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terça-feira, 21 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28200: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (12): Pagadores de promessas... por conta de outrém











Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Já aqui em tempos fizemos um pequeno inquérito "on line" sobre a "ida a Fátima", ou melhor, ao santuário de N. Sra. de Fátima, um dos maiores santuários marianos do mundo (Vd. poste de 1/5/2017, P17375.)

A pergunta ("Fui combatente, nunca fui a Fátima"), era de resposta múltipla. O nº de respostas foi pequeno (n=84). Os resultados não deixam, contudo , de ser interessantes, toda a gente já tinha ido pelo menos uma vez a Fátima na vida:

(i) uns ainda antes da tropa ou da mobilização para o CTIG (n=44) (52%);

(ii) outros depois de virem do ultramar, logo a seguir (n=15) ou passados uns anos (n=17) (38%);

(iii) um em cada cinco como verdadeiros peregrinos ou crentes (n=20) (17%);

(iv) mais de metade apenas como simples turistas (n=47) (55%).


2. Sobre o pagamento de promessas (... por conta de outrém), temos um pequeno depoimento, delicioso e didático, do Jaime Bonifácio Marques da Silva, que foi alferes miliciano paraquedista, 1ª CCP / BCP 21 (Angola, 1970/72). 

É uma "short story", um microconto, que tem muito que se lhe diga sobre as nossas mentalidades e práticas religiosas de há mais de meio século atrás:


Quando chego de Angola, em março de 1974 (vivi lá dois anos, depois de acabar a minha comissão como paraquedista, de fevereiro de 1970 a julho de 1972), a minha mãe diz-me, de uma forma convicta:

– Tens de ir comigo a pé à Senhora dos Remédios pagar a promessa que eu fiz.

Eu, ainda meio cacimbado da cabeça (e, tolo, claro!), disparei:

– Então vá a mãe. Eu não prometi nada!

Devo ter lançado pela boca fora, ainda, mais alguns disparates alusivos à circunstância, a tal ponto que a minha irmã, mais nova, Esmeralda, perante a minha blasfémia, de pronto diz:

– Não faz mal, mãe, eu pago a promessa por ele e vou a pé consigo!

Mas, eu, perante a generosidade de minha irmã, Esmeralda, disponibilizei-me logo para as acompanhar e disse:

– Eu também vou..., de carro e atrás de vocês, e levo o farnel para a viagem.

E assim foi!

Mas, duas décadas depois, a minha irmã diz-me:

– Jaime, lembras-te da promessa que eu paguei por ti à Senhora dos Remédios? Eu tenho um problema: fiz uma promessa e tenho que ir a pé ao Senhor Jesus do Carvalhal. Não encontro ninguém para ir comigo e, para não ir sozinha, podias, agora, ir comigo?!

– Claro, mana, já estou no ir!

3. Porque é que considero este episódio delicioso e didático ? Tem humor, verdade e, ao mesmo tempo, diz muito sobre toda uma geração, que foi a nossa.


O que mais sobressai neste "microconto", não é a "piada" final (nem a lição moral que eventualmenmte se possa tirar); é, sim a evolução da personagem, o narrador, que acabava de chegar a casa, vindo da guerra de Angola, "são e salvo" (mas "cacimbado")...

Há aqui um pequeno arco narrativo, feito de quatro momentos:

(i) Num primeiro momento, em março de 1974,  vemos o Jaime, antigo  alferes paraquedista, que acaba de regressar de Angola (onde, já na vida civil, era professor de educação física.

(No seu CV militar, entre fevereiro de 1970 e julho de 1972, colecionava uma série de  "roncos": o seu grupo de combate fora o que, dentro da companhia, mais armas apanhara ao IN); ainda está "meio cacimbado da cabeça", ou "apanhado do clima", como nós dizíamos na Guiné;  reage com irreflexão, com irreverência e até com alguma grosseria e agressividade ao convite da sua mãe para ir pagar uma promessa ao santuário de N. Sra. dos Remédios, no Cabo Carvoeiro, Peniche, a menos de 15 quilómetros de casa, pela EN 247; recusa, "compreensivelmente", pagar uma promessa que não fora feita por ele.)

(ii) Num segundo momento, surge a Esmeralda, a sua mana mais nova, com os seus 19 aninhos

(Não censura o irmão; resolve o conflito com um gesto de amor fraterno: "Eu pago a promessa por ele"; acaba por ser ela a verdadeira heroína, discreta, "low profile", desta história.)

(iii) No terceiro momento, o coração do Jaime amolece, ao ver a mãe e a irmã, solidárias, a aprontarem-se para irem à santa dos Remédios, a pé, para pagar uma promessa de que ele era, afinal, o principal beneficiário.

(Afinal, tinha "chegado são e salvo", graças a Deus e a Nossa Senhora, segundo a crença da mãe; mas ainda não aceita a lógica, para ele perversa, da promessa; mas já aceita acompanhá -las, às duas mullheres, a mãe e a irmã; "vou de carro... atrás de vocês com o farnel": é uma solução muito portuguesa, a das "meias tintas", mas reveladora de que o coração já estava a vencer a razão.)

(iv) Quarto (e último) momento, o "happy end": vinte anos depois...

(A vida dá uma volta completa; a irmã pede-lhe agora um favor semelhante; e ele responde-lhe sem discutir: "Claro, mana, já estou no ir!"... Seguramente, já com outra maturidade. )

É uma belíssima forma de mostrar que a maturidade humana também consiste em perceber que, por vezes, o importante não é o que se prometeu (a promessa), mas quem a fez (o pagador da promessa e o que vai na sua alma).

5. Não falamos, aqui, no nosso blogue de religião (nem de política nem de futebol). Este texto também não fala de religião, fala de gratidão, de amor materno e filial.

A mãe acreditava que o filho regressara vivo graças à proteção da Senhora dos Remédios. O Jaime, acabado de sair de Angola, de um cenário de guerra, o corpo dorido e o coração emdurecido, não estava disposto a ouvir sermões nem a cumprir rituais que ele acharia "folclóricos" e que remetiam para uma infância e adolescência obscuras e de há muito ultrapassadas.

A Esmeralda percebeu imediatamente que o essencial não era discutir questões de fé, mas proteger a mãe da desilusão (de uma filho que vem da guerra, vivo mas "descrente", logo "estranho", "mudado").

Vinte anos depois, o Jaime devolve esse gesto. É, digamos, o pagamento de uma espécie de "dívida de afeto", dívida que fica finalmente saldada. E a história acaba com uma expressão muito popular, muito portuguesa, fechando a narrativa com um sorriso bonito.
— Claro, mana... já estou no ir!

4. Este episódio vale como documento, de interesse socioantropológico.

É mais do que um microconto. Não prova nada, muito menos prova que a maioria dos ex-combatentes da guerra do ultramar / guerra colonial foi a Fátima, aos Remédios, ao Senhor Bom Jesus do Caravalhal ou a muitos outros santuários pagar promessas por terem regressado "sãos e salvos".

Mas ilustra um fenómeno muito frequente na época: eram muitas vezes as mulheres que que cá ficaram, que não foram à guerra (as mães, as esposas, as noivas, as irmãs, as namoradas, até as "madrinhas de guerra") que faziam as promessas; os combatentes, regressados da guerra, nem sempre partilhavam a mesma devoção; contudo, por respeito, por amor, por afeto, acabavam muitas vezes por participar no seu cumprimento.

É precisamente este tipo de testemunho que os historiadores valorizam: não fornece estatísticas, dados empíricos, mas revela mentalidades, relações familiares e a cultura religiosa popular  do Portugal dos anos 60/70 do século passado.

E há uma frase que nos fica a ecoar, porque resume tudo sem o dizer explicitamente: "Eu tenho um problema... podias, agora, ir comigo?"

Aí percebe-se que a promessa já não era apenas uma questão de fé. Era uma questão de companhia, de fraternidade e de memória. O Jaime teve a inteligência emocional de perceber isso. Já tinha 40 e tal anos. Já era autarca em Fafe, na área da cultura e do desporto. Já era casado e pai. Já era professor... Já tinha feito (ou começado a fazer) o luto da guerra.

E foi, com a mana ao Senhor Bom Jesus do Carvalhal. É um final simples, terno, tocante, profundamente humano.

Em boa verdade, as promessas pertencem ao domínio da fé, são de quem as faz... Mas o seu cumprimento, muitas vezes, pertence mais ao amor de quem acompanha o pagador de promessas...




Peniche > Santuário de Nossa Sra dos Remédios > Terreiro > 13 de julho de 2021 >  O  Jaime Silva e a mana Esmeralda Silva Costa, dois "pagadores de promessas"...

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2021). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


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Nota do editor LG:

sábado, 18 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28192: Humor de caserna ( 280): Treze sextilhas e um refrão para o nosso mano Jaime Silva, agora octogenário (Luís Graça)


Porto Santo > 2 de outubro de 2024 > Jaime e Laura

Foto (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


Vinheta nº 11 da BD dedicada ao Jaime Silva, que no passado dia 17 de julho celebrar o seu 80º aniversário


1. Mail que enviei ao Jaime Silva, esta manhã, às o9:08

Jaime: toma lá a(s) foto(s) que serviu/ram para fazer a vinheta 11 da tua BD...Mando também uma foto da Dina, 2017...Por limitações técnicas, não pude mandar mais do que 3 ou 4 fotos para a geração gráfica feita por IA, sob "prompting" meu (e orientação editorial: tens que lhe fornecer o guião)..


Uso a IA dos pobrezinhos (sem assinatura, a versão Pro ou Plus)..Por exemplo, não tinha nenhuma foto do teu pai... E das tuas manas, só da Esmeralda...Mas é preciso aprender a trabalhar com estas ferramentas... E gastar um bom par de horas para fazer "brincadeiras" como esta (que é uma homenagem à tua pessoa, espero que não tenhas levado a mal)...

Tem "corte, costura, borracha, emendas"... Fico admirado como a IA "aprende" também comigo, com os humanos... Já temos uma relação de "grande cumplicidade" e, mesmo em modo gratuito (não Plus) dão-me mais tempo de "antena" (no interesse deles, porque lhes ponho questões difíceis...e sou muito crítico; há uns tempos atrás não me fariam "bonecos" que pudessem violar a privacidade, como é o caso presente...esta vinheta nº 11, por exemplo, mas não identifico a Laura, não uso o seu nome profissional, ou o apelido...)

Ontem, foi bonita a festa, mano!...Um número redondo, muito amor, amizade, companheirismo, camaradagem, alegria...Três gerações...Poesia e música, no fim. E um jantar em cheio, com arroz de sapateira, saborosíssima e abundante com a assinatura do "chef" Inocêncio (ex-Café Nicola, Lourinhã).

Parabéns, tens uma bela família!... E amigos, bons (onde me incluo). Luís


2. Aqui vão os versinhos que foram ontem cantados (com esceção das estrofes 10 e 11) com a música da cançãoo tradicional açoriana, "Pona aqui o seu pezinho...". Músicos: Rogério Ferreira (voz e viola),Francisco (Xico) Costa (cavaquinho), Pinto de Carvalho (bandolim e voz), Leonor Ferreira, Esmeralda Costa, Maria do Céu Pintéuse Luís Graça (vozes)-


Sextilhas e um refrão para o nosso mano Jaime, agora octogenário

1. Nasci em quarenta e seis,
Não valia cinco réis,
Seria um gato esfolado,
Que o Zé Rei, nosso vizinho,
Me tratava por Jaiminho,
E me queria, adotado.

2. "Ponha aqui o seu menino,
Vou-lhe dar outro destino,
Nesta casa de fartura,
Irá ser o meu herdeiro,
Não me falta é dinheiro,
O que me falta é ternura".

3. Mas a minha catequista
P'ra ficar com Deus benquista
Mandou-me p'ro seminário
E o meu pai, seu jornaleiro,
Pôs o filho em primeiro
E livrou-me do seu calvário.

4. Deus olhou-me e sorriu:
"Este, padre não saiu,
Vai p'ra Angola, mobilizado,
Dilatar o império e a fé"...
Safei-me d'ir p'ra Guiné,
Castigo mais desgraçado.

5. Ó minha mãe, vou partir
Mas prometo que torno a vir,
Não tens que pagar promessa;
Paraquedista não chora,
Tem também a sua hora,
Mas seus medos não confessa.

6. Voltei vivo à minha terra,
Sem mostrar a cruz de guerra;
A Fátima tive qu' ir,
Minha mãe e mana a pé,
Eu atrás, sem grande fé,
Com vontade de fugir.

7. Boina verde, subi aos céus,
Sonhos cumpri e são meus,
Professor fui, com prazer;
Em Fafe fiz a morada,
Casei com a Dina adorada,
Reaprendi a viver.

8. Nasceram Pedro e Sofia,
Minha maior alegria,
Hoje cada um doutor;
Se algum diploma alcancei,
Foi o orgulho que conquistei
Por lhes valer tanto amor.

9. Aos fafenses mostrei valor,
Também fui vereador,
Do desporto e da cultura;
Orquestras e andebol
Foram a clave de sol
Das minhas lutas n' altura.

10. Veio a dura despedida, 
Com a Dina a perder a vida,
Depois do Alzheimer sofrer;
Fiquei só, sem grande alarde,
Quem ama nunca é cobarde,
Há o ganhar e o perder.

11. Cupido, maroto e fino,
'Inda arrumou o destino
Deste jovem do Seixal;
Veio a Laura, de mansinho,
Dar mais pica ao meu caminho,
Com conversa de coisa e tal.

12. Gosto muito de falar,
De cavaquinho tocar,
Além do golfe, qu' é burguês,
Sou do signo Caranguejo,
A saúde é o qu' mais desejo,
E até me chamam Marquês.

13. Se Deus me der mais uns anos,
Quero vivê-los, meus manos,
Com juízo e coração;
Não quero entrar pr'a História,
Não me tirem a memória,
E nem, já agora,... a t*são!


Refrão / Coro


Põe aqui o teu pezinho,
Devagar, devagarinho,
Que já és octogenário,
Obrigado p'la amizade,
E esta bela irmandade
No dia de aniversário.




17 de julho de 2026

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Nota do editor LG:

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28189: E as nossas palmas vão para... (36): O Jaime Bonifácio Marques da Silva, natural do Seixal da Lourinhã e filho adotivo de Fafe, ex-alf mil pqdt, BCP 21 (Angola, 1970/72), que celebra hoje o seu 80º aniversário









A promessa da mãe, se o filho viesse são e salvo





Lourinhã, Seixal, 17 de julho de 2017, na festa dos 71 anos do Jaime. Aldina Silva (Fafe, 1946-Lourinhã, 2022). Foto: LG





Hoje, no 80º aniversário, a família e os amigos da Lourinhã, Peniche e Bombarral (Luís Graça, Joaquim Pinto de Carvalho, Rogério Ferreira, Laurentino Marteleira, João Pereira, Paulo,  Xico Manel, João Miguel, João Batista, entre outros, além do Fernando Castro, antigo dirugente da AVECO), vão-lhe fazer uma pequena homenagem, no jantar (reservado) a realizar na Associação Cultural, Recreativa e Desportiva do Lugar das Matas, servido pelo "chef" Inocêncio (ex-Café Nicola,Lourinhã).


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Portal UTW  - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27731: E as nossas palmas vão para... (35): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16.º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algés, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte VII

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28064: In Memoriam (580): Major-general Paraquedista Heitor Hamilton Almendra (1932-2026): cerimónias fúnebres hoje, às 13h00, na Igreja da Força Aérea, em São Domingos de Benfica, seguindo depois o funeral para o crematório dos Olivais

1. Faleceu,  no passado dia 28 de maio, o major-general paraquedista Heitor Hamilton Almendra (1932-2026), oficial de Cavalaria e uma das figuras mais marcantes da história das Tropas Paraquedistas portuguesas. Tinha 93 anos. Com ele desaparece toda uma geração de grandes combatentes portugueses.

Nascido em Zoio, concelho de Bragança, em 18 de dezembro de 1932, integrou a geração de militares que construiu e consolidou a arma paraquedista portuguesa, distinguindo-se tanto em campanha como em funções de comando. 

Tem uma brilhante carreira militar (fez cinco comissões de serviço no ultramar, incluindo Timor, Angola, Guiné e Moçambique).

Fexuma comussão no CTIG (julho de 1966 / maio de 1968).

Na 2ª comissão  em Angola, foi 2.º comandante e depois comandante do BCP 21 (Batalhão de Caçadores Paraquedistas n.º 21), tendo participado em numerosas operações no norte e leste do território. 

 Os louvores e condecorações que recebeu testemunham as qualidades de coragem, liderança e capacidade operacional que lhe eram reconhecidas pelos seus superiores e subordinados (como foi o caso do nosso amigo e camarada, e membro da nossa Tabanca Grande, ex-alf mil pqdt Jaime Bomifácio Marques da Silva,  que serviu sobre as suas ordens em Angola, em 1970/72). A antiga enfermeira paraquedista Rosa Serra também conheceu e conviveu, em Luanda, com o ilustre militar. Foi, de resto, ela que nos fez chegar a triste notícia do seu falecimento. 

Após o 25 de Abril, desempenhou funções de elevada responsabilidade militar, comandando a Escola e o Corpo de Tropas Paraquedistas, e teve papel relevante nos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975. 

A sua carreira culminaria com o posto de major-general, deixando uma forte memória entre várias gerações de paraquedistas.

Segundo nota do sítio oficial da Presidência da República, "o Major-General Almendra foi o primeiro Oficial-General Paraquedista e goza de enorme prestígio no seio nas Forças Armadas, em especial junto das tropas paraquedistas. Ao longo da sua ilustre carreira militar recebeu inúmeras condecorações, destacando-se o grau de oficial da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito e duas medalhas de valor militar com palma, uma grau ouro e outra grau prata".

As cerimónias fúnebres completam-se hoje, com missa de corpo presente às 13h00, na Igreja da Força Aérea (antigo convento de São Domingos de Benfica, Pupilos do Exército, Lisboa), seguindo o funeral às 14h00 para o Crematório dos Olivais.

Os votos de pesar da Tabanca Grande para a família enlutada e os antigos camaradas de armas.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27943: Armamento (31): Armalite AR 10, que foi a espingarda automática usada pelo BCP 21 em Angola (1961/75)

 

Angola > Leste > O alf mil paraquedista Jaime Silva, do BCP 21 (1970/72), em 1970, a norte do Rio Cassai, empunhando uma espingarda automática Armalite AR-10.

Foto do álbum de Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3ª Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; reside na Lourinhã, é professor de educação física, reformado, foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura"; residiu lá durante cerca de 4 décadas; tem página pessoal no Facebook).

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



ArmaLite AR-10, modelo português. Fonte: Wikipedia (com a devida vénia...)



1. A G3 foi a arma-padrão do Exército Português durante a guerra do ultramar / guerra colonial. Mas, em Angola, o BCP 21 usou, desde o início (1961) e até ao fim, a Armalite AR 10, uma espingarda automática, de assalto, de origem norte-americana, que teve uma vida efémera e uma história atribulada.

 Principais características técnicas:

Criador  > Eugene Stoner
Data de criação >  1955/56
Fabricante(s) >  ArmaLite  | Artillerie Inrichtingen (AI) | Colt's Manufacturing Company
Período de produção > 1956-presente
Quantidade produzida >  9.900

Especificações:

Peso >  3,29–4,05 kg c/carregador
Comprimento >  1050 mm
Cartucho  > 7,62×51mm NATO
Ação > Operado a gás, parafuso giratório
Cadência de tiro >  700 tpm
Velocidade de saída 820 m/s
Alcance efetivo >  630 m
Sistema de suprimento 20 tiros carregador de caixa destacável
Mira > Mira traseiro com abertura ajustável, mira frontal fixa. 

 O design final da empresa Artillerie Inrichtingen (um fabricante dos Países Baixos) ficou conhecido como o modelo português AR-10. 

 Esta versão final incorporou uma série de inovações e melhorias técnicas. Foram produzidas cerca de 4 a 5 mil exemplares do "modelo português" e quase todos foram vendidos ao Ministério da Defesa Nacional de Portugal pelo negociador de armas com sede em Bruxelas, SIDEM International, em 1960. 

 A AR-10 foi oficialmente adotada pelos batalhões de caçadores paraquedistas portugueses, e entrou na guerra de contrassubversão em Angola, logo em 1961, ao serviço do BCP 21.

 Tornou-se uma "arma de culto" devido às suas características inovadoras para a época: era mais leve que as concorrentes, graças ao uso de ligas de alumínio, e destacava-se pela precisão e confiabilidade em combate, mesmo em condições adversas de selva e savana. A variante portuguesa incluía melhorias como um regulador de gás simplificado e um extrator mais robusto. 

Os paraquedistas portugueses consideravam o AR-10 uma arma precisa e fiável, mas o seu uso acabou por ser limitado a algumas unidades aerotransportadas, mantendo-se em serviço até 1975, inclusive durante a descolonização de Timor Português. 

 A AR-10 foi preterida pela Heckler & Koch G3 por razões principalmente políticas e logísticas, e não tanto técnicas. 

A AR-10 era uma arma concebida nos EUA e produzida na Holanda, países críticos da política colonial portuguesa, o que dificultou a sua adoção generalizada. 

Além disso, a Holanda acabou por embargar novas remessas para Portugal, impedindo a expansão do seu uso. 

 Por outro lado, a G3, de origem alemã, beneficiou de um contexto de maior facilidade de aquisição e de produção sob licença em Portugal, além de se enquadrar na tendência de padronização de calibres dentro da NATO (7,62x51mm). 

 A G3 também se revelou mais robusta em condições de combate prolongado e permitia uma maior interoperabilidade com outros países da aliança. 

Estes factores, combinaddos, foram decisivos para a sua adoção pelas Forças Armadas Portuguesas como arma-padrão.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27815: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (16): apesar da guerra, não valia tudo


Aerogramas - Arquivo do Jaime Silva

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Jaime Silva (foto ao lado):

(i) cumpriu o serviço militar obrigatório (jan 1969 / jul 1972);

(ii) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, fev 1970 /jul 72;

(iii) foi condecorado com a medalha de  Cruz de Guerra de 3ª Classe;

(iv) licenciado  em Educação Física (ISEF / UTL, 1978);

(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;

(vi) é professor de educação física, reformado (Escola Secundária e Escola Superior de Educação de Fafe);

(vii) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;

(viii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(ix) tem c. 140 de referências, no nosso blogue;

(x) tem página pessoal do Facebook;

(xi) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), de que temos estado a reproduzir alguns excertos (*).



Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (16): apesar da guerra, não valia tudo

por Jaime Silva

Durante os dois anos e meio da minha Comissão de Serviço, ao comando do 3.º Pelotão da 1ª CCP do BCP21 (Angola, 1970/72), nenhum paraquedista, sob o meu comando, cometeu, alguma vez, qualquer atrocidade perante a população civil capturada ou matou qualquer guerrilheiro gratuitamente, à exceção, evidentemente, das situações de confronto direto entre nós, em que sobrevive quem dispara primeiro!

Mas eu vi. Eu presenciei. Para alguns, não foi sempre assim!

Eu, não esqueci… a violência gratuita em contexto de guerra!

Para terminar este ponto de memória gostaria de o fazer destacando duas componentes da guerra que se continuam a misturar nas minhas memórias e recordações da experiência vivida na guerra.

Por um lado, quero salientar que, apesar das marcas mais pesadas da guerra como as que descrevi, não esqueço um único momento do meu percurso na guerra, integrado numa unidade militar, cujo clima se caracterizava pelo rigor militar e pela responsabilidade exigida e assumida por todos na concretização das missões a executar. 

Desse tempo, guardo na memória, o espírito de camaradagem e interajuda que unia todos os jovens do 3.º pelotão que, sob o meu comando, calcorreámos as matas do Norte e Leste de Angola: “ninguém fica para trás” - era o nosso lema. 

Tal, como tenho presente, também, os dois homens sob os quais eu respondia hierarquicamente: o comandante de companhia [csp cap pqdt  Ferreira Pinto] e os comandante de batalhão [cor pqdt Rafael Durão e cor pqdt Urbano Seixas] - militares rigorosos e intransigentes no cumprimento de cada uma das missões. 

 Apesar das circunstâncias, é justo realçar que foram homens, sempre preocupados com o bem-estar de cada um dos militares sob o seu comando.

Por outro lado, e, para encerrar a lente dos retalhos e dores das minhas memórias de guerra, relembro do  texto de Diogo Picão, meu sobrinho, músico, compositor e letrista (foto à esquerda),  já aqui reproduzido em 2 de agosto de 2020 (**),  por me parecer que contém um olhar acutilante sobre a escuta “inacabada” das minhas estórias. 

Na verdade, são as estórias que “demoram a morrer” nas pessoas que as viveram.

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Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 95/96.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 10 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27723: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (15): a minha decisão de não atacar mulheres e crianças

(**) Vd. poste de 2 de agosto de 2020 > Guiné 61/74 - P21216: Blogues da nossa blogosfera (134): Diogo Picão: "A guerra do meu tio"

O Diogo Pião tem dois tios que foram à guerra, o tio materno, o Jaime Silva,  ex-alferes paraquedista (BCP 21, Angola, 1970/72); e o  tio paterno, o José F. Picão Oliveira, ex-fur mil inf,  que esteve no leste da Guiné, em especial na zona fronteiriça, a ferro e fogo, em 1973/74 (CCAÇ 3545 / BCC 3883, Canquelifá, 1972/74).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27723: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (15): a minha decisão de não atacar mulheres e crianças


Angola > Moxico > Léua  > c. 1970 > O alf mil pqdt Jaime Silva com o menino de Léua

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72; 

(ii) tem uma cruz de guerra de 3ª classe;

(iii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(iv) tem  c. 140  de referências, no nosso blogue; 

(v) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; 

(vi) é professor de educação física, reformado;

(vii) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; 


(ix) é autor do livro  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (15): a minha decisão de não atacar mulheres e crianças

por Jaime Silva

Eu não esqueci durante a minha comissão que na guerra não vale tudo…

Lembro-me, bem, duma operação no Leste, em que o meu pelotão tinha sido destacado para detetar e destruir um acampamento de guerrilheiros que, de acordo com as informações da PIDE, estaria localizado algures numa determinada zona, a norte do rio Cassai.

Progredimos durante dois dias na busca do objetivo e, na madrugada do segundo dia, deparámo-nos, a certa altura, com um grande trilho. E, enquanto avaliava a situação, vejo um grande grupo de mulheres e crianças que vinham do rio com as cabaças cheias de água à cabeça, algumas com os filhos às costas, dirigindo-se na direção do acampamento. 

O soldado que estava na minha frente dispara uma rajada, sem consequências. Mando parar o fogo. As mulheres atiram os utensílios ao chão, agarram nos filhos, espavoridas de medo, e correm na direção da base, enquanto gritam para alertar os guerrilheiros – “tropa, tropa!”

Os guerrilheiros disparam algumas rajadas…

Uma vez que tínhamos entre nós e os guerrilheiros, as mulheres e as crianças, e, perante a mortandade evidente que ocorreria se atacássemos, decidi não assaltar a base IN. 

Em vez disso optei montar uma emboscada no local que, pelas características do terreno e pela minha experiência em situações parecidas, previa que seria o ponto de fuga dos guerrilheiros. 

Passado pouco tempo, vejo vir, na nossa direção, um guerrilheiro armado que enquadrava e protegia um grupo com cerca de dez crianças que fugiram do local para se protegerem. Pelas crianças, dei ordens para ninguém abrir fogo e deixar o grupo prosseguir…
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Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pág. 94.95.

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27694: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (14): ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, leste de Angola


Guiné > Região do Cacheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968> Um "suspeito" do PAIGC... "Turra" não era "prisioneiro de guerra", à luz do entendimento das autoridades político-militares do território...

Foto (e legenda): © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;

(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(iii) tem  já 130 de referências, no nosso blogue; 
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; 

(iv) é professor de educação física, reformado;

(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; 


(viii) é autor do livro  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (14):   ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, no Leste de Angola

por Jaime Silva

 
Mensagem do Jaime Silva:

Data - 27 jan 26  , 12:51
Assunto - Léua, interrogatório do PIDE e o mutismo do guerrilheiro

Caro Luís, a propósito do meu testemunho e da tua experiência de guerra na Guiné, escreves que “ Se calhar há mais pormenores que omitiste neste texto. (*)

Não omiti nada, desta vez, e foi assim que se passou:

Nota importante:
 
Ao nível da informação, tudo se passou entre o meu comandante, o comando da FA (Força Aérea) e o comando de Operações do Região Militar Leste (RML) , sediado no  Luso  – eu não pertencia a este patamar de decisão– , só vi, ouvi e participei no contexto operacional que já relatei:

Sintetizando:

(i)  o Comandante da  1ª CCP / BCP 21 recebeu, em Léua, um rádio do comando da RML ordenando para destacar um grupo de combate para fazer um heliassalto, na sequência da informação de um guerrilheiro que tinha sido capturado (como e onde, não sei);

(ii) para o efeito foi destacado o meu pelotão;

(iii) entre esta informação e a chegada dos helis, só houve  tempo de preparar o pessoal e deslocar o pelotão para a zona de embarque;

(iv) logo que aterraram, saíram dos helis, o Pide, o guerrilheiro e o comandante da FA;

(v) este solicitou um espaço reservado para que o Pide pudesse  interrogar o guerrilheiro, sendo-lhe indicado o quintal que ficava nas traseiras da casa que servia de messe aos oficiais paraquedistas;

(vi) desconheço se entre os dois comandantes houve alguma reunião confidencial ou se eles tinham mais informações sobre a situação, nomeadamente, por que razão o Pide teve de vir, ainda para Léua, interrogar o prisioneiro e o não fez no Luso.

Depois, e como relatei:

(vii) o Pide  não se despachava, o tempo escasseava para que os helis pudessem  realizar a operação e, por isso,  sou incumbido de interrogar e alertar o Pide para esse  facto;

(viii) em resultado da incompetência do Pide e da coragem do guerrilheiro desmontou-se a tenda: o meu pelotão foi desmobilizado, os helicópteros com o Pide e o guerrilheiro regressaram ao Luso.

O que aconteceu ao guerrilheiro? Não faço a mínima ideia.

O que fazia eu quando capturávamos algum guerrilheiro ou elementos população?

Não tenho a tua experiência, mas a minha rotina, nesta circunstância era:

a) após o final da operação entregava-o  ao comandante da operação e este despachava-o para o Comando da respetiva Região Militar que, seguramente, o entregava à PIDE/DGS – quase sempre presente em cada operação;

b) o meu pelotão capturou, pelo menos, três ou quatro uerrilheiros; capturámos, ainda, por duas vezes, algumas mulheres.

O procedimento foi sempre o mesmo.

Tenho a consciência descansada, quanto a isto: nunca matámos ou tratámos mal, nem homens ou mulheres.

Caro Luís,

Foram estes os acontecimentos vividos e, nesta circunstância particular em Léua, relato-os com todo o rigor e verdade. 

Eu não esqueci! 

Abraço
Jaime

Lourinhã, Seixal, 27.01. 2026  


2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Jaime. Como sempre, lúcido e corajoso.  Temos, todos (as tropas especiais incluídas: páras, fuzileiros, comandos) um certo pudor em  falar  do "back office", das "traseiras", dos "quintais" da guerra, dos prisioneiros, dos interrogatórios, da colaboração com os Pides, etc. Há o lado "sujo" e "animal",  e o lado "nobre" e "heróico" da guerra...

O "pudor" (ou a cultura do silêncio castrense) faz parte do 'habitus' do combatente: podíamos aprender uns com os outros (o que correu bem? o que correu mal?), mas, não, regressávamos à base ou ao aquartelmento, tomávamos um banho, bebíamos uma cerveja ou um uísque com gelo, descansávamos o corpo, jogávamos ao king ou à lerpa, e preparávamo-nos para a próxima (operação)...