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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28335: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (18): o Alberto Branquinho, o soldado básico e o trocadilho Milo ® /Milho numa pequena obra-prima de humor de caserna



Milo da Nestlé, Portugal
 (com a devida vénia...)
(E passe a publicidade!)
1. A propósito do poste P28325 (*):

(...) " Eu era o soldado básico que tratava das cóisas dos ufissiais da nossa Cumpanhia. Bossemessê num creia em tudo o qum ufissial da nossa Cumpanhia escrébe prái [leia-se: no blogue, LG]

"Ele num é de cunfiar de todo. Não era má pessua mas aí faz muntas inbenções. (...) 

" Mas olhe cus outros ufissiais tamém não eram milhores. Eram cuase todos das ilhas. Esses nunca os bi aí do seu computador.

"Um  [deles] um dia disse que cando chegasse da operação queria 
um copo de leite cum milho. Sabe lá bossemessê o queu passei prá arranjar o milho no quartel e quêle ficasse molinho pra pôr dentro do leite. Despois chateou-se comigo cu quêle queria era o leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada MILO." (...) (*)

A fala,"nortenha", do "ordenança" dos oficiais de uma companhia no mato (ou seja, a do Alberto Branquinho ou de um seu "alter ego", da CART 1689 / BART 1913, 1967/69; a mesma subunidade do José Ferreira da Silva, mas esse não devia ter "ordenança", proque era furriel de operações especiais , é um "tratado" de humor de caserna. 

Esse trocadilho "Milho / Milo", como recurso literário, é de antologia, para não dizer mesmo... "genial". Nunca me ocorreria, a mim, porque há séculos que não lia ou não via uma referência a esta bebida. Nem eu gosto sequer deste tipo de bebidas.

Milo ® era (e ainda é) uma marca de leite achocolatado que, no nosso tempo,  fazia as delícias da pequenada ao pequeno-almoço. Falamos, naturalmente, daqueles que se podiam dar ao luxo de tomar um saudável pequeno-almoço, com direito a leite e derivados do leite. 

O Milo ® é uma marca registada da Nestlé, o gigante da indústria de alimentos e bebidas,  de origem suíça. Lançado em 1934, na Austrália,  o 
Milo ® surgiu em Portugal no final dos anos 50, saiu do mercado  no início dos anos 90, e foi de novo relançado, em 2013, segundo leio na página da empresa.

(...) Após vinte anos de ausência e muitas centenas de pedidos de consumidores, Milo ® está de volta! Em Portugal, Milo ® saiu de comercialização no início dos anos 90, deixando uma geração de consumidores saudosos por voltar a provar o característico sabor de Milo®. Milo ® tem um sabor único e alto valor nutricional, graças à sua composição de malte, cacau e leite. É igualmente fonte de Cálcio e Fósforo e Vitaminas C e do complexo B, sendo assim a bebida ideal para fornecer energia logo ao acordar e preparar os jovens atletas para a prática de uma atividade física mais intensa. (...)

Quando chegou à mesa dos portugueses ainda não era para todos. Estamos a falar dos anos 50/60/70 do século passado: beber "Milo" (ou outros produtos da Nestlé) ainda era um pequeno luxo...

Essa pequena confusão entre o (i) "milho" (o cereal com que se fazia, no Norte,  o pão de milho, misturado com o centeio;  mas também com que se faziam as "papas de milho", muitas vezes sob a forma de"carolo", produto obtido pela moagem grossa ou incompleta do grão de milho, e que era, com as batatas e as couves, a  comida de sustento do meio rural de onde vinha o soldado básico);  e (ii) o "Milo" (o produto sofisticado da Nestlé,  que ia à mesa urbana do oficial do exército português, miliciano ou do quadro permanente) condensa, numa pequena palavra, as profundas diferenças da época, no plano económico, social e cultural.

(i) Uma "radiografia social" do Portugal dos anos 60 numa lata, de rótulo verde

O "Milo" nos anos 60/70 do século passado não era, de facto,  para todos. Era  símbolo de uma certa  modernidade e de um certo estatuto social, associado à emergente classe média /média-alta,  urbana,  que já podia dar aos filhos um produto industrializado da Nestlé ao pequeno-almoço. Mesmo assim, com peso, conta e medida.

