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sábado, 14 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27821: Os nossos seres, saberes e lazeres (726): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247): A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer: Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
São fotografias avulsas, fruto de situações desirmanadas, recolhidas entre a manhã e o anoitecer, para falar com mais propriedade, entre o alvorecer e a queda do dia. Tomadas como instantâneos de carácter pessoal, como serve de exemplo passar junto de um vendedor de mancarra, caju e cola, ali no Rossio, fixar o olhar naquelas nozes que, pasme-se, até serviram de refrigério para a sede, quando se passava uma noite inteira no planalto de Mato de Cão, viera-se com um cantil de água, estava previsto transitar por ali barcos às oito da noite, passaram afinal com a primeira luz do dia, e de Mato de Cão a Canturé, onde se podiam apanhar as toranjas mais ácidas do mundo, eram 7Km e a língua encarquilhava pelo caminho, era nisto que uma mão amiga me dava um pedaço de noz para mascar, assim se apaziguava a tortura da sede, era impossível não estar ali deleitado com a recordação de coisas vividas há mais de meio século. Há recordações da natureza, há saudades de caminhadas, o leitor que de desculpe com aquilo que eu chamo os acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247):
A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer:
Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão


Mário Beja Santos

As imagens que agora se desfilam cabem perfeitamente na categoria de acasos e descasos, passou-se por ali e o acaso é quando a memória entra em rotação, chega a produzir efeitos retroativos, logo o caso da primeira imagem, saiu-se do metro no Rossio, caminha-se pela Praça D. Pedro IV, são umas centenas de metros até à Sociedade de Geografia de Lisboa, há ali uns bancos, penso que por usucapião, pertença de homens grandes, alguns deles prontos para a venda ambulante, coisas da Guiné de lá vindas, ou coisas cá feitas para guineenses. O olhar fixa-se naquele saco aberto, coração estremece, toca a sineta das lembranças, puxa-se conversa com vendedor, se me dá licença que remexa nas nozes de cola, explico como elas me são familiares, como me ajudaram a matar a sede, mesmo com o seu grau de acidez peculiar, quem estava sentado faz perguntas, onde e quando esteve, já partimos mantenhas, escuso-me de prolongar a conversa, parto com recordações vívidas, dê por onde der, a Guiné vai dos cinco sentidos ao que há dentro da pele. Pois bem, vou justificar-me da razão das imagens que se seguem.
Nozes de cola à venda na Praça D. Pedro IV
Caminhava-se para o Natal, há sempre um pretexto para fazer um grupo e ir ver as iluminações da baixa. Só dei pelo aparato da imagem em casa, este rei D. José I terá dado muito trabalho a Machado de Castro, mas se o leitor decidir ir visitar o Museu Militar será surpreendido com uma construção ciclópica feita para transportar todo este peso até ao Terreiro do Paço. Francamente, o que mais gosto é ter o monarca bastante esfumado e mergulhado na escuridão com aquele casario estranhamente azulado, seguramente um acidente na operação do fotógrafo.
Ponho-me ali pasmado a conversar com a árvore luminosa, nem sei mesmo se aquela luz lá no cimo é a estrela de Belém, o que me deslumbra em toda esta cenografia da luz é o espetáculo das compras que a luminotecnia favorece, por ora anda-se ali em multidão só para desfrute da Baixa iluminada, ponho muitos pontos de interrogação se quem anda a esta hora aqui a passear vem amanhã ao longo do dia participar no frenesim das compras.
Não escondo que sou um aficionado da Feira da Ladra, venho cedo fundamentalmente por causa da compra de livros, mas sempre deitando um olho à variada traquitana. O grande fornecedor dos apetecíveis livros ainda não chegou, avanço para junto do antigo Hospital da Marinha que vai seguramente ser um condomínio de prestígio e apanho em simultâneo as luzes amarelecidas da noite que escapa e daquele céu que clareia na outra banda, com o Tejo de premeio.
Vou depois deambular pelos fascinantes murais opostos ao paredão do Jardim de Santa Clara, gozo com o artifício das luzes amareladas, que não existem na realidade neste monumental azulejar, ali predominam os tons azuis e as cores berrantes, enfim são artifícios só possíveis porque a noite ainda não acabou e o dia ainda não nasceu.
É quase um espetáculo fantástico aqui no Largo de Santa Clara, estão a chegar os vendedores, vão tirar todos os seus trastes das carrinhas e ocupar os espaços demarcados, os agentes da polícia municipal a vigiar os movimentos, mas o que me interessa é a luz esborratada do céu a conjugar-se com aquele amarelo da noite agonizante.
Sou um grande apreciador do artista Jacinto Luís, tenho dele um óleo e uma serigrafia, cativa-me o seu claro-escuro que podem ser edifícios ou até naturezas mortas, e quando me voltei para o Panteão de Santa Engrácia foi instantaneamente a lembrança que me ocorreu, estivesse aqui o Jacinto Luís, certo e seguro de que teríamos tiro e queda para quadro a óleo ou serigrafia.
Estou no terraço do meu casebre no Reguengo Grande, a última freguesia no concelho da Lourinhã já a bordejar o Bombarral, fantasio que vem lá do cimo do mar e tem o oceano a menos de 20Km toda esta Glória dos céus, mais do que o anúncio do fim do dia encho-me de felicidade com esta cavalgada de céu sanguíneo, há para ali uma mensagem em que me convida a amar a vida e a bendizer o dia que fenece e a agradecer a Deus a bênção do dia seguinte.
Desço um caminho escalavrado a partir de minha casa, cumprimento a Susana e o Henrique, depois o casal alemão da casa ao lado, meto-me numa vereda e minutos depois estou em Vale Cornaga, um mundo que me parece perdido, terá tido moinhos, campos lavrados, possui recantos idílicos, e nesta invernia água não falta; todo este caminho é frequentado por pedestres e há quem para aqui traga os seus cães, nos declives houve outrora culturas, agora é tudo abandono e as próprias habitações entraram em derrocada. É um vale que nos mostra o significado da interioridade, a pouco mais de 70Km de Lisboa, a perto de 60Km da vastíssima Loures, uma das dimensões suburbanas da Área Metropolitana. É assim o nosso Portugal desigual.
Toda a Igreja de Nossa Senhora de Fátima é património incomparável que saiu do traço do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro e do génio de Almada Negreiros. Sempre que posso venho contemplar os vitrais de Almada e a harmonia que se respira de todo o conjunto. É inevitável a visita ao batistério, aqui fui batizado em julho de 1945, da comunicação entre Pardal Monteiro e Almada resultou esta efervescência de luz e a transbordante espiritualidade que nos evoca o princípio da caminhada na crença de um amor de Deus que se reparte pelos outros humanos.
Um dia, o meu amigo João Sousa Pires, que foi furriel em Missirá, no Regulado do Cuor, mostrou-me esta imagem, a chegada da água da fonte em bidons para o então horrível balneário, um recinto rodeado de folheta, alguma dela ferrugenta, onde muita gente se golpeou, antes ou depois de se lavar naquela água a cheirar a petróleo ou coisa parecida. O que importa neste momento é ver na caixa da viatura Cido Indjai, militar brioso, caçador exímio, não percebia bem porque é que eu não gostava nem da carne do porco do mato nem da gazela; a caminhar para nenhures vejo em tronco nu Nhaga Macque, primeiro-cabo, fumava cachimbo e tinha as maneiras de um príncipe. Saudades de dois amigos que não voltarei a ver.
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Nota do editor

Último post da série de 7 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27803: Os nossos seres, saberes e lazeres (725): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (246): O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 2 (Mário Beja Santos)

sábado, 7 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27803: Os nossos seres, saberes e lazeres (725): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (246): O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Só a posição em si é um deslumbramento, lá em cima o Castelo dos Mouros, na grande varanda desfruta-se do espetáculo da Quinta da Regaleira à esquerda e um pouco da vila de Sintra à direita. É tudo aprazível em termos de arborização desde a cascata dos plátanos até ao Palácio, da primavera para o verão deve ser um espetáculo no jogo de cores caleidoscópico, todo aquele arvoredo exótico a dialogar com os fetos arbóreos, os plátanos. As obras de conservação e restauro revelam-se magníficas, o Palácio, cuja construção esteve a cargo de um dos nomes sonantes da época, contou com a colaboração de Luigi Manini e um entalhador de nome sonante, Leandro de Souza Braga; e há, como é inevitável, alguns acepipes para aficionados do esoterismo, cabala e ramos afins com o que se pode especular da Capela templária e da Câmara iniciática. Asseguro que ninguém sairá desta visita decepcionado. Boa visita.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (246):
O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um parque de sonho - 2


Mário Beja Santos

Quem gosta de obras românticas de grande aparato, o Palácio Biester, que alguns tratam por chalé, satisfaz plenamente os aficionados mais exigentes. O Palácio está no ponto alto de um Parque de indiscutível beleza. Era, para a época, uma proeza paisagística, uma conceção com um elevadíssimo grau de dificuldade, com espaços que aparecem designados no mapa que se oferece ao visitante com nomes tais como Cascata das Camélias, Ponte dos Fetos Australianos, Passeio Bordallo Pinheiro, Largo dos Fetos Australianos ou Tanque dos Plátanos.
É andando no interior deste Palácio, contemplando as panorâmicas, quer as do parque em si, quer o desfruto de olhar à esquerda o edifício mais significativo da Quinta da Regaleira e à direita a vila de Sintra, que se sente na perfeição a integração do Palácio no parque, a grande variedade de exemplares exóticos, e mesmo na caminhada obrigatória entre a Cascata dos Plátanos e o Palácio ver como resultou em cheio este desenho em declives quase labirínticos, obra do paisagista francês François Nogré que foi construindo o jardim com uma série de patamares com diferentes vistas para o Palácio, o resultado é a variedade de cenários e de cromáticas com um aproveitamento estético da beleza natural do declive e dos cursos de água. Referi no número precedente ao leitor o deslumbramento da nogueira-do-Japão, das garbosas faias, os altíssimos plátanos, os fetos arbóreos, e andei à procura de uma árvore nativa da América do Norte e das regiões montanhosas do México a Liquidâmbar, que no outono pode adquirir uma fabulosa miríade de cores. Saí do Palácio por instantes só para vos mostrar este cenário florestal ímpar.

Não sei como é o jardim do Éden, mas no caminho entre o passeio Bordallo Pinheiro, o lago dos Fetos Australianos há um ajardinamento onde despontam palmeiras, sabe-se lá o que me passou pela cabeça, até imaginei que estava nos palmares de Gambiel ou Chicri, no meu regulado do Cuor, no Centro-Leste da Guiné.
Regresso ao interior, não tirei esta imagem ao acaso, no Palácio Biester trabalhou um artista de nomeada, Leandro de Sousa Braga, os seus arcos ogivais ornamentais de desenho neogótico são insuperáveis, e veja-se o entalhamento da cimalha para o teto.
Há soberbas pinturas nas paredes e no teto, figuras angélicas de Paul Baudry, e Luigi Manini, cenógrafo reputado de profissão deixou aqui vegetalismos que conferem ao espaço uma atmosfera onírica que nos remete para o romantismo no seu expoente máximo.
Obras de Luigi Manini, sempre presente pelos seus magníficos trabalhos conferem um estreito diálogo entre o neogótico das decorações com a arquitetura.
Como se disse anteriormente, o construído no rés-de-chão é eminentemente espaço de convívio social, abra-se exceção para a biblioteca, o primeiro andar é área dos aposentos e também da Capela, chamemos-lhe uma Capela Templária, talvez devido à presença dos Cavaleiros Templários na história de Sintra. No teto, a Capela mostra as mais soberbas pinturas de todo o Palácio, dois anjos atribuíveis a Paul Baudry.
Escadaria principal do Palácio Biester, foi na totalidade realizada em madeira, é uma construção entalhada e vazada de Leandro de Sousa Braga, vejam-se os arcos ogivais ornamentais de desenho neogótico.
Aproximei-me de uma janela para bisbilhotar o parque, é a luz do entardecer, daí os dois tons de verde e lá no alto o Castelo dos Mouros.
Um arco gótico na janela onde se avista esfumado uma lembrança do parque
Estamos na Câmara iniciática. Seguindo a legenda aqui patente, este é um local profundamente ligado à ideologia religiosa que domina toda a conceção do Palácio Biester, sendo que, juntamente com a Capela, se encontra conectado com a sua prática, através da iniciação do individuo a uma Ordem sacra Templária. Trata-se de uma pequena divisão totalmente dividida em pedra, que apresenta um teto abobadado e, na parede imediatamente à frente de quem entra, uma janela à maneira de um altar medieval rudimentar, que em galgando nos dá acesso a uma bifurcação de túneis, cuja saída vai dar aos jardins do Palácio. A estrutura foi delineada tendo como base modelos de santuários medievais, nos quais as paredes em pedra despida, de construção em abóbada com arcos, eram inspiradas pelos santuários cristãos da antiga cidade de Jerusalém. A modéstia desta camara iniciática, onde o voto de pobreza do aspirante observava os mandamentos originais, à imagem da Terra Santa com a riqueza da Capela neogótica do Palácio.
Estamos de novo cá fora, ainda houve intenção de ir até ao miradouro do Castelo, e depois visitar o miradouro das Descobertas, optou-se pelo Lago dos Fetos Australianos. Este feto arbóreo australiano, segundo consta na brochura, é uma das espécies mais elegantes do parque Biester, tendo sido integrada pelo paisagista François Nogré com o objetivo de difundir alguns exotismos em determinadas zonas da propriedade, e aquela queda de água vem mesmo a propósito deste parque romântico em que o paisagista foi bastante feliz no aproveitamento dos declives e dos cursos de água.
Despedimo-nos com uma visita às instalações onde convivia o pessoal entre criadagem e cozinheiros. Anda-se por aqui a pensar nas comédias britânicas de downstairs e upstairs, está tudo conservado e recuperado e, confesso bem alindado, até podemos imaginar os comentários dos que conviviam cá em baixo ou os modos de ser dos multimilionários que habitavam entre os salões e os aposentos privados.
Impossível, perante tanta beleza e a qualidade de recuperação do Palácio de Biester não deixar de sugerir uma visita a património de edifício e parque tratado com cuidados requintados e com um restauro de primeiríssima classe.

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Nota do editor

Último post da série de 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27781: Os nossos seres, saberes e lazeres (724): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (245): O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 1 (Mário Beja Santos)

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27781: Os nossos seres, saberes e lazeres (724): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (245): O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Depois de longos e cuidados restauros e obras de conservação, o Parque e o Palácio Biester abrem-se ao público no seu espantoso desenho em declives, obra de um célebre paisagista francês, François Nogré, que organizou espaço com uma série de patamares com diferentes vistas para o Palácio, as espécies arbóreas como a Nogueira-do-Japão, faias, plátanos e camélias e fetos arbóreos asseguram o jogo de cores quase caleidoscópico, e lá no cimo vemos um Palácio romântico, faz boa parentela com outro património próximo, a Quinta da Regaleira, os cabalistas e esotéricos têm muito aqui para se entreter, basta pensar na Capela templária e na Câmara Iniciática. O Palácio destaca-se pelo seu ecletismo e exuberância, revela o bom gosto da época em toda a sua magnificência, como continuaremos a ver seguidamente.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (245):
O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 1


Mário Beja Santos

Quem gosta de obras românticas de grande aparato, o Palácio Biester, que alguns tratam por chalé, satisfaz plenamente os aficionados mais exigentes. O Palácio está no ponto alto de um Parque de indiscutível beleza. Era, para a época, uma proeza paisagística, uma conceção com um elevadíssimo grau de dificuldade, com espaços que aparecem designados no mapa que se oferece ao visitante com nomes tais como Cascata das Camélias, Ponte dos Fetos Australianos, Passeio Bordallo Pinheiro, Largo dos Fetos Australianos ou Tanque dos Plátanos. As espécies que encontramos no parque são, em alguma medida, transversais às existentes no Parque da Pena, constituindo-se por uma grande variedade de exemplares exóticos importados dos quatro cantos do mundo; desde as espécies cameleiras com origem na China e no Japão, às faias verdes e vermelhas da Europa Central, até aos fetos da Austrália e aos abetos norte americanos. Para ser sincero, não se pode dissociar a obra romântica do Palácio dos esplendores que oferece o Parque. É possível comprar na receção um volume com a história do Palácio e dos seus proprietários, encontrei um site que talvez tenha utilidade para o leitor: https://serradesintra.net/chalet-biester/, poderá mesmo ver o ator Johnny Deep, no filme a Nona Porta, que teve filmagens no Palácio de Biester.
A Cascata dos Plátanos, junto da receção do Palácio Biester
Uma nogueira-do-Japão, uma árvore que, apesar do seu nome comum em português mencionar o Japão, é na verdade nativa da China, onde se pensou que poderia estar em vias de extinção. Com mais de 200 milhões de anos, trata-se da espécie arbórea mais antiga do planeta, o que faz com que os seus exemplares sejam muito presados pela cultura de diferentes civilizações. Com tonalidades que se manifestam desde os verdes até a um espantoso amarelo-açafão, pela altura do outono. À época, foi uma adição rara escolhida por François Nogré para o Parque Biester, que dela possui dois exímios espécimes com dimensões generosas.
Entrada do Palácio de Biester
Para se chegar aqui saiu-se do comboio em Sintra, atravessou-se a vila, havia que pôr-me ao caminho da Estrada Nova da Rainha, o Palácio Biester antecede a Quinta da Regaleira. Entra-se no parque, depois da bilheteira temos a cascata dos Plátanos e começa um sinuoso percurso até se chegar ao cimo, ao Palácio. Não se resistiu a fotografá-lo cá de baixo. É na verdade um chalé romântico, nem se sonha o que há no seu interior de neogótico, vê-se à vista desarmada que é construção dos fins do século XIX, tem uma traça eclética e exuberante, os seus alçados são francamente elegantes, o famoso arquiteto José Luís Monteiro foi feliz nesta construção cheia de harmonia.
Estamos no rés-de-chão, há por aqui inúmera beleza, na biblioteca, na sala de música, na sala de estar e no salão de festas; a escadaria principal é de cortar o fôlego. Quem mandou construir não se poupou a despesas, escolheu artistas consagrados. Olhe-se para a beleza deste teto, obra de Luigi Manini, um famoso cenógrafo do teatro de São Carlos, decorador reputado.
Um pormenor da biblioteca, uma das mais peculiares salas do Palácio, aqui se albergava o acervo literário, servia de sala de leitura e consulta de documentos e agenda
É impressionante a qualidade do trabalho dos revestimentos, a ambiência neogótica, uma bela lareira azulejada, convém recordar que andou por aqui Rafael Bordalo Pinheiro, além de genial caricaturista possuía a célebre fábrica de cerâmica nas Caldas da Rainha. Este é um pormenor do salão de festas, sala dedicada a celebrações e bailes, a divisão foi claramente projetada a pensar no tempo mais invernoso.
A sala de refeições, atenda-se ao requinte das decorações das paredes
Podia ser uma pintura, mas não é. De um dos quartos, teve-se muita sorte na hora e na luz, até parece que o Castelo dos Mouros emerge de um eriçado mundo vegetal e parece estar ao alcance da mão, ilusão da ótica, o arquiteto concebeu o edifício dispondo no rés-de-chão a área social, ou seja, a sala de estar, o salão de festas e a sala de música, não falta mesmo um espaço privado que é a biblioteca, e dispôs no primeiro andar os quartos e a capela, as varandas e janelas parece que foram talhadas para um grande espetáculo cénico.
O que se avista desta varanda é esplendoroso, de um lado a vila, do outro um património um tanto afim, a Quinta da Regaleira, os cabalistas e esotéricos aqui procuram câmaras iniciáticas, códigos templários, simbologias por decifrar.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 21 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27759: Os nossos seres, saberes e lazeres (723): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (244): Paula Rego, o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem - 3 (Mário Beja Santos)

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27759: Os nossos seres, saberes e lazeres (723): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (244): Paula Rego, o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem - 3 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Escreve a curadora da exposição, Catarina Alfaro, que os fatos que iremos visitar não são impressionantes. "O que os torna admiráveis é a abordagem pictórica, o modo como os vestidos se comportam quando vestidos pelos modelos, como caem, se colam ou se avolumam no corpo, para seduzir ou esconder. Nas pinturas, as saias adquirem volume face aos modelos originais, pois, segundo a artista, quanto mais pregas tiverem, mais segredos podem esconder, mais histórias ficam por dizer." Uma impressionante viagem ao trabalho cenográfico de Paula Rego, desde muito cedo interessada na moda e educada em Inglaterra a aprender a costurar e a bordar, neste país fascinou-se com as tendências da moda, roupa e adereços; e é incontestável que a partir de 1990 o vestuário passou a ser um elemento determinante para a construção das suas personagens, é para ver e deslumbrar, pelo conhecimento das entranhas do trabalho de estúdio da genial artista.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (244):
Paula Rego, o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem - 3


Mário Beja Santos

“Pintar é uma maneira de se lidar com a realidade, com o mundo de todos os dias, pois a pintar absorve-se tudo quanto há.”
Paula Rego


Estão patentes na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, duas exposições de arromba: uma, em que a coleção da artista parece entrar numa sala de espelhos, a coleção do Museu irá desdobrar-se pelos temas dominantes e transversais à sua obra; outra, a obra de Paula Rego é apresentada através da lente da moda e do vestuário, introduzindo pela primeira vez o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem. É sobre esta última que nos vamos agora debruçar.
A partir de 1990, o vestuário passa a ser um elemento determinante para a construção das suas personagens, para além de se constituir como elemento cenográfico central na sua obra. Em muitas das obras aqui apresentadas as peças de roupa são o principal foco de atração conduzindo-nos para dentro da sua pintura. A forma como veste os seus “atores” de acordo com as cenas que muitas das vezes são verdadeiros dramas em trajes da época, num espaço que começa a assemelhar-se a um palco ou film set (local onde se realiza o filme), tem implicações no modo como irá conceber as suas obras.

Como revelou a artista, “a pintura é sempre uma mascarada” com a roupa e os adereços postos no sítio certo, os gestos traduzem a intensidade que se quer.
Na sua educação, a artista recebeu a influência da sua mãe, mulher que primava pela elegância e tinha profundo interesse na moda, lá em casa compravam a revista francesa Elle; e a menina Francisca, a costureira, vinha a casa para os executar com todo o rigor. Em Inglaterra, ainda adolescente, frequentou uma escola exclusivamente feminina, aqui aprendeu a costurar e a bordar, acompanhou com entusiamo as últimas tendências da moda londrina.
Voltando ao que aconteceu a partir de 1990 - momento que coincide com a sua estadia na National Gallery como artista residente, deixando-se guiar pelos Mestres da Pintura Antiga, a artista ganha consciência da qualidade pictórica das texturas dos tecidos, das rendas, dos veludos, dos panejamentos e das pregas, camada por camada, mancha por mancha.

O guarda-roupa que se encontra no seu estúdio e foi trazido para esta exposição é em grande parte responsável pela dimensão espetacular de algumas obras, conferindo-lhes o estatuto de verdadeiros quadros vivos.
Numa outra dimensão encontra-se aí uma grande variedade de adereços, como chapéus ou joias, que a artista obteve em lugares muito diversos: desde os bastidores de salas de espetáculo londrinas, a Feiras da Ladra ou lojas de roupa em segunda mão. Outras peças são recordações com as quais estabeleceu muitas vezes uma sólida ligação sentimental: “São coisas que trouxe de Portugal, há muitos anos: roupas, certos bonecos. Há fatos que eram da minha mãe, tenho coisas que eram da minha mãe.”

Adereços e joias de fancaria
Paula Rego, A sina de Madame Lupescu, 2004
Paula Rego, Jane Eyre, 2001-02
Paula Rego, tríptico Preparando-se para o baile, 2001-02
Paula Rego, Agonia no horto, 2002, da série “Ciclo da vida da Virgem”
Indumentária usada para o quadro acima
Traje para a série “Branca de Neve”
Paula Rego, Branca de Neve no cavalo do Príncipe, 1995, da série Branca de Neve
Paula Rego, Mãe, 2007, da série “O crime do Padre Amaro”
Quadro à direita: Paula Rego, A Gata Nicotina, 2003
Quadro à esquerda: Paula Rego, O cigarro, 2006
Paula Rego, Espantalho, 2006

O que inebria nesta exposição é o diálogo que se estabelece entre a indumentária e adereços e as obras que lhe correspondem. A artista foi ganhando consciência da qualidade pictórica das texturas dos tecidos que se materializa nas suas pinturas na sequência da eleição do pastel seco, em 1994, como meio capaz de conferir uma solidez jamais alcançada com o óleo ou o acrílico. Sim, uma bela exposição que pode ser visitada até 15 de março.
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Nota do editor

Último post da série de 14 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27735: Os nossos seres, saberes e lazeres (722): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (243): Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade - 2 (Mário Beja Santos