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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27773: In Memoriam (571): Rui Manuel da Silva Felício (1944-2026), ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Dulombi e Galomaro, 1968/70): natural de Coimbra, vivia na Ericeira, Mafra; era um dos sobreviventes do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão, em 6/2/1969)



Rui Felício (c- 1944- 2026)


Montemor-o-Novo > Ameira > Herdade da Ameira > Restaurante Café do Monte >  I Encontro Nacional da Tabanca Grande > 14 de Outubro de 2006 > Da esquerda para a direita: 
  • Rui Felício (*);
  • Maria Alice Carneiro (esposa do nosso editor Luís Graça);
  • António Pimentel (que veio propositadamente do norte, com o Hernâni Figueiredo. ambos antigos alf mil da CCS/ BCAÇ 2851);
  • Victor David /1944-2024) e a esposa;
  •  e, por detrás, o Paulo Lage Raposo, o nosso amável anfitrião (e também dos "baixinhos de Dulombi; faltou aqui o outro alferes mil da CCAÇ 2405, Jorge Rijo, também nosso grão-tabanqueiro, bem como o cap mil José Jerónimo).
Foto (e legenda): Arquivo do Blogue Luís Grdaça & Camaradas da Guiné (2006)


1. Pelos comentário, na página do Facebook, dos seus amigos de Coimbra, aperecebemo-nos há duas ou três horas, que o nosso grão-tabanqueiro Rui Felício, sobevivente do desastre do Cheche em 6/2/1969, faleceu por estes dias. Natural de Coimbra, vivia nos últimos anos na Ericeira, Mafra.

O Bernardo Godinho confirmou, dando-nos a triste notícia, hoje, às 12:47, através do Formulário de Contacto do Blogger:

"Rui Felicio, até um dia! 
Os meus sentimentos. 
Mais uma voz que se apaga...
Cumprimentos, 
Bernardo Godinho"

Julgo tratar-se do ex-alf mil Leitão, 3ª C/BCAÇ 4612 (Mansoa e Gadamael, 1972/74), de seu nome completo Bernardo Godinho Abranches Leitão, que vive em Lisboa, e que foi camarada de guerra do Jorge Canhão, no CTIG.

Da alferes da companhia dos "baixinhos de Dulombi", todos eles membros da Tabanca Grande, resta-nos agora o Paulo Raposo e o Jorge Rijo.

2. O Rui Felício (de seu nome completo, Rui Manuel da Silva Felício) era um dos sobreviventes do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão em 6/2/1969) (**)

Advogado, era autor do blog Escrito e Lido 2010-2014, colaborou no blog Encontro de Gerações do Bairro Norton de Matos

Era  um talentoso contador de histórias, dotado de fino humor, autor da série "Estórias de Dulombi", de que se publicaram, no nosso blogue, 12 postes.

Em 2013, a morte súbita do seu filho, Nuno Felício (1974-2013),  jornalista da Antena 1, foi um duro golpe para ele, e famílua, de que só muito dificilmente recuperou (***).

Era  um dos 111 históricos do nosso blogue. Entrou para a Tabanca Grande em 12/2/2006 (a par do Paulo Raposo). Ex-alf mil at inf, 3º Gr Comb, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), tem 42 referências.

Tinha muito apreço pelo nosso blogue. Mas aquele trágico acontecimento ter-lhe-á inibido de aparecer mais vezes na Tabanca Grande. De resto, depois do I Encontro Nacional da Tabanca Grande, na Ameira, Montemor-O-Novo, em 2006, nunca mais nos encontrámos.

3. A Tabanca Grande está de luto. Fazemos esta singela homenagem ao nosso Rui Felício cujo ano de nascimento deve ser 1944 (****). 

Da sua  página do Facebook  fomos repescar a sua última postagem, com data de 3 de janeiro de 2026, que tem algo de premonitório. Deixamos aqui os nossos mais profundos votos de pesar à filha, netos e restante família, aos amigos mais íntimos e aos nossos camaradas da CCAç 2405.


O Céu e o Inferno (o Bem e o Mal ?)
 
(Facebook > 3 de janeiro de 2026)

por Rui Felício

O Padre Anibal gostava de aterrorizar os meninos da catequese pintando o Inferno de cores horrendas, onde ardia o fogo eterno que chamuscava as almas pecadoras e calcinava tudo à sua volta. Ensinava-nos que era para aquele antro medonho que iríamos passar a eternidade, se praticássemos o Mal, se pecássemos...

Como contraponto, desenhava-nos o Céu em cores suaves, onde cresciam flores de inimagináveis perfumes, com regatos de cristalinas águas a correrem, numa melodia inebriante, de paz infinita... Esse era o Éden, o lugar perfeito, para onde iam as almas boas.

A que só teríamos acesso se fôssemos bons meninos, se fizessemos só o Bem, se não fossemos pecadores...

Lamentava-me por não conseguir apreender a noção de Bem e de Mal. Achava que o que era Mal para mim podia ser Bem para outro. E vice-versa. Parecia-me que tudo era uma questão de consciência...

E, sendo assim, que certeza poderia eu ter de, no Juízo Final, poder ser condenado a ir para o inferno, mesmo que, em minha consciência, eu achasse que só tinha praticado o Bem? 

Estava nas mãos do critério do Criador, com o qual o meu podia não coincidir. Podendo ser castigado pelo Mal que honestamente considerava que era o Bem.
E não valia a pena pedir ao Padre Anibal que me definisse com exactidão o que era o Bem e o que era o Mal, porque ele, do alto do seu pedestal, não o faria...
Nem, se calhar, o saberia!

Até que uma noite, tive um sonho esclarecedor...

Um génio, de longas barbas brancas, apareceu-me nesse sonho e perguntou-me se eu queria ver, com os meus olhos, quem estava no inferno e quem estava no céu, para depois ser eu mesmo a daí retirar as minhas conclusões.

Caminhámos juntos calmamente até ao Pinhal de Marrocos [o antigo Pinhal de Marrocos circundava o território consolidado de Coimbra; hoje ocupado pelo Pólo II da Universidade de Coimbra].

No meio do pinhal, afastou com o bordão uma moita de silvas, e disse-me que o Infermo era ali.

Aos meus olhos surgiu um terreno relvado com grandes mesas de pedra redondas à volta das quais se sentavam corpos esqueléticos, famintos. Cada um tinha uma colher de madeira, enorme, com mais de dois metros de comprimento.

No meio de grande berreiro, iam mergulhando as colheres nos caldeirões de comida que fumegavam nos centros das mesas. Mas como não conseguiam levá-las à boca, por serem demasiadamente compridas, iam tentando roubar, de forma violenta, a comida uns dos outros.

Admirei-me por não ver chamas, nem terrenos calcinados, ao contrário da imagem que o Padre Anibal nos transmitia na catequese...

Ao fim de um bocado, o génio pegou-me ternamente no braço e caminhámos uns cinco minutos para outra zona do pinhal. Por trás de uma enorme pedra, deixou-me ver aquilo que me disse ser o Céu.

Espantado, deparei com um sítio em tudo semelhante ao do Inferno. As mesmas mesas, os mesmo caldeirões de comida, as mesmas colheres de dois metros que cada um manipulava!

A diferença é que aqui o ambiente era calmo, silencioso, cordato, ordeiro...
Via-se que aqueles corpos estavam bem alimentados, não zaragateavam. Estendiam as suas grandes colheres de dois metros, cheias de comida e davam-nas na boca uns aos outros.

Fiquei, a partir de então a saber, que o critério de selecção entre o Céu e o Inferno, não é o da bondade ou da maldade. É apenas o da inteligência das almas.

Rui Felício, 25 nov 2025

(Revisão / fixação de texto. parênteses retos: LG)
_______________

Notas do editor LG:


(...) Meu Caro Luís Graça: como dizem os brasileiros, o meu testemunho é claramente chover no molhado... Na verdade, dizer que o belo dia de sábado, passado na agradável herdade do Raposo, foi uma jornada inesquecível, é repetir o que por certo todos já te terão dito (...)

Mas nem por isso devia deixar de o referir, para lembrar que o encontro da Ameira só foi possível, porque existe o blog que tu criaste e que, com tanto trabalho e mérito, vais gerindo, coordenando e engrandecendo.

Registei, das intervenções que alguns fizeram a seguir ao almoço, alguns aspectos que confirmaram aquilo que eu já pensava através da assídua leitura do que vais editando no blog, designadamente, o facto de a tertúlia se compor de variadas perspectivas e olhares, na análise e recordação da nossa passagem por terras da Guiné, em circunstâncias adversas de clima e da própria guerra.

Embora nem sempre coincidentes, são perspectivas cuja diversidade proporciona uma visão mais completa, segura e enriquecedora das memórias de todos nós. Bastaria ter ouvido, além de tantos outros, o Virgínio Briote, o Casimiro Carvalho, o Lema Santos [, o Pedro Lauret, o Tino Neves, o Paulo Santiago, o Carlos Santos] e, especialmente, o Vitor Junqueira, para comprovar o que acabei de dizer, isto é, a nossa geração fez a guerra de África segundo as suas próprias convicções, declaradamente contra ela, a favor dela ou conformada com ela, mas sem dúvida dando o melhor de si na defesa de princípios e sentimentos que pairam acima dos interesses ou conveniências individuais.

Sou dos que naquela época era contra a guerra, mas nunca confundi isso com o dever de a fazer o melhor e mais profissionalmente que me fosse possível, quanto mais não fosse para garantir aos soldados à minha responsabilidade o regresso a casa, sãos e salvos. (...)

(***) Vd. poste de  13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27730: Documentos (53): A retirada de Madina do Boé (Rui Felício, ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70)


2 comentários:

Adamastor disse...

Furriel de Transmissões.

Carlos Vinhal disse...

Seguia o Rui Felício no facebook lendo as suas crónicas quase diárias.
Troquei com ele duas ou três mensagens através do messenger a propósito de um problema de saúde dele.
Recebida hoje, através do Formulário do Contacto do Blogger, a mensagem do nosso camarada Bernardo Godinho, pude confirmar no facebook do Rui a existência de muitos posts lamentando a sua partida.
À família deixo o meu pesar pela perda do seu ente querido.
Carlos Vinhal