Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta os nossos pais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta os nossos pais. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28329: Notas de leitura (1958): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Creio de ser muito de salutar esta emergência de novas dimensões da literatura da guerra colonial, temos um acervo de décadas com romances, novelas, contos, poesia (incluindo a popular), as obras memorialísticas, a historiografia; gradualmente, foram aparecendo narrativas sobre as mulheres que acompanharam os seus maridos nas comissões militares, as enfermeiras paraquedistas, os retornos de ex-combatentes aos locais onde tinham vivido; mais recentemente, entram em cena os filhos desses ex-combatentes e episódios colaterais, como Catarina Gomes nos conta neste seu magnífico trabalho de investigação em que há filhos que vêm depor sobre o stress pós-traumático dos pais, histórias mirabolantes de correspondência com muitas madrinhas de guerra, até chegarmos à tocante adoção de Pedro Luqueia de Santarém, uma criança encontrada numa operação no norte de Angola, em outubro de 1962 e que foi adotada por um Esquadrão de Cavalaria. É uma nova forma de rever o passado em que os atores são os filhos que se debruçam com o que há de fascinante sobre tais comissões militares que tiveram a virtualidade de mexer com a vida das famílias, para todo o sempre.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 3

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

O livro de que estamos a falar intitula-se Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida, Matéria-Prima Edições, 2014. Em textos anteriores já foram expostas situações do stress de guerra e violência familiar, doença que dá pelo nome de Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, de um militar que dedicava o seu tempo livre a escrever às madrinhas de Guerra, de uma menina nascida na Guiné cujo pai, à viva força a trouxe para Portugal e foi educada pela avó, falou-se de heróis de militares que refizeram a sua vida em ambiente colonial, de um aviador desaparecido em combate em Moçambique que levou uma viúva ao desespero, sempre na esperança de reencontrar o seu marido.

Hoje mudamos de azimute. Tiago Teixeira, nascido em 1978, é médico voluntário no hospital de Cumura, tenta salvar doentes com tuberculose e VIH/Sida. “Tiago andou por esse país na infância, numa sala de estar no Porto, aos sábados de manhã, sentado ao colo do pai, a olhar aquelas fotos a preto e branco que vinham acompanhadas de nomes de sítios estranhos, como Empada, Mampatá, Bolama.” O filho pensa que o pai nunca lhe escondeu nada, que lhe contava tudo, ele acha que era mais por ele do que pelo filho. Em adolescente, começou a atender telefonemas dos colegas do pai, iam estar presentes com a família nos convívios dos ex-combatentes. Em 2005, o pai e dois colegas seguiram num jipe para a Guiné, anos depois, com um grupo de ex-combatentes criou uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento, a Tabanca Pequena Grupo de Amigos da Guiné-Bissau.

Apareceram melhoramentos na vida dos guineenses, poços de água, canoas a motor. Tiago conta que aquele álbum da infância foi também ganhando vida na mão de pessoas que o pai visitava nas suas idas à Guiné. Uma noite Tiago escreveu, depois de regressar do hospital de Cumura: “Acho que é um regresso em nome do meu pai, da sua fidelidade a esta terra e a esta gente, que o marcaram para a vida, que me marcaram para a vida… É como se um fio me unisse à história do meu pai com este povo há muitas décadas, e eu viesse para aqui para continuar essa história.” O pai de Tiago Teixeira é o nosso confrade José Teixeira.

João Fernandes Saido Jaló lembra o seu pai, o Capitão João Bakar Jaló, um herói militar guineense que combateu do lado português, condecorado com a Torre e Espada. João tem plena consciência das mudanças que ocorreram com a morte do pai, tinha ele oito anos, morto o herói, cresceram as dificuldades, conheceu os calções rotos, andou com os pés descalços, passou a ir buscar lenha ao mato. Com o fim da colónia, seguiram-se os ajustes de contas, os fuzilamentos, o tio, por ser irmão do pai, foi torturado. Em 1976, ele e a família foram expulsos da casa em Catió, as medalhas e as fotos do pai foram confiscadas. João pediu a um professor que lhe redigisse uma carta em português, a pedir para ir para Portugal estudar, entregou-a na Embaixada de Portugal em Bissau, seguiram-se as tentativas de correspondência para Portugal, em 2002 João aterrou em Lisboa a primeira vez; em 2009 foi-lhe concedida a nacionalidade portuguesa. Estuda, acabou o décimo segundo ano, é vigilante na zona de Torres Novas, sonha licenciar-se em Direito.

Trinta e três anos depois de ter voltado da guerra colonial em Moçambique, 29 anos depois de Joana ter nascido, ela e a irmã receberam do pai, como prenda de Natal, um volume cuidadosamente encadernado, mas que devia ser de fabrico caseiro, tinha como título Cacimbo. Sabia que o pai tinha estado na guerra, tinha pisado uma mina, ficou a saber como tudo se tinha passado. O volume tem sublinhados da Joana, há desabafos do pai, tais como: “estarei condenado a ser um limitado descrente onde não cabe a transcendência divina.” E “o mundo não tem poesia nenhuma. Estética nenhuma. O mundo é um acumulado de ocorrências avulso.” Há lembranças da enfermeira-paraquedista que o socorreu depois da explosão da mina; mas para Joana o livro e o blog onde o pai colabora ajudam-na a descodificar o que o pai é por causa da guerra.

“Apesar de uma experiência tão longínqua, num continente onde Joana nunca esteve, há pontes que consegue fazer com ele, como quando o pai se transporta no livro, do chão do pó da picada, onde pisou a mina, para o chão de pó do Largo do Sobreirinho, onde jogava futebol na infância, na aldeia de Aguim. É nesse sítio onde a infância do pai se cruza com a sua que foi implantado um memorial, ‘um paralelepípedo em homenagem aos da aldeia que combateram na guerra colonial’, erigido por iniciativa dos próprios. Para não ferir suscetibilidades, o pai contribuiu. Joana sabe que para o pai não faz sentido que sejam as próprias pessoas a ergueram estátuas às suas memórias. Na escola, Joana não se lembra de ter aprendido sobre a guerra colonial; o que sabe é o que lhe vem do pai e é tudo quanto quer saber sobre o tema.”

Era inevitável, Miguel fala da sua mãe a então furriel enfermeira paraquedista Maria Emília Carvalhinho, seu nome de casada. Os pais do Miguel conheceram-se na base de Tancos. O álbum da mãe fala por milhentas palavras, está ali a referência explícita àquela geração de mulheres que teve a experiência única da emancipação. “Olho para a minha mãe como uma pessoa corajosa, que trocou um percurso previsível por um percurso novo, de algum modo assustador. O facto de ter tido esta mãe abriu-me a mente. Há muita coisa na sociedade atual em que não avançámos. As mulheres sacrificam carreiras para ter família, as mulheres grávidas são discriminadas e podem perder o emprego.” Para Miguel aquela história da mãe pioneira como enfermeira paraquedista ensinou-lhe que as mulheres podem fazer o que bem entenderem com as suas vidas.

Temos por último a história de Pedro Luqueia de Santarém. Tudo começou com a Operação Golpe Baixo, a 16 de outubro de 1962, na povoação de Bembe, no norte de Angola, esteve envolvido o Esquadrão de Cavalaria 122. No regresso, vem uma criança a quem se pôs o nome de Pedro Luqueia de Santarém, porque era o que tinham em comum os homens que o adotaram. Passou a ter identidade e foi batizado. Foi encontrado na operação todo nu, teria cerca de 4 anos. Tornou-se na mascote da companhia, aprendeu a falar português, passou a fazer parte da vida dos militares, veio com eles para Portugal, foi acolhido pela mãe do alferes Sá, numa vilinha no norte de Portugal.

