quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

Guiné 63/74 – P5796: Histórias do Eduardo Campos (8): CCAÇ 4540, 1972/74 - Somos um caso sério (Parte 8): Nhacra 3


1. O nosso camarada Eduardo Ferreira Campos, ex-1º Cabo Trms da CCAÇ 4540, Cumeré, Bigene, Cadique, Cufar e Nhacra, 1972/74, enviou-nos a 8ª fracção da história da sua Companhia e 4 documentos históricos do seu vasto arquivo pessoal:

CCAÇ 4540 – 72/74
"SOMOS UM CASO SÉRIO"

PARTE 7

NHACRA 3

Como nada de importante se passava em Nhacra, os dias eram passados de uma forma totalmente diferente das Matas do Cantanhez, e, acreditem que por vezes, surgiam-nos as saudades. A vida era tornava-se demasiado sedentária.

As alternativas encontradas, para fugir à rotina, eram as idas a Bissau, e, já que a alimentação nunca foi algo digno desse nome em Nhacra, aproveitava estas saídas para ir ao Pelicano, à Churrascaria de Santa Luzia, ao Bento, etc. Assim, evitava que a “dieta” que me tinha sido imposta, fosse levada muito a sério.

Por falar de alimentação, enquanto no Cantanhez suportamos tudo, por vezes até com um sorriso, em Nhacra as coisas eram diferentes. O pessoal ficou mais rebelde e negou-se a comer duas vezes (2 levantamentos de rancho). Um dos quais teve como resultado, que passadas duas horas do início do levantamento, estávamos a comer um bacalhau cozido com batatas, que parecia ter sido confeccionado no Hotel Hilton.

Embora não estivesse de oficial de dia nessa data, foi o nosso camarada e amigo tabanqueiro Vasco Ferreira (ex-Alferes da CAÇ 4540), que resolveu o problema.

A dificuldade em adquirir gado bovino (como já disse no poste anterior, o povo por motivos religiosos e tradicionais não o vendia), dava origem a que, um grupo de camaradas acompanhado de um especialista em ”ginecologia”, fossem às tabancas, de madrugada, á procura de gado. Então o nosso “especialista” apalpava… apalpava e, não estando prenha a vaca, toca a roubá-la.

Logicamente, o dono da rês vinha atrás deles a gritar e a chorar, mas não havia nada a fazer. Chegados ao aquartelamento, acabavam por fazer negócio e diziam que lhe pagavam um preço justo.

A minha eterna dúvida, nestes negócios forçados, é: “Mas que raio de preço justo era esse, se o homem não queria vender o animal!?”

A minha curiosidade sobre o desenvolvimento destas operações, levou-me a que, um belo dia, os acompanhasse para ver como decorria a captura da vaca seleccionada.

Nesse dia, logo por azar, o “ginecologista” improvisado enganou-se e trouxe mesmo uma vaca prenha. Foi remédio santo para mim, nunca mais comi carne bovina até ao fim da comissão.

A partir de determinada altura, mesmo cabritos, galinhas e porcos os nativos resistiam em vender. Aqui chegados, um camarada das transmissões, inventou uma fórmula original, na época, para roubar galinhas, que constava do seguinte: Um fio de pesca com vários anzóis, onde colocava uns grãos de milho. Depois pela tabanca fora ia espalhando mais alguns grãos de milho pelo chão. As galinhas vinham por ali adiante a comer os grãos e acabavam, quase sempre, por engolir um dos anzóis. Quando o tal camarada via que a bicha tinha caído na esparrela, saía rapidamente da tabanca com a “vítima” atrás dele.

DOCUMENTOS DE COLECÇÃO

A história também se faz de notícias, pelo que, hoje, seleccionei 4 peças do meu arquivo pessoal, para publicação, relacionadas principalmente com a Guiné e a Guerra do Ultramar, que nos chegam com 37 anos de idade.





Um abraço Amigo,
Eduardo Campos
1º Cabo Telegrafista da CCAÇ 4540

Fotos: © Eduardo Campos (2009). Direitos reservados.
___________
Notas de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

Guiné 63/74 - P5795: Parabéns a você (78): José Brás, ex-Fur Mil da CCAÇ 1622, Aldeia Formosa e Mejo, 1966/68 (Editores)

1. Hoje dia 10 de Fevereiro de 2010, está de parabéns o nosso camarada José Brás* que foi Furriel Miliciano na CCAÇ 1622, Aldeia Formosa e Mejo, nos anos de 1966/68).

Não podia a tertúlia deixar de vir desejar-lhe um feliz dia de aniversário, pleno de saúde e alegria, junto dos seus familiares e amigos.

Desejamos ao nosso camarada Brás uma longa vida para podermos, todos nós, comemorar esta data muitas vezes.



Postal alusivo à data comemorativa, de autoria de Miguel Pessoa


José Brás que muitos de nós têm o prazer de conhecer pessoalmente, vive no Alentejo, mais propriamente na bonita cidade de Montemor-o-Novo. É autor do romance "Vindimas no Capim", Prémio de Revelação de Ficção de 1986, da Associação Portuguesa de Escritores e do Instituto Português do Livro e da Leitura, assim como de poemas, alguns dos quais publicados no nosso Blogue.

Gosta de argumentar, e fá-lo como poucos, mesmo quando os temas são fracturantes e levam a diálogos intensos. Mantém sempre um elevado nível de cordialidade e respeito pelas divergências do opositor de ocasião. Tive o prazer de o ter como companheiro de mesa no último Encontro em Ortigosa, pena foi que não pudessemos conversar mais, mas o ambiente não era o melhor. Algum burburinho e muitas solicitações a ambos, que interrompiam sistematicamente os diálogos.

O nosso camarada Brás tem colaborado intensamente no nosso Blogue. Uma série a destacar, "Vindimas e Vindimados", baseado no seu livro "Vindimas no Capim", infelizmente interrompida há muito tempo. O último poste, 4696, data de 16 de Julho de 2009, pelo que desde já lhe lanço um apelo para que retome a publicação dos textos desta série.

Navegando pelo Blogue, consegui encontrar 33 postes deste nosso camarada que aconselho a ler. Desde histórias, poesia, argumentação, de tudo se pode encontrar, com qualidade garantida.


Entretanto, apreciem esta não poesia, na pespectiva de José Brás, seu autor

Anéis

Dedos apontados à secura da terra
acusavam-lhe a falência genética
do seu ventre parideiro
de diamantes, de minas
e de morte

olhos vitri-fixos diziam
mundos-nada-amargura
saudade já
de outros eu
fantasmas-frustração
coval marcado no espaço sideral

bocas-protesto-quase-renúncia
gritavam imagens-desejo
de um encéfalo criador
de novos cosmos

e seios negros-flácidos-lacerados
eram a denúncia-prova
de cordões umbilicais
que ligam ainda
o símio-escravo-jeová
à terra-mãe


ARCAS

Do Homem
guarda
o silex
o gesto

e nas marcas do sangue
se guardam
as ânsias
de infinito


Espantosa Visão

Corriam os olhos
na imagem
de um desfiladeiro de pedra
cinzenta
e os gritos colados
nas asas
de pássaros dourados
rasando os tufos
raros
de verde azeitona
impunham
na paisagem vazia
um pesado irreal
e a solidez
do alerta.


Pressa

Urgente
seria
que as palavras
cruzassem
o espaço
(fechado)
da memória
e no seu eco
se rompessem
as cadeias
do tempo
e do sangue
na terra da morte
e dos olhos
parados


Memória de fogo

Eruptiva terra
vermelha e retorcida
vulva aberta
múltipla
e imprevista
teu quente orgasmo
da periódica
orgia vem
arrefecendo
solidifica
em ferro
e flores
nos corpos
de crianças
fardadas



O nosso aniversariante dirigiu-se ao nosso Blogue pela primeira vez em 27 de Janeiro de 2009. Relembremos as suas palavras:

Caro Luís Graça
Enviei a 19.01.09 (ou penso que enviei) o texto abaixo junto com carta aberta a J. Mexia Alves sobre intervenção sua e editada no blogue acerca da chamada “batalha de Guilege”.

Acompanhavam tal texto duas fotos, uma antiga e outra actual, forma que julgo suficiente para ser considerado um novo “camarada” da Tabanca Grande.

Entretanto novos textos foram aparecendo sobre o mesmo tema, uns, como o de JMA, deambulando por caminhos de análise puramente militar e hipermetrópica, própria do contrário da história, outras que, como eu, não negando a análise militar (tudo é analisável), não arredam a parte mais interessante da visão universal do direito dos seres humanos a disporem da sua vida e da sua liberdade num mundo que sempre se sonha melhor no futuro.

Estive com alguns problemas no meu computador e, no exemplo do que aconteceu com outras mensagens para outros destinatários, temo que não tenha chegado ao teu correio o texto que refiro acima como enviado.

Indicia tal situação o facto de não lhe ter visto mais qualquer referência no blogue, nem ter recebido eu a acusação da recepção.

Desse modo o reenvio agora com um abraço de cumplicidade a todos os que mantém o interesse na discussão plural e aberta sobre uma página da nossa história que, como todas as histórias, individuais ou colectivas, não se fazem apenas de glórias e heroísmos mas também de muitas misérias e cobardias.

José Brás


Ortigosa, 2009 > Conversa animada de Mexia Alves e José Brás com...

Ortigosa 2009 > Vasco da Gama e José Brás

Ortigosa 2009 > José Brás e José Rocha
__________

Notas de CV:

(*) Para encontrar os postes de José Brás, recorrer aos marcadores "José Brás" e "Vindimas e Vindimados"

Vd. último poste da série de 6 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5773: Parabéns a você (77): José Belo, se o calor da nossa amizade chegasse a Kiruna, a tua Lapónia era o Alqueva (Os Editores)

terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5794: In Memoriam (36): Júlio Marques Tavares, o Madragoa (1945-1986), ex- Sold Cond Auto, CCS / BART 1913 (Catió, 1967/69) (Marisa Tavares / Vitor Condeço / Fernando Graça)


Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS/ BART 1913 (1967/69) > O Madragoa, o Sold Cond Auto Júlio Tavares, condutor de GMC... Nasceu em Lisboa em 1945 e morreu em 1986, no Canadá, para onde emigrara em 1975. Os seus pais eram de Pardilhó, Estarreja. Quando jovem, o Júlio viveu na Madragoa. Quando voltou da Guiné, fixou-se em Pardilhó, onde casou e teve o seu filho Pedro. A sua filha Marisa, que tinha 6 anos quando o pai faleceu,  de doença prolonada, anda à procura de camaradas dele. Graças ao nosso blogue, já localizou alguns.  Diz que tem muito orgulho no seu pai.

O seu gesto sensibilizou-nos a todos. Convidei a Marisa para integrar o nosso blogue, o que ela aceitou, embora não domine bem o português. O pai foi trabalhador da construção civil. Conseguiu dar, no entanto, uma educação de nível superior aos seus dois filhos. A Marisa diz que ele tem outro filho, que terá ficado em Catió. Recentemente lançou um blogue para procurar esse meio irmão perdido: Are You My Brother ? É meu irmão ? (Vamos também ajudá-la nesta procura do paradeiro do seu eventual mano guineense).



Louvor averbado na caderneta, p. 12,  do Sold Cond Auto Rodas Júlio Marques Tavares, nascido em 9 de Dezembro de 1945, em Lisboa, freguesia de São Sebastíão da Pedreira. Era mais conhecido pela alcunha do Madragoa. Antes da tropa, era solteiro, residia em Lisboa e tinha como profissão "ajudante de condutor auto sem prática". Tinha 4 anos de escolaridade ["exame de 4ª classe do E.P.E. (4º grupo)]".





Na caderneta, p. 20, consta ainda, em "ocorrências extraordinárias", o seguinte: 1966. Apto no exame psicotécnico para condutor auto. Considerado refractário nos termos do atº 48º da Lei 1961, desde 19 de Agosto de 1966. (..) Ausente com licença definitiva para o Canadá desde 27/2/75".

Fotos: ©  Marisa Tavares (2010). Direitos reservados

Prémio, condecorações e louvores. 1968. Louvado pelo Comandante do BArt 1913 porque ao longo de 19 meses de comissão sempre se evidenciou como elemento trabalhador e disciplinado, sendo de salientar ser um condutor cuidadoso, e merecendo-lhe a viatura que lhe está distribuída constante cuidado. Nas colunas em que tomou parte nunca mostrou qualquer receio ou hesitação em que a sua viatura GMC fosse a 1ª da coluna. De espírito alegre e comunicativo, granjeou a simpatia e a amizade de todos (Ordem de Serviço, do BART 1913, nº 282). Medalha Comemorativa das Campanhas da Guiné. Legenda "Guiné 1967-68-69" (OS nº 26 do BART 1913. de 1969).


1. Mensagem do Vitor Condeço, de 6 do corrente, em resposta ao meu pedido para legendar algumas das fotos do álbum da Marisa:

Querida Marisa, meu caro Luis Graça:

Vamos ver o que consigo dizer sobre as fotografias que a Marisa, filha do Júlio Tavares nos presenteou.


Vê por favor o que consegues aproveitar, não estou certo de ter escolhido a melhor forma de as comentar. [A publicar oportunamente].


Antes e para começar, um pouco e história:


O Júlio Marques Tavares era Soldado Condutor Auto nº 06255566 da CCS do BART1913, que embarcou a 26 de Abril de 1967 no NM UIGE, tendo chegado à Guiné na manhã de 1 de Maio.


Desembarcados directamente do Uige para barcaças de transporte, seguimos até Bolama onde pernoitámos aguardando a maré, prosseguindo ao alvorecer o nosso destino para sul até Catió na região do Tombali, onde chegámos às 15H00 do dia 2 de Março, (este trajecto foi feito sem qualquer escolta e a única arma a bordo era uma pistola 6.75 do Cap. Botelho). Aqui ficámos até 17 de Fevereiro de 1969, data em que embarcados no cais do porto exterior de Catió no rio Cagopere a bordo da LDG 101 – Alfange, regressaram a Bissau.


Aqui, o BArt reagrupou com as restantes companhias e terminaríamos a comissão embarcando novamente no Uige na tarde de 2 de Março, levantando ferro com destino a Lisboa às 00H00 do dia 3 e onde chegamos a 9 do mesmo mês pela manhã, seguindo de comboio para V.N. de Gaia (RAP2), onde se chegou a princípio da tarde.


Depois de entrega do espólio, todos recebemos um passaporte de licença por 21 dias e uma requisição de transporte para o tão desejado regresso a casa.


Passámos à disponibilidade em 1 de Abril de 1969.

Dos registos na História do Batalhão consta que o Júlio Tavares foi louvado pelo comandante do batalhão em 25 de Novembro de 1968.


A resposta que esperava do camarada Fernado Graça, a quem pedi para falar sobre o Júlio, acabou por chegar só hoje, ao que parece andou perdida pela rede pois o endereço antes usado estava incorrecto e voltava à caixa dele. (...)


3. Aqui fica então o que o Fernando, há distância de mais de quarenta anos, consegue recordar sobre o Júlio:


Caro amigo Vítor Condeço,


A razão desta mensagem é para falar sobre o soldado condutor auto Júlio Tavares que fez parte da CCS do BART 1913 estacionada em Catió.


Este amigo era conhecido por Madragoa, era um homem bem disposto, reinadio e bom camarada.


A alguns condutores (tínhamos 24 na CCS) foram distribuídas as poucas viaturas existentes, o Madragoa conduzia uma GMC, outros camaradas tinham os Unimog 404 e o 411, a Mercedes  Benz, e os Jeeps.


Quando havia coluna de reabastecimento de Catió para Cufar todos os carros de grande porte faziam o trajecto entre estes dois aquartelamentos, operação que durava todo dia. Os abastecimentos vindos de Bissau em barcos apoiados pela marinha, quando chegavam ao cais velho de Catió, (I) as viaturas eram carregadas e seguiam rumo a Cufar, o nosso amigo Madragoa assim como outros camaradas condutores lá alinhavam nos seus 'mustangues'.


Enquanto os sapadores picavam a estrada, outros camaradas montavam segurança, o dia era passado numa azafama por razões obvias, creio que a viatura do Madragoa ou a do Fontes,  um camarada de Famalicão,  tinham sobre os guarda-lamas, nos estribos e no próprio chão da cabine do condutor, sacos de areia para amortecer o impacto do rebentamento de alguma mina que não fosse detectada.


O nosso amigo Madragoa também fez umas comissões de serviço em Ganjola, um pequeno destacamento a uns quatro km de Catió, era obrigatório fazer um mês neste destacamento, mas havia quem ficasse por lá mais tempo do que o habitual.


O Madragoa,  quase no fim da nossa comissão, talvez dois meses antes, escreveu umas milongas (II) aos seus familiares a pedir dinheiro. Foram dois meses a tirar a barriguinha da miséria, bifes com batatas fritas no bar Catió e no outro bar que ficava em frente ao quartel do qual não me recordo o nome. (III)


Foi um manjar de deuses e brutas pielas. Fez bem o nosso amigo, porque quase dois anos de feijão-frade com atum de salmoura em barrica, arroz com calhaus que quase nos partiam os dentes e outras mistelas já bastavam.


E por isso, houve mosquitos por cordas quando fizemos um levantamento de rancho!


Quando chovia torrencialmente o nosso amigo Madragoa não se fardava,  metia a capa impermeável camuflada pela cabeça, as botas e lá andava ele na sua GMC.


Envio-te esta mensagem a contar estes pequenos nadas, mas muito significativos para nós, que os vivemos.


Faz chegar à filha do nosso camarada MADRAGOA este lembrar do que passamos há quarenta e três anos.


Com um grande abraço do


Fernando Graça


Ex-Sold. Cond.


CCS/BART1913
Guiné - Catió 1967/69

____________

Notas do F.G.:

(I) - Porto Interior


(II) - Falsas histórias


(III) - Era a Cantina do Sr. Mota
__________

Nota de L.G.:

(*) Vd. postes anteriores:

2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5749: Álbum fotográfico de Júlio Marques Tavares, sold cond auto, CCS / BART 1913 (Catió, 1967/69) (Parte I) (Marisa Tavares)

 1 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5742: Em busca de ... (115): Camaradas de meu pai, Júlio Marques Tavares, CCS / BART 1913 (Catió, 1967/69) (Marisa Tavares)

Guiné 63/74 - P5793: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (4): S. Domingos, 21 de Julho de 1961: Benedita, eles já aqui estão!


Guiné > Região do Cacheu > Varela > 1961 > Luta felupe, de Augusto Trigo. Painel que se encontra(va) numa parede de um restaurante/café, completamente em  ruínas. O painel foi restaurado, digitalmente, pelo Rui Fernandes. Foto de Rui Fernandes, cedida ao nosso amigo Pepito e aqui reproduzida com a devida vénia. (O Rui integra a nossa Tabanca Grande, desde Janeiro de 2008).

Augusto Fausto Rodrigues Trigo nasceu em Bolama, a 17 de Outubro de 1938. Órfão de pai em 1945, veio com mais dois dos seus irmãos para Portugal. A  mãe ficou  na Guiné, com o filho mais novo.

Esteve na Casa Pia até aos 19 anos (1957). Aí começou a revelar e a desenvolver o seu talento artístico. O seu primeiro emprego foi como pintor de publicidade. Regressa à Guiné para rever a mãe e os irmãos. Trabalha como desenhador cartográfico. Nos momentos livres, desenha e pinta (a óleo e a aguarela). Em 1964 realiza a sua primeira exposição de pintura. O Governo da província faz-lhe encomendas... O quadro, cuja imagem reproduzimos acima, data de 1961... Ainda viveu na Guiné-Bissau, a seguir à independência, tendo dirigido o Departamento de Artesanato Nacional, mas regressou definitivcamente a Portugal, em Setembro de 1979. É hoje um conhecido ilustrador e consagrado autor de Banda Desenhada (em parceria com o argumentista Jorge Magalhães). Para saber mais,  clicar aqui.


Foto: © Rui Fernandes / AD - Acção para o Desenvolvimento (2008). Direitos reservados


1. Pré-publicação de excertos do próximo livro do nosso amigo e camarada Mário Beja Santos, Mulher Grande. Trata-se da terceira parte do Capº III (*):


Mulher Grande > III > A Guiné em chamas ou o “Tubabo Tiló”
por Mário Beja Santos


[III. 4] Décimo segundo solilóquio


O tempo esfriou, chuvisca, aproveito para ir ao Google ver o que aconteceu em S. Domingos, naquele dia 21 de Julho de 1961. Coisa estranha, parece que a luta armada só começou em Janeiro de 1963, com o ataque a Tite, desencadeado pelo PAIGC. No entanto, aos farrapos, fala-se da formação de rebeldes no Senegal, de um Movimento para a Libertação da Guiné, nalguns documentos fala-se mesmo da FLING. Imprimo tudo, algumas respostas podem ser encontradas nas entrelinhas.

Afinal, a FLING fora alimentada pelas autoridades de Dakar, tinha um projecto exclusivamente guineense, não queria o envolvimento dos cabo-verdianos. Noutro documento encontro referências à fuga de quadros, vejo mesmo o nome de Rafael Barbosa ligado à FLING, surpreende-me, pois o seu nome também aparece associado ao PAIGC.

No último almoço em casa da Benedita vi a emoção com que ela falou na degradação das relações com as novas autoridades senegalesas do Casamansa. Falámos na missão da Christine Garnier, ela ter-se-á encontrado com Senghor que mandou uma mensagem para Salazar apelando-lhe a um quadro de pequenas concessões imediatas e sugerindo-lhe um plano de transmissão de poderes com a duração de 20 anos. O que quer que tenha acontecido, Salazar, que recebeu Benjamim Pinto Bull em S. Bento, recusou qualquer modalidade de negociação. Segundo a Benedita, 15 a 20 dias antes do ataque atribuído à FLING apareceu o administrador do Casamansa em S. Domingos. Encontrou-se em privado com o Albano, ele partiu para Bissau com uma mensagem e entregou-a ao Governador. Soube-se mais tarde que foi uma derradeira tentativa para a negociação.

Dou comigo a pensar como certos protagonistas secundários têm às vezes entre mãos responsabilidades que podem levar à mudança da História. A acreditar-se no relato da Benedita, o Albano tinha consciência que se estava a dançar à beira do abismo. Seria muito interessante saber-se como Bissau transmitia para Lisboa a versão das hostilidades iminentes.

Estou a entusiasmar-me por um pedaço da história da Guiné que eu ignorava completamente. Mas o que mais me surpreendeu foram as respostas que me deram quando telefonei, por sugestão da Benedita, para um administrador e dois chefes de posto do tempo, bem como dois coronéis na reserva, alferes na Guiné em 1961. Foram muito cordatos ao telefone, ninguém se lembrava do nome dos rebeldes, aonde se situava o seu acampamento, embora se tenha falado que estava dentro do Casamansa ou em Kolda, nunca tinham ouvido falar na FLING ou no Movimento para a Libertação da Guiné.

Porque será que estes homens não querem falar? Pondo imediatamente de parte a hipótese de uma conspiração de silêncio, somos levados a pensar que ninguém acreditava que dois países independentes à volta da Guiné portuguesa iam ficar quietos, sem explorar o descontentamento existente nas várias linhas de independentistas guineenses. E não menos curioso é como esta sucessão de episódios não consta na história da Guiné-Bissau.

Mais recordações da Benedita (décimo segundo trabalho de casa)

Haverá o direito de eu estar a arrogar-me a um papel importante nos acontecimentos do ataque a S. Domingos? Tenho a consciência que a memória não me atraiçoa. Aí uns dez dias antes do ataque o Albano soube que ia haver um desfile contra Portugal, em Ziguinchor. Aquelas informações eram vitais, ele não podia ir nem ninguém da administração.

Vendo-o tão preocupado, sem saber o que fazer, tomei uma decisão sem hesitar: “Albano, eu vou, não se preocupe, toda a gente me trata bem em Ziguinchor, diga-me exactamente o que pretende saber”. Ele ainda tentou dissuadir-me, mas acabou por me dar razão. Ao amanhecer do dia previsto do desfile, parti com o chefe da central eléctrica de S. Domingos, pretextei uma indisponibilidade do Albano, referi que tinha umas compras urgentes, ao princípio da tarde estaríamos de regresso.

Em Ziguinchor, notava-se à vista desarmada um clima de grande tensão, as pessoas procuravam não falar comigo, ou respondiam-me com monossílabos. Estive na farmácia, no escritório de Hugues Lemaire, depois comprei tecidos a um mercador ambulante. Na farmácia, o farmacêutico que era claramente contra a presença portuguesa, perguntou-me por Monsieur le Commandant, senti-me bem tratada.

O desfile anti-português estava praticamente no fim, via papéis a convocar para a manifestação espalhados pelo chão, resolvi não apanhar nenhum. Na loja de um djila, senti que ele me estava a fazer perguntas acintosas, do tipo “o que é que eu pensava se ele abrisse um magasin em S. Domingos”, respondi que ficaria encantada. Hugues Lemaire recebeu-me imediatamente e advertiu-me: “O Albano que se organize e se defenda. O melhor seria vocês abandonarem já S. Domingos, eles vão atacar em breve”.

A mulher dele deu-me uma pistola e Hugues Lemaire precisou as últimas instruções: “Não posso escrever nada, a partir de agora, se souberem que estou a passar informações estamos perdidos. Estão a ser preparados 200 homens nas granjas de Tibelor, perto dos serviços de agricultura de Ziguinchor”. Ainda fui comprar umas conservas, livros e revistas.

Foi no carro que o Augusto, o chefe da central eléctrica, me mostrou os panfletos que tinham sido distribuídos na manifestação do tipo um capitalista gordo com charuto na boca às costas de um nativo, um cipaio com uma palmatória na mão a maltratar um indígena com as correntes nos pés e de mão estendida. Um dos panfletos falava na luta para expulsar os portugueses, admitindo se necessário recorrer à destruição de vidas. O Augusto disse-me: “Senhora, as coisas estão muito feias, eles têm espingardas e granadas”. Seguimos imediatamente para S. Domingos, o Albano não escondeu o seu alívio quando ali cheguei. Ouviu-me, escreveu uma longa mensagem, o secretário seguiu imediatamente para Bissau.


Antes do ataque a S. Domingos, em 21 de Julho de 1961


Pela primeira vez na minha vida, eu sentia-me no centro de uma agitação política que não entendia, onde não participava directamente, olhava, ouvia os comentários do Albano, lançaram-me avisos em Ziguinchor, mas como não via guerra nem era evidente qualquer hostilidade, continuei a viver sem alterar nada.

Enviaram de Bissau um novo secretário e um novo aspirante para S. Domingos, logo percebi que era para dar mais tempo ao Albano, libertá-lo das tarefas administrativas, os acontecimentos do Senegal e o espectro da guerra ocupavam-no cada vez mais. Nós estávamos preocupados com o que tinha acontecido em Angola, começava-se a pensar que íamos ser brutalmente atacados, até mesmo chacinados.

A mexer nos meus papéis, nas coisas que juntei nos últimos dias, tenho aqui registada a chegada de um homem que só nos deu dores de cabeça, Aventino Guerreiro, um aventureiro que chegou a S. Domingos com uma proposta de instalar um negócio de óleo de palma, queria que o Albano lhe concedesse mão-de-obra gratuita. Claro que o Albano recusou e pô-lo fora do gabinete.

Este Aventino Guerreiro só no ano de 1961 apresentou 15 queixas contra o Albano. Ele devia ter muitos apoios em Bissau, deve tê-los sugestionado com um conto do vigário, qualquer coisa como montar um sistema de informações ao longo de toda a fronteira, o pretexto seria a compra de mancarra, seria aí, durante as transacções, que se obteriam informações.

Um dia, vínhamos nós de Bissau, o Albano contou-me tudo no carro, como publicamente se manifestara contra este embuste, se Bissau queria boas informações, se queria confirmar e ampliar as informações que a PIDE oferecia, deviam estar atentos ao que ele escrevia, sobretudo às informações que ele recolhia em Ziguinchor.

O Albano tudo fazia para manter excelentes relações com os colegas do Casamansa. Ele sabia, desde 1960, que as relações iam ficar tensas, esforçou-se por fazer convites oficiais às novas autoridades senegalesas, recebemo-los em nossa casa, notámos da parte deles que não queriam muita intimidade, sentia-se no ar que em breve se iria chegar à ruptura. O Albano estava a sofrer muito, tinha recebido um telegrama a anunciar que a mãe estava a morrer, decidiu não vir a Portugal com tudo o que se estava a passar ali à volta.

Pode parecer contraditório, mas eu estava a receber novas alegrias. Fui admitida como professora no ano lectivo de 1960-1961, ninguém mais concorreu para S. Domingos. Comecei a juntar dinheiro, pois o ordenado de professora ia inteirinho para Lisboa, aproveitando o direito à transferência. Adorei ensinar, ver aquelas crianças que por vezes faziam quilómetros a pé a mostrar entusiasmo com a tabuada, começavam a soletrar e meses depois assistia àquele milagre das palavras serem ditas, mesmo aos solavancos.

É de repente que começo a sentir o desânimo do Albano por causa da indiferença de Bissau face aos seus avisos. Aquela indiferença deitava-o por terra. Já na festa da independência do Senegal ficara ao lado de um oficial reformado do exército francês que se mostrou muito glacial comigo. Perguntei ao meu amigo Hugues Lemaire o que levava aquele senhor a ser tão pouco gentil comigo e ele disse-me sem papas na língua: “Benedicte, tu não acreditas no que te andamos a dizer, tu jantaste ao lado do oficial que anda a treinar os rebeldes guineenses aqui no Senegal”. Fiquei sem saliva, olhei-o sem poder articular uma palavra. Hugues Lemaire também já avisara o Albano que Senghor queria marcar posição antes de Sekou Touré, iria apoiar insurreições no Norte da Guiné com rebeldes da nossa província. Senghor era a favor de uma Guiné para os guineenses, não apreciava os cabo-verdianos. Senghor dizia abertamente que o futuro desta nova Guiné independente iria ficar sob a sua custódia.

Vão seguir-se dias de tensão, nunca mais na minha vida tive uma espera tão dolorosa, inquietante, como aquela. Sentimos que muita gente estava a partir, até mesmo gente da população local deixou de vir a S. Domingos. Os comerciantes de Bissau, do Cacheu, de Bissorã ou Bula, nunca mais apareceram. O silêncio nocturno era horrível, nunca mais se ouviu um batuque, acabaram as fogueiras, as cerimónias e festas dos Felupes ou dos Manjacos. Eu procurava resistir dando aulas mas sentia também a falta de muitos alunos.
Estávamos todos à espera, num enervamento horrível. Chegara entretanto um contingente de tropa que ficou a viver dentro da povoação, e não muito longe de nós. Começava o nosso relacionamento com a tropa, que não foi nada feliz. Na noite de 21 de Julho, estávamos deitados quando se ouviram tiros, um deles partiu um vidro do nosso quarto. Como uma mola, saltámos da cama e rastejámos para a porta, punha-se assim termo a todos aqueles meses de expectativa.

