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sábado, 7 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27802: In Memoriam (575): António Lobo Antunes (1942-2026): "Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa" (seleção de uma crónica de 2008, por António Graça de Abreu)


António Lobo Antunes (1942-2026) (*)
Foto: Cortesia de Instituto Camões (2018). com a devida vénia.
Editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa

por António Lobo Antunes / António Graça de Abreu


Caríssimos tertulianos, camaradas e amigos:

António Lobo Antunes, enorme escritor, foi alferes médico no leste e centro de Angola, de 1971 a 1973.  Na sua crónica na revista Visão, ontem, quinta feira, a 19 de Junho de 2008, escreveu:

(…) Todos os anos a minha companhia lá da guerra [CART 3313 / BART 3835, Angola, 1971/73] faz um almoço com os que sobejam da miséria em que andámos. 

Não neste último almoço, no penúltimo, o furriel Firmino Alves começou a anotar os telemóveis dos nossos camaradas para os contactos da refeição seguinte, até que chegou ao 'Pontinha'. 

'Pontinha' é a alcunha do ordenança da messe de oficiais, que morava na Pontinha. Como a cabeça dele era grande (continua a ser grande), chamavam-lhe também 'Porta-aviões', porque dava para os aviões aterrarem.

O 'Pontinha', como muitos dos soldados, vive com dificuldades. Ao fim de semana engraxa sapatos para equilibrar o orçamento.

(…) Falar dos meus camaradas comove-me: a expressão irmãos de armas é tão verdade. Enquanto nos aguentamos por cá. Mesmo depois. Zé Jorge, continuamos irmãos de armas. Cabo Sota: admiro a tua coragem até ao fundo da alma. Sozinho com a Breda, uma metralhadorzeca, aguentou um ataque. E vive mal, percebem? Como se deixa viver mal um herói? Ao acompanhá-lo ao táxi em que voltava, doente, ao Alentejo, avisei o condutor:

- Você leva aí um grande homem, sabia, um dos maiores homens que conheço e, como todos os grandes homens da guerra, de uma infinita modéstia, bondoso, sereno. Não lhe chego aos calcanhares. Cabo Sota, tu mereces a continência de um general. O Zé Luís, oficial de operações especiais que em matéria de coragem não necessitava de aprender com ninguém:

- Eram duros

expressão que constitui para nós o supremo elogio. Adiante. Contava eu que o furriel Firmino Alves anotava os telemóveis até que chegou ao 'Pontinha' e como fizera com os outros perguntou:

- Tens um telemóvel, 'Pontinha'?

E o 'Pontinha' logo a mostrar serviço:

-Não, mas a minha mulher tem um microondas.


(…) Boaventura, Nini, Licínio, vocês todos, caramba, como a gente somos irmãos. Unamuno, que muito respeito, tem páginas admiráveis sobre a valentia dos portugueses. 

Tens razão, Zé Luís, eram duros. Ganas de explicar às mulheres deles, aos filhos deles, o orgulho que tenho em ser amigo dos pais, em que os pais sejam meus amigos. Não: irmãos de armas. Não: irmãos. E bons como o pão. 

Ao lado disto que maior elogio se pode fazer? Ao menos que o País os beije antes de os deitar fora e lhes peça desculpa. E há mais anjos para além dos padeiros, de arma nas unhas mata fora. 

Nenhum deles é banqueiro, claro. Nem administrador. Nenhum deles joga golfe. Jogaram golfe num campo de um só buraco onde não é a bola que cai. É um rapaz de vinte anos.

E acabo aqui, antes que seja tarde para marcar o número de um microondas. (...)


Camaradas de Portugal e da Guiné, depois de ler este texto, duas grossas lágrimas correram-me pelo rosto. Que o nosso País nos “beije antes de nos deitar fora e nos peça desculpa”. Que a vossa Guiné-Bissau vos beije também, “antes de vos deitar fora e vos peça desculpa.”

Sem complexos nem traumas de colonialista, sem complexos, sem traumas de colonizado, vamos ler outra vez o texto do António Lobo Antunes.

Depois, vamos adormecer em paz.

Um abraço,
António Graça de Abreu
S. Miguel de Alcainça,

20 de Junho de 2008
Ano do Rato
________________

Nota do editor  L.G.:

(*) Último poste da série > 6 de março de 2026 >
Guiné 61/74 - P27801: In Memoriam (574): António Lobo Antunes (1942-2026): até sempre, camarada! (Luís Graça)

sexta-feira, 6 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27801: In Memoriam (574): António Lobo Antunes (1942-2026): até sempre, camarada! (Luís Graça)


António Lobo Antunes, alf mil médico,
Angola, c. 1971/73, nosso camarada
antes de ser escritor famoso.
Foto: arquivo da família, com a devida vénia,
editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas
da Guiné (2026)


1. O António Lobo Antunes morreu ontem, dia 5, quinta feira, aos 83 anos (*). 

Um dia, daqui a uns anos, vai ter honras de Panteão Nacional, a avaliar pelas homenagens que o país e as suas elites lhe estão a prestar. 

Hoje o seu corpo está em câmara ardente, desde as 16h00, na Igreja de Santa Maria de Belém, no Mosteiro dos Jerónimos, um privilégio que é só para os nossos "maiores". O Governo decretou um dia de luto nacional em sua homenagem. Vai ser amanhã, dia em que se realiza o seu funeral.

Vai ser também condecorado, a título póstumo, com o Grande-Colar da Ordem de Camões, 
por serviços relevantes à língua portuguesa e à projeção  da cultura lusófona no mundo. Como sabemos, foi durante  anos e anos um "nobelizável", um candidato ao Nobel. 

Como alguém disse (o editor e escritor Francisco José Viegas, entrevistado ontem pelo "Diário de Notícias"), não foi o Lobo Antunes que perdeu o Nobel, foi o Nobel que perdeu o  Lobo Antunes. Como perdeu muitos grandes escritores universais, desde o russo Tolstói ao irlandês James Joyce, do argentino José Luís Borges ao  nosso Fernando Pessoa (os suecos têm uma desculpa: não podiam adivinhar o que estava lá dentro, no seu baú)...

Segundo a RTP,  e de  acordo com a agência funerária responsável, as cerimónias fúnebres realizam-se, sábado,  a partir das 10h00, com a celebração de uma missa de corpo presente,  pelas 12h00.

 O funeral seguirá depois para o cemitério de Benfica, em Lisboa, o bairro onde ele nasceu e cresceu, e que é também uma das fontes primordiais das suas memórias.

Recorde-se que o António Lobo Antunes  (um de seis irmãos de uma "ínclita geração") foi nosso camarada, tendo cumprido o serviço militar como alferes miliciano médico, em Angola, no BART 3835 (1971/73), e tendo ficado com uma ligação muito especial à malta da CART 3313.

O título deste poste pode parecer  ser pretensioso: "até sempre, camarada!"... Mas, não, não estamos a pôr-nos no pedestal, à boleia desta triste notícia necrológica: afinal, ele foi nosso camarada, mesmo sendo o Dr. Lobo Antunes, e antes de ser um escritor famoso, tendo cumprido o serviço militar como alferes miliciano médico, em Angola, no BART 3835 (1971/73). Ficou com um ligação muito especial ao pessoal da CART 3313. E emocionava-se ao falar, em público, dos seus camaradas de armas.

Contrariamente ao que alguns pensam ou opinam, ele não foi o chefe de fila da literatura da guerra colonial, embora a guerra colonial seja um tema recorrente e obsessivo dos seus livros (e são mais de 4 dezenas). Mas, se não fosse a guerra, muito provavelmente ele nunca teria sido o escritor que foi (e é, porque as suas obras vão sobreviver à sua morte física).

Mas todos reconhecemos que os seus primeiros livros tiveram um efeito de catarse na nossa geração de antigos combatentes, surgidos a partir de 1979, com Memória de Elefante, Os Cus de JudasConhecimento do Inferno (1980), Explicação dos Pássaros (1981)..., obras marcadas pela sua experiência da guerra e pela sua prática clínica como jovem psiquiatra. 

Tornou-se, de facto, o escritor de cabeceira de muitos de nós, nessa época. Nós, que com o 25 de Abril, tínhamos posto uma pedra em cima do vulcão das nossas memórias da guerra, da sua violência e do seu absurdo.

Temos 33 referências no nosso blogue ao António Lobo Antunes, e nem uma ao José Saramago, outro "mal-amado", o que não representa qualquer discriminação. Simplesmente, o José Saramago (1922-2010) não tinha vivências de (nem escritos sobre) a  guerra colonial. Era mais velho, era da geração dos nossos pais. (Referências, acrescente-se, que são, em boa parte, devidas às notas de leitura do nosso crítico literário, o Mário Beja Santos.)

Por estes dias vai-se falar, "ad nauseam!", do escritor e do homem, o António Lobo Antunes, que em vida tinha fama de "enfant terrible".  Muitos que o detestavam (sem nunca o terem lido...), vão pô-lo agora no altar da Pátria. Tem acontecido a todos os nossos grandes escritores. De Camões a Fernando Pessoa. É sempre assim, na hora da morte, ou muitos anos mais tarde (no caso de Pessoa). A morte  tem o condão, em Portugal, de fazer uma besta passar a bestial....

Conheço histórias (e anedotas) da vida dele (e algumas deliciosas mas impróprias para meninos de coro), porque ambos estávamos ligados à saúde, e de algum modo modo à psiquiatria, e ao Hospital Miguel Bombarda. E porque Lisboa é (ou ainda era nos  anos 80/90) uma aldeia. A relação do escritor com a sua "corporação" nunca foi fácil. Afinal, ele era um iconoclasta e um exorcista. Mas em 1986 os seus romances já eram "best-sellers".

A última vez que o vi, já depois da pandemia de Covid-19, foi num hospital privado, onde fui fazer um teste de avaliação neuropsicológica de diagnóstico precoce e diferencial de demências (sempre mais vale prevenir do que remediar, camaradas...).

Fiquei chocado de o ver: passou por mim, ia numa cadeirinha de rodas, empurrada por familiares, entubado, cabisbaixo, ao longo do corredor. O verdadeirpo retrato da nossa miserável condição humana. Bolas, não fomos feitos para sofrer e morrer (nem para matar...), dizia ele, nas inúmeras  entrevistas que deu. No elevador, encontro depois, nessa mesma tarde, a descer comigo no elevador, um outro grande escritor, o poeta algarvio Nuno Júdice (1949-2024), que morrerá uns tempos mais tarde... 

Escrevi no meu bloco de notas, nesse dia: "se calhar escrever, é isso mesmo, uma ilusão de eternidade, um combate (sempre desigual) contra a morte, o esquecimento, o absurdo da vida".

Fui repescar também o que escrevi sobre ele, no nosso blogue, há quase 20 anos atrás:

(...) "O Lobo Antunes conheceu, no Hospital de Santa Maria, aos 65 anos, a terrível e frágil condição do doente oncológico... 

Em março de 2007 deixou-se operar por um amigo de longa data. Ele próprio revelou, em crónica publicada na Visão (12 de Abril de 2007) e ainda escrita no hospital, que estava a lutar (mal) com um cancro...

Na crónica da última semana, publicada na Visão (4 de Outubro de 2007), evoca com grande ternura e com o seu talento de escritor genial o seu camarada Zé, que terá falecido recentemente em brutal acidente de viação na autoestrada de Cascais. Dele diz: 'África ficou para sempre dentro de ti, a roer-te, e deu cabo da tua vida'...

A crónica começa assim, dando a melhor definição que eu alguma vez li sobre o que é ser um camarada. Só o Lobo Antunes poderia escrever isto:

'Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes. Eras meu camarada, que é uma palavra da qual só quem esteve na guerra compreende inteiramente o sentido: não é bem irmão, não é bem amigo, não é bem companheiro, não é bem cúmplice, é uma mistura disto tudo com raiva e esperança e desespero e medo e alegria e revolta e coragem e indignação e espanto, é uma mistura disto tudo com lágrimas escondidas' (...). (**)

Nunca o conheci na intimidade, mas apenas como figura pública, e esporadicamente nas feiras do livro de Lisboa. Não fazia parte da Tabanca Grande. Nem nunca poderia fazer parte. Além de nunca  ter escrito sobre a Guiné, ao que eu saiba (nem por lá ter passado), não tinha, ao que se consta, email, computador ou telemóvel (nem carro)...

Não deixava por isso de ser nosso camarada, naturalmente ilustre. Tivemos aqui algumas picardias, de que ele nunca teve conhecimento porque também não nos lia, mas também nos demos conta, rapidamente, de que o mal-entendido foi nosso, que não o sabíamos ler nem tresler (***).
_______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 5 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27796: In Memoriam (573): Rui Manuel da Silva Felício (Coimbra, 09/10/1944-Ericeira, Mafra, 26/02/2026): Cerimónia fúnebre, hoje, às 14 horas, na igreja de Santa Marta de Casal de Cambra e cremação, amanhã, às 14 horas, no Complexo Funerário de Casal de Cambra

(**) Vd. poste de 6 de outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2161: Pensamento do dia (12): Camarada, uma palavra que só quem esteve na guerra entende por inteiro (António Lobo Antunes)

(***) Vd. poste de 25 de setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7034: Carta aberta a... (4): Camarada (de armas) António Lobo Antunes (António Graça de Abreu)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Guiné 61/74 - P19840: Antropologia (33): "Regressos quase perfeitos, memórias da guerra em Angola", por Maria José Lobo Antunes, Tinta-da-China, 2015 (3) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Agosto de 2018:

Queridos amigos,

Longa foi esta viagem de memórias e sobre a memória, o antes, o durante e o depois, e o depois é marcado pelo regresso à vida, estudos, constituição de família, uma linha profissional. Casos houve de muita dor, o stresse pós-traumático. Anos depois de cada um partir para a sua vida, deu-se o reencontro com o passado, a CART 3313 reúne-se anualmente, segue um ritual, há conversas que dispõem bem, há interpretações de factos em que nem todos são concordantes.

A antropóloga assiste a tudo, entrevistou muitos, leu documentação, conhece a obra do escritor Lobo Antunes. E adverte: 

"Todos os que ali estão sabem que ninguém quer cruzar a fronteira que separa o que deve ser lembrado do que deve ser esquecido. Mas estes encontros não são isentes de risco. A presença dos pares implica o confronto de versões nem sempre coincidentes e que podem expor pedaços indesejados do passado. O passado existe na representação que sobre ele constroem, nas imagens e nos episódios que compõem a história que é contada e repetida, ano após ano.".


Um trabalho de valor excecional, direi sem hesitar tratar-se de leitura obrigatória.

Um abraço do
Mário


Regressos quase perfeitos, uma obra excecional de antropologia (3)

Beja Santos

Aqui se conclui a digressão pelo espantoso trabalho antropológico de Maria José Lobo Antunes centrado na memória de combatentes que fizeram parte de uma Companhia de Artilharia, a 3313, que esteve no Leste de Angola, na região de Gago Coutinho, e mais tarde na região de Malanje. "Regressos quase perfeitos", por Maria José Lobo Antunes, Tinta-da-China Edições, 2015, é um ensaio invulgar, onde se questiona o género e o modo de vida daqueles mancebos, como lhes foram chegando as representações da guerra colonial, como partiram e viram Angola, como regressaram e se reencontraram, a antropóloga acompanhou-os nesses almoços de confraternização onde há uma nova busca de sentido para interpretar aquela experiência que lhes mudou a vida.

Acabada a guerra, mesmo tendo voltado diferentes, condutores ou escriturários, atiradores ou mecânicos, eram homens feitos que iriam retomar as vidas interrompidas. Alguns traziam exames escolares aprovados, outros sonhavam em fazer um curso universitário, outros pegaram logo em ofícios como motoristas ou voltaram à agricultura. Muitos casaram nos anos seguintes. Ouvidos os seus testemunhos, observa a antropóloga: 

“O que sobressai nestes relatos é o reconhecimento da inadequação das respostas pessoais às circunstâncias que os rodeavam. A guerra ainda os rondava. Mas só na década de 1980 é que surgiu a categoria nosológica de desordem de stresse pós-traumático"

Dos entrevistados, só um frequentou sessões psicoterapêuticas de grupo e temos novo comentário da investigadora: 

“O tempo do regresso foi sobretudo um momento para se agarrarem ao que de novo lhes ia acontecendo. A família e o trabalho vieram preencher o que antes fora ocupado pelo quotidiano militar. Dos 26 meses em Angola restaram fotografias guardadas em álbuns, episódios e imagens que persistiam apesar da distância, uma vaga revolta que se foi dissolvendo. Os camaradas com quem viveram durante dois anos desapareceram nas suas vidas retomadas”.

Veio o 25 de Abril, uns acolheram-no entusiasticamente, outros não, questionou-se tanto sacrifício em vão. Dá-se nova palavra à antropóloga, depois de analisar as memórias dos entrevistados: 

“Deslizando entre dois momentos do tempo (o do passado perdido e o da sua convocação do presente), elas evidenciam a falta de alternativas contemporâneas a um discurso identitário herdado do Estado Novo. É esta ausência que traça as fronteiras nos interiores das quais os sujeitos reconfiguram as suas memórias da guerra de Angola”.

Demoraram a reencontrar-se, a primeira vez foi no final de julho de 2001, 30 anos depois do embarque no "Vera Cruz" para Angola, encontraram-se em Fátima.

Houve um trabalho anterior de encontros ou contactos, cada um tinha seguido a sua vida e a investigadora observa: 

“O fim da ditadura implicou a criação de atos de demarcação inequívocos, pelos quais o passado foi remetido para um vasto território impronunciável. O Império Português, reimaginado durante o Estado Novo deixou de existir com a descolonização. Mesmo o vocabulário ultramarino se viu transformado no vestígio anacrónico de um passado tornado impossível com o 25 de Abril”

Houve como que um período de nojo em que uma parte significativa do passado recente desapareceu do debate público. A guerra tornou-se um tabu existencial e discursivo, tema incómodo. Mas foi silêncio breve, logo a seguir começaram a ouvir-se vozes, caso de "Os Cus de Judas", publicado em 1979, era a catarse literária. 

Maria José Lobo Antunes enumera publicações de toda a ordem, desde livros a trabalhos jornalísticos, edições em fascículos, a guerra voltava ao palco, e com polémica, basta lembrar o inflamado debate sobre o Monumento aos Combatentes do Ultramar em Lisboa, a RTP também se interessou em fazer documentários sobre a guerra colonial, foram os 42 episódios da série "A Guerra", de Joaquim Furtado, apareceram depois filmes e séries de ficção, muitos romances nostálgicos, o contraponto a essa vaga saudosista passa pelos romances de Dulce Maria Cardoso e Isabela Figueiredo.

Prossegue o ritual dos encontros, estamos em Coimbra numa manhã de um sábado de junho de 2012.
  
“No meio das caras conhecidas, sou apresentada a uma pequena comitiva que se estreia nos almoços.
Organizado por Valdemar Mendes, antigo furriel do primeiro pelotão, o almoço de 2012 estendeu os habituais convites à família de outro furriel do mesmo pelotão. Mário Alberto Ferreira morreu há 19 anos e nunca chegou a reencontrar a Companhia com quem esteve em Angola. Convidar a família e homenagear o camarada foi a forma encontrada de prolongar para além da morte a ligação que une todos aqueles que partilharam a mesma guerra. O convite foi recebido, e a família apareceu em peso. A viúva, dois filhos, uma nora e duas netas distribuem sorrisos e cumprimentos”

O ritual dos almoços segue um mesmo guião de sempre: convite com a hora e o ponto de encontro, o restaurante, a ementa, o preço da refeição e do transporte. Começam a chegar e abraçam-se, apresentam a família, trazem filhos e netos, afinal o que está a acontecer ali é uma festa de família. A autora fala de Licínio Macedo, um guardador de memória. 

“Na garagem do seu apartamento, em Vila Praia de Âncora, montou um pequeno museu da guerra. Dossiês cheios de recortes de jornal, ementas e convites de almoços anuais, crónicas de Lobo Antunes sobre Angola, álbuns fotográficos, livros e séries documentais sobre a guerra colonial, esculturas africanas. Reformado dos estaleiros de Viana do Castelo, este antigo eletricista dedica uma boa parte do seu tempo livre a organizar os vários objetos materiais que começou a colecionar quando regressou de África”.

Este almoço anual é o único contacto social que têm com o passado de guerra. Todos fazem por estar presentes, quem tem dificuldades económicas e não pode ir, sofre muito. Nas conversas, há por vezes azedume por não se dar mais apoio aos antigos combatentes, pensões válidas, ajuda psicológica e muito mais. A autora dedica um capítulo aos livros de Lobo Antunes e assim chegamos às últimas entrevistas que fez para esta investigação. O apaixonante deste trabalho é saber de antemão que é impossível reaver o instante vivido na sua inteireza, o que é possível é compor reproduções aproximadas e imperfeitas, são revisitações narrativas em que os seres humanos tendem a contar histórias sobre si mesmos. Há muitas incomodidades, como observa a antropóloga:

“A memória de guerra não foi apenas alvo do natural desgaste imposto pelo tempo. Nos discursos de alguns entrevistados é possível distinguir uma intervenção pessoal destinada a apagar os aspetos incómodos do passado. Há quem revele não falar sobre a guerra com a família, há quem mencione ter feito um esforço para não se lembrar. Um de entre estes foi apenas três vezes aos almoços e, das suas palavras, depreende-se a improbabilidade de regressar. O incómodo é mais forte do que o prazer de reencontrar os camaradas. O tempo de guerra é, ao mesmo tempo, a dolorosa memória de um desterro hostil e da juventude despreocupada. É precisamente esta ambiguidade que faz regressar estes homens, ano após ano. O passado que ali se celebra não é o da violência: é o da camaradagem, da união que sobrevive ao tempo, da alegria e do riso, da coragem e resistência”.

Estes pontos de encontro, estas encruzilhadas da memória são, como observa Maria José Lobo Antunes, um mapa possível de um mundo que já não existe, evocado pelas narrativas dos homens que nele viveram. Talvez haja tantas guerras quantos os soldados que os combateram.
____________

Nota do editor

Último poste da série de 22 de maio de 2019 > Guiné 61/74 - P19817: Antropologia (32): "Regressos quase perfeitos, memórias da guerra em Angola", por Maria José Lobo Antunes, Tinta-da-china, 2015 (2) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Guiné 61/74 - P19789: Antropologia (31): "Regressos quase perfeitos, memórias da guerra em Angola", por Maria José Lobo Antunes, Tinta-da-china, 2015 (1) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Agosto de 2018:

Queridos amigos,
É uma investigação antropológica de alto gabarito, a investigadora, filha de António Lobo Antunes, sentiu-se motivada pelas cartas de guerra que o pai escrevera à mulher e por sinais da sua obra literária que percorriam a guerra angolana.

Trata-se de um inédito ensaio sobre a memória da guerra que articula documentos oficiais, episódios pessoais e recordações partilhadas nos almoços de confraternização, é uma busca de sentido, haverá momentos dolorosos, vêm à tona episódios cruéis, choques culturais avassaladores, aquele fim do mundo podia-se medir por milhares de quilómetros, por populações deslocadas à força, era então o Leste de Angola antes de se ter quebrado o ânimo ao MPLA.

Uma investigação exemplar que devia ter paralelos na Guiné e em Moçambique. A autora dá uma razão de tomo: 

"No caso da memória de guerra, a dimensão pública da recordação ocupa um lugar central. É em nome das nações que as guerras são habitualmente combatidas. É a lealdade nacional que convoca todos aqueles que a ela são chamados. É aqui que se joga a possibilidade da recordação ou do esquecimento, da celebração ou do silenciamento públicos".

Um abraço do
Mário


Regressos quase perfeitos, uma obra excecional de antropologia (1)

Beja Santos

"Regressos quase perfeitos, memórias da guerra em Angola", por Maria José Lobo Antunes, Tinta-da-china, 2015, é um documento avassalador, original, ao permitir conhecer o itinerário de antigos militares de uma companhia de Exército, desde as memórias mais remotas das suas vidas, a comissão, o regresso, os encontros anuais.

 É a tese de doutoramento de Maria José Lobo Antunes, durante cinco anos entrevistou dezenas de antigos militares da CART 3313, assistiu aos seus almoços anuais, pesquisou os arquivos oficiais e cruzou estas memórias com o retrato que António Lobo Antunes, médico do batalhão, deixou nas cartas de guerra que escreveu à mulher na sua obra literária.

O fulcro da questão é o trabalho da memória, a antropóloga ciranda, num sábado de junho de 2011, num restaurante de Almeirim, convive com a CART 3313 do BART 3835, pela décima primeira vez estes homens juntam-se e reveem-se durante uma tarde à volta da mesa. 

A estudiosa anota nomes, descreve o cerimonial do encontro onde estão mulheres e filhos, numa mesa já se fala em Mussuma, um destacamento do Leste de Angola junto à fronteira com a Zâmbia. Dois furriéis lembram episódios, muitos outros não se lembram de coisa nenhuma. Temos depois o almoço, corta-se o bolo no final, e depois começa a festa, segue-se o lanche, há um grande cartaz onde está escrito: “Somos quem fomos”. Já não há guerra colonial, Angola já não é nossa, os anos transformaram aqueles rapazolas em homens que caminham para a velhice. Como observa a investigadora, a memória do que foram sobrevive ainda, na partilha de recordações que pertencem a todos.

Maria José é filha desse alferes médico que escreveu “Os Cus de Judas”, um romance que lhe deu rapidamente notoriedade. Era uma criança quando foi com a mãe para a sede da Companhia, em Marimba, faz pois parte da geração da pós-memória e justifica-se:  

“Foi a memória emprestada da guerra (esse passado que de alguma forma também é o meu, mas do qual não me lembro) que criou vontade de ir para além daquilo que conhecia (as histórias, as fotografias, pedaços soltos de um tempo perdido no tempo). O primeiro passo do diálogo possível com a memória alheia foi dado em 2005, no momento em que a minha irmã e eu começámos a trabalhar na edição das cartas enviadas de Angola à nossa mãe. Cinco anos depois da sua morte, tinha chegado o tempo de cumprir a vontade, tantas vezes repetida, de as publicar. Em novembro de 2005, o livro foi lançado. Os antigos militares da Companhia foram convidados e houve uma camioneta que transportou os que viviam no Norte do país. Mais de três décadas após o embarque para a Angola, uma multidão de camaradas reencontrou-se no sítio de onde tinha partido para a guerra. Depois desse dia, comecei a ir aos almoços da companhia”.

Assim se abriram as portas para a sua investigação que culminou na tese de doutoramento que defendeu em 2015. E de novo justifica os seus propósitos:  

“O meu objectivo era construir uma etnografia da memória da guerra colonial que articulasse as diversas escalas em que a memória vive: as memórias pessoais, as narrativas que circulam na esfera pública e a representação oficial do conflito. Em vez de estudar esta guerra na sua imensa complexidade, a etnografia que construí propunha outro olhar, um olhar que reduzia a observação e a análise a uma pequena parte do todo: a CART 3313”.

E escreve mais adiante:  

“Subjacente a esta investigação está a constatação de que o desaparecimento do passado condena o seu conhecimento à construção de suposições impossíveis de provar. O que me interessa não é o que aconteceu, mas sim de que forma se recorda e se esquece aquilo que aconteceu. Aquilo que se recorda e se esquece não é estanque e imutável. A memória resulta de um processo complexo de negociação das condições da sua possibilidade. O tempo é, aqui, um factor fundamental. Tivesse esta investigação sido feita no ano seguinte à desmobilização da CART 3313 ou dez anos depois do 25 de Abril, os resultados seriam certamente outros. A etnografia da memória de guerra que aqui se apresenta parte, precisamente, deste contexto de evocação narrativa generalizada do passado colonial português e da guerra que o defendeu”.

E discreteia sobre o trabalho da memória nas Ciências Sociais, sobre a reconstrução do passado, a memória de guerra. E assim se inicia a viagem do BART 3835, mobilizado em julho de 1970, e daquela Companhia cuja sede de Batalhão vai ser Gago Coutinho.

O pano de fundo da educação daqueles jovens era a retórica imperial, retórica essa já bem fermentada no constitucionalismo monárquico, aquele império africano sucedia aos tempos em que o Brasil era sinónimo de múltiplas riquezas. A investigadora conversa com os militares, como eles se aperceberam da guerra, o que aprendiam na escola, que noções colhiam da pátria, dos heróis, dos valores. Os depoimentos são claros: havia o respeito, a disciplina, a ideia da grandeza do país.

Mas há que dar o seu a seu dono:  

“Nos anos 1960, a educação era um luxo a que nem todos podiam aceder. Seis dos 31 entrevistados não chegaram a cumprir o ensino obrigatório e saíram no final da 3.ª classe. As razões foram as mesmas: residentes em freguesias rurais do Norte do país, provenientes de famílias com poucos recursos económicos, foram forçados a contribuir com o seu trabalho para a frágil economia familiar. Veja-se o caso de José Gomes, nascido numa aldeia no concelho de Sátão, em Viseu. A mãe, filha de pai incógnito, engravidou do patrão da casa onde servia. José Gomes cresceu longe da mãe, também ele filho de pai incógnito, entregue aos cuidados da avó e dos tios-avós. Quando tinha quatro anos, a mãe engravidou de novo patrão. O caixão branco do irmão que morreu pouco depois de nascer é uma das suas recordações mais antigas. Ainda criança, começou a guardar o gado da família. A entrada na escola foi mais um peso na sua vida, a acrescentar ao trabalho que já fazia na agricultura”.

Um contexto de pobreza em grande angular, nas memórias de todos os que concluíram a escola primária e começaram a trabalhar ainda crianças, o trabalho na agricultura ou aprendizagem no ofício fazia parte da ordem natural da vida. 

A autora faz um esboço histórico da vida do Estado Novo e das decisões de Salazar, nomeadamente a partir de 1961, como aqueles rapazes começam a presenciar partidas e regressos, mobilizações, ofertas em dinheiro e alimentos para quem partia, atiçou-se o fervor nacionalista a partir dos primeiros embarques de tropas para Angola. 

Mas a guerra era um mundo distante a que só acediam homens feitos. Aqueles rapazolas não podiam prever que o conflito se prolongasse por longos anos. Abriram-se novas frentes, a guerra instalou-se na rotina nacional das partidas e chegadas de contingentes militares. São tempos também de emigração, irá crescendo a falta de comparência às juntas de recrutamento. E um dia aqueles jovens partem para a tropa, abriram-se oportunidades, caso daquele pastor que se tornou condutor militar. 

Estamos em 1970, um momento crítico para as Forças Armadas, é tempo de um envio médio de 105 mil homens para Angola, Guiné e Moçambique, reduz-se o número de candidatos à Academia Militar, recrutas e especialidades tornam-se numa fábrica gigantesca. Onde, no passado, para ser aspirante a oficial miliciano era imperativo a frequência de um curso universitário passa somente a ser exigido o 7.º ano completo ou até dar provas de competência no curso para sargentos milicianos.

Vai começar a vida da CART 3313.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 8 de maio de 2019 > Guiné 61/74 - P19763: Antropologia (30): Valentim Fernandes e o seu monumento literário “Descrição da Costa Ocidental de África, 1506-1510” (2) (Mário Beja Santos)