
Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Outubro de 2026:
Queridos amigos,
A Galeria 111 teve uma influência determinante na formação do meu gosto pela arte contemporânea, pelas opções que fui fazendo nas minhas compras modestas. Devo imenso a Manuel de Brito que propunha a quem se lançava na vida compras a prestações, ficou triste quando lhe disse que não podia comprar aquela serigrafia da Sónia Delaunay com a chegada de uma filha, andava com o dinheiro contado por ter decidido retomar os estudos com o ordenado de Tenente, enfim, vida modesta mas com contas certas. Recordo-o com alegria e saudade, parece que estou a ouvi-lo a explicar-me o que havia de profundamente original na arte de Palolo, Brito amava profundamente o seu trabalho, tinha aquele seu ar ponderado a comunicar o que estava exposto e como ele próprio sentia as obras de arte ali expostas, e, como ele dizia, se vocês não têm dinheiro para os óleos e guaches comprem as serigrafias a prestações. Que boas lembranças deste homem e do que ele fez pela arte contemporânea.
Um abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (276):
Os quadros de António Palolo, a sua alegria luminosa, as cores incandescentes, as transbordantes secções do mundo
Mário Beja Santos
Conheci a arte de Palolo (1946-2000) quando um dia, aí por finais de novembro de 1971, a caminho da Faculdade de Letras de Lisboa, onde retomara os estudos e passar a fazer exames com o estatuto de estudante-militar, passei pela Galeria 111, a pretexto de ir comprar um livro numa das livrarias do quarteirão, chamou-me à atenção haver na montra pintura que me pareceu da Arte Pop, mordido pela curiosidade fui percorrendo aquela pintura acrílica sobre tela e guaches, rapidamente me apercebi que havia outras aproximações e derivas da Arte Pop, subtis compromissos entre o figurativismo e o abstracionismo, impressionou-me o encerramento em molduras estritas, um geometrismo com cores muito vivas, uma autêntica festividade cromática, simetrias rigorosas, quadros dentro de quadros, linhas dentro de linhas.
É nisto que se aproximou Manuel de Brito, o proprietário da galeria, sempre ansioso de conversa, sobretudo com os mais jovens. Retive que ele fazia apelo a influências internacionais, falava mesmo em neofiguração, abstracionismo geométrico, minimalismo, Palolo era exposto na Galeria 111 desde 1964, para Manuel de Brito era muitíssimo interessante ver a evolução do artista, a sua combinação de linguagens abstratas e figurativas, o seu grau de autonomia e originalidade, a despeito da influência norte-americana ou britânica (a cor, a imagem popular, a repetição) ia adquirindo uma linguagem própria, ali presente havia uma arquitetura geométrica realçada pela cor, a indispensável matéria-prima do artista, parecia que era a cor que definia o espaço, o espetador da obra era muito mais dominado pela cor em estado vibrante que pelo enquadramento da obra. Manuel de Brito propunha sempre aos jovens aquisição de serigrafias a prestações, naquela altura, com a previsão da chegada de um filho, eu só fazia contas para que nada faltasse lá em casa, o gosto pelas obras de arte seria consumado quando houvesse as competentes folgas, quando houvesse melhoria de rendimento. Nunca perdi Palolo e os seus trabalhos de vista e cheguei a ter uma serigrafia e um desenho.
Não sei há quantos meses voltei a passar pela Galeria 111 e lá estava uma homenagem a Palolo, voltei a entrar e a sair deslumbrado quão tudo é visível e oculto nos seus trabalhos, a sua originalidade, uma certa traquinice no seu comportamento criativo, ele um autodidata, revelara uma impressionante maturidade na composição de códigos internos sem prejuízo de haver na composição qualquer coisa de teatro popular. Naquele ano de 1971, em que conheci os seus trabalhos, já Palolo era o mais jovem dos pintores que foram selecionados para a nova decoração da “Brasileira” do Chiado, o mesmo quer dizer que quem o avaliara encontrara nos seus trabalhos pujança pela linguagem de alegria luminosa e rigor na apresentação geométrica dos seus conteúdos.
Nesta recente visita pus-me discretamente a um canto para ver as reações de quem entrava e saía, dei por casal a cochichar: “Que otimismo, que simplicidade aparente, ele tinha mesmo gosto nestas aventuras de cor, neste virtuosismo com fitas alegres, hoje já não há artistas que nos façam vibrar assim, não achas?”
Dei comigo a pensar que Palolo, que perdemos tão cedo, deixou toda esta festividade que é mais do que uma pintura ilustrativa, ultrapassou o abstracionismo, não se deixou compadecer pelo academismo, a frescura como o vemos hoje pronuncia que o mundo de Palolo aponta para o intemporal de todas as aventuras pictóricas que ajudam a mudar o mundo, anunciando-as pela cor vibrante, pela alegria e esperança que cabem dentro da tela.
Não ponho legendas porque elas não aparecem nas suas obras. No entanto, surfando na internet, encontrei uma tela de Palolo no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, tem título e comentários, que aqui se reproduzem com a devida vénia.
https://gulbenkian.pt/cam/works/horrido-silencio-do-teu-corpo-138882/
_____________
Nota do editor
Último post da série de 17 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28444: Os nossos seres, saberes e lazeres (755): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (275): Uma inesperada Chuva de Verão no Centro de Artes de Sines, até 19 de outubro (Mário Beja Santos)

















