Há quem diga que quando morremos a nossa vida passa no nosso cérebro como um filme acelerado, já me disseram que vemos e pensamos aquilo que mais no impressionou na existência. Pois eu sei que vou ouvir nesse momentos a voz do Albano gritar-me ao ouvido, plena de exaltação: “Benedita, eles já aqui estão!”.

(Continua)

[ Revisão  / fixação de texto / título: L.G.]
_____________

Nota de L.G.:

(*) Vd. último poste desta série > 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5758: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (3): Dois anos maravilhosos: S. Domingos, Varela, Ziguinchor, antes da guerra...

segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5792: Blogoterapia (145): Como te compreendo, amigo António Rosinha (José Brás)

1. Comentário do José Brás ao último poste do António Rosinha (*):
 Luís: O Rosinha já me havia enviado este texto antes, e eu havia também respondido com o texto que junto mais abaixo.
É um caso curioso, este, porque começou a nossa troca de correspondência no blogue, pareceu-me com uma certa animosidade negativa e com  o seu desenvolvimento, na base do respeito pelo humano e pelas diferenças, temos feito uma excelente aproximação.
Parece-me um homem muito sério que carrega legitimamente uma grande lástima pelo que aconteceu no desfazer do Império.
No texto que lhe enviei, juntei outro que nem sei se serve para o blogue, porque tem 12 páginas e sai do tema restrito da guerra colonial e da Guiné para tentar perceber melhor o Regime, a Colonização e a chamada Descolonização.
Se achares bem posso enviar-te uma cópia e tu verás se vale a pena.
Um abraço
José Brás


2. Texto do José Brás:

António, meu amigo:
Acredita que não é demagogia dizer-te "como te compreendo, amigo". E não to digo porque te queixes, porque isso ainda não vi que fizesses, mas porque apontando o dedo, denuncias uma situação trágica na sociedade portuguesa, aqui na metrópole, e lá, em Angola, Moçambique e Guiné.
E o não te queixares é já a denúncia de uma enorme dignidade, complementada, evidentemente pelo uso do direito à indignação e à incompreensão.

De modo curto, poderia dizer-te, utilizando o teu sub-título ENTÃO COMO FICAMOS? GUERRA OU ABANDONO?, que quanto a mim a questão não está aí mas é anterior e a sua não solução, anterior, precipitou tudo.

Evidentemente, dá para ver que nem de perto nem de longe aceito ou aceitei alguma vez, desde que me lembro de botar pensamento, a Salazar.

Contudo, face ao horror espalhado pela UPA no Norte de Angola, nada havia a fazer no imediato, senão enviar tropas que travassem o verdadeiro massacre que a UPA fazia e pretendia continuar a fazer porque não tinha como programa político senão o terror e o ódio racista servidos por superstições como sabemos.

Travado esse massacre, Salazar estava ainda muito a tempo para dar indícios de possibilidade de negociação.

É claro amigo, a questão era e é o petróleo, os diamantes e outros recursos espantosos que se encontram naquela terra, acxrescentando-se que também a luta pela hegemonia territorial global entre a URSS e os EEUU.

E acho que é isso mesmo que fez de Portugal um simples peão que suportou os prejuízos e que na hora de segurar e de dar a volta às coisas, não tinha a mínima força para o fazer.
E a verdade é que este povo que foi expulso daquela terra que amava, muita falta fez ao novo País, dizendo eu isto sem a mínima intenção neo-colonial, mas na parceria que poderia ter sido exemplar.

Acabo de escrever um trabalho de 12 páginas precisamente sobre esse assunto, um pouco motivado pela nossa anterior correspondência no blogue, e também na questão colocada pela amiga Filomena e a minha resposta já publicada, como sabes. (**)

Ainda nem sei se o irei enviar ao blogue, pelo seu tamanho e pela matéria abordada que extravasa largamente a nossa questão Guiné.

Em parte, tal trabalho, poderia ser uma resposta ao teu desafio. ´Não o é porque não há aqui necessidades de respostas nem de desafios, e porque as questões suscitadas pelo drama dos retornados são muito mais vastas e complexas.

Aqui, entre nós, há apenas lugar para a amizade e para a compreensão. Ainda assim, envio-to, solicitando que por enquanto fique entre nós, sobretudo porque utilizo dois quadros que retirei do trabalho de outro a quem terei de dar contas.

Um forte abraço

José Brás

Guiné 63/74 - P5791: Controvérsias (64): Os efeitos colaterais da guerra (Mário Gualter Rodrigues Pinto, ex-Fur Mil At Art da CART 2519)


1. O nosso Camarada Mário Gualter Rodrigues Pinto, ex-Fur Mil At Art da CART 2519 - "Os Morcegos de Mampatá" (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá - 1969/71), enviou-nos a seguinte mensagem, em 5 de Fevereiro de 2010:

OS EFEITOS COLATERAIS DA GUERRA

Por volta do fim de Março de 1971, tive de me deslocar ao Hospital Militar da Estrela, por motivos das análises que tinha efectuado ao Paludismo, aquando da desmobilização no RAL 3 em ÉVORA.

Nessa minha deslocação, apanhei um eléctrico no Largo de Camões com destino à Estrela. Como sempre viajava junto ao guarda-freio (na frente do eléctrico junto ao condutor), quando de repente disparou a protecção do circuito eléctrico, que liga o trólei aos cabos condutores aéreos de alimentação da energia.

O disparo provocou um forte estrondo, e eu acabado de regressar das lides guerreiras, reagi instintiva e instantaneamente, saltando do eléctrico e enfiando-me na primeira porta aberta de um prédio em frente.

Perante o espanto geral de toda a gente, que no viajava no veículo e vários citadinos, que, apeados, circulavam na rua e que foram os primeiros a chegar junto de mim, indagando sobre o que me tinha acontecido.

Dei a minha explicação, dizendo que eram efeitos da Guerra do Ultramar, da qual tinha regressado recentemente, nomeadamente da Guiné.

Sem saber como e donde, apareceu um indivíduo, intitulando-se jornalista do jornal “O Século”, que me informou que gostava de relatar o acontecimento, ao qual não me opus e eu compus a notícia.

A redacção dizia, mais ou menos, o seguinte:

"Ontem, pelas 10h00 da manhã, um militar recém-regressado da Guerra da Guiné, atirou-se dum eléctrico em andamento (carreira 28), perante o espanto geral de todos os passageiros, quando o circuito eléctrico do carro disparou estrondosamente. O mesmo encontra-se bem apesar de alguns ferimentos ligeiros.

Este é um dos efeitos colaterais de que sofre uma boa parte da nossa juventude, cicatrizada pelas vicissitudes da Guerra do Ultramar e que lhes marcará as memórias, para todo o sempre."

É obvio que esta notícia foi sujeita ao “lápis azul” dos censores da época, que depois de censurada foi recomposta do seguinte modo:

"Ontem, pelas 10h00 da manhã, um cidadão regressado à pouco tempo do Ultramar, caiu de um eléctrico em andamento, da carreira 28, perante um movimento brusco do mesmo veículo, quando viajava pendurado no estribo do mesmo."

Para os mais jovens esclareço que, nessa época, o regime político de Salazar/Caetano, tinha os seus acólitos sempre atentos sobre todas as notícias da Guerra do Ultramar, exercendo severa censura sobre todas elas, inclusive as de menor interesse, como era esta agora descrita.

Um abraço,
Mário Pinto
Fur Mil At Art
____________
Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

Guiné 63/74 - P5790: Estórias avulsas (74): Porque rapei o meu bigode (Jorge Teixeira/Portojo)

1. Mensagem de Jorge Teixeira (Portojo)* (ex-Fur Mil do Pelotão de Canhões S/R 2054, Catió, 1968/70), com data de 6 de Fevereiro de 2010:

Carlos
Se achares que deves publicar, siga
Um abraço do
Jorge Portojo


Porque rapei o meu bigode ou as meias palavras do meu Comandante Mário Belo de Carvalho

Catió, Junho ou Julho de 1969. As datas precisas fugiram-se-me.

O Comando do sector, da responsibilidade do senhor TCor Mário Belo de Carvalho, Comandante do BART 2865, com cerca de 5/6 meses de mato, foi visitado pelo senhor General Spínola.

Formados na parada para receber Sua Excelência, logo ali ficamos com a impressão de que algo ia acontecer de mau. Na realidade, algum tempo depois, o senhor TCorn Belo de Carvalho levou uma porrada e saiu para Bissau. A opinião da tropa bandalha, (leia-se: soldados, cabos e furrieis milicianos) foi que o Segundo Comandante, Major e posteriormente TCor Melo Machado (de quem ninguem gostava e ainda hoje assim alguns pensamos), tinha ajudado a colocar os patins ao nosso Comandante. Os motivos, nunca soubemos

Acontece que este senhor nunca foi pessoa bem vista entre a rapaziada, contrariamente ao Comandante Belo de Carvalho. Um cavalheiro, que dirigia a palavra a toda a rapaziada, jogava a bola connosco, pessoa bastante humana.
Portanto, Catió andava com os nervos à flor da pele. O meu Pelotão que era apenas adido para efeitos operacionais, de alimentação e alojamento, também sentiu o efeito. Creio que o meu alferes Comandante do Pelotão nesta altura estava de férias e nunca trocamos qualquer palavra sobre o assunto.


TCor Art Mário Belo de Carvalho - BART 2865

Em Julho, durante uma flagelação à unidade e população, (não lembro o dia porque passaram a ser frequentes e aí o calendário acabou) ou já estava fora ou saí para reforço de segurança no exterior. O Pelotão foi esquecido e não recebemos ordem de regressar. Quando clareou o dia dei ordem para regressar e formei o Pelotão em frente ao Comando. Quis saber porque fiquei sem comunicações durante toda a noite. A central tinha-me dito que todos se foram deitar e não poderiam entregar qualquer mensagem aos comandos a não ser assuntos urgentes.

O senhor Comandante Belo de Carvalho recebeu-me, já não me lembro muito bem da conversa que tivemos, mas duas coisas eu lembro: perguntou-me quem tinha dado ordem para regressarmos e quem deu autorização para eu usar bigode. Respondi-lhe que ninguém, às duas perguntas. Mandou-me destroçar o Pelotão. De imediato, dirigi-me aos lavabos e cortei o meu apendice piloso. Com um desgosto grande, pois os meus pais gostavam de mer ver com ele.

Em seguida entrei no Comando e pedi autorização para ser recebido pelo nosso Comandante. Fui aceite e então fiz talvez a minha apresentação mais solene desde sempre: om batimento de pés e pala como era norma:

- Apresenta-se a V.Ex.ª o Furriel Miliciano Jorge Teixeira do Pelotão de Canhões Sem Recuo 2054 com o bigode cortado.

Sorriso daquele homem, mas logo sério. Em sentido, está apresentado, pode retirar-se.

Porquê esta conversa toda, só para falar do meu bigode rapado? É que tudo tem uma razão. Ele que tantas vezes me viu de bigode, nunca fez qualquer observação. A situação em que se encontrava, a negligência do comando com o pessoal, etc. talvez a única coisa de que se lembrou foi de me dar uma "ripeirada".

Quando estive em Bissau, antes de ser internado no HM, já em Setembro, soube que ele estava de "castigo", aguardando ordens para regressar à Metrópole, numa daquelas casas dentro do Quartel General, à esquerda de quem entrava. Fui visitá-lo. Não me lembro minimamente do que falamos. Sei que o olhar do homem era vago, triste. Presumo que para um militar de carreira o pior que lhe poderia acontecer era ser recambiado para casa.
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 1 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5741: Blogoterapia (142): Aquela janela virada para o heliporto (Jorge Teixeira/Portojo)

Vd. último poste da série de 29 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5727: Estórias avulsas (73): A Fonte Pública de Mansambo (Carlos Marques dos Santos)

Guiné 63/74 - P5789: História de vida (19): Um retornado que pagou para ver: Angola, 1961-1974... (António Rosinha)


Angola > s/d > Foto da Estrada da Leba, nas serra da Chela,  na cidade do Lubango (Sá da Bandeira).

Esta obra admirável foi projectada por um engenheiro angolano,  de nome João Campinos, que foi meu director. Em geral todos os meus colegas que trabalharam nessa obra eram angolanos, e na sua maioria vieram para cá, uns,  e outros para o Brasil.


Faziam parte de milhares que juravam que jamais sairiam de Angola, terra deles, tão angolanos como os  Pepetelas, os Lúcios Laras, os Luandinos Vieiras, os Ouros Negros, os Ruis Romanos...isto para falar de gente notória.


A maioria foi para o Brasil, Canadá, etc. Esta gente, muitos milhares, eram de um valor enorme. Quem perdeu não foram eles, foi Angola e Portugal. Quando digo que vivi anos maravilhosos em Angola, foi porque convivi com gente maravilhosa, desde o autor desta obra até aos sobas da Huila (Sá da Bandeira).

Foto (e legenda): ©  António Rosinha (2010). Direitos reservados


1. Texto de António Rosinha, com data de 6 do corrente:

Assunto: Uma passagem por Angola

A GUERRA QUE POR UM TRIZ PODIA NÃO TER ACONTECIDO
ou ... UM RETORNADO QUE PAGOU PARA ASSISTIR A TUDO
(Ao José Brás, para complementar...)(**)

Em 1961 quando a UPA [, União dos Povos de Angola,] fez os massacres (actos de terrorismo) do norte de Angola, provocou a tal frase do Salazar: "para Angola [rapidamente, e] em força", isto mais ou menos. Como não recorro a estudos, só falo do que assisti e ouvi, posso trocar alguns termos históricos mas o sentido é fiel ao que se passou.

Se não fosse a decisão tão rápida do Salazar, provavelmente não teria havido esta guerra em que todos neste blog participámos. Teria havido outras guerras, mas esta não. Digo isto porque já estava muita gente (brancos, de cá e de lá) a fazer as malas para dar à sola. E muita gente cavou.

E, se a mobilização provocada pelo Salazar demorasse mais uns dias, só ficavam aqueles que não tivessem dinheiro para a passagem, e alguns dos que nasceram lá.

Ou seja, acontecia o que se viu com os vizinhos belgas, e com os retornados em 1974. E tal como aconteceu, após a fuga dos belgas e como aconteceu com a fuga dos portugueses, começou num e noutro território a caça ao tesouro. Para mim, foi a guerra que se seguiu no ex-Congo belga e em Angola. Caça ao tesouro, só e mais nada, porque essa do MPLA ser de uma ideologia e os outros de outra, e Lumumba ser de uma ideologia e Mobutu de outra, assim como essa da conversa da libertação dos povos, tudo isso resumia-se a diamantes, petróleo, ferro, manganês e...território. (seguiu-se uma guerra internacional de 27 anos).

E, se em 1961 a debandada se concretizasse, como os americanos pensavam (Kenedy e as missões evangelistas), ao ajudar e financiar a UPA, será que o Salazar lançaria aquela ordem Para Angola [rapidamente, e] em força? Sem portugueses em Angola, duvido que Salazar reagisse como reagiu.

Mas mesmo com a chegada dos primeiros navios com caçadores de camuflado ( Cuanza, Vera Cruz) a Luanda, que eu vi desfilar na marginal, eu já fardado de furriel, ainda havia muita gente desanimado e indeciso "vai não vai". Eu era um, tanto mais que sabia que nem armas de jeito havia nos quartés.

E essa gente indecisa que resolveu ficar, ficou por um motivo que nunca vejo explicado, nem por militares nem por retornados, nem por esses novos historiadores tipo Joaquins Furtados. Esse motivo, foi mais uma decisão rápida do Salazar, que arrumou com a malta toda do vai não vai.

Num piscar de olhos, aquela cabeça [, Salazar, ] decidiu que o dinheiro dos angolanos em que 1000$00 equivalia em Lisboa a 900$00, passou a valor de 0,00$00. Zero vírgula zero, zero. Ou seja, ficámos todos tesos de um momento para o outro. E quem estava indeciso esperou para ver, não tinha outro remédio. E é sabido que o emigrante português tem vergonha de regressar sem dinheiro.

Angola > 1961 > Desfile de tropas > O Rosinha, furriel miliciano aparece aqui em primeiro plano, assinalado com um X. Repare-se no tipo de armamento das NT: pistola-metralhadora FP, para os graduados; espingarda Mauser, para as praças...Farda: caqui amarelo... (LG)

Foto: © António Rosinha (2006). Direitos reservados


Pessoalmente, como antes da guerra já trabalhava em cartografia em Angola, fazia exactamente os mapas iguais aos da Guiné do Blog, eu mais uns cento e tal colegas, muitos eram angolanos de várias cores, uns dos Serviços Geográficos outros de empresas privadas, continuei, a seguir ao serviço militar , na mesma actividade de barraca de campanha e aparelhagem às costas (às costas dos pretos descalços, contratados, semi-nus...Ouvi declamar Agostinho Neto e Castro Alves em comícios de Abril), por montes e vales, Cuanzas, Cunenes e Zaires... Mais tarde deixei os mapas e passei à Junta Autónoma de Estradas, novamente com ajuda do trabalho braçal dos contratados pretos, (com machados e catanas, de tronco nu, a transpirar e sem desodorizante...).

E a guerra continuava e os barcos e aviões iam e vinham cheios de militares, e muitos, inclusive um capitão metropolitano que me comandou, dizia, que estava naquela guerra, porque nós, os brancos de Angola, tratávamos mal os pretos, por isso eles se revoltaram. Esse capitão, em 1961, via a guerra dessa maneira."Estava a guardar as minhas costas". Esse capitão que andará pelos 80 anos hoje, chama-se se a memória não falha, Silva e Souza, e esta conversa dele para mim, foi entre Golungo Alto e Cerca, em Julho ou Agosto de 1961 (este pormenor é para ver se haverá feed back), pois a partir da minha idade, 71, há poucos internautas.

Os capitães eram maus para mim, sujaram-me a caderneta militar por duas vezes porque no periodo de manhã nunca chegava às 8 horas ao quartel. Por duas vezes, para fugir dos capitães maus, ofereci-me voluntário para zonas de intervenção. Ameaçavam que para a próxima ia para prisão.

Luanda era a minha desgraça. Não conseguia cumprir. Custou-me mais o quartel em 36 meses e a farda, do que certos isolamentos de semanas seguidas sem ver cidades de branco e a comer mandioca e caça ou batata doce.

QUAL A ALTERNATIVA À GUERRA ?

Agora, passados estes anos, todos têm a sua própria solução, tanto quem foi para a França, ou Moscovo ou Argel, como quem viveu a guerra, como quem viveu a paz e a guerra.

A maioria acha que deviamos fazer o que fez a Inglaterra ou a França. É raro dizer que se devia imitar a Bélgica (abandono e a ONU e outros que resolvam).

Pode haver muitos que sabem o que fizeram esses paises, mas sei que há muita gente que não sabe.

Mas havia um herói Guineense que sabia muito bem o que fizeram; esse herói é Amilcar Cabral. E escreveu. E eu dou-lhe razão. Segundo Amilcar Cabral, Salazar nunca vai negociar a Independência das colónias, porque sabe que não tem força para manter o neo-colonialismo.

Em geral todos sabemos que a Inglaterra e a França, tinham (têm?) tropas permanentemente em acção na protecção aos diversos dirigentes que apoiavam, ou no derrube de outros. É célebre na literatura a Legião Francesa. O Amilcar refere-se e critica muitas vezes os países africanos em que acontece isso.

Mas, para aqueles que vivíamos em Angola, não era apenas essa certeza do Amílcar que não tinhamos força para manter o neocolonialismo, como por exemplo aconteceu com o Congo Belga em que os belgas também não tiveram força para proteger nenhum regime, pois foi primeiro a União Soviética, depois a França, depois os Estados Unidos: Lembram-se de figuras como Lumumba, Kasavuvu, e Mobutu ? Havia outros, mas eu nunca fui especialista, para mim era tudo farinha do mesmo saco. Ninguém quid saber do povo, nem mesmo a ONU teve comportamento decente.

Para Portugal, ia ser pior, visto por quem vivia lá, se se negociase fosse com quem fosse, ou se se desse sinal de baixar a guarda e algum daqueles Chefes de movimentos desse um passo em frente, esse alguém era imediatamente trucidado, ficava tudo a ferro e fogo, e a intervenção internacional ia ser mais selvagem e brutal do que foi os 27 anos a seguir ao 25 de Abril, e não creio que aquelas fronteiras (uma recta no sul tem 400 Klm), resistissem 24 horas.

A Guiné, todos sabemos com o que se passa em Casamansa / Senegal...já viram qual era a solução! Em 1998 esteve quase. E com o Sekou Touré tambem sabemos o que ele sempre pensou sobre as Guinés!

Sobre Angola e Moçambique era simplesmente uma justificação igual à do mapa côr de rosa. Os portugueses não ocupam, abandonam, então ocupamos nós... Mas nós, quem? Em 1961 em plena guerra fria, não ficava pedra sobre pedra. E, ainda havia a interioridade de certos paises anglófonos e francófonos que nunca viram com bons olhos aquelas paredes Angola e Moçambique.

ENTÃO COMO FICAMOS? GUERRA OU ABANDONO?


Partindo do princípio que em África nenhum dirigente se impôs sem protecção, (neocolonialismo? protecionismo?), e Amílcar tinha razão que nós não tinhamos força par proteger ninguém, (nem fronteiras, nem a língua, digo eu), penso que a guerra que suportámos, só deve ser julgada se foi esticada demais e devia terminar mais cedo, ou até se devia, no caso de Angola, ter mantido a força e a displina militar e não ter dado espaço aos russos e americanos e sul-africanos e cubanos terem feito aquela desgraça toda.

Os Movimentos deram espaço e tempo para nos organizarmos melhor. Eu pessoalmente tratei da minha saída , e ainda tive que meter cunhas para pedir a demissão do serviço, cunha para a PIDE (PIM) me dar o visto no passaporte, trocar algum dinheiro na tropa (25%), para ir para o Brasil em Novembro de 1974 e a independência, com pontes aéreas, salteadores, assassinatos gratuitos...cubanos e sul-africanos, navios de guerra ao largo, em Novembro de 1975. 25A 1974 - Nov75 = 19 meses. Era tempo suficiente, mas nós, somos nós!

Para mim, que vi a desorganização nossa no início da guerra, os oficiais não se entendiam nem sabiam o que fazer, sem armas, sem disciplina, era tudo por improvisações, até falta de fardas e calçado se fazia sentir, tal a desorientação. Sargentos idosos a chorar, para que nós, os novos, fossemos para o norte porque eles tinham filhos para criar. Nós, os novos, no meu caso tinham feito na carreira de tiro meia dúzia de tiros de Mauser e FBP.

Como depois tornei a ver a desorganização do fim da guerra, com oficiais a puxar cada um para seu lado, que se pode chamar que houve falta de respeito para com eles próprios, como assisti portanto ao princípio e ao fim, penso que fizemos a guerra que estava ao nosso alcance, mas que tinha que ser feita, sim.

E que, à parte as políticas, quem fez esta guerra fomos nós os portugueses, o Salazar era português, o Spinola era português, Salgueiro Maia era português, que se fez de bom ou mau, fomos nós, os portugueses que fizemos esta guerra.

E, em respeito a todos os amigos e conhecidos que morreram, e em memória de muitos amigos angolanos, com quem vivi, e que trabalhamos, lutamos e nos divertimos em português, só quero que aquelas fronteiras e a lingua portuguesa não desapareçam.

Pois sem esta guerra, em que tantos morreram, aquelas fronteiras e a lingua portuguesa tinham desaparecido em 1961.


EM PORTUGUÊS,

Retornado = portuga que foi e regressou;

Entornado = são os que nasceram lá e vieram, mas querem diferenciação. (blogs diversos)

Os portugueses discriminam os pretos, só se vêm a limpar o lixo, a trabalhar nas obras, mas nenhum é ministro (Bonga na TV).

Os portugueses não fizeram nada no Brasil, só exploraram o índio (Caetano Veloso, jornais);

O mulato quando é pobre é preto, quando é rico é branco (calcinhas de Luanda, antigamente);

O Brasil seria melhor se fosse Holandês? Espanhol? ( debate na TV Globo, Rio, após 154 anos de independência);

Os Angolanos não são valentes como nós (pioneiros do PAIGC, Bissau).

EM PORTUGUÊS A GENTE SE ENTENDE!... E ISSO É O ESSENCIAL.

Um abraço para todos,

Antº Rosinha

[ Revisão / fixação de texto / bold / título: L.G.]

_______________

Notas de L.G.:

(*) Vd. último poste do António Rosinha > 31 de Janeiro de 2010> Guiné 63/74 - P5739: Efemérides (42): Dia 25 de Maio de 2009, finalmente inaugurada a estátua de Amílcar Cabral na Guiné-Bissau (António Rosinha)

Viveu em Angola, onde cumpriu o serviço militar, foi Fur Mil em 1961; topógrafo na TECNIL, na Guiné-Bissau, entre 1979/93. É membro, de pleno direito, do nosso blogue desde Novembro de 2006.



(**) O José Brás comentou o texto do António Rosinha que lhe foi enviado directamente. Esse texto será publicado, oportunamente, noutro poste.

Guiné 63/74 - P5788: História de vida (18): D. Berta e a Pensão Central de Bissau são instituições internacionais (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Fevereiro de 2010:

Queridos amigos,
Devíamos pedir uma elevada condecoração (pelo menos a do Infante D. Henrique!) para a D. Berta, dados os relevantíssimos serviços prestados ao bem-estar dos portugueses e ao que ela tem feito para manter ao mais alto nível a cordialidade luso-guineense.
Aqui vos deixo, em fotomaton, o meu estado de espírito acerca da D. Berta.

Um abraço do
Mário


D. Berta, tenho tantas saudades suas!

Beja Santos

Escreve uma pessoa um livro intitulado “Mindjer Garandi” e nem se interroga que informações existem sobre a expressão, confia cegamente no que viu e ouviu, no que perguntou e no que consta em alguns papéis. Ora a era digital abriu portas para que se saiba mais e depressa. Por descargo de consciência, fui ao Google onde, entre as consultas possíveis, vi “Pensão D. Berta Bissau”. Foi um estremeção da cabeça aos pés, não sei se choque fotovoltaico ou electromagnético, apareceu-me a D. Berta, o seu eterno sorriso maroto e meigo. A D. Berta e a sua pensão são instituições internacionais, unem continentes, são pessoa acolhedora e espaço residencial único, há décadas.

A D. Berta entrou na minha vida quando casei, em Abril de 1970, em Bissau. Passámos uns dias em casa dos meus padrinho Elzira e Emílio Rosa, a seguir a alguns dias no Grande Hotel, a pretexto da chegada de personalidades, fui avisado quase em cima da hora que tínhamos de sair no dia seguinte. No meio da perplexidade, alguém me recomendou: “Olha, vamos daqui até à Pensão Central, é ali ao lado da Catedral, é certo e seguro que a D. Berta vai desenrascar a situação”. E desenrascou mesmo.

Para quem não sabe, a Pensão Central resistiu à guerra de 1963-1974, este sempre acima de todos os golpes de Estado, guerras civis e estados de sítio. Mesmo quando houve escassez de alimentos, o elementar não faltava na Pensão Central. Com a independência, a Pensão Central tornou-se um espaço de livre-trânsito para todos os cooperantes. Quando ali aterrei em 1991, tanto podia almoçar com holandeses ligados a projectos de saneamento de água em Canchungo como peritos do Banco de Investimentos de África, como jantar com os portugueses da Medicina Tropical ou italianos do Fundo Monetário Internacional. Naquele tempo ainda era possível atravessar meia Bissau a pé à noite, despedia-me da D. Berta e rumava para as instalações da CICER, era uma bela passeata de quase dois quilómetros.

A D. Berta nunca me saiu do coração, estou em crer que nunca saiu de ninguém que comeu ou dormiu naquela pensão. Uma vez, já em Dezembro de 1991, estava eu desesperado com a inércia a que chegara o projecto que me levara à Guiné (criação de uma comissão interministerial de defesa do consumidor, havia decisão do presidente Nino Vieira, o ministro Carlos Borrego criara uma linha de financiamento para as instalações, eu conseguira encontrar uma técnica para coordenar a comissão com o perfil adequado, mas nada mexia, as nomeações não se faziam, não era possível obter a concordância para o início das obras das instalações, sitas no antigo Quartel General), e a D. Berta vendo-me à varanda abatido, chegou ao pé de mim e com voz consoladora, disse-me: “Vá lá, pense na Guiné, que o trouxe cá de novo, pense no bem da nossa gente, o que não sair perfeito hoje dar-lhe-á saudades para voltar mais tarde...”. E o meu estado de espírito mudou. Infelizmente, nada avançou, fizeram-se ainda uns programas televisivos, creio que tudo caiu no olvido.

A D. Berta era tida como uma santa, alegrou a vida de muita gente, transformou o espaço anónimo de uma pensão numa casa de vínculos perduráveis. Só espero que alguém transmita à D. Berta que eu estou pronto para voltar, receber dela um beijinho, sentar-me à varanda, ouvir os sinos da Catedral, o bulício da Avenida Amílcar Cabral, sentir os cheiros do velho mercado, talvez a maresia que vem lá debaixo, do Pidjiquiti. Então, vou fechar os olhos e regressar a 1970, ali a dois passos vou ver entrar alguém que me irá falar num massacre que ocorreu nesse dia no chão manjaco, subo até ao cinema da UDIB, o passeio findará no Museu e no Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, onde juntei tantos elementos para os meus livros. Depois abro os olhos, vou sorrir para a D. Berta e dizer-lhe como ela está sempre bonita, ninguém com aquele sorriso poderá envelhecer ou ser esquecido. E, claro está, iremos conversar, ela vai querer saber o que vim fazer à Guiné. Tenho quase a certeza que a vou emocionar com a Viagem do Tangomau. Nada poderá ser impossível para a D. Berta, mesmo ter um tangomau como hóspede...





Fotos retiradas das páginas http://pensaodbertabissau.wordpress.com/ e http://afric-ana.blogspot.com/2008/04/d-berta.html com a devida vénia
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de 8 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5777: Notas de leitura (64): Já participamos nos romances dos outros - A Lucidez do Amor, de Tânia Ganho (Beja Santos)

Vd. último poste da série de 30 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5733: História de vida (17): António Marques, ex-Fur Mil At Inf, CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71), um sobrevivente nato (Mário Miguéis / Luís Graça)

Guiné 63/74 - P5787: Memórias e histórias minhas (José da Câmara) (12): Bissau, uma guerra diferente onde os rumores também voavam

1. Mensagem de José da Câmara (ex-Fur Mil da CCAÇ 3327 e Pel Caç Nat 56, Guiné, 1971/73), com data de 5 de Fevereiro de 2010:

Caro amigo Carlos Vinhal,
Em devido tempo deixei-te saber que tinha uns cavalinhos, à solta, no meu companheiro de muitos anos. Infelizmente, tive que me separar dele por algum tempo, e acabei por arranjar mais um companheiro.
Pior que tudo isso foi saber que, por falta de trabalho (e dou-te algum) o valor das tuas comissões baixaram bastante. Lamento!

