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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28299: (De) Caras (252): João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70): história de vida um emigrande no Canadá, em BD
















  Toronto Welcome!















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: João Bonifácio (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. João Bonifácio foi furriel miliciano SAM (Serviço de Administração Militar), exercendo a difícil,  ingrata mas impreescindível função de vagomestre, na CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, Guiné, 1968/70).

37 meses ao serviço do exército português (dos quais 21 no CTIG). Como muitos de nós.

É beirão, nascido em Castelo Branco. Quando passou à "peluda", foi viver com a esposa e o filho para Lisboa. Descontente com o rumo das coisas em Portugal (e mesmo sabendo ou suspeitando que iria em breve acontecer um golpe de estado, afinal o 25 de Abril de 1974), decidiu ir viver e trabalhar para o Canadá, onde tinha amigos. Quatro anos depois de ter passado à disponibilidade.

Já aqui contou, em breves mas sentidas palavras, o que foi a sua história de  vida de emigrante,  de 1974 até hoje (*)... 

Achámos que isto merecia uma bonita e simpática BD em homenagem a este camarada da Tabanca da Diáspora Lusófona, membro da Tabanca Grande desde 1/12/2006, mas com escassas referências no blogue (cerca de 2 dezenas)...

A única foto que temos dele do tempo da Guiné (a fazer o "papel de repórter" na festa de Natal de 1968, em Có) é de muito má qualidade (cópia de uma fotocópia). 

Tem, todavia, uma grande força documental.  Está ali o Bonifácio, o vagomestre dos "Linces de Có", a CCAÇ 2402, na"festa de Natal de 1968",  a fazer de “repórter”, microfone em punho, e gravador ao ombro, talvez já com essa tendência para comunicar e participar que atravessou toda a sua vida (irá, de resto, trabalhar na rádio, em Toronto, e fundar, com mais alguns compatriotas, o Clube Português de Oshawa, Ontário, Canadá).  

É, pois,  uma fotografia com memória. E, para nós, aqui, vale muito. (Embira tenhamos pena de náo ter uam foto atual do nosso camarada.)

O texto do João Bonifácio, já aqui publicado (*) tem uma coisa que merece destaque: ele se não  se arma em herói (nem em vítima), não se põe em bicos de pés perante a sua própria história. Conta-a com simplicidade, e sem rodeios.

É, de resto, uma excelente história de vida,  não  muito diferente, por certo, da de muitos de nós, antigos combatentes, que decidiram não ficar em Portugal e tentar a sua sorte, noutras paragens, além Atlântico (EUA, Canadá, Brasil, Venezuela...) como sobretudo na Europa (França, Alemanha, Luxemburgo, Suiça...) mas também em África (Angola, Moçambique, África do Sul...). Infelizmente, não temos dados estatísticos sobre os antigos combatentes que, depois da "peluda", emigraram, quer os do Continente quer os da Madeira e Açores.

As circunstâncias em que o João G. Bonifácio sai de Portugal, em 15 de fevereiro de 1974 (4 anos depois de trer passado à disponibilidade, e a pouco mais de 2 meses do 25 de Abril) não deixam de ser "intrigantes": ele sabe ou suspeita (por via das suas ligações aos meios da "oposição democrática"; antes da tropa tinha trabalhado no escritório do advogado dr. Arlindo Vicente) que o país vai mudar, que o regime político vigente vai cair, e que a guerra em África vai ter que encontrar uma solução...

É uma dessas ironias da História que parecem escritas por um romancista: esteve quase a esperar pelo acontecimento, mas tomou a decisão de partir  antes de ele chegar. O João não fica, pela simples razão de que  já não acredita no futuro que o país lhe oferece, a ele e aos seus filhos.

Em contrapartida, no novo país que o acolhe, ele não vai ter  uma história de vida linear, nem de sucesso imediato.  Chegou ainda antes de perfazer os trinta anos  de idade, no dia 16 de fevereiro de 1974, data do seu  29º.  aniversário... Teve como prenda  um grande nevão em Toronto. 

Por outro lado, o Canadá estava a passar também pela grave crise económica de finais de 1973/ princípios de 1974 (Guerra do Yom Kippur, de 6 a 26 de outubro de 1973, embargo petrolífero da OPEP, primeiro grande choque petrolífero, subida de 400% do preço do barril de petróleo,  de 3 para 12 dólares,  em poucos meses, crise das economias capitalistas, etc.).


São três décadas de trabalho duro e de lenta mas bem conseguida adaptação a um novo país, completamente diferente da sua terra natal: fábrica de sofás, hospital de Oshawa, aprendizagem do inglês, Chrysler, biscates em pequenas empresas, agência de viagens, rádio portuguesa em Toronto, General Motors Canada, trinta anos de serviço, reforma, regresso a Portugal em 2011, tremenda desilusão e nova partida para o Canadá. (Não sabemos qual foi a rádio e TV portuguesa a que o João se refere: há varias, CHIN Radio TV,  a Camões Rafio TV, etc.)

Ou seja: é  toda uma vida construída aos poucos, a pulso, com trabalho, adaptação, inteligência, capacidade de aprender, resiliência... Mas  também com vontade de ser ajudar os outros.

E deixa um recado a eventuais candidatos à emigração para o Canadá; "Com o tempo tudo fica bem. O Canadá não é Portugal". pou seja, o Canadá é um país fiável, e bom para se vivver (tirando o maldito frio...).

É uma frase muito mais sábia do que parece. Não diz “o Canadá é melhor”. Diz simplesmente: "o Canadá é diferente, eu já não me adaptaria a Portugal". Mas uma pátria nova não substitui a antiga; aprende-se a viver entre dois mundos. E, para mais, com o nosso blogue a fazer a ponte, nestes últimos vinte anos.

