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sábado, 25 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28212: Os nossos seres, saberes e lazeres (742): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (263): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 8 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Aqui se põe termo a uma inesquecível estadia na Albânia, visitei relíquias da ditadura, prodígios da nova arquitetura, lagos deslumbrantes, a permanência das florestas declivadas dos ermos das montanhas, impressionantes mesquitas e igrejas, num país que prima pela tolerância religiosa; falando da arquitetura, guardo a imagem das residências otomanas de Gjirokastër, as esculturas do realismo socialista. E pude igualmente aperceber-me que este país até há tão pouco tempo quase inacessível, está agora na mira dos potentados da promoção turística hoteleira, a Albânia corre o risco de se encher de Torremolinos e Las Palmas, sacrificando lagunas, praias selvagens, ambientes aprazíveis, florestas impressionantes. Quero voltar, os Alpes dos albaneses são uma tentação. Resta saber se ainda tenho pernas para tanta caminhada.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (263):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 8


Mário Beja Santos


Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava-me uma maravilhosa igreja ortodoxa, como aqui se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade. Foi uma visita de dois dias, bem arrependido fiquei por aqui ter estacionado tão pouco tempo. Mais uma razão de fundo para aqui voltar e ver o que já foi visto com os mesmos olhos deslumbrados.

Segue-se a penúltima viagem, Sarandë, mas com os olhos postos no Parque Nacional de Butrint, no seu interior há ruínas fortificadas de tal importância que levaram a UNESCO a consagrá-la como Património da Humanidade. De facto, este local, de acordo com os vestígios e documentos conhecidos, foi ocupado desde 50.000 a.C., por aqui passaram gregos, romanos, bizantinos, venezianos e otomanos, encontramos indícios da sua presença nestas ruínas, caso do bem conservado anfiteatro grego, os banhos romanos, as igrejas bizantinas e as torres venezianas, isto para já não falar das poderosas muralhas helenísticas ou no teatro românico de Esculápio, santuário de peregrinação. Butrint teve um aqueduto feito pelos gregos, abandonado no princípio da Idade Média e reconstruído pelos bizantinos aí por 800 d.C. há também vestígios da adição otomana, uma fortaleza junto do antigo canal, obra do início do século XIX. Ou seja, escolheu-se Sarandë pelos magníficos panoramas que oferece na sua citação no mar Jónico, ali perto há uma praia famosa, Ksamil, situada entre Sarandë e Butrint, mas eram as ruínas de Butrint que me tinham trazido ao extremo sul da Albânia.

Entrada da área de devoções a Esculápio, o famosíssimo médico da Antiguidade
Júlio César mandou construir uma colónia em Butrint no século I a.C., introduziu-se mudanças radicais nas infraestruturas. Construiu-se um fórum onde no passado os gregos tinham a sua praça de comércio, a norte do fórum foram construídos três santuários. As ruínas do Fórum foram descobertas em 2005, o destaque vaia para o pavimento admirável que mede 20x52 metros e é datado de 2000 a.C.
O Batistério de Butrint é um dos mais importantes monumentos bizantinos do Mediterrâneo central. A sua complexa estrutura coloca-o ao lado dos grandes batistérios independentes da Itália da Antiguidade Tardia e da Idade Média, e o seu extraordinário pavimento em mosaico é o mais bem preservado e, de longe, o mais elaborado de todos eles. O desenho do pavimento é constituído por sete faixas que circundam a pia batismal central, num total de oito, o número cristão que representa a salvação e a eternidade. A salvação é um dos principais temas do mosaico, expressa como a água do batismo e a água da vida. Os mosaicos bizantinos estão cobertos por medida de segurança, não podem ser sujeitos a agressões ambientais.
Ruínas da Igreja cristã
Duas imagens da zona fortificada, as muralhas são impressionantes, aquele touro esculpido na parte superior da entrada não escapou à câmara de todos os turistas
Pormenor da Fonte de Junia Rufina, uma fonte romana do século I/II d.C. dedicada às ninfas, virá mais tarde a ser capela
Um aspeto de Sarandë e a sua marginal. É desmesurado o efeito da carga urbanística na orla marítima, são muralhas de edifícios uns atrás dos outros, ao arrepio das medidas de sustentabilidade. Aliás, os noticiários falam de grandes manifestações de protesto a construções que irão deformar a paisagem, a fauna e as áreas protegidas. Quando os grandes investidores descobriram esta nova pérola do Mediterrâneo, logo se fascinaram pela possibilidade de açabarcarem áreas protegidas, extremamente belas e selvagens, finalmente as populações estão a reagir. Só que a explosão turística é um dos motores do desenvolvimento albanês, uma nação que pretende a todo o custo entrar na União Europeia. Não será por acaso que todos os edifícios ministeriais ostentam a bandeira do país e a da União Europeia.
Não acreditei no que estava a ver, um hotel, restaurante e bar implantado sobre o rochedo, e este cheio de vida, erguendo vegetação para os céus, isto em Sarandë.
Numa das ruas da cidade encontrei o museu arqueológico, pequeno, mas com a singularidade de nos mostrar partes significativas de um mosaico bizantino.
Turista é turista, a marginal de Sarandë está cheia de convites como este, convidando a passeios a grutas, praias secretas, baías recônditas, deslumbramentos da água turquesa. Lá fui ao passeio, de facto tudo é fascinante, mas para meu gosto nada supera a vegetação que cresce e que cresce e cobre aquelas montanhas de pedra batidas pela água do mar.
Encantado por aquele rochedo quase escultórico, despeço-me de Sarandë e viajo para Tirana. Agora só penso em voltar, haja saúde e viajarei para o norte, para ver os altos albaneses, uma decoração selvagem preservada por torrentes tumultuosas de florestas espessas. Espero que venha a acontecer. Até à próxima, Albânia.
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Nota do editor

Último post da série de 18 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28193: Os nossos seres, saberes e lazeres (741): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (262): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 7 (Mário Beja Santos)

sábado, 18 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28193: Os nossos seres, saberes e lazeres (741): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (262): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 7 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Cheguei prevenido a Gjirokastër, era tudo menos uma aventura desportiva, mas que impõe atividade física a um octogenário, impõe, não há avenidas retilíneas, o casario sobre e desce em cascata, todo o cuidado é pouco para evitar quedas, nesta cidade de charme onde pontificam o branco e o cinzento. Os guias recomendam que se visite a casa natal do mais influente escritor albanês do século XX Ismail Kadaré, que não é fácil de encontrar neste dédalo vertical. A casa Skenduli, a tal que é dotada de 9 chaminés, 4 portas e 64 janelas exige alguma forma física, mas acaba por resgatar a energia despendida com as panorâmicas esplêndidas que dela se desfrutam. Aqui deixo as últimas imagens, não hesito em dizer que quero voltar, já apanhei o furgão para Sarandë, junto do Mar Jónico, tenho mais belezas deslumbrantes à minha espera, que convosco vou partilhar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (262):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 7


Mário Beja Santos

Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, como se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade. Foi uma visita de dois dias, bem arrependido fiquei por aqui ter estacionado tão pouco tempo. Mais uma razão de fundo para aqui voltar e ver o que já foi visto com os mesmos olhos deslumbrados.

Este livro intitulado Indignidade da Albanesa Lea Ypi, investigadora e professora universitária, foi uma das minhas companhias preferidas, assegurou-me que na Albânia atual é possível ter acesso aos arquivos dos serviços secretos dos tempos ditatoriais, e acompanhar a pesquisa que a autora faz de familiares seus perseguidos pelo regime de Enver Hoxha. Mergulhamos na vida de um pedaço da península balcânica desde a atmosfera do império otomano, da Grécia e da Albânia libertadas, vamos ler os relatórios das pessoas encarregadas de vigiar diariamente os avós da autora, assistiremos à detenção e prisão do avô e ao trabalho servil da avó, tratados um como traidor outra como hostil à República Popular Socialista. Leio este feito literário denso e comovente ao mesmo tempo que me vou deparando com as marcas da paranoia desse regime, as suas obras de realismo dito socialista e a vida da Albânia de hoje que procura desenfreadamente entrar na União Europeia cometendo todas as asneiras do turismo de massas, deslumbrados que estão pela corrida de investimentos a esta nova pérola do Mediterrâneo. Felizmente que o povo se começa a mobilizar contra a ganância destes investidores sem escrúpulos, que contam com a complacência política interna.
Percorro os últimos andares da Casa Zekate, construída em 1811, é o expoente máximo das casas-torre em Gjirokastër. Destaca-se pela sua fachada imponente com torres gémeas, tetos de madeira esculpida e uma vista deslumbrante sobre o Vale do rio Drino. Irei depois visitar a casa Skenduli, uma mansão do século XVIII com 64 portas, 44 janelas e 9 lareiras. Não deixo de me deslumbrar com esta cidade de pedra que, curiosamente, nada tem de uniforme nem de monótona, talvez por se dispor numa quase escadaria, num amplo anfiteatro, rodeada de vegetação, salpicada de branco e cinzento.
Um pormenor do quarto onde não falta chaminé, uma janela de vidros coloridos para induzir tranquilidade e até a cama de um bebé.
Outro quarto de família, prima pelo conforto e pela ausência de adornos.
Aqui sim, prima o luxo, dispõe de uma atmosfera requintada, nele se podem fazer casamentos, acolher as visitas, é uma decoração tipicamente otomana.
Outra lembrança do realismo dito socialista, uma exaltação aos libertadores que em 1944 fizeram a vida negra aos exércitos alemães em retirada, no fim desse ano Enver Hoxha e o seu partido comunista encetaram caminho para o controlo absoluto da Albânia, um regime que levou ao isolamento total, cortando primeiro as relações com os jugoslavos, que tinham ajudado o partido comunista albanês durante as lutas de libertação, cortaram relações com os soviéticos e mais adiante com os chineses, era tudo gente revisionista, inimigos da pátria albanesa. Foi assim até 1991, depois, como mostram os filmes, o regime caiu e deixou pouquíssimas saudades.
Há sempre um ângulo novo para explorar nesta Gjirokastër feiticeira. Numa rua a meio da colina pude captar a ligação entre a Gjirokastër medieval e a Gjirokastër que começou a sobressair desde o regime comunista, é indiscutível que esta ligação não é patrimonialmente ostensiva. Mas, francamente, o que mais me enche a alma é esta cercadura de montanhas e o verde vicejante por toda a parte, um diálogo permanente entre o património natural e o edificado.
No piso do alojamento em que me encontro, apanho de frente a entrada da mesquita que escapou às destruições decretadas depois de 1967, quando o regime decretou que a Albânia era uma sociedade ateia. A mesquita teve muitas operações, até foi escola de circo e de artes performativas. Visitei o seu interior, fizeram-se obras ganhou dignidade, é um templo em funções.
Volto-me para o outro lado neste mesmo piso em que fotografei a mesquita, agora é a vez de mostrar a rua principal do grande bazar, povoada de tapetes Kilim, nítida influência turco-otomana, muitas recordações para turistas, diferentes restaurantes para diferentes bolsas, ao fundo o castelo com a torre do relógio e uma proeminente montanha.
Imagem de um outro ângulo da cidade, à esquerda está a casa Skenduli, temos um denso povoamento até ao cume da montanha.
Visita ao museu etnográfico, antes houve aqui a casa em que nasceu em Enver Hoxha. Podemos ver o berço que lhe é atribuído.
Apresentações de indumentárias albanesas típicas.
A casa Skenduli, que visitei na companhia do seu proprietário. Confesso que o pormenor que mais me fascinou é esta impressionante fachada de uma casa fortaleza, povoada de compartimentos desde a cave ao último andar.
Duas imagens só para fazer alusão ao itinerário que se segue, Serandë e Butrint, esta última Património da Humanidade, aqui vos mostro um anfiteatro romano e as ruínas da casa de Esculápio, o médico mais famoso da antiguidade. É bem verdade que vim emocionado de Gjirokastër, um tanto frustrado por não ter visitado as ruínas de Adrianópolis, que foi grega e depois refundada pelo imperador Adriano, como igualmente não visitei o bunker reservado às altas figuras do partido comunista, na previsão de um ataque nuclear. Mais uma razão para voltar. Já estou na penúltima etapa desta viagem que há tanto ambicionava fazer, como sempre viajei de furgão de Gjirokastër até Sarandë. Pois tenho muito para vos contar.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 11 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28172: Os nossos seres, saberes e lazeres (740): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6 (Mário Beja Santos)

sábado, 11 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28172: Os nossos seres, saberes e lazeres (740): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Iniciei a visita à cidade museu de Gjirokastër, Património da Humanidade, possui uma das fortalezas mais imponentes de toda a península balcânica, casas de arquitetura otomana que cortam a respiração, tudo em pedra, um singelo museu etnográfico onde até se guarda o berço do ditador Enver Hoxha, nasceu neste local, Gjirokastër é também a terra natal do maior escritor albanês do século XX, Ismail Kadaré, preferi andar um tanto à solta a contemplar a cidade em pedra, possui uma mesquita bem curiosa que quando o regime de Enver Hoxha decidiu que a Albânia era um país ateu, em 1967, foi transformada em escola de artes circenses. Ainda houve a tentação de ir visitar o parque arqueológico de Adrianópolis, fundada pelo imperador Adriano, mas o deslumbramento de toda aquela pedra pesou mais alto, ainda tenho imagens para vos mostrar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6


Mário Beja Santos

Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, como se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade.

Chega-se à cidade e lembra o que me aconteceu quando se chega a Bérgamo, a parte de baixo é igual a todas as outras, toma-se um táxi e em dado momento ganha-se a perceção que entrámos num mundo antigo, ruas de Bazar engalanadas com tapetes Kilim, a grande mesquita, poupada aos acontecimentos de 1967, quando o regime de Enver Hoxha decretou que a Albânia era um país ateu, destruíram-se templos ou converteram-se em ginásios, escolas de circo e muito mais coisas. É em povoações como Gjirokastër que sentimos uma Albânia que tem um dos povos mais antigos da Europa. Aqui subsistem vestígios de uma fortaleza imponente do século XIII, não deixa de nos assombrar que em torno desta cidadela se expande uma cidade singularíssima em pedra, que se iniciou nos primeiros anos do século XIV. Com a ocupação otomana, tornou-se um centro administrativo, aqui residia o Paxá. A cidade começou a crescer no século XVII e teve o seu desenvolvimento final no século XIX, tal como a conhecemos hoje.

A vista não se cansa de olhar para esta urbanização, possui bairros próprios, mas a unidade urbana salta à vista. Casas em pedra, ruas em pedra. Obviamente que o edifício de maior grandeza é a cidadela, teve benfeitorias até à década de 1810, ao tempo de um senhor feudal que deixou marca, Ali Paxá de Tepelena. O mercado coberto foi no passado um dos conjuntos arquitetónicos mais importantes da cidade, veio depois aa ser reconstruído em finais do século XIX no local onde hoje o encontramos, o grande bazar. É evidente que o visitante vem condicionado pelo que vem escrito nos guias, dão destaque ao património otomano, casas de vários andares, construídas em terreno rochoso, com características na distribuição interna, o ponto máximo do refinamento é o quarto de acolhimento dos hóspedes, o interior das outras divisões é de grande sobriedade. Preferi andar um tanto à deriva, tive a sorte de ficar num lugar perto do grande bazar e comecei a incursão pela fortaleza que possui dois museus, preferi cirandar e viver a atmosfera nesta cidade museu. O andar à deriva fez-me perder a visita a um dos bunkers que o regime mandou fazer na década de 1970, quando se supunha, que dentro daquela paranoia das invasões e de guerra termonuclear, que era determinante salvar a vida aos quadros comunistas. Sobre este assunto, limito-me a reproduzir fotografias do interior dessa construção da Guerra Fria.

Castelo de Gjirokastër, imagem retirada do site Tripadvisor, com a devida vénia. O castelo serviu de prisão durante o regime comunista, hoje a então área prisional foi transformada no museu dos armamentos.
Tanque italiano Fiat L6/40, de 1940, a generalidade destes tanques foi destruída em batalha, este exemplar foi encontrado na costa sul da Albânia, é uma peça de museu. Imagem retirada na visita ao museu dos armamentos.
Imagem da parte histórica de Gijirokastër, e, lá em baixo, coberto pela nuvem, a parte nova da cidade. A imagem é tirada do castelo, um dos mais velhos da Península Balcânica, parece um navio, como se procura mostrar noutra imagem, tem poderosas muralhas, uma área museológica, no seu interior realiza-se de cinco em cinco anos um altamente prestigiado Festival Mundial do Folclore, dado que a cidade é um centro de canto tradicional polifónico.
Vista aérea do Castelo de Gjirokastër
A torre do relógio do Castelo, a omnipresente envolvência das montanhas
Realiza-se neste local um dos mais importantes festivais de folclore de todo o mundo, de 5 em 5 anos
A Casa Zekate é uma das preciosidades do património otomano, construída entre 1811 e 1812, a casa pertencia a um dos servidores do Paxá. Na sua imensidade, dispunha de divisões para guardar os alimentos, entre a cave e o rés-de-chão, estábulos, o andar para os servidores e um amplo espaço para os proprietários. Impressiona com o seu aspeto de casa fortaleza.
Quarto dos proprietários
Quarto dos hóspedes
Na impossibilidade de aqui se mostrar o interior de todas as divisões, nomeadamente dos terceiro e quarto andares, divisões com muitíssimo interesse pela lógica de ocupação do espaço, pois há casas de banho com banhos turcos, salas de estar, espaços de convívio, etc. veja-se uma cama no terceiro andar, por baixo da escada.
Vista do quarto andar que permite ver a lógica de uma urbanização um tanto uniforme, transita-se sempre por chão empedrado.
Museu etnográfico de Gjirokastër, um pormenor
Duas imagens do bunker da Guerra Fria em Gjirokastër

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28157: Os nossos seres, saberes e lazeres (739): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5 (Mário Beja Santos)

sábado, 4 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28157: Os nossos seres, saberes e lazeres (739): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Amanhã a partida é em direção a Gjirokastër, embora as expectativas sejam enormes quanto ao que esta cidade museu oferece, não deixamos Përmet absolutamente nada desapontados, logo a viagem de furgão a partir de Korçë pelos meandros montanhosos, por vezes os desfiladeiros, vistos da estrada, parecem ser fendas de abismo até que, inopinadamente, surge aquele rio de caudal instável, o Vjosa, quem vai dentro do furgão faz comentários sobre o que vai fazer, há ali gente que veio para fazer rafting, há escaladores, ciclistas, gente mais madura que veio a sonhar com bacias de água quente, perto de Përmet. Deu-me para fazer passeios a pé a saborear o Vjosa e quando me meti para o interior atinei com uma igreja ortodoxa, cheia de espiritualidade, rodeada de um belo jardim. Por ali andei tempo suficiente até fazer horas para jantar, depois de dar o último passeio a pé e procurar adormecer acreditando que Gjirokastër é única no mundo... e afinal é.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5


Mário Beja Santos


Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, nova viagem em furgão até Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, vão ver; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade, temos depois a última viagem até ao sul, já no mar Jónico, em Sarandë, visita ao Lago Butrint e o sítio arqueológico respetivo, também e justificadamente Património da Humanidade. Saiu-se de Korçë, num furgão cheio de gente com ar desportivo, só quando começarmos a flanquear o rio Vjosa, que nos acompanhará até Përmet, é um rio associado a um parque natural entre a Grécia e a Albânia, e então vemos a que se destinam as tais atividades desportivas, desde rafting a passeios pedestres, procura de águas termais, ciclismo, etc. De Korçë a Përmet são escassas dezenas de quilómetros, vamos sempre com os olhos em cima das majestades montanhas, dos desfiladeiros, do estranhíssimo caudal do Vjosa, umas vezes tumultuoso, outras vezes quase reduzido a um fio de água.
Importa recordar que 70% da Albânia são montanhas e florestas, o espetáculo cénico preenche a nossa atenção, com estes desencontros cumeadas com neve, zonas umas vezes densamente arborizadas, outras vezes calvadas, superfícies que devem tentar escaladores, com os abismos ao fundo.
Os famosos banhos termais de Përmet, estou um pouco fora da cidade, é uma das suas atrações turísticas, lembra as caldeiras das ilhas açorianas, imagem retirada do site Adventure Albania
A lindíssima ponte Kadiut nos arredores de Përmet
Rafting no rio Vjosa, um rio que acompanhou quase toda a viagem de Korçë até Përmet
Chega-se a Përmet, ainda não se perguntou onde fica o nosso alojamento e somos confrontados com o libertador de Përmet, fala-se em 24 de maio de 1944. Como nunca se conseguem obter informações no turismo, procura-se meter conversa com os passantes, alguém cheio de orgulho disse que esta escultura é original, há réplicas espalhadas por outras cidades, mas sim, esta é única.
Confesso que a grande atração que senti em Përmet foi uma igreja ortodoxa onde encontrei duas legendas, igreja do Santo Parashqevi, é uma basílica coberta de arcos e cúpulas esféricas, data de 1776 está classificada como monumento cultural de primeira categoria. 22 metros de comprimento, 16 de largura e 8 de altura, três naves com cúpulas, estão ligados o santuário, o nártex e o altar; igreja construída com pedra pomes e argamassa de cal. O telhado está coberto com pedras brancas e o interior decorado com frescos. O iconóstase (parede coberta de ícones que separa o santuário da igreja propriamente dita) é esculpido em madeira, os frescos são cenas das escrituras, o autor é um pintor vindo de Korçë.
Encontrei esta imagem antiga, data do tempo em que não estava cercada por belos jardins, como agora. Curiosamente, encontrei uma transcrição que descreve exatamente a igreja, mas que lhe chama igreja da Sexta-Feira Santa.
Frescos antigos, a aguardar limpeza, conservação e restauro
Púlpito de requintada beleza
Outra perspetiva da área de culto
Um aspeto da cúpula, também a pedir intervenção
Iconóstase
Sala com ícones
Porventura a imagem da Virgem Maria, mas não excluo a possibilidade de ser uma santa da igreja ortodoxa albanesa
Imagem tirada da entrada tendo por fundo o iconóstase
Mesmo com iluminação deficiente é possível verificar que por cima das colunas temos pintura à volta da cúpula, com frescos ao fundo.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 27 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28136: Os nossos seres, saberes e lazeres (738): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (259): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 4 (Mário Beja Santos)