sábado, 20 de fevereiro de 2021

Guiné 61/74 - P21924: (Ex)citações (382): O 1º Cabo RD "Estraga a Tábua" que eu conheci em 1962, no então BC 10, mais tarde, RI 19, Chaves (E. Esteves Oliveira)


1. Mensagem do nosso leitor e camarada Esteves de Oliveira, que foi E. Esteves de Oliveira Ex-oficial miliciano de Infantaria, Guiné 1963-65, Angola 1965-66, Moçambique 1966, nascido em Angola, autor do blogue "A Sopa dos Pobres"


Data: segunda, 15/02/2021 à(s) 19:38
Assunto: O Estraga a Tábua

Caro Luís,


Que fantástico ler no post do Joaquim Costa a história do Estraga a Tábua, que eu conheci no BC 10 (mais tarde RI 19) em 1962, era ele então 1º. cabo RD [Readmitido] mas já senhor da alcunha - o homem era o faz-tudo mais desajeitado do Exército português, mas ia-se safando das porradas e das mobilizações (estas graças aos chamados autos de amparo). (*)

Do Forte de São Francisco também tenho boas recordações: quando por lá passei albergava duas companhias de recruta e os respectivos graduados - apesar de curta, a distância entre o Forte e o quartel dava-nos uma relativa independência, além de as inúmeras divisões desocupadas proporcionarem "actividades não curriculares" com algum conforto, comparadas com a do Ferreira, camarada do Costa. (**)

Um alfa-bravo do
Esteves de Oliveira
http://asopadospobres.aboutlisboa.com/
___________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 13 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21893: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-fur mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte II: A minha passagem pela maravilhosa cidade de Chaves depois do martírio de Tavira

(...) Foi neste moderno e agradável quartel que tive o grato prazer de conhecer o pai do malogrado e excelente jogador de futebol do FCP, Pavão, que teve morte súbita em pleno estádio das Antas no fatídico dia 16 de dezembro de 1973. (...)

Era sargento, excelente pessoa, mas rezava a história, no quartel e na cidade, sem grande jeito para os trabalhos manuais. Contava-se que um cão rafeiro apareceu no quartel e logo foi adotado por todos, desde o comandante ao soldado raso. Dado que o canino não tinha sitio para dormir e abrigar-se dos dias mais agrestes, foi decidido construir-lhe uma casota. Logo o bom sargento se ofereceu para a tarefa, tendo sido feita uma coleta para comprar a madeira necessária para a obra.

O homem comprou a madeira e muniu-se das ferramentas necessárias, nas oficinas do quartel, e dum projeto de casota elaborado por um habilidoso em desenho. Mede e volta a medir, corta aqui, corta ali, corta acolá, e montadas as peças nenhuma bateu certo com o projeto. Volta a medir a cortar aqui, a cortar ali e acolá, voltou a montar e ainda pior.

O comandante, que também tinha contribuído para a casota, ao fim de uns dias, vendo que o cão continuava a dormir em todo o sítio manda chamar o sargento para saber da casa do cão. O sargento, muito constrangido, e à espera do pior, lá foi contando as peripécias da construção da dita casota acabando por confessar que nem tinha casota nem tinha tábuas. O bom comandante, dando uma grande gargalhada, virou-se para o velho Sargento e diz-lhe: 

 – Ah!, homem do diacho, fizeste-me à tábua o que o diabo fez à coisa: para além de não construires a casota ainda me estragaste a tábua!...

E assim nasce a alcunha do Sargento Neves – O Estraga a Tábua. (...)

Guiné 61/74 - P21923: Os nossos seres, saberes e lazeres (437A): De Manteigas para o Vale Glaciário do Zêzere (1): (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Setembro de 2020:

Queridos amigos,
Insista-se que foram férias repartidas, não se andou por Ceca e Meca e Olivais de Santarém, mas deu para visitar Óbidos e muitas redondezas, Pedrógão Pequeno até à Serra da Estrela, regressando por Portalegre. Procurou-se não contar mais do mesmo, é verdade que já se teve com a neta nas Penhas Douradas, por outro itinerário, com paragem no Fundão e na Covilhã, desta feita assentaram-se arraiais em Manteigas, transformado em pólo irradiante. E aqui fica o registo de uma manhã em que se respeitou o folheto disponibilizado pelo INATEL de Manteigas, houve bom tempo com aquele frio montanhoso do costume, deu para nos maravilharmos com o Cântaro Magro, Nossa Senhora da Boa Estrela, o Vale Glaciário do Zêzere, e indo por aí fora chegou-se ao Poço do Inferno, isto tudo depois de estarmos no ponto cimeiro de onde se avista um encadeado de cordilheiras que pareciam vogar na bruma.
Assim se passeou por um mundo que tem pergaminhos na fundação da nacionalidade, os primeiros reis precisavam como de pão para a boca das ordens militares e das populações fixadas. Séculos adiante, já não era a mourama que intimidava, e daí os soberbos castelos, como o de Almeida, de onde se podia avistar a intrusão castelhana. Tempos passados que deram o português do presente.
Um abraço do
Mário


De Manteigas para o Vale Glaciário do Zêzere (1)

Mário Beja Santos

Ao passar pela vila de Manteigas, passei pelo serviço do Parque Natural da Serra, à cata de literatura. Enquanto bebericava um café, li uma brochura ali adquirida sobre o povoamento da Serra da Estrela na Idade Média. Os primeiros reis deram-se naturalmente ao cuidado de conceder forais e benefícios tanto às ordens militares como às populações, era vital a sua fixação. Manteigas consta que terá nascido em 1188, em período idêntico povoações do concelho da Covilhã, os concelhos da Serra da Estrela – Linhares, Guarda, lê-se no documento a importância que na época tinha Folgosinho e Valhelhas, o Zêzere era o ponto extremo do limite Sul. Aspeto curioso, desenvolvia-se junto a Seia a cultura do vinho já no século XI. O autor do trabalho, José David Lucas Batista refere a fala de Manteigas: “Insere-se nos falares setentrionais de Portugal, particularmente no referente ao concelho da Covilhã. Limito-me a dar algumas caraterísticas fonéticas como a diversificação em u – luguar, por lugar; puai, por pai; pué, por pé – em sílaba tónica. Registe-se ainda a ditongação em i e em u por influência das palatais ch e j, como em feicho, por fecho; couxo, por coxo; esteija, por esteja; louja, por loja”.
Esta serra onde se insere o Parque Natural vai lá de cima desde Celorico da Beira e desce até Tortosendo. Manteigas está situada no Vale Glaciário do Rio Zêzere, cresceu com duas paróquias, de Santa Maria e de São Pedro, a sua economia está ligada à pastorícia, aos lanifícios, à floresta e agora ao turismo. O mapa com propostas de passeios de toda a ordem é aliciante, e os chamados pontos de maior interesse dão pelo nome de Poço do Inferno, Cântaro Magro, Covão d’Ametade, Nossa Senhora da Boa Estrela, as Penhas Douradas e a Torre. Há tentações de viajar dentro do parque até Seia e Gouveia, mas em Roma é-se romano, primeiro o que à volta de Manteigas se oferece.
Rezam os folhetos que as paisagens são de uma beleza incomparável, fala-se imenso do verde. Começa-se aqui pelo escalvado, aquele alcantilado que é um dos motivos para passeios terrestres na Grande Rota do Zêzere. O rio começa no coração da Estrela e em Constância entra no Tejo, há pois 370 quilómetros que podem ser percorridos de bicicleta, de canoa ou a pé, dizem que é uma experiência única e memorável. Contemplamos demoradamente o bravio da pedra e a estrutura rala da vegetação, mais adiante iremos ao Vale Glaciário, deixamos o Poço do Inferno para depois, tentou-se a estrada, deu para perceber que a afluência é enorme, retrocedeu-se até à braveza destes maciços de pedra, até dá para imaginar que por aqui andou Viriato a fazer a vida negra às legiões romanas. E não me digam que esta beleza agreste não é de cortar o fôlego, não me digam que o Cântaro Magro não estarrece pela sua imponência e solidão.
Talhada na rocha temos Nossa Senhora da Boa Estrela, quantos pastores por aqui têm circulado benzendo-se e pedindo a proteção da Senhora? Contempla-se e dá para pensar se a parte é maior que o todo, isto é, o momento espiritual está na imagem ou se esta pode ser destituída do gigantismo da pedra e até do entalhe da escadaria. Muito provavelmente, as duas estão certas mas é o gigantismo da pedra que dá o ar solene ao formidável altar ao ar livre, a presença do divino neste maravilhamento natural.
Há muita coisa para ver, e convém não perder de vista que segue no grupo uma criança de nove anos que pergunta que se farta. Porque é que se chama Lagoa da Paixão? O que é que quer dizer Covão d’Ametade? O que é que tu queres dizer quando falas em afloramento granítico? Quando falas em cântaros, significa o quê? O pobre avô lá vai falando das faias, daquela água abundante que brota debaixo de cada pedra, procura ser mais terra-a-terra falando da planície arenosa de aluvião, vai apontando exemplos de biodiversidade, aponta para o pastoreio dentro do Vale Glaciário, a tal lição a céu aberto sobre os vestígios da última época de glaciação, recorda-lhe um passeio de há dois anos atrás até às Penhas Douradas, e é nisto que o olhar se fixa no que é a vegetação da serra no Outono, que cores de toda a paleta. Porque isto de andar pela natureza tem as suas cadências e tempos de calendário, há muito que se propõe ir na primavera até ao Parque Natural de Montesinho que dizem ter cores deslumbrantes quando rebenta a floração. Um dia há de ser, está prometido, vamos então até ao Poço do Inferno, a neta diz que sim e que depois quer almoçar.
Trata-se de um lugar singular da muita oferta que Manteigas propõe, entre lagoas, covões, vales, parques, miradouros e a estância de montanha das Penhas Douradas. Vem-se aqui por causa da cascata, não se pode ficar indiferente ao espetáculo da queda de água cristalina sulcando as rochas. Impõe-se o regresso, há que acalmar as fomes e o voto feminino ganhou, logo à tarde há que visitar um prodígio do lanifício, o burel, já está decidido, repousa-se um pouco e avança-se até às fábricas desse tecido único.
(continua)
____________

Nota do editor

Último poste da série de 13 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21896: Os nossos seres, saberes e lazeres (437): Andar a um certo vapor na Linha do Oeste (6): A despedida de Óbidos, regresso a Lisboa (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P21922: No céu não há disto... Comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (20): O pão nosso de cada diz nos dai hoje, diz a "chef" Alice... E se for de farinha de trigo de Barbela, do Moinho de Avis (Cadaval, Montejunto,1810), ainda melhor!

Foto nº 1


 Foto nº 2


 Foto nº 3


Foto nº 4




Foto nº 5

Cadaval > Vilar > Vila Nova > Serra de Montejunto > 20 de agosto de 2015 > O nosso camarada e amigo Joaquim Pinto Carvalho levou-me, a mim, à Alice e mais uns amigos do Norte (o Gusto, a Nita e a Laura) até ao moínho do Miguel Nobre, no alto da serra... 

É conhecido como o moinho de Avis, tem mais de dois séculos de existência,,, Daqui vê-se, do lado do poente,  o oceano Atlântico, e do lado nascente, o rio Tejo e o estuário e, a sul, as serras da Arrábida e de Sintra, a norte as serras de Aire e Candeeiros... Dizem que é o mais alto da península ibérica, dos moinhos ainda a funcionar. O Miguel Nobre também é engenheiro de moinhos, uma arte e um ofício em risco de extinção, tal como a arte e o ofício de moleiro...

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2021). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Foi com a farinha de trigo de Barbela, obtida neste moinho, que a "chef"Alice cozeu os absolutamente deliciosos pãezinhos que vemos nas fotos acima: uns com chouriço de porco preto e fatias de "bacon" (foto nº 1) e outros sem qualquer recheio... 

Tudo simples, cozido no forno a gás... Segredos ? Saber amassar um quilo e pouco de farinha (que tem um pequena percentagem de centeio), e usar o fermento q.b, deixar a levedar e...pôr ao forno (, que nem sequer é a lenha, como na Tabanca de Candoz).

Obrigado ao Miguel Duarte e aos "duques do Cadaval", régulos da Tabanca do Atira-te ao Mar (Porto das Barcas, Lourinhã), pela gentil oferta de um saco de cinco quilos de farinha (Fotos nºs 3 e 4).

O Moinho de Avis tem página no Facebook. E já teve direito a dois postes no nosso blogue, na época pré-covid, no já longínquo ano de 2015 (*).

Com a pandemia de Covid-19 a fazer um ano no próximo mês de março (!),  e com dois duros confinamentos gerais, continuamos aqui a  deixar algumas sugestões gastronómicas, nacionais e internacionais, apropriadas  às circunstâncias... Esperemos que elas contribuam também para o revigoramento  da nossa saúde física e mental...

Sabemos, de experiência própria, com 3 anos de tropa e de guerra, ao serviço da Pàtria, da Mátria e da Fátria, que não há um "bom moral na tropa" sem um bom rancho... E no rancho o pãozinho nosso de cada dia, esse,  não podia faltar... 

O famoso "casqueiro!... Faziam-se perigosas colunas para se ir buscar às sedes de batalhão os sacos de farinha que faltavam nas padarias improvisadas  dos nossos destacamentos e aquartelamentos no mato... Quantas belas (e algumas trágicas) histórias ainda haverá por escrever e publicar, aqui, no nosso blogue, sobre o Pão Nosso de Cada Dia Nos Dai Hoje!...

Como já temos dito, esperemos que os tempos que correm, com longos períodos trancados em casa, e muitas incertezas para o futuro, continuem  a ser  propícios à descoberta de talentos culinários dos camaradas e amigos da Guiné...

Vejam, caros/as leitores/as,  esta série como uma forma, bem humorada também, de diversificar a experiência de leitura do blogue e sobretudo nos ajudar  a combater a tão falada "fadiga pandémica"...  

Mandem-nos  fotos (com legenda...) das vossas habilidades como "chefs", para publicação nesta série, "No céu não há disto... Comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande"...  É preciso voltar a indicar o email, que consta na coluna do lado esquerdo  ? Então aqui fica, mais uma vez, os endereços dos nossos editores: 




joalvesaraujo@gmail.com

luisgracaecamaradasdaguine@gmail.com

2. Na página do Facebook de Adolfo Henriques pode ler-se o seguinte artigo sobre o trigo Barbela... que  reproduzimos na íntegra, com a devida vénia (e os nossos parabéns ao autor por manter viva a tradição da cultura do trigo Barbela):

Trigo Barbela, um trigo escravo

Variedade de trigo mole cultivada desde tempos imemoriais em todo o Portugal, a sua cultura só tem perdurado, essencialmente, no distrito de Bragança e, a partir de agora, na Maçussa [, concelho de Azambuja]. Vamos proceder ao seu cultivo e aqui acompanharemos todas as fases, desde o semear até á prova do pão. Será moído da maneira tradicional, bafejado pelos ventos que sopram na Serra de Montejunto, no moínho de Aviz, obra do amigo Miguel Nobre que domina a difícil arte de usar o vento com maestria. 

Com este trigo se faz o delicioso Cusco de Trás-os Montes, em tempos usado como substítuto do arroz ou da batata por exemplo, ou ainda os célebres doces do mesmo nome. Com efeito, a variedade tradicional Barbela reúne um conjunto de características que lhe proporcionam grande rusticidade e capacidade de adaptação a difíceis condições climáticas. 

A sua capacidade de produzir palha em quantidade e qualidade também contribuiu para a preferência dos produtores da região pelo Barbela, apesar das entidades responsáveis pela cerealicultura nacional não lhe terem reconhecido ainda o devido valor agronómico e comercial. 

Para além disso tem um teor muito baixo de glúten. A conservação da variedade tradicional Barbela pressupõe a preservação de um conjunto de conhecimentos e práticas agrícolas transmitidas ao longo de gerações de agricultores. 

Obrigado ao meu amigo João Vieira pelas sementes e a Ana Maria Pinto Carvalho e Associação Tarabelo, de Vinhais,  pelas informações que disponibilizam na internet sobre o Barbela. Mais notícias em breve !

__________

Notas do editor:

(*) Último poste da série > 11 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21887: No céu não há disto... Comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (19): O cardápio secreto do "chef" Tony (Levezinho) - Parte I: ainda não é verão (, mas um dia destes há de ser!), e já me está a apetecer uma saladinha de queixo fresco e uma paelha, com um bom branquinho...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Guiné 61/74 - P21921: Tabanca Grande (515): António Afonso de Melo Graça, ex-Fur Mil Cav do EREC 2641 (Bula, Nhamate, Mansabá e Bachile, 1970/72) que se senta no lugar 837 da nossa Tertúlia


1. Mensagem do nosso camarada e novo tertuliano António Afonso de Melo Graça(*), ex-Fur Mil Cav do EREC 2641 (Bula, Nhamate, Mansabá e Bachile, 1970/72), com data de 13 de Fevereiro de 2021, com a sua apresentação à Tertúlia:

Boa tardw,  Camarada

Aqui vai a minha inscrição. Anexo as duas fotos.

Especialidade: Reconhecimento Panhard (EBR) na EPC, Santarém no último trimestre de 1969. 
Colocado no RC3, Estremoz, início Janeiro 1970 para o IAO, com mobilização para os Dragões de Angola.

Apresentado a 7 de Janeiro 1970 são dados 6 dias de licença a BFIE, finda a qual redireccionado para o RC7, Lisboa. Já não ia para Angola, porque a Guiné precisava de nós...

Em Fevereiro de 1970 fui "encaminhado" para a Escola Prática de Engenharia, em Tancos, para fazer um curso em Minas e Armadilhas. Regresso a Lisboa (onde residia) ao RC7 para nova especialização, agora nas AML Panhard.

Em 8 de Agosto 1970 parte o EREC 2641 (2.ªfase) no n/m "Carvalho Araújo" para a Guiné. Escala no dia 14 o Mindelo, Ilha de S. Vicente, Cabo Verde. Chegados "quais periquitos" a Bissau no dia 17 de Agosto 1970. No mesmo dia, sediados em Bula.

Durante a comissão de serviço fiz destacamentos em Nhamate, Mansabá e no Bachile.

Regresso a Lisboa a 24 de Junho 1972, voo num 707 da Força Aérea.

Após a chegada da Guiné fiz a licenciatura em Economia no ISE (ex-ISEF). Durante 36 anos fui professor, os últimos 24 no activo a desempenhar funções de Presidente do Conselho Directivo da Escola Secundária Alfredo da Silva, no Barreiro.

Actualmente estou reformado.

Saudações.
António Afonso de Melo M. F. Graça

Parada do Quartel de Bula, Setembro de 1970 > Com a Panhard distribuída

********************

2. Comentário do editor CV:

Caro Afonso de Melo, sê bem-vindo à Tertúlia.

Permite-me que seja portador de um abraço de boas-vindas para ti, da tertúlia e dos editores deste Blogue, que te desejam boa estadia entre nós.

Permite-me um apontamento pessoal porque pertenci à madeirense CART 2732, unidade de quadrícula em Mansabá entre Abril de 1970 e Fevereiro de 1972.

Devo-te portanto muito, porque muitas foram as vezes que nos fizeste segurança nas inúmeras colunas auto que fazíamos para Sul, Mansoa, e para norte, K3, principalmente durante as obras de asfaltagem do itinerário entre o Bironque e o Rio Cacheu, em frente a Farim. Acredita que para além da segurança efectiva que nos proporcionava, o EREC 2641 muito contribuiu para o nosso conforto emocional nas deslocações quase diárias que éramos obrigados a fazer.

Tenho bem na memória aquela trágica noite de 12 de Novembro de 1970, com alguns estragos dentro do aquartelamento, como a enfermaria atingida, produto das armas pesadas do PAIGC, mas com piores consequências na tabanca onde arderam algumas moranças e pereceram 14 civis.

Como tu, também fiz um Curso de Minas e Armadilhas em Tancos, o meu o XXXIII, que decorreu entre Outubro e Dezembro de 1969.

Contamos contigo para registares aqui as tuas memórias e a actividade do teu EREC, não só na minha área de acção mas também nos outros locais onde os teus préstimos foram garantidamente importantes.

Deixo-te o meu abraço
Carlos Vinhal

____________

Notas do editor:

(*) - Vd. poste de 3 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21846: O nosso livro de visitas (208): Afonso de Melo, ex-fur mil cav, EREC 2641 (Bula, 1970/72)

Último poste da série de 18 de Fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21914: Tabanca Grande (514): Eduardo Ablu, ex-fur mil, CCAV 678 (Ilha do Sal, Bissau, Fá Mandinga, Ponta do Inglês, Bambadinca, Xime, 1964/66): senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 836

Guiné 61/74 - P21920: Projecto de livro autobiográfico, de António Carvalho, ex-Fur Mil Enfermeiro da CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74) (6): O soldado dos pés inchados

HM 241 de Bissau

1. Do projecto de livro autobiográfico do nosso camarada António Carvalho (ex-Fur Mil Enfermeiro da CART 6250/72, Mampatá, 1972/74) a lançar oportunamente, publicamos aqui mais uma estória, a sexta.


6 - O SOLDADO DOS PÉS INCHADOS

O rapaz apareceu-me tão cedo, na enfermaria, que me tirou da cama. Aquele assunto era mais do que urgente para ter que esperar pela hora oficial da abertura dos serviços. Dentro de poucos minutos ele tinha que estar na formatura, incorporado no seu grupo de combate, ali junto à árvore grande dos passarinhos, bem no centro da tabanca, fardado, com a arma, cartucheiras, cantil e ração de combate. A saída para o mato incutia-lhe algum receio, porque tinha já ouvido o alferes, no dia anterior, à noite, avisar que iriam montar uma emboscada num carreiro, onde era altamente provável a interceção de um grupo inimigo.
Há dias assim, em que mesmo o combatente mais afoito, nas suas elucubrações, tem uma premonição que o adverte para uma desgraça fatal. E foi isso mesmo que o atormentou a noite toda. E como havia ele de se livrar do mato, pelo menos naquele dia que lhe parecia poder ser o último dos seus verdes vinte anos? Tinha que engendrar um plano. E quando acordei, atordoado, com aquelas pancadas repetidas na janela, ao mesmo tempo que chamava por mim como se estivesse com muitas dores, foi só o tempo de calçar os chinelos e abrir-lhe a porta.
- Então, que se passa Sousa, perguntei-lhe?
- Olhe para os meus pés. Acha que eu estou em condições para sair para o mato, assim, com os pés inchados?

O problema parecia-me grave, até porque ele não me ajudava mesmo nada a diagnosticar o mal. Na verdade isso era o que menos lhe interessava. Que não estava em condições de cumprir aquela missão era a única certeza que eu tinha. E era isso, apenas, que interessava ao Sousa. Apressei-me a comunicar ao Alferes que aquele homem não estava operacional, partindo o grupo para a operação, sem ele.

Não me achando capaz de debelar aquele mal, nem lhe conhecendo a origem, encaminhei-o para o médico, colocado na sede do batalhão que, por sua vez, na ausência de meios complementares de diagnóstico o fez evacuar para o Hospital Militar de Bissau. Ao fim de alguns dias regressou o Sousa a Mampatá, já sem inchaço.

Só há meia dúzia de anos o Sousa me contou como me enganou, assim como ao Alferes médico. Naquela noite ele tinha aplicado uma espécie de garrote em cada perna, que desapertou imediatamente antes de me bater à janela, “aflito”.

Não fiquei agastado com o Sousa, nem tinha que ficar. Afinal, na operação em que ele não participou correu tudo bem, mas podia ter corrido mal.

____________

Nota do editor

Último poste da série de 17 de Fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21912: Projecto de livro autobiográfico, de António Carvalho, ex-Fur Mil Enfermeiro da CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74) (5): Dormir com o inimigo

Guiné 61/74 - P21919: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (40): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Fevereiro de 2021:

Queridos amigos,
Há para aqui uma viagem solitária entre parques e edifícios das instituições europeias, avultam memórias daquele completamente inesperado primeiro encontro que mudou a vida de dois cinquentões bem maduros, ela não se cansa de tocar a tecla da saudade e desfia o rol dos seus trabalhos, faz o inventário de papéis que ele lhe manda com pendular regularidade. Ainda é segredo, Annette vai propor nas férias da Páscoa um passeio pela costa belga, pensou mesmo numa estadia numa bela ilha holandesa, tem igualmente um plano B, uns dias em Hasselt, a capital do Limburgo, Paulo do seu lado fala entusiasmado em duas grandes exposições que ocorrem em Bruxelas (uma retrospectiva de Chagall) e gostava de ir a La Louvière na província de Hainaut ver uma mostra de cartazes de propaganda soviética do tempo de Estaline, para Annette há tempo para tudo, aguarda as datas disponíveis de Paulo, em princípio é período coincidente com a ausência de trabalho de intérprete. Já lhe passou pela cabeça, num dia de profunda melancolia, de questionar Paulo sobre o que ele pensaria da ideia de ela criar uma empresa de interpretação em Portugal, depois retraiu-se, o filho, Jean Luc, continua errático em empregos da treta ou biscates aleatórios, parece que se habituou à ideia de viver da ajuda dos pais, para Annette, que saiu cedo de casa dos pais adotivos e conquistou a sua independência, faz-lhe muita confusão os problemas desta geração marcada por tantas desigualdades sociais, Jean Luc é um mileurista, um verdadeiro desassossego para uma mãe que não se importaria de ir viver lá nos confins do Ocidente Europeu com o seu amado.

Um abraço do
Mário


Esboços para um romance – II (Mário Beja Santos):
Rua do Eclipse (40): A funda que arremessa para o fundo da memória


Mário Beja Santos

Très adoré Paulo, capricho dos deuses, venho de uma reunião de uma sala ao lado daquela em que nos conhecemos, na Rue Froissart, uma tarde com algum sol, pelas quatro horas o presidente deu por encerrada a sessão, era a receção de uma delegação do Vietname, falou-se imenso de cooperação com base em acordos que estão a ser feitos ou confirmados naquela região do sudeste asiático, pelos resultados obtidos os vietnamitas saíram felizes e eu também, habitualmente abandono estas reuniões ao escurecer do dia. E deu-me prazer refazer passeios e sobretudo veio-me à memória o nosso primeiro trajeto em comum quando caminhámos para a estação de metro de Schumann. Ontem arrumei fotografias das nossas curtas férias em Lier e encontrei dois postais de um passeio que demos na Campina, em Averbode, espero que te recordes, estivemos ali de visita, está no limite do Brabante e das províncias de Antuérpia e Limburgo. Tem tudo ar muito novo por causa do incêndio de 1942, é um barroco faustoso, depois fomos para a praça beber cerveja local e naquele dia perguntei-te pela primeira vez: “Paulo, seguramente já fizeste um balanço destes dois anos da Guiné que estamos a arrumar por força do teu romance. Que significado atribuis, passadas estas décadas, ao que viveste, como se incorporou na tua vida uma comissão militar a que não faltou brutalidade, horror, mas também uma fraternidade sem limites?”. Demoraste a responder, ias rodando, ensimesmado, a caneca de cerveja e depois olhaste longamente os telhados de lousa da igreja de Averbode. Era percetível a tua emoção, um quase pirralho, moço inexperiente, lançado numa povoação nativa, com deveres e obrigações implacáveis. E falaste na educação recebida de três mulheres, a quem tu continuas a chamar as tuas madres fundadoras, nos valores religiosos, na ligação ao Outro, tratando-o com dignidade, e foste acumulando situações e casos que eu agora conheço bem por lidar com os papéis, melhorar a segurança dos aquartelamentos, introduzir-lhes algum conforto, apoiar a população com médico, abastecimento regular, professor para as crianças, cumprir as missões de vigilância em Mato de Cão, procurar conhecer os problemas dos militares que de ti dependiam… E foste encaminhando este discurso para a formação de um adulto que transportara para um pequeno país da Europa, a sua pátria, uma personalidade temperada por um tal tipo de experiência, feita de sobressaltos, de violências, de procurar mitigar a miséria dos outros, de viver acantonado num pequeno território cercado de terra de ninguém, sabendo muito bem que expressões como “zonas libertadas” não passavam de litanias da propaganda mas que acarretavam também o equívoco de serem territórios onde não se podia permanecer com qualquer tipo de segurança. E resumias, dizendo que trouxeras uma grande vontade de viver em paz, ter doçuras familiares e uma profissão onde te realizasses, como inesperadamente aconteceu, supunhas vir a ser um professor de História da Arte e por um acaso do destino navegavas agora num oceano chamado mercado do consumo, fazendo alguma batalha pelos direitos desses cidadãos cercados de uma crescente profusão de bens e serviços.

Meu adorado amor, viera até à Rue Froissart de transporte público, entrei no Parque Leopoldo, vi crianças ainda a brincar, parei junto dos choupos, senti profundamente a tua falta, recordei aquelas nossas conversas das tuas primeiras vindas a Bruxelas, aquela gare do Luxemburgo que tu conheceste tão desprezada e que hoje é um pequeno ícone do Bairro Europeu, os passeios que começaste a dar quando ias visitar nas ruas laterais da Rue de la Loi diferentes organizações relacionadas com o teu trabalho, e decidi caminhar como se tu estivesses a meu lado, medindo a evolução que teve esta área de Bruxelas desde a tua primeira viagem em 1977 até aos dias de hoje, em breve teremos um novo alargamento da União Europeia, o Bairro Europeu foi crescendo e tudo à volta se modificou. Lembro o que me disseste quando aqui passaste a vir com mais regularidade, a partir de 1986, a importância que na época ainda tinham diferentes associações europeias de consumidores, como eram poucas e de certo modo insignificantes as organizações de saúde, como começaste a pressentir que o futuro da política dos consumidores precisava de uma parceria com as políticas de saúde e do desenvolvimento sustentável, mas tu já antevias os fanatismos paroquiais que iriam obstaculizar a operacionalidade na conjugação de interesses comuns, estavas profundamente cético sobre o futuro da cidadania no consumo, já nessa altura previas que as associações iriam ficar reduzidas a um papel meramente colaborante, perdida a motivação de causas de interesse público, disseste isto mesmo no jantar na Rua do Eclipse, na companhia do Gilles Jacquemain, não me esqueci.

Paulo mon amour, foi um passeio cheio das tuas memórias, lá fui palmilhando até à Rua do Eclipse e tenho algumas notícias a dar-te quanto ao início do segundo ano da tua comissão na Guiné. Prosseguem obras no quartel, apareceu em Missirá um alferes sapador que por sua vontade tinha armadilhado quase tudo à volta, encontrei um aerograma teu em que escreves eufórico que estão a chegar algumas toneladas de materiais vindas de um batalhão de engenharia. Começaram as pequenas flagelações em Missirá, vão-se repetir de agosto a outubro, tu escreves que não matam mas moem, são um surdo confronto, grupos de guerrilha que se aproximam ao fim da tarde de Missirá e Finete e descarregam os morteiros e desaparecem. No meio de tanta azáfama, quando tu mais necessitavas de ter os teus efetivos completos, os Comandos de Bambadinca vão-te subtraindo secções de milícia, no pior momento, tens muitos homens doentes, tudo fruto da época das chuvas, que atrai a malária. E vejo também que vos mandaram numa operação à região do Xime, é para mim uma completa surpresa o nome que davam àquelas operações, Fado Hilário, Pato Rufia, o que retive é que os guias se desorientaram, havia muito nevoeiro e tu escreves que os helicópteros não puderam largar os paraquedistas, a operação será repetida no início de setembro, entretanto há nova flagelação em Missirá, os mesmos disparos de morteiro, e tocou-me profundamente o resumo que me mandaste da conversa que tiveste com Benjamim Lopes da Costa, aquele teu colaborador guineense que perdera a cabeça no decurso de uma emboscada, tu viras um vulto a avançar para ti e desfechaste com a arma, o Benjamim perdeu a cabeça e num desvairo chamou-te branco assassino, mágoa profunda, que sinto que ainda não digeriste completamente. O que interessa é que numa noite mais desocupada convocaste para o teu abrigo e lhe propuseste que passassem uma esponja sobre o assunto, sugerias o perdão mútuo àquela insinuação de racismo, o Benjamim prontamente te estendeu a mão e te lembrou o amor de Deus.

Estou agora a alinhavar os apontamentos que chegaram no fim da semana passada. Tu referes a chegada de um novo segundo comandante a Bambadinca, alguém que se chama Ângelo da Cunha Ribeiro e que lançará o crisma de Tigre de Missirá, estou agora a escrever os apontamentos da segunda edição da tal operação Pato Rufia, mas só penso na Páscoa e na tua companhia, mesmo com o lenitivo do correio que recebo diariamente, os teus belos telefonemas, o aliciante dos teus projetos, nada, conquistador do meu coração, absolutamente nada substitui a força dos teus braços, o ímpeto dos teus beijos, o calor do teu corpo. E suspendo aqui os termos de uma paixão que bendigo a toda a hora, arrimo inesperado e que estou segura me acompanhará pelo tempo que ainda tenho de vida. Despeço-me agora, tenho coisas para arrumar, saio pelas seis da manhã em direção ao Grã Ducado do Luxemburgo, mais um dia enfadonho com os peritos da Estatística divertidos e cheios de si e nós na cabine em desespero a soletrar aqueles números… Bien à toi, Annette.
Abadia de Averbode
Igreja da Abadia de Averbode
Parque Leopoldo, Bruxelas
Parque Leopoldo, Bruxelas
Gare do Luxemburgo antes da criação do bairro Leopoldo
Gare do Luxemburgo na atualidade
Edifício do Parlamento Europeu, Bruxelas
As instituições europeias e a Rue de la Loi, Bruxelas
____________

Nota do editor

Último poste da série de 12 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21890: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (39): A funda que arremessa para o fundo da memória

Guiné 61/74 - P21918: Manuscrito(s) (Luís Graça) (199): Elegia para Isabel Mateus (Soure, 1950 - Lourinhã, 2021)


Isabel Mateus (Soure, 1950 - Lourinhã, 2021). Cortesia de Octávo Mateus (2021). Foto tirada no Museu da Lourinhã, em 2014.


1. Permitam-me, caros/as leitores/as, que evoque aqui a figura de Isabel Mateus (Soure, 1950 - Lourinhã, 2021), na qualidade de minha vizinha, lourinhanse de adoção, e minha amiga, "geálica", que foi cofundadora, em 1981, do GEAL- Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã, de que eu sou sócio e a cujos corpos sociais já pertenci. Três anos depois, em 1984, ela Isabel e o marido, já falecido, Horácio Mateus (1950-2013), com outros "geálicos", criaram o Museu da Lourinhã.

A minha terra, Lourinhã (mas também Portugal,  a ciência e a cultura)  deve-lhe muito. Tomo a liberdade de citar aqui um excerto do elogio fúnebre que o seu filho Octávio Mateus, hoje paleontólogo de renome internacional e professor da FCT / Universidade NOVA de Lisboa, escreveu sobre a sua mãe, na sua página Lusodinos - Dinossauros de Portugal, no passado dia 16, terça-feira:

(..." Em 3 de Abril de 1993, descobriu o ninho e embriões de dinossauros carnívoros Lourinhanosaurus em Paimogo, um dos maiores e mais importantes, à data. É autora de três artigos científicos como primeira autora, entre os quais é publicado o ninho de ovos e embriões de dinossauro que tinha descoberto (1997). Este achado foi marcante na história do Museu da Lourinhã, levando o nome da paleontologia da região a patamares internacionais, motivando a Revista Expresso a eleger o casal Isabel e Horácio Mateus como Figuras Nacionais do ano de 1997. Dois anos depois, realizou no Museu de História Natural de Paris formação superior intensiva em palinologia fóssil, área da botânica que estuda pólen e esporos. Mais recentemente, foi autora do livro Podomorfos do Casal da Misericórdia (ed. Museu da Lourinhã, 2020).

"Em 1997, escreveu a proposta do “Parque do Saber e do Lazer”, que foi o documento precursor de vinte anos de esforços para a construção de um novo parque ou museu, desejos que culminaram em 2018 na abertura do DinoParque Lourinhã."  (**)

Outro dos seus filhos, o mais velho, Simão Mateus, director científico  do DinoParque Lourinhã, escreveu na sua página pessoal do Facebook:
 
(...) A minha mãe tinha um coração enorme, e isto não é uma figura de estilo. Está documentado em radiografias e ecografias. Tinha-o porque uma condição cardíaca assim o moldou. Ela própria o afirmava e por isso dizia que cabiam nele todos os filhos... e eram muitos. Biológicos nós os três, o Simão, o Octávio e a mais pequena, a Marta, mas os adoptivos eram dezenas. (...) 

(...) E acima de tudo, o meu pai que sempre foi a paixão da sua vida. Assim como o seu jardim e as suas inúmeras flores eram a sua grande paixão. 
(...) A outra paixão foi o Museu da Lourinhã e, intimamente ligado, a história da Lourinhã. (...)

(...) Hoje o coração tornou-se maior que o mundo, e decidiu abraçar-nos com o amor que só uma mãe sabe da".

A Câmara Municipal da Lourinhã reconheceu o seu importante contributo "para a projeção e afirmação da Lourinhã como a Capital dos Dinossauros" e para a valorização do "património paleontológico do concelho, transportando o nome da Lourinhã para os panoramas nacional e internacional", tendo sido atribuída, ainda em vida, em 2018, a Medalha Municipal de Honra, Classe de Ouro. O Município decretou um dia de luto, ontem, pelo falecimento da Isabel Mateus. Entreaht, e, 15 de novembro, de 2019 fora inaugurado o novo laboratório de conservação e restauro do Museu da Lourinhã, que passou a chamar-se“Laboratório Isabel Mateus”.

2. Éramos amigos de longa data, dela e do marido, Horácio Mateus (1950-2013). Somos amigos dos filhos, e sócios do GEAL. E quisemos, eu e a Alice, prestarmos-lhe, aqui,  uma singela homenagem, em forma de soneto. Até sempre, querida Isabel!


Elegia para a Isabel Mateus (1950-2021)

Que dizer, face à notícia da tua morte,
Tu que foste do GEAL a “alma mater”,
Mulher de grande coração, nobre carácter ?
Foi bom conhecer-te, tivemos essa sorte.

Partes ao encontro daquele que amaste,
Um lindo amor, único, trágico, profundo,
Mas a tua vida acrescentou mundo ao mundo,
E não esqueceremos as causas que abraçaste.

Da outra margem do rio que nos separa,
Ver-te-emos a cultivar as tuas flores,
Num jardim secreto, em tardes de luz clara.

E essa visão de paz que é agora tristeza,
Para os teus filhos e amigos, teus amores,
Também lhes traz algum consolo e beleza.

Lourinhã, 17 de fevereiro de 2021
Os amigos “geálicos” Luís Graça e Alice Carneiro
________

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Guiné 61/74 - P21917: Da Suécia com saudade (86): Portugueses ilustres que aqui viveram...antes de mim: 1º Visconde Soto Maior (Rio de Janeiro, 1813 -Estocolmo, 1893) (José Belo)







Suécia > Estocolmo > Um dos mais luxuosos e famosos restaurantes locais, o Salão Berns, Berns Asiatiska, onde o diplomata português Soto Maior tinha mesa privativa...

Fotos enviados pelo José Belo. Fonte: Berns Asiatiska  (2021), com a devia vénia

António da Cunha Sotomaior Gomes Ribeiro de Azevedo e Melo (Rio de Janeiro, 18 de Novembro de 1813 - Estocolmo, 19 de Janeiro de 1893), 1.º Visconde de Sotomaior, foi um diplomata português.O título de 1.º Visconde de Sotomaior foi-lhe concedido por Decreto de D. Luís I de Portugal de 12 de Maio de 1865.   Foi encarreado português de negócios na Suécia entre 1869 e 1892. Afeiçou-se tanto à Suécia que recusou nomeações para postos diplomáticos de maior importância. Morreu em Estocolmo, em 1893.(Fontes: Wikipedia e  Portugal > Portal Diplomático)


1. Texto e fotos enviados pelo José Belo, régulo da Tabanca da Lapónia:

Date: terça, 9/02/2021 à(s) 00:58
Subject: Soto Maior

José Belo


A tabanca da Lapónia


Filho de um diplomata português da família Soto Maior no Brasil, foi primeiro militar e posteriormente político, membro da Câmara do Reino.

Tanto pelo temperamento como pelo espírito boémico,  tornou-se menos "conveniente" tanto para a família como para a alta sociedade portuguesa. Falou-se em aventuras amorosas com senhoras casadas pertencentes a famílias do mais alto nível no Reino. De qualquer modo, foi enviado como embaixador para a convenientemente distante Suécia.  

Dispondo a sua família em Portugal de avultados bens,  ele depressa se tornou uma figura de referência na boémia da mais alta sociedade sueca da época. Para além da impecável elegância com que sempre vestia, era também célebre pela sua generosidade económica tanto em festas como nos locais mais exclusivos das Noites de Estocolmo. Depressa as meninas da alta sociedade local lhe arranjaram um apelido exclusivo,  fazendo um trocadilho de Soto Maior para....."Söta Majorn"....ou seja : "Doce Major " em sueco. 

Frequentador assíduo de um dos ainda hoje mais luxuosos e renomados restaurantes de Estocolmo, o Salão Berns, Berns Asiatiska,  a sua mesa favorita ainda lá se encontra,agora adornada com elegante placa de prata com as suas referências pessoais.

Como uma das figuras centrais da sociedade local em fins do séc. XIX, acabou por vir a ser ainda hoje recordado nas ementas de restaurantes conhecidos em toda a Suécia que servem o seu, então, prato favorito, "Gös file Soto Maior" (Fileé de perca ou Lúcio, à Soto Maior).

Como elegante modelo do mais exclusivo vestuário da aristocracia inglesa,  fazia inveja com a sua infindável coleção das típicas gravatas de  1800,  sempre decoradas com alfinetes de peito feitos de jóias célebres pelo seu preço e trabalho de ourivesaria.

Nos numerosos jantares e festas na sua residência particular fazia sempre questão de se ausentar da mesa em cada intervalo dos inúmeros pratos servidos . Fazia-o para então mudar de gravata e respectivo alfinete de peito na busca de surpreender os convidados. Isto sucedia cinco vezes, ou mais, em cada banquete!

O seu temperamento não aceitava atitudes menos correctas e, apesar  da sua frágil estatura, com facilidade acabava em duelos.

Cita-se como exemplo um tal Sr. Baker, diplomata inglês, que se referiu de modo menos correcto quanto falava de uma amiga de Soto Maior. O Sr. Baker sobreviveu ao duelo mas.....sem uma orelha!

Acabou por falecer com 81 anos, só,  na sua residência de Estocolmo, sem qualquer família ou contactos próximos em Portugal.

J. Belo
________

Nota do editor:

Último poste da série > 2 de dezembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21602: Da Suécia com Saudade (85): A base aérea de Beja e o apoio alemão ao esforço de guerra de Portugal em África (José Belo)

Guiné 61/74 - P21916: Memórias de José João Braga Domingos, ex-Fur Mil Inf da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4516/73 (9): "O relógio do Matos", "Há homens que metem medo" e "Canquelifá"


1. Continuação da publicação das memórias, em curtas estórias, do nosso camarada José João Domingos (ex-Fur Mil At Inf da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4516 (Colibuía, Ilondé e Canquelifá, 1973/74):


25 - O RELÓGIO DO MATOS

Num qualquer domingo de janeiro de 1974, fomos a Bissau vários camaradas em cujo grupo se incluía o Matos, regressado na véspera da Metrópole, onde tinha gozado férias.

Perto da Amura, quando íamos descer a escada de acesso à esplanada do Pelicano, que dava para o cais, estava um guineense vivaço a querer vender um relógio vistoso a preço de combate.

Ninguém se mostrou interessado no artigo, com exceção do Matos, que, por acaso, trazia no pulso um relógio que lhe fora oferecido dias antes, durante as férias, mas que não era tão vistoso. Feito o negócio que, para além de dinheiro vivo, incluiu a transferência do relógio do Matos para o vendedor, descemos a escada para a esplanada a fim de tomar um refresco adequado ao final de tarde que se aproximava.

Sentados à mesa há poucos minutos, alguém repara que os ponteiros do relógio acabado de adquirir não tinham movimento e alertou o Matos. Este, subiu a escada num ápice à procura do vendedor para desfazer o negócio por incumprimento de uma das partes. Nunca mais o viu.

Também aqui a necessidade aguçou o engenho.

Bissau: Esplanada do Pelicano (estou de costas) e, da esquerda para a direita: o Machado da 3.ª CCAÇ, o Cibrão, o Carmo, o Caetano e o Matos (já falecido)


********************

26 - HÁ HOMENS QUE METEM MEDO

Em janeiro de 1974, tendo já passado por Bolama e pelo Setor de Aldeia Formosa, ter feito uma dezena de colunas a Farim e uma a Guidaje, sem ter tido confrontos e baixas, o Cardoso, 1.º Cabo, resolveu pedir para o PIFAS a passagem de um disco dedicado à Companhia cujo cognome seria, no seu entender, “Há homens que metem medo”, verso retirado de uma cantiga interpretada por um conjunto musical na altura com alguma popularidade na Metrópole e cuja passagem ele solicitava.

Continuamos a fazer colunas a Farim sem qualquer problema. Porém, sempre que éramos substituídos, e isso aconteceu por duas vezes, a coluna tinha problemas.

No final de março de 1974 fomos para Canquelifá substituir a 3.ª Companhia do nosso Batalhão, que por lá passou um mau bocado, e o grande problema que enfrentámos foi sobreviver naquele buraco onde faltava quase tudo.

Perante isto, o tal cognome arranjado pelo Cardoso pegou entre o pessoal e até parecia que era ajustado porque nos 14 meses passados na Guiné apenas tivemos dois ou três militares evacuados por doença.

O facto de termos comandante e graduados muito atentos e rigorosos na forma cuidada como as tropas se deviam movimentar no terreno, ajudou certamente a evitar alguns conflitos. De resto, foi pura sorte, ou estivemos sempre à hora certa no local certo.


********************
Canquelifá - © Foto de Adão Cruz

27 - CANQUELIFÁ

No final de março de 1974, fomos para Canquelifá substituir a 3.ª Companhia do nosso Batalhão, que tinha lá passado um mau bocado onde, creio, ficamos em sobreposição com a CCAÇ 3545 que ainda passou um bocado pior.

Lá fomos de LDG até ao Xime e, depois, em coluna, passando por Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego, Piche e Canquelifá.

Entre Piche e Canquelifá a coluna parou várias vezes para se proceder à desativação de minas anticarro. O pessoal deslocava-se apeado, fora dos trilhos habituais. Mesmo assim, um dos paraquedistas que fazia segurança, a quem faltavam poucos dias para terminar a comissão, acionou uma mina anticarro e ficou quase desfeito.

O cheiro dos legumes frescos em decomposição chegava ao aquartelamento muito antes da coluna.

Lá chegámos ao destino. Um buraco com condições indescritíveis ocupado por jovens cujo recente sofrimento lhes estava estampado nos rostos e que, apesar disso, ainda conseguiam dar alguma alegria tocando e cantando, nomeadamente uma adaptação do fado do estudante às vicissitudes passadas naquela terra.

Os vários poços de água ficaram incapazes pois devido às constantes flagelações continham no seu interior animais domésticos em decomposição. A captação de água ficava a algumas centenas de metros e exigia forte segurança e, mesmo assim, a água tinha que ser filtrada. Ora, não havia filtros pelo que a purificação da água era feita num latão com uma torneirita no fundo e, de baixo para cima, com diversas camadas de pedras, areia e cinza. Por este processo conseguiam-se apenas poucos litros de água por hora o que em situação de carência de outras bebidas, como cerveja e leite, que era frequente, tornava o ato de matar a sede muito complicado.

Ao nível da alimentação as coisas também estavam más por escassez de reses e as que havia tinham tal magreza que era difícil tirar delas mais do que os ossos. Aliás, as vacas que por ali andavam mais pareciam mortas que vivas.

O ambiente naquele espaço era doentio e assustador. Vivíamos em abrigos onde mal nos podíamos mexer.

Fui encarregado de receber a cantina que a CCAÇ 3545 explorava e, suprema ironia, do seu conteúdo constavam três garrafas de espumante “Fita Azul” que ainda há pouco tempo vi à venda num supermercado.

____________

Nota do editor

Último poste da série de 16 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21907: Memórias de José João Braga Domingos, ex-Fur Mil Inf da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4516/73 (8): "As colunas para Farim e Guidaje", "Os engraxadores" e "As ostras de Bissau"

Guiné 61/74 - P21915: Consultório militar do José Martins (60): Honras Fúnebres a que os Antigos Combatentes têm já direito, conforme o Art.º 19.º do Estatuto do Antigo Combatente


Com vista a esclarecer algumas dúvidas quanto às Honras Fúnebres a que os Antigos Combatentes têm já direito, publicamos o trabalho que se segue da autoria do nosso camarada José Martins (ex-Fur Mil TRMS, CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70):

____________

Nota do editor

Último poste da série de 6 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21857: Consultório militar do José Martins (59): Loures, o ano de 1961 e seguintes...