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sábado, 31 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27689: Os nossos seres, saberes e lazeres (720): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (241): O Palácio de Viana em Córdova, termo da viagem pela Andaluzia - 8 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
É bem verdade que há um riquíssimo património onde os espaços palatinos se conjugam perfeitamente com jardins de grande formosura, basta pensar no Palácio e nos jardins de Queluz. O que acontece no Palácio de Viana é sentir-se a palpitação, dentro de um bairro típico, como Santa Marina, uma residência faustosa acompanhada de um número impressionante de pátios, com toda a espécie de arvoredo, variedade de jardins, tanques, trepadeiras nas paredes do Palácio, cada pátio é uma surpresa, e confirma-se a singularidade dos pátios cordoveses, como tive oportunidade de ver quando andei a bisbilhotar nas ruas da judiaria, no bairro da Villa e à volta do Guadalquivir. Foi uma viagem inesquecível, o andarilho aprendeu a lição que não chega programar oito dias para ir ao encontro destes belos recantos andaluzas. Haja saúde, o retorno será em breve.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (241):
O Palácio de Viana em Córdova, termo da viagem pela Andaluzia - 8


Mário Beja Santos

Pelos alvores da manhã percorre-se o Bairro de Santa Marina, comprou-se antecipadamente bilhetes para uma visita guiada ao Palácio de Viana, uma bela casa senhorial que se foi ampliando com as habitações da vizinhança e que nos permite apreciar a evolução da arquitetura civil cordovesa desde o século XIV até ao século XIX. É um conjunto único e surpreendente que se espalha por 6.500 m2, dos quais mais de metade são ocupados por 12 pátios e o jardim. Não se visita somente o Museu, mas aquele que foi durante séculos a casa de uma família nobre. Em 1980, um Banco comprou o Palácio dos Marqueses de Viana.
Desde a Praça de Dom Gome acede-se através de uma portada em ângulo constituída por dois corpos: uma porta de lintel com frontão partido e um balcão tendo por cima guerreiros e depois os escudos das famílias dos Argote e dos Figueiroa; coroa o balcão o escudo dos Saavedra.
Já no interior, chama a atenção a escadaria principal, renascentista do século XVI, com um magnífico artesoado mudéjar do mesmo século, e não falta harmonia no mobiliário. E assim temos acesso ao salão principal também em estilo mudéjar e depois à sala do escritório da Marquesa.
Córdova é famosa pelos seus pátios, vamos passear pelos doze esplendidos pátios ajardinados deste Palácio que nos surpreendem pelas suas cores e odores.

Trata-se de uma visita guiada e logo somos informados que é totalmente interdito fazer fotografias e filmar no interior do Palácio. Iremos falar de memória das coleções do Palácio de Viana, no rés-de-chão temos porcelanas que vão do século XVII ao século XX, uma coleção muito rara de arcabuzes; no piso superior o visitante é surpreendido por 236 peças de cerâmica dos séculos XIII a XIX, couros riquíssimos, uma coleção faustosa de guadamecis e couros cordoveses dos séculos XV a XIX; não falta tapeçaria, flamenga, francesa e espanhola, há uma peça surpreendente que tem um cartão de Goya, as artes decorativas proliferam por todos os espaços e a biblioteca impressiona com os seus sete mil volumes que vão dos séculos XVI a XIX.

Temos uma boa guia que irá resumir a história desta residência senhorial que pertenceu ao Marquesado de Villaseca. Em 1873, a 9ª Marquesa, viúva e sem herdeiros, casou-se em segundas núpcias com Teobaldo Saavedra, filho do Duque de Rivas, a quem o Rei Afonso XIII conferiu em 1875 o título de Marquês de Viana. Como se referiu acima, o Palácio foi vendido em 1980 e hoje pertence a uma Fundação. É exatamente neste património da Fundação, pictórico, que começa a visita, daqui se passa para as coleções, a Galeria dos Azulejos, a Galeria das Batalhas, o Salão dos Gobelins; temos novamente a pintura, uma coleção flamenga onde avulta uma pintura de Bruegel O Moço, seguimos para a biblioteca, um espaço admirável com os seus manuscritos e primeiras edições, não faltam livros de caça, vitrinas onde podemos ver a documentação dos arquivos históricos dos Marqueses de Viana, segue-se a Galeria dos Couros e uma coleção de armas de caça. Recordo ao leitor que estávamos interditos de tirar fotografias.

Estamos agora na zona que era habitada pelos Marqueses: o Salão dos Sentidos, com pinturas morais com alusões aos cinco sentidos, porcelanas e cristais valiosos; o Salão Vermelho, também enriquecido por peças de arte decorativa de imenso valor; este salão comunica com o espaço íntimo da Marquesa; segue-se o quarto do Marquês, Fausto de Saavedra era almirante e a sua paixão pelo mar é patente na decoração do quarto, parece que estamos numa cabine de navio; por último, no decurso desta visita guiada, é-nos dado a ver o escritório da Marquesa com teto mudéjar e mobiliário barroco, os azulejos do pavimento representam um leão rastejante, símbolo do Marquesado de Viana.

Agora o visitante é abandonado à sua sorte, tem uma imensidade de pátios que mostram um fascinante reportório com diferentes arquiteturas, pavimentos de ornamentação vegetal. Agora já se podem tirar fotografias, só para ver este esplendor floral vale a pena vir a Córdova.

Já no Bairro de Santa Marina, uma casa típica onde não falta uma coluna antiga.
Entrada do Palácio dos Marqueses de Viana
Um aspeto da cozinha
Um esplendoroso corredor, com ligação às galerias
Sala das refeições da família, imagem retirada do site artencordoba, com a devida vénia
Pormenor da biblioteca onde se albergam 7 mil volumes, imagem retirada do site artencordoba, com a devida vénia
Pormenor do Salão Vermelho, imagem retirada do site artencordoba, com a devida vénia
No pátio guardam-se os velhos transportes, impecavelmente conservados
Pormenor do pátio principal
Não se pode resistir à beleza desta coleção de vasos pendurados e engalanados com plantas
O requinte do arvoredo, do buxo, das plantas trepadeiras e dos vasos à volta do tanque, tudo numa atmosfera de apaziguamento e bons cheiros.
Outro pormenor do tanque ricamente florido
Mais um recanto surpreendente, um ajardinamento sem mácula
Imprevistamente, depois de tanta flor um jardim onde não faltam palmeiras, cada pátio é um recanto, fica-se com os olhos esbugalhados.
Quando uma imagem fala por mil palavras
Outro ângulo deste pátio em recanto
É o momento da despedida, a simplicidade destes vasos é tocante, tudo diferente nos pátios do Palácio de Viana para comprovar que os pátios de Córdova ombreiam os mais belos jardins do mundo. Aqui me despeço de Córdova, tomo o autocarro e vou até Tavira visitar uma grande amiga que perdeu recentemente o seu marido. O leitor que não se esqueça que as viagens nunca acabam, só os viajantes as podem renunciar.
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Nota do editor

Último post da série de 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27666: Os nossos seres, saberes e lazeres (719): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (240): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 7 (Mário Beja Santos)

sábado, 24 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27666: Os nossos seres, saberes e lazeres (719): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (240): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 7 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Aqui prossegue e termina a visita à Mesquita-Catedral de Córdova. Temos de agradecer aos príncipes Omíadas terem feito de Córdova a metrópole mais relevante do Ocidente, deixaram-nos esta construção feita entre os séculos VIII e X uma joia única da arquitetura mundial, continua na vanguarda de toda a arte islâmica. É monumento nacional desde 1882 e património da humanidade desde 1984, tendo ainda a classificação dada pela UNESCO de Bem Valor Universal Excecional. Procurou-se de forma abreviada falar da estrutura com as diferentes ampliações, recordou-se que a Mesquita não era apenas um local de oração, aqui se faziam conferências, se praticava justiça. No século XVI construiu-se a Catedral. Mas já no século XV se tinha criado a Capela de Villaviciosa, o resultado é uma mistura de arte islâmica de grande beleza, a sua Cúpula é do século IX; para se fazer a Catedral houve que derrubar 63 colunas. Nunca houve atrevimento em mexer em dois pontos altos deste património de altíssimo valor, o mihrab e a maqsura, que no momento em que visitei estavam em restauro. É ocioso dizer, mas não resisto: visitar a Mesquita da Catedral de Córdova é conhecer o que há de mais faustoso da arte islâmica. Vou agora à última etapa, o Palácio Viana.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (240):
Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 7


Mário Beja Santos

Não é possível regatear ou procurar comparações com a espantosa singularidade do espaço da Mesquita da Catedral de Córdova, onde se entrecruzam vestígios da Basílica visigoda de S. Vicente (meados do século VI), a primitiva mesquita (século VIII), a primeira ampliação (século IX), a intervenção de Abderramão III (século X), a segunda ampliação, durante o califado Omíada (século X), a última ampliação, por ordem de Almansor (século X), e as obras do século XV até ao século XVII, envolvendo uma Capela-mor e um cruzeiro. Para minha surpresa entrego ao visitante uma brochura onde se vê claramente o espaço quadrangular que abarca o Pátio das Laranjeiras com a Porta do Perdão, a Torre Campanário e a Porta de Santa Catalina, bem como a Porta das Palmas, seguindo-se as sucessivas ampliações desde a Mesquita de Abderramão I.

Para desfrutar de uma visita que nos leve a entender as sucessivas construções, a brochura inclui um plano guia onde se destacam a Mesquita fundacional, que se mostrou no texto anterior, com a reutilização de materiais romanos, helenísticos e visigodos, o visitante fica deslumbrado com o módulo de construção baseado na sobreposição de uma dupla arcada; vê-se depois a ampliação de Abderramão III que se concretiza em 11 capitéis feitos por artesãos locais, temos depois a ampliação de Alhaken II, criou sumptuosidades, introduziu claraboias que conferem mais iluminação; há, depois, o mihrab, que é muito mais do que o nicho que orienta a oração, é um trabalho ornamental dos mosaicos que provém da tradição vicentina; está ali enquistada a Capela Real; e a rematar esta transcendente sequência de preciosidades arquitetónicas e artísticas a ampliação de Almansor, isto para já não falar do cruzeiro onde se vê um perfeito diálogo entre o gótico, o renascimento e o maneirismo, lá em cima uma imensa claraboia que inunda de luz o conjunto.

É esta a viagem que vamos fazer depois da construção de Abderramão I.


Um pormenor do Pátio das Laranjeiras com a torre campanário ao fundo
Entrelaçamento de arcos à entrada da capela da Villaviciosa. Foi uma ampliação no século X por Alhaken II. Esta ampliação foi a mais sumptuosa de todas. Todas as colunas e capitéis foram trabalhados para este edifício. É surpreendente a riqueza ornamental que se centra à volta do mihrab, autêntica joia da Mesquita.
O mihrab é um nicho ornamentado na parede que indica a direção de Meca, para onde os muçulmanos rezam, sendo o espaço mais sagrado de uma mesquita. A estrutura é um exemplo notável da fusão de estilos arquitetónicos islâmicos e cristãos, com elementos omíadas, visigodos, góticos, renascentistas e barrocos. Apresenta arcos em ferradura e colunas de mármore e jaspe recuperadas de edifícios romanos e visigodos anteriores.
Arco da Mesquita, a beleza dos tons azulados e o surpreendente canelado que se adossa ao ponto superior
Pormenor do arco da Mesquita, permitindo ver a riqueza dos cambiantes de cor
Uma floresta de colunas na ampliação de Alhaken II
Outra perspetiva
Mais outra perspetiva
O fabuloso cromatismo de um vitral islâmico
A caminho da Catedral. Cabe aqui lugar um comentário. No século XVI, mesmo com oposição do cabido, o Bispo do D. Alonso Manrique obteve autorização para erguer uma catedral no centro da Mesquita. Mesmo que se queira reconhecer beleza e riqueza a esta catedral, houve imediatamente críticas, logo do Imperador Carlos V: “Haveis destruído o que não existia em lugar nenhum para construir algo que se pode encontrar em qualquer lugar.”
Teto da Capela Maior no lugar conhecido pelo nome de Lucernario de Villaviciosa
A maqsura em restauro. Referiu-se que a ampliação de Alhaken II é a mais sumptuosa de todas. Está perto do mihrab. É surpreendente a riqueza ornamental do mihrab, autêntica joia da Mesquita. A maqsura é um nicho octogonal que, tal como o mihrab, foi trabalhado por artistas bizantinos que realizaram os maravilhosos mosaicos que decoram o seu arco de entrada e a magnífica cúpula que o antecede. Este espaço estava reservado ao califa, nada tem a ver com as cúpulas da arte cristã. A abóboda da maqsura é considerada a abóboda mais formosa da Mesquita.
Para construir esta catedral foram destruídas 63 colunas em tempo recorde. É uma igreja em forma de cruz latina, as suas alfaias religiosas são de uma enorme riqueza.

Houvesse tempo e a visita continuaria pela Sinagoga, pelo Museu Provincial de Belas Artes, não havendo tempo para tudo, aponta-se como objetivo um passeio pela Judiaria. Em Córdova, durante o período do califado, viveu uma grande comunidade judaica, Córdova foi um centro espiritual e social dos judeus. Resta o labirinto das suas estreitas ruelas e pequenas praças encantadoras. Ainda houve oportunidade de uma curta visita ao Museu Arqueológico, está na hora de descansar, amanhã ainda se quer percorrer a Ponte Romana, bisbilhotar os Pátios Cordoveses e visitar o Palácio de Viana, assim se porá termo a esta curta visita Andaluza.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 17 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27643: Os nossos seres, saberes e lazeres (718): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6 (Mário Beja Santos)

sábado, 17 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27643: Os nossos seres, saberes e lazeres (718): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Ando por aqui sempre com a sensação de uma visita de médico, a visita à Mesquita era ponto obrigatório, as escolhas subsequentes, caso do alcázar dos reis católicos, a judiaria, os museus, os bairros típicos, preferiu-se optar por um passeio descontraído depois da visita à Mesquita e reservar a manhã seguinte, antes de partir para Tavira, ao bairro de Santa Marina e visitar cuidadosamente o Palácio de Viana, uma casa senhorial com surpreendentes jardins. Tudo começou andando à volta da Mesquita, contemplou-se o Pátio das Laranjeiras e com roteiro na mão percorreram-se as sucessivas etapas de construção entre os séculos VIII e X. Para surpresa do visitante há uma brochura em português que delineia o faseamento da construção, mostrando as sucessivas ampliações, as portas, tudo começando, como se procurou aqui mostrar na Mesquita fundacional de Abderramão I, que adota em planta um modelo basilical inspirado nas de Damasco e Jerusalém. Não deixa também de surpreender a reutilização de materiais onde não falta inspiração helenística, romana e visigoda. Pois vamos continuar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239):
Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6

Mário Beja Santos

Córdova, durante o período do domínio romano, foi capital da Bética, uma das cidades mais importantes da Península Ibérica. Com a conquista árabe, converteu-se na cidade mais cosmopolita e refinada do ocidente. O legado romano foi enorme, em Córdova surgiram figuras de grande estatura como Séneca, o Retórico, e seu filho, o filósofo estoico e percetor de Nero, Séneca, bem como o poeta Lucano. Córdova foi conquistada em 711, os emires residiram na cidade desde 711. Em 755, Abderramão I, o único sobrevivente Omíada da matança ordenada pelos Abássidas, criou o Emirato independente, não reconhecendo a Bagdade mais do que a supremacia religiosa. No século IX, durante o reinado de Abderramão II haverá um grande florescimento cultural. Em 929, Abderramão III proclama o Califado de Córdova, com independência total. É um tempo de paz e prosperidade que favoreceu um esplendor cultural sem precedentes. Reina a tolerância religiosa permite às cultural judaica, cristã e muçulmana um convívio pacífico. Córdova torna-se na grande capital de todo o ocidente. A sua população chegou a superar os 250 mil habitantes, havia 3 mil mesquitas, uma infinidade de lojas e banhos, teve universidade, bibliotecas, edifícios sumptuosos.

No século XI deram-se intensas lutas internas que desembocaram na dissolução do Califado, surgiram os chamados Reinos de Taifas. Destacaram-se muitas personalidades neste período tanto no campo científico (caso da astronomia, matemáticas e medicina), como no filosófico, em que os nomes mais salientes foram o muçulmano Averróis, um comentador muçulmano da obra aristotélica, e o judeu Maimónides, filósofo e médico.

Em 1236, Fernando III, o Santo, reconquistou Córdova, mas a presença muçulmana tornou-se inextinguível, com destaque para a Mesquita, a cidade continua marcada por uma urbanização de cunho árabe.

A Mesquita-Catedral atrai todos os anos milhões de turistas, vêm procurar contemplar um monumento único no mundo. Sobre a basílica visigótica de São Vicente erigiu-se entre os séculos VIII e X a Mesquita tal como a conhecemos. Depois da Reconquista, os cristãos enxertaram uma catedral gótica, e daí o visitante contemplar um edifício tão heterogéneo, formado por dois oratórios completamente distintos.

Uma breve síntese das imagens que se seguem. Vou caminhando em direção à Mesquita, passo por duas belíssimas portas do lado direito e entro num edifício que hoje dá pelo nome de Palácio de Congressos e Exposições, antigo hospital.

Uma das entradas para a Mesquita-Catedral de Córdova, Património da Humanidade desde 1984, a sua construção original começou em 784 d.C., tinha na base uma basílica visigótica.
A imagem mostra uma estátua de Dom Quixote sentado numa pilha de livros, localizada no pátio do Palácio de Congressos de Córdova.
Retábulo da capela do antigo hospital de São Sebastião em Córdova, a capela foi concluída em 1516, atualmente, o edifício do antigo hospital funciona como o Palácio de Congressos e Exposições de Córdova.
A imagem mostra uma porta de entrada arqueada para a Mesquita-Catedral de Córdova, apresenta uma mistura única de estilos arquitetónicos islâmicos e cristãos, refletindo a sua história de conversão de mesquita para catedral.
Já estou no interior desta obra-prima da arte muçulmana, a sua planta responde ao esquema tradicional da Mesquita árabe que tem a sua origem na casa do profeta Maomé em Medina: um recinto retangular fechado, um pátio de abluções, a sala de orações e um minarete. Abderramão I iniciou a construção da Mesquita com 11 naves que se abrem ao Pátio das Laranjeiras. Na sua construção utilizaram-se colunas de mármore e capitéis de edifícios romanos e visigóticos. Com o objetivo de elevar o conjunto recorreu-se à sobreposição de dois pisos de arcos, dispondo-se as colunas com um segundo piso com pilares, solução de grande originalidade Abderramão II fez a primeira ampliação, Al-hakam II voltou a ampliar e construiu o Mihrab (é um nicho em arco ou reentrância na parede de uma mesquita que indica a Qibla, isto é, a direção de Meca). Por último, Almansor acrescentou 8 naves paralelas às primeiras (reconhecem-se porque o pavimento é de cor vermelha, deu-lhe as dimensões definitivas.

Estou no Pátio das Laranjeiras, tem este nome devido às laranjeiras plantadas pelos cristãos depois da Reconquista. Os muçulmanos antes de iniciar as suas orações deviam realizar abluções na fonte do pátio. Vejamos agora o Minarete, o ponto alto destinado ao chamamento para a oração. Abderramão III foi quem ordenou a construção do minarete monumental de 47 metros, o que testemunha a grandeza do autoproclamado Califa. Foi modelo para a construção posterior de famosos minaretes, como os de Sevilha, Marraquexe e Rabat. Embutido na torre do campanário, pode ver-se a sua estrutura e decoração no interior.

Em 1589, um terramoto afetou gravemente a estabilidade do minarete a que se havia acrescentado um corpo superior de campanário. No Pátio das Laranjeiras pode observar-se o que terá sido o primitivo minarete.
Começa aqui o espetáculo surpreendente, contraste entre os elementos cristãos e o bosque de colunas e árvores. Logo chamo a atenção a cor e as sombras, a formosura dos arcos em ferradura (herança visigótica) apresentam uma alternância de aduelas vermelhas e brancas. Esta bicromia enriquece com as tonalidades dos fustes das colunas em que predominam os tons acinzentados e róseos.
Inicia-se a visita pela zona mais antiga da construção, passamos pela nave central da primeira Mesquita e ainda não se consegue ver o mihrab. As naves correm perpendiculares ao muro da quibla é nesta direção que se orienta o muçulmano a rezar, é o muro voltado para Meca. Não deixa de surpreender a magnificência da decoração onde não existe a figura humana, devido aos preceitos religiosos muçulmanos, daí os artistas terem desenvolvido ao máximo os elementos decorativos de inspiração vegetal ao geométrica.
Numa zona reservada a peças soltas de inestimável valor, destaquei uma placa de pedra esculpida com um padrão de rosetas e círculos entrelaçados.
O teto de caixotões de madeira restaurado na imagem é do interior da Mesquita-Catedral de Córdova, apresenta intrincados padrões geométricos e caligráficos, típicos da arte islâmica e mourisca.
Uma fascinante mistura de arquitetura mourisca e elementos cristãos, como se pode ver na rosácea.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 10 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27623: Os nossos seres, saberes e lazeres (717): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (238): Ver a Alhambra por um canudo, visitar o Palácio de Carlos V e partir para Córdova - 5 (Mário Beja Santos)

sábado, 10 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27623: Os nossos seres, saberes e lazeres (717): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (238): Ver a Alhambra por um canudo, visitar o Palácio de Carlos V e partir para Córdova - 5 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Um dia de grande azáfama, não se atingiu na plenitude o objetivo de visitar a Alhambra, mas a guia ajudou imenso à festa; a guia e o tempo, era o pico alto da época turística, que vai de outubro a dezembro, as agências compram carradas de bilhetes para visitar o interior da Alhambra, dei com o nariz na porta, não havia desistências. Tudo somado, comecei pela Capela Real, dei uma espreitadela pela Catedral, deslumbrei-me com a Igreja do Sagrário, recomendo a todos os passeios por Albaicín e Sacromonte e confesso que desconhecia por inteiro as maravilhas do Bañuelo, os banhos árabes mais antigos e bem conservados da Andaluzia, três salas cobertas por abóbadas de berço redondo, os capitéis são na sua maioria de construção romana e visigótica, mas também do período do califado de Córdova. À falta de melhor, mostro-vos pormenores eloquentes do exterior da Alhambra. Prometo voltar, é só uma questão de saúde, a curiosidade não falta.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (238):
Ver a Alhambra por um canudo, visitar o Palácio de Carlos V e partir para Córdova - 5

Mário Beja Santos

Não vale a pena insistir, a Alhambra é um dos monumentos mais famosos do mundo, de longe parece uma singela fortaleza, pois estas muralhas não deixam prever o riquíssimo esplendor do seu interior. No século XI, quando os Nasridas viviam ainda em Albaicín, um judeu mandou construir para si um palácio fortificado. Os muçulmanos tomaram então conta de que aquela colina, além de panorâmica, possuía excelentes qualidades defensivas. E porquê? Trata-se da posição estratégica da colina mais elevada da cidade (há pontos em que é inacessível) e a leste apenas um pequeno desfiladeiro a separa das montanhas ali perto. Durante os 250 anos da soberania dos Nasridas, foi crescendo aquela cidade-palácio que hoje conhecemos por Alhambra. Maomé I, o primeiro Rei dos Nasridas, mandou construir a Alcazaba na parte ocidental da colina, construíram-se cisternas e aquedutos, resolveu-se o abastecimento de água. Com os seus sucessores, a construção continuou a ser alargada e complementada com os jardins do Generalife. Hoje apenas existe uma pequena parte da antiga cidade-palácio. Entre o que atualmente se pode ver encontra-se uma obra-prima, o antigo palácio real. Possui tal graciosidade e esplendor que nunca depois alguém se atreveu a destruí-lo. Mesmo quando Carlos V mandou construir o seu palácio junto das zonas emblemáticas dos muçulmanos, houve o cuidado em conservar o palácio real. Nos Contos de Alhambra, Washington Irving deixou-nos um precioso comentário: “Desmoronam-se salões e pátios, deterioram-se quadros e pinturas, mas, apesar do espetáculo desolador, a Alhambra não perdeu a magnificência e o esplendor, fazendo soar as cordas ocultas do visitante.”

Estando-me vedado ver o interior da Alhambra, fui registando os comentários da nossa guia, uma jovem de excelente comunicação. Sobre a Porta da Justiça disse tratar-se da maior das quatro portas principais, uma construção dos meados do século XIV. Passa-se por baixo do grande arco em ferradura, o visitante contorna e anda às curvas, atravessa cinco salas cobertas por abóbadas até chegar à Alhambra.

A caminho dos palácios, dos quais só tomámos um cheirinho, atravessa-se a Porta do Vinho, de planta quadrangular, tem em cima uma sala com janelas abertas. Começou por ser um monumento comemorativo a uma vitória de Maomé V. Retirei uma imagem da internet e captei outra na ocasião, gente em movimento.

Nada de interiores, e eu morto de curiosidade por voltar a visitar a Sala dos Embaixadores, o Pátio dos Leões, a Sala dos Reis, a Sala dos Abencerragens, etc. etc., fomos direitinhos para o Palácio de Carlos V. Paciência, hei de voltar numa próxima oportunidade.

A Porta do Vinho
Pormenor das imponentes muralhas e torres da Alhambra
Uma vista da Alhambra sobre o Albaicín, na outra colina
Pormenor da fachada principal deste palácio do renascimento, mandado contruir pelo Imperador em 1526, quando Carlos V visitou Granada. Reza a história que esta construção foi financiada por um imposto especial, com o qual os muçulmanos conseguiram comprar a sua liberdade religiosa. O arquiteto foi Pedro Machuca, aluno de Miguel Ângelo, não subsistem dúvidas que é uma das mais belas criações do Renascimento fora de Itália. As fachadas exteriores, de dois andares, são do início do Renascimento Toscano, apresentando na parte inferior pedras de cantaria rústica e, na parte superior, pilastras. Os anéis de bronze nas cabeças dos leões e das águias serviram em tempos para prender os cavalos. A zona dos portais está dividida por pares de colunas dóricas. O Palácio de Carlos V, expoente do mais depurado classicismo, tem uma planta bastante simples, há um círculo inscrito por um quadrado e não deixa de impressionar a harmonia das linhas que são de uma majestosa beleza. Resta dizer que na fachada principal se destacam os medalhões e os baixos-relevos no corpo inferior, que representam o triunfo da paz e batalhas.
O mais singular do Palácio é o grande pátio circular com 31 metros de diâmetro, tem colunas dóricas no piso inferior e jónicas no superior. O seu encanto reside na beleza das suas proporções, na sua sobriedade, que o convertem numa obra-prima do Renascimento espanhol. Importa dizer claro que no interior há dois museus, o Museu da Alhambra e o Museu das Belas Artes.
Os anéis de bronze nas cabeças dos leões e das águias da fachada do palácio serviram no passado para prender os cavalos.
Vá lá, andamos fora das grandes riquezas da Alhambra, mas somos contemplados com algumas surpresas. É o caso da mesquita da Alhambra, onde a nossa guia irá falar do banho de vapor, um dos elementos mais característicos da cultura islâmica. O seu uso purificador supõe a ablução maior, prévia à oração, daí podermos encontrar locais de banho nas proximidades. O uso do banho não cumpre somente a sua ação purificadora de carácter religioso, é também um espaço para a higiene e o balneário é um local de encontro social. Este balneário foi construído para dotar a mesquita Aljama que estava situada no lugar que hoje ocupa, ali mesmo ao lado, a Igreja de Santa Maria de Alhambra.
Estava numa cota superior e não resisti a tirar de novo uma fotografia à Porta da Justiça

Foi um dia em cheio, de novo a Carrera del Darro, a inesquecível visita ao Bañuelo, uma formidável surpresa e gostei imenso da visita guiada em torno da Alhambra. E pronto, ponho-me ao caminho para o último recanto da Andaluzia que me predispus a ver, Córdova.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27599: Os nossos seres, saberes e lazeres (716): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (237): Granada, Carrera del Darro e depois à volta da Alhambra - 4 (Mário Beja Santos)