Quando o oficial  (miliciano, um jovem com frequência universitário ou com o liceu concluído ou equivalente,   de origem em geral citadina) ordena ao seu "ordenança" que lhe sirva um copo de   "Milo", ao chegar do mato,   está a projetar no duro cenário da Guiné um hábito de conforto da sua vida civil. 

Para o soldado básico (geralmente de origem rural,  analfabeto ou com a instrução primária incompleta), a palavra "Milo" pura e  simplesmente não existia  no seu limitado léxico rural ou suburbano.  Não era coisa que chegasse à "venda" na aldeia ou da vilória do interior, que também funcionava como tasca... A única coisa que foneticamente fazia sentido na sua cabeça era o milho, o milho do pão, com mistura de centeio,   cozido no forno a lenha ou as papas de farinha de milho, feitas com água e um niquinho de azeite.

Estamos a imaginar a cena do pobre soldado  a andar,  no quartel, feito doido, à procura de farinha de milho  e depois pô-la  "molinha" (sic) dentro do copo de leite quente... quando afinal o  oficial  o que queria era um  copo de "leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada Milo" (!)...


(ii) Os pequenos luxos da manutenção militar

Nos quartéis do mato,  nas cantinas militares, nas messes de oficiais e sargentos, as latas de  Milo ® não eram sequer um artigo corrente... Eu não me lembro dessas latas com rótulo verde. Quando muito havia leite esterilizado, leite condensado, leite achocolatado de marca branca, em lata ou em garrafa de vidro... Não creio que a Manutenção Militar disponibilizasse, no ultramar, latas de Milo ®.

Mas poderiam eventualmente ser mandadas pelas famílias, pelo SPM, a par dos chouriços, salpicões, postas de bacalhau, etc., pequenas "guloseimas" que ajudavam a criar uma ligação afetiva à metrópole, e a matar saudades de casa e que funcionavam como  um verdadeiro "miminho", para a alma e para o estômago dos "expedicionários".

O mal-entendido ("Milo / milho") mostra bem como o stresse do quotidiano no mato  se podia manifestar no "upstairs" e no "downstairs" de um quartel: (i) o oficial,  saudoso do seu conforto de casa para espairecer a cabeça e aconchegar o estômago, depois de uma operação no mato;  e (ii) o "ordenança",  empenhado em fazer as vontadinhas ou caprichos  do "seu" oficial, mas completamente perdido na tradução de dois mundos  sociolinguísticos que a tropa e a guerra tinha juntado à força...na "colónia de desterro" da Guiné.


(iii) Mitologia & publicidade

O nome da leite achocolatado da Nestlé, da marca  Milo ®,  deriva,  ao que parece, do lendário Milo de Crotona (séc. VI a. C.), o mais célebre atleta da antiguidade clássica, famoso pela sua força sobre-humana (e que teve um fim trágico). 

A ironia histórica da origem do nome do produto  contrapõe-se deliciosamente à soçlidão e à fragilidade, psicológica,  dos oficiais do exército português na guerra de África / guerra colonial, que não podiam dispensar o seu bom uísque, a sua água de Perrier, o seu gin tónico, à tarde e à noite,  ou o seu energético Milo ® pela manhã.

O "pó" tónico e vitamínico  que devia dar a "força de Milo" ao oficial acabava apenas por gerar uma birra de caserna por causa de uma tigela de papas de milho (ou de "carolo") com leite!

