Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Abrantes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Abrantes. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28312: O cruzeiro das nossas vidas (32): A partida de comboio, do Cais da Rocha Conde d' Óbidos para Abrantes, do pessoal do BCAÇ 1857, que desembarcou do T/T Uíge em 9 de maio de 1967 (Manuel Joaquim, ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67)


Foto nº 1


Foto nº 1A


Foto nº 1B


Foto nº 1C


Foto nº 1D




Foto nº 1E


Foto nº 2


Foto nº  2A


Foto nº 2B


Foto nº 2C

Lisboa > 9 de maio de 1967 > "Saída do Cais da Rocha Conde de Óbidos de um comboio,  transportando o BCaç 1857, acabado de chegar da Guiné, a caminho de Abrantes. Há a curiosidade de o trânsito estar a ser dirigido por um polícia sinaleiro, popularmente chamado “
' cabeça de giz' ”.

Fotos (e legenda): © Manuel Joaquim (2022). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. Mensagem do Manuel Joaquim, que ontem celebrou o seu 85º aniversário,  e que nos chegou com atraso de... quatro anos (!). 

Foi o último mail que recebemos dele, mas não já não escrito por ele, por razões de saúde (que ele nos explicou, em texto anexo, a publicar em próximo poste), mas por um dos netos. A segunda parte será publicada em próximo poste: aí ele faz o ponto da situação do seu estado de saúde. Sendo um mail muito pessoal, não o publicámos na altura.  

Mas junto vinham estas duas fotos, de grande interesse documental, e até agora inéditas. São uma verdadeira viagem no tempo! Uma autêntica "cápsula do tempo" de Lisboa e das nossas vidas de antigos combatentes da Guiné. Têm já 6 décadas!

Merecem ser publicadas na série "O Cruzeiro das Nossas Vidas". Todos temos imagens imperecíveis da nossa partida para a Guiné (incluindo a viagem em..."comboio-fantasma", de noite, como eu, que vim justamente de Abrantes para o cais da Rocha Conde de Óbidos), mas poucos já têm, na memória, os detalhes da chegada, de barco,  muito menos da última viagem de comboio até à unidade mobilizadora (no meu caso, também o RI 2, Abrantes).

A partir daquele dia, com o regresso à "peluda", todos queríamos esquecer os 3 anos de vida que  a Pátria nos roubou...

O Manuel Joaquim foi fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419 / BCAÇ 1857 (Bissorã e Mansabá, 1965/67). Tem 114 referências no blogue. É membro da Tabanca Grande desde 1/8/2009. É autor das séries "Memórias de Manuel Joaquim" e  "Cartas de Amor e Guerra". E padrinho do "menino Adilan" (hoje, o nosso amigo José Manuel  Sarrico Conté, uma infeliz história de guerra com um final feliz; também veio no mesmo T/T Uíge, e partiu com o padrinho no mesmo comboio; foi criado com a família do Manuel Joaquim).

Data - 19 set 2022, 19:53
Assunto - Manuel Joaquim

Olá, Luís, boa tarde.

Aqui estou eu, vivinho da costa!

Em vez de novas palavras, junto um texto e anexo mais duas  fotos da minha chegada da Guiné, as únicas que até hoje vi retratando uma partida de comboio de um cais de Lisboa.

 Aqui trata-se da saída do Cais da Rocha Conde de Óbidos de um comboio transportando o BCaç. 1857 a caminho de Abrantes, no dia 9 de Maio de 1967. Há a curiosidade de o trânsito estar a ser dirigido por um polícia sinaleiro, popularmente chamado “cabeça de giz”.

Um grande e afetuoso abraço do Manuel Joaquim
Viva, meu caro Luís!

2. Comentário do editor LG:
Com a ajuda da IA (Gemini / Google) e pesquisas adicionais (no nosso blogue e na Net), bem como do conhecimento pessoal do local,  melhorámos a legendagem destas duas fotografias históricas, perdidas na nossa caixa de correio. Mas esperamos o concurso dos nossos leitores (e em especial dos lisboetas) para corrirgir ou complementar as legendas.

Lisboa, Alcântara, Cais da Rocha Conde d'Obidos, 9 de maio de 1967.

 Estas imagens (fotos nºs 1 e 2)  captam o momento histórico da saída do Cais da Rocha Conde de Óbidos de um comboio militar. A bordo segue o pessoal do Batalhão de Caçadores 1857 (BCaç 1857). 

Estas imagens imortalizam o momento da partida  do comboio a caminho de Abrantes (onde ficava o RI 2, a unidade mobilizadora do BCAÇ 1857). Também mostram a envolvente de Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Alcântara, Lisboa.

O BCAÇ 1857 acabava de desembarcar do T/T Uíge, da Companhia Colonial de Navegação (CCN) , no Cais da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos.  Era nesta gare marítima  que atracavam habitualmente os grandes paquetes e navios de transporte de carga e passageiros do Ultramar. Era o "cais colonial".
O comboio, repleto de soldados nas janelas, seguia rumo a Abrantes. Na foto nº 1A, em primeiro plano (na  foto nº 2A, já de costas), é possível ver o trânsito a ser dirigido por um polícia sinaleiro, figura icónica da época popularmente conhecida como “cabeça de giz” devido ao seu capacete branco. É uma popular figura do passado. Foi a primeira grande vítima da automatização, neste caso com a introdução dos  primeiros semáforo automáticos em 1971, em Lisboa.  
Nas fotos do Manuel Joaquim, o comboio já está em marcha, vindo da Rocha do Conde de Óbidos (a leste) e a avançar para oeste ao longo da linha de cintura do porto, cruzando a artéria rodoviária na zona do cruzamento de Alcântara/Avenida de Ceuta.

O comboio iniciou a sua marcha nas próprias linhas do cais, porto de Lisboa,  junto à Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos , onde as composições encostavam diretamente para receber os militares recém-desembarcados e as suas bagagens.

A composição circulava pelo Ramal de Alcântara (ramal ferroviário que ligava a zona ribeirinha e o Porto de Lisboa à rede ferroviária nacional), prosseguindo em direção à Estação de Alcântara-Terra   (através do Ramal de Alcântara), de onde engatava na Linha de Cintura para rumar ao interior do país, neste caso, com destino a Abrantes (onde ficava o RI 2, a unidade mobilizadora do batalhão) para o posterior licenciamento das tropas. 

Análise mais detalhada dos elementos e locais identificados nas duas fotografias.

Cruzamento Alcântara / Av 24 de Julho 
 
A composição está a atravessar o entroncamento/cruzamento rodoviário na zona de Alcântara que articulava o tráfego vindo da Avenida 24 de Julho, da zona ribeira e do acesso à tancada de subida para a Ponte 25 de Abril (à data, Ponte Salazar) e Avenida de Ceuta.

