sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Guiné 61/74 - P21918: Manuscrito(s) (Luís Graça) (199): Elegia para Isabel Mateus (Soure, 1950 - Lourinhã, 2021)


Isabel Mateus (Soure, 1950 - Lourinhã, 2021). Cortesia de Octávo Mateus (2021). Foto tirada no Museu da Lourinhã, em 2014.


1. Permitam-me, caros/as leitores/as, que evoque aqui a figura de Isabel Mateus (Soure, 1950 - Lourinhã, 2021), na qualidade de minha vizinha, lourinhanse de adoção, e minha amiga, "geálica", que foi cofundadora, em 1981, do GEAL- Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã, de que eu sou sócio e a cujos corpos sociais já pertenci. Três anos depois, em 1984, ela Isabel e o marido, já falecido, Horácio Mateus (1950-2013), com outros "geálicos", criaram o Museu da Lourinhã.

A minha terra, Lourinhã (mas também Portugal,  a ciência e a cultura)  deve-lhe muito. Tomo a liberdade de citar aqui um excerto do elogio fúnebre que o seu filho Octávio Mateus, hoje paleontólogo de renome internacional e professor da FCT / Universidade NOVA de Lisboa, escreveu sobre a sua mãe, na sua página Lusodinos - Dinossauros de Portugal, no passado dia 16, terça-feira:

(..." Em 3 de Abril de 1993, descobriu o ninho e embriões de dinossauros carnívoros Lourinhanosaurus em Paimogo, um dos maiores e mais importantes, à data. É autora de três artigos científicos como primeira autora, entre os quais é publicado o ninho de ovos e embriões de dinossauro que tinha descoberto (1997). Este achado foi marcante na história do Museu da Lourinhã, levando o nome da paleontologia da região a patamares internacionais, motivando a Revista Expresso a eleger o casal Isabel e Horácio Mateus como Figuras Nacionais do ano de 1997. Dois anos depois, realizou no Museu de História Natural de Paris formação superior intensiva em palinologia fóssil, área da botânica que estuda pólen e esporos. Mais recentemente, foi autora do livro Podomorfos do Casal da Misericórdia (ed. Museu da Lourinhã, 2020).

"Em 1997, escreveu a proposta do “Parque do Saber e do Lazer”, que foi o documento precursor de vinte anos de esforços para a construção de um novo parque ou museu, desejos que culminaram em 2018 na abertura do DinoParque Lourinhã."  (**)

Outro dos seus filhos, o mais velho, Simão Mateus, director científico  do DinoParque Lourinhã, escreveu na sua página pessoal do Facebook:
 
(...) A minha mãe tinha um coração enorme, e isto não é uma figura de estilo. Está documentado em radiografias e ecografias. Tinha-o porque uma condição cardíaca assim o moldou. Ela própria o afirmava e por isso dizia que cabiam nele todos os filhos... e eram muitos. Biológicos nós os três, o Simão, o Octávio e a mais pequena, a Marta, mas os adoptivos eram dezenas. (...) 

(...) E acima de tudo, o meu pai que sempre foi a paixão da sua vida. Assim como o seu jardim e as suas inúmeras flores eram a sua grande paixão. 
(...) A outra paixão foi o Museu da Lourinhã e, intimamente ligado, a história da Lourinhã. (...)

(...) Hoje o coração tornou-se maior que o mundo, e decidiu abraçar-nos com o amor que só uma mãe sabe da".

A Câmara Municipal da Lourinhã reconheceu o seu importante contributo "para a projeção e afirmação da Lourinhã como a Capital dos Dinossauros" e para a valorização do "património paleontológico do concelho, transportando o nome da Lourinhã para os panoramas nacional e internacional", tendo sido atribuída, ainda em vida, em 2018, a Medalha Municipal de Honra, Classe de Ouro. O Município decretou um dia de luto, ontem, pelo falecimento da Isabel Mateus. Entreaht, e, 15 de novembro, de 2019 fora inaugurado o novo laboratório de conservação e restauro do Museu da Lourinhã, que passou a chamar-se“Laboratório Isabel Mateus”.

2. Éramos amigos de longa data, dela e do marido, Horácio Mateus (1950-2013). Somos amigos dos filhos, e sócios do GEAL. E quisemos, eu e a Alice, prestarmos-lhe, aqui,  uma singela homenagem, em forma de soneto. Até sempre, querida Isabel!


Elegia para a Isabel Mateus (1950-2021)

Que dizer, face à notícia da tua morte,
Tu que foste do GEAL a “alma mater”,
Mulher de grande coração, nobre carácter ?
Foi bom conhecer-te, tivemos essa sorte.

Partes ao encontro daquele que amaste,
Um lindo amor, único, trágico, profundo,
Mas a tua vida acrescentou mundo ao mundo,
E não esqueceremos as causas que abraçaste.

Da outra margem do rio que nos separa,
Ver-te-emos a cultivar as tuas flores,
Num jardim secreto, em tardes de luz clara.

E essa visão de paz que é agora tristeza,
Para os teus filhos e amigos, teus amores,
Também lhes traz algum consolo e beleza.

Lourinhã, 17 de fevereiro de 2021
Os amigos “geálicos” Luís Graça e Alice Carneiro
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