É por coisas como esta que o texto do Alberto Branquinho é tão divertido (e tão rico, literariamente falando): sob o aparente  humor fácil da paródia ao sotaque nortenho do soldado básico que trocava os "vês" pelos "bês", há também uma subtil atenção à história social, ao consumo da época e à linguajar dos homens que combateram no TO da Guiné. E nisso o Branquinho é mestre, sem ser panfletário. (**)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 6 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28325: Humor de caserna (268): Afinal, tão básicos que nós éramos... (Alberto Branquinho)

(**) Último poste da série > 25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28289: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (17): O Portugal sacroprofano: 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, em que o diabo anda à solta, e é por isso um bom dia para o "banho santo" que há de livrar as crianças do medo... (do Adamastor, da guerra, da morte!)

terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27788: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar, nos bailes do Greco, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)


Fonte: Imagens e texto: Página do Facebook do nosso saudoso camarada Rui Felício (1944-2026)  > 5 de dezembro de 2025



Ilustração de Rui Borges (com a devida vénia...), um dos antigos condiscípulos e amigos do Rui Felício, da Turma A do 6.º Ano (1960/ 61), do Liceu D. João III, Coimbra. Também ele seguiu direito e, se não erramos, é magistrado aposentado, vivendo em Lisboa (tem página no Facebook, aqui). Também ele é um antigo combatente, tendo estado em Angola, BCAÇ 1875 (1966/68). Além de poeta e ilustrador de talento (tardio?).


1. Mais um microconto nostálgico do nosso Rui Felício (1944-2026). Uma  pequena obra-prima. Título: "Nos Bailes do Greco"... 

Por uma rápida pesquisa na Net, descobri que o "Greco", em Coimbra, era uma associação ou um grupo de amigos, da geração dos "baby-boomers", que adorava dançar e tinha o culto do Elvis Presley... 

Foi lá que o nosso  Rui Felício terá conhecida a rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar... Dou esse título a esta pequena história.  É uma pequena homenagem ao Rui e à sua/nossa geração que fez a guerra e a paz.


A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar,
no bailes do Greco

por Rui Felício (1944-2026)

Ela colava o corpo ao par com quem dançava mas o rosto e o pescoço encaixavam no pescoço do parceiro, desviando a cara, quase torcendo o resto do corpo para obviar tal postura.

Havia naquela altura um reclame a uma máquina de costura que inventara uma revolucionária forma de costurar e que consistia em alinhavar o tecido de forma inclinada sem necessidade de o retirar para esse efeito.

Era a famosa Singer Plano Inclinado!

A tal moça com quem a malta gostava de dançar, tomou tal “slogan” como alcunha. E a malta avisava:

 Na próxima música sou eu quem vai dançar com a “Singer Plano Inclinado”, ouviram ?!

Rui Felício


(Revisão / fixação de texto, título: LG)

2. Comentário do editor LG

Quando parte alguém da nossa Tabanca Grande, como o Rui Felício, que carregava memórias tão densas do leste da Guiné, a começar pelo desastre do Cheche de que ele foi um dos sobreviventes (mas em que perdeu mais de 1/3 dos seus homens),  deixa sempre um vazio que só as histórias conseguem, em parte, preencher.

Este "microconto" do Rui Felício não são mais do que meia dúzia de linhas,  é verdade, mas é uma pequena joia de observação social e humor de época. Quando o li, na sua página do Facebook, o que me cativou logo  foi  a capacidade  do Rui em transformar um detalhe (digamos técnico ou comercial,  da sua época da adolescência, a publicidade à máquina de costura Singer) numa metáfora comportamental.

Ele não descreve um passo de dança, reconstitui um atitude. Que delícia este contraste, que ironia (sem ser sarcasmo!), na descrição da rapariga, sem nome, que "colava o corpo" mas "desviava o rosto"... nos bailes do Greco!...  (Noutras terra, como a minha,  seria o baile dos Bombeiros.)

É o esboço do retrato dos tabus da nossa sociedade, ainda muito conservadora, a dos finais dos anos 50 / princípios dos ano 60, em que à proximidade física permitida pela dança, num baile público, se contrapunha  a reserva (o tal "plano inclinado") que ajudava a manter  o conveniente decoro e a distância emocional dos dançarinos.

O texto funciona como uma espécie de  "cápsula do tempo". O uso da alcunha "Singer Plano Inclinado" revela muito sobre o espírito daquela juventude coimbrã, nada e criada na cidade dos lentes, a querer romper as "muralhas" dos usos e costumes impostos pela moral vigente em matérias de relações homem (atrevido) - mulher (recatada).

Por um lado, é de destacar a criatividade da "malta" daquele tempo, a forma como se transformavam marcas e slogans em gíria grupal,  demonstra uma cumplicidade geracional muito forte. 

A "Singer Plano Inclinado" é, pois,  um portento de  humor pícaro: é uma observação brejeira,  malandra, mas ao mesmo tempo respeitosa e nostálgica. O Rui consegue, mais uma vez, ser visual sem ser vulgar, muito menos cruel.

E, por fim, é fascinante pensar que um homem que viveu o trauma da guerra colonial e da perda de um filho, em plena idade adulta (o Nuno Felício tinha 38 anos e trabalhava na Antena 1, em 2013, como jornalista)  tenha conseguido preservar esta leveza para contar histórias do ainda seu tempo de "menino & moço". Para o Rui foi talvez a forma, que ele encontrou,  de celebrar a vida que continuava, apesar de tudo.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Guiné 61/74 - P20152: Jorge Araújo: memórias de Bolama: a imprensa e o comércio locais há oito décadas atrás.



Bolama (1964) – Fonte: Arquivo Digital > Foto de   Manuel da Silva Pereira Bóia, com a devida vénia).


Guiné-Bissau > Região de Bolama / Bijagós > Bolama > Agosto de 2010 > Ruína do antigo Palácio de Bolama, que foi sede da administração colonial

Foto: © Patrício Ribeiro (2010)Todos os direitos reservados.[Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].



Guiné-Bissau > Bolama (2017) >  Fonte: Jornal "O Democrata", Bissau, edição de 12 de Abril de 2017, com a devida vénia).





O nosso coeditor Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp/Ranger, CART 3494
(Xime e Mansambo, 1972/1974), professor do ensino superior, indigitado régulo da Tabanca de Almada; tem c. 225 registos no nosso blogue.


MEMÓRIAS DE BOLAM: A IMPRENSA E O COMÉRCIO LOCAIS HÁ OITO DÉCADAS ATRÁS 



1. INTRODUÇÃO

Emerge esta narrativa do facto de terem surgido no Fórum, nas últimas quatro semanas, vários subsídios históricos alusivos à Ilha de Bolama. Uns, os mais antigos, relacionados com a sua descoberta e a presença portuguesa em África [P20104]. Outros, do princípio do Século XX, através de testemunhos do 2.º Sargento António dos Anjos, onde descreve ao pormenor a sua comissão de dois anos na Guiné, iniciada em 29 de Março de 1911, a primeira, com vivências em Bolama [P20041 e P20059]. Os últimos, recuperando uma efeméride de terror, pela quantidade de sangue derramado, respeitante aos trágicos acontecimentos de Morocunda, em Farim, nos dias 1 e 2 de Novembro de 1965, em que se presume ter sido o ex-presidente da Câmara Municipal de Bolama, Júlio Lopes Pereira, o seu "autor moral", e de que resultaram mais de três dezenas de mortos e cerca de uma centena de feridos [P20130, P 20135, P20140 e P20144].

Corolário da conjugação desses diferentes factos e análises historiográficas e sociológicas dadas à estampa pelos seus autores, permitiu adicionar-lhe uma outra abordagem, ainda pouco aprofundada, e que acabaria por corresponder ao tema em título. E esse aprofundamento, ou questão de partida, nasceu, inicialmente, da consulta ao trabalho de investigação do historiador guineense, Leopoldo Amado, publicado no seu livro «Guineidade e Africanidade», das Edições Vieira da Silva, 2013.


2. A IMPRENSA E O COMÉRCIO LOCAL HÁ OITO DÉCADAS ATRÁS

De forma sucinta e como antecedente histórico, Leopoldo Amado defende que Portugal, ao sair vitorioso da disputa por Bolama em que se vira envolvido com os Ingleses, ainda que com a sentença arbitral do Presidente norte-americano, Ulisses Grant, ficou obrigado a proceder à implantação de uma administração que garantisse a soberania sobre o território, bem como a criação de um mínimo de infraestruturas, que até então tinham estado sob a tutela do Governo-geral de Cabo Verde.

E é em 1879 que a Guiné ganha o estatuto de Província, passando Bolama a ser a sua capital, onde oito anos antes (1871) havia ganho o estatuto de Concelho [hoje, Município]. Desde então o Governo da Guiné passou a preocupar-se mais com as guerras de pacificação, e a prosseguir com a intervenção na estruturação da sua administração, processo que decorreu aproximadamente até aos finais da década de 30 do século XX.

Quanto à Imprensa, e na sequência do processo de pacificação, Leopoldo Amado acrescenta: "os colonos entregaram-se às tarefas mais prementes como, por exemplo, a instalação da tipografia em 1879 e a criação do Boletim Oficial da Guiné em 1880 que, não obstante alguns pequenos hiatos, foi publicado ininterruptamente até 1974" [P11804]

2.1. A IMPRENSA COLONIAL

De acordo com a narrativa de Leopoldo Amado, é no ano de 1879, com a instalação de uma tipografia em Bolama e com a constituição do primeiro grupo de tipógrafos guineenses que, no ano seguinte (1880), começa a ser editado o Boletim Oficial da Guiné. Acrescenta ainda que "a década de 30 [do século passado] nem por isso foi fértil."

Entretanto, em consulta à obra do jornalista guineense António Soares Lopes Jr. (Tony Tcheka), em «Os media na Guiné-Bissau», publicado pelas Edições Corubal, em Agosto de 2015 (capa ao lado, da 1.ª edição), aí se aprofunda um pouco mais sobre as origens da tipografia e, concomitantemente, a sua importância para a evolução da imprensa escrita.

António Lopes refere que "o surgimento da imprensa na Guiné-Bissau está intimamente ligado à instalação de uma tipografia em Bolama, em 1879, que seria mais tarde designada por Imprensa Nacional da Guiné Bissau. Nesta unidade se constituiu o primeiro grupo de tipógrafos guineenses, a maior parte deles, já com instrução primária feita. Depois, em 31 de Outubro de 1883, foi em Bolama editada a primeira publicação,  'Fraternidade', dedicada à sensibilização e recolha de fundos para socorrer as vítimas da estiagem que tinha ocorrido, nesse mesmo ano, em Cabo-Verde.

Em 1920, quarenta anos depois da criação da Tipografia em Bolama, surge na banca a terceira publicação, 'Ecos da Guiné'. Seguiram-se em 1922, a 'Voz da Guiné', um quinzenário republicano independente, e em 1924 o 'Pró-Guiné', órgão do Partido Democrático Republicano. Estas publicações pertenciam a portugueses radicados na Guiné." (op. cit. p35)

Por outro lado, o primeiro periódico editado e dirigido por um guineense, o advogado Armando António Pereira, foi 'O Comércio da Guiné', em 1930, tendo tido, contudo, uma curta duração, com encerramento no ano seguinte. No entanto, congregou à sua volta figuras de relevo da sociedade guineense, como o poeta Fausto Duarte (coordenador de um dos Anuários da Guiné-1946), Alberto Pimentel, Álvaro Coelho Mendonça, Juvenal Cabral (pai de Amílcar Cabral), João Augusto Silva e Fernando Pais de Figueiredo." (op. cit. p36).

Após o encerramento de 'O Comércio da Guiné', surgem três outros jornais, todos de número único e por isso, como afirma Leopoldo Amado,  "sem qualquer importância para o sujeito em estudo". Foram eles, respectivamente, o '15 de Agosto', em 1932, o 'Sport Lisboa e Bolama', em 1938, e 'A Guiné Agradecida', em 1939." [P11804].

"Entretanto, a década de 40 do século XX inicia-se com um acontecimento importante: a capital da Guiné é transferida de Bolama para Bissau, e dela resulta que Bissau cresce a olhos vistos, enquanto Bolama perde a sua vitalidade. Na verdade, a transferência da capital para Bissau foi um duro golpe para a elite africana de cariz pequeno-burguesa de Bolama, dispersando-se por imperativos de força maior. Por isso, a actividade literária e cultural em geral foi o primeiro sector a apresentar sinais palpáveis de um retraimento significativo, a ponto de se paralisar qualquer actividade editorial na Guiné, exceptuando as publicações do Boletim Oficial da Guiné." (Leopoldo Amado; P5147].


Fonte: Câmara Municipal de Lisboa > Hemeroteca Digital > Cabeçalho do jornal programa, editado pelo Sport Lisboa e Bolama, novembro de 1938, 12 pp. (com a devida vénia).

2.2. O 'SPORT LISBOA E BOLAMA', EM 1938

Partindo da referência supra, mas procedendo em sentido contrário ao de Leopoldo Amado, entendemos que se justificaria tudo fazer para encontrar este número do jornal do Sport Lisboa e Bolama, que, por ser único, era de primordial importância localizá-lo.

E assim aconteceu.

Este jornal único do Sport Lisboa e Bolama é editado a propósito das comemorações do 5.º Aniversário da sua fundação em Bolama, em Novembro de 1933, inspirado no Sport Lisboa e Benfica (fundado em  28.02.1904), como se prova na figura acima. Com a transferência da capital de Bolama para Bissau, nasce o Sport Bissau e Benfica, em 27.05.1944, sendo a vigésima nona filial do Sport Lisboa e Benfica.

O seu estádio é considerado como sendo a mais antiga instalação desportiva da Guiné-Bissau, tendo sido inaugurado com a designação de «Estádio de Bissau», em 10 de Junho de 1948, pelo então governador da Província da Guiné, Manuel Maria Sarmento Rodrigues (1899-1979), quatro anos depois da inauguração do «Estádio Nacional», no Jamor. 

Mais tarde o «Estádio de Bissau» passou a designar-se por «Estádio Sarmento Rodrigues», em homenagem àquele governador. Na sequência da independência da Guiné-Bissau, em 1974, a designação anterior foi, de novo, alterada, passando a designar-se por «Estádio Lino Correia», em homenagem ao antigo jogador da União Desportiva Internacional de Bissau (UDIB), e guerrilheiro do PAIGC, morto em 1962.

 Eis o programa das Festas: entre 26Nov1938 (sábado) e 04Dez1938 (domingo)



2.3. O COMÉRCIO LOCAL QUE CONTRIBUIU PARA OS FESTEJOS

Como elemento historiográfico relacionado com o comércio existente em Bolama, naquela época, e para memória futura, apresentamos o nome das empresas que patrocinaram o 5.º Aniversário do Sport Lisboa e Bolama. De entre os comerciantes e industriais , destaque para os nossos já conhecidos  Fausto [da Silva] Teixeira (, "Serração Eléctro-Mecânica") e Júlio Lopes Pereira (representante na Guiné da máquina de escrever Royal).

[Recorde-se que o Fausto Teixeira foi um dos primeiros militantes comunistas [segundo reivindicação do PCP,] a ser deportado para a Guiné, logo em 1925, com 25 anos, ainda no tempo da I República; era dono, em novembro de 1938,   segundo o anúncio, que abaixo se reproduz, de "a mais apetrechada de todas as Serrações existente nesta Colónia". E o anúncio acrescenta: "Em 'stock' sempre as mais raras madeiras. Preços especiais a revendedores. Agentes em Bolama, Bissau e nos principais centros comerciais da Guiné"... Na altura a sede ou o estabelecimento principal era no Xitole... Foi expandindo a sua rede de serrações pelo território: Fá Mandinga,  Bafatá,  Banjara...  Era exportador de madeiras tropicais, colono próspero e figura respeitável na colónia em 1947, um dos primeiros a ter telefone em Bafatá, amigo de Amílcar Cabral, tendo inclusive ajudado o Luís Cabral a fugir para o Senegal, em 1960... Naturalmente, sempre vigiado pela PIDE...Nota do editor, LG]



Fonte: Câmara Municipal de Lisboa > Hemeroteca Digital >  Jornal programa, editado pelo Sport Lisboa e Bolama, novembro de 1938, p. 7  (com a devida vénia).




