E depois há o Clube Português de Oshawa/Oshawa Portuguese Club, fundado em 1978. Isso acrescenta uma dimensão bonita à história: João não se limitou a emigrar. Levou consigo uma comunidade e ajudou a construí-la. 

Hoje, quando fala português, inglês e francês e ajuda outros emigrantes a tratar de assuntos legais (impostos, desemprego, emigração, saúde,  segurança social,  etc.), vê-se que gosta de ajudar. Percebe-se, enfim, que aquela integração não significou apagar as raízes. 

Voltando à fotografia do Natal de Có de 1968: é a fotografia de um camarada nosso  antes de saber (ou sequer de imaginar)  que, cinco anos depois, estaria a embarcar para o Canadá.

E isso dá-lhe uma força narrativa enorme. Daí o título que escolhemos para esta BD: “De Có para Oshawa: a longa viagem de João Bonifácio”, Mas também poderia ser outra,  talvez até mais alinhada com o espírito do nosso blogue: “Quando a Pátria não foi Mátria, foi Madrasta: a história canadiana de João Bonifácio”.

Aliás, há uma continuidade com o meu comentário de 2006, de boas vindas. Na altura escrevi: “Eu sei que a Pátria não foi Mátria para ti, foi madrasta.” (***).

Claro que houve mágoa, e raiva. Hoje, vinte anos depois, é o próprio João que nos conta o que fez com essa mágoa e essa raiva. Não ficou parado, no meio da picada da vida a lamber as feridas. Construiu uma vida e uma família. Ficamos orgulhosos dele.

Essa é provavelmente a melhor homenagem que podemos fazer-lhe, aos 81 anos:  não,  não  foi  mais  um antigo combatante da guerra do ultramar / guerra colonial que "virou costas" à sua Pátria ou que "cuspiu na sopa"...  Pelo contrário, foi um homem que, depois de 37 meses no exército (e 21 meses e 4 dias na Guiné), teve a coragem de procurar noutro lugar do planeta a vida que entendia merecer, para ele  e a família, sem nunca deixar de ser português e de falar português. 

João, rápidas melhoras e volta sempre!... Serás bem vindo, à tua Pátria portuguesa (agora tens duas, a nossa e a canadiana, aproveita o melhor de cada uma delas). 

E toma boa nota:  a Pátria Portuguesa não é o 1º sargento  ou o  tenente SGE da secretaria  do RI 1 da Amadora, a tua unidade mobilizadora,  que te exigiu 1500 escudos em estampilhas fiscais, o custo exorbitante da taxa   da licença militar que pediste para obter  o "passaporte da liberdade" (1500 escudos em 1974 seriam equivalentes a 300 euros, a preços atuais).

Um alfabravo caloroso  do Luís Graça.

26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28295: Tabanca da Diáspora Lusófona (43): From John (Crisostomo), USA, to John (Bonifacio), Canada

(**) Último poste da série > 19 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28270: (De) Caras (251): Luís Tinoco de Faria (1927-1966), ex-cap pqdt, morto aos 39 anos, em combate, no corredor de Guileje: livro de homenagem que está a ser organizado por Elsa Coxinho

(***) Vd poste de 1 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, ex-fur mil vagomestre, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28296: Tabanca da Diáspora Lusófona (44): A minha ida para o Canadá, em fevereiro de 1974 (João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)









Capa da brochura "Memórias da CCAÇ 2402 (Guiné 1968/1970), Volume II", mimeog", 2008, páginas inumeradas,il. (Coordenação: Raul Albino, 1944-2020).


Ele foi um dos colaboradores deste II Volume, juntmente com o ex-cap inf Vargas Cardoso, também já falecido em 2023,  e de outros camaradas como o Carlos Sacramemto, Carlos Santiago, Carlos Costa, Joaquim Ramalho, Maurício Esparteiro, António Maria Veríssimo, António Fangueiro da Silva, e o próprio Raul Albino. O João Bonifácio é membro da nossa Tabanca Grande desde 1 de dezembro de 2006.

Em homenagem ao Raul Albino, ex-alf mil da CCAL 2402, que nos deixou em plena pandemia  (, aliás foi o próprio João Bonifácio que nos deu a triste notícia),  reproduzimos no poste P21652 dois aponatmentos sobre o Natal de 1968 e de 1969, da autoria do João, incluidos naquela brochura.

As fotos de cima (e as legendas) são do João G. Bonifácio, ex-fur mil SAM, da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70), a viver no Canadá (Oshawa, Ontario).

Fotos (e legendas): © João Bonifácio (2008. Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






A história da minha ida para o Canadá, em 1974

por João Bonifácio

Vamos ver como vou ser justo, porque tanto o Luís como o João Crisóstomo querem saber como é que eu vim parar ao Canadá. 

As histórias são quase todas semelhantes. Nem tudo correu bem, e eu nem queria acredita ter servido o exército por 37 meses ( 21 meses e quatro dias npo CTIG). Na verdade eu até nem precisava de emigrar, estando bem empregado. 

Creio que o descontentamento de tudo o que se estava a desenrolar em Portugal, fez com que eu assim decidisse ir para o Canadá. Sair de Portugal foi na verdade o mesmo que deixar tudo e todos a chorar de saudade, mesmo antes de embarcar. Em 15 de fevereiro viajei na TAP para Toronto.

A Montreal chegamos atrasados e por isso estivemos à espera de um avião da Air Canada. À chegada a Toronto, e já numa hora tardia, tínhamos à espera uma tempestadade de neve, frio e uns amigos que nos foram esperar ao aeroporto. 

No dia 16 de fevereiro eu fazia anos. Quando acordei e espreitei pela janela, tudo era um manto branco de neve e as ruas completamente vazias. Também aqui não foi fácil, pois entrámos no Canada no meio de uma depressão económica. Fui ultrapassando estas pequenas/grandes tormentas e fui trabalhar para uma fábrica de sofás, onde não estive muito tempo..

Mudei para o Hospital de Oshawa onde estive 26 meses. Aqui melhorei o inglês e até me ajudou a adaptar ao convívio com pessoas de várias etnias.

No hospital aprendi muito. Do hospital mudei para a Chrysler, na indústria automóvel, onde tínhamos um vencimento bastante bom e com todos os benefícios inerentes, negociados pelo sindicato. Com trabalho extra até arrecadava um cheque semanal muito positivo. 

A minha vida mudava todos os dias. Durante este período fiz escritas de pequenas empresas, trabalhei em duas agências de viagens e um dia até fiz radio em Toronto, a 50 kms da minha morada. A rádio foi a cereja no topo do bolo. Fiz anúncios, notícias e conheci artistas de Portugal e do Brasil.

A idade não perdoa e a certa altura eu comecei a fazer menos. Mudei para a GM Canada onde desempenhei varias tarefas desde a montagem, à inspeção e preparação de documentos para exportação. Cheguei ao fim com 30 anos de serviço e fiz a maior asneira possivel. Vendi tudo e fui embora para a terra do sol.

Portugal já não era o mesmo, e ao fim de um ano e pouco embrulhei tudo e regressei ao Canadã. Todos os meus planos e desejos cairam por terra. Isto aconteceu em marco de 2011 e agora tudo mudou. 

Consegui uma reforma muito confortável e com um pacote de benefícios invejável. Praticamente nada pago na saúde. Contudo o custo de vidaé levado, mas vamos gerindo tudo com calma. É uma vida diferente, e notamos que não ha imigração como na Europa. 

Agora temos os filhos de portugueses que cresceram e constituíram familia.  Tive a honra de formar o Clube Portugues de Oshawa em fevereiro de 1978, com a ajuda de uns amigos, é lá que ainda passamos horas de convívio,

Hoje posso dizer que estou integrado e,  como estudei em Beja, estou bem com o inglês e o francês, para além do meu português que me tem ajudado a fazer traduções e que me faz muito orgulhoso. 

Como gosto de ajudar, estou bem em lidar com o departamento de desemprego, de impostos e finançaas, serviços de saúde e sociais, onde a ajuda aos menos afortunados é muito apreciada. 

Esta é a história da minha vinda para o Canadá. Para os que ainda sonham emigrar, apenas sugiro que deixem o tempo ajudar a adaptação. Com o tempo tudo fica bem. O Canada não é Portugal. Cada um com as sus próprias valências e motivações de futuro risonho. 

Portugal é apenas o resultado da falta de cuidado. Incêndios, desmoronamentos, acidentes e crime sem razãoo, e muitas dificuldades de todo o género. Estou à espera de melhorar um pouco para poder ir até Lisboa. 

Obrigado a todos os que lerem este testamento e também que respondam ao que não gostarem. Ao Luís e João por favor bebam um cafe a meio deste desabafo. Fiquem bem e até breve.

João Bonifácio
ex-fur mil do SAM
CC2402 / BCAÇ 2851
(Có, Mansabá, Olossato, 1968/70)

Oshawa, Ontario, Canada (***)

(Fica a c. 60 km, a nordeste de Toronto, capital da província de Ontario)
___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd- pposte de 26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28295: Tabanca da Diáspora Lusófona (43): From John (Crisostomo), USA, to John (Bonifacio), Canada


(***) Vd. poste de 1 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, ex-fur mil vagomestre, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

(...) O ex-alf mil Raul Albino fez o favor de me enviar este site, e eu, quando posso, procuro rever toda a Guiné, através das exposições de todos os nossos ex- camaradas, a todos os níveis.

Depois de finda a minha comissão, como Furriel Miliciano do SAM (vulgo,vagomestre), e após um pequeno período de descanso e adaptação, regressei a Lisboa com a minha esposa e filho, onde reatámos as nossas vidas.

Não foi longa a minha estadia em Portugal, uma vez que a desilusão que sofri ao regressar... Assim, ao ver que o futuro seria complicado para os filhos, decidi pedir autorização para sair de Portugal, com destino ao Canadá.

Se na altura eu me sentia ofendido com o meu próprio país, bem pode imaginar quando na Amadora me pediram 1500 escudos em selos, para selar a minha desvinculação a Portugal. 

Saí de Portugal a 15 de fevereiro de 1974, mas já sabia que alguma coisa se iria em breve passar. Mas era tarde, eu havia decidido que, depois de 37 meses no exército e 21 meses e 4 dias na Guiné, devia merecer mais um pouco de compreensão. (...)

(...) Comentário de L.G.:

Meu caro João /My dear John:

(...) Fico muito sensibilizado com a tua mensagem… Eu sei que a Pátria não foi Mátria para ti, foi madrasta... E eu sou o primeiro a ser solidário contigo, eu que decidi ficar na terra que me viu nascer... Sei que isso não te vai servir de consolo, mas não imaginas o rol de reclamações que recebo neste pequeno canto da blogosfera!... 

Enfim, o importante é que hoje estejas bem, nesse grande país que eu admiro… Mas as tuas raízes, a tua identidade, o teu passado estão aqui, estão connosco… Nenhum de nós terá futuro, se não souber preservar e até alimentar o passado. A Guiné marcou-nos a todos, com o seu ferrete... Mas foi em português, na língua de Camões, que exprimimos os sentimentos mais nobres ou dissémos os palavrões mais horríveis. 

João: não adianta. Não se escolhe a Pátria, não se escolhem os pais nem os irmãos, não se escolhe a língua materna... Mas dessa ao menos eu tenho (e tu tens, nós temos) orgulho... É em português, e em bom português, que comunicamos na blogosfera, neste blogue, na nossa tertúlia, nesta caserna virtual onde todos cabemos, de Lisboa a Bissau, de Viana do Castelo a Toronto, de Coimbra a Luanda.  (...) 

Guiné 61/74 - P28295: Tabanca da Diáspora Lusófona (43): From John (Crisostomo), Queens, New York, USA, to John (Bonifacio), Oshawa, Ontario, Canada




Bandeiras de Portugal, Canadá e EUA
 
Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)

João Crisóstomo.
Cartoon: Gemini IA / Google + LG

1. Mensagem que o João Crisóstomo, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, mandou a partir da sua casa em Queens, Nova Iorque, para o João Bonifácio, que vive em Oshawa, 60 km a nordeste de Toronto, Onta5rio, Canadá, e  que foi fur mil SAM,  CCAÇ 2402/BCAÇ 2851 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) (*):


Sent: Monday, August 24, 2026 5:46 AM
To: John Bonifacio 
Subject: Hello de Nova Iorque

Caro Bonifácio,

Oxalá recebas este. Manda-me o teu número de telefone para podermos cavaquear um pouco, Ok? Se quiseres, o meu telefone é o (...),

Um grande abraço dum velhote ( eu sou de 1965-67) e já fiz os meus 82… E, como tu, acarretando as maleitas de que falas…

João, Nova Iorque
John Crisostomo

2. O João Bonifácio (de quem, espantosamente, ainda não temos nenhuma foto atual no blogue...) respondeu nestes termos (conforme cópia que o João Crisóstomo  nos facultou):
 

 On Aug 24, 2026, at 11:30 PM, John Bonifacio wrote:

Olá, John,

Acuso recebido o teu e-mail, que agradeço e me admiro do teu interesse em comunicar comigo. Lembro-me dos e-mails anteriores e nunca percebi como chegaste à minha morada, e do mesmo modo, como tens passado a tua vida, e com os contatos que ganhaste ao longo da vida.

Os meus 81 anos e as dores nas pernas como resultado do Covid19, tiram-me um pouco da liberdade que sempre tive de explorar outros terrenos. Sou uma pessoa pacata que um dia resolveu escrever as suas histórias na Guiné-Bissau. Não sei se foi por aí que tudo iniciou, mas na verdade, apenas tenho uma vaga ideia do teu passado, dos trabalhos, como vieste para os USA. Aliás o teu currículo ~´e muito rico e variado, e por isso eu,  não sabendo dos detalhes, achei que não seria correto trocar ideias por este meio.

Estou no Canadá desde fevereiro de 1974, mas não sei porque aqui vim parar. Talvez porque sabia de tudo do nosso 25 de Abril e,  mesmo não sendo politico, tive o meu primeiro trabalho em Lisboa como escriturário do Dr Arlindo Vicente, que com o gen Humberto Delgado formaram as candidaturas para Presidente da Republica , em 1958.

Nessa altura estudava eu em Castelo Branco.

A partir desta altura, foi um desenrolar de emoções, que vou deixar para outra vez. Hoje foi um dia complicado e perdoa por ter de parar por aqui. Voltarei em breve.

Um abraço e Obrigado.
João


3. Resposta do João Crisóstomo ao João Bonifácio (e que partilhou connosco, recebida por nós na terça, 25/08/2026, 13:15):

Bom dia, Bonifácio,

"Me admiro do teu interesse em comunicar comigo": comungar a nossa vida com outros parece-me ser a coisa mais natural deste mundo. Faz parte do nosso ADN. Creio que qualquer pessoa que se encontrasse numa ilha sozinho, numa situação de completo isolamento, a coisa que mais desejaria seria não só o de encontrar alguém, como de poder partilhar —dar e receber —a sua vida com outros. 

Portanto não te admires do meu interesse de comunicar. Ao fazê-lo estou dar seguimento a um instinto natural, de alguma maneira na esperança de um "viver mútuo”. Creio por exemplo que se alguém descobrir que outra pessoa precisa de alguma coisa (maneira de curar uma doença,satisfazer uma deficiência, "dar de beber a quem tem sede e de comer a quem tem fome”, e coisas assim), a primeira coisa que quer fazer é satisfazer essa deficiência, de poder talvez ajudar outros com a sua vida e ao mesmo tempo beneficiar da vida de outros. 

É isso que todos nós fazemos todos os dias conscientemente ou não. Relatar e escrever as nossas vidas e ler as experiências e vidas de outros …E por isso este nosso blogue veio preencher uma lacuna, agora bem mais pequena, quebrado que foi o isolamento em que muitos de nós, camaradas que fomos na Guiné, nos encontrávamos.

Espero com muito interesse a tua  história acerca da tua vivência no Canadá, onde chegaste  em fevereiro de 1974.
 
Depois do que escrevi , curioso, fui investigar no nosso blogue a tua participação. E vim a encontrar o muito que escreveste em 2007 e anos seguintes,  ainda eu nem sabia da existência deste blogue. "Shame on me"! (Que vergonha!),  como se costuma dizer, pois, se sou desculpado por não ter lido o que escreveste nessa altura, não tenho desculpas de não ter lido vários outros “posts” teus, inclusive sobre a tua experiência de teres regressado a Portugal e, desiludido, teres voltado de novo para o Canadá.

Mas agora não vou deixar de ler tudo isso. Tanto mais que eu, mais que uma vez, também cheguei a pensar voltar; mas por uma razão ou outra (várias, aliás) acabei sempre por decidir ficar por cá.

Bom! aqui fica mais uma vez o meu número de telefone (....).

Se me quiseres dar o teu número eu ligo-te e podemos falar pelo telefone, que é ainda a melhor maneira de cavaquear, possibilitando trocas instantâneas de informações nem sempre possíveis de outra maneira.

Um abraço amigo,
João


4. Publicaremos, em poste a seguir, a mensagem que o João Bonifácio escreveu com um resumo da sua história de vida. 

Recorde-se que o João Bonifácio foi, "de facto et de jiure", membro da nossa Tabanca Grande em 1/12/2006. Portanto é um dos nossos veteraníssimos (**). Embora, excecionalmente, não tenhamos nenhuma foto dele, atual, no blogue. Passa a ser também membro da Tabanca da Diáspora Lusófona (***)

_____________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 1 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, ex-fur mil vagomestre, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28294: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte XII : Que futuro para os jovens que, dizem, são o futuro ?!


Timor-Leste > "Estudantes protestaram em frente ao Parlamento Nacional de Timor-Leste, exigindo o fim da lei da pensão vitalícia e pedindo mais investimento nos setores produtivos para criar oportunidades e desenvolver o país.

"Com poucas oportunidades de emprego e salários que muitos consideram insuficientes para construir uma vida estável, milhares de jovens timorenses continuam a olhar para o estrangeiro como uma oportunidade para mudar de vida. Outros preferem ficar e apostar no empreendedorismo, na agricultura ou em pequenos negócios.

"Timor-Leste é um dos países mais jovens da região. De acordo com os Censos de 2022, cerca de 65% da população tem menos de 30 anos. Esta geração representa uma enorme reserva de energia e potencial para impulsionar o desenvolvimento do país."

Entre partir e ficar: o futuro da juventude timorense (com a devida vénia...)

 

1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).


São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e fez recentemente uma operação cirúrgica, delicada, de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Ele é um exemplo vivo de amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar (a ASTIL), Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia, o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Estamos agora a publicar as do ano de 2019.



III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XII: semana de 21  a 27 de abril



21.04.2019, domingo  - Feliz Páscoa!...


O sol brilha. “ Ele é belo, radiante e com todo o esplendor: de Ti Altíssimo é a
imagem.” (Cântico das Criaturas)

E, se ontem à noite a lua quis associar-se ao evento da da vigília pascal, hoje o sol não quis ficar para trás, espalhando a notícia: ALELUIA! O SENHOR RESSUSCITOU!... FELIZ PÁSCOA!...  

E vêm à memória uma catadulpa de canções e músicas relacionadas com a Páscoa (...).

O Domingo de Páscoa aqui em Timor, para além das cerimónias religiosas/ missas dominicais em que muita gente participa, pouco ou nada se passa fora do normal.

Nada que se compare com a animação que se observa sobretudo no norte de Portugal, onde a visita pascal é a raínha. As procissões, as ruas com tapetes de flores, os folares, as amêndoas, os ovos de páscoa, etc fazem-nos alguma saudade e fazem crescer a água na boca. Paciência! Quem estiver mal que se mude (...).


Timor Leste > s/l > 2016 > O crvo vermelho e o acordeáo... O que seria o Rui sem eles, o carvo e o  acordeão ? O Rui, à esquerda, e o seu acordeão, levando às montanhas de Liquiçá a alegria, a esperança e a solidariedade das gentes da Malcata/Sabugal, e de outros lados de Portugal, de Coimbra à Lourinhã.  

O Rui com parte da  família Sobral, em Dili, no bairro Ailok Laran, em cuja casa ele fica quando vai a Timor-Leste.


Com a devida vénia à página do Facebook, Malcata.net, 21 de junho de 2016

 
22.04.2019, segunda feira  - Lições de acordeão

O acordeão é um instrumento pouco conhecido em terras do oriente, ainda que as suas origens mais remotas sejam na China. Era então um instrumento de sopro - o “Sheng” sendo o som produzido por palhetas numa das extremidades de cada tubo. 

Muitos anos mais tarde, fizeram diversas adaptações, sobretudo na Europa, sendo o ar produzido através de um fole que devidamente pressionado pelos braços faz vibrar as palhetas e tocar as notas da mão direita e da mão esquerda. Na Itália e na França situam-se as fábricas mais famosas da suas melhores marcas.

Aqui em Timor há quem toque (muito poucos instrumentistas) acordeão de teclado, mas acordeão de botões, acho que foi uma novidade quando eu apareci em 2016, tocando este estimado instrumento. Já explicarei a palavra “estimado'

Por isso há sempre alguma surpresa quando se ouve o toque do acordeão, que é um
timbre muito activo, e por isso impossível de lhe ser indiferente. Há dias lancei um repto à minha afilhada Adobe, que tem muito jeito para a música, sobretudo para cantar: 

- Não queres aprender a tocar acordeão? Eu ensino-te... 

Foi o que ela quis ouvir. Disse logo que sim, e a partir daí começamos já as lições. Hoje já foi a segunda e, digo-vos, a rapariga depressa vai aprender.

Porque é que referi “estimado” instrumento? Este acordeão é da Carolina, a filha mais nova do meu primo (irmão) Carlos, que Deus chamou para si na flor da idade, logo após fazer os dezassete anos. Tenho a certeza que ela lá no céu exulta quando eu, com carinho, me lembro dela e faço tocar o seu acordeão. O Carlos diz-me sempre: 

- Deixa-o estar que ele está em boas mãos.

 Terei todo o gosto do o estimar como se fosse meu. Mas não!... Ele é da Crolina e disso faço questão que o saibam.

A Adobe é uma menina com quase doze anos, que dentro de mais alguns terá a idade com que tu nos deixaste. Eu já lhe falei de ti, e tenho a certeza que nunca te irá esquecer, pois está a ter lições neste teu acordeão. Espero sinceramente que ela seja uma boa acordeonista e que, sempre que ela toque, a sua música chegue aos céus para júbilo de todos os que aí estão. Beijos meus e da Adobe. Sempre no coração!...

25.04.2019, quinta feira  - 25 de Abril...SEMPRE!...

Há quarenta e cinco anos. Aconteceu aquilo que muitos esparávamos: a libertação dos jugos de uma ditadura. Houve festa, houve flores, houve música e canções, houve alegria “ o povo saíu p’ra rua com alegria que (não) costumava ter”, manifestada em abraços e sorrisos rasgados; houve marchas, houve comícios e grandes concentrações.

Quem teve a sorte de viver este dia nunca mais poderá esquecer o que realmente se passou. Por isso, concordem ou não comigo, gritarei sempre, de peito bem erguido: 25 DE ABRIL ... SEMPRE!...

E não adianta que “os velhos do Restelo” ou “os profetas da desgraça” ostracizem esta comemoração, argumentando que isto está cada vez pior, clamando até pelo antigo regime, perguntando: “Foi para isto que foi feito o 25 de Abril?!” 

Claro que não!... A culpa dos males atuais não é do 25 d Abril. A culpa é de quem se serviu ou serve do poder, seja ele político ou económico, para escravizar os outros, para dominar e apropriar-se do que, por direito ou justiça não lhe não lhe pertence, para explorar e servir-se de esquemas de compadrio e corrupção. E, quem não se sente não é filho de boa gente. Mas até esta liberdade de nos podermos queixar é ao 25 de Abril que a devemos. (...)

E, sem ligar muito ao que irão dizer uns e outros, pois neste momento estou muito distante do local das operações, dir-vos-ei apenas que, à minha maneira, irei viver este dia com intensidade, pois nada nem ninguém poderá prender esta minha liberdade interior. 25 de Abril sempre!... VIVA O 25 DE ABRIL!....

25.04.2019 - Jovens timorenses... Que futuro?...

Já o afirmei noutros relatos: “a força de Timor Leste está nos seus jovens”.

É um chavão bem comum,  “os jovens são o futuro “. Mas não é por isso que eu estou escrevendo.

Esta manhã, ao ir dar um recado a casa do Anô, deparei-me com um grupo de jovens de 17 aos 30 anos (+ ou -) que, aparentemente,  nada faziam a não ser passar o tempo em amena cavaqueira. É frequente passarem por aqui durante o dia muitos jovens, individualmente ou em pequenos grupos,

A explosão demográfica aconteceu, consequência do incremento à natalidade que fizeram, depois da chacina feita pelas tropas indonésias e milícias timorenses (de 700.000 ficaram mais ou menos 500.00 habitantes).

 Famílias muito numerosas são a base atual desta sociedade timorense que, de um momento para o outro, se vê a rebentar pelas costuras, como soe dizer-se. Os diversos governos que têm exercido o poder, embora tenham já feito muita coisa, parecem impotentes de responder a todas as necessidades, particularmente às necessidades básicas de água, luz, saneamento. Há ainda muito a fazer neste domínio.

As escolas estão repletas de crianças que as frequentam. As universidades e institutos de ensino superior, idem. É uma alegria saber e verificar que a maioria das crianças vai à escola (exceção feita às crianças que vivem no interior, nas montanhas que, por dificuldades de deslocação, pais e crianças optam por ficar em casa). 

Nos dia de hoje, oitenta por cento da população timorense é alfabeta, resultado de um grande investimento na educação.

Chega?...É claro que não. Para além da quantidade, falta a qualidade. Mas é notório o esforço que todos vêm fazendo.

Então, qual é o problema? O problema é que estes jovens, muitos deles com cursos
superiores e universitários, não têm emprego. E trabalhar só para aquecer, sem o justo salário do seu trabalho, não dá. 

Muitos procuram trabalho no exterior, emigrando para a Coreia do Sul, para a Austrália, para a Inglaterra. Mas até neste sector já houve mais facilidades. Os processos de pedido de nacionalidade portuguesa, para depois poderem rumar para Inglaterra,  estão cada vez mais emperrados devido ao elevado número de pedidos e aos entraves da documentação incompleta ou falsificada.

A capacidade de resposta a esta juventude desempregada é insuficiente perante tantas solicitações. Eu não sei o que será de toda esta juventude que espera desesparada por uma resposta favorável. Até quando irão aguentar?

É compreensível que se houver um lider, venha ele de onde vier, que lhes prometa e responda aos seus anseios, possa rebentar esta bolha de ar comprimido que se está formando-

Mas o pior será se, para atingirem os fins em vista, esta matéria incandescente vira para a violência e outras coisas indesejadas. As memórias recentes das guerras e guerrilhas travadas pela independência, no último quarteirão do século passado, ainda estão muito presentes. Seria um castigo demasiado pesado para toda esta gente que, de alma e coração, é timorense. Oxalá que nunca mais!

Jovens, que futuro?... Incerto. Deus vos guie por bons caminhos!...

26.04.2019, sexta feira  - Lágrimas de alegria...

Quem espera sempre alcança. A Dílsia Rosa Oliveira, a Rosinha como carinhosamente lhe chamamos, foi das primeiras jovens a inscrever-se no programa de apadrinhamento que, há três anos, acabava de ser criado, integrado no Projeto de Solidariedade em Timor Leste. 

Quase todos os dias ela aparece por aqui, pois mora bem perto do local onde moramos, em Ailok Laran. Confesso que me dava pena sempre que chegava a notícia de algum apadrinhamento, ver a Rosinha ansiosa por saber se seria a sua vez.

Ontem, a meio da tarde, recebi um telefonema da educadora Mariana Gomes, que
trabalha na Escola Cafe de Taibessi, perguntando se era possível um encontro nesta tarde. De pronto respondi: 

- Claro que sim! Às horas que quiser...

Não demorou muito tempo, e já a Mariana e o seu “motor” davam entrada no pátio da família Sobral. Falamos de crianças, de música, da profissão, da vida neste país que agora nos acolhe. Por fim, a Mariana abordou o programa de apadrinhamento, pois já anteriormente tinha manifestado a vontade de apadrinhar uma criança /Jovem. 

Sendo sempre a decisão da responsabilidade de quem apadrinha, e depois de ser pedida a minha opinião uma vez que conheço todas as propostas, sugeri que fosse apadrinhada a Rosinha. Mais a mais a Rosinha pode vir aqui de imediato para que o conhecimento mútuo se estabeleça. A Mariana aceitou a minha sugestão e, em minutos, mandou-se chamar a afilhada que, surpreendida, perguntou várias vezes, sem querer acreditar:

- Ai?!... Vai ser minha madrinha?!... 

E, nervosa, levava as mãos ao seu rosto, chorando de alegria. A madrinha Mariana por sua vez repetia:

- Sim! Quero ser tua madrinha. 

E selaram este pacto com beijos e abraços bem apertados e lágrimas à mistura. Que cena de ternura que até faz inveja a quem faz de testemunha!...

A seguir será o preenchimento da ficha de apadrinhamento a incluir no processo.
Obrigado, Mariana,  em nome da Astil, por fazeres parte do nosso projeto de
solidariedade. Parabéns, Rosinha , pela madrinha que Deus te deu. Tens muita sorte de ter a Mariana como madrinha. Tenho a certeza que será uma relação muito eficaz.

27.04.2019, sábado  - As mães ... e os filhos

Vou falar-vos de mães e filhos galinhas e de mães e filhos teques (osgas) (náo confundir com as toqués). Ambas as mães na sua tarefa de ensinarem os seus filhotes a procurarem os alimentos que os sustentam e fazem crescer.

Ontem, uma galinha com os seus pintaínhos faziam aqui em frente uma demonstração de “ensinar para aprender” ou, por outras palavras, “aprender fazendo”. A mãe galinha esgravatava no chão e indicava o fruto do seu trabalho: um grão de arroz, um verme, um bicharoco, etc. Os pintaínhos, ainda mal saídos da casca, picavam também e aproveitavam as descobertas da mãe. Coisas da natureza...

Hoje, ainda mal se via, e estando à espera da luz do dia, vejo na parede do quarto uma mãe teque e a sua cria. A mãe estava ensinando a caçar mosquitos, uma verdadeira arte dos teques. Todas as noites presenciamos esta caça ao tesouro. Mas ver dar uma lição destas, de mãe ou de pai para o seu filho ou filha,  é um privilégio.

E eu, que tantos mosquitos tenho matado com a dita “raquete assassina”, começo a pensar que a natureza tem sempre surprezas para nos dar. Quem sabe se os mosquitos, estes seres tão odiados e perseguidos, não são mesmo necessários neste mundo em que vivemos. Pelo menos para alimentar esta ditas criaturas,  os teques que até dizem por cá darem sorte aos da casa. Que assim seja!...

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28151: Tabanca da Diáspora Lusófona (42): Voltando ao Mato Cão do meu tempo... (João Crisóstomo, ex-alf mil at inf, CCAÇ 1439, Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67)

Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Janeiro de 2008 > Estrada Bissau-Bafatá > Passagem do Xico Allen pelas proximidades de Mato Cão (ou "Matu de Cáo"), onde foi criado, no tempo do ten cor inf Polidoro Monteiro, comandante do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), um destacamento, guarnecido pelo Pel Caç Nat 52.

Foto: Xico Allen (1950-2022)  / Albano Costa (2008) / Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradasda Guiné



Madeira > Funchal > BII 19 > CCAÇ 1439 > 1965 > "Os quatro alferes (ainda aspirantes...): Sousa e Zagalo (sempre independente, apareceu de roupão); à direita, o Freitas; a minha cabeça aparece por detrás do Zagalo."

Depois de seis meses fomos dados por “preparados” e a 2 de Agosto de 1965 embarcamos no “Niassa” para a Guiné. O mesmo navio nos traria de volta quase dois anos depois.

Foto do álbum do João Crisóstomo.  

Foto (e legenda)s: © João Crisóstomo (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentário do João Crisóstomo ao poste P28143 (*)

João Crisóstomo: tem 300 referências
no nosso blogue

Data - segunda, 29/06/2026 22:40~
Assunto - Comentário ao poste P28143 (*)


"Mas voltando ao Mato Cão (**)”…

Nos meus tempos (1965/67),   Mato Cão era conhecido pelos problemas que aí e à sua volta já tínhamos de enfrentar: especialmente a estrada de Porto-Gole- Enxalé- Bambadinca, com as suas emboscadas, minas e foram várias as que lembro, incluindo duas no mesmo dia, uma que vitimou o furriel Mano e logo a seguir outra quando eu próprio comandei uma coluna de socorro a essa coluna do Zagalo que tinha sofrido uma mina e e acabámos por cair noutra que vitimou o “Manel Açoreano” que era o único soldado dos Açores integrado na nossa companhia de madeirenses.

Mas quanto a protecção aos barcos nessa parte do Geba, ainda não se falava muito. Sei, especialmente pelos relatos do Beja Santos 
no seu primeiro livro ( "Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terras dos Soncó”) que ir diariamente a Mato Cão para proteger as embarcações nessa zona era parte do seu mister.

Mas parece que isso só começou a sério depois de nós termos voltado a Portugal.

Durante a minha estadia na Guiné estive estacionado em Missirá várias vezes, por um mês, o que na prática por vezes se prolongavam por dois meses e mais. Mas não tínhamos obrigação de ir até Mato Cão ou fazer aí patrulhas com a finalidade de proteger embarcações.

Enquanto o Beja Santos foi para aí enviado com esse fim em vista (penso eu) e Missirá era já mais ou menos independente de Enxalé, nos meus tempos Missirá era apenas um simples destacamento de Enxalé.

Estávamos aí destacados fazendo mesmo muito pouco ou mesmo nada, excepto proteger quem ia buscar água a um poço aí perto, que era a única água fonte que fornecia a Tabanca de Missirá, esperando pacientemente que outro pelotão nos rendesse.

A nossa missão era apenas a de "dar proteção” nessa zona e participar em operações quando fosse preciso. O que era frequente e de facto o meu pelotão foi requisitado várias vezes para fazer parte em operações a nível de companhia ou mesmo de batalhão.

Missirá sofreu um grande ataque ainda no meu tempo, já perto da nosso regresso a Portugal.

O que me parece é que "o meu tempo” da CCAÇ 1439 foi um tempo de transição em que Missirá e Porto Gole, embora ainda integrados na companhia que estava em Enxalé, passavam a ter já mais autonomia.

Depois do nosso regresso a Portugal pelo que compreendo (mas o Beja Santos e o Henrique Matos poderão esclarecer tudo isto melhor que eu), os destacamentos de Missirá e Porto Gole passaram a ser mais independentes: Missirá passou a ser directamente dependente de Bambadinca, com pouca ou nenhuma ligação com Enxalé, e quanto a Porto Gole penso que ainda ficou por algum tempo mais dependente de Enxalé.

Mas já se sentia esse tempo de “transição” (que mais me pareceu um tempo de confusão do que transição) que não foi tão fácil para ninguém: quando destacaram para Porto Gole um "pelotão independente” sob o comando do alferes Maldonado, este destacamento de Porto Gole sofreu logo um tremendo ataque que levou a vida do próprio alferes Maldonado. E eu que de lá tinha saído semanas antes, não tive senão que aceitar as ordens do meu comandante, capitão Pires e tive de voltar para lá até que arranjassem outro alferes para o substituir. Foi o Henrique Matos.

O mesmo viria a acontecer com Missirá, que sofreu um tremendo ataque quando lá puseram um “pelotão independente”, ainda dependente de Enxalé, mas já com maior autonomia, sob o comando do alferes Marchand.

Depois de tremendo ataque a Missirá, quando o alferes Marchand aí se encontrava, a CCAÇ 1439 foi instruída a fornecer outra vez um dos alferes e foi o alferes Freitas que para lá voltou.

E até voltarmos nunca deixou de estar sob a dependência de Enxalé… na altura em que chegou hora de voltar a Portugal era eu que me encontrava em Missirá e de lá partimos para Fá, e daí para Bissau, rumo a Portugal.

( Vide Postes:
 22940).

Isto tudo sobre "voltando ao Mato Cão” para dizer que, no que se refere a proteção das embarcações no Geba, nessa zona perto de Mato Cão, tudo mudou nessa altura, portanto em fins de 1967 e seguintes. 

Nessa altura a companhia de madeirenses CCAÇ  1439 já tínha regressado e eu, contente e aliviado por ter voltado são e salvo da Guiné, depois de ter sido um “oficial” do Exército Português, lavava pratos em Londres para ajudar com as despesas de apendizagem/aperfeiçoamento da língua inglesa que me veio a a valer muito depois.

(Revisão / fixaçãode texto, negritos, título: LG)

2. Comentário do editor LG:


A CCAÇ 1439 teve como unidade mobilizadora o BII 19 (Funchal), partiu para o CTIG em 2/8/1965 e regressou a 18/4/1967, tendo passado por Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole, Missirá, Fá Mandinga. 

O comandante era o cap mil inf Amândio Manuel Pires, já falecido. 

Alferes (milicianos): Freitas (Funchal, Madeira), João Crisóstomo (Torres Vedras, hoje a viver em Nova Iorque), Sousa (Vila Nova de Famalicão), Luís Zagalo (Lisboa, ator de teatro, já falecido).

Síntese da Actividade Operacional

Após o desembarque, seguiu imediatamente para Xime, a fim de efectuar o treino operacional com forças da CCav 678 e assumiu a responsabilidade do subsector de Xime em substituição da CCaç 508, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 697, com a missão de intervenção e reserva do sector.

Em 10Set65, por troca com a CCav 678, foi deslocada para Bambadinca, onde continuou com a missão de intervenção e reserva do sector e assumiu cumulativamente, a responsabilidade do respectivo subsector de Bambadinca.

Nestas funções, tomou parte em diversas operações de que se salientam, pelos resultados obtidos, a operação "Bravura", de 14 a 24Ago65, na região de Galo Corubal e a operação "Avante", de 29 a 30Ago65, na região do rio Burontoni.

Em 090ut65, por troca com a CCaç 556, assumiu a responsabilidade do subsector de Enxalé, com destacamentos em Missirá e Porto Gole, mantendose na dependência do BCaç 697 e depois do BCaç 1888. 

No período, efectuou várias operações nas regiões de Madina Belel, Bissá e Porto Gole, em que
capturou bastante armamento e material.

Em 08Abr67, foi rendida no subsector de Enxalé, por troca, pela CArt 1661 e recolheu seguidamente a Fá Mandinga, onde se manteve, temporariamente, como subunidade de reserva do sector.

Em 17Abr67, seguiu para Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

Observações  Tem História da Unidade (Caixa n.º 74 - 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág. 349