Não poder dar o meu passeio diário pelo blogue também pesa na minha consciência. Mas tudo está bem quando acaba bem, e cá estou a contribuir com mais um história simples para a série "Memórias e histórias minhas".

Para ti e para todos os camaradas um braço muito quente do
José Câmara



Bissau: uma guerra diferente onde os rumores também voavam

Várias vezes referi que a disciplina imposta pelo comandante do AGRBIS, o excesso de trabalho, o serviço ao Hospital Militar 241 e à sua morgue, e as Guardas de Honra Fúnebres no cemitério de Bissau como sendo os componentes que mais afectaram, psicologicamente, a nossa estada em Bissau.

Houve também outros factores que, pela sua importância contribuíram para o abalo mental que, desde cedo, se começou a sentir no seio da Companhia. Refiro-me aos rumores que, desde o dia em que chegámos à Guiné, voavam em todas os sentidos, e que nos davam como certos nos lugares mais díspares do TO da Guiné. As zonas de Pirada e Aldeia Formosa eram os lugares mais visados como áreas de colocação. Buruntuma também tinha os seus adeptos. Eram zonas míticas e difíceis.

O Comandante da Companhia, Cap Mil Art Rogério Rebocho Alves, bem se esforçava para dissipar os rumores. Dizia ele que nada sabia, pois não tinha sido informado. E a verdade é que não sabia mesmo, e os seus esforços acabaram por não surtirem o efeito desejado, que era o de estabilizar o estado emocional dos soldados.

A presença de um simples facto veio alterar, sobremaneira, todo o panorama dos rumores que passou a certezas entre os soldados da Companhia. A zona de Pirada era (para eles) o nosso destino. Sobre isso escrevi à minha madrinha de guerra o seguinte:


Carta de 25 de Fevereiro de 1971:

"Disse, em carta anterior, que no dia 19 de Fevereiro iria para o Destacamento de Nhacra ou Dugal, numa fase de adaptação. Tal não aconteceu. Outro Pelotão é que foi para lá. Assim, continuo em Brá e com o mesmo serviço.
Deve estar perto a ida para o mato. Pelo menos a Companhia que nos vem render, em Brá, está prestes a chegar. O 1.° Sargento daquela Companhia já veio instalar a Secretaria. Portanto, mais dia, menos dia, nós vamos de abalada para o mato. Não sei o sítio mas, segundo se diz, vamos para perto de Pirada."


A presença daquele 1.° Sargento foi como um bálsamo para a sanidade mental de grande parte dos elementos da CCaç 3327. O que os soldados queriam era sair daquele inferno chamado AGRBIS. E com razões de sobra.

Os rumores cessaram, e até o lugar para onde iríamos deixou de ter importância.


Aerograma de 7 de Março de 1971:

"O meu trabalho continua a desenrolar-se normalmente, não havendo nada de especial a referir. Continuamos sem saber quando iremos para o mato, nem para onde. Tudo continua no maior silêncio."

A verdade é que os dias foram-se passando. E, com eles, o descontentamento começava a apoderar-se, mais uma vez, dos soldados. Nós, a maioria dos graduados compreendíamos que a nossa guerra em Bissau era diferente, e que o perigo dos tiros era quase nulo. Mas seria isso o suficiente para apaziguar os sacrifícios desenvolvidos? A minha madrinha de guerra era a única pessoa que sabia o que me ia na alma.


Aerograma de 27 de Março de 1971:

"A vida na Guiné continua a mesma coisa, isto é, sem alterações.

Quanto à nossa situação devo dizer-te que a malta
(deveria estar a referir-me aos soldados) está para pedir ao nosso Capião para irmos para o mato. É que toda a gente está a ficar estoirada, fraca e sem vontade própria.

Para já, estive 48 horas seguidas de serviço e não gostei nada. Agora soldados que andam há um mês e tal sem descanso, como não devem estar? Dormem aos bocadinhos, andam quilómetros e quilómetros, dia e noite sob este calor tórrido. Enfim, isto para eles é um verdadeiro inferno. Eu, comparado com eles, estou no céu, acredita. Eu tive muita sorte no meio de toda esta miséria.

É certo que estamos numa zona onde não há tiros, nem barulhos. Mas pergunto eu:

- Valerá a pena tamanho sacrifício?"


Da esquerda para a direita: o Soldado Condutor Auto João Valadão (já falecido), Fur Mil José Câmara, o guineense chefe dos serviços da lavandaria do Palácio, e o Soldado João Avelar Ventura

Entretanto mais alguns dias se passaram. Era normal encaixar 48 horas seguidas de serviço: Sargento da Guarda ao Palácio e Sargento do Dia à Companhia. Normal não era fazer 72 horas seguidas. Mas acontecia, se havia impedimento de algum dos outros furriéis a qualquer serviço de escala. Na carta que escrevi à minha madrinha de guerra não faço nenhuma referência à nossa ida para o mato.


Carta de 1 de Abril de 1971:

"Há 72 horas que me encontro de serviço. Aborrecido como sempre... Ontem a coisa esteve feia, pois os soldados tentaram fazer um levantamento de rancho" - (já fiz referência a este caso, pelo que é descabido mencioná-lo outra vez).
Esta carta acaba abruptamente da seguinte forma:

"Desculpa a pequenez da carta. Mais tarde explicarei porquê".

A forma como termino a carta indica que algo de importante se passou. Nesse dia, tomámos conhecimento de que íamos, finalmente, ser rendidos em Bissau e que seguiríamos para o mato a 6 de Abril.

A Companhia de Caçadores 3327 iria assumir o estatuto de Companhia de Intervenção ao serviço do CAOP1, com sede em Teixeira Pinto. A sua missão principal seria proteger a nova estrada que estava a ser construíada entre Teixeira Pinto e Cacheu.

A Mata dos Madeiros era o nosso destino.

José Câmara
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 31 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5571: Votos de Feliz Natal 2009 e Bom Novo Ano 2010 (27): O Pai Natal das minhas netas encheu-me o sapatinho (José da Câmara)

Vd. último poste da série de 20 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5508: Memórias e histórias minhas (José da Câmara) (11): Esta água tem pouco vinho

Guiné 63/74 - P5786: Os ex-militares sem abrigo não têm acesso ao Lar Militar de Runa (Hugo Guerra)

1. Em mensagem do dia 4 de Fevereiro de 2010, o nosso camarada Hugo Guerra* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 55 e Pel Caç Nat 60, Gandembel, Ponte Balana, Chamarra e S. Domingos, 1968/70, e que hoje é Coronel, DFA, na reforma), enviou-nos este esclarecimento a propósito do poste Guiné 63/74 - P5734: Ser solidário (53): Que muitas Runas se levantem (José Martins) :


Caros Editores e camaradas
Não consegui enviar uma mensagem para o Poste do José Martins sobre o assunto do Lar de Runa e do apoio a camaradas sem-abrigo de modo que, tomo a liberdade de esclarecer alguns pontos que me parecem importantes. Vocês dirão.

O Lar Militar de Runa é uma estrutura do Ministério da Defesa entregue ao IASFA (Instituto de Acção Social das Forças Armadas) fazendo parte do conjunto de Messes desse Instituto e serve exclusivamente para a “Família Militar”. Os Governos estão-se nas tintas para a vontade dos fundadores e dispõem a seu belo prazer ou interesse imediato, de tudo a que podem deitar a mão. Logo, os nossos camaradas sem-abrigo que não podem ser beneficiários, por não serem militares ou DFA’s não têm acesso ao mesmo.

Todavia e, por outro lado, todos podem ser assistidos pela Liga dos Combatentes que em boa hora criou e está a desenvolver no terreno um projecto de apoio a estes camaradas, o qual passa por despistagem e apoio concreto em termos de consultas e alimentação, preparando-se agora para a Criação de Residências Assistidas, tendo até criado uma conta bancária para este efeito.
Tudo isto pode ser visto no site da Liga dos Combatentes pelo que não me alargo com mais explicações.

Só me custa, é ver que quando isto estiver a funcionar em pleno, já estaremos todos a fazer tijolo, passe a expressão, e mais uma vez iremos ver que, de boas vontades está o inferno cheio.

Quero com este arrazoado dizer que, havendo este trabalho a ser desenvolvido não me parece curial estarmos a tomar iniciativas paralelas com eventual desperdício de boas vontades, tempo e dinheiro. Seria talvez mais ajustado apoiar o trabalho já desenvolvido e pressionar, se for o caso, a Liga para dar resposta em tempo útil e as residências não virem a dar resposta a ex-combatentes de uma próxima estúpida guerra.

Hugo Guerra
__________

(*) Vd. poste de 27 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4255: Parabéns a você (6): Hugo Guerra, o homem que foi evacuado duas vezes e meia, faz hoje anos (Editores)

Guiné 63/74 - P5785: Blogando e andando (José Eduardo Oliveira) (3): O PREC na Baía

1. Texo de José Eduardo Oliveira (JERO) (ex-Fur Mil da CCAÇ 675, Binta, 1964/66), enviado ao Blogue em mensagem de 4 de Fevereiro de 2010:


O PREC na Baía

Estava casado há cerca de 5 anos e passava as férias do mês de Agosto em São Martinho do Porto em pleno zona “aristocrática”.
Não por “casta” mas tão só e simplesmente por a minha mulher ter sido criada na vila e ter andado na escola primária com a banheira que alugava as barracas no sítio mais chique do “baía das marquesas”.



A minha barraca era na oitava fila a contar da entrada principal da praia e a primeira da fila dos “paus encarnados”.
Percebia nitidamente que os vizinhos estranhavam que eu tivesse “direito” a estar por ali e aturei muitas faltas de educação dos meninos chamados “ricos” mas “pobres”... no que respeita a educaço. É dos livros que... não se pode ter tudo.

Nas barracas vizinhas da minha discutiam-se longamente as “mãos” dos jogos de bridge da noite anterior.
Eram famílias da zonas do Ribatejo e do Alentejo.
Além do bridge começou-se a falar insistentemente nas ocupações das herdades do Alentejo e algumas famílias começaram a faltar aos banhos.

Regressavam dias depois e falavam em voz alta das ocupações selvagens das suas “coisas”.
Os tempos eram de incerteza e lembra-me da importância que tinha a chegada dos jornais à vila.

O “Jornal Novo”, fundado por Artur Portela Filho, era disputado até ao último exemplar.
A sua leitura transmitia alguma paz aos que sentiam a “onda vermelha” não parava de crescer. Que subia na maré alta... e não descia na maré baixa...
Escreviam no “Jornal Novo” nomes consagrados do jornalismo português, como José Sasportes, Mário Bettencourt Resendes, Luís Paixão Martins, Carlos Pinto Coelho, António Mega Ferreira, Teresa de Sousa, Alexandre Pais, e outros.
Era de facto o momento mais esperado do dia de praia.

Mais que tomar banho nas águas tépidas de São Martinho do Porto havia que “mergulhar” nas páginas do jornal de Artur Portela Filho.

Foi um longo mês de Agosto.

Lembro-me particularmente da noite do dia 18 de Agosto de 1975.
Nessa noite foi transmitido para todo o País o “Discurso de Almada”, de Vasco Gonçalves.
Ouvi uma parte em casa e, antes do seu final, saí para a rua.
Vim arejar ideias... mas os gritos do “Camarada Vasco” continuavam no ar... a perseguir-me.

Passei por alguns carros com pessoas lá dentro que ouviam pela rádio o “discurso de Almada”. Tinham um ar assustado.
A trinta cinco anos de distância não esqueço jamais o silêncio daquela noite de 18 de Agosto de 1975.
Quase que não se via ninguém nas ruas e o silêncio opressivo que se “ouvia” tinha um cheiro que não vinha do mar.
Vinha da terra e cheirava a medo...

Quem me havia de dizer que muitos anos mais tarde iria blogar sobre o PREC da Baía.

Enfim…modernices!
JERO
__________

(*) Vd. poste de 2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5746: Convívios (178): 1.º Encontro da Tertúlia do Centro 2 (José Eduardo Oliveira/JERO)

Vd. último poste da série de 5 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5054: Blogando e andando (José Eduardo Oliveira) (2): Ponte para o regresso

Guiné 63/74 - P5784: Viagem à volta das minhas memórias (Luís Faria) (25): O Puto não me largava

1. Mensagem de Luís Faria (ex-Fur Mil Inf MA da CCAÇ 2791, Bula e Teixeira Pinto, 1970/72), com data de 3 de Fevereiro de 2010:

Amigo Vinhal
Para continuidade, segue outro capítulo de “Viagem…” que espero possa minimamente transmitir a quem o ler, um estado de espírito vivido, no mínimo confuso, criado por uma situação que não sei se teria sido muito comum aos Camaradas (gostaria de saber).

Um abraço para todos
Luís Faria


Viagem à volta das minhas memórias (25)

O “Puto“ não me largava

Ao amanhecer de 6 de Julho de 1971, apanhado pelo bafo quente e húmido que se me colou, desci a escada do Boeing que me trouxera das férias no Puto e dirigi-me, não recordo como, aos Adidos(?) para me apresentar e posteriormente dar umas voltas pela Bissau que até então só tinha pisado por breves momentos, aquando da chegada da Companhia à Guiné e por outros também escassos, quando apanhei o avião para ir de férias, um mês atrás.

A esperança tinha-me feito de certa forma interiorizar que iria passar uns diazitos no bem-bom de Bissau, à custa de um servicito ou outro e fico siderado quando me informam que tenho de me apresentar, nesse dia na 2791 FORÇA - Teixeira Pinto.

Não foram precisas estacas ou outros escolhos para, no meu cérebro e se calhar nos arredores também, se ouvirem os “uiuis” lancinantes provocados por “tamanha injustiça”! Então por que raio é que não tinha direito a uns tempitos no bem-bom, como todos os outros ou quase todos??!! Tinha acabado de chegar de férias. Que porra era aquela de me não darem sequer um tempito para me reambientar e recuperar do cansaço dispendido naqueles maravilhosos trinta e tal dias passados?! Puta de guerra que não tinha consideração por (quase) ninguém!

Aqui, a minha memória apaga-se não me deixando lembranças de qualquer espécie. Não recordo se cheguei a Teixeira Pinto de coluna motorizada, avioneta, barco... sendo que a pé seria difícil, convenhamos (!?). O facto é que lá cheguei.

A memória começa a reacender-se com algumas intermitências irritantes.

Madrugada de 7 de Julho de 71. O bi–grupo da FORÇA forma na Parada. Já acomodados, as viaturas arrancam. A ponte Alferes Nunes fica para trás e largam-nos algures na estrada para o Cacheu. É noite e os objectivos estão ainda distantes, assim como o amanhecer.

Segundo apontamentos, vamos em missão de intercepção e destruição a P.Teixeira, Balanguerez, Pijame (a que por inclusão, chamava Zona do Balanguerez), situadas a Oeste da estrada Teixeira Pinto – Cacheu.

Em progressão e na certa recorrendo como era norma aos azimutes, fomo-nos internando nas matas daquela zona belicosa, abrigados pelos “ponchos” de uma chuva que nos dificultava o andamento e ao mesmo tempo nos dava uma certa protecção. Entra a manhã e a penetração continua, ao que recordo sem problemas. Continuamos, com as cautelas devidas e com certeza a corta–mato, como nos era costumeiro proceder.

Era normal que, quando saiamos em bi–grupo (em Teixeira Pinto foi quase sempre, ainda que muitas vezes reduzido em elementos) ir só um Alferes e dois ou três Furriéis, alternando-se entre os graduados o comando na frente onde, - já tive ocasião de explicar em Poste passado - por pensarmos ser mais seguro, por norma um de nós ocupava o 1 ou 2 lugar durante as progressões. Era também usual que qualquer um de nós, em especial o Barros, Castro, Fontinha e eu próprio assumíssemos o comando e posicionamentos da rapaziada e nossos, independentemente das equipas (Secções), GCOMB ou até do Oficial a que se pertencesse. Estávamos “calhados” com o pessoal, em especial do 2.º e 4.º GCOMB. Estas trocas e baldrocas dependiam da avaliação que fazíamos das situação a cada momento.

Toda esta “orgânica”, talvez muito própria e suigéneris, descreverei em outra ocasião. O certo é que nos dávamos bem com este sistema e como resultava, não o abandonamos.

A caminhada continua, as horas avançam. Tiros… “nem vê-los”, nada!

A dada altura pela frente depara-se-nos um acampamento dissimulado no meio das árvores. O silêncio torna-se quase absoluto. Parece sem ninguém. Envolvemo-lo e... nada! Faz-se a inspecção, nada... abandonado mas varrido! Vamos “mamar” na certa!!! Queima-se e arrancamos. Nada e nenhum tiraço!? Admira-me! A tenção nervosa é grande.

Dou comigo de novo a divagar pelas férias acabadas há uma dúzia de horas e na merdice em que estou metido. As botas de couro, julgo que cubanas e apanhadas em P.Matar, vão-me levando na fila, acompanhando o pessoal como se fosse um autómato.

A tarde já vai alta e novo acampamento se nos depara pela frente. Tiros... nada! É vasculhado... apanham-se documentos e umas armas.

Preparamo-nos para queimar e reagrupar. Rebentam os tiros. Como um eco, ouço algo do género:

- Estão ali... os “cabrões” estão a uma dúzia de metros à nossa frente metidos naquelas árvores e vegetação. Não consigo descortinar nada, por muito que me esforce!

Ao som dos tiros e rebentamentos, pela minha cabeça recomeçam a desfilar com pouco controlo, imagens ganhas no “Puto” até umas horas antes. Lisboa perfila-se assim como o S. João no Porto e muitos daqueles bons momentos passados. O que se passa... o que é isto... onde estou... que porra de merda é esta... que faço aqui… ?

Reparo em alguma da rapaziada a ripostar, uns deitados ou aninhados, em pé outros. Vejo Castro a pegar na “bazooka” e o Cancelo de joelho no chão a enfiar a granada no 60 quase na vertical. Recordo o Augusto a despachar uma “Instalazza” em tiro directo e o Castanhas agarrado à HK com o Fatana a ajudar.

Estava concerteza a assistir a um “Green Berets”?!! Era isso... só podia!! Aquilo não estava a acontecer!? Era isso... estava no meio de uma sessão no cinema Batalha, pois claro!

Não conseguia ver nenhum “turra” e o filme do Puto desfilava com intermitências diante dos meus olhos, enquadrado por aquela sinfonia de S João! Digo ao pessoal que substituo a segurança à retaguarda e viro-me para trás, para o acampamento e assim fico, tentando afastar aquelas visões e concentrar—me ao máximo no que estava a fazer.

Os tiros amainam e acabam. O IN tinha-se pirado e não tínhamos tido problemas.

Na sua fuga, são avistados alguns elementos. O Barros pega no LG-foguete e despacha na direcção, ouvindo-se o rebentamento lá para longe, ineficaz.

O acampamento é queimado, a bicha de pirilau inicia sob o meu comando a marcha de regresso em direcção à estrada, onde pensávamos passar a noite e aguardar a recolha pela manhã. Minutos andados e o Puto continuava presente, desviando-me da concentração necessária. As portas de S. Pedro estavam escancaradas e os “ponchos” incómodos, proporcionavam um certo abrigo.

O Castro avança para frente e leva-nos a porto seguro. Pelo caminho são apanhados um homem e uma mulher sem armas, que virão a ser entregues para interrogatório.

A noite diluviana iria ser terrível de suportar!

Quartel Teixeira Pinto > Vista do lado da bolanha (creio)

Progressão > Elementos do 2.º GCOMB > Estrada velha Teixeira Pinto - Cacheu. Augusto em primeiro plano com o “Instalazza”

Acampamento temporário IN
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 14 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5463: Viagem à volta das minhas memórias (Luís Faria) (24): De volta à guerra, triste realidade

Guiné 63/74 - P5783: Convívios (181): 2.º Encontro da Tabanca do Centro, dia 26 de Fevereiro de 2010 em Monte Real (Joaquim Mexia Alves)


1. Mensagem Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Esp/RANGER da CART 3492, (Xitole/Ponte dos Fulas); Pel Caç Nat 52, (Ponte Rio Udunduma, Mato Cão) e CCAÇ 15 (Mansoa), 1971/73, com data de 5 de Fevereiro de 2010:

Caros camarigos editores da Tabanca Grande
Posso pedir-vos, enquanto o pessoal não se habitua a também frequentar o espaço da Tabanca do Centro que publiquem esta notícia/aviso?

Um abraço
JMA


Tabanca do Centro - http://www.tabancadocentro.blogspot.com/

Imagem do 1.º Encontro que contou com a presença do nosso camarada José Belo que se deslocou da Suécia expressamente para participar neste convívio.


O 2.º Encontro da Tabanca do Centro está agendado para dia 26 de Fevereiro, no mesmo local, Pensão Montanha em Monte Real, às 13 horas*.

A ementa desta vez será bacalhau assado na brasa, (não é a correr), com batatas a murro e migas.
Poderá muito bem ser que haja alguns mimos para entrada, e as sobremesas serão as habituais.
O valor mantém-se na enorme quantia de 8,50€!

Terei que receber as inscrições, de preferência para o mail tabanca.centro@gmail.com, o mais tardar até dia 24 de Fevereiro às 12 horas, pois o restaurante precisa de saber com o que conta.


Em Monte Real há diversos alojamentos para os que queiram ficar nessa noite ou fim-de-semana. Basta dizerem que eu arranjarei os preços.

É muito importante que até ao 2.º Encontro nos façam chegar ideias e sugestões como colocar em prática a ajuda aos ex-combatentes necessitados, bem como a angariação de fundos para esse efeito.

Coloca-se já algum valor sobre o almoço para começar a amealhar?
Por exemplo os tais 10,00€? Mais?

Não estou a “comandar”, estou a perguntar, a sugerir!

A colaborar na Tabanca do Centro estão já os camarigos Vasco da Gama, Juvenal Amado e o Miguel Pessoa como “outsider”, mas precisamos de mais gente.

Ficamos à espera das inscrições.

Muito grato, subscrevo-me camarigamente com um abraço
Joaquim Mexia Alves
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de 30 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5728: Convívios (177): 1.º Encontro da Tertúlia do Centro, aconteceu no dia 27 de Janeiro de 2010 em Monte Real

Vd. último poste da série de 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5759: Convívios (180): Operação Coruche no dia 30 de Janeiro de 2010 (José Manuel M. Dinis)

Guiné 63/74 - P5782: José Corceiro na CCAÇ 5 (3): A primeira saída para o mato (2ª parte)


1. O nosso Camarada José Corceiro* (ex-1.º Cabo TRMS, CCaç 5 - Gatos Pretos -, Canjadude, 1969/71), enviou-nos em 4 de Fevereiro de 2010, a 2ª parte das suas memórias da primeira saída para o mato, complementando assim a narração iniciada no poste P5745:
Camaradas,

É com agrado e estima que a vós me dirijo, com esta narrativa da “Primeira Saída Para o Mato, 2ª Parte”.

A todos os tertulianos, ou visitantes do “Blogue”, que se dão ao trabalho de ler este artigo, que o leiam com o espírito de quando, como nós, tinham 21 anos, se for possível.

Era a idade que eu tinha quando escrevi o substrato que deu origem a este relato, ao qual retirei algum colorido, ainda um miúdo (repito, com 21 anos), mas muito responsável, curioso e analítico, que amava valores muito distintos dos imbróglios belicistas.

Sentia que me estavam a mortificar e a ceifar os meus sonhos exequíveis, assistia ao desmoronar dos projectos que ordenadamente tinha idealizado e estava a construir, sentindo-me impotente para travar tamanha injustiça.

PRIMEIRA SAÍDA PARA O MATO - 2ª PARTE

Com tudo isto, ainda não disse nada na 1ª parte da minha primeira experiência de mato. Pois é, um belo dia devia ter saído às 07.00h para o mato, estava pronto a essa hora, mas não saí. Eu que estava impaciente de desejo e com ansiedade incontida, para vestir o meu camuflado novinho e descorá-lo no mato, para não me chamarem periquito e ficar todo catita. Não tive essa gratificação nesse dia. A “desculpa” que recebi (informação de caserna), foi que os padeiros se esqueceram de fazer o pão, para entregar com as rações de combate.

Mas, a excitação foi efémera, às 12.00h, o meu Furriel Martins, disse-me:
- Às 14.00h vai sair para o mato, pode ir levantar as rações de combate.

Toda a euforia da manhã, se desvaneceu, e às 14.00h, lá estava eu todo boneco, com camuflado sem mácula e sem engelhamentos, embaraçado, pois parecia ser a primeira vez doutros tempos, com postura algo estranha, que mais parecia estar com descoordenação de movimentos, as mãos desajeitadas e constrangidas, não comportavam tanta coisa como eu tinha para levar.

Era a sacola com coisas diversas (até ligadura de gaze hidrófila eu levava), a G3 que nem sabia ainda aconchegar, cartucheiras, cinturão, carregadores de munições, cantil da água, oleado para dormir, rede mosquiteira, rações de combate tipo E e a máquina fotográfica (a minha Olimpus Pen FT que levara da Metrópole), que ainda hoje guardo religiosamente. Tenho também uma Canon (que comprei na Guiné) e a minha inseparável agenda, para os registos de memorização imediata.

A máquina e a agenda eram as grandes prioridades e preocupação para mim, pois temia que a chuva as danificasse, embora estivessem protegidas com plásticos. Envolta em plástico ia também a folha A 4 (chave de autenticações), para validar comunicações de transmissões das diversas entidades e unidades envolvidas na operação.

Às 14.00h, ouvi o som do baquetear do “gongo”, o que achei estranho, pois julguei que fosse começar um filme. O “gongo” estava montado num tronco de palmeira espetado no chão, colocado junto à porta que fazia a ligação entre o aquartelamento e a Tabanca. Nada mais era do que um bidão cilíndrico, ao qual se extraiu uma das bases e que estava enfiado no topo de um tronco, que, por sua vez, estava espetado no chão. O som resultava de marteladas com uma baqueta, improvisada de um tubo metálico, no dito bidão.

Para mim tudo isto era inovação, pois não conhecia os sinais de chamamento, que se estavam a fazer ouvir: Booom, booom, booom, booom, booom, booom… intervalo… booom… intervalo… booom, booom… intervalo… booom, booom, booom… silêncio. Estas pancadas eram o código para chamar os 1º, 2º e 3º pelotões.

Não passaram dois minutos e já todos os militares que sabiam descodificar o sinal, acorreram apressados e desembaraçados, com os apetrechos necessários para cumprir a missão que lhes estava destinada. Vieram da Tabanca todos briosos, com aprumo e à vontade, e formaram, cada grupo no seu lugar, para os seus superiores os poderem contar. Depois foi dada a voz para as saltarem para as viaturas, e, logo de seguida, arrancamos.

Lá estava eu pronto, seguindo a orientação do Carvalho, tomei lugar na viatura de transmissões, que tinha um rádio instalado e na qual ia o Rogério.

As viaturas partiram intervaladas, na cabeça da coluna ia o capitão e em terceiro lugar ia a de transmissões, rumo a Oeste (para o lado da pista aérea).

Progredimos pelo meio da floresta (para mim tudo era flora estranha), com o terreno plano e o arvoredo frondoso que ladeava os trilhos e que existiam graças à “teimosia” dos pneus das viaturas. Embrenhamo-nos no matagal não mais de 5km. Junto a uma clareira as viaturas pararam e o nosso capitão, que como disse ia na frente, deu ordem para o pessoal se apear e tudo em uníssono saltou para o chão. Os transportes regressaram ao aquartelamento com a guarnição de segurança.

Os que íamos para a operação ordenamo-nos céleres, em fila espaçados uns dos outros, e começamos a avançar (três pelotões e os carregadores civis, pelas minhas contas seria uma centena de homens). Convenci-me, pelo que vi, que cada elemento sabia antecipadamente o lugar que devia ocupar e evidenciou-se tudo muito bem organizado e disciplinado. Começamos a caminhar no terreno, inflectindo para o lado esquerdo, obliquamente. O pessoal de transmissões ocupava as posições, entre o 10º e o 15º lugar da fila, juntamente com pessoal de enfermagem, que seguia atrás do Capitão. Á frente, abria caminho, um grupo constituído por 5 ou 6 militares, “comandos ou guarda-costas” do Capitão (todos eles nativos, com muita bravura, completo destemor, desembaraço na condução e todos eles usando lenços pretos de cetim ao pescoço).

Quando nos apeamos fiquei agradecido, por um lado, mas apreensivo e surpreendido, por outro (é a lei das ambiguidades, ninguém está contente com aquilo que tem, só desejamos uma coisa enquanto a não alcançamos), ao constatar, que haviam dois carregadores para transportar os aparelhos de transmissões, que mais não eram que dois rapazes (pela fisionomia aparentavam ter uns 14 ou 15 anos de idade) e, por isso, ainda crianças para andarem nestas lidas.

Quis dialogar com eles, para lhes agradecer o esforço, não sei se me entenderam, ou não? Haviam as evidentes dificuldade linguísticas, mas eu percebi, por meias palavras, que faziam aquele trabalho praticamente a troco de alimentação (gente humilde e sem rebeldias). Fiquei muito reconhecido, porque me deram a sua amizade e solidariedade. Sempre que me viam na Tabanca, vinham ter comigo, para me falar e dialogar. Foram-me muito prestáveis, enquanto estive na Guiné, logo que soubessem, que havia algum mimo na Tabanca, para vender (cachos de bananas, papaia, ananás, leite, galinha de mato ou doméstica, gazela ou javali) vinham-me comunicar. Esta preocupação deles nunca a consegui pagar.

Progredimos entranhados no mato, como disse num terreno plano, de quando em vez serpenteado de arvoredo cerrado e, a certa altura, atravessamos uma picada no sentido de Poente para Nascente, que tinha a orientação de Norte para Sul, disseram-me que ligava Canjadude ao Cheche.

Logo mais à frente, deparamo-nos com uma clareira, que intui, pelos indícios, que fosse em tempos uma Tabanca habitada, pois havia árvores de fruto, confirmei que era Fariná. Após termos caminhado, três horas, três e meia, chegamos a Fariná, onde o pessoal se instalou, formando um círculo, de segurança, em todo o perímetro da clareira.

Estávamos em Fariná e íamos ficar por aqui, pois o anoitecer não demoraria muito a chegar. O Sol declinava aceleradamente, querendo beijar com sofreguidão lasciva a linha do, aparentemente, não longínquo horizonte. Avizinhava-se o luar, que prometia serenidade e o firmamento apresentava um azul lívido estrelado, que eram sinais de prenúncio maus conselheiros para os amantes alucinados, que libertavam as suas musas inspiradoras e lhes
fertilizava a imaginação e os projectava do telúrico para o espacial.


Aqui chegados montamos arraiais para passar a noite e eu comer a minha primeira ração de combate no mato. O pessoal de transmissões, assim como o pessoal de saúde, onde se incluía o sargento enfermeiro, ficou muito próximo do Capitão Pacífico dos Reis, que pernoitou numa parte mais central rodeado de 4 ou 5 comandos. À ordem do Capitão, foi enviada mensagem para Canjadude, a dizer que estava tudo OK e que estávamos no ponto Delta.

Foi a minha primeira experiência de transmissões em operação, orientado pelo Silva com a supervisão do Carvalho. Montar antena de árvore a árvore, ligar equipamento, enviar a mensagem e retirar a antena.

Começou na Guiné para mim a missão deslocada, no espaço e no tempo, que à luz da minha razão, nunca compreendi. Como foi possível deixar arrastar os acontecimentos, até à via da irresolução (sem possibilidades de solução com dignidade), quando tinha havido tanta fonte histórica, para beber conhecimento e colher experiência, que poderiam ter servido de mote, inspiração, modelo e exemplo, para dar rumo diferente, de forma que trouxessem benefício a todos, colonizadores e colonizados, evitando a questão da problemática guerra do Ultramar.

Ainda que diferente, tínhamos mais um suporte, a lembrança do sucedido com o Brasil. Ou será que a teimosia da Guerra do Ultramar, foi uma inconsciência adormecida, ou uma dificultação birrenta para compensar o “facilitismo” concedido ao Brasil!?

Em Fariná andei, observei, acampei, dormi acordado, sonhei, imaginei e desejei, que a paz chegasse para todos fazer felizes e calmos. Emocionado não chorei, para não magoar os meus restantes Camaradas.

Dormi a minha primeira noite no mato em operações, de 14 para 15 (sábado para domingo) de Junho de 1969. Não me lembro do nome da operação…

Dia 15 de Junho de 1969, por volta das 06.00h ao lusco-fusco, quando surgiam os primeiros raios matinais de claridade, espairecendo e espreguiçando-se com raios der lassidão e envergonhados, já o pessoal estava todo activo. Numa mão a lata de leite achocolatado e, na outra, uma ”nacada” de pão com cheirinho a manteiga e triângulo de queijo flamengo.

Isto, pensava eu:
- Para matar as saudades de quem está lá longe, que bem poderá estar a observar a mesma estrela que eu via ali, nesse momento, e para que os meus desejos se fundissem telepaticamente, com os de alguém, e nos pudéssemos acarinhar deliciosamente, com enlevo e volúpia (um ao outro).

O naco do pão, serviu também para minimizar as amarguras e a dureza da vida, a crespidão e aspereza da cama, que não me deixou dormir, nem revigorar e descansar, nem sonhar, aqueles que bem poderiam ter sido sonhos libidinosos, para me confortar, deleitar e extasiar. Quiçá tais fantasias imaginativas de quem não conseguiu pregar olho, naquela noite, e viveu desejos lúdicos, que, obviamente, não conseguiu materializar.

Horas passadas em “branco”, ouvindo o sibilar da brisa húmida e refrescante, a afagar e a agitar o denso e desmaiado capim, que, ao ser apanhado e tocado, se torna crepitante exalando um odor muito diferente do cativante jasmim, só porque a água lhe falta e não estava vicejante, por aqui tão abundante.

O tempo urgia e não podíamos parar, eram 06.15h e o nosso comandante deu a ordem:
- Vamos avançar!
Ainda deu, para eu, num relance instantâneo, poder dar uma última olhadela e a minha retina registar, para poder melhor memorizar em todo o meu existir, aquele arejado e puro lugar, dizendo-lhe adeus e, talvez, um até nunca mais aqui voltar.

Em Fariná, tive o mais grato prazer porque me deu gozo ver, tocar e sentir, o perfume e o sabor acre de uma laranjeira, com os seus frutos esféricos e esverdeados ainda por amadurecer. Timidamente arranquei um dos seus frutos de aparência adocicado, apalpei a sua casca e rasguei-a, mas fiquei desolado e desconsolado quando provei um dos seus gomos!

Com a mesma disciplina e organização do dia anterior, progredimos em caminhada, segundo a minha percepção de orientação, para Sul, ora mais “enselvados” ora mais “encapinhados”. Entramos numa zona onde o capim era crescido e seco, formando uma flora muito uniforme, excluindo uma ou outra palmeira. O terreno começava a ser mais irregular, acidentado, com elevações, e, a determinada altura, surgiu como que uma montanha (não muito elevada).

Neste ponto, deu-se a separação do grupo, ficando um pelotão emboscado no morro a dar protecção à retaguarda e outro grupo que avançou. O Silva ficou a assegurar o serviço de transmissões e eu continuei, com o Carvalho, em direcção ao Cheche.

Mais à frente, depois de termos passado uns ribeiros, que deviam ser afluentes do Corubal e em cujas margens se via uma flora encantadora e viçosa, quais nichos ecológicos e fulgurantes, que deviam a sua exuberância, ao efeito benéfico dos regueiros de água que corriam debilmente nos seus leitos sinuosos. Mais o meu ego ficou grato, por terem os meus olhos sido prendados com tão deslumbrante e apavorante visão, dum jacaré aninhado (que outros diziam ser crocodilo).

Continuamos a avançar e eis que perante nossos olhos receosos, vislumbramos o tão falado rio Corubal. Caminhamos cerca de meia-hora, não muito longe da margem do rio e quase paralelo a este, atalhando os seus contornos, e, finalmente, chegamos ao prometido, enigmático e fantasmagórico Cheche, com o rio Corubal a nossos pés.

O rio caudaloso, tranquilo e imponente, apresentava-se sem complexos de culpa alguma do terrível e nefasto drama que ali ocorrera, pois as suas águas mais pareciam estagnadas a dizer que não estavam envergonhadas de nada, do que delas se dizia e que a ninguém intimidavam, estando prostradas em sinal de paz, sossego e aconchego, com todo o pudor.

Segundo os meus cálculos, a largura do rio, da margem direita onde estava até à outra margem, devia rondar pouco mais de 100m (tendo como referência o campo de futebol) e sabendo eu que o erro de paralaxe, numa superfície plana sobre água, tem outra variável de engano.

No Cheche, onde muito meditei, estive a ver e analisar o rio Corubal de águas que se diziam serem turvas, escabrosas e traiçoeiras, e que, a mim, se mostraram serenas, tranquilas, fiéis, silenciosas e calmas. Ali parei com muita dignidade, respeito e rezando em memória daqueles que dali partiram, e a Deus.

Pelos falecidos orei com fervor e dor, viajando pelo etéreo onde o meu pensamento se diluía, criando imagens do que em tempos por ali acontecera e partindo do pouco que sabia sobre o apocalíptico drama, tentei construir e consolidar os meus pensamentos, no meu infindável desejo de sempre mais saber e aprender em busca da verdade, para homogeneizar as minhas ideias e o meu criterioso juízo de obedecer a determinadas ordens.

Não comungo a opinião, dos que querendo culpar do acontecido a Natureza, declinam a responsabilidade do ser humano, no qual a culpa está com toda a certeza…

Foi com muita ingenuidade e devoção, que a todos lembrei que aqui pereceram, enviando-lhes a minha mensagem de oração e saudação, pedindo-lhes desculpa e perdão, por aqueles que na hora derradeira, nada por eles fizeram por se terem sentido impotentes.

A todas as vítimas dedico a minha nostalgia e delas me despeço com imensa gratidão, pois no meu íntimo serão lembrados sempre com glorificação.

É necessário atender ao meu estado de espírito, em que eu na época me encontrava, pois tinha tombado em combate em Fevereiro desse ano um tio meu, com 22 anos, e ainda não tinha sido realizado o seu funeral.

Com cautelas redobradas o grupo abraçou toda a área circundante do outrora Cheche, com honras de aquartelamento já abandonado. Reflexo da conversa há duas noites atrás, tive desejo de entrar no Cheche.

Curiosidades dum periquito, para encontrar alguns vestígios de presença humana, como que para auto-afirmação, teste e confirmação, de que o lugar tinha sido em tempos habitado.

Foram porém outros camaradas, os determinados para a missão a executar, eu fiquei à distância de 200 ou 300 metros, tendo-me sido dado observar que algo se ia minar, ou armadilhar, ou verificar o anteriormente “ardilado”.

Estivemos por ali, cerca de meia hora. Eu interrogava-me se não seria fácil um ataque, naqueles momentos, vindo da outra margem, onde a mata era muito cerrada!

Abandonamos o Cheche no sentido paralelo à picada, que ligava a Canjadude e caminhamos ao encontro do pelotão, que tinha ficado emboscado na montanha, que entretanto já tinha recebido comunicação, para se deslocar para sítio determinado.

Encontrámo-nos novamente e acampamos, onde eu comi a minha 2ª ração de combate no mato, algures entre Canjadude e Cheche. Entrámos em contacto com a base e pediram-se viaturas, para local e horas combinados.

Após estarmos acampados cerca de uma hora, encetamos novamente a caminhada com rumo a Norte, direcção a Canjadude, através de um tipo de paisagem praticamente idêntico, caracterizado pela planura no terreno.

Era desolador constatar o abandono a que aqueles terrenos, que me pareceram ser férteis, estavam há anos sem serem aproveitados.

Chegamos ao sítio previamente definido e tivemos que aguardar, pela vinda das viaturas, cerca de meia hora. Tudo foi feito com muito calculismo, mesmo nesta espera, só se notou descompressão (não descontracção ou laxismo), organizado com todo o rigor, o que me inspirou confiança e segurança.

Quando as viaturas aportaram, o pessoal ordeiramente ocupou os seus lugares nas viaturas, um pouco amontoados, cada um ciente das tarefas que lhe competiam e para a qual estava incumbido.

Atendendo aos meios disponíveis, em função do número de elementos envolvidos na operação, não se tomaram, de forma alguma, todas as condições ideais de segurança.

No entanto, pesando prós e contras, comecei a sentir uma ténue réstia de orgulho e esperança, por começar a ser um elemento deste grupo: OS GATOS PRETOS.

Chegámos a Canjadude ao fim da tarde e eu sentia que tinha desempenhado as minhas funções como me competia. Comecei a sentir que se estava a esvair a tibieza da minha primeira ida para o mato e exultei de alegria interior.

Depois desta operação, dezenas vieram, ou… centenas?

FOTO 1: O “Gongo”, vendo-se no chão, junto à base do tronco, a baqueta para o martelar. Em primeiro plano está o militar que tocou o “Gongo” nesse dia.

FOTO 2: Eu, todo equipado e pronto para partir para a aventura da 1ª operação no mato. Em 2º plano vê-se o Figueiredo.
FOTO 3: Eu, prestes a apear da viatura, tendo por trás, de costas, o Rogério. De frente, a olhar para a objectiva está o Marques (condutor e mecânico), muito competente (do velho fazia novo). Do lado direito está um maqueiro.


FOTO 4: Os dois jovens carregadores que transportaram o material de transmissões (foto tirada na Tabanca após a operação).

FOTO 5: Eu e o Silva, em Fariná, a enviar uma mensagem para Canjadude.

FOTO 6: A tabela elaborada mensalmente, por Entidade de Comando competente, que era distribuída às respectivas unidades do Território, via mensagem. Servia para validar mensagens de transmissões, pedindo às respectivas Entidades ou Unidades envolvidas, em teatros de acção, com os respectivos apelidos, a senha correspondente. A tabela tinha duração, mais ou menos mensal, sendo a validade das chaves semanal, ou quinzenal. O grau de segurança era, no mínimo, confidencial.

FOTO 7: Fariná, como eu o vi na despedida.

FOTO 8: O Rio Corobal uns 200 ou 300 metros a montante do Cheche. A margem à vista, pertencente à zona de Medina do Boé.

FOTO 9: O Rio Corubal visto de local próximo da foto anterior (com zoom diferente), notando-se as águas tranquilas, sem corrente, parecendo ter um açude a jusante, apresentando uma ténue ondulação.

FOTO 10: Regresso das viaturas a Canjadude. A picada é a que liga Canjadude ao Cheche e podemos ver os dois carregadores civis com o nosso equipamento à cabeça.


FOTO 11: Eu, com felicidade radiante e sorriso efusivo, depois do regresso da operação e já em Canjadude.
A todos, os tertulianos, o meu apreço, com um abraço e muita saúde para todos.

José Corceiro
1º Cabo Trms da CCaç 5

Fotos: © José Corceiro (2009). Direitos reservados.
____________

Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

1 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5745: José Corceiro na CCAÇ 5 (2): A primeira saída para o mato (1ª parte)

domingo, 7 de Fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5781: Notas soltas da CART 643 (Rogério Cardoso) (6): Rondas e sentido de solidariedade na 643

1. Mais umas notas soltas da CART 643, enviadas por Rogério Cardoso (ex-Fur Mil, CART 643/BART 645, Bissorã, 1964/66), em mensagem com data de 2 de Fevereiro de 2010:


RONDAS À VOLTA DE BISSORÃ EM MEADOS DE 1964

Como todos os ex-combatentes sabem, as rondas eram serviços com algum perigo, senão vejamos:

Na Cart643 saía um jeep com o condutor, normalmente um Furriel Miliciano e duas Praças, sentados no banco trazeiro e que era virado para fora. A volta era um pouco complicada porque Bissorã era cruzada por diversas estradas, assim descriminadas:

Partindo do Largo dos Correios, que era paredes meias com o chamado Quartel, saía a estrada para Mansôa com muitas moranças com uma extensão considerável.
Para Mansabá, estrada que na altura não tinha circulação, mas continha também muitas moranças.
Para o Olossato, que pelo menos tinhamos de rondar até ao "campo de aviação", que ficava talvez entre 2 a 3km, também com moranças nos dois lados da estrada.
Havia ainda a estrada para Encheia ou a chamada outra banda, e outra para Norte em direcção a Barro.

Além destas estradas um pouco difíceis, havia a ronda à Central Eléctrica que tinha uma torre com 2 homens, a Agro-Pecuária com sentinelas nativas, algumas residências de funcionários civis e comerciantes, como a Casa Gouveia, Barbosa & Comandita, Casa Alves, Casa Gardete, alguns libanêses como Michel Ajouz, Miguel Heni, etc. e também cabo-verdianos, funcionários dessas casas.

Não era tarefa fácil e isenta deperigo, as rondas foram diversas vezes apanhadas entre dois fogos, do IN e de quem defendia, visto Bissorã, pelo que descrevi, ser uma povoação complicada na sua defesa.

Estrada de Mansoa/Bissorã

Na Cart 643 havia um espírito de confiança muito elevado, não existiam muitas Companhias em que o pessoal fosse tão unido. Posso contar que quando o nosso 1.º Cabo Antonio Melo morreu em combate, no dia 16 de Agosto de 1964, não havia urna e o local indicado para o funeral era Bissorã. Houve mobilização geral, o Soldado Pinheiro construiu a urna e todos nós trouxemos o nosso querido camarada até ao cemitério de Bissau. A Cart643 ultrapassou todas as dificuldades, até do nosso Comando, fizemos a nossa obrigação com muita mágoa.

O espirito de solidariedade era enorme. Uma noite o Capitão Ricardo Silveira vei-nos dizer que tinha de estar no outro dia de manhã em Bissau, porque tinha de embarcar para Lisboa e naquela noite teria de estar em Mansôa. Como e quem iria fazer esse serviço, pois precisava de voluntários? Rápidamente aprontou-se um jeep, eu no volante e 2 homens atrás, entre eles o 1.º Cabo Carlos Alberto, e lá fomos depressa num pé e voltámos no outro.

Rogério Cardoso
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 28 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5718: Notas soltas da CART 643 (Rogério Cardoso) (5): Um Guerreiro desdentado

Guiné 63/74 - P5780: Agradecimento pelos votos recebidos em dia de aniversário (Fernando Franco)

1. Mensagem de Fernando Franco, (ex-1.º Cabo Caixeiro do PINT 9288, Guiné, 1973/74), com data de 7 de Fevereiro de 2010:

Amigo Vinhal.
Venho pedir que publiques no nosso blogue estas linhas de agradecimento a todos os nossos camaradas, que se lembraram de mim no dia do meu aniversário*.

Aproveito para informar que apesar de andar a substituir peças do meu motor e mandar algumas fora, nesse dia não deixei de regar uma bela pá de porco assada, com umas belas cervejinhas de que tanta saudade já tinha.

Admito que foi um crime pois uma vinhaça calhava melhor, mas como sabem aqueles que me conhecem, nunca fui admirador de vinho seja ele qual fôr.
De todas as formas o almoço foi bem regado e neste dia lembro-me sempre do jantar que tive com alguns camaradas meus no restaurante PELICANO em Bissau, que saudades...

Amigos só vos posso dizer que foi uma daquelas bubas colectivas de ficar na memória, de tal forma que quando entramos no BIG lá para as 2 da manhã, acordámos a caserna inteira para o resto da comemoração.

As consequências disso foram de tal forma, que no dia seguinte fui chamado ao Conselho de Justiça, pois dois camaradas meus pegaram no carro que era pertença de um sargento nosso e espatifaram-no contra um muro. Agora deixo ao vosso pensamento o que se passou naquela noite memorável.

O meu comandante de pelotão João Lourenço e o enfermeiro Baia devem-se lembrar disso, pois essa noite deu muito que falar, ainda um dia escreverei sobre esse assunto.

Amigos e camaradas a todos um muito obrigado pela vossa lembrança.

Um grande abraço
Fernando Franco
__________

Nota de CV:

Vd. poste de 6 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5771: Parabéns a você (75): Fernando Franco, ex-1.º Cabo do Pel Int 9288, Guiné 1973/74 (Editores)

Guiné 63/74 - P5779: Ser solidário (54): Ajuda Humanitária à Guiné 2010 (Carlos Silva)


1. O nosso camarada Carlos Silva, ex-Fur Mil da CCAÇ 2548/BCAÇ 2879, Farim, 1969/71, enviou-nos com data de 5 de Fevereiro de 2010, notícias da próxima acção da Ajuda Humanitária à Guiné:


Ajuda Humanitária à Guiné 2010

Amigos e Camaradas,

Acompanhem a par e passo a Ajuda Humanitária à Guiné pela nossa Associação Ajuda Amiga cujo contentor de donativos irá partir do Porto de Setúbal a 22-02-2010 e uma equipa de dirigentes da Associação partirá de avião em 2-3-2010 por sua conta, tendo em vista o acompanhamento da distribuição dos bens.

Se quiserem acompanhar-nos é só comunicar para:
carsilva.advogado@sapo.pt, ou pelo telemóvel: 966 651 820

Basta clicar no link e nos sombreados que virem:
http://carlosilva-guine.com/

Podem ver também o Site oficial da Ajuda Amiga:
http://ajudaamiga.com.sapo.pt/

Com um abraço amigo
Carlos Silva
Fur Mil da CCAÇ 2548/BCAÇ 2879
____________
Nota de M.R.:

Vd. primeiro poste desta série em:

31 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5734: Ser solidário (53): Que muitas Runas se levantem (José Martins)

Guiné 63/74 - P5778: Efemérides (45): O desastre do Cheche, visto por quem esteve lá e perdeu 11 homens do seu grupo de combate (Rui Felício, Alf Mil, CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70)


Guiné > Zona Leste > Região do Boé > Cheche > 6 de Fevereiro de 1969 > A jangada, de reserva, com sobreviventes da tragédia de Cheche, no Rio Corubal, na retirada de Madina do Boé (*)


Foto: © Paulo Raposo (2006). Direitos reservados

Guiné > Zona Leste > Subsector de Galomaro > CCAÇ 2405 > 1969 > Dulombi > Na messe, os alferes milicianos Raposo (à direita) e Rijo (à esquerda); de costas, os furriéis milicianos Cândido e Magno. Os Alf Mil Paulo Raposo e Jorge Rijo estavam, em Cheche, no dia de 6 de Fevereiro de 1969.

Foto: © Paulo Raposo (1997). Direitos reservados


Jantar a bordo do Uíge, a caminho da Guiné > Finais de Julho/princípios de Agosto de 1968 > Os quatros alferes milicianos da CCAÇ 2405: David e Raposo, do lado esquerdo; Felício e Rijo, do lado direito.

Foto: © Paulo Raposo (2006). Direitos reservados


 Guiné > Zona Leste > Sector L5 > Galomaro > Dulombi > CCAÇ 2405 (1968/70) > Embora pertencente ao BCAÇ 2852 - cujo comando e CCS estavam sedeados em Bambadinca -, a CCAÇ 2405 não teve grandes contactos com o pessoal da CCAÇ 12 (a quem eu pertenci: Contuboel e Bambadinca,Maio de 1969/Março de 1971).  Daí que só no I Encontro Nacional do nosso blogue, na Ameira, Montemor-O-Novo (organizado pelo Paulo Raposo e pelo Carlos Marques dos Santos), em 14 de Outubro de 2006, é que eu tive o prazer de conhecer pessoalmente o Rui Felício, a par de outros dois baixinhos de Dulombi, o Paulo Raposo e o Vitor David.

Esta foto do Rui, sentado num abrigo - em princípio, de uma  tabancas em autodefesa do sector L5, em 1969 - , foi-nos enviada pelo Victor David, seu camarada, outro alferes da companhia e nosso tertuliano, que também terá servido de fotógrafo de ocasião, segundo presumo. Não tenho informações precisas sobre a data nem o local. (LG)

Foto: © Victor David (2006). Direitos reservados. 


1. Reprodução do poste, da I Série, de 12 Fevereiro 2006 > Guiné 63/74 - DXXVI: O desastre do Cheche: a verdade a que os mortos e os vivos têm direito (Rui Felício, CCAÇ 2405)

Texto do Rui Felício (ex-Alf Mil da CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70) (**). (Vd. poste anterior desta série  Efemérides ***.).


1. Comentário a propósito do post escrito pelo camarada José Martins sobre o desastre na travessia do Rio Corubal em 6 de Fevereiro de 1969 (1)

Preâmbulo

Acabei de ler um texto escrito pelo camarada José Martins onde relata a sua experiência na zona de Madina do Boé.

Embora tenha reconhecido que não assistiu directamente ao que se passou no célebre e lamentável desastre do Cheche, ocorrido no fatídico dia 6 de Fevereiro de 1969, o José Martins conheceu bem o local e a região e desenvolveu a sua descrição socorrendo-se de relatos e documentos alusivos ao sucedido.

E nota-se pelo seu relato que sofreu muito, e que ainda hoje sente as marcas do desastre, passados 37 anos sobre a sua ocorrência.

Ninguém, bem formado e sensível, poderia nunca, de resto, ficar indiferente a semelhante tragédia, ainda que, como o narrador José Martins, não tenha dela sido testemunha ocular.

Imagine-se então a ferida profunda que aquele desastre deixou a quem, como eu e muitos outros, foi não só testemunha ocular mas também, e principalmente, interveniente e vítima do colapso da artesanal jangada que servia de transporte aos militares e equipamentos que participaram na complexa, perigosa e cansativa operação de resgate da Companhia de Caçadores que se evacuou do célebre aquartelamento de Madina do Boé.

Desastre onde pereceram, segundo as estatísticas oficiais, 47 militares, onze dos quais, do pelotão que eu comandava… Permito-me destacar dois deles pelas relações especiais de amizade e de confiança que neles depositava, sem esquecer obviamente a dor causada pela morte de todos os outros:

(i) um, o furriel Gregório Rebelo, açoriano de sotaque cerrado e quase ininteligível que assumia as funções, embora não protocolares, de meu substituto em todas as circunstâncias, no comando do pelotão, e que mantinha a orgânica disciplinar e operacional da pequena unidade militar;

(ii) o outro, o soldado Octávio Barreira, transmontano de gema, homem rude, de uma só palavra, de têmpera sã, de antes quebrar que torcer, mas capaz de morrer para salvar a vida do seu amigo, e a quem eu atribuira as funções, também não protocolares, de meu guarda-costas.

Quem passou pela guerra colonial sabe que a escolha do guarda-costas recaía invariavelmente no soldado em que o alferes depositava maior confiança e amizade.

Aliás, como também é sabido, a designação de guarda-costas não tem a mínima conotação com a ideia que na vida civil se faz de alguém com este titulo ou funções. O guarda-costas era, acima de tudo, o soldado às ordens, o confidente, o amigo…. E muito menos, ou quase nada, o protector da integridade fisica do alferes, ao contrário do que se possa pensar.

A perda destes treze homens, que recordo com saudade e dor, sempre que a memória da Guiné me vem à lambrança, e que ajudei a formar para a guerra, em Abrantes e Santa Margarida, após oito meses de convivência próxima nas diversas tabancas onde o pelotão esteve destacado, foi um choque tremendo, inolvidável, cuja lembrança ainda hoje me faz arrepiar a alma e assomar as lágrimas.

Sobre o desastre do Corubal

Feito o preâmbulo, entro de imediato no motivo que me levou a servir-me do espaço disponibilizado pelo camarada Luis Graça a quem, sem o conhecer pessoalmente [, conhecemo-nos deopois no nosso I Encontro Nacionala, na Ameira], desde já transmito o meu aplauso pela feliz e dinâmica iniciativa da criação deste blogue.

É que é importante que seja a nossa geração, aquela que interveio, por obrigação ou por convicção ou por ambas as coisas, na guerra da Guiné, que tem que dar testemunho o mais exacto possível daquilo que por lá se passou.

Se assim não fôr, corremos o risco de a história ser deturpada, porque feita com base em documentos ou relatos nem sempre seguros, nem sempre fiéis… É por isso que, correndo o risco de desencadear alguma polémica, que não pretendo, achei que devia esclarecer alguns pontos do relato feito pelo José Martins a que atrás aludi.

Deduz-se daquele relato, publicado no blogue, que o desastre teria acontecido essencialmente devido a três factores:

(i) Os militares descomprimiram e tentaram encher os cantis com água do rio, o que terá provocado, depreende-se, o desiquilíbrio da estabilidade da jangada;

(ii) Teria sido ouvido um som abafado, semelhante a uma morteirada, que teria provocado agitação entre os militares e, em consequência, desiquilibrado a jangada;

(iii) Que, após o acidente, a água do Rio Corubal terá tomado um tom avermelhado, querendo com isso dizer-se que os crocodilos que habitavam as águas do rio, teriam consumado a morte dos militares que cairam à água.

A versão dos acontecimentos, veiculada pelo José Martins, assenta, como já se disse, em relatos e documentos sobre os factos, dado que este camarada, como ele próprio confirma, não assistiu ao que se passou. Mas, não obstante a presumível credibilidade das fontes a que recorreu, posso garantir que não foi exactamente assim que as coisas se passaram.

E digo isto com a mais profunda convicção e a mais inabalável certeza de alguém que estava na jangada, caiu à água, nadou durante uns cinco minutos e a ela retornou após a mesma se ter de novo equilibrado.

São factos que não se apagarão jamais da minha memória, por mais anos que viva, e apesar de não estar de posse de documentos que os comprovem...


2. O fime da SIC sobre o desastre do Rio Corubal

O mais curioso é que no filme, da autoria de José Saraiva, realizado por Manuel Tomás, que foi visto há uns anos atrás, por muitos milhares de portugueses através da sua transmissão pela SIC e pela distribuição de um vídeo feita na mesma altura pelo Diário de Notícias, são apresentadas aquelas mesmas razões como causas imediatas do desastre.

Já nessa altura contestei as conclusões do filme, e fi-lo por escrito e em reunião pessoal com o Director de Informação da SIC, Dr. Alcides Vieira, estando presente o realizador Manuel Tomás, que dirigiu a realização do filme.

Refiro que a carta entregue na SIC foi subscrita não só por mim mas por dezenas de ex-militares da CCAÇ 2405 que, por coincidência nessa mesma altura, no almoço de confraternização anual, a leram e assinaram.

A contestação dos factos descritos no filme foi feita nessa reunião na SIC, com a prévia concordância do Comandante da Operação, Brigadeiro Hélio Felgas, e estando presentes, além de mim próprio, o Capitão Miliciano José Miguel Novais Jerónimo e o Alferes Miliciano Paulo Enes Lage Raposo [ ambos da CCAÇ 2405].

E ela foi por nós solicitada à SIC em virtude do impacto que a exibição do filme teve nos ex-militares que a ele assistiram e que tinham estado presentes na jangada naquele dia do desastre. Com efeito, no próprio dia da exibição do filme comecei a receber telefonemas de antigos camaradas, um tanto decepcionados e alguns até revoltados, pela inexactidão dos pormenores que ali eram descritos.

Todos nós três, presentes na dita reunião, participámos na operação de evacuação de Madina do Boé, e todos estavamos presentes no local do acidente no Cheche naquele dia 6 de Fevereiro de 1969.

O Capitão Jerónimo, comandante da CCAÇ 2405, e eu próprio, estávamos na jangada no momento do acidente, onde se encontrava também o Alferes Miliciano Jorge Rijo, oficial da CCAÇ 2405, com o seu pelotão.

O Alferes Miliciano Paulo Raposo, também oficial da CCAÇ 2405, já tinha feito a travessia do rio na viagem anterior, e encontrava-se na margem norte do Corubal com o seu pelotão, observando a tragédia.

Na referida reunião da SIC, o realizador Manuel Tomás argumentou que o filme fora realizado com fundamento em entrevistas e em documentos oficiais militares a que tinha tido acesso, pelo que considerava o filme suficientemente documentado.

E disse que esses documentos atestavam as razões acima referidas, isto é, que a jangada se virou porque, no essencial, teria havido disparos de morteiro que, supostamente vindos do IN, teriam criado o pânico nos militares, os quais, ao agitarem-se, teriam provocado o desiquilíbrio da jangada.

Perante a irredutível posição da SIC em manter a versão veiculada pelo filme, nada mais nos restou do que desistirmos do pedido que lhe fizémos para que fosse proporcionado esclarecimento público sobre as conclusões desse filme.

Foi dito, nessa reunião, ao Dr. Alcides Vieira e ao Sr. Manuel Tomás,  que, por muito credíveis que pudessem parecer os documentos militares em que fundamentaram a versão filmada, nenhum deles jamais desmentiria ou apagaria da minha memória e dos meus camaradas o que realmente se passou.

Mais importante que os documentos preparados no silêncio dos gabinetes militares, sabe-se lá com que inconfessados motivos, era a indesmentível memória daqueles que tinham sido protagonistas e vítimas do desastre.

É com o mesmo espírito de esclarecimento da verdade dos factos que volto hoje ao assunto, desta vez no ambiente mais acolhedor de um blogue criado e gerido por alguém como o Luis Graça que, tendo estado na Guiné, sabe melhor que ninguém que não queremos honrarias, distinções ou protagonismo público.

Queremos tão só que a história seja o mais verdadeira e exacta possivel... Esse é o legado que queremos deixar aos vindouros, para que jamais seja ignorado o sacrificio de uma geração inteira, retirada à sua despreocupada juventude para fazer uma guerra em longínquas terras, em nome dos seus deveres e obrigações para com a sua Pátria.


3. A verdade do que sucedeu

Mas então, o que se passou realmente naquela manhã de 6 de Fevereiro [de 1969]?

A CCAÇ 2405, comandada pelo Cap Mil Inf Novais Jerónimo, integrava a coluna militar que tinha partido na manhã do dia anterior de Madina do Boé, rumo ao Cheche, e tinha como missão escoltar a Companhia de Caçadores [1790] evacuada daquele aquartelamento e que era comandada pelo Cap Inf Aparício (que, após o 25 de Abril, veio a assumir a função de Comandante Geral da PSP de Lisboa).

Ao fim desse dia a coluna chegou às imediações do rio Corubal, junto ao local de cambança para o Cheche. E durante toda a noite a jangada fez contínuas viagens transportando pessoal de apoio e, sobretudo, equipamentos militares e de transporte.

Ao amanhecer, as viagens de transporte entre as duas margens continuaram consecutivamente, até que chegou o momento em que na margem sul do rio Corubal já só restavam quatro grupos de combate, todos eles comandados pelos respectivos alferes, bem como os capitães Aparício e Novais Jerónimo. Além destes, encontrava-se o 2º Comandante da Operação [Mabecos Bravios], um major cujo nome já não recordo.

Segundo a rotina estabelecida e as instruções recebidas pelo responsável pela condução da travessia (Alf Mil Diniz), esperávamos na margem do rio que este responsável mandasse entrar metade do pessoal ainda ali estacionado, ou seja, dois dos quatro pelotões acima referidos.

É que a jangada, segundo bem explicou o alferes Diniz, tinha uma lotação de segurança de um máximo de 60 homens (2 pelotões). E o alferes Diniz assim fez, à semelhança do que tinha já feito dezenas de vezes ao longo da noite, zelando para que a carga da jangada não excedesse os limites de segurança estabelecidos.

Mandou entrar o meu pelotão e o do Alferes Rijo, ficando na margem para a viagem seguinte, os dois pelotões da Companhia do Capitão Aparício. Subitamente porém, assisti a uma conversa entre o 2º Comandante da Operação e o Alferes Diniz, em que este foi intimado pelo referido 2º Comandante a mandar embarcar os dois pelotões restantes, dado que não se podia atrasar mais a operação.

Apesar dos argumentos do Alf Diniz, tentando que em vez dos 4 pelotões embarcassem apenas dois, prevaleceu a autoridade da patente militar mais alta e assim acabaram por embarcar os 4 pelotões, para a derradeira viagem da jangada...


E foi de facto a sua derradeira e trágica viagem... Ainda não estavam percorridos 10 metros e já a jangada submergia e, de seguida, se virava projectando para a água quantos nela seguiam... E não me recordo de ter ouvido qualquer disparo de morteiro, antes do desastre... E não me lembro de ter detectado antes qualquer sinal de pânico entre os soldados... Aliás, a sua experiência operacional no teatro de guerra era já apreciável e não entrariam em pânico por um simples disparo de morteiro que estou seguro que não existiu.

Houve alguns disparos de morteiro, é verdade, mas após o desastre e feitos pelas NT, no intuito de prevenir qualquer aproveitamento do IN que eventualmente estivesse emboscado nas imediações.

Exceptuando os militares que infelizmente pereceram afogados no Corubal, passados poucos minutos, todos restantes retornavam à jangada que, pouco depois, se reequilibrou e retomou a sua viagem para a margem norte do rio. E eu fui um deles... Depois de me ter libertado da espingarda, das cartucheiras, das botas e das granadas, cujo peso me puxava inexoravelmente para o fundo...

Em nenhum momento descortinei qualquer tipo de pânico quando regressei à jangada e, talvez nervosos ainda do desastre, todos sorriamos e aceitávamos o banho forçado como uma dádiva divina depois de vários dias de sede e calor.

Ninguém se apercebeu de nenhum camarada em aflição ou pedindo socorro. Ninguém sequer sonhou que a tragédia tivesse atingido as proporções que tomou. Só na margem norte do rio, quando mandei formar o meu pelotão e o vi reduzido a quase metade é que tive consciência da desgraça que tinha acontecido.

E foi então que, algo descontrolado, me dirigi à margem do rio que engolira os meus soldados na esperança de ainda ver alguém... Mas a tragédia estava consumada de forma silenciosa, definitiva e rápida.

Em resumo e concluindo:

(i) O desastre do Cheche ficou a dever-se, em minha opinião, ao excesso de peso entrado na jangada;

(ii) E ela é corroborada por todos aqueles que, como eu, viajavam na jangada e que em conversas a seguir ao desastre manifestaram a mesma opinião;

(iii) Note-se que a mesma jangada tinha já feito dezenas de travessias sob as ordens directas do Alf Diniz sem nunca se ter detectado qualquer problema;

(iv) Esse problema surgiu de forma trágica na última travessia, ou seja, naquela em que o responsável Alf Diniz não pôde efectivamente proceder segundo o que estava estabelecido, deixando entrar na jangada o dobro da sua capacidade, por ordem do 2º Comandante da Operação a que, pela natureza da hierarquia militar, não poderia opor-se;

(v) Mas fê-lo, e disso dei testemunho no âmbito do inquérito que se seguiu, advertindo previamente o seu superior hierárquico para o facto de estar a infringir as determinações que tinha sobre a forma de fazer a travessia do rio e da lotação definida para a embarcação;

(vi) E estou convencido que a rapidez do desaparecimento das vítimas nas águas calmas, escuras e profundas do Corubal, se ficou a dever ao facto de todos transportarem consigo pesado equipamento de guerra que lhes tolheu os movimentos e os conduziu para o fundo do rio, de forma tão rápida, com a agravante de que a maior parte deles não sabia nadar;

(vii) Finalmente, não posso deixar de fazer referência ao que o José Martins diz ter ouvido de "alguém que esteve no centro do acontecimento" de que as águas tomaram um tom avermelhado.

(viii) Sei da existência de crocodilos naquele troço do rio Corubal.

(ix) Sei que alguns dos corpos de soldados encontrados dias mais tarde, apresentavam sinais de terem sido dilacerados por crocodilos.

(x) Mas sei também que as águas, naquele dia, e após o acidente, apenas apresentavam o tom natural verde escuro de um rio calmo e profundo e tenho dúvidas que os crocodilos tivessem estado presentes naqueles momentos, com o ruído de helicópteros sobrevoando as águas a baixa altitude, na tentativa de encontrar e socorrer algum soldado em dificuldades.

(xi) Não devemos dramatizar mais o que só por si já foi suficientemente dramático (2)...


4. Breves dados sobre a CCAÇ 2405 (1968/70)

Composição da CCAÇ 2405:

A CCAÇ 2405, à data dos acontecimentos, tinha a sua sede em Galomaro (3).

Comandante: Cap. Mil. José Miguel Novais Jerónimo

1º Grupo de Combate – Alf Mil Jorge Lopes Maia Rijo
2º Grupo de Combate – Alf Mil Vitor Fernando Franco David
3º Grupo de Combate – Alf Mil Rui Manuel da Silva Felício
4º Grupo de Combate – Alf Mil Paulo Enes Lage Raposo


O 2º Grupo de Combate, comandado pelo Alf Mil Vitor David, não integrou a Companhia na operação de evacuação de Madina do Boé, ficando na sede da Companhia em Galomaro, onde porém a acompanhou através dos meios rádio.

As baixas resultantes do desastre do Cheche foram sofridas pelos 1º e 3º Grupos de Combate, que viajavam na jangada na altura do acidente.


Rui Felício
(Ex-alf mil inf CCAÇ 2405

[ Fixação / revisão de texto / bold a cores / título: L.G.]
_________

Notas de L.G.

(1) Vd. post do José Martins > 6 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - D: Madina do Boé, 37 anos depois

(2) Vd os posts anteriores sobre este tópico:

17 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIX: Antologia (7): Os bravos de Madina do Boé (CCAÇ 1790)

(...) "Apresentação do livro de Gustavo Pimenta, sairómeM - Guerra Colonial (Palimage Editores, 1999), no Porto, Cooperativa Árvore, em 10 de Dezembro de 1999. Autor do texto: José Manuel Saraiva, jornalista do Expresso" (...)

2 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre do Cheche, na retirada de Madina ...

(...) "Este documento, que me chegou às mãos através do Humberto Reis, relata a dramática operação em que participou a CCAÇ 2405, sedeada em Galomaro, e pertencente ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), operação essa que tinha em vista operação essa que tinha em vista retirar as NT da posição insustentável de Madina do Boé, cercada pelo PAIGC"(...)

8 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXX: A retirada de Madina do Boé (José Martins)

(...) "O mês de Fevereiro de 1969 tivera inicio há poucos dias quando passou, no aquartelamento de Canjadude, uma coluna cuja missão era retirar a Companhia de Caçadores nº 1790 do seu destacamento de Madina do Boé. Paralelamente a guarnição do posto do Cheche, pertencente à Companhia de Caçadores nº 5, também retiraria e juntar-se-ia à nossa companhia em Canjadude" (...)

8 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXXI: Comentário de Afonso Sousa ao texto sobre a retirada de Madina do Boé

(...) "Emociona este seu testemunho. Eu só faço uma pequena ideia do sofrimento de todos vocês, naquele momento trágico, nas horas e nos dias seguintes - em terras de solidão, em paragens dos confins da Guiné" (...).

(3) Em Fevereiro de 1969, a CCAÇ 2405 era a unidade de quadrícula de Galomaro, pertencendo ao Sector L1, e estando afecta por isso ao comando do BCAÇ 2852, sediado em Bambadinca.
__________

Guiné 63/74 - P5777: Notas de leitura (64): Já participamos nos romances dos outros - A Lucidez do Amor, de Tânia Ganho (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Fevereiro de 2010:

Queridos amigos,
Que grande surpresa, receber o romance da Tânia Ganho! E orgulho, por ver que o blogue é acompanhado em várias partidas do mundo, somos úteis na construção de personagens, que a Guiné existe no imaginário dos escritores e que os combatentes, com mais ou menos sofrimentos e marcas, são convocados para romances, apaixonam-se por fulas e são felizes a seu lado.

Um abraço do
Mário



Já participamos nos romances dos outros!

Beja Santos

Em 2009, recebi um e-mail de Tânia Ganho a pedir-me informações sobre a vida em Bambadinca, concretamente pretendia elementos sobre a vida das lavadeiras que prestavam serviço aos militares do aquartelamento. Lá procurei responder, de acordo com a minha vivência e apresentei Bambadinca enquanto quartel e tabanca, povoações limítrofes, porto e rio Geba. Importa esclarecer que Tânia Ganho é autora de romances e vive da tradução (tem traduzido autores como David Lodge, Annie Proulx, Anais Nin), já conhecia Bambadinca porque frequenta regularmente o nosso blogue.

Pois bem, acabo de receber o seu mais recente romance “A Lucidez do Amor” (Porto Editora, 2010) em que a autora agradece a António Graça de Abreu e a mim, bem como às histórias do blogue, escreve ela que se inspirou num texto de Vítor Junqueira “A chacun, sa putain” sobre a prostituta Fanta Baldé e a ideia de que havia crianças felizes em Bambadinca. O seu romance baseia-se em quatro personagens: um piloto francês, Michael, estranhamente supersticioso, Paula, uma portuguesa que conheceu Michael em Porto Santo, uma artista que vive em permanente ansiedade na sua residência em França, separada de Michael por quatro meridianos e cinco mil quilómetros de distância; Álvaro, um alferes que combateu na Guiné e que carrega um pesado segredo dos seus tempos de guerra; e Binta, uma fula de Bambadinca, que trabalhou como lavadeira e se apaixonou por Álvaro (Binta e Álvaro são os pais de Paula).

Tânia Ganho urde a trama do seu romance com base num telefone inquietante ou pacificador: Paula trata do filho recém-nascido, Artur, vive rodeada de mulheres cujos maridos andam também lá longe, no Tajiquistão e no Afeganistão, em missões para todas elas incompreensíveis, está sempre à espera do contacto telefónico, é a tónica da ansiedade que a mortifica e que no fundo é o lastro da comunicação que a congrega com as mulheres dos outros militares. Tem pesadelos, sonha com a queda de aviões, cada telefonema de Michael é o alívio possível, o que se passa lá longe, a partir de Duchambé, dos Mirages que bombardeiam ou abastecem, ela pouco ou nada sabe, mas não deixa de ver o noticiário internacional e sabe que Cabul é uma capital ameaçada. É uma espera feita de telefonemas, é uma comunicação sincopada, é um acordar e adormecer à espera de notícias, o ciclo de comunicação de Michael é o de produzir informação, inócua quanto ao serviço, personalizada quanto ao seu estado de espírito e dos camaradas.

Como é evidente, as histórias de Álvaro e Binta são relativamente acessórias às vidas de Michael e Paula que se movimentam em paralelo. Não vamos aqui contar qual é o segredo de Álvaro, o importante é que Binta é o amor da sua vida, estão constantemente a adiar a sua viagem a Bissau, querem lá ir em 2009, mas quinze dias antes de partirem Nino Vieira é assassinado, o casal volta a adiar o regresso à terra em que se conheceram e que mudou as suas vidas. Tânia Ganho termina assim o seu livro: “Dizem que o amor é cego, mas é a paixão que não vê defeitos e incoerências. O amor é lúcido, vê as falhas e as contradições e, apesar disso, subsiste”.

Quando, em finais de Agosto de 1970, viajei no Carvalho Araújo, a caminho de Lisboa, conheci um alferes que vinha com a sua esposa libanesa, um amor construído e consolidado em Bafatá, tanto quanto me recordo. Às vezes pergunto-me por onde andará aquele casal, como também me pergunto por andam, passadas estas décadas, as crianças que conheci em Bambadinca, fruto de amores efémeros. Há dias, telefonei ao Fodé Dahaba, a propósito do estado do cemitério de Bambadinca, onde estão os restos mortais de três camaradas nossos. Ele insistiu que eu devo voltar, rever tudo, há ainda gente que pergunta por mim, ainda há vários soldados vivos que nunca esqueceram o nosso tempo. Ele tem razão. Eu queria ver se regressava, em nome da lucidez do amor que lhes guardo. E aproveito para agradecer à Tânia Ganho em ter posto a Binta de Bambadinca no seu último romance. E digo com orgulho que agradeço em nome do blogue.

Este livro irá pertencer ao blogue, por direito próprio.
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 6 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5774: Notas de leitura (63): Salgueiro Maia (2): Guidaje numa descrição digna do Apocalypse Now (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P5776: Estórias de Jorge Picado (11): A minha passagem pelo CAOP 1 - Teixeira Pinto (VI): Acompanhando visitas no Chão Manjaco

1. Mensagem de Jorge Picado (ex-Cap Mil da CCAÇ 2589/BCAÇ 2885, Mansoa, CART 2732, Mansabá e CAOP 1, Teixeira Pinto, 1970/72), com data de 31 de Janeiro de 2010, dirigida ao nosso Blogue:

Amigo Carlos
Envio-te mais uma composição, sobre algumas das actividades desenvolvidas no CAOP 1*.
É capaz de ser um pouco longa, com as fotos que junto, mas, com a tua experiência, decidirás como melhor fazer.

Abraços para todos e desculpa-me por mais este trabalhito "á borliú".
Jorge Picado


ACOMPANHANDO VISITAS NO CHÃO MANJACO

Constituindo o CAOP 1 um dos “baluartes” da política “Uma Guiné Melhor”, do então GG e ComChefe, estava, por conseguinte, “transformado” numa das mais importantes, se não mesmo a mais importante, “sala de visitas” daquele TO.

Assim, os jornalistas e políticos, adidos militares e outros altos funcionários de várias nacionalidades, convidados por Portugal a tomar conhecimento e observar, com os próprios olhos, o que se fazia pelas POPs e como estas viviam “em paz e harmonia” connosco – justificando assim a guerra que nos era imposta por quem, não tendo razão, apenas queria desestabilizar e impedir o desenvolvimento dos nativos que apenas desejavam continuar a ser Portugueses e usufruir do bem que estes lhes proporcionavam – passavam praticamente todos pelo “Chão Manjaco”.

Normalmente, após um “briefing” restritivo à área – no seguimento do mais geral que lhes tinha sido apresentado em BISSAU – existia um programa, mais ou menos longo de acordo com o tempo de permanência disponível e com a personalidade em questão e, se bem que direccionado, procurava-se dar satisfação aos desejos dos visitantes.

Estando a minha actividade ligada aos assuntos da ACAP/POPs, como já referi em escritos anteriores, uma das funções de que estava incumbido era tratar da logística, diligenciando para que as respectivas unidades fornecessem a segurança, assegurassem os transportes e providenciassem para que os locais a visitar estivessem “conformes” e os contactos assegurados, acompanhando quase sempre “esses visitantes”.

Socorrendo-me das anotações que fiz, parcas, como também já tive oportunidade de dizer quando da minha apresentação, incompletas e algumas quase já indecifráveis, decidi agrupá-las e enviá-las, para conhecimento dos camaradas e com a esperança de que algumas, ao serem lidas por alguns daqueles que pertenciam aos efectivos que nesse período actuavam naquela área, lhes recordem estas actividades.

Reportando-se ao período de MAIO/71 a JANEIRO/72, estiveram envolvidas pelo menos, já que não especifíco aquelas cuja missão era a protecção aos trabalhos da estrada Bachile-Cacheu:

- CCS e CCaç 2660 do BCaç 2905; CCS, CCaç 3459 e CCaç 3461 do BCaç 3863, sedeadas em T. Pinto;

- CCaç 2637 em T. Pinto e Chulame, CCaç 3327 em Bassarel;

- BCaç 3833 no Pelundo e respectivas CCaç 3306 no Jolmete, CCaç 3307 no Pelundo e CCaç 3308 em Có;

- possivelmente certos GComb de várias CCaç (2789, 2790, 2791, 3328) dependentes do BCaç 2928 sedeado em Bula.

Eis o que me resta, chamando desde já a atenção para a grafia dos nomes estrangeiros, uma vez que não os copiei de documentos, mas os anotei de ouvido.


MAIO/71

No dia 7, meu terceiro dia nesta unidade, iniciei-me com a visita dum estrangeiro – por ventura uma visita rápida, já que não consta qualquer indicação de localidade – Dr. Wilensky, Arg., A? ?d, F. Milit.

Perante as anotações simbólicas que precedem o nome seria, muito provavelmente, de nacionalidade Argentina e Funcionário Militar –Arg., F. Milit – mas não relaciono agora a simbologia intermédia – A…d – uma vez que era o diminutivo de 2 palavras, em que a 1.ª começava por A com mais 2 letras riscadas – a ultima das quais provavelmente um v? – e a 2.ª começa por uma letra maiúscula – igualmente riscada – seguida do d.

A 8, visita de “Bob” – E.U., F. Emb. EU. Era um americano, provavelmente civil, de diminutivo “Bob” – Robert? – e funcionário da Embaixada – muito naturalmente em Lisboa – que se deslocou ao PELUNDO para observar “in loco” a nova política dos reordenamentos.

De 19 a 21, acompanhamento duma equipa de fotografia e cinema do PIFAS constituída por 3 elementos: José Ribeiro (militar ou civil?); 1 Fur.; 1 soldado.

No 1.º dia, após a recepção e delineamento do programa andou-se apenas em TEIXEIRA PINTO.

No 2.º dia começou-se com filmagens e fotos dos trabalhos na estrada para o CACHEU e prosseguiu-se com recolhas em BATUCAR e CAIÓ.

Caió 1-71

Caió 2-71

Caió 3-71

Batucar 1-71

Batucar 3-71

Batucar 4-71

Batucar 5-71
Fotos: © Jorge Picado (2010). Direitos reservados.


Estas 7 fotografias, que quase com toda a certeza se referem a “encenações” preparadas para estas filmagens. As 3 primeiras foram obtidas em CAIÓ, segundo anotação no verso das mesmas, mas as outras não sei se são desta povoação ou de BATUCAR.

Muito gostaria que os camaradas que “me acompanharam nesta deslocação, bem assim os que estavam estacionadas nestas povoações” aparecessem, para com base em elementos visíveis, identificassem melhor as mesmas. Na marcada com Caió_3_71, há lá muitos militares a assistir e, nas Batucar_1,_4 e_5, há edifícios que devem ser suficientes para identificar por quem lá esteve estacionado vários meses.

Finalmente no 3.º dia, foi-se para e PONTA LUIS CABRAL, já nas imediações do Rio Mansoa, onde se deram por finalizados os trabalhos e regressando a equipa a BISSAU.

Nestes trabalhos recolhiam imagens da paisagem, estradas, caminhos, povoações, casas construídas nos aldeamentos ou melhoradas, benfeitorias diversas de uso colectivo – Postos Escolares, Postos Sanitários, recuperação de bolanhas – tudo “embelezado” com as POPs “muito sorridentes” e as declarações de agradecimento dos chefes de tabanca, material necessário para a composição dos documentários promocionais.


AGOSTO/71

A 19, três dias depois de regressar de férias da Metrópole, participei na visita dum Adido Militar Americano, Cor Bloom(?). Quando se tratava de pessoal militar, privilegiava-se mais a parte operacional e as actividades de APSICO que as tropas desenvolviam, não só nos trabalhos de Eng.ª – reparação e mesmo abertura de caminhos –, mas também na Saúde – consultas e tratamentos efectuadas pelo Pessoal Militar nos Postos Sanitários – e na Educação – aulas dadas por militares transformados em Professores nos Postos Escolares Militares.

A 27 houve uma visita do Secretário-geral – Ten Cor ou Cor(?) Pedro Cardoso –, do Funcionário Superior da Administração Ultramarina, para a Agricultura – Eng.º Agrón.º Vinício Marques(?) –, do Director(?) dos Serviços de Veterinária – Dr. Sales – e do Intendente(?).

Depois duma sessão de trabalho no CAOP, seguiu-se uma ida ao chamado Porto de T.PINTO, à Escola Secundária – designada por Ciclo –, à Casa do Enfermeiro e ao Depósito(?) – de quê, não sei – seguindo-se para o PELUNDO e depois para BULA. Daqui eles regressaram a BISSAU e nós à sede.

Cais do Porto de TEIXEIRA PINTO
Foto: © Jorge Picado (2010). Direitos reservados.



Esta foto, que não está datada, pode referir-se ou não à visita destas individualidades neste dia. De qualquer modo, pelo aparato que se vê, não se refere a um dia normal, mas antes “festivo”.

Como se pode verificar, havia um cais feito de pedra e argamassa de cimento para a acostagem dos navios de cabotagem e militares, bem como uma rampa de acesso para colocação e recolha dos botes de borracha militares – e não só – e que permitia a acostagem das lanchas de desembarque que assim podiam embarcar e desembarcar viaturas e outras cargas.

Neste dia estava atracado um barco local de cabotagem e, a este, uma lancha de desembarque pequena (LDP) vendo-se ainda um bote de borracha dos Fuzos. Note-se que não era um dia normal, pois aparenta haver muita animação no cais, já que além dos militares, alguns até em calções de banho – o que não constituía surpresa visto que, quando de folga, aproveitavam para “brincar” na água –, vêm-se muitos nativos – crianças, homens e mulheres, algumas de guarda-sol aberto, lá bem no fundo – cuja presença daquele modo não se me afigura justificável pelo simples facto de haver um barco de cabotagem ali acostado. Como mera curiosidade sobressaem várias bicicletas e motorizadas – pertença do pessoal nativo – meios de transporte muito vulgarizados por aquelas bandas.


SETEMBRO/71

Em 19, recebeu-se a visita do Deputado Inglês do Partido Conservador, Ian Sproat, a quem se proporcionou o habitual “briefing” e uma volta pela vila, seguindo depois para PELUNDO onde almoçou. Após um rápido passeio pela localidade, seguiu-se para JOLMETE. Aqui se jantou e pernoitou junto das NT aí aquarteladas, podendo assim o visitante tomar conhecimento com as precárias condições a que as NT estavam sujeitos e o seu grau de isolamento numa zona onde existia um importante “corredor de trânsito IN” para abastecimento do CHURO-COBOIANA.

Em 28, depois de regressar pela manhã(?) a TEIXEIRA PINTO com o súbdito de Sua Majestade Britânica, após o almoço acompanhei um fotógrafo da REP/ACAP a BAJOPE, CHUROBRIQUE, BINHANTE e PELUNDO, para mais uma sessão de recolha de fotos promocionais.


OUTUBRO/71

Em 19, chegou a TEIXEIRA PINTO, na coluna de regresso de BISSAU, Sheike Sabidou, um Chefe Religioso(?) da Mauritânia, para contacto com os naturais deste concelho. Não ficou a sua estadia a cargo do CAOP 1, pois creio ter ficado a expensas do Chefe da Tabanca dos Mandingas da povoação, mas as deslocações para fora ficaram a cargo do Agrupamento.

No dia 24 realizou-se uma sessão na sede do Clube local – FC TEIXEIRA PINTO – pelas 10H, na qual ele falou para a população local. Evidentemente que assisti, no âmbito das funções que me competiam.

A 25, segui às 8H30M para o PELUNDO, acompanhando o Sheike Sadibou e respectiva comitiva, apresentando-o ao respectivo Comandante Militar.

Da visita desta Entidade Muçulmana da Mauritânia, guardo cópia de uma informação que elaborei e que, antes das férias do passado verão remeti para publicação no Blogue. Como naturalmente ficou perdida no imenso porão segue agora naturalmente.

Remeto em anexo o rascunho, com as correcções efectuadas antes da apresentação ao meu superior, Maj Lobo da Costa, da informação respeitante à VISITA DUMA ENTIDADE MUÇULMANA DA MAURITÂNIA AO CHÃO MANJACO.

Na perspectiva de não ficar legível o documento, transcrevo-o.

Em 18OUT71 o CAOP 1 foi informado telefonicamente por um oficial da REP ACAP (COMCHEFE) da vinda do SHEIKE SADIBOU na coluna de 19OUT.

Em 20OUT pela manhã, apresentou-se neste Comando o civil SHERIFO BALDÉ solicitando uma viatura para aquela entidade, não sabendo explicar qual o fim a que se destinava. Na ausência do Snr. Administrador, foi o mesmo acompanhado ao Snr. Secretário da Administração a quem foi exposto o assunto, sendo-lhe comunicado que deveria o referido SHEIKE SADIBOU apresentar-se na Administração para, ao mesmo tempo que apresentaria cumprimentos à entidade civil se providenciar para a resolução da sua petição.

Pouco tempo depois, apresentou-se no CAOP 1 a individualidade em causa, acompanhado de ALADJE INJAI – Chefe da Tabanca dos Mandingas – que vinha apresentar cumprimentos e solicitar viatura. Na ausência do Exm.º Comandante e na impossibilidade do Chefe do EM, nesse momento em reunião de trabalho com os empreiteiros da estrada, foi recebido pelo OF. APSIC.

Desta conversa há a salientar o seguinte:

- a viatura destinava-se apenas ao transporte do SHEIKE SADIBOU de casa à Mesquita (cerca de 100 m);

- comunicou-se-lhe que a administração facultar-lhe-ia a viatura, mas devia dirigir-se ao Snr. Secretário;

- relutância da individualidade em assumir tal atitude, declarando que apenas tinha de contactar com as Autoridades Militares. Posteriormente verificou-se que não foi à Administração;

- foi-lhe comunicado que as suas deslocações para fora de T.PINTO ficariam a cargo deste Comando.

Em 21 OUT cerca das 0830 o chefe Mandinga, ALADJE INJAI, esteve neste Comando a informar e a convidar para assistir a uma reunião que teria lugar no largo da Missão do Sono. Ficou combinado que mandaria avisar quando a população estivesse reunida, não o fazendo, apesar de posteriormente se ter tido conhecimento de que se realizou a referida reunião.

Em 22OUT à tarde, o Snr. Administrador compareceu com o SHEIKE SADIBOU e Homens Grandes Muçulmanos, sendo recebido pelo Exm.º Comandante, tendo ficado planeado o seguinte:

- 231500OUT cedência de 2 jeeps para uma visita ao Régulo da COSTA DE BAIXO;

- 240800OUT sessão na sala de cinema do Clube de T.PINTO;

- 250830OUT transporte do SHEIKE SADIBOU e Homens Grandes Muçulmanos ao PELUNDO;

- 26OUT transporte do SHEIKE SADIBOU do PELUNDO para BULA.

Posteriormente foi alterada a ida para BULA, que passou a ser na coluna de 29OUT.

Em 241000OUT realizou-se a sessão atrás indicada em que estiveram presentes o Snr. Administrador do Concelho, um Delegado do CAOP, o Rev. Padre FAUSTINO e o Régulo BATICÃ FERREIRA. A palestra proferida durante cerca de 1H45M pelo SHEIKE SADIBOU em marabu e traduzida para crioulo foi integralmente gravada, tendo abordado os seguintes tópicos:

- necessidade e importância de escolarização;

- necessidade do trabalho para desenvolvimento dos povos;

- alusão à união e adesão de todos na colaboração do esforço feito pelo Governo da Província para elevar a população da Guiné;

- igualdade dos sexos no trabalho e responsabilidades no desenvolvimento da sua terra;

- afinidades das religiões católica e muçulmana;

- aspectos puramente religiosos islâmicos;

- novas referências ao trabalho efectuado pelo Governador da Província;

- finalizou com a formulação de preces para que sejam concedidas Bênçãos a todos quantos trabalham no esforço de desenvolvimento da Guiné Portuguesa.

Em 250830OUT foi conduzido ao PELUNDO pelo Delegado do CAOP 1 que o apresentou ao Comandante Militar.

Segundo informações do Comandante do BCaç 3833 a visita ao PELUNDO decorreu bem, sendo na reunião realizada abordados os mesmos assuntos da de T.PINTO.

Assinado: JMSPicado
Cap.Mil.”


Conforme escrevi à mão no canto superior direito, esta informação foi transcrita na Nota n.º ? de 27OUT71 dirigida à REPACAP.

Quando refiro na informação “Delegado do CAOP 1”, só posso estar a referir-me a mim próprio, pois se assim não fosse acrescentaria o Posto respectivo.

Não me peçam mais pormenores, por que não os poderei fornecer. Se este papel não tivesse “sobrevivido”, apenas podia dizer que no dia 24OUT71, um domingo, tinha havido aquela sessão e no dia seguinte tinha ido para o PELUNDO às 8H30M, acompanhando o visitante.

Em 28, chegada do jornalista Francês, Phillip Marcovici, do jornal Combat, que nesse dia foi submetido ao tratamento de costume, na sede.

No dia seguinte (29) seguimos para BINHANTE, CHUROBRIQUE e para os trabalhos na estrada BACHILE-CACHEU.

A estadia deste jornalista prolongou-se até 1NOV, tendo-o acompanhado em 31OUT e 1NOV, como consta da Agenda, mas sem a indicação de locais. Porquê. Mero esquecimento ou teria permanecido em T.PINTO? Tenho imensas dúvidas que assim fosse, pois na sede, a permanência mais prolongada, quando muito só para dormida, já que os dias tinham de ser aproveitados para acções promocionais…

Entretanto, o Sheike Sadibou que devia ter seguido para BULA a 26 afim de continuar com a sua “endoutrinação”, só o fez neste dia, ficando entregue aos cuidados do BCaç respectivo, mas já sem a minha companhia.


NOVEMBRO/71

A 6, chegada de outro jornalista, o Português Santana da Mota, correspondente do jornal brasileiro Estado de S. Paulo. Não deve ter saído da sede…

A 9, mais um jornalista Português, Redondo Júnior, chefe de redacção de O Século. Passou por CHUROBRIQUE, BACHILE e PELUNDO, onde almoçou.

A 10, visita de Neil Bruce, Inglês, correspondente do jornal The Economist e Prof. de Ciência Política e História Contemporânea da U.I. Keele. Também não assinalei localidades!

A 22, nova visita, agora do Brigadeiro Inglês e jornalista, Michael Calvert, que também era Prof. de História (?).

Este visitante deslocou-se, pelo menos, à frente de construção na estrada para o CACHEU, cujos trabalhos se situavam, na altura, algures entre o BACHILE e CAPÓ.

Participei nesta deslocação em deficientes condições de saúde, em consequência duma grave intoxicação alimentar sofrida no almoço da véspera, um domingo, que constava de sardinhas de conserva. Por ter sido o primeiro a ser servido fui o único afectado, pois assim que engoli a primeira e única garfada dei o alerta de possível deterioração uma vez que o gosto era horrível. Alguém, não posso precisar quem, apenas colocou uma muito pequena porção na língua, confirmou e ninguém mais tocou naquela comida. Cerca de 2 horas depois os efeitos apareceram, ficando com o corpo em estado deplorável com uma urticária quase total e comichão insuportável. “Não fui desta para melhor”, como é costume dizer-se, mas fiquei mal, acabando por seguir na coluna do dia seguinte, terça-feira 23, para o HM em BISSAU, onde fiquei internado.


DEZEMBRO/71

Em 22, visita do jornalista Português, Metzener Leone, que se deslocou a CHUROBRIQUE e ao BACHILE.


JANEIRO/72

A 17, deve ter sido o último acompanhamento duma visita, neste caso do jornalista Português do Diário Popular, Botelho da Silva, bem como de uma Sub-inspectora dos Serviços de, Educação ou Saúde?

Durante a tarde houve deslocação, pelo menos da Sub-inspectora, a BAJOPE e BINHANTE, não sei se o jornalista acompanhou ou foi para outro destino, mas nesta data já andava perfeitamente fora de mim, assoberbado com a tarefa de regularizar a minha situação militar, uma vez que o Comandante do CAOP, Cor Rafael Durão, me tinha confirmado que me “passaria a guia de marcha” nos primeiros dias de Fevereiro, mesmo sem substituto.

E por agora já chega.
Jorge Picado
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 13 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4681: Estórias de Jorge Picado (9): A minha passagem pelo CAOP 1 - Teixeira Pinto (V): Passeio fluvial pelos rios Baboque e Mansoa

Vd. último poste da série de 25 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5339: Estórias de Jorge Picado (10): Como fui a Fátima a pé, comandando a CART 2732

sábado, 6 de Fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5775: Efemérides (44): O desastre de Cheche, 41 anos depois(José Martins)

1. Mensagem de José Marcelino Martins* (ex-Fur Mil, Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2010:

Caríssimos
Junto texto, sujeiro às fixações que acharem oportunas.

Um abraço
José Martins




O Che-Che ainda está presente!

6 de Fevereiro de 1969 / 6 de Fevereiro de 2010

41 anos depois


O Luís Graça, em telefonema de hoje, lançou-me o repto. Voltar a escrever sobre o desastre do Che-Che que, ainda que lateralmente, vivi intensamente!

De imediato pensei, não escrever, mas procurar no blogue referências ao acontecido.

Encontrei, creio, a minha primeira participação no blogue. O tema era o Desastre do Che-Che, e das baixas que causou.

24 Outubro 2005 > Guiné 63/64 - CCLVII: A contabilidade dos mortos na operação de retirada de Madina do Boé

Caro Luis Graça:

Ví no blogue-fora-nada o texto sobre a retirada de Madina do Boé (1). Na realidade morreram nesse desastre quarenta e sete homens, apesar da maioria das referência apontar para 46. Efectivamente a 47ª vítima era um caçador nativo (2), pelo que não consta das estatísticas militares.

Sei do que se passou, dado ter sido eu, na altura, Furriel de Transmissões da CCAÇ 5, de Canjadude (3), a proceder ao levantamento dos desaparecidos, junto de cada companhia, e de ter redigido a mensagem que foi enviada, momentos depois, para todos os escalões superiores.
Em nota de rodapé, registe-se a preocupação dos sobreviventes, traduzida na tentativa de enviar TELEGRAMAS, para avisar a família de que se encontravam bem. Não foi enviada nenhuma mensagem/telegrama, dado que, mesmo que transmitidos para o batalhão os enviar depois via Marconi, seriam fatalmente censurados no percurso (4) (5).

Um abraço do camarada
José Martins

_____________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 2 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre de Cheche, na retirada de Madina do Boé (1969)

(2) Presumo que o autor do texto quer dizer soldado africano de um Pelotão de Caçadores Nativos, tropa regular, embora de recrutamento local, que deve ser confundida com as milícias.

(3) Vd. Carta da Guiné (1961). Na zona leste da Guiné, hoje região do Gabu, entre Nova Lamego (hoje Gabu) e Cheche (ou Ché Ché), na estrada Nova Lamego-Madina do Boé que atravessa o Rio Corubal precisamente em Cheche, sítio onde se deu a tragédia que vitimou os 47 militares.

(4) Madina do Boé tem um significado mítico tanto para nós, que fizemos a guerra colonial, como para os guerrilheiros do PAIGC. Depois da nossa retirada, o aquartelamento, abandonado e armadilhado pelas NT, terá sido imediatamente ocupado pelos sitiantes.

(5) Em Julho de 1973, o PAIGC realiza em Fulamor, a oeste de Madina do Boé, o 2º seu Congresso. E, finalmente, em 24 de Setembro de 1973 é ali proclamada a Independência Unilateral da Guiné-Bissau pelo PAIGC, sendo Luís Cabral eleito Presidente do Conselho de Estado.

__________________

Antes, em 2 de Agosto de 2005, tinha sido publicado o post

02 Agosto 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre de Cheche, na retirada de Madina do Boé (5 de Fevereiro de 1969)

1. Este documento, que me chegou às mãos através do Humberto Reis, relata a dramática operação em que participou a CCAÇ 2405, sedeada em Galomaro, e pertencente ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), operação essa que tinha em vista retirar as NT da posição insustentável de Madina do Boé, cercada pelo PAIGC (e depois ocupada logo a seguir, no mesmo dia, a 6 de Fevereiro de 1969, após a retirada das NT).

Na passagem do 37º aniversário desta infausto acontecimento, escrevi “Madina do Boé – Contributos para a sua história”, que veio a ser publicado, em três partes;

18 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1292: Madina do Boé: contributos para a sua história (José Martins) (Parte I)

15 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1370: Madina do Boé: contributos para a sua história (José Martins) (Parte II)

21 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1388: Madina do Boé: contributos para a sua história (José Martins) (III parte)

Jangada para travessia do Rio Corubal, no Che-che.
© Foto de José Azevedo Oliveira, com a devida vénia.


A foto acima, da autoria do ex-Furriel Miliciano Oliveira (CCaç 5, que esteve destacado no Che-Che integrado num grupo de combate), é a anterior à que sofreu o acidente.


Muito foi escrito pelos camaradas que, directa ou indirectamente, estiveram ligados ao acontecimento ou ao local.

8 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2819: Lista dos militares portugueses metropolitanos mortos e enterrados em cemitérios locais (4): 1968-1973 (Fim) (A. Marques Lopes)

Guiné-Bissau > Região de Bafatá > 1 de Março de 2008 > O Rio Corubal, visto da margem direita, junto ao Saltinho... Neste rio (o único verdadeiro rio da Guiné, segundo dizia o Amílcar Cabral), morreram afogados 46 militares portugueses das CCAÇ 1790, CCAÇ 2405 e outras unidades, além de um civil guineense, no dia 6 de Fevereiro de 1969, na travessia junto ao Cheche, na sequência da evacuação de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios). Nenhum dos corpos foi recuperado (1).


O nosso camarada Armandino Alves, que esteve em Madina do Boé e em Beli, dois dos vértices do “Triângulo do Boé”, também escreveu



14 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4518: Controvérsias (19): Sob a evacuação das NT de Madina do Boé (Armandino Alves)

15 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4533: Controvérsias (20): A minha análise pessoal do desastre com a jangada no Cheche, na retirada de Madina do Boé (Armandino Alves)

O Armandino Alves foi 1.º Cabo Enf da CCAÇ 1589 (1966/68), em Beli, Fá Mandinga e Madina do Boé, apresentou um comentário em 13 de Junho no poste:

Guiné 63/74 - P2984: Op Mabecos Bravios: a retirada de Madina do Boé e o desastre de Cheche (Maj Gen Hélio Felgas †), que merece ser poste:

Também os que chegaram depois do acontecido, vieram a observar o que o acidente influenciou os que iam chegando ao teatro de operações:

1 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5745: José Corceiro na CCAÇ 5 (2): A primeira saída para o mato (1ª parte)

"- Tu chegaste hoje, dia 13 sexta-feira, e amanhã vais logo para o Cheche, onde há quatro meses perderam a vida perto de meia centena de militares (47), isto não é, convém que se diga, uma colónia de férias, para vires com discos e gira-discos na bagagem. Isto aqui é a guerra amigo e não vais ter propriamente vida facilitada, até porque os nossos graduados não são flor que se cheire, as surpresas, não vão ser glico-doces para o teu lado.

Houve, inclusivamente, empenho festivo para receber com a dignidade possível e agradecimento merecido, os martirizados heróis que deixavam Madina de Boé. Eu sou testemunha ocular que passados 4 meses após a infausta tragédia, existirem ainda a cerca de 1km de Canjadude, na picada que liga ao Cheche, fachas de pano passadas de árvore a árvore, por cima da picada, onde se podiam ler coisas como: “Canjadude saúda-vos”.

Pelo menos 1 ou 2 dessas fachas estavam por lá e só a acção do tempo as destruiu. Assim como haviam algumas folhas de palmeiras atadas nas árvores, ao longo da picada, como que a saudar e louvar os heróis. É lógico que os indícios preliminares de festividade deixaram de ter sentido após a aziaga tragédia.

Creio que ainda há história para contar, sobre a martirizada companhia que esteve e fechou Madina de Boé. Aqui não me alongo mais porque não fui testemunha.

Presto a minha homenagem pessoal a estes heróis, os que ficaram e os que partiram.


Também recordo que, na página de “ultramar.terraweb.biz” há texto sobre o acontecimento, com especial chamada para “Madina de Boé - 47 Militares morreram no Rio Corubal” que apresenta diversos recortes de jornal, com entrevistas a sobreviventes.

Termino como terminei a primeira parte do meu texto já citado, com os parágrafos que antecediam o nome de cada um dos HERÓIS/MARTIRES:

Naquela tarde de 6 de Fevereiro de 1969, o Corubal roubou, a todos e a cada um de nós, quarenta e sete amigos e camaradas, dos quais, poucos viriam a ser encontrados e sepultados nas margens do Rio Corubal.

É com emoção, que quando falo ou escrevo sobre este tema, me curvo perante a memória daqueles que não voltaram, me perfilo em continência e os meus lábios murmuram uma oração.

José Martins
5 de Fevereiro de 2010
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 31 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5734: Ser solidário (53): Que muitas Runas se levantem (José Martins)

Vd. último poste da série de 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5768: Efemérides (43): 4 de Fevereiro de 1961, O princípio da Guerra Colonial (José Marques Ferreira)

Guiné 63/74 - P5774: Notas de leitura (63): Salgueiro Maia (2): Guidaje numa descrição digna do Apocalypse Now (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) , com data de 29 de Janeiro de 2010:

Carlos e Luís,
Aprende-se toda a vida, foi a lição que tirei deste texto.
Posso agora perceber a força daqueles versos do Manuel Alegre, no elogio ao Salgueiro Maia: “Ficaste na pureza inicial /do gesto que liberta e se desprende /Havia em ti o símbolo e o sinal /havia em ti o herói que não se rende”.

Um abraço do
Mário


Salgueiro Maia:
Guidage numa descrição digna do Apocalypse Now


Beja Santos

Salgueiro Maia recebe ordens de ir apoiar a abertura do cerco a Guidage. Em 26 de Maio chega a Binta com uma companhia desfalcada, estão lá três capitães, pouca comida e há que dividir as munições por todos. Não há um só oficial superior para comandar a operação. Começa aqui a sua descrição:

“No dia 29 de Maio, pelas 5 horas, iniciámos a abertura do itinerário Binta-Guidage. Cerca das 10 horas, ao ser picada, foi accionada uma mina anti-carro, de que resultou um morto (ficou somente com um bocado do tronco, pois o resto desapareceu), um furriel cego e dois feridos ligeiros. Foi ordenado ao pelotão a que pertenciam as baixas para, em dois Unimogs, fazer evacuação para Binta, onde a companhia local os evacuaria para Farim e daqui para Bissau, por já não haver evacuações aéreas no local, devido à existências de mísseis terra-ar. O pelotão que fez a evacuação aproveitou a oportunidade e não voltou, como lhe tinha sido ordenado, e assim ficámos com menos duas viaturas e cerca de 30 homens. Talvez para que o mau exemplo não se espalhasse, esta deserção colectiva em frente do IN, apesar de constar do relatório da operação, não originou qualquer procedimento disciplinar”. A progressão faz-se a corta-mato, com algumas viaturas à frente, os cunhetes vão abertos, prontos a utilizar: este regime em self-service ir-se-á revelar providencial. Prova que o PAIGC mudara de táctica e queria levar o cerco de Guidage até às últimas consequências a que cada um dos seus homens armados levada dois a três carregadores para o substituir. Pelas 12 horas, as forças do PAIGC começaram a atacar a coluna, foram repelidos várias vezes. As tropas de Salgueiro Maia estão sem água, há homens desmaiados, felizmente que a coluna de reabastecimento de Bissau ia progredindo. Mais adiante, na região de Ujeque, do corta-mato passou-se para uma antiga picada, tentou-se progredir por aqui, arrebentou uma nova mina debaixo de um Unimog 404, um soldado milícia ficou sem uma perna. Mais adiante conseguiu-se contacto com o destacamento de fuzileiros retido em Guidage. Pelas 19 horas entraram em Guidage que tinha um aspecto irreal. Dá-se de novo a palavra a Salgueiro Maia:

“O chão estava lavrado por granadas, as casas, todas atingidas, pareciam ruínas, os homens viviam em buracos, luz e água não havia... como que para nos cumprimentar, pelas 21 horas somos flagelados por um morteiro de 82, com as granadas a cair em grupos de cinco e, para cúmulo, granadas nossas de 81 mm, das capturadas na coluna de reabastecimentos, agora disparadas contra nós. No dia seguinte, pouco depois do alvorecer, inicia-se a coluna de regresso com o pessoal que, até à data, tinha sobrevivido e que, para além dos sofrimentos de que já padecia, deitado sobre colchões velhos, saltava como pipocas cada vez que a Berliet passava num buraco”.

E a descrição que ele faz de Guidage é perfeitamente dantesca:

“A enfermaria e o depósito de géneros tinham sido praticamente destruídos; como assistência sanitária, tínhamos um sargento enfermeiro e alguns maqueiros. O pessoal dormia e vivia em valas abertas ao redor do quartel. Esporadicamente, errava-se por lanços por entre os edifícios ou o que deles restava. Como dormir no chão não é muito agradável, na primeira oportunidade passei revista aos escombros e tive sorte: descobri dentro de um armário que tinha pertencido a um alferes madeirense que ficou sem uma perna uma farda nº 3, o que me permitiu lavar o camuflado e, como prenda máxima, um bolo de mel e uma garrafa de vinho da madeira quase cheia e inteira no meio de tudo partido. Com isto fiz uma pequena festa com três ou quatro homens, porque era perigoso juntar mais gente. Nesta altura pensei em, depois de regressar a Bissau ir ao HM 241 saber quem era o alferes para lhe agradecer tão opíparo banquete, mas tal não foi possível e ainda hoje tenho esse peso na consciência.

Nas minhas visitas pelos escombros, desci ao abrigo da artilharia, onde houvera quatro mortos e três feridos graves. O abrigo fora atingido em cheio por uma granada de morteiro 82 com retardamento; a granada rebentou a meio de uma placa feita com cibes; o resto do abrigo ficou totalmente destruído; o chão tinha um revestimento insólito – consistia numa poça de sangue seco, cor castanha com 2 a 3 mm de espessura, rachada como barro ressequido. O odor envolvente era um pouco azedo, mas sem referência possível; o sangue empastava os colchões e as paredes. A minha preocupação era encontrar um colchão. Depois dar volta aos oito que lá se encontravam, escolhi o que estava menos sujo. Tirei-lhe a capa, mas o cheiro que emanava de dentro era insuportável; mesmo assim, consegui trazê-lo para a superfície, onde ficou a secar debaixo da minha vigilância, para não ser capturado por outro. Depois de bem seco e com os odores atenuados, levei a minha conquista para a vala, onde, para caber, tive de o cortar ao meio, fazendo bem feliz o meu companheiro do lado que, sem esforço, ganhou um colchão, e sem saber de onde ele tinha vindo”.

Assim foram aqueles tempos em Guidage: sem horas para comer, com arroz e salsicha ao jantar, o resto estava desfeito, enquanto se comia caiam à volta morteiradas para ninguém se esquecer que se estava em guerra.

Esta descrição, dura e crua, bem devia ser apresentada nas escolas, para se ter uma imagem da bestialidade da guerra que se desenvolvia na Guiné. Tenho encontrado muitos relatos sobre a violência, a crueldade, o horror das matanças, das perseguições, o caos das populações no meio de tanta destruição. Julgava que “Kaputt”, de Curzio Malaparte, tinha lá tudo o que o demónio da guerra comporta, o inumano, o truculento, os muitos medos desavindos, imprevistos. Salgueiro Maia ensinou-me que há sempre surpresas, basta, como lhe aconteceu, ter saído de Binta para Guidage, aquele inferno inesquecível de Maio de 1973. Um relato para a história, até para se perceber como aquele homem tinha razão fundada em ter chegado ao Largo do Carmo, naquele dia 25 de Abril.
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5763: Notas de leitura (62): Salgueiro Maia (1): Crónica dos Feitos por Guidage (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P5773: Parabéns a você (77): José Belo, se o calor da nossa amizade chegasse a Kiruna, a tua Lapónia era o Alqueva (Os Editores)



Suécia > Lapónia > Kiruna > Tabanca da Lapónia > 4 de Fevereiro de 2010 > O trenó do José Belo no dia de anos... Ninguém escreveu ao Capitão!... Falhou a Operação Apaga a vela, ó Zé!

"Vou tentar apresentar o mais frequentemente possível notícias locais, para que os Lusitanos saibam o que se vai passando a, só, 140 kilómetros do Círculo Polar Ártico. Coisas exóticas , tipo esta foto, quando pela manhä se procura o.....automóvel!

"Nos últimos dias, temperaturas quase Estivais! Os termómetros subiram dos 37 graus negativos para os 17 graus negativos. A partir de agora a luminosidade aumentará de 4 minutos por dia. Com isto quero dizer que estamos a passar das 24 horas de escuridão para um......aumento gradual do lusco-fusco até, dentro de alguns meses, vir a atingir as 24 horas de luz diária do tão falado Sol-da-Meia Noite.

"Para as donas de casa informo que está a haver uma acentuada subida dos precos da carne de rena (a tal, só com 4% de gordura e 24% de proteínas) devido a uma diminuição  do número de animais abatidos em relação  ao ano passado.Em 2009 foram abatidas 54.000 e no ano transacto  71.000.

"De acordo com as declaracoes do Sr. Lars-Ove Jonsson, porta voz do Parlamento Autónomo Lapão, este facto deve-se a um considerável aumento do número de predadores (lobos,ursos e linces).Foram estabelecidas cotas de ursos a serem abatidos (60),e lobos (80).

"Já agora,e por curiosidade,são abatidos anualmente em todo o País 70.000 (!!!!) alces para manter um equilíbrio na espécie.COMPREENDO QUE É COISA QUE VOS NÃO INTERESSA LÁ MUITO mas...não deixa de ser erótico! (Perdão, EXÓTICO!).-

"Gostaria de lembrar a todos os AMIGOS e CAMARADAS que a Tabanca da Lapónia-Lusitana (LIVRE) está aberta de par-em-par à muito bem vinda colaboração de todos" (...).

Fonte: Blogue do José Belo > Tabanca da Lapónia  (com a devida vénia...)


1. O José Belo [foto à esquerda, soba mira de um snipper...] faz aninhos no dia 4 de Fevereiro. O mesmo é dizer, que hoje ainda é  infante... A Op Apaga a Vela, ó Zé!, que deveria ter sido devidamente planeada e executada, abortou.  Ou melhor: nem sequer constava do mapa de operações. A cadeia de comando falhou de alto a baixo: do major de operações ao cabo radiotelegrafista, não havia sinais de vida... Por acaso, o general fizera uma ronda, pelo telefone, a partir de Lisboa, do Estado-Maior do Regabofe, e apanhou o major, em casa, a 300 quilómetros (!), com os trolhas da caserna a remodelar-lhe as casas de banho!... Uso e abuso de poder! Desvio de homens e, quiçá!, de materiais!... É coisa para Tribunal de Guerra!

Mas o mais grave, é que deixou o Cap José Belo sózinho com as suas renas, em Kiruna, a 140 km do objectivo, que era chegar primeiro que a concorrência  ao Círculo Polar Ártico!... De derrota em derrota, como vamos ganhar a guerra ? E ainda para mais com a ampulheta do tempo a despejar os grãos de areia, que emperra as máquinas e dão cabo dos neurónios dos homens...

Zé: No final, não houve festa de arromba, como tu querias... Ou nem é isso: apenas as palavrinhas de apreço e reconhecimento: Missão cumprida, capitão! Parabéns!... Enfim, lá apagaste as velas, triste, e mais velho, com tuas renas, mudas e quedas... No teu iglô faltou o calor humano da Tabanca Grande. E, como é pior a emenda do que o soneto, não te vamos dar os parabéns requentados... Por que, como diz o Álvaro de Campos, há coisas que não se podem servir nem comer frias, a dobrada à moda do Porto, o amor, a amizade:

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,

Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. (...)

Vamos só dizer-te que já ganhaste, há muito, o nosso apreço, estima, amizade e camaradagem. Acredita: se o calor da nossa amizade pudesse chegar a Kiruna, tu a estas horas estavas com os pés de molho nas águas tépidas do Alqueva!...

Vamos, pois,  desejar-te que continues em forma, embora sempre sempre com saudades da tua terra natal e da boa gente que lá tens. A Op Apaga a Vela, Zé! vai ser montada e fica pronta para ser executada em qualquer dia do ano, sob o melhor dos pretexto, que és tu, grande lapão lusitano, espécie raríssima do nosso bestiário!...

A gente da Tabanca Grande vai runir-se, pela 5ª vez, talvez em Maio... Se cá estiveres, vais de certo aparecer para a gente finalmente se conhecer ao vivo, tirar a tua pinta, marcar-te, abraçar-te e nunca mais te esquecer no dia de anos e dos restantes 364 dias do ano... A vinculação, no nosso blogue, também passa por estes rituais: o tabanqueiro é como o filho da zebra que, ao nascer, se não  fixar logo instantaneamente o código de barras da mãe, está tramado, morre trucidado no meio de um milhão de patas.

Zé, no teu caso, acredita, essa do provérbio "Longe da vista, longe do coração",já não se aplica... Afinal, estamos tão perto uns dos outros, ao alcance de um clique... O que pode acontecer, é andarmos "desenfiados", como aconteceu ao Maior deste... Temos que repor a disciplina da caserna!...Na tropa, não há desculpas nem se pede desculpas, dá-se porradas...Aqui tens a palmatória... e a nossa mão!

Luís Graça

PS - Apreciamos também, de sobremaneira, o teu tão especial humor luso-lapónico...Temos as orelhas a arder... Mas deixa-me dizer-te: o Carlos Vinhal é o melhor major de operações que eu jamais conheci... E olha que eu trabalhei com dois batalhões... e vários senhores majores.

2. Aqui segue, para memória fitura (que a gente aprende com os erros e também sabe dar a mão à palmatória!) o folhetim das mensagens abortadas:

2.1. Do luso-lapão José Belo, de Kiruna com camaradagem e amizade (?), 5 de Fevereiro de 2010:~

Caros Camaradas e Amigos(?).

Há desgostos e........DESGOSTOS! Os que me conhecem pessoalmente sabem que, definitivamente, não sou....dessas coisas.

Quando me pediram a data do meu aniversário pensei pelo menos quatro vezes (e para mim é muito!) antes de colaborar. Não será por acaso que decidi aqui viver isolado tantas décadas. Regressado do CALOR AMIGO da Tabanca do Centro (que ainda sinto no coracão), sentei-me ontem, rodeado por uma manada de renas expectantes, frente ao computador, para em conjunto com elas apagar as "velinhas" do bolo de aniversário.............Nada!

As renas, extraordinariamente silenciosas devido à solenidade do momento (e só lhes digo que uma manada de renas faz mais barulho que um debate na Assembleia da República!) só abanavam a cabeça, por não me atrever a escrever...os cornos!

Enfim....lá lhes tive que explicar o tão antigo ditado Lusitano....."Longe da vista......" E, quando já estava disposto a um compromisso sentimental entre o "bolo com velinhas" ou um simples prato com "coubinhas cozidas"......chegou a meia-noite.

Hoje está mais escuro ,e mais frio, nesta Tabanca da Lapónia. Um abraço do José Belo.

2.2. Do nosso major de operações, Carlos Vinhal (entre outros programas, o responsável pelo "Parabéns a você", que é um caso de sucesso) (*):

Caro José Belo

Estou de rastos, sinceramente. Não tenho palavras para me justificar a não ser que neste momento estou atolado de coisas de ordem pessoal para resolver.

Por outro lado sou estúpido por querer assumir coisas que podia dividir com os meus camaradas que de boa vontade me ajudavam, mas sou assim e não há volta. Eles ainda trabalham e a minha intenção é não sobrecarregá-los.

Falhei contigo, ia falhando com outro camarada que faz anos amanhã, ia falhando com o Brás que faz anos no dia 10, e com o José Teixeira que faz anos também a 6. Repara que estes dois, como tu, não fazem parte da lista.

Esqueci-me completamente de registar os últimos dados que me foram enviados. Não tenho justificação.

Com a força da tua razão, foste no entanto acutilante ao dizer longe da vista, longe do coração. E o Zé Teixeira que ia passando, não fosses tu dar o alerta? Não saberás, mas ele sabe-o, tenho por ele uma consideração enorme, mas isso não impede vir ao de cima os meus limites.

Se não te importares, vou publicar a tua mensagem e esta minha resposta na série Dando a mão à palmatória, para que não fiquem dúvidas que no Blogue não há, nem haverá, tertulianos ordenados por qualquer critério objectivo ou subjectivo.

Não sabendo mais que te dizer para que me perdoes, desejo-te o melhor da vida e quero que fiques na certeza de que, se o calor da nossa amizade chegasse à Suécia, não haveria neve nessas paragens.

Este mail, segue com conhecimento dos meus camaradas Eduardo e Luís.

Um abraço amigo para ti do,

Carlos Vinhal

_____________

Nota de L.G.:

(*) Vd. último poste da série: 6 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5772: Parabéns a você (76): José Teixeira, ex-1.º Cabo Enfermeiro da CCAÇ 2381, Mampatá, 1968/70 (Editores)

Guiné 63/74 - P5772: Parabéns a você (76): José Teixeira, ex-1.º Cabo Enfermeiro da CCAÇ 2381, Mampatá, 1968/70 (Editores)

Hoje, dia 6 de Fevereiro de 2010, acrescenta mais um ano de vida, o nosso camarada José Teixeira, que foi 1.º Cabo Enfermeiro na CCAÇ 2381, Mampatá, nos anos de 1968 a 1970.

Ao Zé, desejamos um feliz dia de aniversário, como ele merece, junto de sua esposa e filhos, assim como da restante família e dos numerosos amigos que tem.

Que a tua vida seja tão longa quanto possível, não só por ser bom sinal para ti, mas porque tens muito para dar aos outros.



Falar de José Teixeira parece fácil e no entanto é muito difícil.

Trata-se de um ser humano que tem como divisa fazer bem ao próximo. Como se entende então que tenha ido para a tropa e para a guerra? Por sorte e acaso, tirando a melhor Especialidade que lhe permitia fazer o bem, o de Enfermeiro. Se em momento combate a sua acção se dirigia a socorrer os seus camaradas de armas, e por que não o próprio inimigo, no aquartelamento dedicar-se-ia ao bem estar das populações, especialmente jovens mães e respectivos filhotes. São inúmeras as sua estórias onde o seu humanismo é evidente, seja na acção de enfermeiro, seja no relacionamento puro e simples com os naturais.

Sendo um dos fundadores, ou pelo menos, um dos elementos mais antigos da Tabanca de Matosinhos, quis, ele e outros companheiros que os encontros das quartas-feiras fossem mais do que isso. Se bem pensaram, melhor fizeram, e hoje a "Tabanca Pequena, Grupo de Amigos da Guiné-Bissau", é já uma realidade. Seria injusto não falar neste momento de Álvaro Basto, outro elemento activo desta novel Associação, cujos Estatutos e primeiros Corpos Gerentes foram votados em Dezembro passado, aquando do jantar de Natal que a Tabanca de Matosinhos promove.

O seu espírito de solidariedade não se fica pela "Tabanca Pequena, Grupo de Amigos da Guiné-Bissau". Há umas semanas atrás foi visualizada uma sua entrevista na televisão, aquando do imenso frio que se fazia sentir na Cidade do Porto, porque integrava uma equipa de apoio aos sem abrigo. Estas acções são efectuadas durante a noite, chova ou faça sol, enquanto a esmagadora maioria de nós está no quentinho dos lençóis. Trabalho que não acaba e não tem visibilidade. Perfeitamente anónimo, não fosse o acaso televisão andar à procura de notícia e ir acompanhá-los naquela noite. Vindo o calor, só o Zé e os seus amigos continuarão a sua tarefa. Quanto à televisão, talvez os volte a acompanhar para o ano.

Não vamos publicar fotografias do Zé exibindo armas mortíferas. Se em tempos foi publicada uma no nosso Blogue, logo o Teixeira se aprestou a esclarecer-nos que aquilo era pose, pois sempre se recusou a levar para o mato, além do equipamento de enfermeiro, qualquer tipo de arma.

Aconselho vivamente a que procurem no lado esquerdo da nossa página os marcadores/descritores "José Teixeira", "Estórias de Zé Teixeira", "Tabanca de Matosinhos" e "Ser solidário". Se lerem a muita colaboração que o Zé tem neste Blogue, não darão por mal empregue o tempo que perderam, perdão, que ganharam.


Como diria o nosso Torcato Mendonça, aqui ficam estas fotos falantes:













__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 6 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5771: Parabéns a você (75): Fernando Franco, ex-1.º Cabo do Pel Int 9288, Guiné 1973/74 (Editores)

Guiné 63/74 - P5771: Parabéns a você (75): Fernando Franco, ex-1.º Cabo do Pel Int 9288, Guiné 1973/74 (Editores)

1. Todos os anos, no mês de Fevereiro, mais propriamente no dia 6, há festa rija em casa do nosso camarada e meu particular amigo Fernando Franco.
Está-se mesmo a ver que neste dia, desde há muitos anos (e por muitos mais ainda, assim desejamos), se festeja o seu aniversário.


Como todos os que não pertecem ao grupo dos S.Exa. tem o Franco uma porcaria de idade, coisa que o tempo vai curar, não tarda muito.

Que o Fernando, a Guida, seus filhos e a minha favorita Mafaldinha, passem um dia pleno de alegria. Estão de parabéns também os pais do nosso camarada, felizmente ainda entre nós.

É minha convicção que a tertúlia subscreve os meus votos, porque estamos perante um camarada, que não participando muito, escrevendo, nos lê e nos acompanha nos Encontros Anuais, desde o memorável na Ameira, em 2006.

Vamos em frente camarada, mesmo que nos vão tirando uma ou outra peça, que acaba por nem fazer falta. Um abraço colectivo para ti.


Há inúmeras fotos do Fernando, mas acho que estas são significativas da sua presença, em corpo e alma, onde deve estar, junto dos camaradas.


Fernando Franco em Bissau

O grande Fernando Franco acompanhado de uns pequenos habitantes da tabanca local.

Lisboa, 10 de Junho de 2007. Fernando Franco acompanhado de Vacas de Carvalho, à esquerda da foto e de Hugo Moura Ferreira à direita. De referir a presença de uma senhora na foto, cuja identidade desconhecemos.

Fernando Franco e António Baia, num convívio com camaradas da Intendência.

Ameira 2006. O Encontro dos Encontros. Fernando Franco, que julgo se ter dirigido ao Blogue pela primeira vez, precisamente para falar deste Encontro, escuta com a maior atenção o nosso baladeiro/fadista, grande camarada e amigo, Vacas de Carvalho. Na foto, algumas das senhoras presentes. De azul, Alice, a esposa do Chefe Luís. Este apontamento é só para ver se tenho aumento de ordenado.

II Encontro da Tertúlia em Pombal. Estava previsto o ataque pelo flanco esquerdo, daí a barreira, mas o fotógrafo surpreendeu o Fernando pela frente. Este é o momento em que ele se delicia com um leite-creme.

III Encontro da Tertúlia em Ortigosa. Foto curiosa de três barbas, ou peras, bem marcadas pela contagem do tempo. Os sempre presentes Fernando Franco, David Guimarães e Carlos Marques Santos.

IV Encontro da Tertúlia em Ortigosa. Franco, que nunca faltou a um Encontro, tendo ao seu lado esquerdo a Guida, companheira de uma vida.


Aqui ficam os poste do Fernando Franco que foi 1.º Cabo no Pel Int 9288, nos anos de 1973/1974:

20 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1195: Ameira: O nosso encontro fez-me bem à alma (Fernando Franco)

16 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1283: Os nossos intendentes, os homens da bianda (Fernando Franco / António Baia)
e
Guiné 63/74 - P1284: A Intendência também foi à guerra (Fernando Franco / António Baia)

20 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2462: Convívios (38): Minitertúlia da Intendência / Administração Militar, Belém, Lisboa, 18 de Janeiro de 2008 (Fernando Franco)

26 de Fevereiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3943: Sr. jornalista da Visão, nós todos fomos combatentes, não assassinos (5): Quero exprimir a minha revolta (Fernando Franco)

18 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4370: O mundo é pequeno e o nosso blogue... é grande (10): Reencontrei o meu Comandante (Fernando Franco)
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5762: Parabéns a você (74): Mário Silva Bravo, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 6, Bedanda 1971/72 (Editores)

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5770: Núcleo Museológico Memória de Guiledje (15): Um visita virtual (Parte II)








Guiné-Bissau > Região de Tombali > Guileje > Núcleo Museológico Memória de Guiledje (*) > Fotos (sem legendas) enviadas pelo nosso amigo Pepito >  Reconhecem-se, nas primeiras quatro imagens, documentos relativos à presença portuguesa:  (i) a célebre foto aérea tirada pelo José Neto, em finais de 1967, quando a unidade de quadrícula de Guileje era a CART 1613 (1967/68);  (ii) espólio doado pelo Cap Mil Abílio Delgado, comandante da CCAÇ 3477, Os Gringos de Guileje; (iii) objectos diversnas encontrados nas ruínas do aquartelamento (incluindo 1 pistola, 1 lata de conservas, pratos de alumínio) ...

Fotos: © Pepito / AD - Acção para o Desenvolvimento (2010). Direito reservados

___________

Nota de L.G.:

(*) Vd. último poste desta série > 5 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5769: Núcleo Museológico Memória de Guiledje (14): Um visita virtual (Parte I)

Guiné 63/74 - P5769: Núcleo Museológico Memória de Guiledje (14): Um visita virtual (Parte I)






Fotos (sem legendas) que nos chegaram da AD - Acção para o Desenvolvimento, a ONG de Bissau a quem competiu a concepção, a construção e a montagem do Museu Memória de Guiledje, com diversos apoios, incluindo, da parte portuguesa, a importante colaboração técnica da Fundação Mário Soares (com destaque para os Drs. Alfredo Caldeira e Vitor Santos). Do lado da AD, deixem-me mencionar aqui dois nomes: Pepito e Domingos Fonseca... Sem a sua paixão por Guileje (e pelo seu país), esta ideia nunca se teria concretizado.

Em termos individuais, o Museu também é devedor a uma série de antigos combatentes portugueses que doaram peças e sobretudo centenas de fotos e documentos (seria injusto citar alguns e esquecer outros)... Injustíssimo seria também omitir o nome do Nuno Rubim, o capitão fula (como era conhecido pela população local), o grande investigador de Guileje (seguramente o maior),   é o autor que concebeu e executou o diorama do quartel de Guileje, além de outros materiais documentais que passam a figurar no Museu.  Enfim, refira-se igualmente o papel, mais discreto, do nosso próprio blogue que desde finais de 2005 tem vindo a acarinhar e apoiar esta ideia.

O espaço do Núcleo Museológico, além do museu, integra ainda a Capela e a Mesquita (*).
__________

Nota de L.G.:

quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5768: Efemérides (43): 4 de Fevereiro de 1961, O princípio da Guerra Colonial (José Marques Ferreira)


1. O nosso Camarada José Marques Ferreira, ex-Sold. Apontador de Armas Pesadas da CCAÇ 462, Ingoré - 1963/65 -, enviou-nos a seguinte mensagem, com data de 4 de Fevereiro de 2010:

Camaradas,

Estava eu de volta do teclado, quando me apercebi que hoje, dia 4 de Fevereiro, é uma data que se salienta, por estar conotada com o início dos movimentos de libertação (assim designados), pela autodeterminação e independência africanos, nos quais se incluíam os territórios sob administração portuguesa.

Sendo assim, envio este meu modesto contributo de forma a que ainda vá a tempo de se incluir no «blogueforanadaevaotres».

Melhor dizendo, vão mais que três. Muitos...

E assinalo a data com as estórias dos infelizes falecimentos de dois camaradas da CCaç 462.

4 de Fevereiro de 1961
O princípio da Guerra Colonial

O dia 4 de Fevereiro de 1961, é a data em que se assinala de «forma oficial», o início da Guerra Colonial, em Angola, em que Portugal se viu envolvido durante 13 anos. Pouco tempo depois foi a vez do início das hostilidades na Guiné e em Moçambique.
Foram anos duros, que marcaram pela negativa toda uma geração de jovens, com repercussões que ainda hoje influenciam muitas das suas vidas e dos seus estados de saúde.

Eu entrei nessas fileiras, donde muitos viriam a desertar, em Janeiro de 1963 (já expliquei tudo em anteriores postes no blogue).
O que é certo, é que em Julho de 1963, desembarquei na Guiné, e, durante dois anos, não sofri muito, mais pela sorte que me tocou, que por muitos outros factores. Regressei em Agosto de 1965, tendo chegado a Lisboa em 14 do mesmo mês, num navio que passou sob a recém acabada de construir ponte, a que chamaram Salazar, e, que em 1974, foi rebaptizada para ponte de 25 de Abril, que se mantém ainda hoje.

A minha unidade militar (uma companhia), dormiu nesse dia da chegada em Lisboa e, ao outro dia por volta das sete da manhã, embarcou de comboio em direcção a Chaves, onde tinha decorrido a sua instrução e formação.

O BC 10 (Batalhão de Caçadores 10, agora denominado Regimento de Infantaria de Chaves), foi uma das unidades militares que preparou e «forneceu» muito pessoal para a dita Guerra Colonial.

Percebe-se hoje porquê. Como outras Unidades Militares ainda existentes pelo país, a sua geografia local, a flora, os trilhos, os caminhos, etc. eram perfeitamente propícios ao treino de ambientação militar para a guerra de guerrilha em África.

Chaves, tinha tudo para a preparação de militares deste conflito. Aliás, as especificidades da guerra de guerrilha africana, era novidade então surgida no mundo (tal como é agora o terrorismo).

Fenómeno que surgiu, logo a seguir ao término da II Grande Guerra e cujo objectivo era a emancipação e autodeterminação dos povos de vários países.

Os tipos de acções, armadas e violentas, a que raros exércitos estavam preparados para enfrentar, de manifesta revolta contra o dominador, quando o dominado era pobre e tinha poucas possibilidades de reacção, permitia e estes últimos, mesmo com escassos recursos, a recorrer a esta via guerreira, com o intuito de provocar o desgaste físico e psíquico contínuo aos adversários e a consumir energias políticas e económicas do país dominador.

A aposta era que, mais tarde ou mais cedo, o colonizador cedesse às pressões de todo o tipo e restituísse os poderes administrativos, económicos e políticos.

Foi quase o que aconteceu com Portugal, porquanto alguns historiadores e políticos, já antes de Abril de 1974 diziam e escreviam, que as coisas, tal como estavam nas Províncias Ultramarinas, não poderiam durar muito mais. Não fosse a «revolução dos cravos», como ficou conhecido o 25 de Abril de 1974, e, na Guiné, a guerra com o PAIGC estava, no mínimo, muito complicada, havendo alguns episódios que confirmavam, no terreno, isso mesmo.

Conflitos em que morreu muito português e muitos africanos. Da minha freguesia apenas um homem faleceu (natural da Aguieira), e, pelo que julgamos saber aqui, a sua morte foi motivada por doença.

Muitas pessoas ficaram deficientes fisicamente e psiquicamente, para as suas vidas inteiras.

Da minha companhia, entre cerca de 130 militares, apenas dois faleceram.

Um foi o José Gonçalves Ruas, 1º cabo de Minas e Armadilhas, de Penude - Lamego, que faleceu em 27 de Agosto de 1964, próximo de uma localidade junto à fronteira com o Senegal (chamada Sedengal), ao ser atingido pelos efeitos de uma armadilha que estava a montar e que explodiu, atingindo-o mortalmente.

Nesse dia eu não estava em Ingoré, tinha ido ao comando de Batalhão, a Bula, e foi lá que eu soube pelos camaradas de transmissões, o que se tinha passado naquele local. Nesse mesmo dia e ao princípio da tarde, os meus camaradas da companhia, passaram em Bula a toda a velocidade em direcção a Bissau, levando o corpo do infeliz Ruas, como todos lhe chamávamos. Está sepultado ainda, segundo creio, no cemitério de Bissau, na campa 1020.

O segundo falecimento, foi o do 1º cabo atirador, Artur Branco Gonçalves, de Vilarelho da Raia - Chaves, no dia 13 de Outubro de 1964, no Hospital Militar 241, em Bissau, para onde fora evacuado de helicóptero, por motivo de doença. Está também sepultado em Bissau na campa 1108, admito. A doença que o vitimou, embora eu não tenha a certeza, terá sido uma úlcera gástrica, que, certamente, pelo seu estado, já não foi a tempo de qualquer intervenção cirúrgica.

Esta e outras efemérides, estou certo, não se apagarão, mesmo depois de desaparecerem todos os protagonistas que nela participaram, durante aqueles treze anos.

A este assunto voltarei mais tarde.

Os meus cumprimentos para toda a tertúlia desta Grande Tabanca,
J.M. Ferreira
Sold Ap Armas Pes
____________
Nota de M.R.:

(*) Vd. último poste da série em:

Guiné 63/74 - P5767: Contraponto (Alberto Branquinho) (5): Nojo, ou um alferes descomposto

Mais um texto para a série Contraponto, enviado pelo nosso camarada Alberto Branquinho (ex-Alf Mil de Op Esp da CART 1689, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), ao Blogue no dia 1 de Fevereiro de 2010:


CONTRAPONTO (5)

NOJO

Era a segunda vez que o alferes ia almoçar àquela tabanca fula, a convite do Bacar e do Jau, soldados do seu pelotão.

Feitos os cumprimentos às várias mulheres e depois de umas brincadeiras com a garotada, estava o alferes a passear pela morança com os dois soldados, quando as mulheres começaram a chamar para o almoço.

Balaios e alguidares esmaltados estavam já colocados no interior de um círculo de esteiras, colocadas no chão batido. Arroz, muito arroz, peixe miúdo da bolanha em molho de palma, galinha em pequenos pedaços e condimentos.

As mulheres ficaram do lado da casa, com as crianças. No lado oposto o alferes, no meio dos dois soldados nativos. Todos sentados no chão, com as pernas cruzadas, em cima das esteiras e por baixo do telheiro, também feito de esteira.

Começou o almoço e a conversa. As mulheres deram indicações sobre comida e temperos e os homens passaram-nas, em crioulo, ao alferes.

Falaram sobre a última operação, sobre os outros militares, sobre os vizinhos, enquanto as mulheres algaraviavam entre elas, no meio gargalhadas.

Comiam fazendo as habituais bolas de arroz com a mão direita ou esquerda (ao jeito de cada um), que, depois, uma a uma, eram molhadas nos condimentos dos alguidares mais pequenos, acrescentadas do conduto, depois mordidas, mastigadas, engolidas. Toda a gente conversava em fula, excepto quando os soldados falavam com o alferes em crioulo.

As mulheres tinham que se levantar continuamente para obrigar as crianças mais pequenas e fugidias a dar as suas dentadas na bola de arroz ou a petiscar pequenas doses, agarradas entre o polegar e o indicador.

A meio do almoço o alferes notou uns risos abafados e brejeiros de duas ou três mulheres à sua frente. Logo a seguir um dos rapazes, com cinco ou seis anos, levantou-se e colocou-se atrás delas. Com ar enojado e mantendo sempre a sua bola de arroz na mão, começou a olhar o alferes no rosto e, alternadamente, para as pernas. Depois começou a cuspir, cuspir, cuspir para o chão, ao mesmo tempo que limpava, com os pés, as cuspidelas do chão.

O alferes olhou para as suas pernas e viu que o testículo esquerdo se tinha libertado do controle das cuecas e assomava, curioso, espreitando para fora dos calções. Discretamente levantou-se, arrumou o indiscreto como pôde e… tudo voltou ao seu lugar.

O almoço decorreu sem mais incidentes.
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 31 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5573: Contraponto (Alberto Branquinho) (4): Desenraizado

Guiné 63/74 – P5766: Estórias do Tomás Carneiro (2): Rotinas em Jugudul


1. O nosso Camarada Tomás Carneiro, ex-1.º Cabo Condutor da CCAÇ 4745 - Águias de Binta, Binta, Cumeré e Farim – 1973/74, enviou-nos mais uma mensagem, com data de 3 de Fevereiro de 2010:

Olá Camaradas,

Dando continuidade aos meus escritos sobre a minha passagem pela Guiné, aqui vai mais um fragmento das minhas memórias.


Depois de passada a 1ª noite dentro do arame em Jugudul, no 2º dia recebemos ordem de “despejo” e toca a mudar o acampamento, para junto de uma casa que ficava ao lado do quartel.

Diziam que a instalação era uma escola, não tinha portas nem janelas, mas lá montamos a “barracada” de novo.

Durante o dia tínhamos visto uma cobra, cujo comprimento não tinha mais que 30 centímetros. Esquecemos a raio da bicha nas ocupações rotineiras, mas, já noite serrada (nós dormíamos em colchões insufláveis), ouvimos qualquer coisa que fazia um “barulhão” e logo nos assaltou a comum e inquietante fobia às desgraçadas das cobras. Então para semear melhor a confusão e o pânico, alguém gritou: “Cobra”, e logo começou um alvoroço diabólico, com o pessoal a revirar os tarecos todos, mas não encontramos nada vivo nem rastejante.

Quanto à segurança nesse acampamento, fora do arame, não me lembro se a tínhamos montada, ou não!

Por ali ficamos uma temporada, trabalhando de dia no quartel de Polibaque, onde havia muita coisa para fazer, como o forno cozinha e o corte e preparação dos bidões para os banhos do pessoal.

A água íamos buscá-la ao rio Jugudul e a areia para as obras tirávamo-la do mato em frente à porta de armas do aquartelamento de Jugudul, e, enquanto 5 ou 6 homens carregavam a viatura, outros 2 ou 3 garantiam a segurança. Imaginem se aparece-se o IN nestes momentos!

Com o decorrer dos trabalhos da frente da estrada Jugudul/Bambadinca, foram empregues muitos trabalhadores Guineenses, que era preciso transportar de, e, para as suas casas no Dugal e em Mansoa.

Esta tarefa dividia-me entre dois quartéis, porque tinha que dormir todos os dias em Jugudul, para levar o pessoal nos dias seguintes para o trabalho. Nessas andanças, travei boas amizades com alguns dos nativos locais.

A princípio eu tinha algum receio de circular a toda a hora sozinho com os nativos, muitas vezes sem qualquer segurança, mas eles diziam-me que não havia problema e até chegaram a oferecer-me cervejas, como prova dessa amizade.

De tempos a tempos transportei cibos já cortados, para obras nas suas moranças e, algumas vezes, cheguei a transportar caçadores com as suas peças de caça, que, em compensação, sempre me davam um naco de carne para fazer apetitosas petiscadas.

Com o Carnaval à porta recordo-me de uma cena. A “ferrugem” tinha comprado uma cabrita, para preparar uma petiscada que ficou combinada para a segunda-feira (ao fim da tarde), antes do Carnaval. Eu ainda estava nas obras da estrada e não sabia se se trabalharia nessa terça-feira. Disseram-me que sim e fiquei danado.

Vi os tabuleiros a serem preparados para irem ao forno e fiquei chateado por ter que ir, mas lá fui de muito má vontade. Lembro-me que nesse dia me desloquei a Mansoa e quando regressei a Jugudul, me disseram que afinal não se trabalhava no dia de Carnaval.

Peguei na arma, saltei para a viatura e pus o motor a trabalhar. Comecei a rolar devagarinho, para ninguém perceber o que eu ia fazer e saí do quartel. Depois foi pé na “chapa” e toca a “voar” até ao Polibaque. A noite começou a cair rápida e, com os faróis nos médios, lá segui até reencontrar os meus camaradas, que ficaram admirados comigo e com a estória que lhes contei deste “desenfianço”. Enfim lá petiscamos no meio de grande convívio, algazarra e satisfação.

Quando acabamos a refeição disseram-me que tinha correio na secretaria e desloquei-me para lá, mas ao atravessar a parada, que ainda era larga, senti mesmo ao meu lado, um grande rebentamento. Atirei-me de imediato de cabeça para o chão, mas acabei por verificar que afinal era o obus local, que estava a bater a zona. Levantei-me e fui então ao correio.

Já na estrada, de volta a Jugudul, ainda ia com o “coração nas mãos”. Hoje, penso que não repetiria tal doidice, mas, com os 21 anitos de então, até deu para isso e muito mais que viesse…

Na foto vê-se a barraca dos mecânicos.

Um Abraço desde o meio do Atlântico,
Tomás Carneiro
1º Cabo Cond CCAÇ 4745

Foto: © Tomás Carneiro (2009). Direitos reservados.
____________
Nota de M.R.:

Vd. primeiro poste desta série em:

Guiné 63/74 - P5765: Blogoterapia (144): Que estou eu aqui a fazer? (Joaquim Mexia Alves)

1. Mensagem de Joaquim Mexia Alves*, ex-Alf Mil Op Esp/RANGER da CART 3492, (Xitole/Ponte dos Fulas); Pel Caç Nat 52, (Ponte Rio Udunduma, Mato Cão) e CCAÇ 15 (Mansoa), 1971/73, com data de 1 de Fevereiro de 2010:

Meus caros camarigos editores
Espero que o Luís esteja já recomposto do aniversário!
É que são muitos anos já, e devem doer a fazer!!!!

Aqui vai um texto, que em certa medida foi inspirado pela leitura do texto do camarigo Torcato.

Como sempre fica à vossa disposição para arquivo na "cesta" secção, ou para publicação.

Depois acusem-me a recepção, por favor.

Com o meu abraço camarigo para todos
Joaquim Mexia Alves


QUE ESTOU EU AQUI A FAZER?

Que estou eu aqui a fazer?
Que calor é este tão intenso que sinto e que humidade é esta que se me agarra ao corpo de tal modo que tudo em que eu pego me fica colado às mãos, me fica colado à pele?

Há quanto tempo aqui estou, e quanto tempo falta ainda para me ir embora?

Devo fechar os olhos e sair daqui por uns momentos nas asas do pensamento que me leve a Monte Real, que me leve a Lisboa, ou é melhor ficar assim de olhos abertos, para não me deixar levar por ilusões?

Mas o que é que faço aqui?

Porque me chamam Alferes, porque vêm ter comigo pedindo-me autorização para tanta coisa?

O que eu queria era ser médico!
Não tem nada a ver com isto!

Mas como é que raio eu vim aqui parar?
Mas eu tinha como certo que só acontecia aos outros! Eu tinha como certo que a mim ninguém chamaria para isto?
Mas que raio de coisa é esta que me acontece?

Sim, está bem, eu tenho este corpo alto, mas ainda sou menino!
Como podem colocar em mim a responsabilidade das vidas daqueles homens todos?
Alguns até são casados, valha-me Deus, e com filhos!

E depois vêm de quando em vez pedir-me conselhos!
Então e o que é eu, menino estudante, (pouco é certo), muito pouco calejado da vida, posso dizer a cada um?

O problema é que nos olhos deles eu vejo que confiam em mim!
Valha-me Deus! Em mim!

Mas eu sou ainda um pouco menino de casa dos pais. O que sei eu da vida, a não ser gozar com a vida!

E depois isto de andar de arma ao ombro não tem nada de heróico!
Quando brincava às guerras isto tinha muito mais graça, não morria ninguém e os bons ganhavam sempre!
E quem é que raio são os bons?

Lembro-me até, (onde raio tinha eu a cabeça), de ter um certo orgulho em vir para a guerra!
Pois é, mas a verdade, verdadinha, é que afinal nesta coisa guerra morre gente, e também há gente que fica estropiada para o resto da vida, uns fisicamente e outros mentalmente.

Basta ver, já andam por cá alguns que não estão muito certos da cabeça!
Se calhar eu também não!

O que estará o meu pai a fazer agora? E a minha mãe? E os meus irmãos? E os meus amigos?
Nem sei já se é tempo de Verão ou de Inverno, com o calor que por aqui faz!
Apetecia-me adormecer e só acordar no fim disto tudo.

Mas gaita, se já em Lisboa eu dormia mal, quanto mais aqui com este calor e o estupor dos mosquitos que parecem hordas de japoneses em Pearl Harbor!

Voltarei vivo? E todo inteiro?

Porra, os olhos! Os olhos é que não! Um braço, sei lá, uma perna, mas os olhos não! Sem olhos não, mato-me!

Bem, já estás a divagar que nem um tonto!
Deixa-te lá dessas merdas que só te chateiam ainda mais e não resolvem a ponta dum corno!
Endireita-te, abre bem os olhos e dá uma ordem qualquer:

- Ó Festas, traz lá outra cerveja!!!

Monte Real, 1 de Fevereiro de 2010

Nota:
O Festas era o “barista” da messe de oficiais no Xitole.
As fotografias e o texto do Torcato, levaram-me a ir recordar as minhas fotografias.
Deparei com esta, tirada no Xitole, nos idos de 1972, e pus-me a falar com ela e ela comigo.

__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 6 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5599: Blogues da Nossa Blogosfera (31): Tabanca do Centro (Joaquim Mexia Alves)

Vd. último poste da série de 2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5748: Blogoterapia (143): Pensar em voz alta: Colonialismo... jamais... jamais... (Torcato Mendonça)

Guiné 63/74 - P5764: Recortes de Imprensa (22): Guiné-Bissau de Colónia a Independente, de José Gregório Gouveia no Tribuna da Madeira (José Paradela)




Chegou até nós, via mensagem de 31 de Janeiro de 2010, do Arquitecto José Paradela, ilhavense, amigo do nosso camarada Jorge Picado e do nosso editor Luís Graça, um recorte do jornal "Tribuna da Madeira", fazendo a apresentação, a duas páginas, do livro "Guiné-Bissau de Colónia a Independente" de autoria de José Gregório Gouveia que foi Fur Mil Enf.º da CART 1525.


Foto retirada do site do "Tribuna da Madeira", com a devida vénia


"Guiné-Bissau de Colónia a Independente" de José Gregório, está disponível na página da CART 1525, em: http://www.cart1525.com/


Também, com a devida vénia ao jornal "Tribuna da Madeira", aqui fica a Biografia de José Gregório Gouveia:

Biografia do Autor


José Gregório Gouveia tem 65 anos, é casado, advogado e natural da Calheta. Prestou serviço militar na Guiné, integrado na CART 1525, nos anos de 1966 e 1967, depois de fazer o Curso de Sargentos Milicianos (1964/65) na Escola Prática de Cavalaria de Santarém e o 2.º Ciclo do CSM na Especialidade de Enfermeiro no Hospital Militar de Lisboa.

Após o regresso do ultramar, em 1968, foi sucessivamente funcionário da Câmara Municipal da Calheta, trabalhador bancário, dirigente regional do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, dirigente do PS-Madeira e deputado na Assembleia Legislativa Regional da Madeira.

O advogado tem inúmeras colaborações com a imprensa.
Primeiro no "Jornal da Madeira" com crónicas sobre a Calheta e depois como autor de vários trabalhos no semanário "Madeira Hoje. Seguiram-se colaborações como articulista no "Diário de Notícias" e, actualmente no "Tribuna da Madeira", onde começou por subscrever a rubrica "Período Revolucionário da Autonomia" e agora uma denominada "Rosas e Espinhos da Nova Autonomia". Não é a primeira vez que Gregório Gouveia dedica-se à produção literária. O advogado publicou o livro "Madeira-Tradições Autonomistas e Revolução dos Cravos".
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 14 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5107: Recortes de Imprensa (21): Revista da Liga dos Combatentes - Homenagens aos Combatentes (Ribeiro Agostinho)

Guiné 63/74 - P5763: Notas de leitura (62): Salgueiro Maia (1): Crónica dos Feitos por Guidage (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2010:

Queridos amigos,
O Vasco Lourenço tinha razão quando me disse que estes textos do Salgueiro Maia são inigualáveis.
São mesmo, o que mais aprecio é a capacidade de ter agido com tanta dor contida, fazendo bem tanto quanto possível, de acordo com o tumulto das circunstâncias.
Não dá para perceber como estes textos não são dados às crianças que vão crescer a ignorar a guerra que fizemos.

Um abraço do
Mário


Salgueiro Maia: Crónica dos feitos por Guidage

Beja Santos

É provável que existam textos ainda mais apocalípticos, brutais e crus do que estes. Pessoalmente, não conheço nada mais violento sobre a guerra, a morte estúpida, a dor incompreensível, a dignidade humana no grau zero, do que o testemunho que Salgueiro Maia nos deixou nos textos que intitulou “Crónica dos feitos por Guidage”. É na secção “depoimentos” que faz parte do livro “Capitão de Abril, Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril”, de Salgueiro Maia (Editorial Notícias, 1994). Estamos em Maio de 1973, a comissão militar da companhia de Salgueiro Maia está praticamente no fim. Naquele dia 5 de Maio notou-se uma azáfama anormal de meios aéreos; depois um forte tiroteio, pede-se apoio aéreo, da artilharia, evacuações. Tudo aquilo partia de um destacamento onde Salgueiro Maia tinha um pelotão. Sem hesitar, o capitão avança para o destacamento. Aí, há notícia de um novo contacto com as forças do PAIGC, as nossas tropas tiveram seis mortos, há feridos graves, material abandonado, sobreviventes à deriva. Novo contacto, mais um morto e três feridos graves. Os nossos soldados permanecem no terreno, pedem auxílio. O comandante do batalhão manda avançar uma companhia em reserva para acudir aos camaradas, a companhia recusa-se a avançar. Salgueiro Maia parte em seu auxílio:

“Para quem não conheceu a mata da Guiné, é difícil explicar como se consegue ir a corta-mato com viaturas tendo de encontrar passagem por entre as árvores, os arbustos, o capim alto, as ramagens com picos e, ao mesmo tempo, seguir uma direcção certa, apesar de tentarmos ir o mais depressa possível. Depois de rotos pela vegetação e cansados de correr ao lado das viaturas, chegámos ao local de combate. Ainda pairava no ar o cheiro adocicado das explosões; os homens tinham um ar alucinado, de náufrago que vê chegar a salvação, mas, em lugar de mostrarem a sua alegria, estavam ainda na fase de não saber se era verdade ou não.

Mando montar segurança à volta da zona e pergunto pelos feridos ao primeiro homem que encontro – tem um ar de miúdo grande a quem enfiaram uma farda muito maior do que ele; parece de cera, olha-me sem me ver e aponta com o braço. Sigo na direcção apontada e depressa vejo uma nuvem de mosquitos e moscas: já sei que à minha frente tenho sangue fresco. Debaixo de uma árvore, estão estendidos cinco homens; o capim está todo pisado; alguns dos homens estão em cima de panos de tenda; à volta, estão várias compressas brancas empastadas de vermelho; o chão parece o de um matadouro, há sangue coalhado por todo o lado; a maioria do sangue vem de um dos homens que já está cheio de moscas. Dirijo-me para ele – está cor de cera e praticamente nu. Olha-me como que em prece; ninguém geme, o silêncio é total. Trago comigo o furriel enfermeiro e um cabo maqueiro. Mando-os avançar, assim como as macas. Dirijo-me ao ferido mais grave – o ferimento provém-lhe da perna. Tem em cima dela várias compressas empastadas de sangue. Tiro as compressas e vejo que o homem não tem garrote. Pergunto estupefacto por que é que não lhe fizeram um. Alguém me responde que o enfermeiro está ferido. Começo a sentir raiva”.

