quinta-feira, 5 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14324: Efemérides (182): 5 de março de 1973, Guileje: a morte de um herói, o alf mil Victor Paulo Vasconcelos Lourenço, da CCAV 8350, natural de Torre de Moncorvo (Hélder Sousa / Manuel Reis)

Hélder Sousa, Bissau, c. 1970/72
1. Mensagem do nosso colaborador permanente, Hélder Sousaa, com data de 3 do corrente:

Caros camaradas Editores

Em anexo envio um texto em que pretendo recordar a efeméride da morte do Alf. Lourenço, para mim um verdadeiro herói, ocorrida em 5 de Março de 1973.


É, também, um apertado abraço público, solidário, ao Manuel Reis, amigo do malogrado Lourenço e a quem ainda hoje esta recordação 'mexe' profundamente.

Caso vejam que pode ser publicado, seria bom fazê-lo no dia 5 de Março.


Não tenho fotos a acompanhar mas penso que se pode usar a foto n.º13 do "P11908" do cooperante Carlos Afeito e uma foto do Manuel Reis.

Abraços

Hélder Sousa


2. Efemérides: recordando o dia 5 de março de 1973: Homenagem ao alf mil Victor Paulo Vasconcelos Lourenço... Ou quem é ou o que é um herói ?

por Hélder Sousa


Várias coisas me levaram a fazer este texto.

O factor mais recente foi uma homenagem prestada pelo nosso camarada Armando Faria às vítimas das minas em Cufar em 2 de Março de 1974. Mas já há muito que um outro acontecimento, ocorrido um pouco mais a sul mas cerca de um ano antes, concretamente em 5 de Março de 1973, me tinha impressionado e que várias vezes me assaltava à mente. Refiro-me à morte trágica do Alf. Mil. Lourenço, o último Alferes a morrer na Guiné, segundo uma listagem que já vi publicada, pertencente à CCAV 8350, “Piratas de Guileje”, e que foi uma das 9 baixas mortais que essa Companhia sofreu.

O seu nome foi recordado em placa colocada pelos seus camaradas, dando assim o nome de “Parada Alf. Lourenço” em sua homenagem àquele pedaço de chão, conforme se pode ver na foto n.º 13, da autoria de Carlos Afeitos, ex-cooperante na Guiné entre 2008 e 2012 e que se encontra no “P11908”.





Guiné-Bissau > Região de Tombali > Guileje > Núcleo Museológico Memória de Guiledje > c. 2011 > Memorial à CCAV 8350 (1972/1974) e ao alf mil Lourenço, morto por acidente em 5/3/1973.

De seu nome completo Victor Paulo Vasconcelos Lourenço, era natural de Torre de Moncorvo, está sepultado na Caparica. Foi uma das 9 baixas mortais da companhia também por "Piratas de Guileje" e um dos 75 alferes que perdeu a vida no CTIG.

Foto:  © Carlos Afeitos (2013). Todos os direitos reservados



Um outro factor foi a facilidade com que se denominam ‘heróis’. Hoje em dia, por tudo e por nada, e principalmente por questões relacionadas com o desporto, surgem ‘heróis’ como cogumelos. Pois muito bem, há actos relevantes que fazem com que determinadas pessoas se possam distinguir das demais? Tudo bem! Mas, ‘heróis’? Não serão heróis todos aqueles que no seu dia-a-dia lutam enfrentando as enormes dificuldades que a vida lhes (nos) oferece, para conseguirem ter, quantas vezes, o mínimo?

Às vezes, também, restringindo o ‘heroísmo’ a tempos e a acções de guerra, temos tendência para dar essa classificação a quem foi “muito bom a matar”, deixando de lado aqueles que, como eu entendo ser o caso deste Alferes Lourenço, que em vez de tirar deram literalmente a sua vida em prol de outros. Nos registos, a morte do nosso camarada Lourenço ocorreu por “acidente” e não “em combate”, sendo que isso, para o resultado final, não tem qualquer diferença.

A diferença está, isso sim, nas circunstâncias em que ocorreu.

Esse relato está colocado em comentário que o nosso camarada Manuel Reis publicou no acima referido “P11908” (*).  Em traços gerais, o que sucedeu foi que, aquando duma acção para (re)utilização duma picada entre Guileje e Mejo, verificou-se que num determinado local havia uma granada desarmadilhada mas não em segurança, o que o Alf. Lourenço se preparava para fazer, tendo ele dito ao Manuel Reis, que estava junto dele, que haviam duas em cada trilho e que já tinha colocada a primeira em segurança.

Subitamente a alavanca saltou e naquelas fracções de segundo a decisão que o malogrado Lourenço tomou foi a de proteger os seus camaradas que se encontravam próximos, oferecendo o seu corpo para ‘amortecer’ o impacto da deflagração tendo ficado, em consequência, ‘completamente esventrado’, como indicou o Manuel Reis.

O que o levou a tomar essa decisão? Tanto quanto nos apercebemos do relato do Reis, que se encontrava a um passo, havia mata cerrada na envolvente, havia o seu grupo de combate à frente a montar segurança, havia os capinadores e o Régulo atrás, pelo que atirar a granada para longe, fosse para onde fosse, essa tentativa provocaria, talvez, muito mais ‘estragos’. Mesmo com o seu gesto, para além da morte imediata do Lourenço, ainda se produziram 6 feridos evacuados para o Hospital, entre os quais o Régulo em estado grave.

Volto a interrogar-me: o que teria levado o Lourenço a decidir assim? O sentido da responsabilidade? O sentido do ‘peso’ do comando que determinou a necessidade de proteger os seus homens em detrimento da sua possível segurança? Como conseguiu, naquela fracção de segundo, decidir não seguir o ‘instinto de defesa’ e lançar a granada para longe? Será possível alguma vez responder a estas questões seriamente?

Será que classificar o gesto altruísta (e fatal) do Lourenço de “acto heróico” é injusto?

Para mim, não é injusto! É inteiramente merecido! Que mais poderia ter dado, para além da própria vida?

Por isso aqui deixo a minha comovida homenagem, neste dia do 42º aniversário do seu sacrifício, de modo a que a sua memória e a memória do seu gesto possam ser do conhecimento de mais gente. (**)

E também não quero deixar de dirigir umas palavras ao nosso camarada Manuel Augusto Reis, ‘amigo do peito’ do Lourenço, a quem a sua morte, em si mesma e nas circunstâncias referidas, muito abalou, naquele tempo e que ainda hoje fazem “doer”. Companheiros de quarto, confidentes, com cumplicidades cimentadas nos tempos da Universidade onde idealizavam um País mais igual, mais justo, mais solidário, no qual a guerra estivesse excluída, o Reis sabia da intenção do Lourenço casar quando viesse a Portugal (à Metrópole, como se dizia) nas próximas férias. Não veio!

Também calhou ao Manuel Reis a ingrata tarefa de reunir os haveres do Lourenço e tentar estabelecer o diálogo com a mãe dele, tendo ideia de que era filho único. Se relacionarem a data, Março de 73 e os nomes de Guileje e Gadamael (que, dizem, causam ‘cansaço’ a alguns) pode-se perceber que esses contactos através de cartas não seriam muito ‘eficazes’. Tanto quanto sei, as cartas da mãe eram de revolta e choro e que nunca chegou a ‘aceitar’ a morte do filho, pelo menos nesses tempos.

Portanto, na efeméride deste acontecimento, deixo aqui expresso o meu respeito e admiração no gesto heroico do Alferes Miliciano Víctor Paulo Vasconcelos Lourenço, natural de Torre de Moncorvo e sepultado na Caparica e também o meu abraço solidário ao sobrevivente Manuel Augusto Reis que, cumulativamente, é igualmente merecedor do meu enorme respeito pela forma cordata e paciente como tem ‘aguentado’ todas as odiosas ‘observações’ com que alguns ‘heróis de pacotilha’ o tentaram enlamear.

Honra ao Alferes Lourenço!

Um abraço para toda a Tabanca!

Hélder Sousa
Fur MilTransmissões TSF (Piche e Bissau e 1970/72)



Guiné > Região de Tombali > Guileje > Abril de 1973 > CCAV 8350 (1972/73), Piratas de Guileje > O Alf Mil Reis junto ao monumento erigido à memória do Alf Lourenço, dos "Piratas de Guileje", morto em 5 de março de 1973, na explosão de uma armadilha. Segundo nos conta o J. Casimiro Carvalho, "um dia, o alferes Lourenço, a manusear uma granada duma armadilha , e rodeado de militares - eu estava emboscado com o meu grupo -, a mesma explodiu-lhe na mão, tendo-o morto instantaneamente. Ficou sem meia cabeça e o abdómen aberto. Eu, já no quartel, ao ajudar a pegar no cadáver, este praticamente partiu-se em dois… Que dor!... Chorei como nunca, e isto foi o prenúncio do que nos esperava".

Foto: © Manuel Reis (2009). Todos os direitos reservados

3. Comentário do Manuel Reis [ex-alf mil, CCAV 8350, Guileje, 1972/743] ao poste P11908 (*)


Então aí vai amigo Luís. Já a contei imensas vezes, talvez não o tenha feito no Blogue, e tão pormenorizada. Não vou ocultar qualquer facto, julguem-me como entenderem.

Lourenço era o meu melhor amigo e após a sua perda se tivesse por onde me furtar, em segurança, e com garantia da minha integridade física, adeus, Guiné.

Estava prevista a reabertura da estrada Guileje-Mejo, para posteriormente se reabrir um aquartelamento em Quebo, mais próximo do Cantanhez. A localização do possível aquartelamento já fora por nós visitado, num patrulhamento que Coutinho e Lima comandou. Nesse dia a sorte estava do nosso lado, quando exaustos, descuidámos a proteção. O PAIGC estava no local, mas nunca imaginou que pisássemos aquele terreno, controlado por eles. A maré do rio começou a encher e tivemos de regressar, sem qualquer percalço.

Por volta das 8 da noite, dia 4 de Março, o Lourenço recebe ordem para fazer proteção à reabertura da referida picada ( estava limitada a um pequeno trilho pela imensa mata que a ladeava) no dia 5 de Março, logo que a visibilidade o permitisse.

Como sempre fazíamos, dada a nossa grande intimidade, abordámos a situação da reabertura da estrada e concluímos que aquela picada brevemente se transformaria num campo de minas, o que se veio a concretizar.

Estava de serviço ao aquartelamento, colaborando na limpeza, ajuda na cozinha, recolha de água e qualquer outra tarefa, que se tornasse necessária.

Depois de orientado o serviço,  dei uma saltada à picada que estava a ser reaberta. O trabalho era feito pelos capinadores recrutados na população.

Constatámos os dois que os trabalhos tinham avançado imenso, a que era atribuído à presença, quase permanente, do Coutinho e Lima. Alertei-o para a granada, que estava desarmadilhada, mas não em segurança. Respondeu-me que sabia, cada trilho tinha duas e ele já colocara em segurança a primeira.

Depois de um pequeno bate papo solicitou-me que lhe pegasse na arma e que iria pôr a granada em segurança. Fumava um Português Suave (sem filtro  e pegou na granada para a colocar em segurança. A alavanca saltou e o Lourenço para proteger os outros ficou completamente esventrado.

A situação era complicada e o tempo escasso para decidir. Estava junto dele e o sexto sentido aconselhou-me que a que recuasse um passo (não havia espaço para mais) e me baixasse com a arma dele. Em frente tinha a mata cerrada e o risco de lhe cair junto aos pés era grande. Atirá-la para a frente era arriscado, encontrava-se o seu grupo de combate a montar a segurança. Atirá-la para trás era impensável, lá se encontravam os capinadores e o Régulo que já se encontrava a dois metros de distância de nós.

A situação resumiu-se à morte imediata do Lourenço e à evacuação, para o hospital de 6 capinadores e do Régulo, este em estado grave.

Não cheguei a ver o estado do Lourenço, era fácil deduzir como se encontrava. Fiquei em estado de choque e refugiei-me na messe dos Sargentos.

Com o Lourenço partiu metade de mim. Para agravar todo este estado anímico, nessa hora, fomos visitados por camaradas sediados em Bissau que vinham planificar as obras a realizar no aquartelamento e que acabaram por me melindrar por me encontrarem num estado debilitado e em sofrimento.

Obrigado,  Amigo. Descansa em Paz. Não esquecerei a data trágica de 5 de Março e recordar-te-ei para sempre.

Manuel Reis

_____________________

Notas do editor:

(*) 6 de agosto de  2013 > Guiné 63/74 - P11908: Memória dos lugares (243): Núcleo Museológico Memória de Guileje - Parte II (Carlos Afeitos, ex-cooperante, 2008/2012)

Guiné 63/74 - P14323: Manuscrito(s) (Luís Graça) (48): Foi você que pediu uma Kalash ?



Lisboa > Beira Tejo > Pôr do sol no Atlântico, visto do estuário do Tejo, em Belém, junto ao Museu do Combatente (Forte do Bom Sucesso). 5/11/2011

Foto: © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados




Foi você que pediu uma Kalash ?

Luís Graça



Há uma luz difusa,
mistura de ternura e de saudade,
quando o sol se põe
em Lisboa,
e tudo à volta é a humanidade
que arde.

Impensável o fado da idiossincrasia lusa
sob o céu de chumbo 
de Atenas.
Impensável 
ou improvável,  apenas ?
Porque de pias intenções,
maus pensamentos 
e piores ações está o inferno cheio,
as praças, do Comércio ao Rossio,
e os marcos do correio.

Ah!, o bravo Ulisses, o grego,
o que ele andou p’ra aqui chegar, 
depois de transpostas as colunas de Hércules, 
e fundar 
a mítica cidade atlântica de Olissipo. 
Ah!, a Lisboa,
que os poetas amaram 
e onde nunca foram amados,
do Cesário Verde ao Álvaro de Campos.
Ah!, Lisboa
com as suas casas de muitas cores,
caiadas de branco.

Chora, e não é de medo,
o judeu sefardita, 
a sua desdita,
cristão novo, marrano,
a caminho do degredo:

─  Ai!, a doce luz de Lisboa,
filtrada pelo espelho de água do Tejo,
mais o pôr do sol sobre o Atlântico Norte
que começa no Bugio.
Não sei se estarei cá, p’ró ano,
que a vida e a morte
são jogos de azar e sorte.
Só sei que o que sinto,
é já saudade, 
porque… é arrepio!



No tempo em que a terra era plana,
antes das viagens de circum-navegação,
não podias imaginar o novo mundo
e, lá ao fundo, 
Copacabana,
mais as cataratas de Iguassu,
Darwin e a teoria da evolução,
e o tu-cá-tu-lá de deus com a ciência.
Muito menos a crioula e o seu cretcheu,
o tango,
o flamengo, o fado,
o dundum, a coladera
o samba, a morna, 
o lançado, o tangomau,
o escravo do Cacheu,
e a santa paciência
com que a gente vive, morre e não retorna.

Chama-lhe o que quiseres,
mas tens uma dívida de gratidão,
à Grécia antiga,
ao Homero,
ao Platão,
à bela e pérfida Helena de Troia,
ao ateniense e ao espartano,
aos deuses e deusas do Olimpo…
Que serias tu, sem o Ícaro,
mas também sem boia
nem colete de salvação ?
Que importa, afinal, a nobreza de um povo,
grego, judeu ou lusitano,
se a espada do sacro imperador romano
está suspensa por um fio
sobre a tua cabeça ?!

Em Lisboa, a norte, 
no caminho do São Tiago,
o santo decapitado,
guiando os feros exércitos da Reconquista,
no seu constante vaivém do ir e vir,
à volta da Europa e dos seus picos
de civilização.
E a sul, a autoestrada da globalização
onde cada turista 
tem direito ao seu recuerdo,
um postal ilustrado do futuro 
que seguirá dentro de momentos…
Allah Akbar!, ainda ecoa o último grito 
da batalha de Alcácer Quibir.

Mais a sul, 
as febres palúdicas do Geba e do Corubal,
grau 35 do frio polar,
esmagando os teus ossos;
grau 42 do fogo infernal,
implodindo a tua cabeça.
Viras na curva do rio,
para desceres ao fundo da terra,
verde e vermelha, 
dos pesadelos.


Dos miradouros dos grandes cruzeiros
que demandam o Tejo
não se vê a solidão dos velhos,
à beira rio,
tentando em vão
reacender o pavio
do desejo.
Muito menos os mariscadores
do mar da Palha
onde apodrece a última nau
do caminho marítimo para a Índia.
Ou ainda os moços que partem na frota branca
para os bancos de pesca do bacalhau, 
na Terra Nova,
sete vidas, sete safras,
servindo a velha pátria
em alternativa à guerra de África.

Lisboa, forrada a dourada talha,
estremece,
sob o peso da carruagem
do senhor dom João Quinto.
Dizes adeus a Fernão Mendes Pinto
que parte em viagem 
para o império do sol nascente,
levando consigo os botões, 
as armas de fogo 
e as emoções
dos bárbaros do sul.

 Canta-lhe, Mísia,  aquele fado,
que diz: “Arrefece
a última lava do vulcão
do teu corpo, amor,
mas ainda estremece,
ou não foras tu, velha Lisboa, 
sempre (e)terna,
menina e moça, bajuda, mulher”.

Entardece,
ensandece a cidade,
todas as sextas-feiras treze
do novo milénio.
Valha-nos as cruzes, canhoto,
contra o mau olhado.
E vade retro, Cronos, 
que, depois de devorares os teus filhos,
hás de devorar-te a ti próprio!
E quem tem bula come
carne,
não precisa de engenho e arte,
diz o cristão, velho e relho.
Mas é amarga a ostra,
e mortal a ameijoa
com que os pobres matam a sua fome.

Afogas-te em absinto,
bebida antiga de poeta,
depois de teres mandado cortar
as copas dos pinheiros bravos
por te taparem
a linha perdida do horizonte.
Mas já não há horizonte,
querida,
nem rosas nem cravos,
quebrada que foi a linha da vida.

Sem ajuda do Google Earth, 
à vista desarmada,
encontras aqui o teu lugar,
definitivamente provisório,
provisoriamente definitivo,
porque sabes que é tão irrisório
partir como absurdo ficar,
para quem da vida é fugitivo. 
Sentas-te numa esplanada
na doca de Belém,
com vista de mar:

─ Foi você que pediu uma Kalash ? ─ 
pergunta-te um dos sem-abrigo,
antigos estivadores e fragateiros,
pescadores e marinheiros,
agora tristes desempregados de mesa,
predadores à espera de presa.
Estão ali simplesmente à coca do turista.

 Não, obrigado, amigo,
mas não me faltava a vontade…











 Temos as melhores Kalash da cidade, 
das originais e das contrafeitas…
É só puxar a culatra

e meter uma bala na câmara,
e ficar à escuta...

Não insista!...
Para que haveria eu de querer uma arma,
essa é boa!,
se não tenho licença… para matar?!


Mal por mal, 
protestas contra o autocrata,
metes uma baixa psiquiátrica,
e pedes uma azeitona ou uma tâmara
e um copo… de cicuta,
enquanto o sol se põe em Lisboa!...


Lisboa, beira Tejo, fev 2015




Guiné > Região do Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589/BCAÇ 1894 (Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  Uma Kalash, capturada ao PAIGC...

Foto do álbum fotográfico do nosso camarada Manuel Caldeira Coelho, ex-fur mil trms, CCAÇ 1589 (Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68).

Foto: © Manuel Coelho (2011). Todos os direitos reservados [Edição: LG]

________________________

Nota do editor:

Último poste da série > 28 de fevereiro de  2015 > Guiné 63/74 - P14308: Manuscrito(s) (Luís Graça) (47): Quem em caça, política, guerra e amores se meter, não sairá quando quiser...

Sobre a Kalash e a Kalashnikovmania, vd. entre outros os postes de:

25 de novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7335: Kalashnikovmania (5): Passados tantos anos sobre a guerra, continuo fã incondicional da G3 (Mário Dias)

17 de janeiro de  2008 > Guiné 63/74 - P2445: Em louvor da G3, no duelo com a AK47 (Mário Dias)

17 de maio de 2005 > Guiné 63/74 - P20: Foi você que pediu uma kalash ? (David Guimarães)

quarta-feira, 4 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14322: Ser solidário (179): "Bambadinca Sta Claro", projeto-piloto na Guiné-Bissau, de uma central híbrida fotovoltaica, leva luz a 8 mil habitantes de Bambadinca. Documentário produzido pela ONG TESE e entrevista da Antena 1 a Sara Dourado



(Reproduzido com a devida vénia...)


1. De acordo com notícia da página da TESE - Associação para o Desenvolvimento,  a Delegação da União Europeia junto da República da Guiné-Bissau e a ONG TESE Sem Fronteiras  inauguraram hoje, dia 4 de março, pelas 09h00, em Bambadinca, o Serviço Comunitário de Energia de Bambadinca (SCEB).

Estava prevista participação do Primeiro-Ministro e de outros membros do Governo da Guiné-Bissau, bem como do Embaixador da União Europeia em Bissau e do Comissário da CEDEAO para Energia e Minas.

"A entrada em serviço do SCEB permitirá aos 8 mil habitantes de Bambadinca ultrapassar os constrangimentos no acesso à electricidade, beneficiando de um abastecimento permanente de energia renovável, garantido por uma inovadora central fotovoltaica híbrida de 312 kW de potência.

"Este é o resultado do programa 'Bambadinca Sta Claro', financiado pela União Europeia, pelo Camões - Instituto da Cooperação e da Língua e pela Agência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial, com o apoio da Direcção-Geral de Energia.

"O projecto foi desenvolvido e executado pela TESE Sem Fronteiras e pelos seus parceiros, a Associação Comunitária de Desenvolvimento de Bambadinca (ACDB), a ONG guineense DIVUTEC e Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

"O SCEB será gerido pela ACDB, que garantirá o fornecimento de electricidade a um preço acessível, assim como um modelo de gestão sustentável, com vista à sua replicação futura noutras localidades da Guiné-Bissau e da sub-região."

Programa da inauguração (Disponível aqui)





2. Programa da  Antena 1 > Portugueses no Mundo > 4 de março de 2015 > Sara Dourado, Bambadinca, Região de Bafatá, Guiné-Bissau > Ficheiro áudio, 7' 22''


"Com um clique e faz-se luz por Bambadinca!", relata Sara Dourado, uma "portuguesa no mundo", em entrevista à Antena 1, a "minha rádio". Por ela fico a saber do trabalho da ONGD TESE e do projeto-piloto, na Guiné-Bissau, de uma central híbrida fotovoltaica  em vias de ser inaugurada, e e pssar a fornecer eletricidade a 6 ou 8 mil pessoas, em Bambadinca...

Hoje, de manhã, na 2ª circular, a caminho do trabalho, ouvi deliciado esta entrevista com esta portuguesa que se deixou encontar pela gente boa de Bambadinca (de maioria mandinga e fula, com núcleos balantas)... Oito mil habitantes, quatro ou cinco vezes mais do que há 45 anos, no meu tempo!

É trabalho de seis anos, se bem percebi, trabalho de gente solidária, muito jovem e qualificada, para quem vão as nossas palmas!... Hoje gostava de estar em Bambadinca para ser testemunha da felicidade dos seus habitantes!... Mesmo não falando, a maior parte,  em português (, o que é pena!),  é uma  delícia ouvi-los em crioulo e ler a felicidade estampada no seu rosto!... Não é preciso muito para os seres humanos serem felizes, na Guiné-Bissau... Basta que sejam donos do seu destino e possam participar na resolução de problemas e na tomada de decisão, relevantes para a melhoria das suas vidas !... Vou querer saber mais sobre o trabalho desta ONGD TESE - Sem Fronteiras... (LG)

Guiné 63/74 - P14321: X Encontro Nacional da Tabanca Grande, Palace Hotel de Monte Real, 18 de Abril de 2015 (4): Já temos 74 inscrições, incluindo 2 dos Açores, e muitas caras novas!


Infografia: Miguel Pessoa (2015)


INSCRITOS PARA O X ENCONTRO NACIONAL DA TABANCA GRANDE - MONTE REAL, 18 DE ABRIL DE 2015 (N=74)

Albano Costa & Maria Eduarda - Guifões / Matosinhos
Alberto Godinho Soares - Maia
António Estácio - Mem Martins / Sintra
António Joao Sampaio & Clara - Leça da Palmeira / Matosinhos
António Maria Silva &  Maria de Lurdes - Lisboa
António Martins de Matos - Lisboa
António Osório, Ana &  Maria da Conceição - V. N. de Gaia
António Santos &  família (6) - Caneças / Odivelas

Carlos Alberto Cruz, Irene & Paulo Jorge - Paço de Arcos / Oeiras
Carlos Vinhal & Dina - Leça da Palmeira / Matosinhos
Coutinho e Lima - Lisboa
David Guimarães & Lígia - Espinho
Eduardo Ferreira Campos - Maia
João Alves Martins & Graça - Lisboa
João Maximiano - Santo Antão / Batalha
João Sacoto & Aida - Lisboa
Joaquim Carlos Peixoto e Margarida - Penafiel
Joaquim Mexia Alves - Monte Real / Leiria
Jorge Canhão & Maria de Lurdes - Oeiras
Jorge Pinto & Ana Maria - Lisboa
Jorge Rosales - Monte Estoril / Cascais
José Almeida e Antónia - (?)
José Barros Rocha - Penafiel
José Casimiro Carvalho - Maia
José Fernando Almeida e Suzel - Óbidos
José Manuel Cancela & Carminda - Penafiel
José Miguel Louro & Maria do Carmo - Lisboa
Juvenal Amado - Fátima / Ourém
Liberal Correia e Maria José - Ponta Delgada (RA Açores)
Lucinda Aranha e José António - Santa Cruz / Torres Vedras
Luís Graça & Alice - Alfragide / Amadora
Luís Moreira - Mem Martins/Sintra
Luís Paulino & Maria da Cruz - Algés / Oeiras
Manuel Fernando Sucio - Vila Real
Manuel Lima Santos & Maria de Fátima - Viseu
Miguel & Giselda Pessoa - Lisboa
Ribeiro Agostinho e Elisabete - Leça da Palmeira/Matosinhos
Ricardo Sousa & Georgina - Lisboa
Rogé Guerreiro - Cascais
Valentim Oliveira, Maria Joaquina, Cyndia & Carina - Viseu

Os Organizadores:

Carlos Vinhal 
Joaquim Mexia Alves
Luís Graça
Miguel Pessoa

Inscrições e esclarecimentos: email carlos.vinhal@gmail.com

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Nota do editor:

Último poste da série 19 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14274: X Encontro Nacional da Tabanca Grande, Palace Hotel de Monte Real, 18 de Abril de 2015 (3): Abertura das inscrições e outras informações complementares

Guiné 63/74 - P14320: Sondagem: resultados finais (n=112): três em cada quatro reconhece que mudou muito, fisica e/ou psicologicamente


Resultados finais da última sondagem (que decorreu, "on line", de 25/2 a 3/3/2015)


1. Recorde-se a nossa pergunta, de 25 de fevereiro último (*):

Camaradas, será que mudámos assim tanto, física e psicologicamente, ao fim destes 40/50 anos ?... Ao ponto de um irmão e camarada (Manuel Carvalho) não conseguir reconhecer outro irmão e camarada (o Carvalho de Mampatá, o Toni), numa foto de agosto de 1974 ? Vd. poste P14296 (*).

2. Total de respondentes: 112.

Resultados finais da sondagem: "Ao fim destes 40/50 anos, mudei muito, física e psicologicamente " (Resposta múltipla) 

1. Sim, mudei muito > 37 (33%)

2. Mudei muito fisicamemte > 53 (47%)

3. Mudei muito psicologicamente > 39 (35%)

4. Não, não mudei muito > 29 (26%)

5. Não mudei muito fisicamente > 18 (16%)

6. Não mudei muito psicologicamente > 29 (26%)

7. Não sei > 2 (2%)

Votos apurados: 112
Sondagem fechada em 3/3/2015

3. Alguns comentários de camaradas da Tabanca Grande (**)

 (i) Eduardo Santos

Olá caro (s) amigo (s). Em resposta ao vosso inquérito, é evidente que, no meu caso pessoal, a resposta está nos pontos 2 e 3: mudei muito física e psicologicamente. Para o melhor, mas também para o pior.

É a lei normal da vida, o que não impede que ainda hoje sinta uma certa nostalgia desses tempos. Era o auge da vida, convém lembrar. Não concordando politicamente com o Governo de então, limitei-me a cumprir a minha obrigação (imposta) para com o país. Sinto dever cumprido, não fugi como muitos, arrostei com o que foi necessário. Fiz mais de 22 meses na Guiné como 1º cabo entre 1967/69. Conservo com muito orgulho um louvor que me foi outorgado como militar distinto, com um sentido de profissionalismo (era operador cripto) elevado e exemplo a seguir (era da praxe dos louvores de então).

Para todos os meus ex-camaradas um abraço amigo. Eduardo

(ii) Leão Varela

Olá, Amigos e Camaradas: Achei piada a esta sondagem bem como aos comentários complementares...

Oh! Amigo e Camarada Luís Graça, achas que passadas mais de 45 Luas (no meu caso) que não mudei muito?  Claro que mudei... não muito, mas mudei...principalmente fisicamente (o contrário só se tivesse sido "embalsamado" aos 30 anos e agora "ressuscitado").

Contudo, acho que psicologicamente a mudança - até à data - não foi muito acentuada (salvo quanto a uma maior dificuldade em fixar e relembrar-me nomes e fisionomias - o que aliás, diga-se, foi quase desde sempre um defeito muito meu)...pois continuo o mesmo Varela com os seus pontos fracos e fortes mas sempre com os mesmos valores que sempre me pautaram - quer na guerra quer na paz - e que herdei dos meus saudosos pais e que fui adaptando e actualizando a cada momento da minha vida.


(iii) Carlos Milheirão

Acho pertinentes as questões postas. De um modo ou de outro, todos mudámos tanto física como psicológicamente. No que me diz respeito, se não fossem as rugas, as cãs e, como é óbvio, as manchas da velhice, podia considerar-me igual ao outro eu de 1973/74.

Mantenho e tenho mantido ao longo dos anos, as mesmas medidas de roupa. O peso andou sempre nos 65/70 kg. Quanto à parte psicológica, a juventude intelectual ainda por cá mora apesar de ter sofrido algumas (poucas) restrições. Pelo menos assim o penso porque, de vez em quando, ainda gosto de fazer as minhas incursões na noite com alguns amigos. Cantam-se uns fados e bebem-se umas "bazukas".

Abraço a todos os Tabanqueiros, Carlos Milheirão

 (iv) Luís Marcelino

Caríssimo camarada Luís Graça: É com muito prazer que participo na sondagem, para dizer: 4. Não, não mudei muito; 5. Fisicamente também não mudei muito; 6. Não mudei muito psicologicamente

Um abraço, Luis Marcelino

(v) Carlos Vinhal 

Caro Luís:  Quando respondi ao inquérito, fui o segundo a dizer que tinha mudado muito. Folgo por a rapaziada se estar a aproximar do meu ponto de vista. Somo já quase um terço dos respondentes. É que,  se somarmos o aspecto físico com a inevitável alteração psicológica, a verdade andará pelos 80%. Atendamos a que mesmo entre os que cumpriram a sua comissão só em Bissau havia muitos (inexplicavelmente?) apanhados do clima.

28 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14309: Pensamento do dia (21): Por que é que este blogue é tão importante para os ex-combatentes (Torcato Mendonça)... E por que é que eu me sinto tão bem ao pé deles... (Jorge Rosales)

27 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14307: (Ex)citações (263): Eu respondi à sondagem "4. Não, não mudei muito"... Mas acho que mudei, não sei se para melhor, se para pior (Hélder Sousa, ex-fur mil, trms TSF, Piche e Bissau, 1970/72)

Guiné 63/74 - P14319: Os nossos seres, saberes e lazeres (77): A arquitetura de Haia em visita de médico (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Fevereiro de 2015:

Queridos amigos,
Diz o editor e os seus coeditores que dá sempre jeito o registo de viagens, mesmo que as mesmas não incluam savanas, porcos de mato, tarrafo ou macaréu.
Imprevistamente, passei dois dias em Haia, há pelo menos 35 anos que não visitava a cidade. Nas nesgas do programa, captei imagens que vos ofereço. Adoro aquele país, o seu modo de vida, a sua arte, há ali qualquer coisa de saxónico mas suavizado, e há uma alegria de viver, uma bonomia que me lembra os países do Sul. E, acima de tudo, aquele torvelinho de bicicletas...

Um abraço do
Mário


A arquitetura de Haia em visita de médico

Beja Santos

Fui pela primeira vez a Haia em 1978, vinha de Londres depois de um estágio na BBC (TV e rádio), fora o pedido que fizera à administração da RTP, quando recebi o convite para a primeira série de programas que ali fiz sobre defesa do consumidor, intitulada “10 milhões de consumidores”. Contactara entretanto a então a IOCU, hoje Internacional dos Consumidores, tinha nesse tempo sede em Haia, pedi-lhes uma resma de filmes de várias procedências, necessitava de termos de comparação para os filmes a realizar em Portugal. Viajei de Heathrow para Schipool (Amesterdão), à saída apanhei um autocarro para Haia. A impressão que me ficou da cidade foi de resguardo e boa manutenção da arquitetura típica dos Países Baixos Setentrionais, com imensas afinidades, como é óbvio, com a arquitetura flamenga. Meses depois, foi devolver o material fílmico, passei por Haia de raspão anos vindo de Utrecht, continuava a ser a cidade do Governo e do Parlamento, tudo muito cuidado, o que é compreensível se nos recordamos que a Holanda teve a felicidade de não ser afetada pela I Guerra Mundial e na guerra relâmpago de 1940 os alemães concentraram o seu dispositivo destruidor sobre Roterdão, que reduziram a cinzas.

Volto agora em menos de 48 horas para participar numa conferência, venho cheio de curiosidade, já me falaram em prodígios arquitetónicos, vou então arranjar, dê por onde der, uma hora de luz para cirandar entre as lembranças daquele antigo que retive na memória e as audácias e arrojos da moderna Haia, pujante de vida, prazenteira se bem que buliçosa.


Saí do EasyJet Hotel, vou esfomeado mas esta imagem não me escapa até porque aquele raiar vermelho é de pouca dura, daqui a um bocado tudo vai ficar cinzento e assim será até à noite escura. Temos aqui a mistura do antigo e do moderno, caminha para as oito da manhã, está friozinho mas não há chuva, toca a deambular.


Temos aqui a natureza silenciosa no inverno rigoroso, os patos já estão em movimento, o inacreditável é que frente ao parque erguem-se como colmeias os arranha-céus e aqueles edifícios que não se sabe se são escritórios ou de habitação que se espalmam por quarteirões, fascina o arrojado com um toque de antigo, às vezes até parece que anda por ali a mão de Gaudi, vejam só.


Pode gerar atração ou repulsa, mas não nos deixa indiferentes, estão sabiamente implantados, há espaço para a arquitetura, e para as diferentes situações, não esquecer que os peões andam paralelos às bicicletas e outros velocípedes, é timbre da cultura holandesa dar ao pedal, magros, com bom peso ou gorduchos andam à desfilada, constituem uma artéria circular que ao princípio confunde o forasteiro, mas ele habitua-se depressa, a Holanda é a Holanda.


Num outro ângulo apanhei esta mostra de arte pública, fiquei satisfeito, não há paredes grafitadas nem as esculturas estão esmurradas, agora vou para o hotel onde vai começar a conferência, e ainda tenho que meter uma bucha à boca, com este peso ainda caio para o lado desfalecido.


Alto lá, as proporções deste edifício geram harmonia, e até pasmo como todo este quarteirão moderno não tem um só resquício de desumanidade ou desolação, já atravessei algumas ruas com arquitetura vernacular, mas toda esta arte contemporânea embrinca e, pasme-se, não é mastodôntica, apela à escala humana. Basta de festa, agora vou trabalhador.


Acabou o primeiro dia de conferência, um elemento da terra esclareceu-me que ainda tenho luz por cerca de uma hora. É agora ou nunca, enfarpelo-me para resistir aos 4ºC, e vou para a giraldinha, ninguém me agarra até à hora em que regressar para o jantar oferecido pelo Ministério da Saúde da Holanda. É ocioso dizer que ando por aqui ao acaso, o que me cai na rede é peixe, é do que gosto e o que gosto registo para partilhar. Comecei aqui.


Dobrei a esquina e pumba, não me passou pela cabeça brincar com os reflexos, o que aqui se registou foi puro acaso, há horas de sorte para os fotógrafos amadores, e vou já atravessar a rua, há ali outra construção que me está a encher o olho.


Passei por aqui ontem, até captei aquela peça de arte urbana, talvez se recordem. Não me virei ao fundo da rua para ver o efeito desta fachada, gosto muito. Ah, será mesmo possível o que eu estou a ver?


Destes escritórios aqui à volta, não tardam muito, vão sair corretores, informáticos, contabilistas, analistas e tudo o mais de que a civilização precisa, vão transmutar-se em ciclistas, muitos deles, conforme a gravura junta, vão buscar as crianças à creche. As cidades planas e os países planos ditam esta locomoção que se traduz numa maneira de viver pragmática, autónoma, dita a bonomia destes holandeses que têm pouco de germânico mas que também não se aparentam com os mediterrânicos. Parece que têm pouco a esconder, janelas não estão entaipadas, podemos ver o recheio e os movimentos de quem lá vive. E quando calcorreamos as ruas vem à mente a pintura holandesa, com aquela malta bem-disposta, a beber uns copos, tudo suave, sem agressividade. É assim.


Disseram-me aonde estava a Gare Central, apontaram o edifício e comentaram que era um ex-libris da cidade. Não se é ou não é, o que gostei foi do ângulo, e como tenho mais de uma hora por minha conta antes de partir para o aeroporto, vou mostrar-vos as coisas antigas de que gostei com as últimas imagens do moderno que mais me cativou.


Dá para ver perfeitamente o antigo entalado no moderno, não provoca escândalo.


A moral protestante transparece nestas linhas austeras, não se mostra ao público o interior da casa, haja o luxo que houver. O puritanismo é para se ver e recomenda-se.





Aqui ficam imagens de diferentes épocas, andei a saltitar entre a velha Flandres e esta alegria de viver dos burgueses com boas habitações em Haia, Arte Nova, Arte Deco e a arte aparentada entre as guerras. Dá para regalar a vista, consola ver esta construção bem tratada.


Ponto final na viagem a Haia e a este registo de arquitetura, a Gare Central está ali à esquina, depois encafuo-me num comboio, vou meia hora a ver pólderes e saio diretamente no aeroporto e daqui regresso a Lisboa. Espero que tenham gostado como eu tanto gostei de ter imprevistamente voltado a Haia e captado tais e tantas diferenças numa cidade que não visitava há mais de três décadas. É este um dos sais da vida.
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Nota do editor

Último poste da série de 16 de janeiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14155: Os nossos seres, saberes e lazeres (76): O vício da pesca desportiva à linha (Juvenal Amado)

Guiné 63/74 - P14318: Lembrete (10): Apresentação do livro "As Mulheres e a Guerra Colonial", da autoria de Sofia Branco, hoje, dia 4 de Março de 2015, pelas 19h00, na Associação 25 de Abril (A25A), em Lisboa

Lembrete para a apresentação do livro "As Mulheres e a Guerra Colonial", da autoria de Sofia Branco, hoje, dia 4 de Março de 2015, pelas 19h00, na Associação 25 de Abril, Rua da Misericórdia, 95, Lisboa.





OBS: - Três nossas amigas colaboram neste livro, a saber: Deonilde de Jesus (esposa do nosso camarada Manuel Joaquim), Dulcinea Cerqueira (esposa do nosso camarada Henrique Cerqueira) e Maria Alice Carneiro (esposa do nosso Editor Luís Graça).
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Nota do editor

Último poste da série de 25 de novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13940: Lembrete (9): Convívo de Novembro, e de Natal, da Tabanca do Centro, dia 28 de Novembro de 2014 em Monte Real

terça-feira, 3 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14317: Historiografia da presença portuguesa em África (55): O caso da empresa NUNES & IRMÃO, LDA. GENTIL E ARTUR NUNES. (Jorge Araújo)

1. O nosso camarada Jorge Araújo (ex-Fur Mil Op Esp / Ranger, CART 3494, Xime e Mansambo, 1972/1974), enviou-nos a seguinte em 26 de Fevereiro: 

HISTORIOGRAFIA DA PRESENÇA PORTUGUESA NA GUINÉ
-O CASO DA EMPRESA NUNES & IRMÃO, LDA. - 
[GENTIL E ARTUR NUNES]

1– INTRODUÇÃO 

Venho acompanhando com alguma curiosidade a publicação dos diversos postes da autoria do camarada Mário Vasconcelos [1.º-P14164…],estruturados a partir do conteúdo da Revista “Turismo” n.º 2, de Jan-Fev/1956, onde estão anunciadas algumas das casas comerciais existentes, naquela época, na então província portuguesa da Guiné. 

Entretanto, a recente morte do nosso camarada guineense Amadu Bailo Jaló (1940-2015), nascido no mesmo dia que eu, mas uma década antes [10.Nov], levou-me a fazer nova consulta ao baú de memórias e imagens, recuando a 1973 – ano em que Amadu Jaló foi condecorado com a Medalha de Cruz de Guerra de 3.ª Classe. 

Ao recorrer a este elemento de certificação histórica, para recordar a sua CCmds Africanos em desfile militar, em Bissau, quisemos-lhe prestar uma singela homenagem [P14284], uma vez que a ele tinha assistido [desfile] dias antes do início do Julgamento Militar [7DEC1973] relacionado com o «Naufrágio no Rio Geba de 10AGO1972», sendo, por isso, pertinente que o considere no âmbito do programa das comemorações do 1.º de Dezembro desse ano. 

De uma dezena de fotos guardadas desse evento de 1973, reproduzimos metade relacionando-as com cada um dos parágrafos anteriores, e que no seu conjunto servem para legitimar o título desta narrativa.

2– AS FOTOS SELECCIONADAS 

Foto 1 – Bissau> DEZ1973 – A Companhia de Comandos Africanos no desfile militar realizado no âmbito das comemorações do 1.º de Dezembro de 1973, que contou com a presença de efectivos dos três ramos das Forças Armadas em missão ultramarina no CTIG.

Foto 2 – Bissau> DEZ1973 – Elementos da 38.ª Companhia de Comandos [1972/74] no mesmo desfile militar na Avenida da República [hoje Av. Amílcar Cabral] em 1DEC1973.

Foto 3 – Bissau> DEZ1973 – Rectaguarda do desfile militar na Avenida da República [hoje Av. Amílcar Cabral] realizado no âmbito das comemorações do 1.º de Dezembro de 1973. 

Foto 4 – Bissau> DEZ1973 – Peças de Obus integradas no desfile militar na Avenida da República realizado em DEC1973. Ao centro, no painel de publicidade, faz-se referência à firma Salgado & Tomé, empresa que consta na Revista anteriormente citada [2.º-P14167]. 

Foto 5 – Bissau> DEZ1973 – Fanfarra do Exército constituída integralmente por guineenses após concluído o desfile militar na Avenida da República [hoje, Av. Amílcar Cabral], aguardando ordens para destroçar. À esquerda, um polícia sinaleiro [um ícone daquela época]. 

Na rectaguarda dos militares é possível identificar a loja da firma Nunes & Irmão, empresa dedicada ao comércio geral [Importações/Exportações], cuja referência não consta na mesma Revista… Porquê?

3– A BISSAU DOS ANOS 50, QUE EU CONHECI (MÁRIO DIAS) 

A propósito da interrogação suscitada pela ausência de referências na Revista “Turismo”à empresa Nunes & Irmão [foto acima],e na procura de resposta[s] a esta curiosidade em saber o que esteve na sua génese e qual a origem destes compatriotas lusos, realizei, com algum sucesso, uma pequena investigação cujos resultados partilho agora convosco. 

A primeira fonte consultada, como não podia deixar de ser pelo extraordinário espólio histórico que disponibiliza, foi o blogue da nossa «Tabanca Grande», onde o camarada Mário Dias [ex-sargento comando e instruendo no 1.º CSM realizado em Bissau, em 1959 – P2343] nos caracteriza sumariamente a Bissau dos Anos 50 [P2691].  

Com efeito, a firma Nunes & Irmão e as suas instalações sede [edifício da foto 5] são identificadas por Mário Dias na foto abaixo pelo telhado. De referir, que entre as duas fotos [4 e 5] existe uma diferença temporal de duas décadas.

Foto 6 - Bissau> Anos 50> Perspectiva da Avenida da República [hoje, Av. Amílcar Cabral] obtida a partir da torre da catedral já ao final do dia. O primeiro edifício, de que se vê pouco mais que o telhado, é a sede de uma das importantes firmas comerciais da Guiné: Nunes & Irmão. Mais ao fundo, do lado direito, o cinema UDIB e o palácio do governador na praça do Império. O edifício da Associação Comercial (hoje PAIGC) situado na mesma praça, ainda não existia (MD), [P2691, 27Mar2008 – com a devida vénia].

4– HISTÓRIAS DE VIDAS PORTUGUESAS NUM POBRE PARAÍSO

Uma segunda fonte de informação, e que acabou por esclarecer as questões de partida, foi obtida por via de uma reportagem realizada por jornalista (?) do matutino Correio da Manhã, publicada em 15 de março de 2009, com o título abaixo repetido [www.cmjornal.xl.pt].


A reportagem faz a ponte entre o antes e o depois da independência da Guiné-Bissau, onde se afirma que os portugueses “chegaram há muitos anos e resistiram a todos os conflitos nesta antiga colónia portuguesa. Aconteça o que acontecer, nada os fará regressar a Portugal. Insurgem-se até contra a imagem exterior da terra que adoptaram. Para estes portugueses, a Guiné-Bissau, país entre os dez mais pobres do mundo, é um pedaço do paraíso na Terra”.

Quanto à história de vida da família Nunes, fundadora da firma Nunes & Irmão e, depois, da Residencial Coimbra, os testemunhos foram divulgados na entrevista dada por Francelina Nunes, nora de Gentil Nunes. Este e o seu irmão Artur Nunes acabariam criar a sua primeira empresa nos anos vinte do século passado.

Transcrevemos, na íntegra e com a devida vénia, o que está escrito sobre a história de vida desta família de portugueses.

“Francelina Nunes, 64 anos, [1945-] deixou Góis, em Coimbra, em 1964, com apenas 19 anos, para juntar-se ao marido, repetindo um trajecto iniciado pelo sogro, Gentil Nunes, e o irmão, Artur Nunes, nos primeiros anos do século XX. Em 1920, depois de trabalharem na mais famosa empresa do País naqueles anos, a Casa Gouveia, conseguiram juntar um pé-de-meia que lhes permitisse criar uma empresa.

Assim nasceu a Nunes & Irmão, uma imagem de marca da Guiné com rosto luso. A residencial Coimbra é a face mais visível deste projecto empresarial, com 86 anos de vida. "Somos a terceira geração da família à frente dos negócios", diz Francelina Nunes, muito longe de se arrepender de, há 44 anos, ter deixado Portugal. "Foi fácil gostar da Guiné porque, quando cheguei, Bissau era uma cidade viva e o clima era óptimo.

Nestes anos todos, a única tragédia foi a guerra de 1998, entre Nino Vieira e Ansumane Mané. A guerra colonial era feita longe daqui, no campo, esta aconteceu mesmo na cidade. E foi horrível".

Francelina surpreendeu-se com a sua própria coragem, entre os escombros de Bissau, quando empreendeu acções merecedoras da condecoração do então Presidente da República, Jorge Sampaio: "Tivemos muita gente refugiada em nossa casa e, talvez por isso, o Presidente tenha decidido condecorar-me. Se nunca passámos fome foi porque tivemos ajuda humanitária. As organizações sabiam que havia muita gente aqui e ajudavam-nos".

Habituada a ver portugueses chegarem a Bissau, Francelina garante que há uma excelente relação entre os nacionais e os forasteiros. "Quase todos os portugueses que vêm para cá fazem-no no âmbito de projectos e chegam com vontade de ajudar este povo. Converso com muitos, que se hospedam no nosso hotel, e nunca vi nenhum muito contrariado por aqui estar. A verdade é que também não se metem na vida política local".

Francelina diz que a imagem que a comunidade internacional tem da Guiné-Bissau é distorcida: "Sabemos que isto não é um mar de rosas, mas passam imagens tristes do país. Mesmo na Europa, a vida não está fácil. Se um europeu não tiver um bom ordenado e uma vidinha organizada, também passa por dificuldades. Bissau enfrenta problemas com a luz e a água, mas em matéria de alimentação, móveis e bens de primeira necessidade, não falta nada. Não se formam filas em lado nenhum, tudo pode ser comprado. A Guiné não é um país pobre. Pobres são aqueles que nem têm uma folhinha verde".

Francelina não pára o novelo cor-de-rosa que desenrola sobre o país de adopção. "Pode haver um ou outro roubo de telemóvel, mas aqui não acontece nada de especial. O problema aqui é a instabilidade política. Há sempre um golpe ou outro problema parecido e isso contribui para que os brancos sintam medo".

O amor de Francelina Nunes pela Guiné é secundado por Alexandre ‘Xia’ Nunes, 40 anos [1969-], um dos dois filhos de Francelina e extremamente popular na cidade. Tanto ele como o irmão, Miguel, 44 anos [1973-], nasceram na Guiné-Bissau, embora os estudos tenham sido feitos em Portugal. Em 1990 optaram pelo país de origem. "Estudei em Coimbra até ao 2.º ano de Informática, mas decidi regressar. Durante 12 anos de escolaridade, estudei sempre com a ideia de voltar à Guiné e não estou nada arrependido. A vida na Europa é muito cansativa, há demasiado stress. Tenho lá muitos amigos e percebo que a vida deles não é nada fácil". ‘Xia’ defende que a Guiné é um país de oportunidades, à espera da estabilidade política.

"Em Portugal pensam que isto é o fim do mundo, é uma ideia transmitida às pessoas que não corresponde à realidade. Não devem ser as coisas fúteis, como cinemas e centros comerciais, motivos de escolha de uma terra".

Na opinião deste luso-descendente, os guineenses são os mais hospitaleiros entre todos os naturais dos países africanos de expressão portuguesa. Só a instabilidade política trava o arranque definitivo do desenvolvimento do país. "Cada vez que há uma situação como esta, que redundou nos assassínios de Nino Vieira e Tagmé na Waié [no início deste mês], os investimentos estrangeiros deixam de ser feitos e volta tudo à estaca zero. É chato um governo estabelecer contractos com a Guiné-Bissau e de repente cair tudo por terra porque houve uma mudança de dirigentes, em apenas três ou quatro meses. Assim é difícil, mas acredito que a Guiné-Bissau tem condições para evoluir". 

‘Xia’ Nunes reconhece, no entanto, que há dois pólos de desenvolvimento que devem merecer atenção especial, para atrair estrangeiros: "O principal problema é a falta de escolas e hospitais. Qualquer pessoa que venha trabalhar para aqui quer ter os filhos consigo. Tem de haver escolas e serem complementadas com uma boa política de saúde. Não há necessidade de, por tudo e por nada, às vezes coisas mínimas, se ter de transportar um doente para Dakar ou Lisboa. Por que razão hei-de estar aqui e ter os filhos em Coimbra?".

Quanto à Residencial Coimbra, esta localiza-se no centro da cidade de Bissau, junto à Catedral de Bissau, sobre a firma Nunes & Irmão, Lda. [foto 5]. Compõe-se de 16 quartos amplos, equipados com casa de banho privativa, duche, água quente, água e luz, ar condicionado, cofre, mini bar, tv, video e dvd. Quartos duplos e quartos simples, alguns voltados para a Avenida Amílcar Cabral [antiga Avenida da República], outros voltados para um terraço tropical interior. Dispõe, ainda, de sala de pequenos-almoços, ampla, voltada para a avenida principal e de uma sala de convívio com bar, mesa de jogos, internet, tv e um amplo terraço para lazer e repouso. 

5– FOTOGALERIA DA RESIDENCIAL COIMBRA



Depois da triangulação entre três temas e algumas fotos, resta-me terminar citando o que é habitual dizer-se nas tertúlias: “as conversas são como as cerejas…” isto é, encadeiam-se umas nas outras, o mesmo acontece com a escrita… é difícil parar.

Um forte abraço, com amizade, do
Jorge Araújo.
Fur Mil Op Esp / Ranger, CART 3494
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Nota de M.R.: 

Vd. Também o último poste desta série em: