sábado, 21 de julho de 2007

Guiné 63/74 - P1980: Blogoterapia (26): Os nossos fantasmas, os nossos Quirafos (Virgínio Briote / Torcato Mendonça/Luís Graça)



Guiné-Bissau > Instalações da AD - Acção para o Desenvolvimento > Julho de 2007 > O Paulo Malu, antigo comandante do PAIGC, hoje coronel, e quadro superior da Direcção-Geral de Alfândegas. Foi ele que comandou, em 17 de Abril de 1972, o grupo IN que montou e executou a terrível emboscada contra os militares da CART 3490 (Saltinho, 1972/74) que escoltavam um grupo de civis afectos à construção de uma estrada (Quirafo-Foz do Cantoro).

Segundo o Pepito, o Paulo Malu (apelido provalmente mancanha) é um homem afável, mas que na altura da entrevista não estava na melhor forma, em termos de saúde. No decorrer da entrevista, o Pepito apurou que os guerrilheiros do PAIGC estavam convencidos que a abertura da picada tinha como objectivo levar as NT a tentar a reconquista de Madina do Boé (abandonada em Fevereiro de 1969, alguns dias depois de Mejo, Gandembel e Balana). Recorde-se, por outro lado, que foi o Malu quem levou o nosso camarada Batista, que foi feito prisioneiro, até Conacri, à presença de Amílcar Cabral (LG).


Foto: © Pepito/ AD - Acção para o Desenvolvimento (Bissau) (2007). Direitos reservados.


1. Mensagem do co-editor Virgínio Briote:

Caro Torcato,

Olha, coube-me a mim tratar o assunto Quirafo. Da alma saem-nos sentimentos, contraditórios muitas vezes, aos tropeções às vezes, como lava a espichar para o céu. O contacto com a atmosfera arrefece-a, quando começa a cair, alguma já está pedra. Desculpa esta analogia, num sentido muito figurado. Como já tens dito, Torcato, estou a alinhar palavras umas às outras, sem necessidade de as repensar, sei que as compreendes muito para além delas. A perda de camaradas doeu-nos, como só alguém que por situações destas tenha passado.

Na minha guerra, entre 65 e 66, pessoalmente fui um tipo cheio de sorte. Entrei em várias situações de fogo e, sem estar com a preocupação da estatística, mais de 90%, foram por nós causadas. Mesmo assim, embora com vários feridos, tive um morto no meu grupo. Por uma azelhice dupla, da minha responsabilidade.


O soldado A. A. Maria da Silva (em 1º plano, em Set. 65), com a comissão terminada há mais de 15 dias, depois de várias insistências dele e do chefe de equipa, acabei por permitir que ele alinhasse na op Hermínia (a 1ª heliportagem de assalto na Guiné) e assinei-lhe a sentença de morte. A 2ª responsabilidade é de ordem operacional.









No fogo cruzado que se seguiu depois da largada dos helis (imagem retirada de filme da heliportagem de assalto, op Hermínia, 6 Março 66, Jabadá), dei instruções à equipa de que ele fazia parte para fazer uma manobra, abrir em linha a frente de ataque, para permitir que duas equipas entrassem no acampamento. Foi nesta acção que o António A. Maria da Silva foi atingido por uma única bala. No coração. Passaram-se anos e anos, e ainda hoje é um caso que me atormenta.

A Guiné envolveu-nos, cobriu-nos com uma manta, estivemos abrigados com uma capa com mais que uma face. Aconteceu-nos de tudo, matámos, devastámos populações, cobrimos de napalm tabancas inteiras. No mesmo dia, outro pelotão na mesma área, construía abrigos, tapava com chapas de zinco casas esventradas, atendia crianças, adultos, velhos, distribuía quinino, tirava crianças da barriga das mães, e sabes tão bem como eu que elas quando resolviam parir, parece que combinavam, tratavam de pôr as crianças cá fora quase ao mesmo tempo.


Amámos aquelas terras de uma forma, que às vezes penso, exagero meu, claro, que as amamos mais do que muitos guineense. Mas isto já são exageros meus. A partir de Set de 74, oficialmente, a vida dos guineense a eles diz respeito, ponto final.

Torcato, paro aqui.
Um abraço,
vb

2. Resposta do Torcato Mendonça:

Virgínio Briote

Vou ser rápido; não tenho qualquer problema com Quirafo e, menos ainda, com o actual Coronel Paulo Malu. Fez o trabalho dele e eu fiz o meu. Passei uma vez pelo menos por Quirafo, se tivesse dado de caras com alguém do IN, procurava disparar primeiro.

Sempre, mas sempre, respeitei os homens que do outro lado estavam. Cumprimentei militarmente o Comandante Braimadicô quando, depois de ele ter servido de guia na Lança Afiada, o acompanhei ao helicóptero. Não sou racista. Detesto o que se está a passar em África e noutras Países. Li a reportagem da Única do Expresso, sobre Angola. Dias antes tinha longamente falado (ouvido) alguém a falar de Angola e não só. Não confundo o Povo Guineense, mesmo outros Povos com certos dirigentes, certos políticos, certos detentores de efémero poder. Mas para isso basta olhar para o meu País…

Vim de África e procurei recordar o menos possível…mas certos estímulos, certos acontecimentos punham-me lá. Revolta ouvir os relatos do médico F. Nobre, do Darfur, do…do… por isso fico … ou reajo como posso. Não foi agora o caso. Isto foi uma simples mensagem para um Homem que admiro muito o seu trabalho. Anexo o texto (2). Só que fui ou podia ser entendido como menos elegante…rude, boçal e ter dado, do meu passado de militar uma visão diferente.

Atenção: não esqueço e nunca perdoo as atitudes nojentas… fuzilar amigos meus, não! Desculpo ou aceito porquê? Ainda estou deformado? Talvez! Sou, nesse aspecto, o mesmo militar desse tempo.

Fico super satisfeito com o Doutoramento do L. Amado, em saber do Simpósio e do trabalho da AD, de novas em que me dizem que certos homens e mulheres venceram… V B, para mim só há uma raça, a Humana! E continuava… já li o Livro do Mário Vicente, escrevi-lhe um cartão a agradecer o envio, o texto, o dizer que a guerra é a maior estupidez do homem e que, em ambos os lados, há sentimentos de medo, amor e outros em partilha de vidas interrompidas.

Nós temos o problema do Stress… isso tem que ser tratado já. Passou tanto tempo, tanta promessa. Continua-se a sofrer, a morrer, a viver abafados em álcool ou drogas. Já se falou nisso aqui… não me repito.

Por um Portugal e uma Guiné melhores. Lutemos por isso e façamos terapia, blogoterapia, recordando, aqui, o momento passado, o poilão, a estória vivida nos nossos verdes anos… Tenho que parar…

Faço CC, só por esquecimento não, ao nosso Camarada LG… Fui militar… talvez, neste espaço, ainda seja…

Um abraço

Torcato Mendonça

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Notas de v.b.:

(1) Vd. posts de:

17 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1962: Blogoterapia (25): Os Quirafos do nosso Passado (Torcato Mendonça / Virgínio Briote)

12 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1947: O Coronel Paulo Malu, ex-comandante do PAIGC, fala-nos da terrível emboscada do Quirafo (Pepito / Paulo Santiago)

(2) Eis a mensagem que o Torcato mandou ao Luís Graça, numa primeira reação, epidérmica, ao Post 1947:


O tipo está de sentinela?

O passado, a memória, o não saber esquecer e menos perdoar. Disse no 1º escrito e, ainda hoje, certamente por má formação minha… é-me difícil… parece que está a olhar quem já partiu. Ou é prémio?

Desculpa, meu Caro Luis, esta deformação. Já não tenho idade, saúde e força para vestir o camuflado. Fica a vontade… disparate meu!

A memória, o ajuste de contas com certo passado. Fico no meu exílio doirado, escolhido e, para me distrair neste final de tarde, vou passear o cão Labrador arraçado, filho de Pluta, sua mãe e, em homenagem a ela, ficou Pluto.


Um abraço,

Torcato Mendonça

Guiné 63/74 - P1979: Da Guiné a Moçambique, era (também) assim que comunicávamos a nossa dor (Beja Santos)



Participação da morte de um combatente, que professava a fé católica. Cortesia do Beja Santos. O Carlos Sampaio (Anadia, 19/11/1946; Nambunde, 2/2/1970), era Alferes Milicinano e correspondia-se com o Beja Santos, de quem era amigo (1).



Foto: © Beja Santos (2007). Direitos reservados.

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 11 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1833: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (49): Cartas de além-mar em África para aquém-mar em Portugal (4)

(...) Para o Carlos Sampaio > Inesquecível amigo

"Os teus livros chegaram e já os devorei. A leitura, tal como a oração, é um refúgio e um bálsamo para a alma. Ando sempre com livros embrulhados em plástico, na tentativa vã de eles resistirem às chuvas ou aos campos alagados dos arrozais. Às vezes, quando estamos a esperar os barcos que passam pelo Geba, não resisto a ler umas páginas seja de autores clássicos seja dos poetas da nossa geração, como o Gastão Cruz ou a Fiama.

(...) "Carlos, ajuda-me com o teu conselho já que podes conversar aí com a Cristina, embora eu saiba que estás muito tomado com o preparativo desse batalhão com que vais para Moçambique. A Cristina insiste em vir para Bissau e dar aulas, até eu me poder juntar. Acontece que ninguém fala na minha transferência, antigamente um militar passava cerca de 12 meses em teatro de operações, consta que doravante não vai ser assim, podemos andar a comissão toda em locais de muito risco. Não me sinto no direito de a deixar num estado grande de ansiedade e inclusivamente ficar sozinha até meados do ano que vem.

"Como tu irás certamente experimentar, a guerra é por natureza absorvente: com os militares só falas de guerra, tens que estar permanentemente atento se há comida bem feita na messe ou falta arroz à população civil, levar as crianças e os doentes à consulta médica, há que conversar e estar atento aos problemas das autoridades civis, há que cuidar da segurança do quartel, é um estado de espírito dominado pelo serviço aos outros. Não vejo, pois, circunstância de apoiar este projecto da vinda para Bissau. Prometi à Cristina ir a Bafatá tratar dos documentos na conservatória, mas peço do coração que me ajudes a ver melhor todo este quadro, e diz-me com sinceridade se a minha inquietação tem fundamento.

(...) "A guerra aqui agrava-se muito e confundo-me os ataques que os rebeldes fazem às populações em autodefesa. Hoje não te maço mais, agradeço toda a tua ajuda, é para mim impensável viver sem a tua grande amizade. Deus te ajude na tua comissão que vai começar em breve" (...).

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Guiné 63/74 - P1978: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (55): Mataste uma mulher, branco assassino!

Guiné > c. 1968 > Bilhete postal > No verso lê-se: " Guiné Portuguesa > Bilhete postal > 103 - Folclore. Edição exclusiva das Galerias Jota Éme para a Casa Gouvêa. Reprodução Proibida". (Cortesia de Cristina Allen: faz parte de uma colecção de postais ilustrados da Guiné, enviados pelo seu então noivo e futuro marido, Mário Beja Santos).

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados


Mensagem do Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70):

Caro Luis, aqui vai o episódio da semana passada. Tudo farei para recuperar o atraso e manter o stock de segurança em três episódios. Pelas minhas contas, o próximo será provisoriamente o último do primeiro volume. Conto que tu faças o milagre de encontar ilustrações, não tenho propostas. O Queta vem cá em breve para tirar as fotografias que tu reclamas, muito justamente. Recebe um abraço do Mário.


56º episódio da série Operação Macaréu à Vista, da autoria de Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) (1). Texto enviado a 11 de Julho de 2007 (1). Substítulos do autor e do editor.

Mataste uma mulher, branco assassino!

por Beja Santos


(i) Trabalhos e aflições em Finete

Em 1 de Agosto [de 1969], parto para Finete acompanhado de uma dúzia de colaboradores. Assentara com o Casanova e com o Pires o que havia a fazer em Missirá nesta primeira semana do mês, sendo que as idas a Mato de Cão nos seriam sempre comunicadas em Finete, para onde se deslocaria um contigente de 15 homens, respectivamente com morteiro 60, dilagramas e bazuca, e que aqui seria reforçado com milícias, e eu assumiria, sempre que possivel, o comando.

Continuávamos a ter muitos doentes, militares e civis, quase todos os dias o David Payne [, o médico do BCAÇ 2852, em Bambadinca,] atendia sofredores de malária e múltiplos vírus. Levei rações de combate, colchões, mosquiteiros, o indispensável Lion Brand para afugentar a bicharada, algum material de engenharia para apoiar as obras em curso, e, a despeito dos vendavais e novas enxurradas de água, sempre dentro do ciclo "chove agora copiosamente, daqui a um bocado faz sol, troveja depois", recordo um tempo magnífico, patrulhamentos à volta de Boa Esperança, travessia até Canturé e descida até à bolanha de Gambana. Ao fim da tarde do primeiro dia, encontrámos marcas de sandálias de plástico em trilhos que ligavam Gambana até Malandim. Que desaforo! As gentes de Madina passeava-se mesmo junto a Finete.

A 2 [de Agosto], conferi carga de material enquanto os cabos Benjamim Costa, Dominigos Silva, Alcino Barbosa e António Queirós ajudaram nas obras do novo balneário e de um abrigo reforçado, no alto do morro, com uma posição estratégica para os acessos de Malandim. É nessa tarde que escrevo à Cristina:

"Faz agora exactamente um ano que recebi uma guia de marcha para seguir para Bambadinca. Cheguei a 3 de manhã ao cais de Bissau, foi uma longa viagem que acabou ao anoitecer no cais de Bambadica. Eu era o periquito de Missirá. Na tarde do dia seguinte, há-de aparecer o Saiegh acompanhado de Mamadu Camará e Campino, todos me olham como curiosa novidade. Nunca mais esqueci o olhar do Saiegh, dois carvões iluminados, azeitonas brilhantes que não iludiam um grande ressentimento, como vim a comprovar. Nesse dia, em Missirá, a gente da Madina deixou na fonte panfletos a convidarem os colonialistas a desertar; nessa mesma manhã, Uam Sambu, também não muito longe da fonte de Cancumba, viu o seu peito estilhaçado por uma granada mal armadilhada.

"Será uma noite muito difícil, esta primeira noite em Missirá: oiço uma língua que mal percebo, parece um português arcaico entremeado com diferentes linguajares, o que não estava longe da verdade. Choro mansinho dentro do meu mosquiteiro, num abrigo onde se ouve o tossir áspero do rádio de transmissões para onde o Teixeira de vez em quando se dirige. Estou a dimensionar uma pavorosa solidão, depois de ter visto alguns despojos macabros que o Saiegh guardava em frascos. Desculpa as longas descrições, os pormenores entediantes, os sustos que te dei. Sei que sofreste muito com as minhas cartas, com os meus mortos e feridos, as flagelações. Desculpa tudo, estou certo que Deus assim andou connosco, e nos deu força".


(ii) A emboscada em Malandim


E portanto a 3 de Agosto vamos emboscar em Malandim, vamos mostrar a quem se abastece em Mero e Santa Helena que não estamos impassíveis ao descaro. Trabalhou-se até cerca das 5 da tarde, escolhi um grupo de quinze homens, cuidadosamente, com o auxílio do Benjamim Costa e do Domingos Silva expliquei como íamos actuar: ficaríamos em linha numa clareira, muito perto do mato denso que vem da destilaria de aguardente abandonada da fazenda de Malandim; ficaria no meio rodeado do Tcherno e de Mamadu Djau; ninguém dispararia a não ser à minha ordem, e a haver uma retirada viríamos pelo trilho até Finete, deixando os sentinelas de sobreaviso quanto a essa emergência.

Levara para Finete alguns livros, tais como A vida de Charlot, por Georges Sadoul, um volume com as aventuras Sherlock Holmes, um belo livro polícial de Ellery Queen, um romance que mal iniciei de Truman Capote e estava a meio de um policial de Erle Stanley Gardner, O caso do pato afogado. Este último, envolto num plástico, acompanha-me até à enboscada de Malandim.

Estamos devidamente posicionados quando a repentina noite tropical caíu sobre nós. Aqui e ali ainda se ouve um cantil que vai à boca, um mastigar de comida, um pedaço de cola que ajuda a passar o tempo e quebra a secura. Penso mais no dia de amanhã que no de hoje, amanhã quero levar as folhas dos vencimentos a Bambadica, procurar trazer arroz, encomendar comida para a nossa messe em Missirá, ver se já chegaram alguns cunhetes para suprir as munições desaparecidas na noite de 15 de Julho.


(iii) A histérica reacção do Cabo Costa


A 5 de Agosto vou escrever à Cristina:

"Não podes imaginar a dor com que te escrevo, estou chocado e não sei conter a amargura que me trespassa a alma. Tens que me ouvir. Montei uma emboscada na noite de 3 perto de Finete, onde estive até ontem. Aguardávamos com ânimo elevado a borrasca dos céus e o desfiar das horas, até alta madrugada. Eu estava estirado na pequena picada que conduz às ruínas da fazenda de Malandim. Silêncio sem o piar das aves até que, passava das 7, não estávamos ali há mais de uma hora, oiço o brado do Mamadu Camará que passa como um chicote pelas minhas costas: alto, alto já! rodopio, há um vulto que avança para mim, é um manto que me parece esverdeado que vacila diante de mim, não sei se vem armado, crivo-o de balas, oiço um suspiro breve, é como se uma massa mole que me cai nos braços.

"Estala o pânico, ouvem-se passos em fuga, é naturalmente o grupo que se reabastecera em Mero que parte em fuga. Acometido por uma violenta histeria, o cabo Costa pragueja e insulta-me: matou uma mulher, és um branco assassino. Uns procuram dominar o dementado, outros querem caçar os fugitivos, é uma desordem geral com a berraria do cabo Costa que continuava a vociferar e a insultar-me.

"Coisa curiosa, estou sereno, ordeno a retirada para Finete, aqui peço ao Bacari para ir buscar o corpo e os despojos, informo que vamos todos seguir para Bambadinca, sei e sinto que é necessário cortar pela raiz este sinal de insubordinação. Os quilómetros enlameados que levo até Bambadinca dão para pensar no que devo ao Benjamim Lopes da Costa, seguramente o mais culto dos meus cabos, sempre prestável, militar aprumado a quem reconheço a qualidade da solicitude e o valor da lealdade. Mas não se pode passar uma esponja sobre o que aconteceu".


(iv) Uma conversa surreal com o meu comandante, na presença dos meus homens

Atravessado o Geba, parece que corremos até à rampa de Bambadinca, em segundos alcanço a messe de oficiais onde Jovelino Pamplona Corte Real joga bridge. Cá fora fica o grupo acompanhante, tudo gente que presenciou os acontecimentos de Malandim.

Uma conversa quase extraordinária com o Comandante do BCAÇ 2852:

- O que o traz aqui a estas horas?

- Meu Comandante, fizemos uma emboscada perto de Finete, surpreendemos um grupo que ia para Madina, matei um dos elementos, um dos meus cabos perdeu a cabeça e insultou-me, chamando-me "branco assassino". É indispensável que se reponha a ordem. Tem que ficar aqui preso. É a si que compete dar voz de prisão.

- Homem, nem pensar. Na guerra, não se prende toda a gente só porque se perde a cabeça. Fale-lhe a bem, obrigue-o a pedir desculpa, vai ver que não houve insubordinação nenhuma.

- Meu comandante, mantenho com todos os militares em Missirá e Finete uma relação de autoridade e estima que não posso nem quero perder. Não vou agora fazer um relatório com este episódio aldrabado. Não pudemos capturar o inimigo por este desrespeito, este acto insensato que estragou o patrulhameto ofensivo. Os meus soldados nunca entenderiam ter-se feito silêncio sobre este acontecimento. Aliás, não aceito desculpas aos soldados que adormecem no posto, nunca deixo passar em branco as tentativas àqueles que querem pagar reforços para fugir ao serviço. O cabo Costa ou é punido ou eu não volto para Missirá.

- Acalme-se, vamos para o meu gabinete.
E fomos, eu fiz sinal para que todos viessem atrás de nós. Entrei a seguir ao comandante no seu gabinete, a luz acendeu-se, ele sentou-se e voltou a propor-me um exercício de cortesia.

- Veja se serena. Quando se é implacável em excesso, corre-se o risco de perder o verdadeiro respeito que a tropa nos deve ter. O melhor é o cabo ficar aqui, eu converso com ele, eu trago-o à razão.

- Não, meu comandante. O cabo Costa chamou-me branco assassino na presença de todos os camaradas. Sei que é um excesso, conheço as suas qualidades, mas vida militar faz-se de exemplos. Ou ele entra na prisão à sua ordem, ou eu informo os meus soldados que a partir de hoje não os comando. E juro-lhe que não voltarei ao Cuor se não se fizer justiça pelas suas mãos. Asseguro-lhe que não volto atrás.

O comandante olha-me intensamente, o tempo suficiente para perceber que era escusado tentar demover-me. Não estou em pânico nem exaltado, a dor que me atravessa não é reparável por qualquer voz de prisão.

- Bom, vou mandá-lo prender, ele fica à minha custódia. Depois vejo o número de dias de prisão que lhe vou dar.

- Desculpe, o meu comandante vai mandá-lo conduzir para a prisão na nossa presença. Os meus soldados precisam de ver com os seus olhos quem faz justiça, quem castiga a insubordinação.


(v) Oito dias de prisão disciplinar para o Cabo Costa


Levantando-se a custo, como se deslocasse todo o peso do seu corpo e da sua decisão, Jovelino Pamplona Corte Real chama o oficial de dia. Quando este chega, ordena-lhe que conduza o cabo Costa para a prisão, que era qualquer coisa como um galinheiro ali em frente. Apercebendo-se do que estava a acontecer, o Benjamim procurou justificar-se. Insensível a qualquer pedido de reparação, perfilei-me e informei que ia partir imediatamente para Finete.




Guiné > Zona leste > Sector L1 > Bambadinca > Teor da punição dada ao 1º Cabo Benjamim da Costa Lopes, do Pel Caç Nat 52, pelo Cmdt do BCAÇ 2852, Ten Cor Pamplona Corte Real:


"Puno com a pena de 8 (oito) dias de prisão disciplinar, o 1º Cabo nº 82535864 - BENJAMIM LOPES DA COSTA, do Pel Caç Nat 52, por no passado dia 03 de Agosto cerca das 19H00, no decurso de emboscada na estrada FINETE-MALANDIN, perante uma atitude legítima do seu Comandante de Pelotão, dirigiu-se-lhe em tom e termos denotando falta de respeito, seguindo-se-lhe uma crise de nervos e de choro, facto este que inibiu ser adoptada uma medida de perseguição imediata a um grupo IN que se revelara, sobre o qual momentos antes o Comandante do Pelotão tinha aberto fogo e abatido um dos seus elementos.


"Não é mais rigorosamente punido atendendo-se ao seu bom nível operacionmal bem c0mo uma razoável capacidade de colaboração já demonstrada em outras ocasiões, além das desculpas que pouco depois apresentou, alegando o seu temperamento nervoso e emotiona

"Infringiu o dever nº 2 do artº 4º do R.D.M."

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007).


Não falo com ninguém, nem durante a viagem nem depois. Mais tarde, frente a toda a tropa formada na parada de Missirá, leu-se a ordem de serviço com a punição: 8 dias de prisão disciplinar por se ter dirigido ao seu comandante em tom e termos denotando falta de respeito, atitude que impediu a perseguição imediata de um grupo inimigo, porque o seu comandante tinha aberto fogo e abatido um dos seus elementos. E não era mais rigorosamente punido devido às suas qualidades e capacidades de coloboração.

Aquela noite mudara a minha vida. Continuo a adoecer no corpo e na alma. Tenho farfalhada e expectoração, líquen no dorso, sinto tonturas, perdi o apetite, isolo-me. O major de operações continua a exigir-nos emboscadas todos os dias, até de madrugada, nos arredores de Missirá e Finete. Já não consigo inventar efectivos para tanto patrulhamento e emboscada.

E a 4 de Agosto recebo a nota de punição em que os meus 2 dias de prisão simples, após recurso, são mantidos por "tendo-lhe sido chamado à atenção para as deficientes condições de defesa e limpeza existentes no seu aquartelamento, não ter dedicado o máximo do seu interesse à resolução de tais problemas". Acabou-se o sonho de ir a férias, tenho que repensar o que fazer sobre os propósitos do casamento, estou abrasado pelo sofrimento, não sei o que hei-de pensar daquela acusação de "branco assassino".

Vou reagir da nota de punição e peço licença para me dirigir ao Concelho Superior de Justiça e Disciplina do Exército. Sinto-me ofendido por ter dedicado muito interesse ao meu aquartelamento e não aceitar à acusação de que não dediquei o máximo do meu interesse. Pretendo saber o que significa o máximo do interesse, não sei se de uma perspectiva filosófica, religiosa, moral ou militar...


(vi) As minhas leituras, os sinais de futuro


Os mosquitos atenazam, estão mais furiosos nestas noites da época das chuvas, não há Lion Brand que os fulmine. Só verei perseguição idêntica quando formos para aquele buraco infecto que eram as instalações na ponte do rio Udunduma. Ler é um refúgio, depois de escrever nada mais, naquele tempo, me embevece tanto e fortifica a alma. Leio descomprometidamente as histórias do Sherlock Holmes com títulos que nunca mais esquecerei: a Liga dos Cabeças Vermelhas, o Mistério do Vale de Boscombe, a Tiara de Berilos... a dedução, a sagacidade desse senhor de Baker Street 220 empolga-me, revitaliza-me a curiosidada.


Leio de trás para a frente e de frente para trás a vida Charlot. Georges Sadoul escreveu uma biografia brilhante desse génio a quem o cinema deve alguma das suas páginas mais gloriosas: a infância díficil num bairro pobre de Londres; a sua entrada no music-hall e depois na pantomina; depois o teatro e a comédia; os primeiros êxitos nos Estados Unidos e a chegada ao cinema; os grandes filmes a começar por "O garoto de Charlot", "Dia de pagamento", "A quimera do ouro", "O Circo", "Tempos Modernos", "O Ditador", "Monsieur Verdoux", "Luzes da ribalta"; as suas lutas e os seus anseios, a força do desengonçado Charlot e a sua mensagem de paz. Eu lia e relembrava as obras primas que me delíciaram, em vários ciclos que vi dedicados a Chaplin em cineclubes.

Capa do livro de G. Sadoul, A vida de Charlot. Lisboa: Portugália Editora. s/d. (Colecção Livro de Bolso, 26/27).

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007).


O mistério da laranja chinesa de Ellery Queen é um policial histórico, inesquecível. Data de 1934, marca claramente uma ruptura com o policial de aventuras, introduz o enigma e a sua decifração. Neste caso, alguem um milionário coleccionador, aparece assassinado num gabinete fechado, tudo remexido, virado do avesso. Ellery, no grande final, convoca todos os possíveis suspeitos e desmonta a charada com a sua dedução brilhante. Não menos importante que o conteúdo é a magistral capa do Cândido da Costa Pinto para este nº 32 da Colecção Vampiro.




Cópia da capa do romance policila de Ellery Queen, O Mistério da Laranja Chinbesa. Lisboa: Livros do Brasil. s/d. (Colecxção Vampiro, 32). Capa de Cândido da Costa Pinto


Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007).



Este Agosto vai ser um mês duríssimo: o meu esgotamento não se pode resolver, a penúria de meios não pára de aumentar. Como um castigo, à cada vez mais patrulhamentos em Mato de Cão, parece que a guerra se intensifica, de manhã ou à tarde aceno a barcos carregados de jovens fardados de fresco. Lá para o final do mês iremos à primeira versão da "Pato Rufia", que se repetirá em Setembro.

Chega uma boa notícia: Enxalé vai finalmente ser incorporada no nosso sector. Ainda em sigilo, volto lá e almoço com o alferes Taveira. Recebo belas cartas, tento reorganizar a minha vida, como se eu pudesse administrar o meu futuro, Missirá voltará a ser flagelada, a guerra agrava-se para os lados de Mansambo e Xitole. Em Lisboa, tenho afectos inconsoláveis. A minha resposta é de que sou preciso no Cuor. Aqui, a despeito desta guerra, sinto-me útil a quem me quer bem.

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Nota de L.G.:

(1) Vd. os últimos cinco posts:

6 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1927: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (54): Ponta Varela e Mato Cão: Terror no Geba

29 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1898: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (53): O ataque a Missirá de 15 de Julho de 1969, visto pelo bravo mas modesto Queta Bald

13 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1948: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (52): Em Bissau, no julgamento do Ieró Djaló

22 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1870: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (51): Cartas de um militar de além-mar em África para aquém em Portugal (5)

15 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1851: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (50): Do tiroteiro em Bambadinca na noite de 14 de Junho de 1969 à emboscada da bruxa

Guiné 63/74 - P1977: Em busca de... (4): Camaradas do Hospital Militar nº 241, Bissau (1972/74) (Carlos Américo Cardoso, o Cardoso RX)

Guiné > Bissau > Hospital Militar 241 > 1972 > O 1º Cabo Radiologista Cardoso, com um miúdo, o Armandinho, a quem foi amputado parte do membro inferior, e que era a mascote do Hospital. Hoje será médico, segundo informações que o Cardoso terá recebido. A ser verdade, é uma estória fabulosa, de luta contar o destino, de determinaçãop, de coragem!


Guiné > Bissau > Hospital Militar 241 > 1972 > O 1º Cabo Radiologista Cardoso, no banco de trás de um jipe da PM, com o Nicolau e um outro seu amigo (o condutor da PM). Ele chegou a Bissau a 18 de Novembro de 1972, em rendição individual.

Fotos: © Carlos Américo Cardoso (2007). Direitos reservados.


1. Duas mensagens, ainda não publicadas, do ex-1º Cabo Radiologista Carlos Américo Cardoso, dos Serviços de Saúde Militar (Hospital Militar nº 241, Bissau, 1972/74):

(i) 12 de Fevereiro de 2007:

Bom dia, camarada Luís. Em relação aos mails, tenho recebido e em boas condições. Aproveito também para dizer que estou muito satisfeito com o camarada Albano [Costa] que me tem enviado fotos do hospital, e que tenho recordado com muita emoção. Até descobri que a nossa mascote no hospital (o Armandinho) é médico, quem me disse foi o Albano. Quando for ao Porto irei fazer-lhe uma visita (...).

Um abraço
Cardoso rx

(ii) 17 de Julho último:

Bom dia camarada Luís Graça:

Não é por mau feitio, mas estou um pouco triste porque o meu objectivo ao entrar para a tertúlia, e não vou negá-lo, era encontrar camaradas que estiveram comigo no Hospital.

Tenho aguardado serenamente a minha foto na tertúlia (dos amigos e camaradas da Guiné). Tendo assistido a diversas actualizações enquanto a minha não aparece. Penso que por lapso, mas gostaria imenso, já que faço parte, penso eu, de pleno direito.

E, ao encontrar camaradas do hospital, o que até agora não aconteceu, novas estórias surgirão para enriquecimento do blogue.

Despeço-me com um abraço e desejo de boas férias

Cardoso RX

2. Carlos:

Tens toda a razão. Tu és um camarada que merece toda a nossa consideração, e és de facto membro da nossa tertúlia, de pleno direito (1), tendo cumprido as regras que estão estipuladas.

Houve um lapso, entretanto já resolvido, como podes comprovar clicando na página da nossa tertúlia

Confere se os teus dados estão todos correctos. Infelizmente, não têm aparecido camaradas teus do Hospital Militar 241, de Bissau. Vamos fazer mais um apelo. Entretanto, refresca a tua memória e manda-nos também mais estórias ou episódios passados contigo, dentro ou fora do Hospital. Olha, por exemplo, a estória do Armandinho: donde é que veio, como é que ele foi aí parar, como é que se transformou na vossa mascote, etc.

___________

Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de:

1 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1481: Hospital Militar de Bissau (1): Apresenta-se o ex-1º Cabo Radiologista Cardoso

7 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1738: Hospital Militar de Bissau (2): O terminal da guerra, da morte e do horror (Carlos Américo Cardoso, 1º cabo radiologista)

Guiné 63/74 - P1976: Tabanca Grande (27): Carlos Silva, mais um 'apanhado do clima' (CCAÇ 2548, Jumbembem)

Guiné-Bissau > Região de Baftá > Bambadinca > Março de 2007 > A chegada do Carlos Silva, de jipe, ao centro de Bambadinca. Em frente a capela e, ao lado direito, a antiga secretaria da CCAÇ 2590/CCAÇ 12m, a que eu pertenci (1969/71). (LG).

Guiné-Bissau > Região de Baftá > Bambadinca > Março de 2007 > O anterior da capela onde, entre outros, rezava missa o Alf Mil Capelão Puim (1970/71). Eu nunca lá entrava a não ser em caso de velório, quando funcionava como capela mortuária (LG).

Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bambadinca > Março de 2007 > As antigas instalações para sargentos, que faziam parte do edifício (integrado) onde estava instalados o comando do Batalhão do Sector L1 (No meu tempo, BCAÇ 2852, 1968/70 e BART 2917, 1970/71). (LG)

Guiné-Bissau > Região de Baftá > Bambadinca > Março de 2007 > Ruínas do nosso antigo aquartelamento. Tenho dificuldade em identificar o(s) edifício(s), pelo que peço ajuda aos meus ex-camaradas de Bambadinca (LG) .

Foto: : © Carlos Silva (2007). Direitos reservados.


1. Mensagem de Carlos Silva, ex-Fur Mil At Armas Pesada, CCAÇ 2548 (Jumbembem, 1969/71)

Caro Camarada [ d’armas]:

O meu nome é Carlos Silva. Também fui combatente na Guiné em 1969/71. Sou da CCAÇ 2548 do BCAÇ 2879 que estava instalado no Sector 02, em Farim. A minha Companhia ficou no subsector de Jumbembem, próximo da fronteira com Senegal.

Fui Furriel e também com a especialidade de armas pesadas. Talvez estivéssemos estado juntos em Tavira. Pois foi lá que tirei a aspecialidade de Março/Junho de 1969, tendo pertencido à 2ª Companhia.

Depois de vir da Guiné, tal como o meu Amigo, embora noutra área, tirei o curso de Direito e também fui funcionário público na área da Segurança Social e Obras Públicas. Há 2 anos que estou aposentado com assessor principal de topo, com um corte radical de 19%, apesar da minha carreira contributiva ser de 39 anos.

Enfim, isto, só para dizer que praticamente termos um percurso da vida, não como dizemos, em direito, mutatis mutandis, mas de certa forma com muitos pontos comuns.

Posto isto, vamos ao objecto deste mail. Tenho visitado e lido o espectacular site sobre a guerra colonial, no que se refere à Guiné e, tal como o Amigo, ex-camarada, interesso-me por esta matéria, porque continuo apanhado do clima.

Tenho bastante bibliografia sobre o território e sobre a guerra colonial em particular sobre a Guiné, bem como tenho um escrito, não publicado, com cerca de 500 páginas. Tenho visitado a Guiné várias vezes e tenho percorrido todo o Território. Tenho os mapas do sector, que também foi necessário pedir autorização à embaixada da Guiné para os adquirir, tal como refere, apesar de serem nossos e de nós termos dado cabo do coiro por aquelas terras.

Tenho milhares de fotos da nossa época a preto e branco e a cores, porque, entretanto, passei os slides para fotografia, bem como tenho milhares de fotos contemporâneas e bastantes do vosso Sector. Ainda recentemente, em Março passado, fiz uma viagem de jipe até à Guiné. Portanto, já posso dizer que fui para lá barco, obrigado, de avião e de carro. Via marítima, aérea e terrestre.

Por este motivo, vendo as suas fotos, e comparando-as com as actuais, bem como, sentindo o seu entusiasmo e prazer que tem no trabalho que tem com a construção e manutenção do site, tal como eu sinto, aproveito para enviar-lhe agora algumas fotos, da terra que lhe roubou muitas horas de sono, para juntar à sua vasta colecção e no futuro enviarei mais.

Receba ou recebe um abraço do ex-camarada e amigo

Carlos Silva

2. Carlos:

Recebe, fica melhor. Se em Tavira, e depois na Guiné, éramos camaradas, então vamos continuar a sê-lo para o resto da vida. Em boa hora chegas ao nosso blogue. E, pelo, que deduzo das tuas palavras, queres pura e simplesmente ficar entre nós. Pois então entra e acomoda-te.

Vi, com emoção, as fotos de Bambadinca, que eu não chamo minha por que não gosto dos adjectivos possessivos... A nossa Bambadinca! As nossas instalações (ali justamente onde dormi muitas noites, fora as que dormi no mato, em tabancas, em bolanhas, em muitos outros sítios do Sector L1 e de outros sectores da Zona leste...). A nossa capela (onde só entrava para velar os mortos)! E, ao lado, a nossa secretaria, a da CCAÇ 12 (anteriormente, CCAÇ 2590)!... Obrigado, Carlos!

Quanto a Tavira, não sei se não te terás enganado na data (1969 ou 1968?) : eu tenho ideia de ter passado por lá no 3º trimestre de 1968 (Mas eu não sou bom em datas). Fui mobilizado para a Guiné no 1º trimestre de 1969, quando já estava em Castelo Branco a dar instrução. Fiz o IAO em Santa Margarida, juntamente com os meus camaradas da CCAÇ 2590, uma companhia independente (mais nova que a tua, a CCAÇ 2548), constituída só por oficiais, sargentos, cabos e especialistas (mecânicos, condutores, operadores de transmissões, enfermeiros, etc.).

Chegados a Bissau, no Niassa, partimos a 2 de Junho de 1969, Rio Geba acima, a caminho de Contuboel onde fomos dar a instrução de especialidade aos nossos futuros praças, todos eles de origem africana... Não sendo uma unidade de quadrícula, tendo sido afectada à zona leste como unidade de intervenção, e não possuindo por isso armas pesadas, deram-me uma G-3 e promoveram-me a atirador de infantaria...

De qualquer modo, és capaz de ser o primeiro Furriel Miliciano Atirador de Armas Pesadas que aparece aqui no nosso blogue. Fico feliz por isso (eu que nunca pus em prática os conhecimentos de armas pesadas que recebi em Tavira, nunca tendo disparado, felizmente, o morteiro e o canhão sem recuo no TO da Guiné!).

E agora que estás reformado (os meus parabéns por teres continuado a estudar e tirado o curso de direito, apesar das dificuldades que isso representava para muitos ex-combatentes da Guiné, muito afectados física e psicologicamente depois de passar à peluda!), espero que continues a ter um tempinho para dedicar ao nosso blogue. Já percebi que tens uma arreigado amor àquela terra e àquela gente. Peço-te, pois, para pores o teu conhecimento e experiência ao serviço ou ao alcance dos camaradas que, por uma razão ou outra, nunca mais lá voltaram ou voltarão.Tens, além disso, o nosso blogue para publicares, no todo ou em parte, os teus escritos.

Vou-te apresentar ao resto da malta, que já instalada na nossa Tabanca Grande! Um Alfa Bravo para ti.

Guiné 63/74 - P1975: Álbum das Glórias (19): Eu e o Zé Manel [Medeiros Ferreira], duas baixas da CCAÇ 2402 (Beja Santos)

Amadora > Regimento de Infantaria nº 1 > 1968 > Pessoal da CCAÇ 2402, em formação. Esta unidade irá embarcar para a Guiné no Uíge, em finais de Julho, integrada no BCAÇ 2851 (, Mansabá, Olossato, 1968/70). AS duas primerias baixas são dois oficiais milicianos, hoje conhecidos do país: Mário Beja Santos e José Manuel Medeiros Ferreira. Estão juntos, na foto, assinalados com um rectânguloa a amarelo (1).

Foto: © Beja Santos (2007). Direitos reservados.


1. Mensagem do Beja Santos:

Afinal, sempre existia uma fotografia em que apareço ao lado do Medeiros Ferreira! (C/C ao Raul Albino, para que conste da história... da CCAÇ 2402).

Fomos sempre muito amigos, o Zé Manel ( sempre o tratei assim) ajudou-me imenso no auto de averiguações em que se procurava incriminar-me como agente subversivo ou "moralmente inapto para a guerra de contra-guerrilha, mormente no Ultramar Português".

Já perdoei tudo ao desgraçado autor (moral) destas calúnias, que propalou ou mandar propalar estas calúnias...

__________

Nota de L.G.:

(1) Vd. posts sobre a história da CCAÇ 2402:

15 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1282: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (1): duas baixas de vulto, Beja Santos e Medeiros Ferreira

6 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1343: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (2): O primeiro ataque ao quartel de Có, os primeiros revezes do IN

12 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1516: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (3): Combatentes, trolhas e formigas bagabaga

13 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1658: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (4): Uma emboscada em Catora e um Lobo Mau pouco predador

28 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1790: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (5): Protecção a uma coluna logística Bula/Có

Guiné 63/74 - P1974: Tugas da diáspora (1): Tony Tavares (CCAÇ 2701, Saltinho, 1970/72): De Zlin, República Checa, com amor

Guiné-Bissau > Novembro de 2000 > Saltinho > Perspectiva sobre o Rio Corubal e a sua ponte, obra do Estado Novo (1955/56).


Guiné-Bissau > Novembro de 2000 > Saltinho > A estrada, agora alcatroada, Saltinho- Quebo (Aldeia Formosa), atrevessando a ponte sobre o Rio Corubal.

Guiné-Bissau > Novembro de 2000 > Saltinho > Antigo aquartelamento das NT transformado em unidade hoteleira. O Rio Corubal e a ponte, ao fundo.


Guiné-Bissau > Novembro de 2000 > Saltinho > Tabanca > Cenas do quotidiano.


Guiné-Bissau > Novembro de 2000 > Saltinho > "Por aqui passou a CCAÇ 2701 (1970/72) do Tony Tavares".


Fotos: © Albano Costa (2006). Direitos reservados.


1. Amigos e camaradas:

Tudo começou com uma mensagem do Henrique Matos, de 27 de Junho passado:


Caros tertulianos:

Para ilustrar quando se costuma dizer que o mundo é pequeno.

Numa viagem recente à República Checa, mais propriamente a Zlin que fica a cerca de 300 km de Praga, onde a minha filha fazia o Erasmus, fui encontrar um português bem instalado com uma vinoteca, que além de bons vinhos portugueses também tem presuntos, queijos e outros petiscos.

Chama-se Tony Tavares, é da Lourosa e fez serviço militar na Guiné, na CCAÇ 2701, do Cap Clemente, quarto pelotão, que esteve no Saltinho, de 1970/72.

Como se deve perceber, foi manga de conversa e uns copitos à maneira. O Tony gostaria de contactar elementos da companhia, nomeadamente o Conceição, de Torres Vedras, o Miquelino, do Algarve, o Simão e o Alegria que são de Lisboa e o Toureiro, de Vila Franca de Xira, que eram do seu pelotão.

Fica satisfeito o seu pedido e, se alguém for a Zlin, não se esqueça de visitar o Tony porque vale a pena.

Tem como email: krocilova@vinoportugal.cz
Abraços

Henrique Matos (1)


2. Mensagem do editor do blogue para a tertúlia:


Para o Julião, o Carlos e outra malta da CCAÇ 2701 (Saltinho,1970/72)...Tragam o rapaz, o Tony Tavares (há portugas por tudo o que é canto do mundo!)...Obrigado, Henrique, diz-lhe que temos cá gente da 2701... LG

3. Aproveitei para dar conhecimento ao nosso emigra, da existência da nossa Tabanca Grande:

Tony: Temos uma casa (portuguesa) à tua espera. Luís Graça
Luís Graça & Camaradas da Guiné


4. O Paulo Santiago, por sua vez, mandou uma mensagem para Zlin, em 8 de Julho:

Camarada Tony:

Acabei de ver uma msg do Henrique Matos,enviada para a Tertúlia,à qual também dou
conhecimento deste mail que envio.

Não sei se te lembras de mim, sou o Santiago, na altura em que estiveste na Guiné e
Saltinho, eu comandava o Pel Caç Nat 53 (2) . Um dos Fur Mil do teu pelotão, o Mário Rui,do qual neste momento perdi o contacto,ficou comigo no 53,quando vocês regressaram em fim de comissão.

Após o vosso regresso,o Saltinho que tu conheceste,transformou-se num inferno,graças à incompetência do Capitão proveta, comandante da companhia que vos rendeu. Aconteceram várias mortes e era muito complicado viver naquele quartel,tanto assim que, por imcompatibilidade com o dito Cap, nós os quadros do 53, do teu tempo só o Mário Rui e os primeiros Cabos Cosme e Pina, os outros eram novos, fomos viver para o Reordenamento de Contabane.

Histórias dessa altura podes encontrá-las no blogue, o Henrique deve ter falado dele: www.blogueforanadaevaotres.blogspot.com, o qual te aconselho a visitar.

Há vários anos houve um almoço da CCAÇ 2701 (3) a que fui. Apareceu bastante malta, mas, como deves compreender, não sei a que pelotões pertenciam. Parece, segundo
informação do ex-Fur Mil Carlos Santos, irão fazer um almoço da Companhia em Setembro
próximo.

O Simão, do qual gostavas de saber notícias,penso que te referes ao Escrita, morreu há já bastantes anos. Do Miquelino e do Toureiro - era o homem da bazooka? - não te sei dizer nada neste momento. O teu comandante de pelotão, o Valentim Oliveira, tirou Arquitetura, após regresso da Guiné, autor do projecto da minha casa, morreu faz este mês dez anos,com um maldito cancro nos intestinos. Há pouco tempo morreu também o Dr. Faria (4). E o 1º Sargento Picado também já não está entre nós.

Encontro-me muitas vezes com o Clemente, hoje Coronel na reforma, com o Julião (penso
que tem um conterrâneo que era do teu pelotão), com o Mota, o Carlos Santos, o Sargaço,
1º Cabo Cripto.

Em 12 de Maio passado, houve um almoço em casa do Belarmino, o vaguemestre, onde esteve bastante malta, não estive presente, encontrava-me em França a participar num Torneio de Rugby de Veteranos. Como sou o que anda todos os dias a navegar na Net, vou entrar em contacto com eles, a ver se me sabem dizer algo sobre malta do teu pelotão.

Em Fevereiro de 2005, estive na Guiné (5) , dormindo uma noite no quartel do Saltinho, onde agora funciona uma estalagem de caça. Mando-te 2 fotos.

Falando de vinhos, tenho duas primas na Gerência das Caves S.João, produzem o Frei João e o Poço Lobo, entre outras marcas. Se precisares de alguma coisa de mim, sobre isto, apita.

Recebe um abraço do
Santiago


5. Houve, do lado de lá, em Zlin, na República Checa, uma senhora, de nome Katerina Krocilová, que respondeu o seguinte em nome do seu tuga Tony (É uma ternura, como se pode aprender uma língua estrangeira por amor!):

Caro Paulo,

Nao te preocupes, ele anda a procura de documentos, esta todos os dias agarrado o computadore como seja o novo brinquedo.

A procura das suas origens. Estamos digitalizar as photografias que ele tem e muito em breve daremos noticias. Ele regressou a dias de umas ferias no Adriatico e nao consegiu abrir os emails que lhe mandaste. Porque ele pressentia que havia algo que ele nao queria saber antes de ir de ferias.

Portanto tudu esta Ok.

Dentro em breve entrarei encontacto com nosso blog a dar noticias mais detalhadas. Comprimentos a toda a malta especialmente o Luis Graca e Enrique Matos por me dar conhecimentos deste grande bloque. Abracos. Tony Tavares e Katerina Krocilova.


__________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 22 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1871: Tabanca Grande (15): Henrique Matos, ex-Comandante do Pel Caç Nat 52 (Enxalé, 1966/68)

(2)Vd. post de 3 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1812: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (10): As mulheres dos meus homens eram minhas irmãs

(3) 13 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1424: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (6): amigos do peito da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72)

(4) Vd. post de 12 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1838: Camaradas que já nos deixaram (3): O Ex-Alferes Médico Martins Faria, da CCAÇ 2701, Saltinho, 1970/71 (Paulo Santiago)

(5) Vd. posts de:

26 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P914: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (1): Bissau

29 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P923: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (2): Bambadinca

30 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P926: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (3): Saltinho e Contabane

5 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P938: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (4): branco com coração negro no Rio Corubal

12 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P955: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (5): O pesadelo da terrível emboscada de 17 de Abril de 1972

13 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P957: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (6): De volta ao Saltinho, Bambadinca e Bissau

20 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P975: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (7): ainda as trágicas recordações do dia 17 de Abril de 1972

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Guiné 63/74 - P1973: Gandembel/Ponte Balana: homenagem aos bravos combatentes de um lado e doutro (Idálio Reis)




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Guiné > Região de Tombali > Gandembel > CCAÇ 2317 (1968/69) > 1968 > Início da construção do aquartelamento > No comments! (As grandes fotografias dispensam legendas)

Foto: © Idálio Reis (2007). (Editada por L.G.). Direitos reservados.

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1. Mensagem do Idálio Reis, com data de 9 de Julho de 2007:


Meu caro Luís,

As palavras encomiásticas que me endereçaste, causaram-me um profundo embevecimento enternecedor, que o devo partilhar com os companheiros da Tertúlia, em que tenho de encimar o José Teixeira, que foi quem me estimulou a entrar adentro da nossa Caserna.

Propus-lhe então intentar narrar o historial da minha Companhia (1) e o inverosímil cerco que foi o nosso pouso em mais de metade da comissão - Gandembel/Ponte Balana.

Embora os elementos oficiais que o País fez arquivar, sejam penosamente tão exíguos, procurei dar às palavras o sentido devido, que melhor pudessem reflectir um mundo de vivências inusitadas, e esses ecos do passado jamais poderiam ter uma tão distinta e nobre difusão, que não fosse o sítio apropriado, que tu Luís, num lampejo de homem-bom, em boa hora ousaste criar.

Eu tão-só participei com um capítulo de um volumoso e reactivo livro, editado de forma inexcedível, exemplar. Um parco tributo para um exemplar único.

E só assim, essa relevância comum em que (sobre)vivemos já não pode cair no olvido. A gesta de Gandembel/Ponte Balana é um marco de soturnos contornos na evocação da guerra colonial travada na Guiné, naquele período, e tentar sequer minimizá-la seria de uma negligência lesiva, provocatória. O votar ao esquecimento é ignóbil vilipêndio.

Como testemunha privilegiada, reconheci que deveria fazer algo para recuperar o que inexoravelmente a voragem dos tempos iria sumir. E aí está o meu singelo contributo, modesto é certo, mas contextualizado num acrisolado apego aos que comigo tiveram que atravessar essa tormentosa odisseia.

Para que tal fosse possível, acompanhei em permanência todos os dias da Companhia, já que não me foi dada oportunidade para uma mínima folga. Por felicidade, não fui ferido, nem sofri de qualquer maleita de agravo que impossibilitasse a minha presença. Até me aconteceu ser objecto de ultraje ao ser punido com 8 dias de prisão simples, que continuam por cumprir, mas que me impediram de gozar férias. Talvez tivesse sido então um dos oficiais do Exército com um castigo mais pesado, de uma perversa injustiça, e que até hoje não consigo perdoar. Porventura, as vicissitudes de uma guerra forte com comando fraco.

Estive lá, sempre, e isso será uma das minhas glórias pessoais, que julgo ter sabido partilhar com os demais elementos da Companhia. Tanto esforço para vã glória.

Caro Luís, envolve-se-me um frémito de emoção, quando propões a colocação de um ramo de flores a fim de perpetuar todos os heróicos combatentes dos dois contendores.

O Pepito vai-me enviando algumas fotos mais recentes. E já lhe frisei, que gostaria de estar presente em Guileje, com uma ida a Gandembel e Ponte Balana. E, se física e psiquicamente andar bem, lá estarei.


E muito certamente, as sombras do passado já longínquo continuem ainda à minha espera, no encanto remansoso das águas do Balana. E a doce melopeia que então entoei, continue maviosamente, em sussurro dolente e canoro, a distinguir-se na sonoridade da floresta, no alvor da madrugada.

Um apertado abraço, extensivo a toda a Tertúlia, do Idálio Reis.

2. Comentário:

Idálio, além de um grande escritor, és também um bom fotógrafo! Não falo do resto, como ser humano, como oficial miliciano, como camarada... A imagem que tu me mandaste, e que eu editei, é já quanto a mim uma das fotos-ícones da guerra da Guiné. Tem uma tremenda força dramática! Está lá tudo: o homem-toupeira, o homem de nervos de aço de Gandembel/Balana, também tinha alma de poeta e sabia transformar a pá do trolha em viola de baladeiro, ou guitarra de fadista! Não sei se és tu, se é outro camarada da tua companhia ou do teu grupo de combate... Mas estamos lá todos nesta fotografia de um camarada, sózinho, no palco da guerra, no cu do mundo, enrodilhado num manta, dedilhando a sua viola ou a sua guitarra e cantando para um público imaginário as suas alegrias, as suas tristezas, a sua coragem, a sua solidão, as suas esperança, os seus medos, os seus ssonhos... Imagino-o no meio de um dos 372 ataques e flagelações a que vocês foram submetidos, entre 8 de Abril de 1968 até 28 de Janeiro de 1969, os nove meses em que, em tempo-recorde, construiram um aquartelamento, defenderam-no e receberam ordens para o abandonar!...
__________

Notas de L.G.:

(1) Vd. dois últimos posts:

19 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1971: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis): 28 de Janeiro de 1969, o abandono de Gandembel/Balana ao fim de 372 ataques

8 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1935: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (8): Pára-quedistas em Gandembel massacram bigrupo do PAIGC, em Set 1968

Guiné 63/74 - P1972: Prisioneiros de Conacri: Jacinto Madeira Barradas (Alter do Chão) e José Vieira Lauro (Leiria) (Benito Neves)

1. Mensagem do Benito Neves, ex-Fur Mil CCAV 1484, Guiné 1965/67 (Nhacra e intervenção ao Sector de Catió de 8/6/66 a finais de Julho/67), residente actualmente em Abrantes (1):

Camaradas:

Relativamente ao assunto a que se refere o Post 1967 sobre os prisioneiros de Conacri (2), posso informar que tenho tido alguns contactos com um deles, o Jacinto Madeira Barradas que é proprietário de um restaurante e café em Alter do Chão, com o nº. telef 245 612 442.

Passe a publicidade (não é essa a intenção), já lá me deliciei com a boa cozinha alentejana (3). É um homem franco, leal, aberto, com uma vivência de histórias vividas na prisão, cuja narração dá gosto ouvir e avaliar o sofrimento que por lá passaram.

Embora o camarada Barradas mo tenha dito, já não recordo a que unidade pertencia ou qual o seu aquartelamento, mas estou certo tê-lo ouvido dizer que foi aprisionado na região do Tombali [, no sul].

O último contacto que tivémos também estava presente o Victor Condeço que, no fim, me confidenciou:
- Que belas histórias para o blogue!.

Um outro camarada ex-prisioneiros de Conacri foi o José Vieira Lauro, que já era prisioneiro em Conacri quando o Jacinto Barradas lá chegou (4).

Foi um dos que mais tempo esteve aprisionado e, na prisão, cabia-lhe a tarefa de distribuir a comida pelos restantes prisioneiros. Na maior parte das vezes (segundo o Jacinto Barradas) apenas era distribuído arroz porque, das poucas vezes em que a refeição trazia alguma carne de galinha, esta era roubada pelos guardas.

O José Vieira Lauro vive na região de Leiria - telef. 244 881 695; telem. 919 086 150.

Quantas histórias, quanta privação, quanto sofrimento. Pergunto-me se valerá a pena, agora, voltar a agitar fantasmas. Julgo que o Jacinto Barradas me informou que os ex-prisioneiros de Conacri se reunem todos os anos.

Esta é a ajuda que posso dar.

Um abraço a todos os tertulianos

Benito Neves

2. Comentário de L.G.:

É uma ajuda preciosa, Benito! A odisseia destes camaradas também nos interessa. Sabemos que é sempre doloroso (para eles e para todos nós) remexer o passado, o nosso passado. Mas eles foram protagonistas de uma situação única. Foram prisioneiros do PAIGC, conheceram Amílcar Cabral, foram libertados no decurso da Op Mar Verde, comandada por Alpoím Galvão...

Uma boa parte deles fizeram parte de unidades que estão representadas na nossa tertúlia: por exemplo, a CART 1690, do ex-Alf Mil A. Marques Lopes (hoje coronel DFA, na reforma). E a propósito é bom não esquecer que nem todos regressaram, sãos e salvos a casa: é preciso contabilizar os que morreram ou despareceram no cativeiro (5)... De qualquer modo, muitos nós também sofremos por eles e vivemos o seu cativeiro...

Se algum deles - o Barradas, o Lauro... - estiver disposto a dar a cara e sobretudo em partilhar connosco as suas memórias, as boas e as más, será acolhido de braços abertos. A Tabanca Grande irá engalanar-se para os receber. Não é por voyeurismo ou miserabilismo da nossa parte. É por solidariedade e camaradagem. Mas é também pelo dever de dar o nosso testemunho... É por que não queremos esquecer... É por que nesta guerra também houve prisões, de um lado e de outro, também houve prisioneiros, também houve sofrimento, privações, humilhações, por detrás das grades, e dos belos discursos, para não falar dos crimes que cometemos, de um lado e de outro, em silêncio, impunemente, contra prisioneiros de guerra, indefesos (6)... (LG)

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Notas de L.G.:

(1) 18 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1673: O blogue do nosso contentamento (Benito Neves, CCAV 1484, Nhacra e Catió, 1965/67)

(2) 18 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1967: Prisioneiros em Conacri, capa da Revista do Expresso, 29 de Novembro de 1997: o que é hoje feito deles ? (Henrique Matos)

(3) Informação turística disponível na Internet, no sítio da Câmara Municipal de Alter do Chão:

LAREIRA ALENTEJANA > Jacinto Madeira Barradas
Estrada Nacional 369, Bloco 2
7 440-999 Alter do Chão
Tel. 245 612 442/ 245 612 010

Lotação: 90 pessoas. Almoços, jantares, banquetes, baptizados e casamentos.Encerra à 2ª Feira. Especialidades da casa: Borrego com arroz amarelo(prato regional de Alter do Chão); Lombo de vitela assada no forno; Lombo de porco com ananás; Perna de Porco à Lareira; Bacalhau à Jacinto; Bacalhau à Lareira; Espetadas de Javali; Espetadas de veado; Lebre com couve; Lebre com feijão branco; Perdiz estufada

(4) Encontrei uma referência ao Lauro, num artigo publicado na Revista do Expresso, de 19/10/2002:

Rito Alcântara, «Monsieur» Cruz Vermelha

Amigo de Amílcar Cabral e de Senghor, o cabo-verdiano Rito Alcântara foi vice-presidente da Cruz Vermelha Internacional durante 12 anos e ajudou à libertação de vários prisioneiros de guerra portugueses

Texto de José Pedro Castanheira, enviado a Dacar

(...) Em 15 de Março de 1968, Cabral voltou a Dacar, com três soldados portugueses capturados pelo PAIGC. Eram eles Eduardo Dias Vieira, José Vieira Lauro e Manuel Fragata Francisco. Os dois primeiros vinham das prisões da República da Guiné; o terceiro, ferido com gravidade, fora tratado no hospital do PAIGC em Ziguinchor, no Sul do Senegal, e levado para Dacar. «A cerimónia de entrega foi na sede da Cruz Vermelha do Senegal. O Amílcar apareceu lá com imensos jornalistas - era realmente um grande político!» (...)

(5) Vd. post de 28 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1468: Mortos que o Império teceu e não contabilizou (A. Marques Lopes)

(6) Vd. post de 1 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1011: A galeria dos meus heróis (4): o infortunado 'turra' Malan Mané (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P1971: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (9): Janeiro de 1969, o abandono de Gandembel/Balana ao fim de 372 ataques

Guiné > Região de Tombali > Gandembel > CCAÇ 2317 (1968/69) > Janeiro de 1969

Foto 415 > "Uns dias antes do abandono de Gandembel/Balana [, em 28 de Janeiro de 1969,]Spínola também viria cá despedir-se".

Foto 414 > "Já o PAIGC utilizava o morteiro 120, quando nos foi enviado um exemplar idêntico"

Os homens da Companhia, essencialmente oriundos do Norte e do distrito do Porto, professavam o catolicismo com muita crença e fervor Foto 409 > "Uma missa rezada em Gandembel"


Foto 410 > "Um local de oração em Ponte Balana"

Alguns aspectos demonstrativos de determinadas facetas que os homens de Gandembel viveram

Foto 411 > "Os furriéis Vasco Ferreira e António Nabais, no Hospital em Bissau, em cura dos efeitos de estilhaços"

Foto 412> "Eu e os meus furriéis, Mário Goulart e Viriato Veiga, a tentarem desenhar o emblema da Companhia"


Foto 413 > "O grupo da ferrugem, com os condutores e os mecânicos, sob a tutela do pesado furriel Jorge Pinho

E em 28 de Janeiro, nos despedimos definitivamente de Gandembel e Ponte Balana



Foto 416 > "A ligação Gandembel a Ponte Balana, pela estrada velha (a do Balanazinho), também deixava de ser utilizada"

Foto 417 > "Do mesmo modo, a picada que nos levava à água no rio Balana e que fazia a ligação a Ponte Balana"

Foto 418 > "E também a placa indicativa, já não se tornava necessária"

Fotos e legendas: © Idálio Reis (2007). Direitos reservados..


IX Parte da história da CCAÇ 2317, contada pelo ex-Alf Mil Idálio Reis (ex-alf mil da CCAÇ 2317, BCAÇ 2835, Gandembel e Ponte Balana 1968/69) (1). Texto enviado em 28 de Fevereiro de 200. Continuação (1).



Visita do Spínola, do Bispo de Madarsuma e das Senhoras do MNF e do jornalista César da Silva no Natal de 68

Seria uma lembrança do Natal, que se aproximava? Não o foi, pois que até lá não recordo qualquer confronto, mínimo que seja. Pelo Natal, dada a solenidade do dia, chegam 2 helicópteros: um trazendo o bispo de Madarsuma, vigário castrense das Forças Armadas e um repórter do extinto Diário Popular, de nome César da Silva; outro, com Spínola e elementos do Movimento Nacional Feminino.

Após a saudação de Spínola e algumas ofertas de aerogramas e esferográficas por parte das senhoras do MNF, o seu helicóptero descola com menos carga, pois o Pai Natal deixara um saco de bacalhau e alguns frescos.

O prelado celebra a missa. No entanto, mal a finaliza, também o PAIGC o sauda em baptismo de fogo, através de uma série de morteiradas. Atónito com este desenlace, o bispo vê-se agarrado por um soldado que o empurra para dentro de uma caserna. E em breve, também se despede de Gandembel.

O dia de Natal teve a sua consoada ao almoço, com um rancho melhorado, que o Comandante-Chefe tivera a gentileza de ofertar.

E o ano de 1968 finalizava, tantos meses passados em Gandembel/Ponte Balana, tantos doentes com paludismo e outras enfermidades, e que me recorde, só por 2 vezes, tivemos a visita de um médico. Os homens qualificados para tratar as maleitas do corpo e da alma, ficavam empatados.

E no aspecto dos cuidados de saúde, com inteiro mérito, é justo salientar o trabalho empenhado e abnegado dos nossos 2 enfermeiros: o Pires Costa e o José Maria Carneiro (este passou algum tempo em Bissau, na recuperação de ferimentos de alguma gravidade em resultado de uma coluna de reabastecimentos).


Que destino, para o Novo Ano de 1969 ? ... A notícia do abandono!