O dia tomba, é impossível recorrer a uma evacuação por helicóptero, os feridos são depositados nas caixas dos Unimogs. O PAIGC volta a atacar, desta vez com foguetões de 122 mm. O ferido da perna morre. Salgueiro Maia escreve: “Guardo dele uns olhos assustados a brilhar numa pele branca e seca, a ficar vazia de vida porque, em 60 homens ninguém sabia o mais elementar em primeiros socorros: fazer um garrote”.

É desolação a toda a volta, enquanto se forma a coluna para regressar a Bissau, Salgueiro Maia dá consigo a contemplar os mortos de boca e olhos abertos, com aspecto de quem não compreende nada do que aconteceu. E escreve: “Mecanicamente, tiro os atacadores das botas dos mortos, ato-lhes os queixos, ponho-lhes as mãos em cruz, os pés juntos. Com a água do cantil molho-lhes os olhos e fecho-lhes. Olho para a minha obra e também não entendo”.

O pior vem depois. No dia 22 de Maio de 1973, Salgueiro Maia e a sua companhia estão prontos para seguir para o Cumeré, parece que a comissão terminou. Mas não, têm que partir de urgência para o Norte. O PAIGC desencadeara uma ofensiva em Guidage, a guarnição estava cercada e, aparentemente, isolada. As flagelações do mês de Maio, na zona de Guidage, eram incontáveis. O PAIGC apostara numa operação de grande envergadura: trouxera mísseis terra-ar para dissuadir os meios aéreos; implantara um campo de minas anti-carro e anti-pessoal na estrada Guidage-Binta. A última coluna de reabastecimento fora atacada durante cerca de 24 horas sem interrupção, as NT retiraram abandonando mortos e viaturas, seguiram para Guidage. O comando-chefe reage com a operação Ametista Real. Uma companhia de pára-quedistas e um destacamento de fuzileiros tentam abrir o itinerário, chegam a pé a Guidage depois do destacamento de fuzileiros ter caído num campo de minas e os pára-quedistas terem sofrido uma emboscada. Salgueiro Maia recebe ordens para seguir para Binta-Farim e depois, com uma companhia africana e uma companhia de atiradores, abrir o cerco para Guidage. O relato que ele faz é uma peça espantosa.

Este livro fica a fazer parte do património do blogue. Precisei de ir à Associação 25 de Abril buscar livros para recensão, em conversa com o Vasco Lourenço veio à baila este texto sofridíssimo e de uma camaradagem sem igual. Ofereceu-me o livro, ele deve ficar em boas mãos.

(Continua)
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5758: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (3): Dois anos maravilhosos: S. Domingos, Varela, Ziguinchor, antes da guerra...

Vd. último poste da série de 3 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5753: Notas de leitura (61): Armor Pires Mota (6): Estranha Noiva de Guerra, uma obra prima à espera de reconhecimento (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P5762: Parabéns a você (74): Mário Silva Bravo, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 6, Bedanda 1971/72 (Editores)

Hoje, dia 4 de Fevereiro de 2010, está de parabéns o nosso camarada Mário Silva Bravo, ex-Alf Mil Médico na CCAÇ 6, que esteve em Bedanda nos anos de 1971 e 1972.

Ao Dr. Mário Bravo vem a Tertúlia desejar um divertido dia de aniversário, na companhia de seus familiares e amigos, na certeza de que esta data vai ser festejada durante muitos anos, não sejamos, o Mário e quase todos nós, jovens sexagenários.


O ex-Alf Mil Médico Mário Bravo, apresentou-se à Tabanca no mês de Janeiro de 2007, assim:

Meu Caro Luís Graça:
Por motivo ocasional, tive conhecimento da existência deste fabuloso movimento de memórias das gentes que estiveram na Guiné.

Fui médico (alferes miliciano) na CCAÇ 6, em Bedanda, desde finais de 1971 até aos primeiros meses de 1972.

Actualmente, com 60 anos de idade, sou ortopedista na cidade do Porto. Ainda não estou reformado, mas tenho vontade de ocupar algum do meu tempo livre a relembrar velhos tempos.

Envio duas imagens (fotos), como se pretende e aguardo as vossas instruções para o envio de outras fotos que tenho e que se referem a Bedanda, isto é, a companheiros dessa época. Por exemplo, tenho fotos do Cap Ayala Botto que, segundo li, é Coronel na reserva.

Cumprimenta
Mário Bravo


O editor do poste não sabe se o Dr. Mário Bravo ainda está em actividade, oxalá que sim, porque são precisos técnicos com experiência, principalmente ortopedistas, porque a armação é o que mais se deteriora com a idade. Eu que o diga.
Vem isto a propósito, de que, se eventualmente já tiver mais tempo disponível, está na altura de nos contar as suas vivências na Guiné. Sou fã das histórias dos militares que estiveram ligados ao serviço de saúde, porque viveram experiências ímpares, quer pela diversidade dos problemas encontrados, quer pela dificuldade e capacidade de improvisação, face às necessidade mais básicas para desempenharem as suas funções.

Do espólio fotográfico do Camarada Mário Bravo, escolhemos as fotos que se seguem:

Alf Mil Médico Mário Silva Bravo

Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 3477 (Novembro de 1971/ Dezembro de 1972) > O Alf Mil Médico Mário Bravo - ao meio, na foto - esteve na CCAÇ 6 em Bedanda, mas também ia regularmente a Guileje, no tempo do Samúdio (1.º Cabo Enfermeiro, o primeiro à esquerda).
Foto: © Amaro Samúdio (2006). Direitos reservados


Guiné > Região de Tombali > Guileje > 1972 > O Mário Bravo na porta de armas

Guiné > Região de Tombali > Guileje > 1972 > O Alf Mil Médico Mário Bravo, que pertenceu à CCAÇ 6 (Bedanda, 1971/72) ia também regularmente a Guileje, prestara assistência médica aos respectivos militares e população. Ironicamente, esta a mensagem de boas vindas - Boa viagem - com que as visitas eram recebidas.

Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > 1971/72> O Alf Mil Médico, Mário Bravo, à direita; e o Tenente Miliciano Capelão Mário Oliveira.

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > 1972 > O Alf Mil Médico Mário Bravo - o quarto a contar da esquerda, de óculos - no meio de um grupo de oficiais. O António Graça de Abreu - Alf Mil (CAOP1, Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74) - é o primeiro da esquerda.

Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > 1971/72 > Na foto, o Mário de pé, à esquerda... O grupo era o que trabalhava com ele na enfernaria... Do lado direito, de pé, está o Fur Mil Enf Dias, natural de Viana do Castelo.

Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > 1971/72 > O Alf Mil Médico Mário Bravo e o terceiro, de pé, a contar, da esquerda. Da primeira fila, à direita, segurando a bola, então Comandante da CCAÇ 6, Ayala Botto que, na Guiné, também foi ajudante de campo do Gen Spínola.

Fotos: © Mário Bravo (2007). Direitos reservados


Finalmente a listagem de postes do Doutor Mário Bravo ou a ele relativos


23 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1457: Tertúlia: Apresenta-se o Alf Mil Médico Mário Bravo, CCAÇ 6, Bedanda (1971/72)

27 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1466: Mário Bravo, médico de Guileje (Amaro Munhoz Samúdio)

28 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1467: Bem vindo a Guileje, Doutor (Mário Bravo)
e
Guiné 63/74 - P1469: Bedanda, manga de saudade ou uma dupla sinistra, o padre e o médico (Mário Bravo, CCAÇ 6)

12 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1517: Tertúlia: Com o António Graça de Abreu em Teixeira Pinto (Mário Bravo)

3 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1726: Álbum das Glórias (12): Bissau: Clube Militar, mais conhecido por Biafra (Mário Bravo)

21 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2566: Em busca de ... (21): Malta de Bedanda, do futebol e dos serviços de saúde (Mário Bravo, Alf Mil Médico, CCAÇ 6, 1971/72)

23 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2573: Futebol em Bedanda, CCAÇ 6, 1971/72 (Ayala Botto / Mário Bravo)

3 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5396: Os Nossos Médicos (10): Mário Bravo (CCAÇ 6, Bedanda, 1971/72), hoje ortopedista no Porto
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5751: Parabéns a você (73): Germano Santos, ex-Op Cripto da CCAÇ 3305/BCAÇ 3832 (Mansoa, 1971/73) (Editores)

Guiné 63/74 - P5761: Núcleo MuseolÓgico Memória de Guiledje (13): intervenção da Presidente da AD, Isabel Miranda, no dia 20 de Janeiro de 2010

Intervenção da AD - Acção para o Desenvolvimento, na pessoa da sua presidente, Sra. Dona Isabel Miranda (aqui, em foto de 5 de Março de 2008, por ocasião do Simpósio Internacional de Guiledje, Bissau, 1-7 de Março de 2008):

Exmº Senhor Malam Bacai Sanhá, Presidente da Republica da Guiné-Bissau
Exmº Senhor Carlos Gomes Junior, Primeiro-Ministro da Guiné-Bissau
Senhores Membros do Governo
Senhores Deputados
Senhores Embaixadores
Senhores combatentes da Independência da GB
Senhores Internacionalistas Cubanos
População da Guiné-Bissau, de Tombali, de Guiledje
Meus Senhores e minhas Senhoras


Bem Vindos a Cantanhez, berço da Nação Guineense!

Há 18 anos que a nossa ONG, a AD, vem trabalhando nesta zona histórica do país, tendo como permanente referência Amilcar Cabral que, para além de ser um agrónomo visionário, era também um antropólogo de profunda sensibilidade, que sempre colocou o Homem, as suas preocupações, as suas convicções e as suas percepções do mundo, no centro de todos os processos de desenvolvimento.

Com a Luta pela Independência aprendemos, entre outras coisas:

- A ter a nossa própria agenda de prioridades, baseada nas dinâmicas e vontades locais e não as que nos são impostas do exterior. Cabral dizia que "ninguém luta pelas ideias que estão na cabeça dos outros…";

- A importância de percorrer e encontrar caminhos inovadores para a solução dos problemas e desafios. A declaração da Independência da Guiné-Bissau durante a ocupação colonial foi uma decisão ímpar e única de repercussões universais;

- Que os processos mais duradouros são aqueles que são inicialmente minoritários e que vão crescendo com a adesão das comunidades à medida que provam que são viáveis e eficazes. A criação do PAIGC em 1956 por um punhado minoritário de nacionalistas, transformou-se em 17 anos numa onda gigante maioritária que nos levou à independência;

- O valor da solidariedade e entreajuda entre os actores dos processos de desenvolvimentos é determinante para ultrapassar as dificuldades, em vez de se estar sempre a queixar de falta de meios.

Meus Senhores e Minhas Senhoras,

Quando há 2 anos a AD, o INEP e a Universidade Colinas do Boé organizaram o Simpósio Internacional de Guiledje, estavam a contribuir para o reconhecimento nacional do papel único de uma geração que abdicou da sua própria vida pessoal e profissional, para criar um país, em que as pessoas fossem elas próprias, donas do seu destino promovendo os valores da gesta da libertação.

O Museu "Memória de Guiledje" é, antes de tudo, uma homenagem à geração de Cabral, a todos os que com o seu exemplo escreveram uma das mais belas páginas da nossa História. Mas é também um lugar de confluência de rios anteriormente desencontrados que hoje procuram um caminho comum.

Encontro com os militares portugueses, aqueles que, embora em campo oposto, aprendemos a respeitar pela sua coragem e capacidade militar numa luta de longa duração e que, afinal, partilham os mesmos sentimentos de amor pela Guiné-Bissau e pelo seu povo, pela sua humildade, dignidade, valentia e determinação, os quais sempre souberam distinguir o povo português do regime colonial que a ambos oprimia .

Hoje, em liberdade, reencontramo-nos com emoção, com vontade de juntar memórias, recordações, encontros e desencontros, voltar a caminhar juntos num caminho de respeito e progresso.

Saudamos a presença da Srª Julia Neto, esposa do capitão José Neto que tanto amou este canto e que tanto contribuiu para que o Museu "Memória de Guiledje" fosse um êxito. Poucos dias antes de falecer, deixou-nos o seu desejo mais profundo: "hei-de voltar a Guiledje", disse. A sua esposa, Srª Julia Neto, está hoje entre nós para realizar esta sua última vontade. Através dela saudamos todos os militares portugueses das 12 companhias que passaram por Guiledje e que quiseram deixar um pouco das suas recordações (aerogramas, fotografias, filmes, contos e narrativas).

Saudamos por fim os nossos irmãos internacionalistas cubanos que verteram o seu sangue e suor nesta Pátria de Combatentes valorosos e, na pessoa dos hoje aqui presentes, saudamos todo um povo que prossegue a sua gesta de solidariedade para com a GB nos domínios da saúde, educação e desenvolvimento do nosso país.

A AD propõe-se

(i) assegurar o funcionamento do Museu de Guiledje e perpetuar a memória histórica da luta pela independência da Guiné-Bissau no sul do país;

(ii) contribuir para criar aqui neste local a sede do Parque Transfronteiriço de Guiledje para promover a conservação e gestão correcta dos recursos naturais e humanos, em especial os Corredores de Animais Selvagens de Balana e Bendugo, fortemente ameaçados actualmente, estabelecendo uma cooperação entre as comunidades da Guiné-Bissau e Guiné-Conakry;

(iii) construir o Centro de Aprendizagem Rural, com o objectivo de formar e capacitar jovens para actividades profissionais, agrícolas e associativas: construção de poços, carpintaria, serralharia, mecânica, construção civil, energia solar, condução de pomares de fruteiras e jardins hortícolas e transformação de produtos agrícolas;

(iv) criar aqui um Pólo de Turismo Histórico com antenas nos quartéis de Cacine, Gadamael, Gandembel, Iemberém, Cadique, Cabedú e Bedanda, bem como nos acampamentos da guerrilha nas matas de Cantanhez, na Base Central e Hospital Donga.

Garantimos que a AD tudo fará para que este local dignifique o seu rico passado, valorizando o Museu, resgatando a cultura do povo de Cantanhez, assim como de mãos dadas com os agricultores, as mulheres e os jovens deste canto apoiar a seu desenvolvimento para que todos possamos dizer "A independência valeu a pena"

Obrigado

Isabel Miranda, Presidente da AD (*)

_____________

Nota de L.G.:

(*) Vd. último poste da série > 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5760: Núcleo Museológico Memória de Guiledje (12): Cerimónia da inauguração, a 20 de Janeiro de 2010, e visita, a 29, de uma delegação cubana (Pepito)

Guiné 63/74 - P5760: Núcleo Museológico Memória de Guiledje (12): Cerimónia da inauguração, a 20 de Janeiro de 2010, e visita, a 29, de uma delegação cubana (Pepito)


 Guiné-Bissau > Região de Tombali > Guileje > Núcleo Museológico  Memória de Guiledje (*) > 20 de Janeiro de 2010 > "O dia da inauguração contou com a visita do Senhor Presidente da Republica da Guiné-Bissau, Malam Bacai Sanhá, o qual recebe esclarecimentos prestados pelo Dr. Alfredo Caldeira,  da Fundação Mário Soares".


"Igualmente o Senhor Primeiro Ministro, Carlos Gomes Junior, acompanhado do Ministro da Educação Nacional, Artur Silva, [e, à direita deste, o anfitrião, o Director Executivo da AD - Acção para o Desenvolvimento , Eng. Agrónomo Carlos Schwarz da Silva,]  seguiram detalhadamente todas as secções do Museu".



"O Senhor Vice-Chefe de Estado Maior das Forças Armadas, António Indjai, acompanhado de uma forte delegação de membros das chefias militares, percorreu com interesse o Museu"



VISITA DE INTERNACIONALISTAS CUBANOS

No dia 29 de Janeiro de 2010, uma delegação de 7 combatentes cubanos, que apoiaram a luta pela Independência da Guiné-Bissau, liderados pelo famoso Comandante Móia (Victor Dreke Cruz) (**), foram expressamente a Guiledje para uma visita guiada ao Museu.




A delegação cubana em visita ao Museu...



 O Comandante Móia, chefe da delegação...


Comandante René: foi ele  que colocou as minas na estrada de Guiledje no início da operação de assalto final ao quartel.



Fotos e legendas: ©  Pepito / AD - Acção para o Desenvolvimento (2009). Direitos reservados
_____
 
Notas de L.G.:
 
(*) Vd. último poste da série > 30 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5731: Núcleo Museológico Memória de Guiledje (11): Inauguração da mesquita, almadjadja, com a presença do filho do Cherno Rachide e da Júlia Neto (Pepito)

(**) Vd. poste de 18 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P967: Antologia (51): Os combatentes cubanos ou a mística da guerrilha (Victor Dreke)

Vd. também postes de:

1 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P951: Antologia (47): Um médico cubano no Morés e no Cantanhez (Domingo Diaz, 1966/67)

24 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3090: Simpósio Internacional de Guileje: Comunicação do cubano Ulises Estrada

Guiné 63/74 - P5759: Convívios (180): Operação Coruche no dia 30 de Janeiro de 2010 (José Manuel M. Dinis)

Relatório de uma Operação nas imediações de Coruche, enviado por José Manuel Matos Dinis, em mensagem datada de 30 de Janeiro de 2010. Da referida Operação, supomos não haver registo fotográfico, porque o mesmo não nos foi facultado.


OPERAÇÂO CORUCHE

Situação:
Apetite quanto baste
Missão: Golpe de mão nas imediações de Coruche
Objectivo: Território em poder de Jorge Rosales
Forças actuantes: Oficial: Jorge Rosales; Sargento: José Manuel M. Dinis
Meios: Abastecimento durante a deslocação
Planos estabelecidos para a acção: Deslocação em meios auto até ao objectivo e retorno no mesmo dia à base.
Data da acção: 30JAN2010

Meu Capitão,
Para reflexão analítica e eventual tomada de decisão, passo a descrever sob a forma de relatório, a acção hoje concretizada de uma espécie de golpe de mão.

O oficial Jorge Rosales, que é proprietário de um palacete na lezíria ribatejana, algures entre Coruche e a Casa do Carvalho, a gozar um período de grande prestígio por ter comandado a operação Magnífica, na Linha, depois de ter comandado Porto Gole, e já ter sido futebolista há muitos anos, contactou-me telefonicamente, com vista à exploração de uma agressiva campanha militar sobre um objectivo alimentício.

Ora, tendo eu nascido com costela combatente, não poderia regeitar o repto. O dito oficial ainda me alertou para a hora matinal a que se obrigava sair, mas lembrei-lhe que um operacional não tem horários, princípio confrangedor para muitos amanuenses da A.M.

Metidos ao caminho, sem escolta, nem espalhafato, atingimos o primeiro objectivo na praça de Coruche, onde, atónitos, a peixeira chamava o marido peixeiro, e, ambos muito cortezes e disponíveis, puseram-se incondicionalmente sob o comando do antes referido senhor oficial. De seguida, passámos à banca de frutas e legumes, onde, pode dizer-se ocorreu idêntica reacção dos locais.

Dada a facilidade com que ultrapassámos estes objectivos, ainda sobrou tempo para dois dedinhos de conversa com originários da terra, comer uma bifana (só o senhor oficial a comeu, já que eu tinha passado a véspera de caganeira (desculpe V.Exa. mas não conheço a expressão militar), vinho e cafés. Resolvido este problema, regressámos à viatura com os seguintes trofeus: 2 fataças escaladas; dois carapaus pujantes de frescura; um choco cujos olhos sorriam; um queijo de ovelha; dois pães caseiros; batatas; tomates; um pepino e um molho de agriões.

Chegados ao local, abertas as janelas do palácio e feito o reconhecimento do local, que inclui a piscina, duas casotas de apoio, uma adega e um barbecue, arredámos um jeep para aliviar a área de acção e, constatando bastante antecedência para o acto, dirigimo-nos em passeio descontraído de reconhecimento dos arredores, só nos detendo por momentos à porta de Joaquim Galvão, um exótico palrante de matérias políticas.

Regressados, distribuímos funções, que calharam quase todas a mim, em reconhecimento das minhas capacidades, e consistiram, no ajuntamento de artigos combustíveis para o necessário braseiro; o deslocamento de uma mesa e duas cadeiras; a preparação e confecção de uma excelente salada; e a colocação do peixe no devido lugar do barbecue. As restantes tarefas ficaram por conta do já identificado senhor oficial.

Manducámos com muito apetite, que a operação já exigia reforço estomacal, e bebemos da pinga do ainda agora referido senhor oficial, um produto que ele gaba ser exclusivamente suco de uvas. Poderá V.Exa. avaliar o perigo decorrente dessa beberagem, tendo em conta a delicadeza dos estômagos do pessoal, habituados à ingestão de produtos químicos delicados com a designação de vinhos, com dóques e tudo. Não fora a boa preparação dos intérpretes, e poderia ali ter acontecido alguma desgraça.

Seguidamente, fomos orientados por uma pista olfativa de café e bagaço. No local, encontrámos um nativo de faladura entremelada que se propunha pagar a despesa por ser aniversariante. Esta declaração causou grande impacto junto das NT, pelo que foi decidido sermos nós a oferecer ao festejante, mesmo correndo o risco de cair em cilada oportunista. No entanto, esta acção não deixou de impressionar um grupo de senhoras da sociedade local, bem como a dona do estabelecimento, que se mostrou muito agradada com a nossa presença.

Consumada a vitória, e de regresso ao palácio, o senhor oficial proprietário do imóvel, bastas vezes referido, deu-me a subida honra de lavar a loiça, tarefa de que me incumbi com entusiasmo e a merecer a aprovação geral, quer do senhor oficial, quer dos espíritos basbaques que assistiram a tudo.

A operação epílogava-se com tremendo êxito, e não havendo outros objectivos identificados, nem manifestações provocatórias a carecerem de amansamento, decidimo-nos pelo regresso à base, depois de tomadas as medidas adequadas de fechar janelas e portas, viagem que decorreu com normalidade, e uma paragem na tasca da rabo-de-cavalo, uma mulherona com que nos regalaríamos em treinos, não fora ela casada e boa dona da casa de pasto.

Pelo caminho, o senhor oficial ainda fez referências a concentrações do grupo do Cadaval, ou da Tabanca Magnífica, pelo que se aguarda o competente despacho de V.Exa.

JMMD
30JAN2010
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5750: Convívios (179): 1º Encontro/Convívio do BCAÇ 4513 (Fernando Costa)

Guiné 63/74 - P5758: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (3): Dois anos maravilhosos: S. Domingos, Varela, Ziguinchor, antes da guerra...


Guiné-Bissau > Região do Cacheu > S. Domingos > Estádio de Amizade de S. Domingos > 1º Festival Cultural de S. Domingos: Nô laba rostu di nó Guiné (S. Domingos, 18-20 de Dezembro de 2009) > Dançarinos balantas de Ingoré. O festival foi um sucesso, envolvendo cerca de 5 mil participantes e espectadores. Juntou diferentes grupos artísticos, culturais, teatrais, folclóricos, de Aramé, Elia, Suzana, Varela, Cacheu, Ingoré, S. Domingos e Ziguinchor.

Segundo a AD - Acção para o Desenvolvimento que organizou esta iniciativa, "a valorização das diferentes facetas das manifestações culturais dos grupos étnicos existentes na Guiné-Bissau, alguns em perigo de desaparecimento por razões de absorção e integração por outras etnias, como os banhuns, cassangas e baiotes, permite à maioria o conhecimento e acesso a essas manifestações culturais, retirando-as do esquecimento e promovendo-as a património cultural nacional".

Por outro lado, "a actuação de grupos culturais locais favorece a criação e consolidação dos movimentos contra uma “cultura” urbana que despreza a tradicional, porque rural, lutando contra a intolerância e discriminação sexual e religiosa".


Foto: © João Graça (2009). Direitos reservados


1. Pré-publicação de excertos do próximo livro do nosso amigo e camarada Mário Beja Santos, Mulher Grande. Trata-se da terceira parte do Capº III (*):

Mulher Grande > III > A Guiné em chamas ou o “Tubabo Tiló”
por Mário Beja Santos


[III. 3] A exaltação de S. Domingos


S. Domingos era uma aldeia, a nossa casa ficava a 500 metros do porto. Olhe para o mapa e veja como estávamos próximos da fronteira. Pelo estradão, estávamos a 45 ou 50 minutos de Suzana, no bom tempo, e logo a seguir tínhamos a praia de Varela, a minha inesquecível praia de Varela. Por vezes íamos pelo estradão de Suzana até ao Cabo Roxo, não pode imaginar o panorama que dali se desfruta.

Para quem, como nós, até agora tinha estado longe de tudo, S. Domingos, se bem que uma povoação insignificante, aproximava-nos de território francês, e como o Albano mantinha relações muito cordiais com as respectivas autoridades, passei a ir com regularidade a Ziguinchor.

Era tudo em dimensão diminuta, estávamos, como disse, perto do porto, tínhamos uma tasca quase à porta de casa. A administração ficava em frente à nossa casa, a seguir havia a escola e um pouco mais abaixo o madeireiro. A nossa casa era o centro de S. Domingos, digo isto sem nenhum exagero, pois a estrada para Ziguinchor e para Varela passava-nos à porta.

Quando lá chegámos, depois de um longo dia de viagem que começou em Pirada, seguimos por uma picada até Sonaco, depois Bafatá, voltei a fazer aquele percurso que passa por Mansabá, revi Bissorã, onde matei saudades, seguimos depois por Barro, Sedengal até S. Domingos. Quando chegámos quase ao anoitecer, cheia de pó por dentro e por fora, olhei para a casa e disse para comigo: “Mais uma casa velha para arranjar, mais móveis para comprar, mais costura, pareço a Penélope, aprumo e desmancho, quando me estou a afeiçoar às coisas, chegou a hora de partir!”.

A casa impressionou-me bem, tinha gerador e não tinha prisão no rés-do-chão, como no Gabu. Estávamos lá há poucos dias, quando fomos convidados pelos colegas do Albano a visitar Ziguinchor. Foi uma sensação maravilhosa de ter um restaurante a algumas dezenas de quilómetros de casa, havia lojas de tecidos e um estabelecimento onde se podiam comprar produtos franceses, sobretudo conservas. Não pode imaginar a minha alegria de entrar numa outra loja que tinha livros franceses, comovi-me quando vi romances da Colette, Romain Rolland e André Gide.

Para minha surpresa, na primeira vez que vim à rua em S. Domingos abeirou-se um branco com a pele muito tisnada, tirou o chapéu colonial e saudou-me: “Sou o Toscano, não sou parente do seu marido, sou o Toscano madeireiro”. O chefe de posto era o Braga, branco tal como a mulher, fui madrinha do filho que ali nasceu, estávamos ali há mais de um ano. Recordo que havia dois padres italianos em Suzana.

Penso que vamos encontrar bastantes imagens da região de S. Domingos, das férias em Varela, dos passeios com amigos franceses, aqui nos meus álbuns. Tenho agora uma confidência a fazer, foi em S. Domingos que pela primeira e única vez vi o Albano com os copos. Ele foi dar um passeio, eu estava de cama, quando regressou vinha a rir-se, fez-me uma careta e disse: “Benedita, desculpe, hoje não durmo aqui, não estou bem, senti que bebi demais, o padre recebeu vinho para a missa, fomos provar, não sei como me embebedei!”. Dito isto, com as mãos a agarrar a barriga dava grandes gargalhadas, caiu no chão, levantou-se e saiu. Eu olhava para aquilo tudo sem abrir a boca, sinceramente o único medo que tive foi que aquelas cenas se voltassem a repetir.

O importante é que eu sentia mais alegria em S. Domingos, a tal sensação de estar perto de tudo, de poder viajar, encontrar gente, comprar uma revista, passear, ter a satisfação de marcar um almoço ou um lanche. E a certa altura, quando a professora partiu tive a emocionante experiência de dar aulas. Senti que era uma vocação tardia, iria gozar aqueles momentos com toda a intensidade.

Desculpe insistir, desde Bissorã que eu não me dava tão bem com a Guiné. Às vezes penso que foi Ziguinchor que mudou tudo. Logo que chegámos a S. Domingos mudámos de motorista, o Guilherme foi trabalhar para a meteorologia em Bissau, o Albano admitiu o Xuxo, era ele que me levava às compras em Ziguinchor.

Aos sábados, sempre que possível, íamos passear a Varela. Nunca mais esqueci Varela com o seu extenso areal e palmares ao fundo, o concessionário do restaurante continuava a ser o Sr. Refrega e o ajudante, o Sr. Vasco. O governador da Guiné tinha aqui um palácio. Foi tudo saqueado em 1961, logo a seguir ao ataque a S. Domingos. Faço-lhe uma confidência, não sei se me estou a repetir, nunca mais me ocorreu querer voltar à Guiné, mas ainda hoje tenho saudades de Varela e de algumas viagens que fiz a Ziguinchor.

Em 1959, fizemos obras na casa de S. Domingos (durante as obras vivemos na casinha de Varela) e demos uma festa. Onde gostávamos de receber era em Varela. É neste período que eu senti uma grande mudança no estado de espírito do Albano. Pela primeira vez, via-o trazer trabalho para casa, eram os relatórios sobre a evolução da situação no Senegal, em Bissau sabia-se perfeitamente a qualidade e a quantidade de informações que ele possuía.

Várias pessoas me disseram mais tarde que não havia ninguém na Guiné, no Norte, tão bem informado como o Albano. Regularmente, por este tempo, o Albano era chamado a Bissau para reuniões de carácter confidencial. Como não havia estabelecimentos comerciais em S. Domingos, acompanhava-o, fazíamos a viagem até Cacheu, daqui para Teixeira Pinto e depois Bissau.

A recordação que melhor guardo foi este período maravilhoso de 2 anos, o Albano começara a estudar a economia dos Felupes e preparara uma monografia sobre a habitação dos Banhuns. Sei que não vai acreditar, mas a Christine Garnier viveu uma semana em nossa casa, viajava discretamente para o Senegal, quando chegou começou por dizer que preparava uma reportagem, mais tarde abriu o jogo, quando revelou a finalidade da sua viagem ficámos de boca aberta: fora o próprio Salazar que lhe pedira um relatório sobre o que se estava a passar no Senegal, trabalhou o documento com o Albano todas as noites, ele mais tarde confessou-me que o documento identificava com inteiro rigor as novas realidades.

Já disse e insisto que nunca falava de trabalho com o Albano, mas uma noite ele confessou-me: “Benedita, tudo vai mudar na Guiné com o que se está a passar em Dakar e Conacri, há gente que está a ser preparada para a guerra, não lhe escondo que há gente a fugir da Guiné para nos fazer guerra. Temo o pior”. Antes de partir, a Garnier disse-nos que o relatório tinha sido enviado à D. Maria, a governanta de Salazar. Desculpe estar tão repetitiva.

[Revisão / fixação de texto / título: L.G.]

[Continua]
_______________

Nota de L.G.:

(*) Vd. poste de 2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5747: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (2): Da Guerra do Turu-Ban ao Tubabo Tiló, passando pelo deslumbrante Corubal