Pedro ingressou como interno nos Pupilos do Exército, entrou depois no Instituto Superior Técnico, onde se formou em Engenharia Eletrotécnica. “Há uns anos Pedro foi a um almoço-convívio do Esquadrão de Cavalaria 122, com a sua mulher e os dois filhos, e esteve tempos infinitos só a cumprimentar familiares de militares.” Mas a história não fica só por aqui. “Pedro tem de Angola, de África, o nome do local de nascimento que lhe vem escrito no bilhete de identidade, o nome do rio angolano que é o seu apelido do meio e a cor preta que é só a da pele, o que ele diz que em Portugal foi ficando branco. Gostava muito de ter a nacionalidade angolana, mas é preciso provar que nasceu lá. Já foi à Embaixada, mas teria de ir ao registo em Angola. Acha que nunca vai conhecer ninguém da família que o ajude a interpretar o que a sua memória entendeu reter, mas continua a colher indícios que o ajudem a perceber quem é, a preencher os vazios de um filme de que só conhece pedaços. Tenta não pensar no que podia ter sido a sua vida.” E conclui com um pensamento positivo: “Estás aqui, não vale a pena. És feliz, apesar de tudo, não há outra hipótese de ser feliz.”

Assim se põe termo a este belíssimo trabalho de investigação de Catarina Gomes.
Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia
_____________

Notas do editor

Vd. post anterior de 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Temos aqui recordações de filhos, Maria Júlia de Sá da Costa Deitado, filha de um fuzileiro português e de mãe guineense, o pai trouxe a menina à viva força, ela foi educada no Barreiro pela avó, o pai sempre ausente, conheceu a mãe tardiamente, mas o seu afeto profundo é pela sua avó-mãe; em casa do André Fernandes há uma cabeça de veado embalsamada que o remete para a vida feliz da sua família em Luanda, os pais casaram em julho de 1975, fugiram para Portugal, onde André nasceu em 1980, o pai combateu em Angola de 1965 a 1968, mas Angola ficou como um cenário de vida, não como um cenário de guerra; Mariama Sambú é filha de dois combatentes do PAIGC, nasceu em 1973 no mato, o pai foi piloto-aviador guineense, distinto, morreu num acidente aéreo, Mariama vive em Massamá com três filhos, quando entra em casa dá sempre com a fotografia do pai; Pedro Ventura é filho de outro piloto que desapareceu em Moçambique, terá sido atingido e caiu no Rovuma, conta-se a história das múltiplas diligências da mãe que acreditava que o marido tinha sobrevivido, Pedro tinha dois anos quando o pai desapareceu. Foi a partir do momento em que foi pai que um pai mais lhe fez falta. Este livro de Catarina Gomes é mesmo uma porta de entrada para dimensões da guerra colonial que permanecem nos corações dos filhos de ex-combatentes.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 2

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

O livro de que estamos a falar intitula-se Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida, Matéria-Prima Edições, 2014. Já aqui fizemos referência a um prisioneiro de guerra, a um fuzileiro a padecer da Síndrome da Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, da curiosidade de uma criança que foi remexer numa mala do pai, dos tempos da sua comissão em África e encontrou uma imensidão de correspondência com madrinhas de guerra, uma delas, de nome Mimi, era a sua mãe.

Por portas e travessas iremos de novo até ao fuzileiro que tinha manifestações violentas com a família, ele era pai de Maria Júlia de Sá da Costa Deitado, nascida em 29 de março de 1965. A menina foi educada no Barreiro, fazia perguntas sobre a mãe, o pai respondia que era bonita, simpática e jovem e um nome que soava a português, Maria Augusta de Sá. Maria Júlia guardou esta mágoa do pai que lhe omitia o outro lado da sua ascendência, sentia-se incompleta, mesmo tendo uma vida confortável com a sua avó paterna a fazer as vezes de uma mãe. O pai voltou a casar, teve mais três filhos, mas a Júlia nunca viveu com ele, permaneceu sempre com a avó. Até que um dia, tinha ela dezassete anos, apareceu lá em casa um primo da mãe, ofereceu-se para estabelecer as pontes de ligação.

E um dia Júlia viajou para a Guiné, houve um desacerto para o encontro, Júlia não esmoreceu, passou dois anos a planear uma nova oportunidade, e deu-se a felicidade de se abraçarem, emocionadas, a mãe falando crioulo, a filha falando com o coração; “soube-lhe bem saber pela mãe que não nasceu do acaso, que o pai era bem aceite e acarinhado pela família da mãe, que a mãe tinha gostado muito do pai, soube que o pai chegou a propor à família da mãe de Júlia trazê-la a ela e à bebé para Portugal, os pais recusaram, ela fora roubada, o pai entregara-a à sua mãe, a avó quis que o pai a trouxesse para Portugal.” E houve desaparecimentos, morreu o tal primo num desastre aéreo e pouco depois a mãe. A morte da mãe acendeu em Júlia a vontade de ser mãe. Nunca aconteceu.

Temos agora outra história intitulada Cabeça de Veado, porque tudo começa com uma cabeça de veado embalsamada na parede da cozinha. André sabia que o pai conhecera aquele veado vivo. O pai vivera em Angola, levara uma vida feliz, tinha ido para lá com 13 anos, os pais casaram em julho de 1975, em Luanda, no meio do tiroteio da guerra civil. André nasceu em 1980, o pai teve uma perda crescente de audição, já reformado decidiu criar o núcleo de Sintra da Associação Portuguesa de Deficientes das Forças Armadas. Resta esclarecer que o pai teve dois anos de comissão, de 1965 a 1968, mas para André, Angola é o cenário de vida, não é cenário de guerra. Sem nunca lá ter estado, com aquelas recordações da cabeça de veado e de uma pele de onça que chegou a haver no corredor, ele um dia quer voltar a essa Angola onde o pai fora manifestamente feliz.

Nova história, envolve Mariama Sambú, a filha de um herói. Falamos de um herói do PAIGC, os pais foram combatentes, Mariama era transportada às costas enquanto bebé, tinha poucos meses quando, um lugar remoto de Boé, foi declarada unilateralmente a independência da Guiné-Bissau. O pai recebeu uma bolsa para estudar na ex-União Soviética, voltou à Guiné quando Mariama tinha 9 anos, ela foi viver com o pai na base aérea. Ela sentia que o pai, Serifo Sambú, era admirado. Viveu com ele dos 13 aos 15 anos. O pai tinha 38 anos quando morreu num acidente de viação. A sua fotografia está pendurada na casa de Mariama em Massamá, concelho de Sintra, ela é guineense e portuguesa, tem três filhos nascidos portugueses. Sente a discriminação, sempre que há discussões, há um dito insidioso “volta para a tua terra” e ela a responder “sou de cá, tenho muita pena”. Ela tem a mesma idade que a Guiné, nasceram as duas no mato, em 1973.

Passamos agora para o dossiê do Capitão Ventura. Desde pequeno que Pedro Ventura tinha acesso a um dossiê preto malhado, nele estava inserido um louvor ao seu pai, era tratado como um valoroso piloto de combate, e foi em combate que desapareceu. Há duas fotografias em que ele está com o pai, tinha dois anos de idade, foram tiradas no ano em que o pai desapareceu, 1973, o pai e a mãe estavam na base aérea de Mueda, Pedro ficou com os avós maternos. A mãe iniciou uma busca, guardava a esperança de que, mesmo tendo sido abatido o avião, o marido não perdera a vida. Naquele mesmo dossiê preto-malhado guarda-se o formoso cortejo de diligências, a mãe disparou em todas as direções. Em dado momento, o Estado português deu o caso como encerrado, houve funeral com honras, mas a mãe mantinha-se obstinada, chegavam-lhe cartas pondo a hipótese de o marido ter sido fuzilado após o 25 de abril. Uma mãe que foi de uma dedicação extrema, Pedro agradece-lhe a capacidade de lhe ter dado equilíbrio emocional, ela e os avós.

Decorreram várias décadas, o dossiê que reabriu para mostrar a Catarina Gomes estava há anos fechado numa arrecadação. Uns bons anos atrás chegaram-lhes as imagens de um casamento para o qual os pais tinham sido convidados, imagens que ele guarda no computador, o pai um mês antes de ele nascer. “Para mim é um momento histórico. É a única imagem que tenho dele em movimento.” São escassos segundos, seis, Pedro sente que é a cópia do pai. “Emociona-se? Não há emoção, porque o pai é uma personagem, é o piloto-aviador Ventura de quem a mãe andou toda a vida à procura. Tem dele a descrição das características de um herói. Nunca lhe ouviu a voz, no filme do casamento ainda não havia som. Foi a partir do momento em que foi pai que um pai mais lhe fez falta.”

Vamos continuar, ainda há mais relatos emocionantes, são histórias que constituem uma porta de entrada para diversas dimensões da história da guerra colonial que permanece na vida de outros. Até hoje.


Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia

(continua)
_____________

Notas do editor

Vd. post de24 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
A literatura da guerra começa a ter uma dívida com Catarina Gomes que tem vindo a abrir portas e a dar mais longitude e latitude a este subgénero literário; é uma vertente do pós-colonial que mergulha num passado diluído, com claros-escuros, porque o essencial da história, até há pouco tempo, era constituído por relatos na primeira pessoa do singular, o tal ex-combatente e o poder da sua memória, e também a historiografia onde os filhos pouco ou nada contaram, até porque o tal poder da memória era de alguém maioritariamente solteiro ou com filhos muito pequenos. Importa reconhecer que é muitíssimo bom ver esses filhos que querem desvendar por onde andaram os pais - enfim, exaltemos este dever de memória que ganha continuidade nas gerações mais novas.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 1

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

“Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes, Matéria Prima Edições, 2014, comporta quadros desta nova visão, como a autora se procura explicar na introdução:
“Cada uma das histórias privadas deste livro é uma porta de entrada para diversas dimensões da história da guerra colonial: a realidade dos prisioneiros de guerra, das enfermeiras paraquedistas, dos desaparecidos em combate, das vítimas de stress de guerra, dos africanos que lutaram pelos portugueses, de ex-combatentes que também foram retornados. Sem se conhecerem entre si, algumas das histórias destes pais entrecruzam-se, embora isso não tenha sido procurado: a Operação Mar Verde atravessou a vida de dois pais, um fuzileiro, outro que era prisioneiro e foi libertado; Alexandra Penteado e Júlia de Sá da Costa são irmãs; o pai de Joana Bastos relembra uma enfermeira paraquedista que o socorreu; a mãe de Miguel Sousa foi uma dessas 46 mulheres. Mariama Sambu fica aqui como o símbolo de milhares de histórias que podiam ser contadas do outro lado de um conflito que foi batizado com outros nomes, como Guerra de Libertação Nacional ou Guerra da Independência.”

A narrativa abre com um prisioneiro de guerra. Teresa Capítulo sabia que o seu pai saíra para a guerra antes de ela ter nascido, fora dado como morto. No entanto, chegaram algumas vezes cartas, o pai dizia que estava preso, quando um dia regressar à sua terra, Sesimbra, terá um acolhimento eufórico, foi libertado durante a Operação Mar Verde. Teresa folheia o álbum deste soldado radiotelefonista que teve o cuidado de dizer no interrogatório do PAIGC que era maqueiro. Um pai sempre discreto a falar de acontecimentos violentos, comparece regularmente ao almoço dos prisioneiros de guerra. A memória de Teresa vai ao fundo da sua infância, sempre que ela ou o irmão diziam que não queriam comer ou que não gostavam da comida que tinham à frente, lá vinha a história dos três anos que o pai teve que passar a comer arroz. Ainda hoje em Sesimbra Teresa continua a ser conhecida pelos mais velhos como “a filha daquele rapaz que esteve lá fora, a filha daquele que esteve preso” e ela diz no fecho da história: “Seria uma pessoa diferente se não fosse Teresa Capítulo, filha de um prisioneiro de guerra.”

O relato de Alexandra Penteado é a de um pai violento e de uma vida familiar calamitosa. Sempre fez perguntas porque é que o pai batia tão violentamente na mãe e apavorava os filhos, embora Alexandra saiba que tinha um papel apaziguador quando o pai desvairava, chegava a ir de calções para a rua a gritar “vou matar os pretos”. Nas noites em que se enfurecia gritava “saiam, senão mato-vos a todos”, fúrias que geraram uma rotina na família: ninguém se despia a não ser no exato momento de ir para a cama. Isto passou-se no Barreiro velho. A família foi desenvolvendo uma espécie de sensor para medir os inícios da ira do pai, aprenderam a prever os momentos em que os surtos acabavam. O pai chegava a partir tudo em casa, buscava-se a normalidade indo comprar a loiça partida que era preciso repor. Em jeito de desabafo, Alexandra disse que o seu pós-guerra durou até aos 18, 20 anos, não resta quase nada da origem lá em casa, tudo foi sendo partido e substituído.

Descobriram depois que o pai sofria de Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, mas o pai recusou ir a um psicólogo ou psiquiatra, dizia que não estava maluco, isto embora tivesse estado internado na ala de psiquiatria do Hospital da Marinha. Aos poucos, ela foi procurando saber o que acontecera ao pai durante a guerra. Por exemplo, num desses almoços de ex-combatentes, ouviu que o pai tinha matado uma mulher com um punhal. “Depois da sua morte foi encontrar a condecoração largada dentro de um saco de plástico atado com um nó, depositada numa menosprezada terrina com a tampa de duas flores amarelas e ramagens verde seco que andava lá por casa dos pais. Tem-se esforçado por perceber porque arrancou da caderneta um símbolo desses supostos atos de bravura e pensa que poderá estar relacionado com alguns dos seus fantasmas mais assustadores.”

Guarda as memórias do pai violento num diário de adolescência. O pai morreu de cancro do pulmão aos 59 anos, cinco anos antes da morte estava mais calmo. Guardou fotografias de guerra do pai, que era fuzileiro, para sua surpresa, no funeral o cemitério estava cheio. No dia em que acordava a meio da noite com o pai a gritar “saiam, senão eu mato-vos”, Alexandra vê agora a tentativa de proteger a família de si mesmo.

Temos agora a história de Marisa, muito curiosa com a mala de tropa do pai. Em momentos excecionais, o pai mostrava a homens, ex-camaradas de guerra, ou então aos tios, mais novos do que o pai, o conteúdo. O pai foi deixando que Marisa lesse livrinhos de aventuras que estavam guardados na mala. Num dia em que os pais estavam ausentes, Marisa abriu a mala e encontrou cartas, e descobriu uma coisa única: o pai na guerra tinha uma quantidade enorme de madrinhas de guerra, havia um inicio de contacto que tinha sempre um padrão: “Ao ler o meu nome verifica que lhe sou totalmente desconhecido, dirijo-me a si com sinceridade e com um fim que lhe é fácil realizar caso queira dar-me aquilo que até agora não obtive, o que lhe peço é correspondência como madrinha de guerra.” Apresenta-se a todas dizendo que tem 22 anos, 1,72m de altura, olhos castanhos, cabelo um pouco loiro e era natural do concelho Porto de Mós, não tencionava ficar muito tempo solteiro porque o pai tinha casa de comércio. “Marisa vivia fascinada com a forma como se podem conhecer tantas raparigas ao mesmo tempo não saindo do mesmo sítio e vivendo num local onde quase só se convive com homens.”

É uma correspondência assombrosa, começa sempre por tratar as meninas por você, depois passa a tratá-las por tu e a dizer amor. Em adulta, Marisa fizera uma grande surpresa ao pai, escreveu um livro para encaixar aqueles objetos, fotos e memórias ordenadas, o pai acedeu, entrou no jogo da verdade, fez-se a cronologia da sua comissão em Mocímboa da Praia, dedicou o seu relato às 21 madrinhas de guerra. Acontece que uma dessas madrinhas de guerra, de nome Mimi é a mãe de Marisa. Umas duas a três vezes por ano, o pai volta à mala, esta é um lembrete do que ele foi capaz de fazer e de até onde foi capaz de ir. Marisa sempre sonhou voltar àquele local onde o pai escreveu tantas cartas às madrinhas, ali no jardim previsto da paixão entre Fernando e Mimi Vieira Reis, Vila Nova de Ourém.

Por ironia do destino, vamos ouvir falar de novo do pai de Teresa Capítulo e da menina que ele deixou na Guiné, e há muitas outras histórias para contar. Que belo livro de narrativas que Catarina Gomes nos ofereceu.


Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 23 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28284: Notas de leitura (1953): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" , de Recaredo (volume I, 2026, 455 pp); análise feita pela AILA (A IA da Editora Clube de Autores)

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28010: Notas de leitura (1921): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (7) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Agora que chegamos ao término da viagem, importa realçar que não estamos perante uma história da guerra nem mesmo história oral de valor memorial sobre a guerra. Trata-se de uma abordagem onde se procura analisar a estratégias desenvolvidas pelas famílias no tocante à relação entre pais e filhos durante a guerra. Há uma linha de conduta dos militares lá longe apelando aos filhos perseverança nos estudos e coesão familiar, como se houvesse a antevisão de que eles viriam mudados e se impusesse um esforço de adaptação. Estes filhos dos militares, em conversa com as autoras, falavam por vezes como se ainda fossem pequenos; e o terem retomado as memórias da infância e da adolescência, as estadias do Colégio Militar e do Instituto de Odivelas, a necessidade dos irmãos se terem reunido para relerem cartas e aerogramas traz leituras por vezes bem curiosas sobre a relação dos pais depois dos militares terem definitivamente regressado a casa. Nestas reuniões com as autoras também houve assombros a escutar de novo as fitas magnéticas onde não faltam cantigas, conversas sobre os estudos e até músicas do Festival da Canção. Na verdade, os pais voltaram outros, em muitos casos houve a necessidade de deixar passar o tempo para depois descobrir que tudo tinha mudado na sociedade, nos valores e nos contextos sociais.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 7

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Vamos hoje despedir-nos destas conversas entre filhos e pais em tempos de guerra falando de Joaquim Pires Afreixo e Fernando Manuel Saraiva. Joaquim era funcionário dos CTT quando foi requisitado em 1961 para o Serviço Postal Militar (SPM), tinha 36 anos e foi graduado em alferes. Constituído o teatro de operações de Angola havia que organizar a distribuição do correio aos militares em campanha. Os CTT em Angola não dispunham de meios para fazer face ao crescente volume da correspondência. Deu-se o caso de a correspondência entre os combatentes e as suas famílias se ter acumulado em Luanda por mais de três meses. Determinou-se que essa correspondência seria enviada para o Quartel-General da Região Militar de Angola, mas o problema não ficou resolvido.

Foi então que o ministro do Exército determinou a organização do SPM, o objetivo era criar uma estrutura que fizesse chegar ao seu destino, o mais rapidamente possível, a correspondência e as encomendas. Joaquim fez quatro comissões, sempre neste serviço, em Moçambique, em Macau, na Guiné, de novo em Moçambique. Joaquim permaneceu muito tempo afastado dos filhos. José, o mais velho, nasce em 1955, e Lucinda em 1962. Quando Joaquim regressa dois anos depois, José não o reconheceu. Até ao seu regresso em 1965, Joaquim passará apenas curtos períodos em Lisboa com a família. A mulher de Joaquim trabalhava como bibliotecária e arquivista, manifestamente não quis ir para os locais onde o marido procurava manter o SPM em bom andamento.

Lucinda vai com dez anos para o Instituto de Odivelas e o irmão para a Faculdade de Medicina. Na correspondência Joaquim nunca fala da guerra, mas em Lisboa aborda-a, à luz do que vê e ouve. Ele comprara um gravador de cassetes para poder enviar à família notícias suas e canções românticas; nas cartas remetia fotografias. O pai pede aos filhos notícias. Com o passar do tempo, Joaquim vai revelando um outro olhar sobre o lugar onde está. Na troca de cartas o tema da escola é recorrente.

Finda a guerra, Joaquim regressa em 1975, depois da independência de Moçambique, é integrado no Exército e chega a Tenente-coronel. A guerra raramente esteve presente nas conversas da família. O tempo foi passando e o que ficou desses tempos está na correspondência que se salvou da fogueira.

Agora Fernando Manuel Saraiva. Nuno tem três anos e oito meses quando o pai, o Capitão Miliciano Fernando Saraiva parte para Moçambique, mobilizado para comandar a 1.ª Companhia do Batalhão de Caçadores n.º 4811, partiu em abril de 1973, vai de avião com 165 homens, entre os quais um médico, um enfermeiro e dois auxiliares de enfermagem, quase todos os militares são originários dos Açores. Ao chegar a Moçambique, o Batalhão assume a responsabilidade por uma zona de atuação no distrito de Niassa com uma superfície aproximada de 14 mil km2.

Antes da mobilização, Fernando era estudante de Engenharia e havia entrado na carreira de Despachante. Quando soube que ia ser mobilizado, preparou a saída de Portugal com destino a Paris, mas o pai impediu-o. Nuno fica com a mãe, de nome Maria José, era doméstica. Maria José escreve todos os dias a Fernando, lamentando a sua ausência. Nos aerogramas que envia ao filho, Fernando faz desenhos para Nuno colorir ou copiar.

Nuno recorda às autoras: “As cartas que escreve para a minha mãe é para a descansar. É o paraíso. A forma como ele fala comigo é por vezes autoritária, outras vezes como se fala com um bebé. Nas cartas em que enviava ao meu avô a forma é um pouco mais dura. A partir de uma certa altura, o meu avô deixa de escrever, era a minha tia que escrevia em nome dele. A escrita do meu avô era muito certinha, escrevia autênticos testamentos onde ele dava conta do que estava a acontecer ao país real.”

Em 1 de abril de 1974 Nuno e a mãe chegam a África, comenta o filho: “Muita insistência dela, o meu pai não queria.” Mãe e filho chegaram a Muembe, local onde estava a Companhia de Caçadores que o pai comandava. Nuno não o reconhece. A família fica alojada no aquartelamento juntamente com outros oficiais e as respetivas mulheres. A companhia encontrava-se instalada numa zona montanhosa, cortada por inúmeros rios e linhas de água. Não há população branca na zona de atuação do Batalhão, apenas dois cantineiros. A população vive em aldeamento para onde foi deslocada. Muitos fugiram para o Maláui e para a Tanzânia, e aldeias que se sabe estar sob controlo do inimigo. A população é maioritariamente muçulmana e não fala português.

A conversa de Nuno com as autoras recolhe muitas informações do livro da Unidade. Chegou-se ao 25 de abril e Nuno lembra-se da agitação e da alegria dentro do quartel, veio depois uma grande tensão, pela indefinição relativa ao futuro dos militares. O Batalhão inicia o seu regresso a partir de novembro de 1974. A família regressa a casa. Nascem mais duas filhas. Não se fala da guerra. A mãe não esconde as boas memórias da passagem por África. Com o pai foi diferente, como Nuno relata: “O meu pai tornou-se extremamente violento comigo, e eu atribuo isso também um bocado à cabeça meio esfrangalhada com que ele veio. Houve episódios de violência muito, muito grandes. O meu pai também se reencontrou, mas muito mais tarde.”

Depois da sua morte, Nuno tem participado nos almoços de confraternização da Companhia. “O meu pai destruiu tudo o que tinha a ver com a guerra ou com a memória da guerra.” Dos poucos aerogramas que sobraram, Nuno lê um excerto:
“E por saber que tens ido à praia o pai fez hoje um desenho para colorires. Trata-se de um marinheiro, que está a passear numa praia e tem uma gaivota com um peixe na boca em cima do chapéu. Quando a mamã escrever diz-lhe para ela contar como o Nuno passa os dias, como costuma brincar. E também se desenhas e pintas bonecos.”
E a conversa com as autoras termina assim: “Eu tinha sempre de participar, sempre, o que me faz pensar que também esse exercício, esse jogo contínuo, me levou a ser o que sou hoje, um desenhador.”

No epílogo da obra, as autoras reafirmam que o seu objetivo era de contribuir para um melhor conhecimento deste período. “A separação familiar revelou-se uma experiência avassaladora, com repercussões nos laços entre o casal e os pais com os filhos. Esta vivência torna-se consciente muito mais tarde na vida das crianças envolvidas, hoje adultos.” Consideram que este recuo a memórias da infância, a descoberta de novas fotografias, a reunião com irmãos para falar desses tempos resultou num visível alívio para quase todos. Há filhos que fizeram perguntas ao pai sobre a guerra, as respostas foram raras, por vezes evasivas. E nos relatos onde se usa a crueza de narrar o acontecido, como observam as autoras, mais parecem desabafos escritos para si próprios do que para os filhos, que não podiam compreender do que falava o pai. Falava-se por vezes da fuga das populações, das aldeias dispersas permeáveis à influência do inimigo, há militares que falavam das crianças órfãs então escrevem sobre elas, alguns pensando nos próprios filhos.

O epílogo termina de modo muito poético:
“No regresso, os pais voltaram outros. Como só a poesia, nas palavras de Fiama Hasse Pais Brandão, sabe exprimir:
Outras andorinhas voltam, não as que
partiram dos beirais, no outono.
Mudaram no deserto as suas imagens,
e as que volteiam hoje sobre esta água
no passado conheceram outro destino.
Que lugar trarão na memória dos olhos?”

Terna e estrénua foi a pesquisa, o resultado é este livro esplendente.

Ana Vargas e Joana Pontes
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

Último post da série de8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Para sermos francos, já outros se aventuraram a pesquisar e corrigir as narrativas familiares envolvendo militares na guerra de África e os filhos que aqui ficaram ou que eventualmente tenham podido acompanhar as comissões dos pais. É mais uma janela que se abre para o estudo caleidoscópico da guerra, temos relatos de enfermeiras-paraquedistas, mulheres de militares que os puderam acompanhar, histórias de madrinhas de guerra, isto para não falar já de impressionantes relatos deixados por combatentes, estou a lembrar-me do pungente e dramático relato do Capitão Salgueiro Maia intitulado "Crónica dos Feitos da Guiné", a descrição que ele faz da coluna que vai até Guidaje completamente cercada por uma operação de grande envergadura do PAIGC, em maio de 1973. Sem margem para dúvidas, somos agora confrontados quanto ao modo como os militares procuravam desempenhar o seu papel de pais, enviando inclusivamente bobines com histórias apropriadas para menores; é uma troca de correspondência, como dizem as autoras, uma reflexão muito particular sobre a ideia de família numa sociedade em mudança, a par dos valores e dos contextos sociais que marcaram uma época fundadora na história do país.

Um abraço do
Mário


Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 6

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

João António Gonçalves Serôdio, militar do quadro permanente parte para a sua segunda comissão em março de 1970. Os filhos, Ana, a fazer catorze anos, Zá com doze, Cristina com onze e João com três estarão no Cais da Rocha do Conde de Óbidos. A mãe está grávida de uma menina que havia de nascer uns meses depois, Margarida. Os filhos mais velhos estão nos colégios internos, no Colégio Militar e no Instituto de Odivelas. A primeira comissão de João Serôdio foi na Índia. A filha Cristina recorda: “Ele estava lá sozinho. Escrevia para a mãe quase todos os dias. Temos a correspondência toda que o pai enviou para cá. A que a mãe enviou desapareceu.”
O pai enviava para a família uma mensalidade de quatro contos.

Ficará em casa oito anos, durante os quais frequentará vários cursos. A família não o vai acompanhar quando ele parte para Luanda, alguns dos filhos irão lá visitá-lo. O Colégio Militar deixou alguns traumas ao filho Zé. O pai dá conselhos: “Tens de saber ser forte na adversidade. Tens de reagir e não podes fraquejar. Crê, meu filho, que todos os homens encontram na sua vida mais obstáculos que facilidades. Mas, aqueles que desistem, que cruzam os braços, são arrastados para situações medíocres e são durante toda a vida infelizes porque sentem que não lutaram quando deviam.”
Há troca de correspondência com as filhas.

Quando nasceu Margarida, a mãe vai para o Porto para casa dos pais e leva o filho de três anos e a bebé recém-nascida. Segundo os filhos, a mãe sofre muito com a ausência do pai. Zé foi três vezes visitar o pai a Luanda, em 1972 foi a família toda sem a filha mais nova. João Serôdio pediu para continuar a comissão por oferecimento, foi um choque para toda a família. João Serôdio trabalhava diretamente com o General Costa Gomes, exerceu as funções de Chefe de Gabinete quando Costa Gomes foi Presidente da República. É numa destas cartas que encontrei a frase que vai encimando este conjunto de textos:
“Querido Pai,
Olhe que o pai faz mesmo muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu, onde está sozinho; só às vezes acompanhado por espírito.”

O pai regressa em junho de 1974, João tem então sete anos e lembra-se que o pai lhe observava que devia dobrar os calções ao deitar, não pôr os cotovelos na mesa.

João Menino Vargas tem muito a ver com Ana Vargas, a prosa que se segue é muito enternecedora:
“Há uma caixa de madeira em cima da mesa à volta da qual estamos à conversa. Aqui se guardam, há muito tempo, cartas, diários antigos, aerogramas e fotografias. São memórias relacionadas com a vida militar de João Vargas, pai de Luís, Ana e Cristina. Entre eles e connosco vai surgir uma reflexão sobre o passado familiar e comum, em grande medida marcado pela passagem do pai pela guerra colonial.”

João entra na Academia Militar com dezasseis anos. É filho de um capitão. João sai da Academia como oficial de artilharia, namora com Beatriz, estudante no Instituto de Odivelas, Beatriz tem nove irmãos, veio para Lisboa tirar um curso de costura após o qual ficou a trabalhar em casa, dando também aulas deste ofício. O pai de Beatriz é destacado para Timor como comandante-militar, leva consigo cinco dos dez filhos entre os quais Beatriz. Como ela já namorava com João, este ofereceu-se como voluntário para acompanhar, não podiam ainda casar, quer pela idade quer pelos rendimentos.

João Vargas escreveu que ficou chocado com a penúria e o atraso com que viviam os timorenses:
“Eram obrigados a trabalhar um mês de borla para a Administração, período muitas vezes ampliado para dois meses, ou o que fosse decidido pelas autoridades administrativas locais; a que se somava o imposto de capitação, que todos os homens eram obrigados a pagar, vulgo imposto de palhota e, para completar o quadro, estavam sujeitos a serem arrebanhados para as plantações de café, sempre que os fazendeiros precisavam de trabalhadores, aos quais depois pagavam salários miseráveis. Os castigos corporais eram moeda corrente.”

Beatriz e João casam em 1960. Um ano depois nasce Luís. Em 1964 a família deixa Timor. Quatro meses depois, João é mobilizado para Tete em Moçambique. Vai a família toda, Beatriz, Luís e Ana. Em 1966 nasce Cristina. Regressam todos de Moçambique. João escreveu sobre esse tempo: “Na pacatez de Tete, parte da população branca não escondia as suas simpatias pela política de apartheid e a discriminação racial era evidente. Era do conhecimento público a colaboração das autoridades na angariação de donativos para trabalho de escravo e o seu envio forçado para a colheita da cana-de-açúcar da Sena Sugar sem que alguém manifestasse discordância.”

No regresso ficam a viver na Escola Prática de Artilharia. É por essa altura que um familiar, o tio Joãozinho, um dos irmãos da mãe parte para a Guiné e na própria noite em que chegaram ele morre num acidente, estava de oficial de dia, ia passar a ronda, o desgraçado que o abateu ouviu um barulho, ele morreu com dezassete tiros. João Vargas é mobilizado pouco tempo depois para a terceira comissão, vai para a Guiné, a família não o pode acompanhar. João é colocado em Nova Lamego. Pouco depois da partida do pai, Luís entra para o Colégio Militar, Ana vai para o Instituto de Odivelas, Cristina ainda com cinco anos, fica com a mãe em casa. Beatriz irá trabalhar como bibliotecária. Troca-se muita correspondência, o tema dos estudos é recorrente. A família envia a João gravações de músicas. No regresso virá muito mais tenso. João tece o seguinte comentário: “Vinha necessitado de mostrar que era quem mandava. Nós estávamos habituados a maior autonomia e independência.”

