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sábado, 4 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27889: Os nossos seres, saberes e lazeres (729): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (250): Palácio de Belém, o menos conhecido de todos os antigos palácios reais (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Sim, é de facto o menos conhecido de todos os antigos palácios reais. Há, contudo, uma razão de ser. Foi, ao longo de quase duzentos anos, uma quinta de veraneio, lugar de reis e princesas. Marca-o a singularidade de ter sido o único palácio a resistir intacto ao terramoto, facto que não lhe alterou a discrição. Aqui viveram D. Carlos e D. Amélia enquanto foi rei D. Luís. Com a República, instalou-se aqui a presidência, foi escolhido para a residência oficial do Chefe de Estado. Mas continuou fora dos circuitos de visita, incluindo o Estado Novo. Foi na presidência do General Ramalho Eanes que o Palácio de Belém abriu as suas portas ao público. Com Mário Soares e Jorge Sampaio a utilizar o Palácio de Belém exclusivamente como local de trabalho, houve uma vontade de aproximação aos cidadãos, mais tarde com substanciado na criação do Museu da Presidência da República. Está belissimamente conservado e pode muito bem acontecer que na visita guiada onde estiver o leitor apareça ali de rompante o novo inquilino, quando os visitantes estiverem no gabinete de trabalho do Presidente, frente à mesa onde ele às terças-feiras recebe o Primeiro-ministro.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (250):
Palácio de Belém, o menos conhecido de todos os antigos palácios reais

Mário Beja Santos

Era uma visita guiada, não quis perder a oportunidade de conhecer o Palácio depois de visitar o Museu da Presidência; os antigos combatentes têm visita gratuita. O Palácio é monumento nacional desde 2007 e desde 1910 é sede da instituição presidencial. Na livraria do Museu deu-me para comprar um livro sobre os azulejos, estuques e tetos do Palácio de Belém. Foi aqui que fiquei a saber que é o único Palácio que resistiu intacto ao terramoto de 1855. Dá-se a explicação que o Palácio tinha uma importância inconstante no conjunto dos restantes palácios reais, os constrangimentos continuaram pelo facto de ser a residência oficial do Chefe de Estado. Esteve até recentemente fora dos circuitos de visita. Foi no segundo mandato do General Ramalho Eanes que o Palácio abriu as suas portas ao público. Mário Soares e Jorge Sampaio passaram a utilizar o Palácio de Belém exclusivamente como local de trabalho. A abertura do Museu e a inclusão do Palácio nos circuitos de visita motivaram um crescente interesse em estudar todo o património e daí as monografias sobre todo o seu acervo, caso desta dedicada aos azulejos, estuques e tetos.

O Museu da Presidência detém milhares de peças, entre objetos pessoais, retratos, presentes de Estado e condecorações. O seu Arquivo integra milhares de documentos que testemunham a vida publica e familiar da maioria dos Presidentes da República. Este Museu também tem a seu cargo a valorização do Palácio da Cidadela de Cascais, bem como uma significativa coleção de carros que serviram os Presidentes da República, a coleção está exposta no Porto, no Museu de Alfandega.

A visita permite conhecer a galeria dos retratos oficiais, os símbolos nacionais associados à República, os presentes de Estado, as Ordens Honoríficas e o acervo dos trabalhos de Paula Rego para os quadros que estão expostos na capela do Palácio.

Posta a visita ao Museu da Presidência segui para o Palácio de Belém, começou-se pelo Jardim do Buxo e pela varanda, obviamente que se entrou pela Sala das Bicas.

As galerias com os retratos dos Presidentes da República. Na altura da minha visita ainda não tinha sido colocado o retrato do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa feito por Vhils, rompendo com a tradição de quadros com pinturas a óleo, desta feita elaborado com troços de jornais.
Jardim do Buxo, vendo-se ao fundo, antes da estátua de Afonso de Albuquerque, o Tejo
Na varanda do Palácio de Belém estão patentes uma série de painéis, os maiores representam dois dos doze episódios dos trabalhos de Hércules, são dos últimos anos do século XVII, com restauros dos séculos XVIII e XX. Neste painel temos Hércules lutando com uma das aves de rapina do lago de Estinfália, na Arcádia, episódio relativo ao sexto trabalho. O herói recebeu ordens para expulsar do lago as terríveis aves com o bico de bronze. Neste painel azulejar ele é representado em pé armado da habitual clava com a qual tenta suprimir o animal.
Este painel evoca o segundo trabalho do herói, de pé, enfrenta e mata a hidra de Lerna, serpente aquática de sete cabeças. Ele veste a pele de leão e levanta a clava em direção à serpente.
Neste painel temos Hércules e a égua de Diomedes, ilustração do oitavo trabalho do herói que tem como missão eliminar as éguas do rei Diomedes, animais selvagens que se alimentavam de carne humana, o herói é representado de pé tentado dominar o equídeo. Na mão direita, ele segura a clava e na esquerda segura a corrente com a qual prende a égua pelo bridão. Hércules veste já a pele do leão de Nemeia, foi o seu primeiro trabalho.

A publicação que eu adquiri sobre azulejos estuques e tetos do Palácio de Belém refere que no século XIX houve um notório desinteresse pelos azulejos. Tanto a varanda como a Sala das Bicas são referidas sem se abordar o azulejo. Foi necessário chegar ao adiantado século XX para se ouvirem comentários altamente elogiosos, como o do arquiteto e historiador de arte Aires de Carvalho que, a propósito dos azulejos da fachada que terão sido colocados em 1778, conclui: “Esses belíssimos painéis de azulejos que felizmente ainda perduram e são inspirados em gravuras seiscentistas com assuntos mitológicos, se não conhecêssemos as contas e que foram pintados expressamente para aplicar nos espaços entre portas e janelas, poderíamos pensar que seriam originais e do século XVII.” Os azulejos da fachada estão dispostos em 14 painéis de grandes dimensões. Cada apinel representa em tamanho natural, uma figura mitológica. Este conjunto tem sido descrito, erradamente, como uma ilustração de Hércules, porque Hércules é, com efeito, a figura que mais se destaca e que é representada em vários painéis.

Confesso que me emocionei profundamente com esta capela do Palácio que alberga oito obras de Paula Rego denominadas O Ciclo de Vida da Virgem Maria. O Presidente Jorge Sampaio não apreciava grandemente esta capela vazia e numa visita a Londres, em 2002, convidou a artista a tal desempenho, ela aceitou prontamente, no Museu da Presidência podemos ver o acervo dos esboços, mas é na capela que podemos testemunhar a genialidade destas oito pinturas a pastel.
Quem vai ser recebido pelo Presidente da República entra no Palácio pela Sala das Bicas, é aquela que vemos mais frequentemente na televisão. Chama-se assim por ter ao fundo duas bicas que deitam água para umas bacias de pedra. A Sala das Bicas também dá acesso à Arrábida, isto é, a zona reservada à vida privada do dia-a-dia do Presidente da República, ele tem direito de morar aqui com a sua família ou sozinho.
A Sala Dourada precede as Salas Império e dos Embaixadores. É uma sala sumptuosa, com mobília encomendada para o casamento do Príncipe D. Carlos, em 1886. Num quadro da escola de Rubens, Cristo triunfando sobre a morte.
No Jardim da Cascata temos os viveiros que D. Maria I mandou construir para os seus pássaros exóticos. Por baixo deste jardim encontram-se as jaulas onde antigamente viviam leões e outros animais ferozes.
O Palácio de Belém conserva nos salões nobres um diversificado conjunto de tetos decorados que incluem um belíssimo exemplar ornamental barroco, que aqui se mostra, está na Sala das Bicas, mas há igualmente teto com pintura mitológica na Sala Dourada, teto com revestimento neoclássico na Sala Império, isto é só uma lembrança para que quando for visitar o Palácio de Belém não se esqueça de olhar para cima.
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Nota do editor

Último post da série de 28 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27866: Os nossos seres, saberes e lazeres (728): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2 (Mário Beja Santos)

sábado, 28 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27866: Os nossos seres, saberes e lazeres (728): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não posso dizer que coro de vergonha pelo facto de não ter publicado em tempo oportuno este relato de visita a uma importantíssima exposição sobre a obra neorrealista de Rogério Ribeiro. Do itinerário do artista, do seu experimentalismo permanente em que deixou a obra no desenho gráfico, na cerâmica e na faiança, no mural, na tinta-da-china, na linogravura e na gravura, na água forte, na litografia, no guache e na aguada, e fiquemos por aqui, se deixou notícia no texto anterior chamando a atenção para a organização da exposição que abre com um módulo de Mar e Sargaço, o seguinte intitulado de Terra e Campesinato, e hoje aqui se dá o destaque aos módulos sobre o Operariado e outras Fainas, a Família e o Quotidiano, o Corpo e Rosto e, finalmente, Ecos do Realismo, em que se pode apreciar que o artista evoluiu, mas nunca deixou de revelar o valor da dignidade humana, nunca escondeu a sua frustração, num mundo que oprime os mais desfavorecidos. E convido os interessados a adquirir o catálogo de referência da exposição, para além de nos mostrar o extraordinário talento de Rogério Ribeiro, traça o que de mais importante e significativo foi o fenómeno cultural que deu pelo nome de neorrealismo.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249):
Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2

Mário Beja Santos

Decorreu no Museu do Neorrealismo uma exposição intitulada Fazer Crescer a Vida, Rogério Ribeiro e o neorrealismo, aconteceu entre finais de maio e outubro do ano passado. A tudo assisti na inauguração, uma apaixonante apresentação feita por David Santos, o diretor científico da casa, lá voltei duas vezes, e sabe-se lá por que negligência ou inércia fui demorando a intenção de pôr por escrito a chamada de atenção para este acontecimento cultural de gabarito, ainda por cima acompanhado de um catálogo de referência.

Penitencio-me da minha falta, o que se segue não passa de uma tentativa de redenção.

A homenagem que o Museu do Neorrealismo prestou a Rogério Ribeiro é, a todos os títulos, tocante. O magnífico catálogo, é uma obra de referência. O curador e diretor científico da casa disserta sobre este fenómeno artístico assente no amor ao povo, no mostrar a dignidade do trabalhador como mensagens indutoras à alegoria à transformação do mundo. Todos estes artistas plásticos, pode hoje ponderar-se à distância, acompanhavam um cânone, mas possuíam uma sintaxe específica, e Rogério Ribeiro revelou desde muito novo um olhar distinto, quer quando ele trabalhou a obra plástica sobre a recolha do sargaço, a monda do arroz ou a ceifa; o trabalhador, fosse a mulher arranjando peixe ou mondadeira, o homem como feirante, cosendo redes, ou ambos em duros trabalhos, o que há peculiar neste artista são cores, traços, ajuntamento de gentes que nos falam do real do quotidiano.

A exposição organizava-se em módulos, logo no primeiro intitulado Mar e Sargaço, logo destaque para a figura feminina, na recolha das algas, mas não faltam pescadores, a simbologia de que a união faz a força, e fica bem claro e o artista plástico vê com previsão um conjunto de formas que o que lhe dará no futuro, caso dos quadros com representação de barcos. Segue-se o módulo de Terra e Campesinato, aparece a máquina, a debulhadora, cores por vezes ciclâmicas em contraponto com linogravuras a preto e branco, mondadeiras trabalhando numa atmosfera quase tropical. É muito vasto o campo de observação de Rogério Ribeiro, experimentando formas com que possa mostrar o trabalho das mulheres nos arrozais, camponeses embiocados, sentados em tendas, estudou à minúcia as posições de homens e mulheres acocorados, em grupos ou isolados.

Outro módulo é dedicado ao Operariado e outras Fainas, aqui se pode ver, se dúvidas subsistem, que o valor do realismo social é uma constante do seu traço desde a década de 1950 até à viragem do século, é como se houvesse uma ética inabalável na atenção aos homens e mulheres sobretudo no exercício das mais duras posições. Rogério Ribeiro nunca escondeu que era um artista político, e nunca cedeu a uma liberdade criativa que fazia parte do seu engajamento, expressões do seu sonho de libertação social.

O módulo Família e Quotidiano é um tópico sempre presente na obra de Rogério Ribeiro, claramente associado a um sentimento de comunidade e solidariedade: a figuração da maternidade, a manifestação de afetos, a apresentação do pai como figura protetora e o núcleo familiar como expoente da coesão, o último reduto da confiança e do amor. Era um dos vetores da ficção neorrealista, a família inspira e sustenta uma ideia de progresso, um mundo melhor, não disfarçando o trabalho político, mostrando um quotidiano humilde, marcado por pequenos trabalhos domésticos, mas onde o lazer e a esperança constituem valores que definem um horizonte a alcançar.

Estamos agora no penúltimo módulo intitulado Corpo e Rosto. Escreve-se no texto da exposição:
“Desde os seus tempos de iniciação artística que o retrato e a representação dos corpos constituem na obra de Rogério Ribeiro eixos decisivos de perceção sobre o real, numa consciência de observação que o conduzirá à expressão do social. Os retratos produzidos por Rogério Ribeiro confirmam, como em todo o neorrealismo, uma realidade social que não abdica da esperança da sua transformação. Porém, esse vínculo humanista não inviabiliza, antes exige, soluções estéticas alimentadas pela arte moderna. Na sua diversidade estética, é possível identificar nestes retratos valores que vão do realismo ao expressionismo.”

O último módulo intitula-se Ecos do Realismo, assim identificada no texto de apresentação da exposição:
“Mesmo nos trabalhos que ecoam já uma memória do realismo original, a obra do Rogério Ribeiro prioriza o reconhecimento sobre o valor da dignidade humana e a sua frustração por um mundo que oprime os mais desfavorecidos. Determinada por um vínculo de compromisso e firmeza, uma tensão formal, baseada numa crescente gestualidade, percorre o trabalho do artista neste período.”

Porventura trabalho de mondadeiras, a tinta-da-china e guache sobre papel
Pastores, linogravura sobre papel, 1954
Porventura mulher em trabalho de recolha, tinta-da-china e aguada sobre papel, 1953
Alentejo, tapeçaria mural decorativa, 2011
Rogério Ribeiro no seu ateliê na Póvoa de Varzim, 1951
Rendilheiras, 1958, linogravura
Homens laborando provavelmente com uma debulhadora, tinta-da-china, aguada e grafite sobre papel
Trabalho de mulheres, não se sabe se é uma lota ou trabalho de conserveiras, aguada e grafite e lápis litográfico sobre papel
Família, óleo sobre platex, 1951
Sem título, tinta-da-china, aguada e anilina sobre papel, 1961
Sem título, óleo sobre tela, 1959
Pastel sobre papel, 1959
UCP – Unidade Coletiva de Produção, óleo sobre tela, 1976
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Nota do editor

Último post da série de 21 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27843: Os nossos seres, saberes e lazeres (727): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1 (Mário Beja Santos)

sábado, 21 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27843: Os nossos seres, saberes e lazeres (727): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não sei que preguiça me deu para não ter oportunamente dado uma notícia útil sobre este acontecimento cultural de gabarito que foi a exposição dedicada a Rogério Ribeiro e o neorrealismo intitulada Fazer Crescer a Vida, que estava patente no Museu de Vila Franca de junho a outubro do ano passado. Mais absurdo ainda é o meu comportamento por ter voltado mais duas vezes para desfrutar da arte do mestre que tanto venero. O Museu contou com o património em poder dos herdeiros de Rogério Ribeiro onde está este labor de sua juventude e que comprovam que o artista plástico só tinha por cânone as representações de um povo. O seu ativismo social assim se exprimiu, ele é um companheiro de ideias neste período de comunistas e homens sem partido que agitavam a bandeira do realismo social. Vendo estes trabalhos, sente-se já a sua grande abertura a experiências, tudo o que se irá metamorfosear na cerâmica, na litografia e linogravura, nas artes da gravura, no desenho de ilustração, algo culminará num projeto maravilhoso que ele dirigiu no Almada velho, a Casa da Cerca.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248):
Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1


Mário Beja Santos

Tenho uma profunda admiração por todo o legado artístico e poder criador de Rogério Ribeiro (1930-2008). Quando era responsável por uma página inteira do Jornal de Notícias, nos tempos do grande formato, havia uma secção dedicada a eventos artísticos e culturais a quem eu reconhecia confluência para os arquétipos da sociedade de consumo de massas; entrevistei então Rogério Ribeiro que dirigia a Casa da Cerca, hoje um património cultural de onde se tem, a partir do Almada velho, a mais bela vista de Lisboa fora de Lisboa. Mestre Rogério Ribeiro distinguia-se pela construção de um património artístico, onde primava uma importantíssima coleção de desenho contemporâneo, a realização de exposições envolvendo grandes figuras da arquitetura e das artes plásticas, isto num ambiente envolvido pelo chão das artes, isto é, uma natureza viva onde está implantada alguma da matéria-prima com que os artistas plásticos trabalham, enfim, uma originalidade na articulação da natureza com a arte feita pelo homem.

Decorreu no Museu do Neorrealismo uma exposição intitulada Fazer Crescer a Vida, Rogério Ribeiro e o neorrealismo, aconteceu entre finais de maio e outubro do ano passado. A tudo assisti na inauguração, uma apaixonante apresentação feita por David Santos, o diretor científico da casa, lá voltei duas vezes, e sabe-se lá por que negligência ou inércia fui demorando a intenção de pôr por escrito a chamada de atenção para este acontecimento cultural de gabarito, ainda por cima acompanhado de um catálogo de referência. Penitencio-me da minha falta, o que se segue não passa de uma tentativa de redenção.

Naqueles anos de 1950, eram múltiplas e divergentes as vanguardas artísticas, os princípios ideológicos primavam ou eram contestados. Houvera a rotura com o figurativismo graças ao cubismo, ao futurismo, ao construtivismo, ao expressionismo e o abstracionismo; entrar em cena uma estética figurativa assente num outro modo de ver o realismo, aí assentaram artistas do comunismo e do socialismo, ou não comprometidos explicitamente, mas companheiros de ideias. Um realismo social que conheceu debate interno, aconteceu em Portugal no fim da década com a chamada polémica interna do neorrealismo, isto numa altura em que também se impunham novas correntes estéticas, caso do surrealismo e as expressões abstratas. Rogério Ribeiro era então um jovem artista que irá abraçar o real, será tocado do trabalho dos sargaceiros e das sargaceiras.

Como se escreve no catálogo, ele cumpre em 1951 e em 1952 serviço na Administração Militar da Póvoa de Varzim. Nas praias da região observa a recolha do sargaço, trabalho duro que do mar recupera algas e limos para fertilizar as terras agrícolas. Tais atividades irão preencher um dos módulos da exposição intitulado Mar e Sargaço. A imagem da capa do catálogo é exatamente uma sargaceira, olha-nos de frente, como se tivesse interrompido o trabalho árduo, exibe umas mãos quase másculas, excessivas, o que nos remete para a dimensão dos volumes físicos desproporcionados, caso de O Gadanheiro, pintura de Júlio Pomar.

O que podemos apreciar é que o artista não está confinado a um só cânone, o conteúdo, a grande mensagem é o trabalho e em que condições, ele não se limitará ao óleo ou ao desenho, espraia-se pela cerâmica, pelas ilustrações, será um grande animador da gravura, um apaixonado pela linogravura e litografia, um eterno experimentador da ilustração. O conteúdo é sempre o povo, acrescenta-se aos gestos quotidianos do trabalho o lazer, há uma linha poética constante, entre a vitalidade desses trabalhos duros, como ele revela com as debulhadoras, os construtores de naus, a apanha da azeitona. Pois bem vamos entrar num território de mar e sargaço.

Texto sobre o módulo Mar e Sargaço
Temos pescadores, mulheres cosendo redes, sargaço e sargaceiras, naus, e falando de naus veja-se a agilidade das formas, é uma plasticidade que nos remete para um traço que torce e retorce e distorce, mas que não nos deixa olhar hesitante, são mesmo barcos.
Falando sobre o seu pai, e quanto ao período de 1947-1953, a filha, Ana Isabel Ribeiro, revela documentos do pai sobre este período. Retenho só um parágrafo:
“A convicção da possibilidade de a pintura poder, em determinados momentos, como os revolucionários, ser portador de um sentido aglutinador e mobilizador de vontades, foi algo que o meu pai jamais esqueceu. Foram dezenas os murais que pintou com outros artistas, um pouco por todo o país, após a revolução do 25 de abril. Lembro-me bem dos baldes de água que lhes levava para poderem lavar os pincéis, ou de quando perguntava ao meu pai o que podia fazer, e ele me passava uma trincha para as mãos e dizia: ‘Enche isso aí de azul!’.” Retive este parágrafo porque acho que há qualquer coisa de muralista nas debulhadoras acima, como iremos depois ver em pastores e podadores e mondadeiras, é uma verdadeira épica pastoril onde não se esconde a apologética do social.

Texto que abre a secção Terra e Campesinato

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 14 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27821: Os nossos seres, saberes e lazeres (726): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247): A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer: Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão (Mário Beja Santos)

sábado, 14 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27821: Os nossos seres, saberes e lazeres (726): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247): A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer: Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
São fotografias avulsas, fruto de situações desirmanadas, recolhidas entre a manhã e o anoitecer, para falar com mais propriedade, entre o alvorecer e a queda do dia. Tomadas como instantâneos de carácter pessoal, como serve de exemplo passar junto de um vendedor de mancarra, caju e cola, ali no Rossio, fixar o olhar naquelas nozes que, pasme-se, até serviram de refrigério para a sede, quando se passava uma noite inteira no planalto de Mato de Cão, viera-se com um cantil de água, estava previsto transitar por ali barcos às oito da noite, passaram afinal com a primeira luz do dia, e de Mato de Cão a Canturé, onde se podiam apanhar as toranjas mais ácidas do mundo, eram 7Km e a língua encarquilhava pelo caminho, era nisto que uma mão amiga me dava um pedaço de noz para mascar, assim se apaziguava a tortura da sede, era impossível não estar ali deleitado com a recordação de coisas vividas há mais de meio século. Há recordações da natureza, há saudades de caminhadas, o leitor que de desculpe com aquilo que eu chamo os acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247):
A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer:
Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão


Mário Beja Santos

As imagens que agora se desfilam cabem perfeitamente na categoria de acasos e descasos, passou-se por ali e o acaso é quando a memória entra em rotação, chega a produzir efeitos retroativos, logo o caso da primeira imagem, saiu-se do metro no Rossio, caminha-se pela Praça D. Pedro IV, são umas centenas de metros até à Sociedade de Geografia de Lisboa, há ali uns bancos, penso que por usucapião, pertença de homens grandes, alguns deles prontos para a venda ambulante, coisas da Guiné de lá vindas, ou coisas cá feitas para guineenses. O olhar fixa-se naquele saco aberto, coração estremece, toca a sineta das lembranças, puxa-se conversa com vendedor, se me dá licença que remexa nas nozes de cola, explico como elas me são familiares, como me ajudaram a matar a sede, mesmo com o seu grau de acidez peculiar, quem estava sentado faz perguntas, onde e quando esteve, já partimos mantenhas, escuso-me de prolongar a conversa, parto com recordações vívidas, dê por onde der, a Guiné vai dos cinco sentidos ao que há dentro da pele. Pois bem, vou justificar-me da razão das imagens que se seguem.
Nozes de cola à venda na Praça D. Pedro IV
Caminhava-se para o Natal, há sempre um pretexto para fazer um grupo e ir ver as iluminações da baixa. Só dei pelo aparato da imagem em casa, este rei D. José I terá dado muito trabalho a Machado de Castro, mas se o leitor decidir ir visitar o Museu Militar será surpreendido com uma construção ciclópica feita para transportar todo este peso até ao Terreiro do Paço. Francamente, o que mais gosto é ter o monarca bastante esfumado e mergulhado na escuridão com aquele casario estranhamente azulado, seguramente um acidente na operação do fotógrafo.
Ponho-me ali pasmado a conversar com a árvore luminosa, nem sei mesmo se aquela luz lá no cimo é a estrela de Belém, o que me deslumbra em toda esta cenografia da luz é o espetáculo das compras que a luminotecnia favorece, por ora anda-se ali em multidão só para desfrute da Baixa iluminada, ponho muitos pontos de interrogação se quem anda a esta hora aqui a passear vem amanhã ao longo do dia participar no frenesim das compras.
Não escondo que sou um aficionado da Feira da Ladra, venho cedo fundamentalmente por causa da compra de livros, mas sempre deitando um olho à variada traquitana. O grande fornecedor dos apetecíveis livros ainda não chegou, avanço para junto do antigo Hospital da Marinha que vai seguramente ser um condomínio de prestígio e apanho em simultâneo as luzes amarelecidas da noite que escapa e daquele céu que clareia na outra banda, com o Tejo de premeio.
Vou depois deambular pelos fascinantes murais opostos ao paredão do Jardim de Santa Clara, gozo com o artifício das luzes amareladas, que não existem na realidade neste monumental azulejar, ali predominam os tons azuis e as cores berrantes, enfim são artifícios só possíveis porque a noite ainda não acabou e o dia ainda não nasceu.
É quase um espetáculo fantástico aqui no Largo de Santa Clara, estão a chegar os vendedores, vão tirar todos os seus trastes das carrinhas e ocupar os espaços demarcados, os agentes da polícia municipal a vigiar os movimentos, mas o que me interessa é a luz esborratada do céu a conjugar-se com aquele amarelo da noite agonizante.
Sou um grande apreciador do artista Jacinto Luís, tenho dele um óleo e uma serigrafia, cativa-me o seu claro-escuro que podem ser edifícios ou até naturezas mortas, e quando me voltei para o Panteão de Santa Engrácia foi instantaneamente a lembrança que me ocorreu, estivesse aqui o Jacinto Luís, certo e seguro de que teríamos tiro e queda para quadro a óleo ou serigrafia.
Estou no terraço do meu casebre no Reguengo Grande, a última freguesia no concelho da Lourinhã já a bordejar o Bombarral, fantasio que vem lá do cimo do mar e tem o oceano a menos de 20Km toda esta Glória dos céus, mais do que o anúncio do fim do dia encho-me de felicidade com esta cavalgada de céu sanguíneo, há para ali uma mensagem em que me convida a amar a vida e a bendizer o dia que fenece e a agradecer a Deus a bênção do dia seguinte.
Desço um caminho escalavrado a partir de minha casa, cumprimento a Susana e o Henrique, depois o casal alemão da casa ao lado, meto-me numa vereda e minutos depois estou em Vale Cornaga, um mundo que me parece perdido, terá tido moinhos, campos lavrados, possui recantos idílicos, e nesta invernia água não falta; todo este caminho é frequentado por pedestres e há quem para aqui traga os seus cães, nos declives houve outrora culturas, agora é tudo abandono e as próprias habitações entraram em derrocada. É um vale que nos mostra o significado da interioridade, a pouco mais de 70Km de Lisboa, a perto de 60Km da vastíssima Loures, uma das dimensões suburbanas da Área Metropolitana. É assim o nosso Portugal desigual.
Toda a Igreja de Nossa Senhora de Fátima é património incomparável que saiu do traço do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro e do génio de Almada Negreiros. Sempre que posso venho contemplar os vitrais de Almada e a harmonia que se respira de todo o conjunto. É inevitável a visita ao batistério, aqui fui batizado em julho de 1945, da comunicação entre Pardal Monteiro e Almada resultou esta efervescência de luz e a transbordante espiritualidade que nos evoca o princípio da caminhada na crença de um amor de Deus que se reparte pelos outros humanos.
Um dia, o meu amigo João Sousa Pires, que foi furriel em Missirá, no Regulado do Cuor, mostrou-me esta imagem, a chegada da água da fonte em bidons para o então horrível balneário, um recinto rodeado de folheta, alguma dela ferrugenta, onde muita gente se golpeou, antes ou depois de se lavar naquela água a cheirar a petróleo ou coisa parecida. O que importa neste momento é ver na caixa da viatura Cido Indjai, militar brioso, caçador exímio, não percebia bem porque é que eu não gostava nem da carne do porco do mato nem da gazela; a caminhar para nenhures vejo em tronco nu Nhaga Macque, primeiro-cabo, fumava cachimbo e tinha as maneiras de um príncipe. Saudades de dois amigos que não voltarei a ver.
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Nota do editor

Último post da série de 7 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27803: Os nossos seres, saberes e lazeres (725): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (246): O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 2 (Mário Beja Santos)