Termino, agradecendo a atenção dispensada.

Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

13SET2019
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Guiné 63/74 - P10916: Postais ilustrados (19): O menino, Augusto, que fumava cigarros "White Horse" (Beja Santos)



1ª Exposição Colonial Portuguesa, Porto, Palácio de Cristal, 16/6/1934 - 30/9/1934.

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Janeiro de 2013:



Queridos amigos,

Eis o resultado de andar a vasculhar caixas com bilhetes-postais, uma atração irresistível em lojas de ferro-velho ou velharias de toda a espécie.

O Augusto a fumar não é para ficarmos indignados, à luz das mentalidades dos anos 1930. Ajuda a refletir sobre o tratamento de uma criança-objeto, uma imagem irrecusável que até talvez causasse simpatia, naqueles tempos em que havia crianças contorcionistas em trupes de ciganos, crianças trapezistas no circo ou a chicotear cavalos.

A exposição do Porto, em 1934, teve como uma das principais atrações os guinéus. Eduardo Malta, convém não esquecer, sentiu-se fascinado pelo régulo Mamadu Sissé, um dos incondicionais do capitão Teixeira Pinto, desenhou-o com imensa beleza. Fazia-se filas para ver os Bijagós desnudados, era um desregramento autorizado.
Para que conste.

Um abraço do
Mário


O menino da Guiné que fumava cigarros White Horse

por Beja Santos



Há, por ora, um embaraçante enigma que alguém, mais avisado, poderá contribuir para esclarecer. O postal que se exibe mostra o Augusto da Guiné, estamos em crer que ele veio na comitiva guineense que se apresentou na 1ª Exposição Colonial Portuguesa, que se realizou no Porto, em 1934. Na verdade, o Augusto aparece noutras fotografias, até tem honras de aparecer estampado no livro “O Império de Papel”. E a Tabacaria Trindade fez nome publicando imensos bilhetes-postais, basta ir ao Google. Como os tabacos White Horse também existiram, basta ir ao Google.

E vamos agora à exposição em que participou o Augusto. Diga-se desde logo que foi um invento com estadão e alto significado político. Uma coisa foi a Exposição Industrial de 1932, no que é hoje o Pavilhão Carlos Lopes, por lá acamparam uns régulos Fulas e respetivas famílias em pleno Parque Eduardo VII, foram tratados com uma atração de feira, era uma chamada de atenção para aquela terra de onde vinha amendoim, coconote, algumas madeiras exóticas, ceras e curtumes, convinha sensibilizar os investimentos para a orizicultura e outras potencialidades agrícolas, o Império não era só Angola e Moçambique, espaços largos, de se perderem à vista.

Em 1934, o regime consagrado pela Constituição de 1933 queria dar provas de que o Império era muito mais do que o imaginário, era obra de missionação, havia para ali recursos a explorar para o engrandecimento da Nação. O capitão Henrique Galvão recebeu instruções para que a encenação ultrapassasse tudo o que até agora fora mostrando dos diferentes povos no vasto Império. E ele não se poupou a esforços. 

O problema foi a moral pública, a reclamar daquelas bajudas com maminhas ao léu, aqueles Bijagós despudorados com saias de ráfia, praticamente nus, e de olhar tão inocente. Faziam-se excursões, rezam as notícias publicadas nos jornais da época, para ver aqueles povos bárbaros, as crianças atiravam pedradas, a polícia tinha que agir, o ministro das Colónias, Armindo Monteiro, não gostou das críticas, ordenou ao capitão Henrique Galvão que acabasse com os desmandos, quem desrespeitasse os guinéus ia para a choça.

O Augusto devia ser uma criança muito dócil, os pais até devem ter achado graça ver o menino a fumar, reproduzido em bilhete-postal. Não vale a pena fazer comentários, fica o registo de um tratamento primitivo. Em muitos domínios, a História não dorme.
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Nota de CV: