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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28068: S(C)em comentários (89): O "ouro branco" do caju e a "Suiça Africana (Cherno Baldé / António Rosinha)





Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Textos: Cherno Baldé / António Rosinha
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentários ao poste P28066 (*):


1.1. Cherno Baldé:


O autor e editor do texto (LG) fala da produção do caju pós-colonial como se tratasse de uma visão e orientação económica bem construída e aplicada no terreno.  Não há nada mais errado.

A ideia apareceu na época colonial, provavelmente nos anos 40/50, a década da visão abrangente de longo prazo e de todas as obras de infraestruturas no território iniciadas com o consulado do Sarmento Rodrigues. 

A política da promoção do caju continuou ainda nos anos 60/70, sem conseguir, todavia, uma aceitação geral no seio da população, sobretudo no Leste do território, mas já dominava em largos espaços no litoral Oeste (Biombo), Norte (Bissorã) e algumas partes do Sul (Tite e Fulacunda).

O que aconteceu no pós-25A74 é uma completa desordem na economia. O PAIGC não tinha uma política económica definida, o regime do Luís Cabral, um grande sonhador e voluntarista, quis transformar um país recém-independente, agrário, desprovido de quadros técnicos e de especialistas e sem infraestruturas,  num país industrializado, com fábricas e numa aventura de substituição de importações.

Os camponeses,  que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados, o sistema produtivo, de fomento e captação vs distribuição através da rede de lojas e armazéns no mato em que se apoiavam, foi desmantelado na tentativa forçada de criação de uma nova rede controlada pelo Estado (Armazéns do Povo), o que desincentivou a produção do amendoim em larga escala. 

As famílias camponesas, desorientadas e sem apoio moral nem material, pegaram naquilo que podiam e/ou tinham em mão e, foi assim que, rapidamente, sem qualquer decisão superior, aconteceu a corrida ao caju como meio de salvação e substituto dos anteriores produtos de renda,  combinando-se com um período de forte procura desse produto no mercado internacional.

Como uma desgraça nunca vem só, então a facilidade da sua produção, aliada ao volume das receitas, acabou por conquistar a totalidade do território e familias,  e com isso levar ao abandono das outras culturas, inclusive alimentícias como os campos de arroz e milho. 


1.2. António Rosinha:


"Os camponeses, que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados", diz o Cherno.

Claro que para o PAIGC de Luís Cabral, bem como para todos os "portugueses" do Ultramar que formaram os movimentos nacionalistas nas diversas colónias, foram anos e anos a sonhar nas riquezas que "tínhamos debaixo dos pés".

A lavoura salazarista do azeitinho, da corticinha,  da sardinhinha... termos que atiravam à cara dos transmontanos, beirões, minhotos, algarvios e madeirenses,  não era para eles.

Isso do óleo de palma, amendoim, caju...isso não era para eles.

O Luís Cabral e seus irmãos das outras colónias sonhavam mais alto. Luís Cabral queria industrializar, mesmo depois dele ainda ficou aquela de que a Guiné ia ser a "Suíça africana",

Só mesmo os barcos da Sogeral (CUF) com tripulação cabo-verdiana, gastava gasóleo para se desviar da rota de Luanda e subir o Geba até Bissau para levar uns tantos barris de vinho e aproveitava e carregava uns tantos tambores de chabéu para as suas fábricas de sabão do Barreiro.

Sem CUF e sem cabo-verdeanos não havia ânimo para uma segunda Guiné. (**).

quarta-feira, 3 de junho de 2026 às 00:14:00 WEST

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Guiné 63/74 - P10547: Blogpoesia (308): Lisboa é um cofre forte, suíço... (Luís Graça)




Lisboa, vista em perspectiva. Gravura em cobre, meados do Séc. XVI (Pormenor) (in G. Braun - Civitates Orbis Terrarum.., vol. V, 1593) (Fonte: Museu da Cidade). Em meados do Séc. XVI, a cidade de Lisboa não sofrera grandes alterações desde o reinado de D. Manuel. Destaque, ao centro, para a representação do Terreiro do Paço e, mais a norte, a Praça do Rossio, com os edifícios do Paço dos Estaus, ao fundo, e do Hospital Real de Todos os Santos, do lado direito. O hospital ocupava grande parte do que é hoje a Praça da Figueira, e pode ser considerado o primeiro hospital mundial da era da globalização, inaugurada pelos portugueses, com a descoberta do caminho marítimo para a Índia.


Lisboa é um cofre forte suíço


(poema dedicado aos meus amigos kaluandas 
Elisabete Pinto, Jorge Lima, 
Paulo e São Salgado, 
Raúl Feio e Rui Pinto, 
pela sua sabedoria, 
pela sua hospitalidade,
pelo seu exemplo de interculturalidade

... mas também a uma jovem e sofrida poetisa do Huambo,
que foi minha formanda, Yelisa Visimilo, de seu nome literário,
e que teve a gentileza de me oferecer um exemplar autografado do seu primeiro livro de poemas)

Lisboa é um cofre forte,
uma casamata,
um bunker.
É linda de morrer,
... mas à distância de um tiro de canhão,
diz Braun, em 1593.

Para quem vem do norte
negociar as especiarias da Índia,
na Rua do Bem Formoso,
Lisboa é irrisão,
é uma miragem,
é o vento Suão,
é Seca e Meca, 
é torre de Babel,
é um ponto de reunião de meridianos, 
ou um simples lugar de passagem, 
com doces enlevos e puros enganos.
 
Do Palácio dos Estaus,
onde os santos oficiantes do Santo Ofício 
se reúnem em concílio,
ao Hospital Real de Todos os Santos,
o primeiro hospital da era da globalização,
vai um tiro de mosquete,
enquanto o mouro cai do minarete
e o pobre do rei do Congo morre no exílio.
Para lá do horizonte, a liberdade,
para cá da ponte,
a saudade.

Ah!, e há a embaixada 
da Sereníssima República da Suíça, 
com as suas grades nas janelas, 
de alto a baixo. 
E a ética protestante calvinista, 
afixada à porta.
Do Brasil virão canários e araras 
que em vez de alpista 
comerão papas da Nestlé, 
enquanto partem caravelas p’ra Guiné, 
terra de azenegues e de negros.
No tempo em que ainda não havia negócios da China.
 
A Suíça é burguesa, 
trepadora,
alpinista.
É um eldorado 
onde os cãocidadãos são levados pelas trelas 
dos donos 
e não mijam no chão. 
Dizem que lá o céu não é azul, 
é forrado a ouro.

Lisboa, essa, é de cor branco, sujo,
com cadáveres de escravos 
a boiar no Tejo imundo. 
Lisboa é o poço dos mouros e dos negros. 
Lisboa é a chusma de pedintes 
às portas das igrejas barrocas. 
E dos condomínios de jardins de luxo, 
e que luxos!, ai!, 
que luxos,
com buxos, 
até ao pescoço dos ricos, 
suspensos sob um céu de chumbo.

Não sei por que é que o pobre e o rico,  
gostam, em Lisboa, 
cidade,
púdica,
do risco
da exposição pública.
E também não sei, ai!,
por que é que se nasce suíço,
num cofre forte como maternidade.

Sigo hoje no voo da TAAG Luanda-Dubai.

Angola, Ilha de Luanda, 14-18 out 2012

(com um kandandu para os amigos e camaradas da Guiné, 
se a Internet ajudar)
____________

Nota do editor:

Último poste da série > 17 de outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10540: Blogpoesia (307): Àguas Paradas (Juvenal Amado)