Estamos chegados ao 25 de abril. Após a morte recente dos pais, os filhos têm encontrado mais correspondência, postais e outros textos. Num deles, já no ocaso do regime e sobre a sua passagem pela Guiné, o pai deixou escrito:
“A guerra tem consequência interessantes. Curiosamente, as pessoas sentem-se libertas para dizerem o que lhes vai na alma. A PIDE era ali omnipresente, mas para o combatente é-lhe indiferente. Ouvem-se afirmações, alto e bom som, de verdadeira revolta: eu estou aqui porque o meu pai não me deu dinheiro para emigrar; estou aqui, porque não posso abandonar a minha família, senão tinha emigrado; se eu fosse africano também lutaria pela independência.”

Ao terminar a conversa os filhos de Beatriz e João, Luís dirá: “Pela maneira como se encara as guerras, parece que a gente está a ver na televisão, parece quase um filme. Nem se percebe às vezes, que de ambos os lados há vítimas e mesmo o maior facínora tem família.”

Estamos praticamente no fim desta belíssima recolha de narrativas, concluiremos na próxima semana.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
_____________

Notas do editor

Vd. post de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 1 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27976: Notas de leitura (1918): Carta de Bertrand-Bocandé sobre o islamismo no Casamansa, 1851 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Bem distintos foram os itinerários de João Corte-Real de Araújo Pereira e o de Rogério Pereira. O primeiro embarcou para Timor em 1959, era capitão, na viagem no navio Índia, descobre empatia com Luísa, haverá namoro e depois casamento, o casal ficou quatro anos em Timor. Seguem-se novas comissões, vão aparecendo mais filhos. As comissões são em Moçambique, Angola e Guiné. Os mais velhos irão frequentar o colégio militar. A mãe sofre de surdez, mas nada abalou o bom relacionamento entre a mãe e os filhos. Dá por vezes pormenores do que faz nas suas comissões, sobretudo na Guiné. Rogério Pereira foi furriel miliciano em Angola entre 1969 e 1971. Publicou a sua correspondência num livro que intitulou de Almas que não foram fardadas. No seu casamento com Teresa surgiram três filhas, duas das quais já existem quando ele está em Angola. Sente-se do seu depoimento que a guerra lhe trouxe mudanças profundas, deu-lhe um grande sentimento de solidariedade com gente tão carenciada. Sofreu muito com a morte da mulher e está bastante arrependido de ter destruído a correspondência que lhe enviou dos sítios onde viveu em Angola.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 5

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

João Corte-Real de Araújo Pereira era capitão quando embarcou para Timor, no final do mês de setembro de 1959. Acontece que naquele navio, no Índia seguia também Luísa e a família. O pai da Luísa tinha sido nomeado para Comandante Militar em Timor. Aqui chegados, houve namoro e casamento, em Baucau, 1962. Observa João que Timor era uma colónia desgraçada, abandonada, não tinha luz, não tinha água, nada. Houvera uma sublevação em Viqueque contra as autoridades portuguesas em junho de 1959, rapidamente sufocada. Sabe-se que na sua origem estavam catorze indonésios que se encontravam exilados em Timor. O sogro de João fez um relatório da sublevação, aí escreveu: “O problema da subalimentação e definhamento das populações nativas, já referido pelo antigo Governador Álvaro de Fontoura no seu livro "O trabalho dos indígenas de Timor" é hoje verdadeiramente angustiante.”

João ficou quatro anos em Timor, Luísa regressa e dá à luz gémeos. Seis meses passados deste nascimento, João parte para a segunda comissão, em Moçambique, a família fica em Lourenço Marques. Um ano e pouco depois João é promovido a major. Mandaram-no então para Angola, Luísa regressa a Lisboa com os gémeos, nasce agora o terceiro filho. Quando João regressa de Angola voltará a ser mobilizado de novo para esta colónia como oficial de operações do Batalhão de Artilharia 2864. Entretanto nasce o quarto filho, Luís, João tinha metido férias e assistiu ao nascimento do filho. Aerogramas não faltaram. Em dezembro de 1972, João parte para a Guiné, é tenente-coronel e comanda o Batalhão de Artilharia 6522. Tinham sido desembarcados em Bolama e foram recebidos com foguetões 122. João comanda o Batalhão em Ingoré, trata-se do Sector 06, a zona de atuação tinha uma superfície aproximada de 1500 km2, a dimensão da fronteira norte com a República do Senegal era de cerca de 100 km.

Todo este relato será feito por João, assistiu ao aparecimento dos misseis terra-ar. O Batalhão ficou neste setor cerca de vinte meses. Luísa destruiu a correspondência que escreveu e recebeu do marido. Guardou cuidadosa e separadamente a que João trocou com cada um dos quatro filhos. João iniciava a sua correspondência com os filhos dizendo “Meus queridos filhos”, “Meus queridos rapazes” ou “Meus queridos homenzinhos”. Luísa sofria com a surdez, desenvolveu com a família uma linguagem própria. Quando se dá o encontro com as autoras do livro, é o filho mais novo que serve de intérprete. Guardam na memória a morte do tio Joãozinho, um estúpido acidente na Guiné. A memória dos anos da ausência do pai está muito relacionada com a passagem no Colégio Militar. A adaptação às regras da instituição não foi fácil.

João escreve aos filhos a sua rotina, por vezes fala aos filhos dos rapazes que vai encontrando à sua volta e também dos adultos:
“As mulheres andam nuas da cintura para cima. Andam à vontade, sem vergonha. É nelas natural. Olha, agora os miúdos vieram pedir esferográficas porque não têm. Todos estes rapazes têm um grande desejo em aprender para poderem ter uma vida melhor. Quase só comem arroz. É uma alimentação muito incompleta e por isso têm uma barriga enorme. Os rapazes fazem brinquedos com caixas de papelão, tampas das garrafas, etc. Com pouca coisa conseguem fazer trabalhos bem feitos.”

Chegou a hora da independência, entregou o território ao PAIGC. E deu-se uma viragem que para ele foi muito chocante: “Em Bissau, entregámos as armas, atirando-as para o monte, no cais, o monte de G3, nós passávamos e atirávamos a G3.

No fim da conversa os filhos de João disseram às autoras: “Nosso pai nunca falou da guerra nem nós perguntámos. Diz-se que uma guerra só acaba quando o último participante morrer. Enquanto houver um que viva, esta guerra ainda não acabou.”

Vejamos agora a história de Rogério Pereira, nascido em 1945, casou com Teresa em 1966, mobilizado como furriel miliciano enfermeiro para Angola entre 1969 e 1971. Quando Rogério parte, Teresa fica em Lisboa com duas filhas. Teresa trabalhava na área dos seguros. Rogério escreve às filhas no verso de fotografias que envia à mulher, às vezes escrevia poemas e quadras, Rogério dirá na entrevista às autoras que cada fotografia era um referencial daquele momento. A correspondência serviu-lhe para escrever um livro a que chamou Almas que não foram fardadas. Destruiu a correspondência depois da morte de Teresa e considera que foi uma coisa estúpida. Mas teve uma surpresa quando a filha mais velha, de nome Maria João, lhe trouxe uma embalagem castanha, a caixa de uma ração de combate, o conteúdo eram cartas, aerogramas e fotografias que escrevera em Angola.

Partiu para Angola em 12 de julho de 1969, com a Companhia de Cavalaria 2562, começou na região de Maquela do Zombo, na Fazenda Costa. Escreve à filha mais velha, fala-lhe das casas, da pobreza, das ruas, os meninos que não têm brinquedos, os meninos não têm areia, só terra. A maioria não fala português, havia os que falavam Quimbundo e o Quioco. Envia desenhos nas cartas. A meio da comissão, a companhia foi transferida para a zona centro para locais na Província do Bié, refere à mulher o meio em que vive, não lhe parece que haja comportamentos racistas, há cantineiros que casam com negras ou mulatas, mas é notório que os fazendeiros exploram as populações nas roças de café e do algodão, assistiu ao trabalho forçado.

No final da conversa com as autoras, João diz-lhes:
“A guerra humanizou-me muito. Relacionei-me com outras formas de ser, de estar, de conviver, com outras culturas. Quando aquela gente soube que os tratava bem, logo de manhã eu tinha filas à porta do posto de socorros, e isso, digamos, é uma experiência muito difícil de explicar. Porque o que nos produz são sentimentos. Eu, ao perceber aquela dependência, aquela vivência, e aquela forma de estar, percebi que, de facto, nós, enquanto potência colonial, fizemos muito mal o nosso trabalho de casa.”

Iremos seguidamente ouvir falar de João António Gonçalves Serôdio, militar do quadro permanente e de João Menino Vargas, aqui, uma das autoras, Ana Vargas, tem laços familiares apertados. É a penúltima viagem por este tão intimista e esplendente Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra, 1961-1975.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 24 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27946: Notas de leitura (1916): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Continuamos na companhia de militares e da sua correspondência endereçada a filhos menores durante a guerra colonial. Temos, primeiro, Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, aqui relevado pela originalidade de ter enviado um conjunto de contos em pequenas bobines, assim deliciava crianças e adultos. Carlos fez o curso da Escola Naval, teve uma comissão em Moçambique entre 1968 e 1970. Os filhos recordam o camarote do pai e a sua mesa de trabalho, foi nessa cabine que o pai iria escrever e ler as centenas de cartas que trocou com a família e gravar as bobines com os contos e as conversas que enviou para os filhos. Carlos não escondia situações de apuros vividas durante a comissão militar. Terá vindo muito debilitado de Moçambique, morreu com 53 anos. Pedro João dos Santos Reis era oficial da arma de infantaria, fez quatro comissões. A primeira comissão em Moçambique, e depois Timor, experiência inesquecível para os filhos, Pedro deixou a filha mais nova ao cuidado dos avós. A terceira comissão foi na Guiné, leva parte da família, irão os três filhos mais novos, os mais velhos em instituições militares. Pedro fará a sua última comissão em Angola, aqui viverá o 25 de abril, será um dos últimos militares a regressar. Um dos filhos comenta: "Ele adorava aquela cidade (Luanda). O pouco que ele contava do que se passou depois era uma coisa horrível."

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 4

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Começamos hoje por falar de Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, estou seguro de que ele vai prender a atenção do leitor. Escreveu um livro de contos aos filhos durante os dois anos que esteve em Moçambique, com o título Lá de Longe, Edições Culturais da Marinha, é um conjunto de contos que Carlos Lemos escreveu, gravou e enviou em pequenas bobines de som que os filhos ouviam, acompanhados pela mãe, pela avó e por Alice, a empregada que esteve sempre com a família. O encontro entre as autoras e o filho de nome Miguel realizou-se no Museu da Marinha, ouviu-se a voz do pai a contar uma história, lá de longe, com a música de efundo a condizer. Carlos Lemos tinha 42 anos quando partiu para Moçambique como oficial imediato da Fragata D. Francisco de Almeida. Deixa rastilhos: Guida, com 7 anos, e Miguel, com 6. Para além das bobines, havia a correspondência, as perguntas sobre o dia-a-dia dos filhos. Entretanto nasceu mais uma menina, a Sara. O pai mandou a notícia por carta: “Parece que Jesus nos vai mandar um irmão ou uma irmã para ti e para o Miguel […] é preciso não arreliar a mãe para não fazer mal ao bebé que está a crescer. Depois, quando ele nascer, tens de ajudar a criar. Não é muito difícil.” O correio dos dois filhos mais velhos é dar notícias da recém-nascida.

Carlos Lemos é mais aberto à escrita, conta mesmo operações em que intervinham fuzileiros, e descreve situações muito enrascadas. Ouve-se a voz do pai numa gravação: “Havia guerra entre pretos e brancos. A guerra era por causa dos brancos que queriam ficar a mandar nos pretos, e por causa dos pretos que não estavam satisfeitos com o procedimento dos brancos. Tanto pretos como brancos mandavam outros pretos e outros brancos, que não eles, pegarem armas para se matarem uns aos outros. Poucos sabiam porque é que haviam de lutar e pouquíssimos gostavam realmente de pegar em armas.”

Para os filhos não há dúvidas, Carlos Lemos escrevia para ele. O pai entende que não deve esconder aos filhos o dia-a-dia: “Ontem o navio parecia uma autêntica arca de Noé. Vinham atestados até mais não poder. Trazia mais de duzentos homens, coitados, dormem ao relento pelo chão e por onde calha. Deus teve pena deles e não mandou chuva.”

Falando com as autoras Guida diz que o pai veio diferente, triste e debilitado. Carlos morreu com 53 anos, doente.

Vejamos agora a trajetória de Pedro João dos Santos Reis. A conversa decorre à volta de uma mesa, estão cinco irmãos de uma família de sete filhos. Trouxeram fotografias, aerogramas e cartas que consultam, trocam entre si, e sobre as quais contam histórias, desafiando-se uns aos outros sobre memórias dos seus tempos de infância e da adolescência. Pedro fez a academia militar e foi mobilizado para quatro comissões, tendo, entre elas, concluído o curso de Estado-Maior que graduava oficiais superiores. A primeira comissão foi em Moçambique. Aqui nasceram dois filhos, a Paula e a Leny. Regressam e a família fica quatro anos em Lisboa e, entretanto, nascem mais três filhos, Zé Pedro, Ana e Maria João, entre 1956 e 1960. O pai é mobilizado para Timor, ele e a mulher levam quatro filhos, o bebé fica com os avós. Contam-se histórias como um convite feito a um padre para almoçar lá em casa, e o criado estava a servir à mesa quando viu aquela pessoa que fugiu. A mãe quis apurar a verdade, ainda por cima ia buscar os criados saídos da vida prisional. O criado confessou que tinha matado um padre que era o seu patrão. Ficou tudo em segredo de família.

Nasce mais um filho em Timor, a família regressa em 1963, o pai vai fazer o curso do Estado-Maior. Em Lisboa nasce mais uma filha, a Patrícia. O pai parte para nova comissão, vai para a Guiné e ficará em Bissau, com ele vai uma parte da família, a mãe e os três filhos mais novos. Conversando com as autoras, os filhos vão dando conta, uns recebendo a correspondência dos pais, outros a viver em Bissau, da atividade do pai, oficial perto de Spínola. As viagens que fizeram para a Guiné tornaram-se inesquecíveis. O pai é um dos últimos oficiais a deixar a Guiné, regressou em setembro de 1974. Há também lembranças do instituto de Odivelas, como recorda a filha Paula: “Havia órfãs, caso da nossa colega, também de nome Paula. Havia uma ideia de que o pai tinha sido morto na guerra, mas não se falava disso. Era um assunto sobre o qual não se falava. Na minha turma, havia duas que os pais ficaram malucos. Era tudo dito em surdina. Havia uma espécie de vergonha das famílias, porque eles não tinham sido mortos em combate, honradamente. Havia muita vergonha e eram sempre as pessoas mais próximas delas que faziam este sussurro entre nós.”

Deixa-se para o próximo texto a itinerância de João Corte-Real de Araújo Pereira, era capitão quando embarcou para Timor em setembro de 1959 e fez a sua última comissão na Guiné, para onde partiu em dezembro de 1962. Mais família com vida no quartel, mais filhos internados em instituições militares; e também Rogério Pereira, furriel miliciano enfermeiro em Angola entre 1969 e 1971. Nascido em 1945 casou em 1966 e quando parte a mulher fica com duas filhas. Durante dois anos, Rogério escreve quase todos os dias para casa. Parte significativa da correspondência é feita no verso de fotografias que envia à mulher e às filhas. Quando se dirige à filha mais velha escreve com letras muito grandes na expetativa de que ela talvez começasse a entendê-las. O Rogério falará com as autoras a quem dirá que a guerra o humanizara muito. “Por imperativos que eu não gostaria de ter tido, relacionei-me com outra forma de ser, de conviver, com outras culturas. Quando aquela gente soube que os tratava bem, logo de manhã, eu tinha filas à porta do posto de socorros… e isso deu-me, digamos, é uma experiência muito difícil de explicar. Porque o que nos produz são sentimentos. Eu, ao perceber aquela dependência, aquela vivência e aquela forma de estar e viver, percebi que, de facto, nós, enquanto potência colonial, fizemos muito mal o nosso trabalho de casa.”

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
_____________

Notas do editor

Vd. post de 13 de abril de 2026 >Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27927: Notas de leitura (1914): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (1) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
É elevado o número de oficiais do quadro permanente que neste livro aparecem a conversar com os filhos, e vemos que estas crianças, em situações frequentes, conheceram o internato no colégio militar e no instituto de Odivelas. Os pais tinham uma defesa na sua correspondência, acompanhavam os estudos dos filhos. São bem distintas as histórias que hoje aqui têm lugar.
Abílio Santiago Cardoso fez duas comissões em África que deixaram boa memória aos filhos. A terceira comissão é passada na Guiné, na região de Catió, entre 1967 e 1969. É parcimonioso nas descrições do seu dia a dia, os filhos socorreram-se da história da Unidade para saber mais da comissão do pai. Este veio muito abalado, comentam os filhos, demorou a recuperar. Nenhum dos filhos seguiu a carreira militar, os mais velhos revelaram-se contestatários e chegaram a ser presos na contestação ao regime e à guerra, em meio académico portuense. Amável Velez Serra, mal saído da Escola do Exército, ofereceu-se como voluntário, parte para Angola em 1955. Segue-se a Índia onde ficou prisioneiro, voltará a Angola entre 1963 e 1965. Também nunca escreveu aos filhos sobre a guerra, revelou-se profundamente terno a falar individualmente a cada um dos filhos, busca todos os assuntos, como as prendas de Natal, as aulas de piano e de judo, a catequese. voltará a ser mobilizado em 1970 para Moçambique, e logo a seguir para Angola. Também nunca quis falar com os filhos sobre a natureza das guerras que viveu.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 3

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

É uma longa série de relatos, as autoras captaram perfeitamente a natureza dos laços afetivos, as contingências que perpassam toda esta correspondência onde é por demais evidente que o militar procure silenciar o mundo da guerra em que vive. É o caso de Abílio Santiago Cardoso que assim escreve: “Meus filhos queridos, não me façam mais perguntas sobre este assunto e peçam a Deus que me ajude a cumprir o meu dever.” Vamos agora falar deste oficial de artilharia que fez três comissões.


Só recentemente é que os descendentes, os filhos e as noras de Abílio e Maria Lúcia, ao desmanchar a casa dos pais, encontraram a correspondência trocada durante a comissão militar na Guiné, entre 1967 e 1969.

Abílio teve a sua primeira comissão em Moçambique, em 1955. Ele e Maria Lúcia casaram por procuração e em Lourenço Marques nasceram os três filhos mais velhos. No regresso, em 1956, a família vai para Penafiel, ficando a viver no quartel, foi aqui que nasceu o quarto filho, em 1961.
A segunda comissão foi em Cabo Verde, Abílio leva a família toda, a comissão deixou boas recordações. Regressam a Penafiel. Em 1967 Abílio é tenente-coronel de artilharia vai comandar o Batalhão de Artilharia nº 1913, vão para o setor S3, com sede em Catió, ali vivem na área controlada pelos militares cerca de 6000 pessoas.


Consta do livro da Unidade a descrição do inimigo: “apresenta-se num setor bem instruído, experiente, moralizado e bastante aguerrido". O filho mais novo acompanha a mãe e vão para a Régua, os outros três filhos ficam internos no Colégio Militar. O pai escreve-lhes incentivando-os no desempenho escolar, mostra-se orgulhosos com os prémios que os filhos gémeos recebem. Numa carta Abílio escreve aos filhos: “É necessário que todos nós, os 6, formemos um bloco unido e pronto a ampararmo-nos uns aos outros seja em que circunstância for e implique os sacrifícios que implicar.” Os filhos gémeos terão na altura 12 anos. Abílio está acerca de um mês em Catió quando escreve esta carta aos filhos mais velhos:
“É a última vez que vos falo da minha atividade aqui. Operações são coisas muito sérias em que morrem a guerrear uns homens que têm pais, mulheres ou filhos ou todos os parentes mencionados. Claro que se esses homens estão do outro lado, lamentamos o facto de nos obrigarem porque eles assim o quiseram. Quando se trata de homens nossos, o problema é muito doloroso.”


Os filhos que irão conhecer a realidade da comissão através do tal livro da Unidade. O Batalhão aposta na ação psicológica e no apoio social. Há população que estava sob o controle do inimigo que se apresenta nos aquartelamentos do Batalhão. Este regressou a 2 de março de 1969. Em combate teve 26 mortos e 137 feridos. Nos tempos subsequentes à chegada do pai a guerra não era tema de conversa. Nenhum dos filhos seguiu a carreira militar. Abílio foi sempre aos almoços de confraternização, era muito querido entre os seus antigos subordinados.

É a vez de falar de Amável Velez Serra, que se alistou como voluntário aos 19 anos de idade. Tinha feito a Escola do Exército, a sua primeira comissão foi em Angola. Casa-se por procuração em 1957 com Maria Julieta Rogado. O primeiro filho nasce um ano mais tarde em Benguela, e no ano seguinte, nasce uma filha em Nova Lisboa, permaneceram em Angola quatro anos.

Em 1961, Amável, já como capitão, é mobilizado para a Índia, a família acompanha-o. Pouco antes da invasão pela União Indiana, a mãe regressa com dois filhos e grávida do terceiro. Amável é preso. Regressa e é novamente mobilizado para Angola, a partir desta terceira comissão a família não acompanha o pai. Amável ficará em Angola entre 1963 e 1965, receberá a visita da mulher e do filho mais novo.

Em 1966, começa em Évora a constituição do Batalhão de Caçadores n.º 1903, Amável vai novamente para Angola, vão para Zau-Evua, há uma grande dispersão da população por sanzalas, grande parte da população fala português. Seguem-se outras deslocações, o Batalhão regressa em junho de 1969. Durante estes dois anos de ausência, Amável nunca escreveu aos filhos sobre a guerra, fala sempre do quotidiano dos filhos, é muito terno na escrita.

Amável voltará a ser mobilizado em 1970, para Moçambique, onde ficou mais dois anos. E logo a seguir para Angola onde se encontrava quando se deu o 25 de abril. Os filhos não encontraram correspondência que o pai tivesse enviado destas comissões, embora recordem que ele escrevia com regularidade, sobretudo os pais entre si, e também os filhos recordam que o pai nunca falou de situações pelas quais tivesse passado durante o período em que esteve mobilizado, nem sequer do tempo em que esteve preso na Índia, nem mesmo com o filho mais novo, que seguiu a carreira militar.

Itinerários diferentes são o que iremos reportar a seguir, envolvendo Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, Oficial da Marinha, que deixou uma correspondência singularíssima, e de Pedro João dos Santos Reis, Oficial da Arma de Infantaria. Recordamos ao leitor que estamos a passar em sequência a correspondência entre pais mobilizados e os seus filhos menores durante a Guerra Colonial. Em aerogramas escritos e desenhados, o militar vai desempenhando o seu papel de pai. Os filhos, por seu lado, consoante a idade, vão respondendo da maneira que conseguem, por vezes a com a ajuda das mães. Esta troca de correspondência oferece-nos uma reflexão muito particular sobre a ideia de família numa sociedade em mudança.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
_____________

Notas do editor

Vd. post de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 10 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27909: Notas de leitura (1912): Um manjar para filatelistas acérrimos: "Os Selos Coroa da Guiné" (Mário Beja Santos)