Sinalização Direcional (Visível na Foto nº 2): a placa rodoviária em primeiro plano indica explicitamente as direções estratégicas criadas na altura da inauguração da ponte (1966):

  • "Ponte" (com seta a apontar para a rampa de acesso à Ponte Salazar (hoje, 25 de Abril); 
  • "Av de Ceuta" (com seta a indicar a ligação no sentido norte/Avenida de Ceuta).

Na foto nº 1, destaca-se ao fundo o viaduto metálico de acesso à Ponte 25 de Abril (inaugurada escassos meses antes, em agosto de 1966) (diz a IA,mas eu, confesso,  não o consigo ver).

Estação ferroviária de Alcântara-Terra


Na Foto nº 1, temos a Avenida de Ceuta, em Lisboa, vista a partir do cruzamento em direção a Alcântara. 

A estação que vemos à direita é a Estação Ferroviária de Alcântara-Terra. Na imagem, os carris ainda circulavam à superfície à face da estrada, antes de o canal ferroviário ter sido rebaixado e protegido como se encontra hoje em dia. (Não confundir com a estação de Alcântara-Mar, que fica mais abaixo, mais próxima do rio Tejo e junto à Linha de Cascais.)

O vale de Alcântara passou por uma transformação radical a partir da década de 1940 com a cobertura da antiga ribeira para a construção da Avenida de Ceuta, uma obra fundamental desenhada pelo urbanista Groer para ligar o centro e as zonas norte à margem do rio.
 

Polícia sinaleiro (“Cabeça de giz”) / Posto de trânsito

Na Foto 1 (no canto inferior direito) e na foto 2 (ao centro da via, junto a um pequeno estrado circular ou "talude" ou "peanha"), vê-se o polícia sinaleiro da Polícia de Segurança Pública (PSP) (O "Corpo de Policias Sinaleiros" foi criado em 1927, e chegou a ter  270 efetivos. )

A presença desse polícia sinaleiro no meio do cruzamento é um dos pormenores mais fantásticos e autênticos destas duas fotografias de 1967.

Em meados da década de 1960, a figura do sinaleiro era absolutamente vital para gerir o trânsito de Lisboa. O cruzamento da Avenida de Ceuta com a zona ferroviária de Alcântara era um ponto extremamente crítico e perigoso, onde o tráfego rodoviário em crescimento constante se cruzava diretamente com as linhas de comboio à superfície.

O polícia sinaleiro tinha um papel exigente neste local: 

(i) fardamento rigoroso: vestia o clássico uniforme com o capacete branco (perfeitamente visível na imagem), luvas brancas para destacar os gestos e uma farda impecável;  

(ii) coreografia de trânsito: controlava os automóveis através de movimentos de braços muito precisos e elegantes, em cima de um pequeno palanqute; 

(iii) coordenação ferroviária: quando um comboio como este vinha do cais a caminho de Abrantes, o sinaleiro tinha de mandar parar imediatamente todos os carros na avenida para dar prioridade absoluta à composição ferroviária, já que não existiam os automatismos e as barreiras modernas de hoje em dia.

Estes profissionais eram autênticas figuras castiças da capital, muito respeitados pelos condutores e pelos peões, que até lhes costumavam oferecer presentes e "boas-festas" na época do Natal (uma iniciativa do Automóvel Club de Portugal).

Viaturas automóveis e envolvente urbana de Alcântara

Na Foto 1, no lado esquerdo da via, sobressaem dois automóveis ligeiros característicos da época estacionados ou a aguardar sinalização: 

  • À esquerda, um Ford Cortina (Mark I) escuro (com a placa de matrícula da época EI-40-49).
  • Ao centro/esquerda, um Austin Cambridge / Morris Oxford (série Farina) de cor clara (com a matrícula LP-68-41).

Ao fundo e na lateral esquerda, observam-se os edifícios de traça industrial do Porto de Lisboa e dos armazéns de Alcântara, para além das colinas de Alcântara/Prazeres  (ao fundo, o Cemitério dos Prazeres)

Cemitério dos Prazeres / "Cerca de ciprestes"

Na crista da colina que se ergue ao fundo da Foto nº 1  (alinhada com o eixo da Avenida de Ceuta   e a encosta de Alcântara), sobressai uma mancha densa e escura de árvores perfeitamente alinhadas.

Trata-se da emblemática e monumental muralha/cerca vegetal de ciprestes do Cemitério dos Prazeres. Fundado em 1833 no topo do outeiro, o cemitério alberga uma das maiores e mais antigas concentrações de ciprestes (Cupressus sempervirens) da Península Ibérica, funcionando como um verdadeiro marco na paisagem urbana visto a partir do vale de Alcântara e do rio Tejo.

 Comando Local da Polícia Marítima de Lisboa / Capitania do Porto de Lisboa

O edifício em primeiro plano (lado esquerdo) (Foto nº 1), de tom claro/rosado com dois pisos, telhado de telha tradicional e janelas em fiada, situado logo atrás dos automóveis estacionados (o Ford Cortina e o Austin Farina), corresponde a instalações históricas ligadas à autoridade marítima/portuária na zona de Alcântara-Mar / Cais da Rocha.

Era (é ?)  a sede do Capitania do Porto de Lisboa  (área de Alcântara-Norte), responsável pela jurisdição do Porto de Lisboa e pela fiscalização das operações de acostagem e desembarque no Cais da Rocha Conde de Óbidos e Doca de Alcântara.

Ponte sobre o Tejo / Travessia ferroviária

Recorde-se que o comboio, operado pela Fertagus, na Ponte 25 de Abril (ex-Salazar) só  começou a circular a partir de 29 de julho de 1999. 
 
A ponte em si foi inaugurada muito antes, a 6 de agosto de 1966, mas a plataforma inferior foi projetada de raiz com espaço para receber a ferrovia dupla, que só viria a ser instalada décadas mais tarde.

Pesquisa: LG + IA (Gemini / Google IA) + Blogue
(Condensação, revisão / fixação de texto, links, negritos: LG)
   
 ____________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 19 de novembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22731: O cruzeiro das nossas vidas (31): a minha viagem (pacífica) no N/M Ambrizete, de 3 a 9 de novembro de 1970, com partida (atribulada) oito dias depois do programado (Hélder Sousa, ex-fur mil trms, TSF, Piche e Bissau, 1970/72)

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Guiné 61/74 - P23827: "Um Olhar Retrospectivo", autobiografia de Adolfo Cruz, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2796. Excerto da pág. 407 à 483 - Parte III - Abrantes e Santa Margarida; três dias de detenção e, o Rosa e o Cunha


1. Continuação da publicação de um excerto do livro "Um Olhar Retrospectivo", de Adolfo Cruz (ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2796 - Gadamael e Quinhamel, 1970/72), parte que diz respeito à sua vida militar.


III - Abrantes e Santa Margarida…

Chegado ao RI 2 (regimento de infantaria), Abrantes, apresento-me ao oficial de dia, um tenente, que logo reage:
- Mas…, de onde vem?! Leiria?!... Então, em Leiria anda fardado dessa maneira?!’
- Não, propriamente, mas o calor...
- Olhe, fica registada a sua apresentação, mas eu não o vi! Deixe-me cá ver a que companhia pertence... Pois é, a 2796 formou e já saiu daqui há muitos dias, rumo ao campo militar de Santa Margarida, para o IAO...

Agradeci e parti para Santa Margarida, onde me esperava a Companhia de Caçadores Independente 2796.

Chegado, ainda passei um certo tempo até encontrar o local onde a companhia estava instalada, uma vez que o campo militar é bastante grande e ‘abriga’ muitas companhias, das diversas armas.
Apresentei-me ao comandante, o tenente Assunção e Silva e restantes companheiros de missão, após o que me informaram que ficaria integrado no 4º grupo de combate.

Na altura, o efectivo da companhia ainda não estava completo, pois ainda faltavam alguns elementos, graduados, 1ºs cabos e soldados, segundo informação, que iriam ter connosco à Guiné, em rendição individual.
Na altura, recordo-me dos graduados que já se tinham apresentado, Ponte, comandante do 1º grupo de combate, Manso, comandante do 2º grupo, Campinho, comandante do 3º grupo, e Rodrigues, comandante do 4º grupo, 1º sargento Moreira e 2º sargento Baptista, furriéis Magalhães, Ferreira, Neves, Amaral, Fernandes, Rosa, Cunha, Chaves, Silva, Oliveira, Coelho, Fabrício, Anjos.
Mais tarde, já em missão, na Guiné, para complemento do efectivo, por falhas ao embarque, casos do Rosa e Cunha, ou por baixas, recebemos o Tristão, o Esteves, o Pereira, o Queiroz, o Guimarães, o Vilas Boas e o Matias.

Normalmente, o IAO, instrução de aperfeiçoamento operacional, era feito em mês e meio, mas o nosso levaria três meses, pelas nossas contas.
Tudo foi correndo dentro do estabelecido e normal, com os fins-de-semana na Figueira da Foz ou em Lisboa, com saída do campo militar à quinta-feira, final da tarde, e regresso segunda-feira, às oito da manhã.
Nos intervalos das operações, aproveitei para experimentar vários tipos de viaturas militares, como o Jeep Willys, os Unimog 411 e 404, a Mercedes, a Berliet.
Descubro um amigo de cavalaria, de Coimbra, que me dá a oportunidade de experimentar um M47, o tradicional tanque de guerra, complicado de manobrar, primeiro, pelo reduzido espaço do habitáculo do condutor, depois, pelos instrumentos de manobra que requerem concentração e prática.


Três dias de detenção!

E já estava um pouco saturado e cansado daquele cenário, apesar de enorme, em dimensão, mas que se tornava um pouco claustrofóbico!
A vontade irresistível de sair dali, nem que fosse por uns momentos, tomou conta dos meus sentidos e levou-me a pegar num Unimog 411 e partir por aí fora.
Comigo, foi um enfermeiro de uma outra companhia que eu tinha conhecido nas Caldas da Rainha.
Partimos do campo militar cerca das nove da noite e, depois de quilómetros e quilómetros de maluquices, regressámos ao campo militar, pelas seis da manhã.
Antes de lá chegarmos, perdemo-nos um pouco, tendo ido dar a uma herdade, aguardando que alguém aparecesse, pois o ladrar dos cães acordaria qualquer um, num raio alargado.
Acendem-se luzes e aparece um senhor, em roupão, a quem perguntámos como chegar ao campo militar.
Olha para nós, com ar de reprovação, e diz-nos para irmos sempre em frente, até chegarmos às traseiras da capela.
Mais tarde, viemos a saber que se tratava de um coronel de cavalaria do campo militar, já com uns anos a viver ali.

Quando chegámos ao campo militar, só tive tempo de estacionar o Unimog e ir às instalações preparar-me para a formatura, pois tínhamos mais um treino militar.
O sargento Moreira chama-me, a pedido do tenente Fernando Assunção e Silva, nosso comandante de companhia, que me diz terem dado como desviado aquele Unimog, sem outra explicação, e lamenta ter de me punir pelo acto, tanto mais que não tinha carta de condução militar.
Respondi que tinha toda a razão e direito de me punir.
Acrescentou que seria para exemplo da companhia.
E, assim, levei três dias de detenção, correspondendo ao período do fim-de-semana, coisa a que já estava habituado, de certa forma, de experiências anteriores...
Mas esta punição já não podia ser apagada por ninguém, como foram as anteriores, pelo sargento-ajudante de Leiria, como lhe contei.

E confirmei isto, trinta e cinco anos mais tarde, quando tratei do meu processo para o estatuto de pensionista, em que era necessário apresentar a caderneta militar.
Fui aos serviços do exército, na Av de Berna e em Chelas, onde me disseram que não podiam dar-me a caderneta, pois tinha levado o mesmo caminho de algumas outras...
Perguntei o que queriam dizer com aquilo e acabaram por dizer-me que todas as que estavam um pouco ‘sujas’ foram destruídas, para bem dos seus proprietários...
Claro que entendi...
Mas deram-me um papel com o resumo do meu currículo militar, que ainda guardo, e lá constam os tais três dias de detenção, de Santa Margarida, ‘porrada’ que já ninguém pôde ‘limpar’...

Passar o fim de semana, em serviços, dentro do campo militar, era uma tortura.
Depois de todos terem saído, peguei nas minhas coisinhas e ala para a Figueira da Foz, final da tarde de quinta-feira.
Sábado, final da manhã, telefonei para o campo militar e falei com um elemento do meu grupo que logo me diz que as coisas não estavam bem - anda tudo ‘à porrada’ nos refeitórios - o que deu origem a queixas ao responsável pelos refeitórios e messes.
Eu pedi-lhe para falar com os nossos e tentar controlar a coisa, pois só poderia regressar na segunda de manhã.

Na segunda feira, o tenente Assunção e Silva pergunta-me:
- Então, Cruz, correu tudo bem?
- Sim, tudo bem!
- Tem a certeza?...
- Sim, tudo controlado!

Ele já sabia que eu me tinha pirado... Mas, que castigo pior do que ir para a Guiné?...
- Realmente, o Adolfo parece que nasceu para infringir regras...

Pois, uma espécie de instinto a atirar para o lado errado...
Entretanto, recebo um aerograma do meu irmão, ainda em Moçambique, que me fala em qualquer coisa relacionada com uma Guiomar, um conhecimento das suas férias à Metrópole, cerca de um ano antes, pedindo-me que, se ela aparecesse a querer aproximar-se, eu tratasse do assunto, como entendesse.
Mas ninguém apareceu nem ouvi nada que se relacionasse com o assunto, pensando que tudo estaria resolvido, sem que necessitasse da minha intervenção.
Se algo acontecesse, eu não estaria na Figueira da Foz, pois estava de partida para a Guiné.
E achei melhor nem falar em nada aos meus pais e irmã.
No entanto, isto seria o inicio de mais um problema...


O Rosa e o Cunha...

Dentro deste cenário do Campo Militar de Santa Margarida, alguns graduados eram notados com uma forte cumplicidade: o Rosa, o Cunha, o Neves, o Cruz (nomes de guerra).
Neste contexto, não é difícil imaginar que algo poderia acontecer, com prejuízo para a companhia, claro.
E, quem estivesse bem atento, reparava no temperamento e postura particulares daqueles graduados, além do facto de que o Cruz tinha sido punido pelo tenente Assunção e Silva.
Melhor dizendo, poderiam pensar na eventualidade daqueles graduados faltarem ao embarque para a Guiné, o que piorava a situação da companhia, que estava desfalcada de alguns elementos, esperado aparecerem em rendição individual.
E a suspeição deu sinais, pelas conversas entre o tenente Assunção e Silva e o alferes Ponte, comandante do 1º grupo.

"Pois, Adolfo, era mais um caso a juntar aos muitos que aconteciam, desde o início da guerra do ultramar - dar o salto para o estrangeiro..."

Entretanto, recebo mais uma boa notícia: nasceu a minha primita Filipa, a segunda filha da minha prima Lena, e a alegria aumentou e abraçou a família, restando-me esperar a oportunidade de uma visita para conhecer e dar as boas vindas à Filipa.

Finais de Outubro e dão-nos umas massas para comprarmos algumas roupas específicas, antes do embarque, o que faríamos no Casão Militar, Lisboa, o tal local já muito bem conhecido do Daniel...

Dia vinte e sete, vou à Figueira da Foz e fico para o dia seguinte, dia do aniversário da minha mãe.
Com beijos apertados, dou os parabéns à minha mãe e despeço-me, sem conseguir dizer mais nada...

(Continua)

____________

Nota do editor

Poste anterior de 27 de Novembro de 2022 > Guiné 61/74 - P23821: "Um Olhar Retrospectivo", autobiografia de Adolfo Cruz, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2796. Excerto da pág. 407 à 483 - Parte II - Tavira e Leiria

domingo, 27 de novembro de 2022

Guiné 61/74 - P23821: "Um Olhar Retrospectivo", autobiografia de Adolfo Cruz, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2796. Excerto da pág. 407 à 483 - Parte II - Tavira e Leiria


1. Continuação da publicação de um excerto do livro "Um Olhar Retrospectivo", de Adolfo Cruz (ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2796 - Gadamael e Quinhamel, 1970/72), parte que diz respeito à sua vida militar.


II - Tavira…

Depois de uns dias de férias na Figueira da Foz, intervalo da recruta para a especialidade, a sequência natural: Tavira.
Comboio da linha do Oeste, até ao Rossio, passar o Tejo de barco e apanhar outro comboio no Barreiro - aventura!

Cheguei ao Barreiro, final do dia, e disseram-me que só teria comboio para Tavira de manhã cedo.
Como lá estavam mais dois instruendos que também iam para Tavira, fazer a especialidade, trocámos ideias sobre como passar a noite, até à hora do comboio.
Entrámos numa ‘tasca’, jantámos umas coisas e pedimos aos donos que nos deixassem lá dormir, com sucesso, e dormimos apoiados nas mesas.
Isto fez-me lembrar os meus tempos de boleia…

De manhã, bem cedo, acordaram-nos, tomámos o pequeno-almoço e lá fomos apanhar o ‘quim’ para Tavira.
No comboio, cada um procurou o melhor lugar para descansar, até Tavira.
Fui dormitando, dormitando, até que sou acordado por um senhor revisor, dizendo-me que tinha de sair, pois era fim de linha - estava em Vila Real de Santo António!
Ainda perguntei se mais alguém tinha ficado no comboio, mas disse-me que só eu, pelo que concluí que os outros nem repararam que eu tinha ficado dentro do comboio!
Conclusão: espera mais um comboio, para voltar para trás e chegar ao destino, Tavira.

Chegado a Tavira, apresentação no CISMI (centro de instrução de sargentos milicianos de infantaria) e inserção na 1ª Companhia de Atiradores de Infantaria, cujo comandante fiquei a saber que era o célebre ‘muleta negra’, porque andava apoiado numa espécie de pingalim, resultado de ferimentos no ultramar.
Também tive oportunidade de conhecer e conviver com o célebre ex-alferes Robles, agora, capitão, com uma ‘pancada’ de alto nível, fruto de experiências de guerra colonial em Angola e Guiné.
Curioso, termos concluído que tínhamos conhecimentos comuns de Coimbra, de onde era natural.

Entretanto, a minha tia Jú telefona-me a dizer que o primo Jaime Abreu Cardoso estava à minha espera, pois eu fazia parte de uma lista dos instruendos seleccionados nas Caldas da Rainha para seguirem para Lamego.
Claro que eu disse logo à tia Jú que não ia para lá e até já estava em especialidade, em Tavira, e nem sabia que o Jaime era oficial do quadro e estava lá, pensava que tinha feito a tropa normal e mais nada.
Ela, com razão, respondeu-me que era pena, pois teria a protecção do Jaime, já capitão e com medalhas, além de poder ir com ele passar os fins de semana a Vieira do Minho.
Realmente, uma pena, pois poderia ter uma tropa melhor e, quem sabe, até retomar a vida académica, no Norte, com as facilidades, além de considerar-me nos ‘meus domínios’…

Voltando a Tavira, tive a sorte de conseguir autorização de ‘pernoita fora’, pelo que logo arranjei um quarto, do lado de lá do rio, mas bem perto do centro da cidade.
E não esqueci a rua: Dr. Augusto Silva Carvalho, 15. A dona da casa era viúva e tinha uma filha que tocava piano, interessante, naquele tempo, e tinha amigas que se juntavam a nós, nos serões, bem divertidos.

Eu estava habituado a controlar as aplicações e exercícios militares, principalmente, os nocturnos, de forma a safar-me, o mais possível, desta vez, com o sentido no meu quarto, para tirar a farda e vestir a roupa de civil.
Uma das primeiras formaturas, com revista, o capitão ‘muleta negra’ toca-me nas pernas com a bengala, ordenando que passasse pelo gabinete, dentro de uma hora, com o cabelo rapado, para grande aflição do comandante do pelotão, o alferes Soares, um porreiríssimo.
Sim, ninguém acreditava que eu andava na tropa, pelo menos, pelo tamanho do meu cabelinho.
E até evitava pôr bem a boina para não estragar o cabelinho.
E o ‘muleta negra’ ainda hoje está à minha espera para me ver com o cabelo rapado!…

Um dos companheiros de arma que lá conheci, o Pedro, de Santo Tirso, passou a ser o meu parceiro de farras, como Luz de Tavira, Faro, Vila Real de Santo António,…
Em Luz de Tavira, conhecemos umas miúdas bem engraçadas que passaram a ser a nossa companhia, sempre que podíamos, principalmente, alguns finais de dia e fins de semana - uma óptima forma de passarmos o tempo.
No entanto, sempre éramos avisados do risco de termos de casar em plena parada do quartel…
E o Pedro ficou ‘maluquinho’ com uma daquelas miúdas, lamentando-se, pois tinha a namorada em Santo Tirso.
Não posso deixar de lembrar o esquema que montei, sempre que tinha exercício nocturno, normalmente, na serra.
Formávamos na parada do quartel e saíamos pelo portão sul, que dava para a Atalaia, um espaço livre que ficava nas traseiras do quartel, onde fazíamos exercícios, de dia.
Quando chegava ao portão sul, já eu tinha a G3 quase desmanchada e metida dentro da farda, após o que virava à esquerda, enquanto o resto do grupo virava à direita.
Com passo rápido, atravessava a Atalaia e seguia em direcção ao outro lado do rio, onde tinha o quarto!
No dia seguinte, um esquema parecido, com a G3 desmanchada dentro da farda e reentrada no quartel, para mais um dia jeitoso…

Um dia, chegados ao quartel, depois de exercícios no exterior, um cheiro horrível inundava o quartel!
Toca para o almoço e a malta entra no refeitório, onde o ar era irrespirável, tal a intensidade do cheiro, o que nos levou a rejeitar a refeição, logo, levantamento de rancho!
Como era a segunda vez, o quartel seria fechado, pelas informações que nos chegaram.
Acto imediato, a população de Tavira à porta do quartel, suplicando que não avançássemos com o processo.
O oficial de dia, em pânico, pede-nos para ficarmos por ali, sujando os pratos, sinal de que não haveria levantamento de rancho, mas reconhecendo o erro da cozinha.
Afinal, ele também era responsável, pois era obrigado a provar e aprovar a refeição, logo, conivente.
O que tinha acontecido: o almoço era peixe, mas tinha chegado atrasado e sem a quantidade adequada, pelo que foram arranjar dobrada, à pressa, metida nas panelas, sem a operação de lavagem completa - dobrada com feijão branco, com condimento especial…

Tirando este episódio, posso afirmar que foi o meu melhor tempo do serviço militar, sem qualquer dúvida.
Terminada a especialidade, apresento as minhas opções de colocação, para dar instrução, por ordem de preferência, Figueira da Foz, Coimbra, Leiria.

"Pelo menos, Adolfo, aproveitou bem esse tempo no Algarve.
Se tivesse ido para o Norte, mesmo sabendo que lá tinha o seu primo, talvez não tivesse sido tão bom."


Sim, Daniel, aproveitei bem aquele tempinho, no Algarve!
Mas, se eu adivinhasse o que me estava destinado, acredite que nunca teria deixado de fazer a especialidade em Lamego, independente do facto de lá ter o meu primo…


Leiria…

Colocado em Leiria, no RI 7 (regimento de infantaria), apresento-me uns dias depois e sou inserido na 1ª companhia de instrução, cujo capitão era um ‘gajo’ aceitável.
Naturalmente, procuro um quarto na cidade, muito importante, para mim, apesar de ficar distante do quartel, sete quilómetros, mas havia muitos táxis…
E os trabalhos militares começaram, já com tudo organizado, sempre atento a todos os momentos que eu pudesse aproveitar fora do quartel, pois o ambiente era propício a aventuras e distrações…
Entretanto, surge o sinal de uma amizade, não só pelas circunstâncias de estarmos no mesmo barco, mas pelo facto de constatar que era uma pessoa educada e digna de confiança, o Vilas Boas Soares, do Porto.
Como mostrou interesse em ter um quarto na cidade, dei-lhe a indicação da minha casa e lá foi, tendo conseguido.
Passámos a parceiros de aventuras, nomeadamente, frequentando a pastelaria Soraya, no centro, junto ao cinema, local de encontro de malta jovem, principalmente, das meninas do lar que ficava junto ao outro quartel, o RAL 4 (regimento de artilharia ligeira).
Sempre que em dias de folga ou que conseguíamos ‘desenfiar-nos’, o ponto de encontro era na Soraya, de onde partíamos para as festinhas particulares.

Eu continuava sem grande jeito para cumprimento de normas e regras militares, o que se traduzia em algumas inconveniências, principalmente, para o comandante da companhia, um capitão do quadro.
Mas os homens a quem eu dava instrução eram tratados como homens que eram, não como bichos, pois os meus princípios e valores reinavam, sempre atento a uma ligação saudável, respeitadora.
O mesmo não se passava com alguns outros instrutores, com necessidade de afirmação, com recalcamentos ou complexos, que usavam as divisas ou galões para satisfazerem as suas necessidades de afirmação.
Por isso, todos aqueles a quem dei instrução me tratavam com carinho e respeito, o que nos enchia o ego, naturalmente.

Além da instrução militar e dos serviços de escala ao quartel, outras tarefas me eram atribuídas, como comandar um pelotão de piquete, para promoção e defesa da ordem militar, fora do quartel, assim como para a protecção do património nacional, nomeadamente, Mosteiro da Batalha.
Claro que viria o dia em que estas tarefas me seriam confiadas, que remédio…
Para aquele segundo caso, chega a minha vez e toca a formar o pelotão e sair do quartel, pelas oito da manhã, com chegada ao Mosteiro da Batalha e organização imediata da operação, com distribuição dos homens pelos pontos estratégicos.
Era um dia inteiro nestas circunstâncias, o que causava algum mal-estar aos homens, pois não tinham possibilidade de se ausentarem do seu posto, por muito tempo.
A meio da tarde, um dos homens, aflito da barriga, resolve fazer uma necessidade num canto do interior do Mosteiro, supondo-se livre de ser descoberto.
Uma denúncia, talvez de alguém em visita ao Mosteiro, acaba por fazer com que eu seja solicitado pelo presidente da câmara, para registo e responsabilização pelo acto.
Depois de algum tempo de conversa e mais conversa, a coisa ficou por ali, entre nós, pessoas bem-intencionadas, tolerantes e compreensivas.
Não deixei de notar a satisfação do presidente da câmara pela forma como lhe apresentei o pedido de desculpas, reacção que me deixou sensibilizado.
O homem em questão, confrontado por mim, não sabia onde se meter, coitado.
Chegados ao quartel, antes de entrarmos, tive uma conversa com ele, sosseguei-o e recomendei-lhe mais atenção e cuidado, a partir daquele momento, quer na vida militar, quer na etapa seguinte, a vida civil.

Mais um dia de rotina se iniciava, as companhias formadas, na parada, o meu grupo sozinho, pois eu tinha-me atrasado, o que obrigou o capitão como que a apresentá-lo a ele mesmo.
Mas a coisa foi notada pelo major de instrução, um militarista em toda a linha, temido por todos, desde a família até aos seus superiores.
Chamou o capitão e perguntou-lhe por que razão o grupo estava sem o graduado e ele próprio formou o grupo, ao que respondeu que o graduado tinha ido à caserna tratar de qualquer coisa…
Vá ao meu gabinete, após o destroçar das companhias.
E o capitão levou uma ‘piçada’, como dizíamos, um raspanete, uma chamada de atenção, nem sei se registada!
Mandou chamar-me e só me disse que eu pagaria caro o que acabara de acontecer.


Dez dias de detenção…

Alguns dias passaram e eu sou escalado como comandante de piquete, logo, vinte e quatro horas de serviço, retido no quartel, sempre pronto para qualquer emergência.
Tinha uma festa na cidade e saí do quartel, a seguir ao jantar.
Estava muito bem na Soraya, com a malta, preparados para a festinha, cerca das dez da noite, toca o telefone e chamam pelo meu nome.
Eu nem queria acreditar que havia, por ali, alguém com um nome igual ao meu!
Repetem o meu nome, mas referem o RI 7.
Dei um salto e fui ao telefone: era do quartel, realmente, e logo me dizem que tinha tocado a piquete, que não saiu, pois faltava o comandante…
Desculpei-me e lá tive de ir ao quarto mudar de roupa.
Cheguei ao quartel, por volta da meia-noite e, quando me preparava para entrar, sou recebido pelo oficial de dia, que era, nem mais nem menos, o capitão da minha companhia:
- Eu não lhe disse que iria pagar caro?

Limitei-me a pedir desculpa pela infracção, mas não respondeu, claro.

Entrei e fui direitinho às instalações onde estava a equipa de piquete e logo alguém me disse que tinha havia desordem na cidade e, por isso, o piquete tinha sido requisitado, mas não saiu, pois eu não aparecia…
No dia seguinte, sou chamado ao segundo comandante do quartel que me dá conhecimento dos dez dias de detenção, com manobras militares fora do quartel, mas com um processo que daria despromoção e, até, possibilidade de imediata mobilização para o ultramar.
Falei com um sargento-ajudante da secretaria-geral que me aconselhou a falar com o capelão, pois poderia dar uma palavrinha ao primeiro comandante do quartel, a última palavra no veredicto.
Tudo correu bem, pois o primeiro comandante não permitiu a despromoção, limitando-se a confirmar a detenção.
E lá fui fazer os dez dias de manobras, em que executei diversas tarefas, dentro de algumas especialidades, incluindo saltos livres de helicóptero alouette, carregado de material de campanha, parte dos exercícios, na zona do pinhal de Leiria.
E não podia recusar nada!
Último dia, regresso ao quartel, pelas cinco horas da manhã, saturado e cansado, barba de dez dias, farda número três cheia de lama e pó, com o resto do grupo nas mesmas circunstâncias, sou recebido por um 1.º cabo, que estava de serviço, com um papel na mão:
- Desculpe, mas tenho aqui uma nota para si.
- Não estou com cabeça para notas!
- Pois, mas isto é importante…
Sim, ‘importante’: mobilizado para a província da Guiné!...

Dei instruções para que tratassem do espólio, entregassem as viaturas e recolhessem às casernas.
Não quis saber de mais nada, nem tomei banho e saí do quartel, com destino ao meu quarto, na cidade, após o que zarpei para a Figueira.
Lá fiquei duas semanas, alta recriação, sem nada dizer.
E as duas semanas passaram depressa…

Regresso a Leiria e, quando entro no quartel, logo na porta de armas, disseram-me que andavam à minha procura há muito tempo, com avisos constantes pelos altifalantes.
Dirijo-me à secretaria-geral e logo o sargento-ajudante me vem falar:
- Afinal, o que pretende da vida?! Vai continuar com essa postura pelo resto do seu tempo militar?! Acabou de apanhar um castigo, safou-se da despromoção e desaparece de cena?! A sua companhia está à sua espera, há muito tempo, em Abrantes!
- Tem razão, mas fiquei tão decepcionado com aquela nota que me deram: mobilizado para a Guiné.
- Eu vou tentar limpar as ‘nódoas’ que tem registadas, mas tem de me prometer que guardará só para si. E sabe porque o faço? Porque tenho um filho da sua idade e gostaria que fizessem o mesmo por ele! Veja se encontra o seu caminho certo e não se distraia, durante a comissão, na Guiné, pois aquilo é sério… E, quando voltar, não retome a sua vida civil com este comportamento, pois pode sofrer desgostos…’

Manifestei o meu agradecimento e lá fui direito a Abrantes.

"Realmente, Adolfo, vejo uma mistura de desleixo, de ingenuidade, para não dizer imaturidade! Desculpe a minha franqueza…"
- Sim, reconheço um pouco de tudo isso…

(Continua)

____________

Nota do editor

Poste anterior de 24 DE NOVEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23814: "Um Olhar Retrospectivo", autobiografia de Adolfo Cruz, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2796. Excerto da pág. 407 à 483 - Parte I - "e toma lá com o edital!"

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Guiné 61/74 - P23705: Convívios (945): Almoço comemorativo dos 50 anos do regresso da Guiné dos combatentes da CCAÇ 2796 (Gadamael e Quinhámel, 1970/72), levado a efeito no passado dia 5 de Outubro em Abrantes (Morais da Silva, Cor Art Ref)


1. Mensagem com data de hoje, 13 de Outubro de 2022, do nosso camarada, Coronel Art Ref, António Carlos Morais da Silva (ex-Instrutor da 1.ª CCmds Africanos em Fá Mandinga; Adjunto do COP 6 em Mansabá e Comandante da CCAÇ 2796 em Gadamael, entre 1970 e 1972):

Caro camarada Vinhal
No passado 5 de Outubro os “Gaviões” de Gadamael e familiares reuniram para comemorar a chegada da Guiné no mesmo dia de 1972.
Volvidos 50 anos, novamente juntos, aportaram à unidade mobilizadora em Abrantes onde, na Eucaristia, rezaram pelos camaradas que já partiram.
Terminada esta, assistiram à cerimónia militar de homenagem aos Militares Mortos ao Serviço da Pátria e, de seguida, recordaram e saudaram os seus Mortos em Combate perpetuados no Memorial da Unidade.



Uma vez mais os homens da CCaçInd 2796 ficaram devedores e agradecidos aos militares que prestam serviço no RAME- Abrantes, na pessoa do seu actual comandante Coronel de Infantaria Joaquim José Estevão da Silva a quem convidaram para o almoço de confraternização onde o reencontro avivou memórias e matou saudades do tempo da juventude.
Terminado o encontro anual, ficou a promessa de tocar a reunir em 2023.
Se entender útil, agradeço que este reencontro seja noticiado no nosso blog.

