ajuda médica e instrutores militares.

Estamos de novo em Conacri em 1966, está reunido o Conselho de Guerra com Amílcar, Luís Cabral e Aristides Pereira e os comandos das frentes. É de novo recriado um diálogo, os líderes políticos conversam com chefes da guerrilha, com Nino e Osvaldo Vieira, Domingos Ramos, Francisco Mendes e Pedro Pires. Discute-se o Exército Nacional Popular que irá ajudar as Forças Armadas na proteção das povoações, mas também são postos em cima da mesa os desempenhos dos comités de tabancas e anunciada a chegada de navios fornecidos pela União Soviética.

Em abril, Amílcar e Osvaldo Vieira estão no Morés, questões disciplinares merecem a atenção dos dois, Amílcar pretende destituir Inocêncio Cani, outro guerrilheiro, de nome Hilário Rodrigues, fora alvo de um processo de inquirição em que se apurou ter vendido armas tomadas ao inimigo no Senegal e na República da Guiné, ia ser destituído de todas as funções. 

Tinha sido naquela atmosfera de decisões punitivas que Inocêncio Cani ganhou um ressentimento profundo a Cabral. Alvarez recria uma conversa na prisão de La Montagne entre Cabral e o sargento Lobato, este conseguira salvar-se num desastre aéreo que custou a vida ao outro piloto, era prisioneiro do PAIGC, Lobato mantém-se firme, recusa a proposta de Cabral.

Temos novamente Cabral em Havana um ano depois, foi assistir ao juramento de bandeira de trinta e um recrutas cabo-verdianos, comandados por Pedro Pires. De novo o líder do PAIGC é recebido por Fidel, ele reforça o apoio com o envio de medicamentos, de 3 camiões acompanhados dos respetivos mecânicos cubanos e de 10 especialistas de morteiros.

No teatro de operações da Guiné, Schulz marcara pontos com as tropas especiais e intensos bombardeamentos, mas não se saía do impasse. Cabral procurou a flexibilidade das suas forças, abandonou algumas bases militares. Temo-lo de novo em Argel, Cabral fez um discurso no Comité de Libertação da Unidade Africana. É neste ano que o PAIGC foi dotado de uma emissora. 

“Amílcar conseguira o avanço significativo na transmissão das suas mensagens políticas pela rádio. O líder, sempre que estava em Conacri, surgia à noite nos estúdios da rádio Libertação, por vezes acompanhado de Ana Maria Voss, com palavras encorajadoras par quem nela trabalhava".

E assim se chega nesse ano de 1968 à decisão política de Salazar de substituir Schulz por António Spínola. Vamos entrar no terceiro e último ato da guerra da Guiné.

Cabral e Fidel Castro depois da reunião da Tricontinental, a intervenção pública de Cabral marcou pontos, introduzia uma nota ideológica que se distinguia da cartilha soviética.
Amílcar Cabral. Fotografia retirada do Black Agenda Report, com a devida vénia

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 6 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27800: Notas de leitura (1902): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (5) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 2 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Começo por dar uma explicação. Era bem possível fazer uma recensão num só texto da obra de José Alvarez. Irei fazê-lo posteriormente por outros canais. Tenho procurado no blogue incitar para a leitura das obras, seja qual for o seu nível de qualidade. Acontece que estamos perante o primeiro romance histórico de Amílcar Cabral, trata-se de um romance entremeado de muitíssimos factos já aqui versados, José Alvarez procede à ficção na construção de diálogos entre Amílcar Cabral e a sua primeira mulher e nas reuniões políticas, sobretudo ao nível do PAIGC, mas também conversas com diplomatas, jornalistas e outros. Entendi que prestaria melhor serviço aos confrades destacando aspetos relevantes da trama histórica, deixando-lhes a surpresa de lerem o enredo ficcional construído por José Alvarez. Cabral nessa fase, entre 1962 e 1964, é não só a figura preponderante e inultrapassável dentro do PAIGC, é ideólogo, estratega, diplomata, germina da sua ação ser o construtor da nação guineense, tal como aconteceu. Acho que valeu a pena dar-vos nota do que achei por bem na extensão destas recensões.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 4

Mário Beja Santos

O romance histórico de José Alvarez remete-nos agora para a instalação de direção do PAIGC em Conacri, estamos em 1961, também Maria Helena chega à capital da Guiné-Conacri com a filha mais velha. Em casa de Hugo Azancot Meneses há uma reunião de amigos, estão presentes Viriato da Cruz e Mário Pinto Andrade, entre outros, temas como os outros partidos nacionalistas vêm à baila, Amílcar andava inquieto com as atividades do Movimento de Libertação da Guiné, maioritariamente constituído por Manjacos residentes no Senegal, tinham em julho cortado linhas telefónicas perto de S. Domingos, atacado o aquartelamento desta povoação, também Susana e Varela, procedido a vandalizações e roubos. 

O armamento chegava ao PAIGC a conta-gotas, Sékou Touré pouco facilitava, havia obsessão de que viessem armas para golpes de Estado internos. É nessa altura que se encontra o expediente de, a partir de Marrocos, vir armamento em caixotes com indicação de medicamentos.

Amílcar procede a um périplo internacional, primeiro Casablanca, aí vai decorrer a I Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas - CONCP, isto em abril, já em Conacri encontrara-se com um agente dos serviços secretos checos; em setembro, Amílcar volta a escrever ao Presidente da Assembleia Geral da ONU, toca sempre na tecla da liquidação pacífica do colonialismo português; Maria Helena é professora liceal em Conacri. A CONCP tem o seu secretariado em Rabat. A Conacri, chegam cada vez mais guineenses para se juntar em prol de lutar pela Independência, é criado O Lar dos Combatentes. Maria Helena vai adoecendo, Amílcar sugere que ela e a filha vão para Rabat, é uma conversa que decorre sob grande tensão.

Vamos agora conhecer a faceta do estratega militar, reunião de quadros em Conacri, repartição de responsabilidades envolvendo quem tinha frequentado a academia de Nanquim, caso de Rui Djassi, Osvaldo Vieira, Chico Té, Manuel Saturnino Costa, Constantino Teixeira, Vitorino Costa, entre outros. Já estavam mais de 25 quadros em formação na Checoslováquia e 5 na URSS. Maria Helena e a filha partem para Rabat, Rafael Barbosa e outros são presos em Bissau.

Amílcar falou na Comissão da ONU sobre os territórios ocupados por Portugal, nas reuniões vem sempre a referência à falta de armamento e começam as insinuações de que os cabo-verdianos preferem Conacri para fugir à luta armada. 

De 1962 para 1963 acontecem modificações políticas de tomo na Argélia, chegam políticos portugueses a Rabat, como Piteira Santos e Adolfo Ayala. Nasce a segunda filha de Maria Helena e Amílcar, a filha mais velha vai estudar para Moscovo.

Em 1963, a FLING – Frente de Libertação e Independência Nacional da Guiné estabeleceu contacto com o Governo português, procurava-se uma solução pacífica para o futuro da Guiné. Benjamim Pinto Bull será recebido por Salazar, transmite-lhe uma proposta de autonomia gradual que culminaria com a eventual independência, de forma a permitir a formação de quadros e a crescente ocupação dos lugares-chave da administração por naturais da Guiné. 

É nisto que se sucede um grave incidente com o desembarque das caixas com armamento disfarçado de medicamentos, uma das caixas desfaz-se em pleno porto, Sékou Touré não está para os ajustes, manda prender a direção do PAIGC, Amílcar andava pelo estrangeiro, competir-lhe-á sanar o incidente.

Em 23 de janeiro de 1963, um grupo de guerrilheiros comandado por Arafam Mané ataca o quartel de Tite, estava dado o sinal de que o PAIGC desencadeara as hostilidades, são emitidas notícias nas emissoras de Conacri, Dakar e Brazzaville, dois meses depois, na região de Catió, combatentes do PAIGC apoderaram-se de duas barcaças a motor, Arouca e Mirandela, pertencentes à Casa Gouveia e à Sociedade Policial Ultramarina. 

Amílcar desloca-se a Moscovo, os soviéticos pretendem conhecer o seu programa, fazem perguntas sobre Cabo Verde, as promessas de apoio ficam por enquanto no ar. Dá-se uma reunião de quadros em Dakar, a união de Guiné a Cabo Verde é um dos principais temas de discussão, Amílcar propõe que era absolutamente necessário avançar com a insubordinação de Cabo Verde, mas é reticente quanto a um quadro de violência, sugere a infiltração, cabe a Pedro Pires o recrutamento e preparação política dos combatentes, mas curiosamente pondera-se a escolha de um local de desembarque, confia-se muito na ajuda cubana.

Salazar, afinal, não dá qualquer prova de querer dialogar com a FLING; nas reuniões de quadros, Cabral é confrontado com sérias tensões entre os quadros militares e políticos nas diferentes frentes, é nessa altura que se pondera a criação da Lei da Justiça Militar, é mais do que tempo para preparar uma reunião em território da Guiné para apreciar o relacionamento entre as chefias militares e as políticas, que virá a ocorrer em Cassacá, exatamente no tempo em que decorre na ilha do Como a Operação Tridente. Surge o hino do PAIGC, os versos são de Cabral.

E estamos chegados à reunião de Cassacá que culminará em congresso. Meio ano depois daquele ataque a Tite, a presença do PAIGC era uma realidade, particularmente no sul. O general Venâncio Deslandes tinha observado ainda em 1963 que cerca de uma quinta parte do território mantinha-se em sublevação, e as populações na sua quase totalidade deslocadas. 

O Governador e Comandante-chefe, Vasco Rodrigues e o Brigadeiro Louro de Sousa, tinham opiniões divergentes quanto ao andamento de obstar a progressão da guerrilha, em Lisboa decidira-se reforçar os efetivos militares na Guiné de cinco para dez mil homens. Louro de Sousa delineou uma enorme operação militar, a Tridente, para recuperar a ilha do Como, operação de grande envergadura, um efetivo militar de cerca de setecentos homens, com o apoio da Força Aérea e da Marinha, operação duríssima, os guerrilheiros do PAIGC transferem-se taticamente para outro território, o comandante em terra, Fernando Cavaleiro, percorre a ilha a pé.

Em território continental, em Cassacá, começa a reunião a 13 de fevereiro. Amílcar anuncia várias medidas na mobilização e organização de forças na luta armada, são criadas as FARP – Forças Armadas Revolucionárias do Povo, bem como a formação de quadros militares especiais. Inevitavelmente, teria que ser discutida a deterioração da população devido a comportamentos prevaricadores de quadros militares, foram identificados e desarmados os prevaricadores, mais tarde julgados e alguns deles executados. 

Dois meses após o final da operação Tridente, ainda existe numa ponta da ilha do Como um destacamento de tropa portuguesa, em Cachil, mas o PAIGC voltou a manifestar-se, flagelando regularmente essa Unidade.

Também atendendo ao desentendimento entre o Governador e o Comandante-chefe, o Governo português toma a decisão de juntar os dois cargos de uma única pessoa, é escolhido o Brigadeiro Arnaldo Schultz, chega à Guiné em maio de 1964, e com a promessa que faz publicamente de acabar em meses com a guerrilha.

Amílcar Cabral numa das suas intervenções no Congresso de Cassacá, 13 a 17 de fevereiro de 1964
O Bureau Político do PAIGC eleito no Congresso de Cassacá. Da esquerda para a direita: Nino Vieira, Chico Té, Rui Djassi, Aristides Pereira, Chucho ou Constantino Teixeira, Amílcar Cabral, Domingos Ramos, Luís Cabral e Osvaldo Vieira.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 27 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
O romance de José Alvarez destaca as atividades de Cabral entre a sua reunião em Bissau (nesta altura ele tem intensa atividade profissional em Angola) em setembro de 1959, reunião determinante para pôr o movimento político de que ele é o cérebro em marcha, já se fala numa direção no exílio (Conacri) e no trabalho clandestino no interior da Guiné liderado pelo Presidente Rafael Barbosa. Cabral revela-se um ideólogo de referência em reuniões africanas, sensibilizando os novos Estados para a luta pela independência das colónias portuguesas. 

A ida a Londres será muitíssimo importante, quer pelo documento que Cabral elabora e que irá situar na imprensa e nas redes diplomáticas quer pela amizade que fará com Basil Davidson. Será em Tunes que se ouvirá pela primeira vez falar no PAI, à escala internacional. No romance, o autor procura recriar situações de grande tensão no casal, Maria Helena tinha extrema dificuldade no escasso ambiente familiar decorrente das atividades de Cabral. Este conseguirá êxitos diplomáticos com a China e com a URSS. a China assegura um plano de apoio militar, com a formação de elementos do PAIGC em Nanquim, e oferecendo armas. A URSS irá recebê-lo em 1961 e começará por oferecer bolsas de estudo, mais adiante formação e armamento.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 3

Mário Beja Santos

Estamos chegados à controversa reunião em Bissau de 18 de setembro de 1956, há quem tenha assegurado que Amílcar Cabral não estava nesse dia em Bissau. Reza a história oficial do PAIGC que ocorreu aqui a data fundacional do partido, estariam presentes Luís e Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Fernando Fortes, Elisée Turpin e Júlio de Almeida. Amílcar teria dito que a hora era propícia para a formação de um novo partido, o PAI, teria havido acordo da pequena plateia, e Cabral teria dado o seu pseudónimo, Abel Djassi. Como estava apressado para seguir para Angola. A verdade é que só se falará do PAI em 1960, e é dado como seguro que Amílcar estará em Bissau pouco depois dos acontecimentos do Pidjiguiti, de 3 de agosto de 1959, reunião determinante para estabelecer o arranque da vida partidária.

Amílcar Cabral recebe na sua casa em Lisboa, na Avenida Infante Santo, n.º 8, o nacionalista angolano Viriato da Cruz, 1957. Viera da China, cometera a asneira de vir para Lisboa, a PIDE estava a persegui-lo, conseguira desorientá-los, vinha pedir ajuda, Amílcar pôs-se em contacto com Lúcio Lara, há conversas sobre o Partido Comunista Angolano. Amílcar estará ativo em Lisboa, já tem relatório na PIDE, na sua ficha assinala-se fazer parte de uma rede de articulações políticas e ligações com movimentos clandestinos. Luís Cabral e a mulher visitam Amílcar e a mulher em Lisboa, dão notícias do que se está a passar na Guiné, Amílcar explica o que vai fazer em Angola, fala-se igualmente das eleições presidenciais de 1958. Amílcar volta a África, pago pelo Estado português, mas comparece de 8 a 13 de dezembro em Accra como observador, à 1.ª Conferência dos Povos Africanos, a vaga anticolonialista continuava a alastrar em África, dera-se a independência da Guiné-Conacri, o exército português começa a reorganizar-se, não há ilusões quanto a futuros conflitos entre os nacionalistas e o Estado Novo.

Amílcar Cabral irá conhecer um crioulo natural da Martinica, Frantz Fanon, em abril de 1959, este líder revolucionário, à margem do II Congresso dos Escritores e Artistas Negros, propôs, em nome do Governo Provisório Revolucionário da Argélia a formação de onze jovens angolanos. As relações de Cabral com Fanon não foram das melhores, diferem claramente nas suas estratégias, Fanon andará próximo de Guevara quanto à teoria do Foco, para Cabral inaceitável, pretende a presença de guerrilheiros e tornar a vida impossível aos colonos, garantindo uma continuada guerra de guerrilhas que leve à independência nacional.

Nesse ano de 1959, Cabral ainda trabalhava em Angola, na Companhia Angolana de Agricultura, em setembro chega a Bissau, encontra-se sigilosamente com Fernando Fortes, Aristides Pereira e Rafael Barbosa. É delineada a linha estratégica, a direção irá instalar-se em Conacri, a mobilização no interior da Guiné passará pela mobilização e organização dos camponeses. Amílcar conversará longamente com o irmão sobre os acontecimentos de Pidjiguiti em 3 de agosto, Luís partirá também para a clandestinidade ficará instalado em Ziguinchor. Amílcar moldou do seu espírito que deverá haver a união de Cabo Verde com a Guiné. Regressa a Lisboa via Dakar.

Aqui escreverá a Lúcio Lara:

“Estive na minha terra durante uns dias. Apesar de todas as opressões, de todas as manhas, a luta continua, cada vez mais conscientemente, cada dia mais reforçada. De tal maneira que eu próprio fico admirado de tanta vontade espontânea, de tanto desejo consciente fazer alguma coisa de concreto e consequente em relação à terra. Dado que surgiram outros movimentos (organizações clandestinas) é objetivo fundamental do programa traçado, conseguir uma união sólida, a formação de uma só frente para lutar. A chacina feita pela polícia e civis portugueses teve este balanço: 24 mortos e 35 feridos, alguns deles muito graves. Chegaram a matar alguns africanos dentro de água, quando tentavam fugir à polícia e alcançar os barcos que estavam ancorados perto do cais de Pidjiguiti.”

No final do ano regista-se uma grande atividade da PIDE, há muitas prisões em Luanda. Procurando a maior descrição, em viagens ao serviço do Governo português, Cabral procura reunir-se com elementos do Movimento Anticolonialista. Quando regressa a Angola sabe da prisão dos guerrilheiros selecionados. Saiu precipitadamente de Luanda escolhendo um itinerário a partir do Gana e outros países antes de chegar a Bissau.

 As atividades de Amílcar em Lisboa são acompanhadas pela PIDE, avisado por um professor do Instituto Superior de Agronomia sobre a vinda de elementos da PIDE ali para obterem informações dele, parte apressadamente para Paris, Maria Helena irá ter com ele, terá havido uma grande discussão no casal. Ela regressará a Lisboa e ele parte para a conferência em Tunes e depois para Londres. 

Em Tunes, Amílcar estará muito ativo na Conferência dos Povos Africanos, houve a exigência de que os delegados deveriam obrigatoriamente representar movimentos políticos com formação nacional própria. Pela primeira vez, a nível internacional, surge o nome do PAI e o Movimento Anticolonial passa a designar-se por FRAIN – Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional das Colonias Portuguesas. Cabral pede a Hugo Azancot de Menezes que lhe dê auxílio na sua ida a Londres e se o ajudava nas diligências para ter autorização para a instalação de membros do Movimento Anticolonial na Guiné-Conacri.

Em Londres, Cabral encontra-se com o jornalista e escritor Basil Davidson, que se transformará numa grande amizade. Vai aparecer o primeiro documento saído do punho de Cabral que sensibilizará a opinião pública internacional: The Facts about Portugal African Colonies, assinado com o nome de Abel Djassi. 

Hugo Menezes escreve a Cabral dizendo-lhe que está autorizado a residir em Conacri com a família, irá trabalhar como técnico do Governo. Instalado em Conacri, Cabral encontra-se com diplomatas, o primeiro secretário da embaixada da China mostra-se particularmente recetivo, de contacto em contacto uma delegação de movimentos nacionalistas constituída por Viriato da Cruz, Eduardo M. dos Santos e Cabral recebem o convite para uma visita de estudo e amizade à China.

Em meados de 1960, a PIDE emite uma nota sobre Amílcar Cabral e as suas atividades, nota que inclui falsidades como lhe atribuir responsabilidade na revolta dos estivadores do porto de Bissau, em agosto de 1959. Luís Cabral foge para Conacri. Maria Helena e a filha abandonam Lisboa, vão primeiro a Paris e depois Conacri. Um grupo de jovens, parte para a China, entre eles Nino Vieira e Osvaldo Vieira.

A atividade de outros movimentos anticolonialistas guineenses preocupa Cabral são-lhe hostis, destacam o que eles consideram ser a exploração secular dos guineenses pelos cabo-verdianos. No final do ano de 1960, Cabral recebe o convite para visitar a URSS em março do ano seguinte, a primeira oferta dos soviéticos são bolsas de estudo nas instituições de ensino técnico e superior da URSS. Estimulado por estas ajudas, Cabral prepara uma escola de formação em Conacri e vai confrontar-se com outros movimentos independentistas guineenses.

Amílcar Cabral e Maria Helena, sua mulher, na Guiné, mota com sidecar
Coisa curiosa, a PIDE da Guiné em 1958, não apurou nada em desabono de Cabral, moral e politicamente, o que faz cair por terra, as demissões e expulsões, os impedimentos de visitar a família, etc., têm aparecido na hagiografia mitológica e martirológica de Cabral.
Cabral na China em 1960, delegações do MPLA e do PAIGC

(continua)
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Nota do editor

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