segunda-feira, 30 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14420: E as nossas palmas vão para... (10): João Crisóstomo e António Rodrigues, amigos da causa de Aristides de Sousa Mendes (Parte II)



Título da reportagtem feita pelo jornal "Defesa da Beira", 1/10/2004




S/l> S/d > O presidente da República Jorge Sampaio, tendo à sua esquerda o João Crisóstomo e á sua direita o António Rodrigues




1. Segunda parte da mensagem de 31 de janeiro último, enviada pelo João Crisóstomo (*) [, aqui na foto com a sua esposa, Vilma, do lado esquerdo, com outro casal amigos da causa de Aristides Sousa Mendes; foto: cortesia da Fundação Aristides de Sousa Mendes]


Em 2004 eu queria que o nosso herói Aristides [de Sousa Mendes] fizesse parte da Galeria dos Heróis no prestigioso Museum of Jewish Heritage em Nova Iorque ─ depois de ter lançado a ideia de lembramos com relevância o dia 17 de Junho. o que foi feito com uma série de acontecimentos do Vaticano à China, de Portugal a Timor Leste , num total de 22 países durante essa semana…

Abrindo aqui um parênteses: para isto foi importante a ajuda do Secretariado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, na altura sob a direção do Sr. Embaixador Rocha Páris em Lisboa, e da Fundação Internacional Raoul Wallenberg em Nova Iorque, que muito me facilitaram os necessários contactos: nessa semana houve 34 missas, muitas delas celebradas por cardeais e outras eminentes figuras da Igreja Católica; serviçøs religiosos em sinagogas, e outros acontecimentos em colégios, universidades e outras instituições de cultura e ensino…

Ao 17 de Junho eu chamava "dia de Acção de Graças”, mas depois, por sugestão da dra Mariana Abrantes, começamos a chamar " O dia de Consciência", nome com que ficou a ser chamado desde então.

Consegui, entretanto, convencer o director do supracitado Museu [“Museum of Jewish Heritage"] a aceitar a ideia, mas ficou condicionada a que eu conseguisse trazer para Nova Iorque por um ano ou dois, para ficar em exposição, o livro do "Registo de Bordéus" e o carimbo com que Aristides carimbava os passaportes.

Consegui que o MNE [Ministério dos Negócios Estrangeiros] aceitasse deixar vir o livro, mas faltava o carimbo (que no fim teve de ser substituído pela caneta de Aristides, já que não foi possível encontrar o carimbo). Mas na altura nós pensávamos que o carimbo existia em qualquer parte em Portugal. Aproveitei as minhas férias e, com o António Rodrigues, que sempre tinha sido o meu braço direito em todas as minhas campanhas e que tinha regressado de vez a Portugal, resolvemos procurá-lo.

Pedi o auxílio de Mariana Abrantes, de Luís Fidalgo e de António Moncada, neto do César (irmão gémeo de Aristides) em cuja casa suspeitávamos se encontrava esse carimbo. E lá andámos umas duas ou três horas, sem encontrarmos o carimbo.



No fim resolvemos "visitar" a casa de Aristides, que fica bem perto. Aí o António Moncada disse-nos que não, pois a casa não estava em condições de ser visitada por ninguém, pelo perigo que isso representava: havia um grande buraco no teto que havia caído (com uns quatro a cinco metros de diâmetro), e os "beams" (barrotes, é assim que se chamam, não é?), alguns deles ao caírem, fizeram buraco enorme em todos os andares até ao chã e outros barrotes, de todos os tamanhos, alguns enormes, estavam dependurados, numa imagem dantesca de ameaça e perigo.

Mas nós (eu e o António), que tínhamos vindo de tão longe, queríamos ver a casa de que tanto tínhamos ouvido falar ( a foto dela até fazia parte num artigo que escrevi em 1998 e que foi publicado em vários jornais) e insistimos com o Moncada e o Luis Fidalgo (que também como o Moncada era membro director da Fundação).

Finalmente acederam ao nosso pedido, mas que tudo seria por nossa conta e risco. Assim aceitámos. E lá entrámos, pés de mansinho, um após outro, olhando para o alto e para os lados com todo o cuidado. Verificámos que o enorme buraco estava situado mais ou menos no meio da casa, logo à entrada, mas com cuidado havia maneira de ver o resto da casa sem grande perigo.

Para nosso espanto apercebemo-nos que a casa parecia nunca ter sido sujeita a qualquer cuidado ou limpeza. E por respeito ao nosso herói nós resolvemos que a casa teria de ser limpa imediatamente e não sairíamos de Cabanas de Viriato sem que a casa de Aristides recebesse pelo menos uma limpeza geral.




Mais: começámos a pensar se não seria possível contratar um empreiteiro para consertar o telhado. Pensamos nós: se este buraco continuar assim, com as chuvas e ventos de inverno etc., a casa não vai aguentar mais do que dois ou três invernos… Viemos para fora para pedir autorização do que queríamos fazer e averiguar sobre empreiteiros locais, etc. Sucede que entretanto a nossa visita tinha despertado a curiosidade de alguns residentes de Cabanas; e, quando falámos sobre a ideia de reparar o telhado, falámos sobre orçamentos e viabilidades, etc.

Entre os presentes que tinham chegado ou estavam por perto foi-nos apresentado um empreiteiro, logo seguido de outro que também podia estar interessado e que nos podiam dar ideias sobre o que estávamos falando, dum possível conserto da Casa. Que era impossível reparar o buraco e não era possível fazer nada a não ser cobrir o telhado com uma "umbrella" de metal, até que fosse possível fazer uma reparação à casa toda. Essa cobertura de metal custaria pelo menos 20.000 dálares ( isto em 2004!), o que nós não podíamos dispender nem tínhamos disponível!




O António Rodrigues porém não se conformava, arguindo que se podia consertar o telhado, que a casa não precisava de cobertura nenhuma e que não era preciso gastar tanto dinheiro.

Perante a posição bem clara e declarada de que nada se podia fazer, o António Rodrigues, meio nervoso, deu-me um toque no braço de maneira a não ser ouvido por mais ninguém e diz-me: “Se eles não o podem fazer, então faço eu!”...

Eu, habituado a muitas outras ocasiões em que o António tinha feito "milagres" aqui nos EUA, apenas disse: “Eh pá, tu tens a certeza? Então estes que são profissionais acham que não há nada a fazer, tu achas que vais conseguir alguma coisa?!”… Ao que ele respondeu: “Deixa comigo. Eles estão a dizer que para consertar o teto têm de consertar a casa toda... Ora eu posso escorar tudo, partindo do chão até chegar ao teto e aí, depois de chegar ao teto, o telhado é fácil de consertar... Deixa comigo”.

Foi difícil de convencer, mas depois não só concordaram em nos deixar a "limpar a casa” que era tudo o que dizíamos ia acontecer, como toda a gente começou a oferecer os seus préstimos e ajudas: (i) um trator e um camião para levar as madeiras, pedras, tijolos, terra e lixo; (ii) além de virem eles próprios (e elas, pois se me lembro bem o trator pertencia a uma senhora que quando podia nos vinha ajudar) ao fim do dia para conduzir os mesmos; (iii) os escuteiros da escola queriam ajudar, o que tivemos de recusar pelo perigo de que não podiamos assumir a responsabilidade; (iv) o irmão da Mariana Abrantes, professor António Abrantes e sua esposa Ivone vieram-nos ajudar e connosco permaneceram até altas horas da noite para o que trouxeram holofotes para pudermos trabalhar de noite, como nós pedimos.




Os que não puderam ficar foram-se, mas o Luís Figalgo (advogado, e director da Fundação) nos garantiu, e cumpriu!, arranjar-nos um seguro contra acidentes, para o caso de nos acontecer algo (o que bem podia ter acontecido, dado a nossa coragem e entusiasmo em fazer o que estávamos a fazer).

Foi durante essa primeira noite, conforme depois saiu em todos os jornais e na própria RTP que também fez cobertura do acontecido, debaixo de grossa camada de terra e estrume de ovelhas e de galinhas, tudo misturado com caliça das paredes, pedras e tijolos, que nós viemos a encontrar o que os media chamaram de "tesouro na casa de Aristides": "documentos inéditos "encontrados"; "documentação encontrada surpreende investigadora", etc etc.; cartas de Aristides à sua mulher, de seus filhos para outros que já tinham emigrado para o Canadá; uma cópia de um livro, escrito por A. S. Mendes ainda por abrir ( à maneira antiga, tinha de se cortar as páginas com um "abridor de cartas"); e muitos outros pedaços de documentos, alguns ainda intactos, mas a maioria que se desfaziam em pó nas nossas mãos ao simples tocar, revistas e jornais do tempo...

Tudo foi entregue no dia seguinte em dois sacos de plástico à Fundação na pessoa do dr. Luis Fidalgo na presença da dra Lina Madeira, uma autoridade em A. S. Mendes que veio de Coimbra a correr, e de vários correspondentes presentes.

Voltando à "ad hoc" reparação do telhado e dos buracos nos andares até ao chão... Eu fiquei com o António Rodrigues três ou quatro dias comendo na cantina do lar para idosos, de que o Luis Fidalgo era diretor, e dormindo as primeiras noites na casa do Antnio e Ivone Abrantes, e depois num pequeno hotel local (ainda hoje não sei quem pagou a nossa estadia; o Luis Fidalgo disse-nos que estava tudo pago e não nos devíamos preocupar com isso). Tive de deixar o António sozinho e voltei aos EUA.


Fotos do jornal  "Defesa da Beira", 1/10/2004. Inmagens digitalizadas e enviadas pelo João Crisóstomo


O que o António fez e conseguiu depois, muitas vezes trabalhando sozinho, viajando todos os dias num camião bastante "usado" que um amigo dele lhe pôs ao serviço e onde trazia de sua casa ferramentas, materiais de construção como madeiras, barrotes, e tudo o mais que tinha e ele achava ser preciso para consertar a casa e o telhado... é coisa quase impossível de imaginar, não se tivessem visto os resultados.

A sua imaginação de arquiteto “ad hoc” - entre outros apelidos chamavam-lhe o "arquiteto sem canudo", "o milagreiro ambulante", "o americano maluco"...porque às cinco da manhã ele já estava, vindo de Aljubarrota, encarrapitado no telhado ou a trabalhar sozinho como um desalmado para remendar o que ele achava imperioso ser feito para que a casa aguentasse mais uns anos até se encontrar uma solução definitiva - levou-o a procurar nos arredores eucaliptos, telhas para o telhado ( iguais às outras do telhado, já difíceis de encontrar), materiais de construção, sobretudo barrotes e madeiras que precisava.

A sua franqueza e simplicidade desarmavam toda a gente que não podia negar o que ele queria, "para consertar a casa de Sousa Mendes"... Os troncos dos eucaliptos, não sei quantos, mas numa visita que fiz à Casa anos depois deparei com um bem grosso, barrando o meu caminho, escorando o andar superior, depois de rusticamente despojados dos seus braços/ramos, serviram para escorar os andares começando pelo chão...

E, um por um, cada andar foi escortado e consertado até chegar ao teto.... era preciso "ter a certeza” de que os barrotes originais no telhado å volta do buraco "ficassem bem ligados" para que tudo não fosse parar ao chão outra vez. E o António de vez em quando me falava nos anos seguintes nuns bons cabos que lhe faziam muita falta e que ainda estavam a escorar e segurar o telhado da casa de Sousa Mendes: “Quando consertarem de vez a casa, vou lá buscá-los, que eles ainda me fazem boa falta de vez em quando”…

E assim foi o que sucedeu. O António, acabado o teto, estava esgotado e só desejava e sonhava poder descansar. Faltava tapar as janelas com madeira para proteger um pouco mais da chuva e vento e ter a certeza de que as portas permaneciam fechadas. Assim pediu, como eu antes de me ir embora de volta aos EUA tinha já falado seria preciso fazer. Mas tal parece não ter sucedido.

A Casa ficou durante alguns anos em condições de ser visitada sem perigos dum barrote a cair na cabeça. Mas com o tempo e sem um "António'" a preocupar-se pela sua saúde, sujeita às intempéries, o telhado e o resto começou outra vez a cair aos bocados até que finalmente, quase no último minuto, a desesperada reconstrução das paredes, telhado e janelas, finalmente aconteceu..
Bem hajam quantos trabalharam e contribuíram para o que agora finalmente e felizmente vai já em bom progresso. Bem merecem uma placa em lugar de destaque. Mas nesta não se esqueçam de mencionar também o nome de António Rodrigues!

Não fora a intervenção "ad hoc", mas que veio a ser providencial, em 2004, deste apaixonado "arquiteto sem canudo" de Aristides de Sousa Mendes, não haveria nada a consertar mais, pois o que ainda restava e foi possível salvar, teria sem dúvida desmoronado completamente e tudo teria de ser reconstruido à base de fotos e memórias.


Nova Iorque, 31 de janeiro, 2015.

PS - Em anexo dois "recortes" de jornais : "Diário de Coimbra", de 8 de outubro de 2004; e "Defesa da Beira" 1 de Outubro 2004. As imagens [do jornal "Defesa da Beira"] parecem deixar muito a desejar, mas dão uma ideia do estado da casa com o seu enorme buraco, do teto ao chão;  e nos outros recortes, tens comentários do “Diário de Coimbra” sobre o que foram encontrar. 



António Rodrigues, ao "Diáriod e Coimbra, 8/10/2004.


Recorte do "Diário de Coimbra", 8/10/2004




_____________

Guiné 63/74 - P14419: E as nossas palmas vão para... (9): João Crisóstomo e António Rodrigues, amigos da causa de Aristides de Sousa Mendes (Parte I)


S/l > S/d > O nosso camarada João Crisóstomo com Patrick Kennedy aquando da causa timorense.



S/l> S/d > O presidente da República Jorge Sampaio [, terceiro presidente eleito na vigência da República Portuguesa, depois do 25 de abril, entre 9 de Março de 1996 e 9 de Março de 2006], tendo à sua esquerda o João Crisóstomo e à sua direita o grande amigo do João Crisóstomo, António Rodrigues, os dois mordomos de profissão, em Nova Iorque, e fundadores do LAMETA - Luso-American Movement for East Timor Autodetermination.

Fotos enviadas por João Cristómo, juntamente com recortes do "Diário de Coimbra", de 8 de outubro de 2004.

Recorde-se que o João Crisóstomo: (i) é natural de A-dos-Cunhados, Torres Vedras; (ii) foi alf mil, na CCAÇ 1439 (Enxalé, Porto Gole, Missirá, 1965/66); (iii) vive em Nova Iorque desde 1975, onde foi mordomo até ao início de 2015 (reformou-se agora); (iv) é um mediático ativista comunitário, tendo estado ligado à defesa de três causas que tiveram repercussão internacional e que nos dizem muito, a nós, portugueses (gravuras de Foz Coa, independência de Timor Leste e memória de Aristides Sousa Mendes); (v) foi um dos fundadores do Luso-American Movement for East Timor Autodetermination (LAMETA); e, não menos importante, (vi) é casado em segundas núpcias com a eslovena e querida amiga Vilma e, por fim, (vii) integra a nossa Tabanca Grande desde 26 de julho de 2010.



1. Mensagem de de João Crisóstomo a quem, desde já pedimos desculpa pelo atraso da respetiva edição:

Data: 31 de janeiro de 2015 às 14:00

Assunto: Aristides Sousa Mendes: Casa do Passal e António Rodrigues

Meu caro Luis Graça,

Foi bom falar contigo ao telefone e dar-te por telefone o abraço que gostaria de poder dar pessoalmente [ , por ocasião do teu aniversário]. Mas não perdemos pela espera, Se Deus quiser estarei aí umas semanas (em meados de Junho a fins de Julho). O convívio da minha família (de ambos os lados, Crispins e Crisóstomos) vai ser no dia 19 de Julho, dia em que celebraremos os 90 aninhos da minha irmã Maria Rosa (nascida a 11 de julho, mas "não dá" para ser nesse dia).

O convívio não se restringe aos meus familiares, pois aproveito a ocasião para reunir também os meus amigos, a quem de outro modo não tenho possibilidades de dar um abraço. Entre estes estão os meus muito caros amigos "camaradas da Guiné", de quem recebo convites para reuniões, convívios, encontros, etc. e a que, dado o facto de viver em Nova Iorque, com pesar, raramente posso assistir.

O que segue é evidentemente longo demais para pôr no "Luís Graça & Camaradas da Guiné" [e dar a conhecer à ] Tabanca Grande... Mas eu vou-te contar o que, a meu ver, acho pertinente e que seria uma pena passar completamente ignorado.

Por amor da verdade e de dar o devido a quem o merece, gostaria que o nosso amigo António Rodrigues (que vai sempre comigo às nossas reuniões de camaradas da Guiné) não fosse esquecido agora que se fala tanto da Casa do Passal [, de Aristides Sousa Mendes] (*). E se em outro lugar tal não for mencionado, (estou a pensar enviar isto para a RTP,  em Portugal, que achas?), então sai pelo menos para os nossos amigos do blogue, que ficarão assim mais bem informados do que a maioria do resto do país sobre uma fase crucial da reabilitação da casa que foi de Aristides [Sousa Mendes] que agora, e ainda bem, é assunto de muito interesse para tanta gente.

Como eu não tenho nenhum poder de síntese e tenho de dizer com muito palavreado o que devia ser dito com metade das palavras, se achares que vale a pena falar nisto, podes sintetizar isso como fazem os que sabem escrever... Mas se achares que não é assunto para o teu/nosso blogue, está tudo certo. e não somos menos amigos por causa disso.

Casal do Passal, com a devida vénia à Fundação Aristides de Sousa Mendes
Falaste-me da Casa do Passal,  como é chamada a casa de Aristides de Sousa Mendes, finalmente em vias de recuperação, com a certeza de não ruir mais completamente. Tenho seguido passo a passo, por telefone com muitas pessoas, e mesmo pessoalmente quando vou a Portugal, o caso da Casa do Passal ( assim como o estado da Fundação, etc.)… Nem imaginas o meu alívio quando o governo concordou em "poupar" a Fundação.

Eu também ajudei um pouco com uma campanha internacional de certa força: recebi "feed-back" sobre respostas do Gabinete do primeiro ministro a pessoas e entidades estrangeiras em Paris, Eslovénia, Brasil etc (entre outras um "forward" por email duma dessas respostas), confirmando o que eu pensei: que seria relevante e eficaz uma pressão da comunidade internacional, como sucedeu (**).

Mas o que realmente me levou quase a chorar de emoção foi a decisão final de recuperarem a casa, começando agora pelo telhado, paredes e janelas da Casa do Passal, agora já em estado adiantado, a julgar pelas fotos que me enviam. E o resto virá a pouco e pouco.

Tenho pena de ver tudo isto sem que se dê um pouco de reconhecimento, pelo menos numa simples alusão a um facto crucial (pois se não se tivesse feito o que foi feito em 2004 não haveria já nada a recuperar), e de que foi protagonista e herói o nosso amigo António Rodrigues, cujo nome e importante contribuição são agora esquecidos e ignorados.

A história é como segue… (Tem paciência, mas se vou tentar ser breve não te posso explicar tudo, já que as coisas sucederam como acontece com as cerejas: umas traziam as outras)… Se puderes e quiseres fazer um apanhado disto, ótimo. Senão, paciência e eu continuarei a tentar encontrar alguém que possa preencher este vácuo.

E, para ti, se tiveres tempo e coragem de ler tudo isto, ficarás a pessoa mais bem informada... o saber não ocupa lugar (***).

Abraço, João Crisóstomo

(Continua)
______________

Notas do editor:

(*) "Num processo encetado em 2005, a Casa do Passal, localizada na Quinta de São Cristóvão, na freguesia de Cabanas de Viriato, concelho de Carregal do Sal, foi classificada como Monumento Nacional, conforme Decreto n.º 16/2011 de 25 de Maio, publicado no Diário da República, 1.ª série — N.º 101 — 25 de Maio de 2011". (Fonte: Fundação Aristides Sousa Mendes)

(**) Vd. poste de 6 de junho de 2014 > Guiné 63/74 - P13247: Efemérides (160): O nosso camarada luso-americano João Crisóstomo reedita iniciativa de 2004: o próximo 17 de junho será o Dia da Consciência, em homenagem a Aristides de Sousa Mendes, no 60º aniversário da sua morte.

(***) Último poste da série > 17 de junho de 2014 > Guiné 63/74 - P13299: E as nossas palmas vão para... (8): Nuno [José Varela] Rubim, autor de vasta obra sobre a nossa história militar, com destaque para "A organização e as operações militares portuguesas no Oriente, 1498-1580"

Guiné 63/74 - P14418: Notas de leitura (698): “Elefante Dundum – Missão, testemunho e reconhecimento”, por João Luíz Mendes Paulo, edição de autor, 2006 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Junho de 2014:

Queridos amigos,
É a história de um sonhador, um militar visionário que acreditou que podia levar carros de combate para os trópicos. Os M5A1, velhos tanques da II Guerra Mundial, fizeram sucesso em Nambuangongo.
Mendes Paulo escreve uma narrativa aliciante, crónicas da sua vida de criança até à Guiné, onde arrumou as botas, e mudou de vida. Insistiu que podia levar os M5A1 para a Guiné, argumentou em vão, deram-lhe viaturas Chaimite, inadequadas.
Irá descrever, com imensa dor, a operação Mabecos, em fevereiro de 1971, foi o canto do cisne nos seus sonhos.
Elefante Dundum lê-se de um só sorvo, é prosa autêntica, não há para ali sinceridade remendada.
O senhor M5A1 fez muitíssimo bem em escrever este seu testemunho que fica para a história.

Um abraço do
Mário


O senhor M5A1: 
A história prodigiosa do Elefante Dundum (1)

Beja Santos


A obra intitula-se “Elefante Dundum – Missão, testemunho e reconhecimento”, por João Luíz Mendes Paulo, edição de autor, 2006. É uma narrativa que se devora como um livro de aventuras, o Major Mendes Paulo regista imagens da sua infância no Ródão, no Colégio Militar, na Academia, na Índia, em Moçambique, em Angola, na Guiné, onde voluntariamente pôs termo a uma briosa carreira militar. Explica o nome da obra:
“Elefante Dundum foi o nome dado pelos guerrilheiros nacionalistas da FNLA a uma máquina que surgiu imprevistamente em Nambuangongo e deu brado. Que feitiço, medo e sentir lhes provocou tão evocativo nome de batismo? Para os soldados portugueses, o Elefante Dundum era um cavalo de ferro, com lagartas e torre, cheiro a óleo e nome de mulher… esta é a história dos carros e combate M5A1, velhos tanques da II Guerra Mundial que a determinação e ousadia de um oficial do Exército fez resgatar à sucata, e dos homens que então se fizeram protagonistas construindo a aventura dos únicos carros de combate que participarem em ações de guerra em toda a história do Exército português”.
Spínola enviará Mendes Paulo a Lisboa para resgatar vários M5A1 que seriam destinados a região de Piche. Lisboa indeferiu, era armamento cedido pela NATO, desculpas de mau pagador, no mais pechincheiro mercado do armamento mundial encontrava-se esta pseudo-sucata a preço de saldo. Em contrapartida, foram viaturas Chaimite para Bissau. A seu tempo se falará do assunto.

O Major Mendes Paulo desvela-se, é homem que não tem rebuço na transparência, expõe sentimentos íntimos, é mesmo ternurento, arranca a sua prosa com se estivesse movido pelo estro poético:
“A primeira imagem é de um cão grande, malhado de branco e preto e que se chamava Tejo. Ele era grande e eu pequeno porque conseguia montá-lo sem tocar com os pés no chão. Ainda nem andava na escola. Atrás da casa havia uma serra enorme que acabava no Penouco, uma parede redonda e branca que se via cá de baixo”.
E um dia vai para o colégio militar, para ele um tempo muito bonito, vê-se que guarda as melhores recordações. A seguir a carreira das armas, a Cavalaria está-lhe no goto, cavalos e máquinas, blindados Fox, tanques M-47. E em janeiro de 1959 é mobilizado para Goa. Em março de 1961, em Valpoy, o tenente Mendes Paulo, que vai regressar, finda a sua comissão deixa escrito algumas recomendações para o novo comandante, destaco:
“Os tempos movem-se ao sabor das políticas e um dia também podemos ficar sem Goa. Se tal acontecer podem mudar os governos, mudar a política, mas o nome de Portugal, a religião cristã, a boa relação com todos, não mudará na memória dos goeses nem na longa história comum”.

Na Academia Militar encontra pela primeira vez os carros de combate ligeiros designados por M5A1. Não será amor à primeira vista, ficará como amor serôdio. E em março de 1963 é mobilizado para Moçambique, CCAV n.º 570. Em 1965, a FRELIMO está a desencadear as hostilidades, o capitão Mendes Paulo tem muito orgulho na sua CCAV n.º 570. Regressa e teve que acompanhar as terras que pertenciam a um tio em Sarnadas e Ródão, vê-se que não desgostou. Volta ao convívio com os M5A1 em Beirolas, está de novo colocado na Academia Militar. Congemina como pode aplicar os M5A1 na guerra africana, faz exposições, há muitas objeções, que os carros eram velhos, se aqueciam aqui, nunca iriam aguentar climas mais quentes, rebate essa argumentação. É mobilizado para Angola no BCAV nº 1927, lá vão os M5A1, chegarão a Nambuangongo. Os Elefantes Dundum entram na guerra, têm nome de mulheres: Milocas, Gina, Licas. Rádio Brazzaville diz cobras e lagartos destas máquinas, Mendes Paulo tem a cabeça a prémio. João Medina, na sua História de Portugal, deixará uma referência a estas máquinas insólitas nas guerra dos trópicos:
“… os cavaleiros deitaram mão de todos os seus dotes para manterem a tradição e darem vida nova a velhas autometralhadoras Fox do tempo 2.ª guerra e conseguiram até, embora isso seja raramente referido, utilizar no Norte de Angola, carros de combate! Um capitão diligente conseguiu vencer a burocracia e as más-línguas e levar consigo tanques M5A1, exatamente iguais aos que os canadianos haviam utilizado na conquista de Paris aos alemães”.

Mendes Paulo frequenta o curso de oficial superior, a seguir é promovido a Major e mobilizado para a Guiné com o BCAV n.º 2922, é o oficial de operações. O batalhão vai operar a partir de Piche, vasto território onde cabem Canquelifá e um destacamento em Dunane; no eixo norte, Cambor era também importante; em caso de ataque, a artilharia de Piche podia alcançar Cambor e a de Canquelifá chegava a Dunane. E escreve:
“No eixo Leste era Piche, Ponte Caium, Camajabá e Buruntuma. Ponte Caium dependia da Companhia de Piche, Camajabá da de Buruntuma, mais uma vez meia dúzia de homens-soldados comandados pelos alferes. Ponte Caium tinha de ser rendida a cada três semanas pela necessidade de géneros e água, mas também – talvez acima de tudo – porque seria esse o máximo de tempo que, psicologicamente, o destacamento podia aguentar. Ainda hoje quando me dizem que estiveram na Guiné e conheceram Leste eu costumo perguntar: - Como era Ponte Caium? Se me dizem que era o maior ‘buraco’, uma ponte com trinta metros de comprimentos, dois abrigos à entrada e dois à saída, dia e noite passado nos limites do espaço, do tempo, na expetativa do ataque – quando este começava, já estavam cercados por todos os lados porque ali não havia milícias nem tabanca, nem pista de aviação ou possibilidade de retirada…”.

Descreve também Piche: era um quartel novo, com razoáveis instalações para a CCS e para mais duas companhias operacionais. Tinha água canalizada e gerador elétrico, era bem melhor que Nambuangongo. O primeiro ataque foi para nos testar. Vieram pela pista de aviação com morteiros 82, RPG-7, metralhadoras pesadas e as inevitáveis Kalash e PPSH. Apesar de todas as recomendações anteriores, foi um festival de fogo-de-artifício. As instalações do quartel incluíam trincheiras, base de fogos do morteiro 81, três peças 11,4 e as habituais casernas, messe, cozinha e posto de socorros, tudo rodeado por arame farpado, com a respetiva Porta de Armas. A povoação de Piche envolvia o quartel do lado Sul e todo o perímetro da povoação era protegido por abrigos enterrados, 13 ao todo, em ligação com as trincheiras, com holofotes, metralhadoras e contacto via telefone e rádio para o posto de comando. Em caso de ataque, só os tais abrigos da periferia abriam fogo, quando atacados diretamente ou à ordem, para alvos já referenciados”.
Buruntuma estava dias e noites inteiras debaixo de fogo dos morteiros 120, retaliava-se com os morteiros 107, os nossos maiores morteiros. Ocorre um ataque brutal a 25 de novembro de 1971. Dois dias depois, Spínola aterra num Dornier na pista de Buruntuma. Manda juntar todo o pessoal, milícias e população. Nesse momento seis Fiat G-91, rasam Kandica, e depois ouviram-se enormes rebentamentos em Sofá, a base do PAIGC. Spínola falou às populações locais: - "Viram o que aconteceu? Agora vão dizer aos do lado de lá que se tornam a fazer outro ataque com morteiros, mando o dobro dos aviões e o dobro das bombas!”

(Continua)
____________

Nota do editor

Último poste da série de 27 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14411: Notas de leitura (697): "Império Ultramarino Português", Empresa Nacional de Publicidade, 1950 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P14417: Parabéns a você (880): António Graça de Abreu, ex-Alf Mil do CAOP 1 (Guiné, 1972/74); Benjamim Durães, ex-Fur Mil Op Esp do BART 2917 (Guiné, 1970/72) e Rosa Serra, Alferes Enfermeira Paraquedista do BA 12 (Guiné, 1969)

____________

Nota do editor

Último poste da série de 27 de Março de 2015 > Guiné 63/74 - P14410: Parabéns a você (879): Armando Pires, ex-Fur Mil Enf do BCAÇ 2861 (Guiné, 1969/70); Carlos Vinhal, ex-Fur Mil Art MA da CART 2732 (Guiné, 1970/72); Magalhães Ribeiro, ex-Fur Mil Op Esp do BCAÇ 4612/74 (Guiné, 1974) e Maria Dulcinea, Amiga Grã-Tabanqueira (Bissorã, 1973/74)

domingo, 29 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14416: (Ex)citações (269): O poeta Herberto Helder (1930-2015) que eu "conheci"... (António Graça de Abreu)




Dedicatória autografada de Herberto Helder (1930-2015) ao António Graça de Abreu, no seu livro "Poesia Toda", editado em 1990. O autor de “A Morte Sem Mestre”, seu último livro, publicado em vida (2014),  agradece aqui a oferta do livro "Poemas de Li Bai" (1990), traduzido do chinês para portuguguês,  que valeu ao nosso camarada, ele próprioo poeta, o Prémio Nacional de Tradução do Pen Club Português e da Associação Pirtuguesa de Tradutores (1991).



1. Mensagem que nos enviou o António Graça de Abreu [, foto atual à esquerda], com data de 24 do corrente:

A propósito da morte do poeta Herberto Helder, fui buscar as palavras que sobre ele, e sobre quase todos nós, escrevi em Bissau, em 15 de Abril de 1974.

Eis o texto no meu Diário da Guiné (Lisboa. Guerra e Paz Ed., 2007), pags. 212/213. cinco dias antes de regressar a Portugal, com a comissão terminada:


Bissau, 15 de Abril de 1974

A noite passada não dormi, foi uma directa à moda antiga, não para estudar mas para ler. Às onze e meia da noite meti-me a sério numa cavalgada informe, com sentido, pela “Construção do Corpo” e a “Poesia I”, toda, de Herberto Hélder. Li, reli, li outra vez. Com prazer e enfado, semi-cilindrado pela magia dos versos. Herberto, hermético e luminoso, às vezes confundindo, aclarando, fluindo, enlevando no caudal do rio das palavras. Assim:


Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.


(…)

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se a boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbadas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.


Capa do Diário da Guiné (2007)
Às cinco e meia da manhã, nem ponta de sono. Tinha de ir fardado de alferes ao hospital para o último tratamento ao meu famoso dente. Quando o dia nascia, parti à descoberta dos homens que nunca leram um livro, que nada sabem de poesia mas que, a seu modo, são sábios como o Herberto Hélder.

A Bissau negra acordava para mais um dia. Saí para a rua, doze quilómetros desde a casa do Luís até ao hospital. Fiz tudo a pé e não tomei o caminho costumeiro. Atravessei Bissau, Bandim, pelos bairros pobres de que ignoro o nome, pelas ruelas de saibro e imundície, pelo meio das misérrimas tabancas dos africanos. É a parte maior da cidade quase desconhecida pelos brancos, onde os portugueses, excepto as patrulhas da Polícia Militar, não têm o hábito de entrar. Eu, alferes, branco, a percorrer de madrugada os caminhos habitados pelos homens de pele negra, filhos de África, meus amigos.

Os meninos à minha volta, a curiosidade das gentes, o olhar fixo dos mais velhos. Ninguém me fez mal, mas adivinhei um mundo a borbulhar no castanho brilhante dos olhos deste povo! Da subserviência, “b’dia m’alferi”, à surpresa, ao desprezo. O que é isto, um alferes branco, um intruso nas nossas tabancas às seis e meia da manhã?!... Os negros acordavam, lavavam-se, davam de mamar aos filhos, cozinhavam, limpavam as casas humildes. A vida renascia.

Caminhei pela paisagem das gentes negras de Bissau. Eles não sabiam, mas eu estava ali para me despedir, para os levar comigo nas arcadas da alma, para sempre.



Depois conheci melhor o poeta Herberto Hélder. Eis uma peça raríssima, saída da sua pena. Herberto era pouco dado a elogios, mas escreveu-me em Setembro de 1990. Eis as suas palavras:

19.Set.90

Prezado António Graça de Abreu

Muito grato pela oferta dos “Poemas de Li Bai” que principiei agora a ler (a introdução) atentissimamente. Gostaria de poder retribuir já a sua gentileza mas só em Novembro sairá a minha poesia toda. Nessa altura terei muito gosto em enviar-lhe um exemplar. Conto que saiba perdoar-me a desigualdade da permuta.

Penhorado pela sua atenção, afectuosamente,

Herberto Helder




Fotos: © Antrónio Graça de Abreu (2015). Todos os direitos reservados.
______________

Guiné 63/74 - P14415: Agenda cultural (389): Em Aveiro, no passado dia 26 de Março: Apresentação do livro "Nós, Enfermeiras Paraquedistas” (Miguel Pessoa)

Com a devida vénia à Tabanca do Centro e ao nosso camarada Miguel Pessoa, reproduzimos o poste versando a apresentação do livro "Nós Enfermeiras Paraquedistas", levada a efeito no passado dia 26 de Março em Aveiro. 


Integrada nas cerimónias do dia da Unidade do RI 10, efectuou-se em Aveiro, no passado dia 26 de Março, a apresentação do livro “Nós, Enfermeiras Paraquedistas”. A sessão decorreu nas instalações do Centro de Congressos de Aveiro, cedido para o efeito pela Câmara Municipal de Aveiro.

Como tinha já sucedido na apresentação original em Novembro, no Estado Maior da Força Aérea, a sessão contou com a presença do Professor Adriano Moreira (autor do prefácio do livro) e do TCor. Aparício, que fez uma apreciação da obra. Igualmente presentes várias enfermeiras paraquedistas co-autoras deste livro.

Na mesa, presentes ainda o Presidente da Câmara de Aveiro, Engº José Ribau Esteves, o Comandante do RI 10, Cor José Carlos de Almeida Sobreira, a Enfermeira Rosa Serra, coordenadora do livro, e o Dr. Vitor Raquel, da “Fronteira do Caos Editores”.

Embora não estivesse exageradamente preenchida, a sala contou com a presença de alguma gente jovem e, naturalmente, de combatentes da guerra de África. Dos envolvidos nas actividades dos blogues, registámos a presença de elementos da Tabanca Grande, vários deles ligados igualmente à Tabanca do Centro – Jorge Picado (capitão miliciano em Mansoa, Mansabá e Teixeira Pinto), José Armando Ferreira de Almeida (então Furriel, contemporâneo do Luís Graça em Bambadinca), Carlos Prata (capitão em Cafal Balanta e Bissorã), Manuel Reis (alferes em Guileje), Miguel Pessoa (tenente na BA12).



Igualmente várias enfermeiras “tabanqueiras” presentes - Rosa Serra, Giselda Antunes e Aura Rico Teles – para além das enfermeiras Eugénia Espírito Santo Sousa, Natércia Pais, Ana Maria Bermudes, Octávia Santos, Natália Santos e Maria de Lurdes Costa Pereira (nomes de solteiras, pelos quais eram conhecidas na época).

Como já tinha sucedido na sessão anterior, os dois convidados fizeram apresentações de grande interesse e qualidade, que foram bastante apreciadas pelos presentes.

E, no âmbito das comemorações do dia da Unidade, os presentes ainda puderam apreciar uma sessão de música que se seguiu a esta apresentação, proporcionada pela Banda Militar do Porto.

A próxima apresentação do livro, inicialmente prevista para 9 de Abril, devido a comemorações que irão decorrer nessa data foi passada para 16 de Abril, às 15H00, nas instalações da Messe da Batalha, no Porto.
____________

Nota do editor

Último poste da série de 20 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14390: Agenda cultural (388): Apresentação do livro "Nós, Enfermeiras Paraquedistas", dia 26 de Março de 2015, pelas 18h00, no Auditório do Centro Cultural e de Congressos de Aveiro, Cais da Fonte Nova, Aveiro (Miguel Pessoa)

Guiné 63/74 - P14414: Libertando-me (Tony Borié) (10): ...E mais os outros todos

Décimo episódio da série "Libertando-me" do nosso camarada Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66.




1. Comentário de António Graça de Abreu ao poste P14283:

Há algum tempo, o nosso companheiro António Graça Abreu, que também andou lá por Mansoa, comentando amavelmente um poste nosso, que o nosso “comandante” Luís salientou, dizia entre outras palavras, “Quanto ao Museu Dali de S. Petersburgo, na Florida, tive a sorte, e um desbragado prazer de o visitar, há menos de um ano, em Março de 2014. Aluguei um carro em Miami, viajei pela Florida durante seis dias (Everglades, crocodilos, astronautas, Cape Canaveral, Ferraris aos montes), a descoberta do universo, a ostentação dos ricos, made in America, o equilibrio dos pobres, made in Mexico. E mais os outros todos. America, fascínios do mundo”.

O António, companheiro com educação superior, pois foi oficial enquanto militar, segundo sabemos, escreveu alguns livros, viaja, tem poder de observação acima do normal, e nós, sentindo-nos honrados com o seu amável comentário, dizemos que ele fez um “retrato” quase fiel do estado onde eu vivo, que é a Florida, que tem um clima sub-tropical, onde a principal fonte de receita é o turismo. O apelido do estado é "Sunshine State", que quer dizer mais ou menos, estado, ou neste caso, "local com luz do sol”, é conhecido mundialmente pelas suas diversas atrações, que trazem anualmente mais de 60 milhões de turistas, vindos de outros estados e de outros países, normalmente, em férias, passeando, e claro, onde muitos milhares de pessoas têm residência, como segunda habitação, que na verdade, vêm passar temporadas por aqui, não se sabendo qual o nível de vida que levam em outras paragens, mas por aqui, é verdade, viajam nos tais “ferraris aos montes”, mas de todas as suas palavras salientamos aquela frase em que ele muito bem diz, “o equilibrio dos pobres, made in México”.

Tal como o nosso presidente Obama diz, “a discriminação está longe de acabar”, tem havido progressos, mas continua por aí, ela existe, embora hoje seja muito menor do que no passado, as novas gerações estão a ser educadas de maneira diferente, mas ninguém pode fechar os olhos, ela ainda anda por aí. Aqui, mesmo na cidade onde vivemos, pois assistimos à evolução dos empreendimentos que fizeram desta aldeia uma cidade, havia trabalhos onde era preciso sujar as mãos, estavam lá em baixo no “buraco” dois ou três emigrantes, não importava que fossem oriundos do México ou de outro qualquer país, e cá em cima estavam cinco ou seis pessoas, que podiam ser inspectores, encarregados ou representantes do sindicato, às vezes conversando.

Mas os emigrantes, principalmente oriundos da América do Sul, também se “colocam a jeito”, procuram isso, pois dada a sua situação, querem receber em “cash”, em “el contado”, não se importando de receber menos, e claro, alguns empreiteiros, ambiciosos e menos escrupolosos, tiram vantagem dessa situação, mas de uma maneira geral, o emigrante, seja pela cor, pela língua que fala, pois tem sotaque na voz, é sempre olhado de uma maneira diferente, por aquele que se diz “Americano”, embora o seu bisavô ou pai do seu bisavô, tenha vindo da Europa ou do Oriente.

O pensamento do emigrante em geral, pelo menos aquele que é oriundo da América do Sul, está sempre no seu País, vem aqui por algum tempo, por épocas, levando todos os seus ganhos consigo, de regresso ao seu país, onde em muitas situações, continua a sua família. Aqui na Florida, já se vai notando pouco, mas na California, pelo menos na área de Los Angeles, os emigrantes oriundos da América do Sul vivem na cidade e arrabaldes, mas é outro mundo, é o “mundo deles”.

Um dia, viajando na companhia de nossa esposa e companheira, da cidade de Orlando, aqui da Florida, para Los Angeles, ao fim de algumas horas, vendo filmes, lendo por uma dezena de vezes o nosso roteiro, vendo pela janela do avião lá ao fundo uma paisagem seca de planícies e algumas pequenas montanhas, conversávamos com a pessoa que ia ao nosso lado esquerdo, que parecia pessoa de negócios, pois ia lendo e fazendo contas no computador, e nos questionou porque é que íamos para Los Angeles, deixando um estado tão agradável como o da Florida, pois em Los Angeles parte da população é de raça “Hispânica”, onde nós, compreendendo a “maldade” da pergunta, logo lhe respondemos que era só para ver do ar o cruzamento das auto-estradas, que nesta cidade chegam a ter seis andares de estradas, que seguem em diferentes direcções.


Quanto a nós entendemos perfeitamente que lá vivam muitos “Hispânicos”, que falem castelhano, pois a cidade de Los Angeles, a quem carinhosamente chamam pelas iniciais “LA”, é a segunda cidade mais populosa dos Estados Unidos, estende-se por 1300 quilómetros quadrados no sul da Califórnia, está classificada como a 13.ª área metropolitana do mundo, foi fundada em 1781, em nome da “Coroa de Espanha”, o seu nome inicial era muito grande, parecido com aqueles nomes de pessoas nobres, que em pequenos aprendemos na história de Portugal, pois chamava-se, “El Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Angeles del Rio de Porciúncula”, tornando-se parte do México em 1821 após a sua independência da Espanha, depois houve a Guerra Mexicano-Americana, e Los Angeles e o resto da Califórnia foram adquiridos como parte do “Tratado de Guadalupe Hidalgo”, tornando-se parte dos Estados Unidos.

O nosso roteiro era sair da cidade e ir na direcção ao norte, pela estrada número 1, que segue ao longo do Oceano Pacífico até ao estado de Oregon, onde vimos muitas quintas, com os tais “Hispânicos”, apanhando vegetais e fruta. Para isso, ao sair do aeroporto, tomámos um autocarro que nos levaria aos balcões das companhias de “Carros de Aluguer”, que sempre cheios, com uma fila de pessoas esperando, uma simpática pessoa, com uma camisa com o emblema de determinada companhia de carros de aluguer, ouvindo-nos falar em português, nos falou em língua castelhana, questionando-nos, mais ou menos com estas palavras, “por que estão nesta linha de “Gringos”, subam aqueles degraus, e logo ali alguém vos providencia o arrendamento de um veículo, e lá, falam castelhano ou portunhol e, é mais barato”. Na verdade existe em Los Angeles, nas periferias da cidade, “Los Barrios” onde habitam os “Chicanos”, onde todo o comércio, assim como o estilo de vida, é igual, como qualquer aldeia, de qualquer país da América do Sul, que são pessoas que emigraram e não só, desse continente, principalmente do país vizinho México e, “os outros”, os tais Americanos, que embora habitem na cidade, não falam o idioma castelhano, que na sua linguagem são os “Gringos”.

Não nos queremos alongar muito, pois isto era assunto para muitos mais postes, mas quase todo o trabalho manual na agricultura, tanto aqui, no estado da Florida, como em outros estados do sul até ao estado da California, é feito por essas sofredoras pessoas, que se sujeitam a receber menos, a trabalhos sujos e cansativos, vivem em muito más condições, mas sempre é melhor que nos seus países de origem, onde não existem muitos meios de sobrevivência.
Para finalizar, dizemos o que vai na mente de quase todos nós, para fazerem uma ideia da coragem dessas pessoas, um dia atravessámos a fronteira para a cidade de Tijuana, no México, para lá é livre, é só atravessar o portão, para cá é impossível passar, só com documentos e autorização para trabalhar, por isso, quando colocamos alguma fruta ou vegetais na nossa mesa de jantar, o nosso reconhecimento é muito grande para com essas corajosas e sofredoras pessoas.

Agora sim, vou terminar, pois está na hora ir fazer uma salada com morangos, que hoje comprei na feira, nos arrabaldes da cidade de St. Agustine, morangos frescos, cultivados aqui na Florida e, apanhados e vendidos por uma família “Hispânica”, que me pediu dois dólares por um cesto cheio, dizendo, “são dois pésitos”.

Tony Borie, Abril de 2015
____________

Nota do editor

Último poste da série de 22 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14397: Libertando-me (Tony Borié) (9): Este fui eu

Guiné 63/74 - P14413: Em busca de... (233): Ramalho Lavado Sebastião, comando da CCmds de Brá, grupo Apaches (1964-66) procura camaradas do seu tempo...



Ramalho Lavado Sebastião: foto de perfil do Google +  (a imagem tem como nome apenas a palavra francesa "papa")












Guiné > s/l > c. 1964/66 > Fotos individuais e de grupo com o comando Ramalho Lavado Sebastião, que pertenceu à CCmds, grupo Apaches, e que vive hoje em França (presume-se).


Fotos: © Ramalho Lavado Sebastião (2015). Todos os direitos reservados.


1. Do nosso leitor Ramalho Lavado Sebastião, recebemos com data de 24 do corrente, a seguinte mensagem em francês:

Suject - Guerre portugaise en Guinée 1963-1966

Bonjours,  je recherche les compagnons de guerre en Guinée 1963-1966.  Vous souvenez vous de Sebastião Ramalho Lavado ?

2. Comentário do editor:


Ramalho Lavado Sebastião (ou Sebastião Ramalho Lavado?) foi um camaradas nosso, que esteve na Guiné entre 1964 e 1966. Quem nos escreve, deve ser o próprio ou alguém de família, provavelmente o seu  filho. Infelizmente não nos dá mais nenhuma pista: a unidade em  que o Sebastião prestou serviço, os locais por onde passou, o seu posto militar... Mesmo assim, publicamos as fotos que nos chegaram, quase todas com fraca ou muito fraca qualidade...

Curiosamente, a única informação que existe sobre este nosso camarada, no perfil do Google + , é a seguinte: "Ramalho Lavado Sebastiao commando apache Guinée 1964-1966"... Isto quer dizer que ele pertenceu à CCmds da Guiné, 1964/66, sediada em Brá, e que tinha quatro grupos de combate: Apaches, Centuriões, Diabólicos e Vampiros...

O nosso camarada João Parreira, por exemplo, foi fur mil comando dos Apaches, em setembro de 1965 [, foto à esquerda], deve lembrar-se muito provavelmente do Ramalho Lavado... Outros camaradas nossos, membros da nossa Tabanca Grande, fizeram parte da Companhia de Comandos de Guiné, sediada em Brá: o nosso coeditor (jubilado), o alf mil cmd Virgínio Briote, o alf mil cmd Luís Raínha, o 1º cabo cmd  Júlio Abreu,  o cap art cmd Nuno Rubim (hoje cor ref), o srgt cmd Mário Dias...

Pode ser que algum deles se lembre do Sebastião Ramalho Lavado (ou Ramalho Lavado Sebastião, à francesa ?).


________________

Nota de editor:

Último poste da série > 7 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14328: Em busca de ...(254): António Medeiros, que esteve em Guidaje, com o Barata e o Clemente (Ana Medeiros)

sábado, 28 de março de 2015

Guine 63/74 - P14412: Manuscrito(s) (Luís Graça) (51): Morreu um poeta


Morreu um poeta

por Luís Graça

Morreu um poeta.
Um grande poeta da minha terra.
Herberto Helder.
E eu estou longe,
muito longe, em Berlim,
para lhe poder dizer
as palavras que são devidas
aos poetas que morrem.

Como escrever algo
que não seja um lugar comum
num quarto de hotel em Berlim ?
Estou no Hotel Park Plaza,
na antiga parte leste da cidade
invisivelmente dividida.
No chão tenho um tapete
com a reprodução de uma nota de um dólar.
Piso a efígie de George Washington.
Aqui deus é capitalista, 
norte-americano, 
e está por toda a parte.
A poesia é inútil,
mas os poetas talvez sejam necessários,
tão ou mais do que os corretores da bolsa de valores.



Na cabeceira da cama, 
num painel de madeira,
de pinho sueco
e design germânico, 
leio a inscrição de André  Kostolany,
que não era poeta,
mas que ganhou um fortuna na bolsa,
em quatro idiomas,
alemão, inglês, chinês e japonês:

Aktien kaufen
und dann tief
und lange schlafen.

Buy stocks,
and then go to sleep
for a long time.

Não segui o conselho do André Kostolany,
não comprei ações em Berlim,
nem dormi um sono profundo.
Morreu um poeta,
um grande poeta da minha terra,
soube da notícia 
no mesmo dia da tragédia do Airbus A320 nos Alpes.

na morte de um poeta
que se principia a ver 
que o mundo é eterno".
Herberto Helder dixit
muito antes de morrer.

 Berlim, 23/24 de março de 2015

Luís Graça
______________

Nota do editor:

Último poste da série > 16 de março de  2015 > Guiné 63/74 - P14371: Manuscritos(s) (Luís Graça) (50): Na hora da tua morte...

sexta-feira, 27 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14411: Notas de leitura (697): "Império Ultramarino Português", Empresa Nacional de Publicidade, 1950 (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Junho de 2014:

Queridos amigos,
Esta monografia do Império tinha subjacente a experiência dos dois autores, já com boa tarimba da escrita. Pretendiam obra de informação geral, e foram bem sucedidos, deixaram um documento elaborado com vivacidade e muito boa arrumação.
No caso específico da Guiné, a monografia ficou ultrapassada poucos anos depois, Teixeira da Mota publicou a sua “Guiné Portuguesa” em 1954, como hoje soe dizer-se, tornou-se seminal, para além de carrear dados científicos mais atualizados, o oficial de Marinha, colaborador direto de Sarmento Rodrigues, trazia ideias sobre as grandes mudanças em curso e que eram necessárias imprimir à Guiné.
Inexoravelmente, o trabalho de Galvão e Selvagem tornara-se uma relíquia. Mas uma boa relíquia.

Um abraço do
Mário


Império Ultramarino Português (2)
(Monografia do Império), por Henrique Galvão e Carlos Selvagem(*)

Beja Santos

Editado em 4 volumes, a obra “Império Ultramarino Português” de Henrique Galvão e Carlos Selvagem, pela Empresa Nacional de Publicidade, veio a revelar-se uma importante obra de divulgação, séria, rigorosa e com dados atualizados até 1948.

A Guiné aparece no primeiro e segundo volumes. No primeiro volume, teve-se em conta a descrição do projeto henriquino e a chegada à costa da Guiné; referiu-se seguidamente o comércio negreiro o papel histórico de Cabo Verde, o declínio da presença portuguesa sobretudo durante o domínio filipino, a tentativa de retoma com a restauração, a criação de companhias majestáticas, que foram sucessivos falhanços e deu-se destaque aos principais acontecimentos ocorridos no século XIX; com as mudanças políticas e militares decorrentes das campanhas do capitão Teixeira Pinto, ensaiou-se na Guiné um despertar económico que se revelou tímido e inconsequente. Os autores recordam o termo das operações de pacificação quando o régulo de Canhambaque, nos Bijagós, aceitou a obediência portuguesa, em 1936.

No segundo volume, os autores espraiam-se em generalidades sobre as terras e o mar: a criação da província, a situação geográfica, a formação geofísica, configuração, solo e subsolo – orografia e hidrografia, meteorologia… era suposto tratar-se de matérias monótonas, o leitor ficará surpreendido com a vivacidade da redação.

Enquanto decorria a demarcação da fronteira luso-francesa, à volta de 1886, sucediam-se as rebeliões sustadas a muito custo. As fronteiras ficarão praticamente demarcadas em 1906, mas haverá ainda alguns ajustes. A promulgação dos diplomas fundamentais da Carta Orgânica do Império e da Reforma Administrativa Ultramarina veio contribuir para estabilizar a vida interna da Guiné.

Os autores tecem comentários à designação geográfica da Guiné e citam João Barreto, um divulgador hoje contestado e reconhecidamente desatualizado. O termo Guiné, escreveu Barreto, procederia de uma pequena povoação indígena fundada nos começos do século XI nas margens do rio Níger, a 14º de latitude Norte. Zurara escreveu na sua crónica ora Guiné ou Guinée, ou Guinéa ou Ghyné; João de Barros, em Ásia, falou da região da Guiné a que os mouros chamam Guinauhá; Duarte Pacheco, no seu Esmeraldo chama-lhe simplesmente Guiné. Depois do descobrimento do rio Senegal, o vocábulo Guiné passou a designar especificamente toda a costa ao Sul do Senegal. Com a descoberta da Costa da Mina passou a fazer a distinção entre Guiné Superior e Guiné Inferior.

Henrique Galvão e Carlos Selvagem eram já escritores experimentados quando se afoitaram a este projeto, momento há em que produziram literatura de muito boa qualidade. Veja-se a propósito do que escreveram sobre orografia e hidrografia: “Este tapete verde assente sobre terras vermelhas não tem rugas nem ondulações importantes. É um território sem relevo – um interminável plaino, cortado de rios e braços de rios, cujas elevações não vão além de escassos cinquenta metros. Apenas na região do Boé se eleva suavemente até aos 300 metros. Esta modéstia orográfica é largamente compensada pela exuberância hidrográfica”.


Quem viveu na Guiné, sabe que o ano quanto a temperaturas, se divide em época seca e época das chuvas. Os autores trazem um aporte curioso. Alfredo Carvalho guerra, no seu “Subsídio para o estudo do clima da Guiné Portuguesa”, divide o ano, quanto a temperaturas, em quatro períodos:

• Período fresco: os meses de dezembro, janeiro e fevereiro, em que também se verificam as maiores amplitudes térmicas;
• 1.º Período quente: março, abril (mês de transição) e maio, com grandes amplitudes térmicas ainda em março e abril;
• Período das chuvas: junho, julho, agosto e setembro;
• 2.º Período quente: outubro e novembro (meses de transição).

Falando dos povos que habitam a Guiné, deixam o seguinte comentário: “Não se conhece, de Norte a Sul da África Negra, em tão reduzida área territorial, tal concentração de tipos etnicamente tão variados”.

A propósito dos caráteres dos povos indígenas, apresentam os Grumetes do seguinte modo: “São um tipo curioso de mestiços indígenas, disseminados entre a grande massa negra, mas vivendo sobretudo nos aglomerados europeus, constituem como que uma casta aparte, embora sem raízes étnicas comuns. São descendentes de quaisquer das raças nativas (mais especialmente dos Papéis e dos Manjacos) que, tendo recebido o batismo, se assimilaram aos europeus no trajo, nos usos, nas profissões. Renegando a sua origem, consideram-se superiores aos outros indígenas, embora, no fundo, conservem a mesma psicologia, vícios e superstições. São preciosos auxiliares das colunas de operações que marcham contra as tribos sublevadas e na defesa das praças de Bissau, Cacheu e Farim. Foram sempre o grande elemento intermediário entre europeus e indígenas puros, exceção feita aos Futa-fulas e Mandingas”.

A propósito deste capítulo sobre povos, usos e costumes, encontramos outra curiosidade, não se resiste à sua reprodução. "Uma comissão chamada de “Civilização e assistência a indígenas”, funcionando sobre a presidência do Governador, nos termos da legislação de 1935, ocupa-se da elevação do nível espiritual e material da população não civilizada pela melhoria e expansão da instrução, construção de postos sanitários, habitações e fontes, distribuição de sementes selecionadas, proteção e valorização de terras e produção indígena, combate às doenças, etc. O seu programa é muito vasto, mas os recursos materiais disponíveis não lhe permite realizá-lo a não ser a um ritmo muito lento que, em muitos casos, se tornará inoperante”.

Tratando-se de uma obra de divulgação, os autores não se eximem em emitir considerações pessoais, e nem sempre pacíficas. Um exemplo: “A Guiné pode considerar-se uma província onde pode viver uma população branca. Será ainda discutível a sua capacidade como colónia de fixação de europeus”.

Há ainda capítulos sobre a organização política e administrativa, transporte e comunicações, economia, finanças e crédito.

Esta monografia do Império é muito mais do que uma simples curiosidade, mesmo aos olhos de hoje. Autores experimentados, vê-se que consultaram muito e têm ideias próprias sobre o assunto. Com a publicação em 1954 da monografia “Guiné Portuguesa”, de Avelino Teixeira da Mota, o trabalho de Galvão e Selvagem foi ultrapassado e não mais retomado.
____________

Notas do editor

(*) Poste anterior de 23 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14400: Notas de leitura (695): "Império Ultramarino Português", Empresa Nacional de Publicidade, 1950 (1) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 24 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14404: Notas de leitura (696): "Os Segredos da Censura", por César Príncipe (Manuel Joaquim)

Guiné 63/74 - P14410: Parabéns a você (879): Armando Pires, ex-Fur Mil Enf do BCAÇ 2861 (Guiné, 1969/70); Carlos Vinhal, ex-Fur Mil Art MA da CART 2732 (Guiné, 1970/72); Magalhães Ribeiro, ex-Fur Mil Op Esp do BCAÇ 4612/74 (Guiné, 1974) e Maria Dulcinea, Amiga Grã-Tabanqueira (Bissorã, 1973/74)

____________

Nota do editor

Último poste da série de 25 de Março de 2015 > Guiné 63/74 - P14405: Parabéns a você (878): Rui Silva, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 816 (Guiné, 1965/67)

quinta-feira, 26 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14409: Memória dos lugares (286): A entrega do Cumeré ao PAIGC


1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos mais uma mensagem desta sua magnífica série.

Fernando Rodrigues, furriel miliciano, com efémera passagem pela Guiné.
Um camarada que assistiu à entrega do Cumeré ao PAIGC.

Conhecemo-nos há décadas! Somos moços de uma geração onde a guerra no então Ultramar impunha restrições objetivas a uma juventude cujos olhares se fixavam numa imensurável procura de um futuro perpetuamente próspero. Porém, nem tudo era assim. O conflito de além-mar, em plena efervescência, suscitava razões óbvias que entrosavam num rol de preocupações e que se entrelaçavam com respostas invariavelmente inacabadas.

Fernando Augusto Rodrigues, ex-furriel miliciano, natural de Beja, após o 25 de Abril de 1974 deparou-se com a sua mobilização para a Guiné. Uma comissão inesperada, tendo em conta que a guerra nas antigas províncias ultramarinas já sinalizava o seu fim. Todavia, a sua hora chegou e o camarada lá partiu.

Estávamos em junho do 1974 e a sua rendição individual tinha como objetivo substituir um 1º sargento que se encontrava em Bafatá. A decisão do nosso sargento não terá sido pacífica, uma vez que o antigo camarada recusou sair, sendo que a decisão final sobre o Fernando foi uma estadia temporária num outro quartel.

Desta situação inesperada, eis o bom do meu amigo Fernando, nosso camarada de armas, a fazer parte do expediente normal do conhecido quartel do Cumeré. Um aquartelamento que normalmente recebia os piriquitos recém chegados a solo guineense. Um sítio, aliás, onde eram dadas à rapaziada as primeiras instruções básicas para o conflito real que se seguia num palanque indesejado.

Acontece que na fase de evacuação das nossas tropas, o Cumeré registou um maior afluxo de soldados que esperavam desalmadamente o seu embarque para o nosso País, agora livre, onde a família, em uníssono, aguardavam os seus ente queridos.

Sintetizando: o nosso antigo camarada furriel miliciano Fernando Rodrigues não foi um soldado de guerra, mas um militar que se confrontou com um regime de transição e de subsequentes entregas dos nossos antigos quartéis. Assim, teve o privilégio em assistir, “ao vivo e a cores”, não obstante o dia apresentar-se cinzento e chuvoso, à entrega do Cumeré ao PAIGC.

Cumeré, onde o pessoal da minha companhia aguardou pela hora do regresso à nossa Pátria Lusa. Recordo que foi justamente nesta derradeira estadia na Guiné que me deparei com o meu último “ataque” de paludismo. Sei que a febre não deu tréguas, os arrepios de frio muito menos, restando porém a certeza que a guerra no terreno tinha, finalmente, acabado.

A guerra, aquela com a qual então me deparei, era sim em “vale de lençóis”, sobrando a certeza que não fiz parte de um grupo de camaradas que, na altura, dizimavam líquidos fresquinhos para aconchegar mágoas passadas. Tanto mais que já cheirava a “Lisboa Menina e Moça” e a um “Cravo Vermelho”, símbolo da Revolução, esperar-nos-ia em solo firme.

Neste relato o nosso camarada lembra duas das suas viagens, já em tempo de paz, sendo uma delas a Nhacra, onde foi jogar futebol e comer leitão assado e uma outra que o levou a conhecer Mansoa e a sua ponte, um local apetecível para imagens fotogénicas, asseguravam os conhecedores da zona.

Por outro lado, o Fernando reconhece que embora o tempo fosse de paz, as histórias de guerra teimaram em persistir. Fala sobre um caso mortal de um furriel miliciano que se encontrava no QG, mas que “ao entrar de serviço e ao acender um cigarro, ter-se-á encostado a um arame e inesperadamente a arma que transportava disparou, sendo o seu fim trágico”. Outro camarada que fará parte de um infindável rol de falecidos e cujo fim foi uma comissão militar na guerra do ultramar.

Resquícios de uma peleja onde a facilidade do pessoal permitia descuidos que, humanamente, eram considerados impensáveis. Contudo, a verdade que todos nós conhecemos, diz-nos que houve camaradas que partiram para o além face às suas pretensas fragilidades em saber lidar com um conteúdo de uma guerrilha extremamente traiçoeira. O facilitismo permitia devaneios, depois lá vinha a desgraça. 

Faltou, talvez, uma preparação profícua a contingentes de soldados que partiam para os campos de batalha mal preparados, desconhecendo os conteúdos que a guerra impunham. Sei, e reconheço, que essa era a verdade amiudadamente constatada. Só o tempo do conflito permitia uma adaptação aos horrores a cada instante deparados. 

O nosso antigo camarada Fernando Rodrigues, acabou a sua curta comissão na Guiné a prestar serviço no QG (Quartel General), sendo o seu regresso a Lisboa no dia 3 de outubro de 1974.

Para trás ficou a certeza que foi um dos militares portugueses que se deparou com o içar da bandeira do PAIGC no Cumeré, precisamente no mastro que fora antes ocupado pela bandeira nacional portuguesa. 

Fotos do furriel miliciano Fernandes Rodrigues

Aspeto geral do quartel do Cumeré 
Atrás as tropas do PAIGC perfiladas para cerimónia 
O dia da entrega do Cumeré ao PAIGC e o içar da bandeira
No quarto 
Com o furriel Joaquim Fernandes de Vila de Condes
Como cenário de fundo o rio Geba 
Passeando numa rua em Bissau 
Um abraço camaradas, 
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523
___________
Nota de M.R.: 

Vd. último poste desta série em: