Pesquisar neste blogue

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27765: As nossas geografias emocionais (61): Boé, do Cheche a Lugajole: uma missão de três meses dos Médicos Sem Fronteira, em 1987 (Ramiro Figueira, ex.alf mil op esp, 2ª CART/BART 6520/72, Nova Sintra, 1972/74)




Fotoo nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Coruba, ao fundo a margem norte (direita), com a estrada seguindo depois para Canjadude e Gabu




Fotoo nº 2A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Corubal: em primeiro, o médico Ramiuro Figueira 





Fotoo nº 3A e 3 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche >  "Cambança" do rio Corubal em jangada



Fotoo nº 4A e 4 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé >  Cheche > Rio Corubal > O ministro que nos  acompanhou, decidiu tomar um banho...


Fotoo nº 5  > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé  > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche >Os "djubis", sempre curiosos



Fotoo nº 6 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Canjadude> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Partimos de Gabu (antiga Nova Lamego), passando por Canjadude, a caminho do Cheche (ponto de "cambamça" do rio Corubal"), Madina do Boé e Lugajole  (destino final)



Fotoo nº 7A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Tabanca perto do Cheche (antes ou depois da cambança ?)




Foto nº 8A e 8 > Guiné-Bissau > Região de Gabu >  Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiros ao Boé >  A paisagem árida, semidesértica... A caminho de Lugajole, amas perto de Beli.  Estas formações são "bagabagas", num paisagem algo lunar.






Fotoo nº 9A e 9 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Pequena tabanca, a caminho de Lugajoge 



Fotoo nº 10A  e 10 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiros ao Boé > Lugajole >  Orre Fello > A morança que teria pertencido ao Amílcar Cabral. Fello, em fula, quer dizer montanha, colina ( que na região anda pela cota  50,  100, 150, máximo  200/300 metros).


Fotoo nº 11A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Lugajole > Orre Fello > Palanque onde teria sido proclamada a independència da GB em 24 de setembro de 1973, seguindo o guia local.


Fotos (e legendas): © Ramiro Figueira (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé >  Posição relativa de Cheche (no rio Corubal), Madina do Boé, Tiankoye (já na Guiné-Conacri, corredor do ataque a Madina do Boé em 10/11/1966 em que morreu Domingos Ramos e muitos outros combatentes do PAIGC), Beli, Lugajole, Vendu Leidi (e perto de Lugajole, Orre Fello) e, por fim, Lela, também já do outro lado da fronteira. 


Infografia. Jorge Araújo / Blogue Luís Graça & Camaradas dfa Guiné (2026).  




Ramiro Figueira, médico aposentado, foi alf mil op esp, 2ª CART/BART 6520/72 (Nova Sintra, 1972/74); membro da Tabanca Grande desde 23 de junho de 2022, tendo 10 referências no blogue; em 1987, cumpriu uma missão de 3 meses em Lugajole, Boé, Guiné-Bissau, como membro dos Médicos Sem Fronteiras (MSF).


1. Mensagem de Ramiro Figueira:

Data -  Data: 23 de fevereiro de 2026, 16h35
Assunto -  Boé


Boa tarde

Como de costume, espreito diariamente o blogue da  Tabanca Grande, virou um hábito curioso mas certamente saudável.

Tenho seguido essas últimas crónicas que lentamente vão juntando a história (triste) da aposentadoria do Boé em 1969. 

Foi cerca de três anos antes da minha chegada à Guiné, em junho de 1972. E fui para um lugar ainda distante do Boé, Nova Sintra, no região de Quínara. Mas todos fomos ouvindo as histórias daquele desastre e constava da memória de toda a gente na Guiné.

Quis o destino que 13 anos depois de ter voltado para casa (em setembro de 1974) fosse enviado para a Guiné (agora Guiné-Bissau), mais propriamente para o Boé (*), e mais especificamente para a tabanca de Lugajole (ou Lugadjole), perto de fronteira com a Guiné-Conacri.

Essa circunstância se deveu ao fato de pertencer aos Médicos Sem Fronteiras que ali iam abrir uma missão junto às populações.

 Assim seguimos para Bissau e depois para Gabu (Nova Lamego) onde ficámos um dia instalados na casa de um tal Paulo, governador da região que, pelo que percebi, era um antigo combatente do PAIGC, o que se notava bem já que era notória a deficiência que apresentava coxeando da perna direita (durante a estadia em Gabu viemos a saber que era por ter uma prótese dado ter sido amputado por uma mina). 

 De lá seguimos no dia seguinte, passando por Canjadude, até a margem do Corubal para a passagem do jipe ​​​​e caminhão de material em que transportávamos todo o material necessário.

 Pelo caminho ainda havia vários destroços de veículos, provavelmente militares, abandonados. Era a tristemente cambança do Cheche, de que eu tanto ouvira falar durante a guerra.

Assim atravessámos na jangada o Corubal até à margem seguinte, confesso que me recordo bem, passados ​​​​estes anos de ter sentido um arrepio ao pensar que, naquele mesmo local, vinte anos antes ali tinham ficado quarenta e tal camaradas. 

No que não fiquei sozinho, comigo na equipe ia outro médico que, na mesma época que eu, tinha sido fuzileiro e conversámos na altura várias vezes sobre o assunto.

Na chegada a Lugadjole, depois de uma viagem atribuladíssima e demorada, nos deparámos com uma tabanca razoavelmente organizada com bastante gente e muitos prédios em bom estado, mas abandonados. 

Ficámos sabendo que se tratava de prédios construídos pela União Soviética que estivera ali explorando bauxite mas que se mostrou não ser viável depois de alguns anos de explorações. Eles deixaram o local deixando algum material, inclusive um grande gerador. 

Foi em um desses prédios que instalámos nossa base logística para dormir, um modesto refeitório e depósito de medicamentos.

Iniciámos nosso trabalho, começando por instalar um hospital de campanha que nos fora fornecido pelas Forças Armadas, após o que abrimos as consultas e os tratamentos.

Durante minha estada em Lugadjole, também tivemos a oportunidade de viajar, acompanhado pelo administrador local, Kassifo N'Kabo, ao mítico local da declaração de independência em 1973
 [Orre Fello]. (**)

Foi uma viagem também bastante conturbada por trilhas terríveis e subidas íngremes, mas você acaba chegando lá. 

Era uma colina de onde se disfrutava uma vista extensa, onde havia uma espécie de palanque coberto e relativamente bem arranjado e, ao lado uma bonita palhota em cimento que o  Kassifo garantia como sendo a morança  de Amílcar Cabral. 

Pessoalmente não acredito que fosse assim e também não acredito que aquele era o local da declaração de independência, mas isso são outras discussões. 

Ainda tentei que me levassem ao    [antigo] quartel de Madina do  Boé, mas a recusa foi peremptória: “Terreno com muita mina”. 

Não sei se era assim ou não, mas lá tinha que ser.

Foram três meses de missão em um país que ficou para sempre gravado em minha memória.

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos;  LG)


2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Ramiro. Se tiveres mais fotos do tempo desta tua missão ao serviço dos MSF, iniciada em setembro de 1987 (até dezembro, não ?!), e achares de interesse divulgar, manda, podemos depois fazer um dossiê.

Poucos de nós, antigos combatentes, conhecemos o Boé (Béli foi retirado em meados de 1968, Madina do Boé e Cheche em 6/2/1969).

 E, de fato, continuamos sem saber onde foi extamente o "berço da Nação"... Duvido que algum dia as coordenadas corretas apareçam. Não havia GPS. Nem o PAIGC tinha cartas. Nem se guiava por elas.

E a IA hoje  só lança ainda mais confusão, quando a gente lhe pergunta. Como sabes, a IA não faz pesquisa em primeira mão. Nós sabemos muito mais que ela, que tem a mania que sabe tudo... Mas não, não sabe e só atrapalha. 

O assunto ainda é polémico. O nosso blogue levantou a questão . Mas ainda há muita boa gente a aceitar, acriticamente, que a independência da GB foi proclamada em Madina do Boé. 

Já temos muita documentação sobre o Boé. Mas é preciso colocá-la, em dossiês temáticos, em pdf, formato mais facilmente pesquisável na Net.

Temos, nós, ex-combatentes (e sobretudo nós, portugueses) a obrigação de deixar pistas para esclarecer esses e outros pontos, mais ou menos obscuros, da história recente da Guiné-Bissau, que também é parte da nossa história. 

A ignorância é muita, a incultura geral ainda mais. E nem tudo o que vem à rede é peixe. Duvido até que os jovens guineenses saibam onde fica(va) a mítica Madina do Boé... Hoje, sim, uma pequena tabanca, reconstituída na picada que segue do Cheche até â fronteira.

Há dias, conversando com jovens guineenses (homens e mulheres) que fazem parte da segurança privada de um hospital público, e que estão aqui em Portugal há 10 anos ou mais, constatei que eu conhecia muito muito melhor a geografia e a história do seu país do que eles.  Já nasceram em Bissau e de lá só saíram para emigrar para Portugal. É gente com alguma escolaridade, a suficiente para poderem  trabalhar doze horas por dia como "seguranças", à noite e por turnos, no departamento de psiquiatria e saúde mental do hospital.

Quanto a ti, és sempre bem aparecido. Um alfabravo. Luis

PS - Ramiro,recordo o que escreveste em comentário em 14/7/2022 (**):

(...) Conforme o mapa, o local (Orre Fello) situa-se muito perto da fronteira mas antes de Vendu Leide, portanto dentro da Guiné Bissau

(...) Sobre o desfile militar na cerimónia da independência,  nada sei. O local tem um espaço relativamente grande e plano em frente à construção pelo que é possível ter feito ali um "ronco" com desfile de tropas. A construção (suspeito, sem certezas nenhumas) será de depois mas, dado que a fotografia foi feita em 1987 (14 anos depois da declaração), eventualmente já existiria.

Como já se publicou tanta coisa sobre este local vamos, ver se aparece alguém com indicações presisas sobre o assunto. (..:)

quinta-feira, 14 de julho de 2022 às 17:40:29 WEST
_______________________


Notas do editor LG:

(*) Último poste da série : 29 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27475: As nossas geografias emocionais (60): Cape of Good Hope / Cabo da Boa Esperança, South Africa / África do Sul (António Graça de Abreu, Portugal)



(...) Chegámos a Lugadjole já ao anoitecer e ainda tivemos de descarregar a camioneta para termos camas onde dormir dado que a casa onde fomos alojados nada mais tinha do que paredes, eram casas construídas pelos soviéticos quando tentaram explorar bauxite naquele local, o que acabou por não se revelar rentável e o local foi abandonado.

Os dias foram-se passando entre as consultas e trabalhos para nos instalarmos e um belo dia conseguimos convencer o responsável local, um homem de poucas falas, chamado Kassifo N’Cabo, a levar-nos ao local onde fora declarada a independência.

No jipe dele e ainda no jipe que nos tinha sido cedido pelo governo guineense, saímos a caminho da fronteira com a Guiné Conakri e, pouco antes da tabanca de Vendu Leidi subimos a um ponto um pouco mais alto, que na crónica da Tina Kramer fiquei a saber que se chamava Orre Fello, onde uma estrutura meio abandonada nos foi indicada como tendo sido o local da declaração da independência.

Na verdade, não sei se realmente terá sido ali que se deu o acontecimento, mas dada a proximidade da fronteira (Vendu Leidi situa-se praticamente nela) e o local meio perdido nos confins do Boé, admito que terá sido esse o tal local.

Por agora é só, as descrições do trabalho em Lugadjole são longas e provavelmente fastidiosas. Resta dizer que montámos o hospital de campanha que tinha bloco operatório e que esteve a funcionar creio que cinco ou seis anos. (...)

Sem comentários: