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sábado, 24 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28460: Os nossos seres, saberes e lazeres (756): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (276): Os quadros de António Palolo, a sua alegria luminosa, as cores incandescentes, as transbordantes secções do mundo (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Outubro de 2026:

Queridos amigos,
A Galeria 111 teve uma influência determinante na formação do meu gosto pela arte contemporânea, pelas opções que fui fazendo nas minhas compras modestas. Devo imenso a Manuel de Brito que propunha a quem se lançava na vida compras a prestações, ficou triste quando lhe disse que não podia comprar aquela serigrafia da Sónia Delaunay com a chegada de uma filha, andava com o dinheiro contado por ter decidido retomar os estudos com o ordenado de Tenente, enfim, vida modesta mas com contas certas. Recordo-o com alegria e saudade, parece que estou a ouvi-lo a explicar-me o que havia de profundamente original na arte de Palolo, Brito amava profundamente o seu trabalho, tinha aquele seu ar ponderado a comunicar o que estava exposto e como ele próprio sentia as obras de arte ali expostas, e, como ele dizia, se vocês não têm dinheiro para os óleos e guaches comprem as serigrafias a prestações. Que boas lembranças deste homem e do que ele fez pela arte contemporânea.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (276):
Os quadros de António Palolo, a sua alegria luminosa, as cores incandescentes, as transbordantes secções do mundo


Mário Beja Santos

Conheci a arte de Palolo (1946-2000) quando um dia, aí por finais de novembro de 1971, a caminho da Faculdade de Letras de Lisboa, onde retomara os estudos e passar a fazer exames com o estatuto de estudante-militar, passei pela Galeria 111, a pretexto de ir comprar um livro numa das livrarias do quarteirão, chamou-me à atenção haver na montra pintura que me pareceu da Arte Pop, mordido pela curiosidade fui percorrendo aquela pintura acrílica sobre tela e guaches, rapidamente me apercebi que havia outras aproximações e derivas da Arte Pop, subtis compromissos entre o figurativismo e o abstracionismo, impressionou-me o encerramento em molduras estritas, um geometrismo com cores muito vivas, uma autêntica festividade cromática, simetrias rigorosas, quadros dentro de quadros, linhas dentro de linhas.

É nisto que se aproximou Manuel de Brito, o proprietário da galeria, sempre ansioso de conversa, sobretudo com os mais jovens. Retive que ele fazia apelo a influências internacionais, falava mesmo em neofiguração, abstracionismo geométrico, minimalismo, Palolo era exposto na Galeria 111 desde 1964, para Manuel de Brito era muitíssimo interessante ver a evolução do artista, a sua combinação de linguagens abstratas e figurativas, o seu grau de autonomia e originalidade, a despeito da influência norte-americana ou britânica (a cor, a imagem popular, a repetição) ia adquirindo uma linguagem própria, ali presente havia uma arquitetura geométrica realçada pela cor, a indispensável matéria-prima do artista, parecia que era a cor que definia o espaço, o espetador da obra era muito mais dominado pela cor em estado vibrante que pelo enquadramento da obra. Manuel de Brito propunha sempre aos jovens aquisição de serigrafias a prestações, naquela altura, com a previsão da chegada de um filho, eu só fazia contas para que nada faltasse lá em casa, o gosto pelas obras de arte seria consumado quando houvesse as competentes folgas, quando houvesse melhoria de rendimento. Nunca perdi Palolo e os seus trabalhos de vista e cheguei a ter uma serigrafia e um desenho.

Não sei há quantos meses voltei a passar pela Galeria 111 e lá estava uma homenagem a Palolo, voltei a entrar e a sair deslumbrado quão tudo é visível e oculto nos seus trabalhos, a sua originalidade, uma certa traquinice no seu comportamento criativo, ele um autodidata, revelara uma impressionante maturidade na composição de códigos internos sem prejuízo de haver na composição qualquer coisa de teatro popular. Naquele ano de 1971, em que conheci os seus trabalhos, já Palolo era o mais jovem dos pintores que foram selecionados para a nova decoração da “Brasileira” do Chiado, o mesmo quer dizer que quem o avaliara encontrara nos seus trabalhos pujança pela linguagem de alegria luminosa e rigor na apresentação geométrica dos seus conteúdos.

Nesta recente visita pus-me discretamente a um canto para ver as reações de quem entrava e saía, dei por casal a cochichar: “Que otimismo, que simplicidade aparente, ele tinha mesmo gosto nestas aventuras de cor, neste virtuosismo com fitas alegres, hoje já não há artistas que nos façam vibrar assim, não achas?”

Dei comigo a pensar que Palolo, que perdemos tão cedo, deixou toda esta festividade que é mais do que uma pintura ilustrativa, ultrapassou o abstracionismo, não se deixou compadecer pelo academismo, a frescura como o vemos hoje pronuncia que o mundo de Palolo aponta para o intemporal de todas as aventuras pictóricas que ajudam a mudar o mundo, anunciando-as pela cor vibrante, pela alegria e esperança que cabem dentro da tela.

Não ponho legendas porque elas não aparecem nas suas obras. No entanto, surfando na internet, encontrei uma tela de Palolo no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, tem título e comentários, que aqui se reproduzem com a devida vénia.


https://gulbenkian.pt/cam/works/horrido-silencio-do-teu-corpo-138882/
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Nota do editor

Último post da série de 17 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28444: Os nossos seres, saberes e lazeres (755): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (275): Uma inesperada Chuva de Verão no Centro de Artes de Sines, até 19 de outubro (Mário Beja Santos)

sábado, 17 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28444: Os nossos seres, saberes e lazeres (755): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (275): Uma inesperada Chuva de Verão no Centro de Artes de Sines, até 19 de outubro (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Belíssima iniciativa esta, a de pôr em circulação nacional obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, um conjunto significativo de obras de artistas consagrados e emergentes. Entrando na exposição e começando a ler a brochura, fico com sérias reservas quanto à comunicação utilizada pelos curadores, eu sei que eles sabem da poda, resta saber se o visitante que habita Sines e arredores se entende com as razões do título da exposição e as temáticas nela abordadas. Senão veja-se: "Esta exposição propõe uma leitura sensível e expandida do imaginário associado ao verão, tomando como ponto de partida a experiência da vida balnear e as formas de sociabilidade, lazer e pertença que esta mobiliza." O leitor que vai discorrer pelas imagens que selecionei que se pergunte onde encontra imaginário associado ao verão e até mesmo a experiência da vida balnear. Mais adiante, escrevem os curadores: "O verão surge como um momento de suspensão e expansão, onde as convenções quotidianas cedem lugar a formas intensificadas de relação com o mundo. Longe de uma leitura nostálgica, Chuva de Verão inscreve-se num horizonte de comunhão com a natureza e com o coletivo, explorando territórios instáveis, geometrias afetivas e estados de leveza que redefinem a perceção e a presença."Parece-me muito barulho para palavrório tão altissonante, percorre-se este conjunto de obras e só por milagre há uma relação de causa e efeito entre a apresentação e a explicação do que se vai visitar e a sucessão de telas e obras que o visitante encontrará dentro deste belíssimo espaço que é o Centro de Artes de Sines. Há quem pense que o uso da imaginação da palavra coincide com o impacto estético do que o visitante encontra; no caso vertente, por onde andará a Chuva de Verão?

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (275):
Uma inesperada Chuva de Verão no Centro de Artes de Sines, até 19 de outubro


Mário Beja Santos

Estando ali perto de Sines, sendo um entusiasta destas instalações, vim visitar esta Chuva de Verão, uma nova exposição da Coleção de Arte Contemporânea do Estado. Reza a brochura que me acompanha na visita que esta exposição propõe uma leitura sensível e expandida do imaginário associado ao verão, tomando como ponto de partida a experiência da vida balnear e as formas de sociabilidade, lazer e pertença que esta mobiliza. Confesso que não entendo na vertigem deste palavrório, provavelmente um jargão corporativo de quem ganha a vida no domínio da história de arte e quer fazer um figurão com nomenclaturas impressionantes. O que irei visitar, subordinado a uma certa diversidade, entre o humano e o animal, dizem os curadores que nas chuvas de verão todos os elementos naturais estão reunidos e os corpos aceleram a esse apelo. Os humanos acedem à sua condição animal, explorando os seus instintos ancestrais e contemplando o mundo de modo radicalmente diferente das rotinas do dia-a-dia. Além deste humano e animal há outras temáticas, as geografias imaginárias e os corpos flutuantes. Vim cheio de curiosidade contemplar um tal diálogo entre diferentes práticas artísticas, do verão não vi sinal, rendi-me ao gozo estético que me provocam certas obras, sinto-me impressionado pela representação do belo, outras nada me dizem, mas isso parece ser matéria que tem a ver com as impressões que a arte provoca a cada um, desde o figurativismo mais académico às construções abstratas e às disparidades dos materiais. Deixo aqui um mero registo do que vi e porventura mais me tocou, quem vive em Sines ou nas proximidades está em cima da hora para poder visitar Chuva de Verão.
Inaugurado em 2005, o Centro de Artes de Sines (CAS) está dotado de biblioteca, auditório, galeria de exposições e arquivo histórico. Projeto dos arquitetos Manuel e Francisco Aires Mateus (prémio AICA/MC 2005 e finalista do Prémio Mies van der Rohe 2007)
Joaquim Bravo (1935-1990), La Mer, 1985. Este quadro mostra uma paisagem imaginária que evoca a superfície do mar e é reveladora de uma perspetiva original, revela a duplicidade entre escalas e cores, o vermelho e o azul, o grande e o pequeno, o cimo e o baixo, num jogo constante de contrabalanço.
Eduardo Batarde (1943-2025), da série “Candeeiros, Cubismos, Cães e Colunas”, 1980-81. Dotado de um domínio virtuoso da técnica e de uma atitude crítica e rigorosa perante a prática artística, Eduardo Batarda destacou-se pela coragem e ousadia da sua linguagem, construindo um legado que alia experimentação formal, densidade crítica e uma singular ironia.
Paula Rego (1935-2022), “Sem título”, 1983. A obra de Paula Rego depende, no essencial, da sua experiência portuguesa, de uma infância vivida perto das mulheres que povoaram a sua vida. Basta olhar algumas das suas obras para sentirmos a brutalidade implícita. É um regresso à imagem mais forte desse jogo persistente entre o bem e o mal, a razão das suas figuras, ou o modo insinuante como se questiona a sociedade patriarcal.
Francisca Carvalho, Ashlesha, 2018, tintas naturais sobre lona de algodão. Esta obra reúne referências expressivas da astrologia hindu e da mitologia grega, nomeadamente a Hidra, um corpo complexo com várias cabeças de serpente que surge representado com formas curvilíneas pintadas com pigmentos naturais.
Pedro Casqueiro, “Sem título”, 1984, acrílico sobre tela. Este artista tem desenvolvido um processo de produção criativa no qual vai variando ciclicamente a linguagem formal e os temas que explora nas suas obras. As suas obras mais abstratas envolvem a criação de espaços interiores e espaços arquitetónicos e cenográficos.
João Fonte Santa, Reisen In Brasilien, 2016, acrílico sobre tela. O artista recorre a imagens com origem na grande tradição narrativa do século XIX, introduz-lhes linhas de reflexão que não dispensam uma espécie particular de contemplação estética. De grande escala, estes trabalhos em acrílico estão impregnados de mensagens e metáforas críticas sobre os desequilíbrios da contemporaneidade.
René Bertholo (1935-2005), Nouvelles du Nord, 1966. Artista que não seguia uma gramática única, nem reconhecia as definições estanques em que se encerram as linguagens da figuração e da abstração. Os elementos presentes nas suas telas não possuem uma natureza precisa. E são eles que convivem livremente nos seus quadros, sem estarem dispostos numa relação aparentada à ordem clássica da composição pictórica.
Paula Rego, O mundo às avessas, aguarela sobre papel. Tudo o que diz respeito à condição feminina, em particular a inversão dos seus estereótipos, parece encontrar na pintura de Paula Rego um aliado inevitável e preciso. Entre pinturas a pastel de óleo, gravuras e desenhos, o que particulariza a sua obra é o paradoxo da imagem da mulher, da sua força intrínseca, assim como a ambígua condição imagética da pintura, entre um formalismo académico e clássico e a modernidade inventiva que a alimenta.
Eduardo Batarda, El Cineasta, 1979.
Helena Almeida (1934-2018), Pintura Habitada, 1975. Esta artista desenvolveu uma obra singular em que o corpo se torna simultaneamente sujeito, ferramenta e suporte da produção artística. Em Pintura Habitada, série desenvolvida na década de 1970, ela rompe as fronteiras da pintura, fotografia e performance, usando a imagem fotográfica para registar ações em que o seu próprio corpo, de algum modo, habita a composição.
António Palolo (1946-2000), Sem título, 1971. O corpo de trabalho deste artista oscila entre a abstração, informal e geométrica, e a figuração. Nos anos 1960 e 1970, desenvolve composições onde privilegia a justa composição concêntrica de elementos geométricos, lineares, triangulares, quadrados e cúbicos, tecendo um jogo de grelhas, molduras, de enquadramentos sobre enquadramentos.
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Nota do editor

Último post da série de 10 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28423: Os nossos seres, saberes e lazeres (754): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (274): Assisto a um concerto memorável no Festival de Música do Reno, amanhã sigo para Trier, já tenho saudades de regressar à Renânia-Palatinado - 9 (Mário Beja Santos)

sábado, 10 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28423: Os nossos seres, saberes e lazeres (754): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (274): Assisto a um concerto memorável no Festival de Música do Reno, amanhã sigo para Trier, já tenho saudades de regressar à Renânia-Palatinado - 9 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Aterrei aqui pela primeira vez pela década de 1990 e nunca mais parei, profunda amizade com os pais do meu anfitrião, participei no casamento deste meu amigo, tenho visto os filhos crescer, pais e filhos visitam-me, visito pais e filhos, vou a funerais, fazemos projetos de viagem, ele agora só pensa em levar-me ao Vietname, vou dizendo a tudo que sim, mas por enquanto vou percorrendo este país lindíssimo, desfrutando das suas paisagens, museus inesquecíveis, um património cultural de primeira classe. Esta visita correspondia a uma visita da mulher, aproveitava para convalescer de um acidente de uma perna, e então anunciou-me no dia de regresso a Frankfurt, que estava a ser gizado um programa de férias de arromba, eu reduzi as festividades a pouco mais de uma semana, o único senão foi andar por ali em marcha lenta para não ter dores da hérnia inguinal. Na organização não atendi à importância de Trier, estou a fazer contas de que quando regressar vou pelo menos passar dois dias inteiros a absorver os esplendores da mais velha cidade da Alemanha.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (274):
Assisto a um concerto memorável no Festival de Música do Reno, amanhã sigo para Trier, já tenho saudades de regressar à Renânia-Palatinado - 9

Mário Beja Santos

Penúltimo evento desta viagem a um belo rincão da Renânia-Palatinado, um concerto soberbo em que fiz as pazes com a música de câmara de Brahms, tinha-a por muito lamurienta para meu gosto, e guardo gravações fora de série como as do Quarteto Amadeus, esta violinista e este pianista foram os responsáveis pela reconciliação (oxalá que não seja momentânea). Na manhã seguinte irá começar um périplo de várias viagens de comboio até chegar a Trier, estamos a 10Km de Luxemburgo e a 40Km da França. Não foi à toa que se escolheu Trier, a cidade alardeia vários títulos de nobreza e identidade: é a mais antiga cidade da Alemanha, centro da antiguidade logo a seguir a Roma, o que contribui para ser um polo da atração turística para vir contemplar a residência imperial romana ao norte dos Alpes. Tem sete sítios romanos classificados como Património Mundial da Humanidade e não deixa de apresentar a magnificência de séculos posteriores. Para além deste Património da Humanidade, há palácios, museus, praças, mercados, as margens do rio Mosela, é tudo para desfrutar.

Um ponto curioso é chegarmos à gare ferroviária de Trier, perguntarmos a boa direção da Porta Negra, a resposta é pronta, é sempre em frente, a Trier romana anda por ali. Entende-se por Trier romana a Porta Nigra, a Basílica de Constantino, que ainda preserva a sala do trono do imperador, as termas imperiais, com rede de canalização subterrânea acessível, o anfiteatro onde se deram combates de gladiadores e animais. Vi num folheto que temos em Trier também a igreja gótica mais antiga da Alemanha e que na sala do tesouro da biblioteca municipal estão dois códices que são património documental da UNESCO. Bem arrependido fiquei, na hora de apanhar o comboio para Luxemburgo, de não ter estudado cuidadosamente este património e andar aqui pelo menos dois dias para desfrutar muito mais beleza daquela que se pode ver por algumas horas.

Entretanto, ponho-me ao caminho, são só maravilhas para ver de perto e de longe.
Os concertos do Festival de Música do Reno no Castelo Johannisberg são muito concorridos, há uma seleção de figuras de reputação consolidada ou em fase ascensional. Neste concerto que eu assisti em 5 de agosto intervinham dois solistas de renome, no piano Fabian Müller e a violinista Bomsori Kim, ambos tinham apostado na execução de três sonatas de Brahms. Foram aplaudidos até ao delírio. Era proibido tirar fotografias, de modo que fui procurar no site do festival, a sala estava exatamente assim, à pinha.
Bomsori Kim
Antes de entrarmos no castelo de Johannisberg, os meus anfitriões sugeriram algo a que chamaram um jantar leve e cedo, e vi-me repimpado no meio de vinhedos, com vista do Reno ao fundo, a saborear umas gostosas salsichas com abundante salada e um vinho Riesling seco da região, fui muito confortado para ouvir devotamente dois magistrais intérpretes, fim de tarde inesquecível.
A Porta Negra, século II d.C., a porta da Antiguidade mais bem conservada em todo o mundo, é o emblema da cidade de Trier.
Imagem dos arcos interiores da Porta Negra
Achei muito interessante uma exposição documental sobre as vicissitudes que a Porta Nigra (nome que lhe foi dado na Idade Média devido à pátina negra que cobria e cobre o monumento), tudo aconteceu ao nível de intrusões e aplicações, de igreja a gabinete de antiguidades. Começou por ser uma porta defensiva, o que explica a ausência de qualquer cobertura no rés-de-chão onde as paredes são formadas de grandes pedras justapostas sem cimento. Napoleão quis restituir-lhe a imponência primitiva, isto em 1804, pôs termo às diferentes modificações havidas ao longo de séculos. As expedições arqueológicas, sobretudo a intervenção da administração prussiana, procurou restituir-lhe o perfil inicial, desapareceu a igreja medieval, ainda subsiste uma abside romana.
Estátua representando Karl Marx, criada pelo escultor chinês Wu Weishan por ocasião do bicentenário de Marx, oferta da República Popular da China. Há também a casa de Karl Marx, museu da sua terra natal, aqui se expõe a sua vida e a sua obra.
Entrando agora na Trier romana, é de ficar com a boca à banda com a Basílica de Constantino, as termas imperiais, o anfiteatro, dá para perceber porque é que os historiadores tratam Trier como a segunda cidade mais importante do império romano.
Palácios, anfiteatros e termas – edifícios obrigatórios numa cidade onde vários imperadores vieram com frequência, marcando permanência.
Constantino o Grande andou por aqui, esta é a Basílica que tem o seu nome. Tem uma estrutura paleocristã e foi construída à volta de 300 d. C.
Palácio eleitoral, foi a residência dos Príncipes Bispos da cidade entre os séculos XVII e XVIII.
Pormenor da fachada da Catedral de Trier, a mais antiga da Alemanha, em estilo românico, foi edificada sobre as ruínas de uma igreja do tempo de Constantino o Grande.

Despeço-me temporariamente não só da cidade mais antiga da Alemanha, mas uma das mais antigas da Europa. Tudo começou com Júlio César, quando ele aqui chegou o povo que a habitava eram os gauleses belgas, ele submeteu-os, tornou-os cidadãos romanos quando Diocleciano reorganizou as províncias do império Trier tornou-se a Belgica prima, muitos imperadores aqui residiram. O imperador Constantino partiu de Trier à frente das legiões da Gália para combater Maxêncio em Itália. Generalizado o cristianismo na Gália, Trier teve Bispo em 328. Obviamente foi palco de inúmeras peripécias não faltaram destruições, incêndios brutais, ocupantes de várias nações, depois de muitas voltas e depois do Tratado de Potsdam, Trier ficou quase como uma fronteira da Alemanha ocidental, não falta um turismo abundante, um vinho de qualidade, arredores lindíssimos. Despeço-me com pesar, enquanto o comboio atravessa o Luxemburgo já começo a magicar o retorno, vou agora fazer uma intervenção cirúrgica a uma hérnia inguinal, passo um período de férias com a filha e neta e fui ver uma exposição em Sines que, por um lado apreciei muito, e que por outro lado me deu muito que pensar se os curadores de arte têm noção de que comunicam a preceito com quem vem visitar os eventos que eles organizam.

Então, até Sines.

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Nota do editor

Último post da série de 3 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28399: Os nossos seres, saberes e lazeres (753): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (273): Passeio por Idstein, à tarde assistirei a um concerto memorável no Festival de Música do Reno, amanhã sigo para Trier, já tenho saudades de voltar - 8 (Mário Beja Santos)

sábado, 3 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28399: Os nossos seres, saberes e lazeres (753): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (273): Passeio por Idstein, à tarde assistirei a um concerto memorável no Festival de Música do Reno, amanhã sigo para Trier, já tenho saudades de voltar - 8 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Não é a primeira vez que vos falo das belezas de Idstein, é aqui que moram os amigos que amavelmente me recebem em regime de cama, mesa e roupa lavada, a que posso adicionar outra dimensão da hospitalidade que passa pelo cuidado de visitas diferentes, incluindo espetáculos. Graças a eles, estou a reconciliar-me com a música de câmara de Johannes Brahms, durante décadas Brahms para mim era a música sinfónica (mas sempre quanto baste), os seus dois concertos para piano e o concerto para violino e muitas vezes o seu espantoso Requiem Alemão, as peças camerísticas sempre as tomei como uma choradeira. Precisei de vir ao Festival de Música do Reno para mudar de opinião, mas sempre com reservas. Percorrer Idstein é sempre um enlevo e aquela Igreja da União é de facto extraordinária, voto muito bom. Com muito pesar , inicio amanhã a viagem de regresso, primeiro Trier, visita com alguma desenvoltura, depois percorro o Luxemburgo de comboio, o destino é Lisboa.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (273):
Passeio por Idstein, à tarde assistirei a um concerto memorável no Festival de Música do Reno, amanhã sigo para Trier, já tenho saudades de voltar - 8


Mário Beja Santos

O passeio hoje circunscreve-se a uma pequena cidade histórica, Idstein, no Hessen, situada do Taunus, Médio Reno, foi cidade residência dos Nassau, uma das grandes famílias principescas da história alemã e europeia, foi um dos centros territoriais destes condes e soberanos e sua residência no século XVII. Só dá para visitar o castelo e residência dos Nassau pelo exterior, a sua arquitetura é de transição entre o Renascimento tardio e o Barroco. Agora é escola, não era acessível a visita ao interior, consta que tem estuques e pinturas de teto de grande beleza.
Fachada da residência dos Idstein/Nassau, também chamado castelo
O edifício central é a Câmara Municipal. A cidade velha conserva um conjunto excecional de casas com estruturas de madeira preenchidas por alvenaria, é aquilo que em português se podem chamar as casas de enxaimel. Muitas delas datam dos séculos XVI e XVII, há fachadas artisticamente elaboradas.
Outra vista do centro da cidade, o que mais impressiona o visitante é a variedade de cores, o estado de conservação, não só da vista como a memória medieval e fortificada.
Uma das imagens que tirei ao teto da igreja da União, é um monumento artístico mais extraordinário de Idstein, o seu nome agrega o do Criador, sua Mãe e São Martinho, foi construído no século XIV sobre estruturas anteriores, teve importantes transformações no século XVII e mais recentemente no século XX conheceu obras de conservação e restauro. O que torna o interior absolutamente excecional são os 38 quadros a óleo, colocados nas paredes e sobretudo no teto. Os dois pintores usaram modelos e soluções provenientes da pintura flamenga e da tradição de Rubens. Algumas composições baseiam-se diretamente em obras de Rubens. Este espaço interior funciona quase como uma enorme Bíblia pintada, cenas do Novo Testamento e da vida de Cristo.
Temos aqui a escultura de Sansão como se estivesse a segurar o púlpito, uma impressionante obra que usa mármore de Lahn, aliás este mármore aparece em colunas, arcadas, altar, pia batismal e monumentos funerários, o que dá ao interior aspetos verdadeiramente cenográficos.
Falando de aspetos verdadeiramente cenográficos veja-se a ligação entre a arquitetura barroca, o mármore, a pintura do tipo flamengo, o programa bíblico e o facto de ter sido uma igreja da corte dos Nassau.
Reunimos nestas cinco imagens a associação entre aspetos da arquitetura religiosa e o fenómeno desta igreja ser de União protestante. Durante muito tempo a igreja era designada como igreja do Estado, passou a ser da União em 1917, pare recordar um acontecimento ocorrido em Idstein em 1817. Neste ano, luteranos e reformados do ducado Nassau entenderam-se para fazer a União. De algum modo, esta igreja é uma síntese de um longo processo histórico, inclusivamente é Panteão dos Idstein/Nassau. A igreja foi construída inicialmente em 1340, no fim do século XVII tornou-se igreja de predicação e da corte. Assume-se como espaço de tolerância religiosa, veja-se nas imagens a qualidade do trabalho em torno do altar-mor, veja-se o esplendor da igreja-salão, o quadro alusivo às bodas de Caná, e a torre sineira, que é o mais importante vestígio do período medieval.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 26 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28378: Os nossos seres, saberes e lazeres (752): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (272): Heidelberg, do castelo para o centro histórico da cidade, amanhã vou passear em Idstein e depois assistirei a um concerto memorável no Festival de Música do Reno - 7 (Mário Beja Santos)