E 1969 despontava, sem nada conhecermos quanto ao destino que nos estava reservado. O PAIGC, felizmente para nós, também se parecia alhear da nossa presença, a não ser de uma forma muito fugaz, como os dias 9 e 14, com envio de mais um conjunto de morteiradas, não mais que meia centena, em cada vez.

E num relance tudo se altera. É dado a conhecer aos subalternos, a decisão do Comandante-Chefe de abandonar Gandembel e Ponte Balana, em data que não seria precisa e que o nosso destino seria muito provavelmente a província de Cabo Verde. Na antevéspera chegou-nos a confirmação que o abandono havia de ter lugar na madrugada do dia 28 de Janeiro, e o destino imediato seria Aldeia Formosa.

Como é fácil reconhecer, o que nunca faltou em Gandembel, foi um paiol bem fortalecido. E tornava-se necessário dar destino a inúmeros caixotes de munições, uma vez que não se dispunham de suficientes viaturas para os transportar de volta.

Reconheço hoje, que optámos pela pior solução. Em vez de se enterrarem todas as munições, como foi o caso dos caixotes das armas ligeiras e pesadas, decidiu-se, com excepção das granadas defensivas, e por premência de muitos soldados, que as granadas de morteiros e dos rockets serem gastas em fazer fogo, a esmo, como também as granadas ofensivas.


Na véspera da despedida, temos a 9ª e última baixa mortal´


Porventura, pela felicidade de abandonar aquele local tão aterrador, os ânimos exaltaram-se, sentimentos que se toldaram, perdeu-se serenidade e sangue-frio, a presença de espírito arredou-se.

Embora se se pedisse a melhor das atenções, no desperdiçar das granadas ofensivas, que não molestam o atirador desde que este se protegesse, na véspera da despedida, perde a vida por imprevidência, em acidente com arma de fogo, o 9º e último elemento da Companhia, o soldado António Moreira, de Joane, concelho de Vila Nova de Famalicão.

Logo que se toma conhecimento deste infausto acontecimento, tudo parou e as restantes munições ficaram por lá espalhadas. Houve ainda tempo, para se proceder à sua evacuação para Bissau.

À alvorada do dia 28, o armamento pesado é desactivado, a bandeira nacional é arriada, o gerador é colocado num Unimog, e eis que partimos em definitivo de Gandembel, passámos por Ponte Balana (ali ao lado) a buscar o grupo que aí estava e seguimos para Aldeia Formosa.


As prováveis razões de Spínola

Em definitivo, Spínola resolvera arquivar o dossiê de Gandembel/Ponte Balana. Mas, que razões o terão levado a tomar este propósito, de mandar evacuar estes postos militares, quando a situação geral tinha melhorado substancialmente nos últimos tempos?

Tento entrevê-las, ler-lhes o significado para poder emitir o meu juízo, obviamente muito subjectivo.

Spínola sempre julgou que a construção daquele aquartelamento, naquele tempo e naquelas condições, fora um colossal erro estratégico. Gandembel, fora o grande palco da guerra a que a Guiné no ano de 1968 esteve sujeita, e sempre na lista negra das más notícias.

Não se conseguiu travar ou mesmo minimizar as acções que o PAIGC mantinha no interior da Província, mesmo nas regiões do Oeste, o que comprova que o abastecimento oriundo da Guiné-Conacri continuou a processar-se sem grandes constrangimentos.

Fez acirrar ódios nas zonas envolventes a Aldeia Formosa, levando o PAIGC a agir de forma violenta e brutal, semeando o pavor nas populações indígenas que povoavam esses chãos. E, para tornar estas áreas mais sossegadas, é obrigado a fazer uso de tropa de elite, um bem demasiado escasso e tão necessário na vastidão da Província.

Em suma, Spínola julga que, de todo, Gandembel/Ponte Balana, não são garantes para a estratégia que urdira para a Guiné. De modo, que aproveita-se um pouco da situação de maior alívio, conquistada recentemente, e prefere sair sem o amargo travo da humilhação, mas com um pequena dose de honra e glória.

Utilizou os estratagemas que estavam à sua mão. E decidiu, porventura angustiado, por que não desejava que houvesse outros maus exemplos, apesar de sentir que a evolução da guerra crescia de forma exponencial.

Foi uma decisão acertada? Se se atender aos factos que ocorreram posteriormente, claramente julgo que não. O PAIGC fica quase inteiramente livre, e amplifica o seu arco de actuação, de modo retumbante, com uma forte actuação nas zonas de Buba, Aldeia Formosa e Guileje. Os casos mais conhecidos nos tempos imediatos, como o brutal desastre de Madina do Boé, a morte dos 3 majores, o aprisionamento do capitão cubano Peralta, a odisseia que foi a construção da estrada de Buba−Aldeia Formosa, são bastante paradigmáticos.

Spínola, ao aperceber-se da situação de desastre a que a Companhia estava votada, do forte poder bélico que o PAIGC demonstrava, seria mais ousado na antecipação da retirada. E evitaria as perdas sofridas de muitos militares.

Na qualidade de ex-militar que viveu todos os dias de Gandembel/Ponte Balana, sinto que, os homens desta Companhia foram uns meros joguetes de uma estratégia macabra, hedionda, vergonhosa. Jamais teve, até à chegada dos paraquedistas, o apoio que merecia. E tenho de reconhecer em Spínola, um militar de uma enorme dimensão, pois que se não fora a sua persuasão, talvez poucos homens desta Companhia restariam.

E talvez por isso, reconheço que havia felicidade estampada nos nossos rostos quando deixámos Gandembel, não o nego. Mas, para trás, ficava definitivamente um palco infernal, e já bastava de tanto castigo.

Mas o abandono não foi da nossa laia. E hoje, ao escrever estas linhas, perpassa algum frémito de emoção, porquanto os momentos dramáticos foram tantos e tão intensos quanto as marcas profundas de sofrimento ou as incontornáveis mazelas taciturnas e dolentes. As violências pessoais, só contaram para o inventário de nós mesmos.

Resistimos sem vacilações ou soçobros, mas tudo parece ter-se volatilizado num ápice, quando o que ocorreu se prolongou por quase 11 meses. E talvez por isto, porque não sei descrever de outro modo, por lá restaram as nossas sombras ou mesmo os fantasmas que tantas vezes ainda nos assolam.

De todo, a odisseia de Gandembel/Ponte Balana ficava encerrada, e cabe-vos agora a vez de lerem a transcrição de uma parte da reportagem do Diário Popular:

A fixação em Gandembel não foi, de modo algum, obra fácil. Pelo contrário, exigiu esforços e sacrifícios indizíveis. Para que o leitor possa fazer uma ideia aproximada, dir-lhe-emos apenas o seguinte; Gandembel tem a superfície de 40 decâmetros quadrados e está toda minada de valas e cercada de arame farpado com espaços armadilhados; os soldados vivem em abrigos fortificados, construídos com milhares de toneladas de toros de árvores, pedra e terra removida. Pois tudo isso foi feito a braços, visto que os nossos rapazes só dispunham de uma moto-serra e duas viaturas. No gigantesco trabalho participaram todos os soldados, com a respectiva arma numa das mãos e, na outra, uma pá, um machado, uma picareta ou, simplesmente, nada!. Trabalharam continuamente, de dia e de noite, mas apenas nos intervalos dos combates que eram obrigados a travar ou que eles procuravam por força das circunstâncias, pois Gandembel nunca deixou de constituir alvo permanente para o inimigo, que contra ele ainda hoje dirige brutais ataques, quase sempre apoiados por armas pesadas.

No conjunto das fotografias que consegui obter, e que vou enviando, faço ressair uma que efectivamente é bastante elucidativa do que intentei dar-vos nota: Gandembel, entre pequenos e grandes, de maior ou menor duração, mais ou menos sofridos, sofreu 372 ataques.

Desejaria, ao terminar esta descrição sobre Gandembel/Ponte Balana, tão-só confirmar que o rio Balana e o seu pequeno Balanazinho, (nas partes que me foi dado conhecer), formavam uma paisagem de uma rara e extasiante beleza, com um tipo de vegetação arbórea e arbustiva muito rica e diferenciada. A fauna era abundante e muito variada, e tantas vezes nas suas margens, no rumorejar das águas, ainda continuo a ouvir o mavioso cacarejo de bandos de galinhas do mato, que por ali abundavam placidamente.

E o que foram as colunas de reabastecimento para Gandembel?

Até breve. Um cordial abraço do Idálio Reis.

(Continua)

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Nota de L.G.:

(1) Vd. posts anteriores:

16 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1530: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (1): Aclimatização: Bissau, Olossato e Mansabá

9 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1576: Fotobiografia da CAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (2): os heróis também têm medo

12 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1654: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (3): De pá e pica, construindo Gandembel

2 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1723: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (4): A epopeia dos homens-toupeiras

9 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1743: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (Idálio Reis) (5): A gesta heróica dos construtores de abrigos-toupeira em Gandembel

23 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1779: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (6): Maio de 1968, Spínola em Gandembel, a terra dos homens de nervos de aço

21 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1864: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (7): do ataque aterrador de 15 de Julho de 1968 ao Fiat G-91 abatido a 28

8 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1935: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (8): Pára-quedistas em Gandembel massacram bigrupo do PAIGC, em Set 1968