Abraço e muita saúde
Morais Silva

____________

Nota do editor

Último poste da série de 11 de Outubro de 2022 > Guiné 61/74 - P23697: Convívios (944): Rescaldo do XXVII almoço/convívio dos Antigos Combatentes da Vila de Guifões, Matosinhos, levado a efeito no passado dia 5 de Outubro em Santa Marinha do Zêzere, Baião (Albano Costa, ex-1.º Cabo At Inf)

sábado, 13 de março de 2021

Guiné 61/74 - P22001: Os nossos seres, saberes e lazeres (440): Voltei a Abrantes e nem tudo está como dantes (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Novembro de 2020:

Queridos amigos,
Tomem este conjunto de imagens e apreciações como um aperitivo, uma viagem de reconhecimento, há muito congeminada e desejada e por razões espúrias adiada. Feita em tempo de pandemia, com a generalidade dos edifícios fechados, levava-se bússola e houve que aproveitar entre o castelo-fortaleza, o centro histórico e o Tejo o tempo outonal com o seu anoitecer precoce. Tomaram-se notas, o regresso é muito mais do que uma promessa, há aqui património edificado e natural a chamar a nossa atenção. Ir-se-á corresponder ao apelo.

Um abraço do
Mário


Voltei a Abrantes e nem tudo está como dantes

Mário Beja Santos

Registo com mágoa que passara por Abrantes duas vezes, a chamada visita de médico, sair de um transporte, alimentar o estômago, perorar e responder a perguntas, voltar ao transporte e regressar a casa, guardara-se a recordação de uma cidade com um derramado centro histórico entre o castelo-fortaleza e as fímbrias do rio Tejo, que aqui corre ondulante e em largueza. Esta é, pois, a primeira visita com o título de preparatória, pego em literatura institucional, obra da Câmara Municipal de Abrantes de 2009, arruma-se o carro junto à Igreja de S. Vicente e adverte-se o leitor que Abrantes tem história remota e desenvolveu-se na nossa pátria graças à política de defesa territorial da linha do Tejo, muito provavelmente em meados do século XII, é seguro que Afonso Henriques doou o castelo à Ordem de Santiago da Espada. Há muito para ver: a arquitetura militar é relevante, lá nos altos da fortaleza subsistem elementos do Palácio dos Governadores, há a imponência dos baluartes, dentro deste espaço defensivo incrustou-se a Igreja de Santa Maria do Castelo, Panteão dos Almeidas e daqui passamos para a arquitetura religiosa. É princípio da tarde, estamos em tempos de pandemia, não há portas abertas para percorrer o interior. S. Vicente vem do século XIII, não faltam remodelações, as do período filipino deixaram marcas indeléveis, só tem uma torre sineira. Contempla-se com imenso prazer a fachada onde se destaca um interessante pórtico-retábulo. Lê-se no seu interior que está marcado pelo barroco, tem azulejaria de meados de Seiscentos. Deliciei-me a percorrer as estruturas entre os arcobotantes, a igreja é contrafortada e mesmo assim não fica com aquele ar de templo acastelado.
Antes de me lançar no centro histórico, não resisti a contemplar o Cineteatro S. Pedro, edifício de meados do século XX, modernista, é uma bela arquitetura, vê-se sem dificuldade que é merecedor de restauro e que lhe deem bom uso. Num passeio a Castelo Branco dei com a transformação do respetivo cineteatro numa sala pluriusos, desde fados e guitarradas, passando pela música de câmara e sessões de cineclube, a agenda é farta, oxalá que depois de o vírus se ir embora embelezem este belo edifício e o tornem um agradável espaço cultural, gostei também muito dos elementos escultóricos da parede lateral, também a pedir limpeza.
Dói um tanto ver estas fachadas escalavradas na velha Abrantes que irei percorrer até ao mercado, gosto do nome das ruas, e sinto-me enternecido por muitos se terem esquecido de uma abrantina dileta, Maria de Lurdes Pintasilgo, de quem tive o privilégio de ser amigo, acompanhei-a, entusiasmado, na sua jornada presidencial, o seu pensamento continua no topo da contemporaneidade, lê-la agora, nestes tempos de maior corrosão de caráter, de campanhas de ódio, de falsificação de notícias, de patrões dos média pretenderem manter-nos aterrorizados, é uma festa para o espírito rever as suas predições e o seu feminismo retemperado, o seu permanente convite ao aprofundamento da democracia na malha dos cidadãos ativos. Ainda bem, estimada Lurdes, que o teu berço não te esqueceu.
Lá vou a caminho do mercado, e a salivar numa paragem para comer uma tigelada e levar um pouco de palha de Abrantes. Regresso ao livro que despoletou esta visita: “Em Abrantes, as construções são em alvenaria de pedra, sobretudo a calcária, mas também, pontualmente, se observa o granito e o xisto. Relativamente à forma, as casas apresentam uma volumetria variável e estreita, moldando-se organicamente à morfologia do terreno. Na sua maioria, têm mais do que um piso, atentando o nível de urbanidade de Abrantes no Antigo Regime”. E sempre a mirar este casario, em muitos casos a pedir obras, passa-se pela fachada da igreja de S. João Baptista, mais outra que resolveu merecer consideração no período filipino. Merece bem a nossa atenção, é uma fachada de erudição admirável, de configuração sóbria e desornamentada, tem algo de palácio, provoca equívoco na tipologia e organização do espaço, podia ser tomada como um palácio, repito. Estava fechada, consta que o seu acervo é merecedor da nossa atenção, pois bem, ficará para um dia de visita quando Abrantes puder estar de portas abertas.
A Igreja da Misericórdia, segundo consta nesta obra, tem um património notável. À igreja adossou-se um edifício de dois andares, parece que num pequeno claustro há uma extraordinária cisterna e as fotografias que vi da sala de reunião dos mesários provoca deslumbramento. Postei-me em frente da fachada, pois claro, e tomo nota do que consta deste livro sobre o centro histórico de Abrantes: “Destaca-se o pórtico em trabalho de pedra calcária de modelação renascentista, desde logo no perfil em verga reta e nas pilastras que o delimitam. No remate da porta evidencia-se um tondo (composição de pintura ou escultura em forma redonda) onde temos um dos temas mais caros à irmandade, a Mãe Universal. Trata-se da Virgem da Misericórdia, ladeada por anjos que seguram o seu manto, símbolo de amparo”. O seu interior tem riqueza profusa e muito boa azulejaria, conserva mobiliário muito raro, enfim, templo de visita obrigatória. Saciado o estômago, retoma-se o passeio para uma quota mais elevada, a fortaleza-castelo, sabe-se que não há circunstância de visitar galerias ou a biblioteca, já se passou por um belo jardim, e há a promessa de que o jardim do castelo seja um regalo para os olhos.
A Igreja de Santa Maria do Castelo estava fechada, nada de mirar as preciosidades arqueológicas e o Panteão dos Almeidas. Lê-se num folheto que esta torre de menagem vem dos tempos provectos e há até mesmo uma lápide que recorda a visita D’El-Rei D. Pedro V. Cá em cima dá bem para perceber como no passado se moldaram duas Abrantes, a circunvizinha deste espaço tutelar e defensivo e aquela que vivia da azáfama do Tejo. Falou-se do período filipino, a Restauração veio reafirmar a relevância do castelo na estratégia militar no espaço da antiga província da Estremadura, não foi ao acaso que por aqui passou uma tumultuosa invasão napoleónica. No século XVIII, o Marquês de Abrantes iniciou a reconstrução do paço pertencente à sua família, como acontece frequentemente entre nós o que se começou não se concluiu e o tal majestoso palácio foi parcialmente destruído devido às obras de fortificação. O general Junot também permaneceu aqui uma boa temporada. Tudo somado e multiplicado, passeamos entre vestígios, só a torre de menagem está conforme, sabemos que é medieval e tem baluartes do século XVIII. Da tal magnificência do Palácio do Marquês restam onze arcos de volta perfeita, preenchendo o paramento de uma das muralhas.
A vista da torre de menagem é deslumbrante, vê-se à vista desarmada o Tejo a serpentear entre terras férteis, passeia-se entre baluartes, percebe-se agora com mais clareza a urbana Abrantes e a circunvizinhança, o jardim do castelo é aquilo que vemos. Para visita de reconhecimento, damo-nos por esclarecidos, há que preparar com mais critério para, pelo menos um dia inteiro aqui se deambular pelo centro histórico, entre maravilhas de arquitetura militar, religiosa e civil, e encontrar os vestígios do passado e do presente, quanto ao mais o Tejo parece uma espinha dorsal e lá de cima, da torre de menagem, sente-se perfeitamente o que é a marca de água das terras ribatejanas. Até à próxima!
____________

Nota do editor

Último poste da série de 6 de março de 2021 > Guiné 61/74 - P21975: Os nossos seres, saberes e lazeres (439): Fui visitar Alves Redol e Álvaro Guerra, Vila Franca de Xira recebeu-me em festa (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Guiné 61/74 - P18699: Convívios (860): Rescaldo do XXVIII Encontro dos Maiorais da CCAÇ 2381, levado a efeito no passado dia 5 de Maio de 2018, em Abrantes (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro)

Alguns dos Maiorais presentes no XXVIII Convívio


1. Mensagem do nosso camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux Enf da CCAÇ 2381, Buba, QueboMampatá e Empada, 1968/70), datada de 28 de Maio de 2018, com o rescaldo do XXVIII convívio dos Maiorais, levado a efeito no passado dia 5 de Maio.


OS MAIORAIS – CCAÇ 2381 COMEMORARAM OS CINQUENTA ANOS DA PARTIDA PARA A GUINÉ

Os MAIORAIS - CCaç 2381, embarcaram para a Guiné no dia 1 de Maio de 1968. Andaram pelas picadas de Ingoré, até finais de julho e seguiram para o Sul. No restante tempo de comissão, até ao regresso em abril de 1970, palmilharam as matas de Buba, Quebo (Aldeia Formosa) Mampatá Forreá, Chamarra e Empada. Estacionaram em Quebo, Mampatá e Chamarra. Desgastaram-se nas colunas de Quebo para Buba e vice-versa e de Quebo a Gandembel. Quedaram-se em Buba na proteção à construção da estrada nova para Quebo. Em maio de 1969, dois Grupos foram para Empada, mantendo-se o restante pessoal entre Buba e Mampatá no apoio e segurança à estrada. Acabaram a comissão em Empada onde se juntaram em novembro de 1969.

Comemoraram os cinquenta anos da partida para a Guiné num convívio que começou com uma visita ao Quartel de Abrantes. Tinham partido deste quartel no dia 30 de abril de 1968, já de noite com destino a Lisboa, onde chegaram de manhã. Depois do desfile ouviram o discurso de um alto graduado que disse, recordo-me perfeitamente: “Todos vocês têm na Guiné uma pequena parcela de terra e é vosso dever defendê-la, com o sangue se necessário”, ao que eu retorqui em pensamento: "dou-te o meu bocadinho, podes ir para lá tu". Claro que, ele não ouviu, e se ouvisse, ria-se de mim e dava-me uma “porrada”.

Neste reviver da partida para a guerra, os Maiorais presentes foram recebidos pelas autoridades militares. No mesmo dia, um batalhão, que tinha cumprido a comissão em Angola, comemorava o cinquentenário do seu regresso. As duas unidades de ex-combatentes foram recebidas pelas autoridades militares com uma guarda de honra em parada, tenho um senhor Major discursado para dar as boas vindas, usando uma linguagem de circunstância que sensibilizou os ex-combatentes. Seguiu-se a deposição de uma coroa de flores no monumento aos combatentes do Regimento de Infantaria 2 de Abrantes. Procedeu-se à chamada dos camaradas falecidos em combate o toque a silêncio em sua honra, e foram 8 no total. Três Maiorais e cinco do Batalhão.

Os Maiorais seguiram para a Capela do quartel para celebrarem uma Missa em Ação de Graças pelos Maiorais que regressaram e estão vivos e em sufrágio das almas dos que já partiram para o eterno aquartelamento.

Findo este ato religioso, os Maiorais, abandonaram o Quartel e seguiram para o convívio que se vem fazendo há vinte oito anos, com um almoço num restaurante em Alferrarede.

Ao fim do dia, os Maiorais partiram para suas casas, felizes e contentes com promessas de voltarem para o ano que vem.

José Teixeira


Receção às Unidades de ex-combatentes presentes no antigo RI 2 Com o representante do comandante da Unidade a discursar


O orgulho do Fernando Cardoso em transportar o Guião, ladeado pelo Zé Coelho e pelo Catarino


Jaime Mota, Zé Costa, Querido e Lagrante


Malta da Silva


Marques e esposa, Zé Teixeira, Azevedo e Raúl


Carlos, Freire Marques, Mota e Zé Coelho


Jaime Mota e Zé Teixeira


Zé Querido, Leandro e esposa


Leandro, Lagrante, Estorninho e Zé Costa


Cardoso, Batalha, Zé Coelho e Malta


Raul Brás

Samouco e Vítor, ex-furriéis presentes

Batalha, Dário Raúl e Freire


Zé Teixeira e Dário - o braço do padeiro ao enfermeiro


Leandro, Dário e Acácio
____________

Nota do editor

Último poste da série de 29 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18691: Convívios (859): XII Encontro do pessoal da CCAÇ 4740 e Cufarianos, a levar a efeito no próximo dia 16 de Junho de 2018, em Fátima (Armando Faria, ex-Fur Mil Inf MA)