Guiné 63/74 – P5796: Histórias do Eduardo Campos (8): CCAÇ 4540, 1972/74 - Somos um caso sério (Parte 8): Nhacra 3




Blogue colectivo, criado e editado por Luís Graça, com o objectivo de ajudar os ex-combatentes, de um lado e de outro, a reconstituir o puzzle da memória da guerra colonial, na Guiné. Desde Abril de 2005, formamos já a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência desta guerra. Como camaradas que fomos, tratamo-nos por tu. A palavra de ordem é: Não deixes que sejam os outros a contar a tua história por ti!... Co-editores: C. Vinhal, E. J. Magalhães Ribeiro, V. Briote




1. Hoje dia 10 de Fevereiro de 2010, está de parabéns o nosso camarada José Brás* que foi Furriel Miliciano na CCAÇ 1622, Aldeia Formosa e Mejo, nos anos de 1966/68).
Não podia a tertúlia deixar de vir desejar-lhe um feliz dia de aniversário, pleno de saúde e alegria, junto dos seus familiares e amigos.
Desejamos ao nosso camarada Brás uma longa vida para podermos, todos nós, comemorar esta data muitas vezes.
Postal alusivo à data comemorativa, de autoria de Miguel Pessoa
José Brás que muitos de nós têm o prazer de conhecer pessoalmente, vive no Alentejo, mais propriamente na bonita cidade de Montemor-o-Novo. É autor do romance "Vindimas no Capim", Prémio de Revelação de Ficção de 1986, da Associação Portuguesa de Escritores e do Instituto Português do Livro e da Leitura, assim como de poemas, alguns dos quais publicados no nosso Blogue.
Gosta de argumentar, e fá-lo como poucos, mesmo quando os temas são fracturantes e levam a diálogos intensos. Mantém sempre um elevado nível de cordialidade e respeito pelas divergências do opositor de ocasião. Tive o prazer de o ter como companheiro de mesa no último Encontro em Ortigosa, pena foi que não pudessemos conversar mais, mas o ambiente não era o melhor. Algum burburinho e muitas solicitações a ambos, que interrompiam sistematicamente os diálogos.
O nosso camarada Brás tem colaborado intensamente no nosso Blogue. Uma série a destacar, "Vindimas e Vindimados", baseado no seu livro "Vindimas no Capim", infelizmente interrompida há muito tempo. O último poste, 4696, data de 16 de Julho de 2009, pelo que desde já lhe lanço um apelo para que retome a publicação dos textos desta série.
Navegando pelo Blogue, consegui encontrar 33 postes deste nosso camarada que aconselho a ler. Desde histórias, poesia, argumentação, de tudo se pode encontrar, com qualidade garantida.
Entretanto, apreciem esta não poesia, na pespectiva de José Brás, seu autor
Anéis
Dedos apontados à secura da terra
acusavam-lhe a falência genética
do seu ventre parideiro
de diamantes, de minas
e de morte
olhos vitri-fixos diziam
mundos-nada-amargura
saudade já
de outros eu
fantasmas-frustração
coval marcado no espaço sideral
bocas-protesto-quase-renúncia
gritavam imagens-desejo
de um encéfalo criador
de novos cosmos
e seios negros-flácidos-lacerados
eram a denúncia-prova
de cordões umbilicais
que ligam ainda
o símio-escravo-jeová
à terra-mãe
ARCAS
Do Homem
guarda
o silex
o gesto
e nas marcas do sangue
se guardam
as ânsias
de infinito
Espantosa Visão
Corriam os olhos
na imagem
de um desfiladeiro de pedra
cinzenta
e os gritos colados
nas asas
de pássaros dourados
rasando os tufos
raros
de verde azeitona
impunham
na paisagem vazia
um pesado irreal
e a solidez
do alerta.
Pressa
Urgente
seria
que as palavras
cruzassem
o espaço
(fechado)
da memória
e no seu eco
se rompessem
as cadeias
do tempo
e do sangue
na terra da morte
e dos olhos
parados
Memória de fogo
Eruptiva terra
vermelha e retorcida
vulva aberta
múltipla
e imprevista
teu quente orgasmo
da periódica
orgia vem
arrefecendo
solidifica
em ferro
e flores
nos corpos
de crianças
fardadas
O nosso aniversariante dirigiu-se ao nosso Blogue pela primeira vez em 27 de Janeiro de 2009. Relembremos as suas palavras:Caro Luís Graça
Enviei a 19.01.09 (ou penso que enviei) o texto abaixo junto com carta aberta a J. Mexia Alves sobre intervenção sua e editada no blogue acerca da chamada “batalha de Guilege”.
Acompanhavam tal texto duas fotos, uma antiga e outra actual, forma que julgo suficiente para ser considerado um novo “camarada” da Tabanca Grande.
Entretanto novos textos foram aparecendo sobre o mesmo tema, uns, como o de JMA, deambulando por caminhos de análise puramente militar e hipermetrópica, própria do contrário da história, outras que, como eu, não negando a análise militar (tudo é analisável), não arredam a parte mais interessante da visão universal do direito dos seres humanos a disporem da sua vida e da sua liberdade num mundo que sempre se sonha melhor no futuro.
Estive com alguns problemas no meu computador e, no exemplo do que aconteceu com outras mensagens para outros destinatários, temo que não tenha chegado ao teu correio o texto que refiro acima como enviado.
Indicia tal situação o facto de não lhe ter visto mais qualquer referência no blogue, nem ter recebido eu a acusação da recepção.
Desse modo o reenvio agora com um abraço de cumplicidade a todos os que mantém o interesse na discussão plural e aberta sobre uma página da nossa história que, como todas as histórias, individuais ou colectivas, não se fazem apenas de glórias e heroísmos mas também de muitas misérias e cobardias.
José BrásOrtigosa, 2009 > Conversa animada de Mexia Alves e José Brás com...
Ortigosa 2009 > Vasco da Gama e José Brás
Ortigosa 2009 > José Brás e José Rocha
__________
Notas de CV:
(*) Para encontrar os postes de José Brás, recorrer aos marcadores "José Brás" e "Vindimas e Vindimados"
Vd. último poste da série de 6 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5773: Parabéns a você (77): José Belo, se o calor da nossa amizade chegasse a Kiruna, a tua Lapónia era o Alqueva (Os Editores)
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1. Mensagem de Jorge Teixeira (Portojo)* (ex-Fur Mil do Pelotão de Canhões S/R 2054, Catió, 1968/70), com data de 6 de Fevereiro de 2010:
Carlos
Se achares que deves publicar, siga
Um abraço do
Jorge Portojo
Porque rapei o meu bigode ou as meias palavras do meu Comandante Mário Belo de Carvalho
Catió, Junho ou Julho de 1969. As datas precisas fugiram-se-me.
O Comando do sector, da responsibilidade do senhor TCor Mário Belo de Carvalho, Comandante do BART 2865, com cerca de 5/6 meses de mato, foi visitado pelo senhor General Spínola.
Formados na parada para receber Sua Excelência, logo ali ficamos com a impressão de que algo ia acontecer de mau. Na realidade, algum tempo depois, o senhor TCorn Belo de Carvalho levou uma porrada e saiu para Bissau. A opinião da tropa bandalha, (leia-se: soldados, cabos e furrieis milicianos) foi que o Segundo Comandante, Major e posteriormente TCor Melo Machado (de quem ninguem gostava e ainda hoje assim alguns pensamos), tinha ajudado a colocar os patins ao nosso Comandante. Os motivos, nunca soubemos
Acontece que este senhor nunca foi pessoa bem vista entre a rapaziada, contrariamente ao Comandante Belo de Carvalho. Um cavalheiro, que dirigia a palavra a toda a rapaziada, jogava a bola connosco, pessoa bastante humana.
Portanto, Catió andava com os nervos à flor da pele. O meu Pelotão que era apenas adido para efeitos operacionais, de alimentação e alojamento, também sentiu o efeito. Creio que o meu alferes Comandante do Pelotão nesta altura estava de férias e nunca trocamos qualquer palavra sobre o assunto.
TCor Art Mário Belo de Carvalho - BART 2865
Em Julho, durante uma flagelação à unidade e população, (não lembro o dia porque passaram a ser frequentes e aí o calendário acabou) ou já estava fora ou saí para reforço de segurança no exterior. O Pelotão foi esquecido e não recebemos ordem de regressar. Quando clareou o dia dei ordem para regressar e formei o Pelotão em frente ao Comando. Quis saber porque fiquei sem comunicações durante toda a noite. A central tinha-me dito que todos se foram deitar e não poderiam entregar qualquer mensagem aos comandos a não ser assuntos urgentes.
O senhor Comandante Belo de Carvalho recebeu-me, já não me lembro muito bem da conversa que tivemos, mas duas coisas eu lembro: perguntou-me quem tinha dado ordem para regressarmos e quem deu autorização para eu usar bigode. Respondi-lhe que ninguém, às duas perguntas. Mandou-me destroçar o Pelotão. De imediato, dirigi-me aos lavabos e cortei o meu apendice piloso. Com um desgosto grande, pois os meus pais gostavam de mer ver com ele.
Em seguida entrei no Comando e pedi autorização para ser recebido pelo nosso Comandante. Fui aceite e então fiz talvez a minha apresentação mais solene desde sempre: om batimento de pés e pala como era norma:
- Apresenta-se a V.Ex.ª o Furriel Miliciano Jorge Teixeira do Pelotão de Canhões Sem Recuo 2054 com o bigode cortado.
Sorriso daquele homem, mas logo sério. Em sentido, está apresentado, pode retirar-se.
Porquê esta conversa toda, só para falar do meu bigode rapado? É que tudo tem uma razão. Ele que tantas vezes me viu de bigode, nunca fez qualquer observação. A situação em que se encontrava, a negligência do comando com o pessoal, etc. talvez a única coisa de que se lembrou foi de me dar uma "ripeirada".
Quando estive em Bissau, antes de ser internado no HM, já em Setembro, soube que ele estava de "castigo", aguardando ordens para regressar à Metrópole, numa daquelas casas dentro do Quartel General, à esquerda de quem entrava. Fui visitá-lo. Não me lembro minimamente do que falamos. Sei que o olhar do homem era vago, triste. Presumo que para um militar de carreira o pior que lhe poderia acontecer era ser recambiado para casa.
__________
Notas de CV:
(*) Vd. poste de 1 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5741: Blogoterapia (142): Aquela janela virada para o heliporto (Jorge Teixeira/Portojo)
Vd. último poste da série de 29 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5727: Estórias avulsas (73): A Fonte Pública de Mansambo (Carlos Marques dos Santos)
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1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Fevereiro de 2010:
Queridos amigos,
Devíamos pedir uma elevada condecoração (pelo menos a do Infante D. Henrique!) para a D. Berta, dados os relevantíssimos serviços prestados ao bem-estar dos portugueses e ao que ela tem feito para manter ao mais alto nível a cordialidade luso-guineense.
Aqui vos deixo, em fotomaton, o meu estado de espírito acerca da D. Berta.
Um abraço do
Mário
D. Berta, tenho tantas saudades suas!
Beja Santos
Escreve uma pessoa um livro intitulado “Mindjer Garandi” e nem se interroga que informações existem sobre a expressão, confia cegamente no que viu e ouviu, no que perguntou e no que consta em alguns papéis. Ora a era digital abriu portas para que se saiba mais e depressa. Por descargo de consciência, fui ao Google onde, entre as consultas possíveis, vi “Pensão D. Berta Bissau”. Foi um estremeção da cabeça aos pés, não sei se choque fotovoltaico ou electromagnético, apareceu-me a D. Berta, o seu eterno sorriso maroto e meigo. A D. Berta e a sua pensão são instituições internacionais, unem continentes, são pessoa acolhedora e espaço residencial único, há décadas.
A D. Berta entrou na minha vida quando casei, em Abril de 1970, em Bissau. Passámos uns dias em casa dos meus padrinho Elzira e Emílio Rosa, a seguir a alguns dias no Grande Hotel, a pretexto da chegada de personalidades, fui avisado quase em cima da hora que tínhamos de sair no dia seguinte. No meio da perplexidade, alguém me recomendou: “Olha, vamos daqui até à Pensão Central, é ali ao lado da Catedral, é certo e seguro que a D. Berta vai desenrascar a situação”. E desenrascou mesmo.
Para quem não sabe, a Pensão Central resistiu à guerra de 1963-1974, este sempre acima de todos os golpes de Estado, guerras civis e estados de sítio. Mesmo quando houve escassez de alimentos, o elementar não faltava na Pensão Central. Com a independência, a Pensão Central tornou-se um espaço de livre-trânsito para todos os cooperantes. Quando ali aterrei em 1991, tanto podia almoçar com holandeses ligados a projectos de saneamento de água em Canchungo como peritos do Banco de Investimentos de África, como jantar com os portugueses da Medicina Tropical ou italianos do Fundo Monetário Internacional. Naquele tempo ainda era possível atravessar meia Bissau a pé à noite, despedia-me da D. Berta e rumava para as instalações da CICER, era uma bela passeata de quase dois quilómetros.
A D. Berta nunca me saiu do coração, estou em crer que nunca saiu de ninguém que comeu ou dormiu naquela pensão. Uma vez, já em Dezembro de 1991, estava eu desesperado com a inércia a que chegara o projecto que me levara à Guiné (criação de uma comissão interministerial de defesa do consumidor, havia decisão do presidente Nino Vieira, o ministro Carlos Borrego criara uma linha de financiamento para as instalações, eu conseguira encontrar uma técnica para coordenar a comissão com o perfil adequado, mas nada mexia, as nomeações não se faziam, não era possível obter a concordância para o início das obras das instalações, sitas no antigo Quartel General), e a D. Berta vendo-me à varanda abatido, chegou ao pé de mim e com voz consoladora, disse-me: “Vá lá, pense na Guiné, que o trouxe cá de novo, pense no bem da nossa gente, o que não sair perfeito hoje dar-lhe-á saudades para voltar mais tarde...”. E o meu estado de espírito mudou. Infelizmente, nada avançou, fizeram-se ainda uns programas televisivos, creio que tudo caiu no olvido.
A D. Berta era tida como uma santa, alegrou a vida de muita gente, transformou o espaço anónimo de uma pensão numa casa de vínculos perduráveis. Só espero que alguém transmita à D. Berta que eu estou pronto para voltar, receber dela um beijinho, sentar-me à varanda, ouvir os sinos da Catedral, o bulício da Avenida Amílcar Cabral, sentir os cheiros do velho mercado, talvez a maresia que vem lá debaixo, do Pidjiquiti. Então, vou fechar os olhos e regressar a 1970, ali a dois passos vou ver entrar alguém que me irá falar num massacre que ocorreu nesse dia no chão manjaco, subo até ao cinema da UDIB, o passeio findará no Museu e no Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, onde juntei tantos elementos para os meus livros. Depois abro os olhos, vou sorrir para a D. Berta e dizer-lhe como ela está sempre bonita, ninguém com aquele sorriso poderá envelhecer ou ser esquecido. E, claro está, iremos conversar, ela vai querer saber o que vim fazer à Guiné. Tenho quase a certeza que a vou emocionar com a Viagem do Tangomau. Nada poderá ser impossível para a D. Berta, mesmo ter um tangomau como hóspede...
Fotos retiradas das páginas http://pensaodbertabissau.wordpress.com/ e http://afric-ana.blogspot.com/2008/04/d-berta.html com a devida vénia
__________
Nota de CV:
(*) Vd. poste de 8 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5777: Notas de leitura (64): Já participamos nos romances dos outros - A Lucidez do Amor, de Tânia Ganho (Beja Santos)
Vd. último poste da série de 30 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5733: História de vida (17): António Marques, ex-Fur Mil At Inf, CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71), um sobrevivente nato (Mário Miguéis / Luís Graça)
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1. Mensagem de José da Câmara (ex-Fur Mil da CCAÇ 3327 e Pel Caç Nat 56, Guiné, 1971/73), com data de 5 de Fevereiro de 2010:
Caro amigo Carlos Vinhal,
Em devido tempo deixei-te saber que tinha uns cavalinhos, à solta, no meu companheiro de muitos anos. Infelizmente, tive que me separar dele por algum tempo, e acabei por arranjar mais um companheiro.
Pior que tudo isso foi saber que, por falta de trabalho (e dou-te algum) o valor das tuas comissões baixaram bastante. Lamento!
Não poder dar o meu passeio diário pelo blogue também pesa na minha consciência. Mas tudo está bem quando acaba bem, e cá estou a contribuir com mais um história simples para a série "Memórias e histórias minhas".
Para ti e para todos os camaradas um braço muito quente do
José Câmara
Bissau: uma guerra diferente onde os rumores também voavam
Várias vezes referi que a disciplina imposta pelo comandante do AGRBIS, o excesso de trabalho, o serviço ao Hospital Militar 241 e à sua morgue, e as Guardas de Honra Fúnebres no cemitério de Bissau como sendo os componentes que mais afectaram, psicologicamente, a nossa estada em Bissau.
Houve também outros factores que, pela sua importância contribuíram para o abalo mental que, desde cedo, se começou a sentir no seio da Companhia. Refiro-me aos rumores que, desde o dia em que chegámos à Guiné, voavam em todas os sentidos, e que nos davam como certos nos lugares mais díspares do TO da Guiné. As zonas de Pirada e Aldeia Formosa eram os lugares mais visados como áreas de colocação. Buruntuma também tinha os seus adeptos. Eram zonas míticas e difíceis.
O Comandante da Companhia, Cap Mil Art Rogério Rebocho Alves, bem se esforçava para dissipar os rumores. Dizia ele que nada sabia, pois não tinha sido informado. E a verdade é que não sabia mesmo, e os seus esforços acabaram por não surtirem o efeito desejado, que era o de estabilizar o estado emocional dos soldados.
A presença de um simples facto veio alterar, sobremaneira, todo o panorama dos rumores que passou a certezas entre os soldados da Companhia. A zona de Pirada era (para eles) o nosso destino. Sobre isso escrevi à minha madrinha de guerra o seguinte:
Carta de 25 de Fevereiro de 1971:
"Disse, em carta anterior, que no dia 19 de Fevereiro iria para o Destacamento de Nhacra ou Dugal, numa fase de adaptação. Tal não aconteceu. Outro Pelotão é que foi para lá. Assim, continuo em Brá e com o mesmo serviço.
Deve estar perto a ida para o mato. Pelo menos a Companhia que nos vem render, em Brá, está prestes a chegar. O 1.° Sargento daquela Companhia já veio instalar a Secretaria. Portanto, mais dia, menos dia, nós vamos de abalada para o mato. Não sei o sítio mas, segundo se diz, vamos para perto de Pirada."
A presença daquele 1.° Sargento foi como um bálsamo para a sanidade mental de grande parte dos elementos da CCaç 3327. O que os soldados queriam era sair daquele inferno chamado AGRBIS. E com razões de sobra.
Os rumores cessaram, e até o lugar para onde iríamos deixou de ter importância.
Aerograma de 7 de Março de 1971:
"O meu trabalho continua a desenrolar-se normalmente, não havendo nada de especial a referir. Continuamos sem saber quando iremos para o mato, nem para onde. Tudo continua no maior silêncio."
A verdade é que os dias foram-se passando. E, com eles, o descontentamento começava a apoderar-se, mais uma vez, dos soldados. Nós, a maioria dos graduados compreendíamos que a nossa guerra em Bissau era diferente, e que o perigo dos tiros era quase nulo. Mas seria isso o suficiente para apaziguar os sacrifícios desenvolvidos? A minha madrinha de guerra era a única pessoa que sabia o que me ia na alma.
Aerograma de 27 de Março de 1971:
"A vida na Guiné continua a mesma coisa, isto é, sem alterações.
Quanto à nossa situação devo dizer-te que a malta (deveria estar a referir-me aos soldados) está para pedir ao nosso Capião para irmos para o mato. É que toda a gente está a ficar estoirada, fraca e sem vontade própria.
Para já, estive 48 horas seguidas de serviço e não gostei nada. Agora soldados que andam há um mês e tal sem descanso, como não devem estar? Dormem aos bocadinhos, andam quilómetros e quilómetros, dia e noite sob este calor tórrido. Enfim, isto para eles é um verdadeiro inferno. Eu, comparado com eles, estou no céu, acredita. Eu tive muita sorte no meio de toda esta miséria.
É certo que estamos numa zona onde não há tiros, nem barulhos. Mas pergunto eu:
- Valerá a pena tamanho sacrifício?"Da esquerda para a direita: o Soldado Condutor Auto João Valadão (já falecido), Fur Mil José Câmara, o guineense chefe dos serviços da lavandaria do Palácio, e o Soldado João Avelar Ventura
Entretanto mais alguns dias se passaram. Era normal encaixar 48 horas seguidas de serviço: Sargento da Guarda ao Palácio e Sargento do Dia à Companhia. Normal não era fazer 72 horas seguidas. Mas acontecia, se havia impedimento de algum dos outros furriéis a qualquer serviço de escala. Na carta que escrevi à minha madrinha de guerra não faço nenhuma referência à nossa ida para o mato.
Carta de 1 de Abril de 1971:
"Há 72 horas que me encontro de serviço. Aborrecido como sempre... Ontem a coisa esteve feia, pois os soldados tentaram fazer um levantamento de rancho" - (já fiz referência a este caso, pelo que é descabido mencioná-lo outra vez).
Esta carta acaba abruptamente da seguinte forma:
"Desculpa a pequenez da carta. Mais tarde explicarei porquê".
A forma como termino a carta indica que algo de importante se passou. Nesse dia, tomámos conhecimento de que íamos, finalmente, ser rendidos em Bissau e que seguiríamos para o mato a 6 de Abril.
A Companhia de Caçadores 3327 iria assumir o estatuto de Companhia de Intervenção ao serviço do CAOP1, com sede em Teixeira Pinto. A sua missão principal seria proteger a nova estrada que estava a ser construíada entre Teixeira Pinto e Cacheu.
A Mata dos Madeiros era o nosso destino.
José Câmara
__________
Notas de CV:
(*) Vd. poste de 31 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5571: Votos de Feliz Natal 2009 e Bom Novo Ano 2010 (27): O Pai Natal das minhas netas encheu-me o sapatinho (José da Câmara)
Vd. último poste da série de 20 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5508: Memórias e histórias minhas (José da Câmara) (11): Esta água tem pouco vinho
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1. Em mensagem do dia 4 de Fevereiro de 2010, o nosso camarada Hugo Guerra* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 55 e Pel Caç Nat 60, Gandembel, Ponte Balana, Chamarra e S. Domingos, 1968/70, e que hoje é Coronel, DFA, na reforma), enviou-nos este esclarecimento a propósito do poste Guiné 63/74 - P5734: Ser solidário (53): Que muitas Runas se levantem (José Martins) :
Caros Editores e camaradas
Não consegui enviar uma mensagem para o Poste do José Martins sobre o assunto do Lar de Runa e do apoio a camaradas sem-abrigo de modo que, tomo a liberdade de esclarecer alguns pontos que me parecem importantes. Vocês dirão.
O Lar Militar de Runa é uma estrutura do Ministério da Defesa entregue ao IASFA (Instituto de Acção Social das Forças Armadas) fazendo parte do conjunto de Messes desse Instituto e serve exclusivamente para a “Família Militar”. Os Governos estão-se nas tintas para a vontade dos fundadores e dispõem a seu belo prazer ou interesse imediato, de tudo a que podem deitar a mão. Logo, os nossos camaradas sem-abrigo que não podem ser beneficiários, por não serem militares ou DFA’s não têm acesso ao mesmo.
Todavia e, por outro lado, todos podem ser assistidos pela Liga dos Combatentes que em boa hora criou e está a desenvolver no terreno um projecto de apoio a estes camaradas, o qual passa por despistagem e apoio concreto em termos de consultas e alimentação, preparando-se agora para a Criação de Residências Assistidas, tendo até criado uma conta bancária para este efeito.
Tudo isto pode ser visto no site da Liga dos Combatentes pelo que não me alargo com mais explicações.
Só me custa, é ver que quando isto estiver a funcionar em pleno, já estaremos todos a fazer tijolo, passe a expressão, e mais uma vez iremos ver que, de boas vontades está o inferno cheio.
Quero com este arrazoado dizer que, havendo este trabalho a ser desenvolvido não me parece curial estarmos a tomar iniciativas paralelas com eventual desperdício de boas vontades, tempo e dinheiro. Seria talvez mais ajustado apoiar o trabalho já desenvolvido e pressionar, se for o caso, a Liga para dar resposta em tempo útil e as residências não virem a dar resposta a ex-combatentes de uma próxima estúpida guerra.
Hugo Guerra
__________
(*) Vd. poste de 27 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4255: Parabéns a você (6): Hugo Guerra, o homem que foi evacuado duas vezes e meia, faz hoje anos (Editores)
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1. Texo de José Eduardo Oliveira (JERO) (ex-Fur Mil da CCAÇ 675, Binta, 1964/66), enviado ao Blogue em mensagem de 4 de Fevereiro de 2010:
O PREC na Baía
Estava casado há cerca de 5 anos e passava as férias do mês de Agosto em São Martinho do Porto em pleno zona “aristocrática”.
Não por “casta” mas tão só e simplesmente por a minha mulher ter sido criada na vila e ter andado na escola primária com a banheira que alugava as barracas no sítio mais chique do “baía das marquesas”.
A minha barraca era na oitava fila a contar da entrada principal da praia e a primeira da fila dos “paus encarnados”.
Percebia nitidamente que os vizinhos estranhavam que eu tivesse “direito” a estar por ali e aturei muitas faltas de educação dos meninos chamados “ricos” mas “pobres”... no que respeita a educaço. É dos livros que... não se pode ter tudo.
Nas barracas vizinhas da minha discutiam-se longamente as “mãos” dos jogos de bridge da noite anterior.
Eram famílias da zonas do Ribatejo e do Alentejo.
Além do bridge começou-se a falar insistentemente nas ocupações das herdades do Alentejo e algumas famílias começaram a faltar aos banhos.
Regressavam dias depois e falavam em voz alta das ocupações selvagens das suas “coisas”.
Os tempos eram de incerteza e lembra-me da importância que tinha a chegada dos jornais à vila.
O “Jornal Novo”, fundado por Artur Portela Filho, era disputado até ao último exemplar.
A sua leitura transmitia alguma paz aos que sentiam a “onda vermelha” não parava de crescer. Que subia na maré alta... e não descia na maré baixa...
Escreviam no “Jornal Novo” nomes consagrados do jornalismo português, como José Sasportes, Mário Bettencourt Resendes, Luís Paixão Martins, Carlos Pinto Coelho, António Mega Ferreira, Teresa de Sousa, Alexandre Pais, e outros.
Era de facto o momento mais esperado do dia de praia.
Mais que tomar banho nas águas tépidas de São Martinho do Porto havia que “mergulhar” nas páginas do jornal de Artur Portela Filho.
Foi um longo mês de Agosto.
Lembro-me particularmente da noite do dia 18 de Agosto de 1975.
Nessa noite foi transmitido para todo o País o “Discurso de Almada”, de Vasco Gonçalves.
Ouvi uma parte em casa e, antes do seu final, saí para a rua.
Vim arejar ideias... mas os gritos do “Camarada Vasco” continuavam no ar... a perseguir-me.
Passei por alguns carros com pessoas lá dentro que ouviam pela rádio o “discurso de Almada”. Tinham um ar assustado.
A trinta cinco anos de distância não esqueço jamais o silêncio daquela noite de 18 de Agosto de 1975.
Quase que não se via ninguém nas ruas e o silêncio opressivo que se “ouvia” tinha um cheiro que não vinha do mar.
Vinha da terra e cheirava a medo...
Quem me havia de dizer que muitos anos mais tarde iria blogar sobre o PREC da Baía.
Enfim…modernices!
JERO
__________
(*) Vd. poste de 2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5746: Convívios (178): 1.º Encontro da Tertúlia do Centro 2 (José Eduardo Oliveira/JERO)
Vd. último poste da série de 5 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5054: Blogando e andando (José Eduardo Oliveira) (2): Ponte para o regresso
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1. Mensagem de Luís Faria (ex-Fur Mil Inf MA da CCAÇ 2791, Bula e Teixeira Pinto, 1970/72), com data de 3 de Fevereiro de 2010:
Amigo Vinhal
Para continuidade, segue outro capítulo de “Viagem…” que espero possa minimamente transmitir a quem o ler, um estado de espírito vivido, no mínimo confuso, criado por uma situação que não sei se teria sido muito comum aos Camaradas (gostaria de saber).
Um abraço para todos
Luís Faria
Viagem à volta das minhas memórias (25)
O “Puto“ não me largava
Ao amanhecer de 6 de Julho de 1971, apanhado pelo bafo quente e húmido que se me colou, desci a escada do Boeing que me trouxera das férias no Puto e dirigi-me, não recordo como, aos Adidos(?) para me apresentar e posteriormente dar umas voltas pela Bissau que até então só tinha pisado por breves momentos, aquando da chegada da Companhia à Guiné e por outros também escassos, quando apanhei o avião para ir de férias, um mês atrás.
A esperança tinha-me feito de certa forma interiorizar que iria passar uns diazitos no bem-bom de Bissau, à custa de um servicito ou outro e fico siderado quando me informam que tenho de me apresentar, nesse dia na 2791 FORÇA - Teixeira Pinto.
Não foram precisas estacas ou outros escolhos para, no meu cérebro e se calhar nos arredores também, se ouvirem os “uiuis” lancinantes provocados por “tamanha injustiça”! Então por que raio é que não tinha direito a uns tempitos no bem-bom, como todos os outros ou quase todos??!! Tinha acabado de chegar de férias. Que porra era aquela de me não darem sequer um tempito para me reambientar e recuperar do cansaço dispendido naqueles maravilhosos trinta e tal dias passados?! Puta de guerra que não tinha consideração por (quase) ninguém!
Aqui, a minha memória apaga-se não me deixando lembranças de qualquer espécie. Não recordo se cheguei a Teixeira Pinto de coluna motorizada, avioneta, barco... sendo que a pé seria difícil, convenhamos (!?). O facto é que lá cheguei.
A memória começa a reacender-se com algumas intermitências irritantes.
Madrugada de 7 de Julho de 71. O bi–grupo da FORÇA forma na Parada. Já acomodados, as viaturas arrancam. A ponte Alferes Nunes fica para trás e largam-nos algures na estrada para o Cacheu. É noite e os objectivos estão ainda distantes, assim como o amanhecer.
Segundo apontamentos, vamos em missão de intercepção e destruição a P.Teixeira, Balanguerez, Pijame (a que por inclusão, chamava Zona do Balanguerez), situadas a Oeste da estrada Teixeira Pinto – Cacheu.
Em progressão e na certa recorrendo como era norma aos azimutes, fomo-nos internando nas matas daquela zona belicosa, abrigados pelos “ponchos” de uma chuva que nos dificultava o andamento e ao mesmo tempo nos dava uma certa protecção. Entra a manhã e a penetração continua, ao que recordo sem problemas. Continuamos, com as cautelas devidas e com certeza a corta–mato, como nos era costumeiro proceder.
Era normal que, quando saiamos em bi–grupo (em Teixeira Pinto foi quase sempre, ainda que muitas vezes reduzido em elementos) ir só um Alferes e dois ou três Furriéis, alternando-se entre os graduados o comando na frente onde, - já tive ocasião de explicar em Poste passado - por pensarmos ser mais seguro, por norma um de nós ocupava o 1 ou 2 lugar durante as progressões. Era também usual que qualquer um de nós, em especial o Barros, Castro, Fontinha e eu próprio assumíssemos o comando e posicionamentos da rapaziada e nossos, independentemente das equipas (Secções), GCOMB ou até do Oficial a que se pertencesse. Estávamos “calhados” com o pessoal, em especial do 2.º e 4.º GCOMB. Estas trocas e baldrocas dependiam da avaliação que fazíamos das situação a cada momento.
Toda esta “orgânica”, talvez muito própria e suigéneris, descreverei em outra ocasião. O certo é que nos dávamos bem com este sistema e como resultava, não o abandonamos.
A caminhada continua, as horas avançam. Tiros… “nem vê-los”, nada!
A dada altura pela frente depara-se-nos um acampamento dissimulado no meio das árvores. O silêncio torna-se quase absoluto. Parece sem ninguém. Envolvemo-lo e... nada! Faz-se a inspecção, nada... abandonado mas varrido! Vamos “mamar” na certa!!! Queima-se e arrancamos. Nada e nenhum tiraço!? Admira-me! A tenção nervosa é grande.
Dou comigo de novo a divagar pelas férias acabadas há uma dúzia de horas e na merdice em que estou metido. As botas de couro, julgo que cubanas e apanhadas em P.Matar, vão-me levando na fila, acompanhando o pessoal como se fosse um autómato.
A tarde já vai alta e novo acampamento se nos depara pela frente. Tiros... nada! É vasculhado... apanham-se documentos e umas armas.
Preparamo-nos para queimar e reagrupar. Rebentam os tiros. Como um eco, ouço algo do género:
- Estão ali... os “cabrões” estão a uma dúzia de metros à nossa frente metidos naquelas árvores e vegetação. Não consigo descortinar nada, por muito que me esforce!
Ao som dos tiros e rebentamentos, pela minha cabeça recomeçam a desfilar com pouco controlo, imagens ganhas no “Puto” até umas horas antes. Lisboa perfila-se assim como o S. João no Porto e muitos daqueles bons momentos passados. O que se passa... o que é isto... onde estou... que porra de merda é esta... que faço aqui… ?
Reparo em alguma da rapaziada a ripostar, uns deitados ou aninhados, em pé outros. Vejo Castro a pegar na “bazooka” e o Cancelo de joelho no chão a enfiar a granada no 60 quase na vertical. Recordo o Augusto a despachar uma “Instalazza” em tiro directo e o Castanhas agarrado à HK com o Fatana a ajudar.
Estava concerteza a assistir a um “Green Berets”?!! Era isso... só podia!! Aquilo não estava a acontecer!? Era isso... estava no meio de uma sessão no cinema Batalha, pois claro!
Não conseguia ver nenhum “turra” e o filme do Puto desfilava com intermitências diante dos meus olhos, enquadrado por aquela sinfonia de S João! Digo ao pessoal que substituo a segurança à retaguarda e viro-me para trás, para o acampamento e assim fico, tentando afastar aquelas visões e concentrar—me ao máximo no que estava a fazer.
Os tiros amainam e acabam. O IN tinha-se pirado e não tínhamos tido problemas.
Na sua fuga, são avistados alguns elementos. O Barros pega no LG-foguete e despacha na direcção, ouvindo-se o rebentamento lá para longe, ineficaz.
O acampamento é queimado, a bicha de pirilau inicia sob o meu comando a marcha de regresso em direcção à estrada, onde pensávamos passar a noite e aguardar a recolha pela manhã. Minutos andados e o Puto continuava presente, desviando-me da concentração necessária. As portas de S. Pedro estavam escancaradas e os “ponchos” incómodos, proporcionavam um certo abrigo.
O Castro avança para frente e leva-nos a porto seguro. Pelo caminho são apanhados um homem e uma mulher sem armas, que virão a ser entregues para interrogatório.
A noite diluviana iria ser terrível de suportar!
Quartel Teixeira Pinto > Vista do lado da bolanha (creio)
Progressão > Elementos do 2.º GCOMB > Estrada velha Teixeira Pinto - Cacheu. Augusto em primeiro plano com o “Instalazza”Acampamento temporário IN
__________
Nota de CV:
Vd. último poste da série de 14 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5463: Viagem à volta das minhas memórias (Luís Faria) (24): De volta à guerra, triste realidade
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Carlos Vinhal
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1. Mensagem Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Esp/RANGER da CART 3492, (Xitole/Ponte dos Fulas); Pel Caç Nat 52, (Ponte Rio Udunduma, Mato Cão) e CCAÇ 15 (Mansoa), 1971/73, com data de 5 de Fevereiro de 2010:
Caros camarigos editores da Tabanca Grande
Posso pedir-vos, enquanto o pessoal não se habitua a também frequentar o espaço da Tabanca do Centro que publiquem esta notícia/aviso?
Um abraço
JMATabanca do Centro - http://www.tabancadocentro.blogspot.com/
Imagem do 1.º Encontro que contou com a presença do nosso camarada José Belo que se deslocou da Suécia expressamente para participar neste convívio.
O 2.º Encontro da Tabanca do Centro está agendado para dia 26 de Fevereiro, no mesmo local, Pensão Montanha em Monte Real, às 13 horas*.
A ementa desta vez será bacalhau assado na brasa, (não é a correr), com batatas a murro e migas.
Poderá muito bem ser que haja alguns mimos para entrada, e as sobremesas serão as habituais.
O valor mantém-se na enorme quantia de 8,50€!
Terei que receber as inscrições, de preferência para o mail tabanca.centro@gmail.com, o mais tardar até dia 24 de Fevereiro às 12 horas, pois o restaurante precisa de saber com o que conta.
Em Monte Real há diversos alojamentos para os que queiram ficar nessa noite ou fim-de-semana. Basta dizerem que eu arranjarei os preços.
É muito importante que até ao 2.º Encontro nos façam chegar ideias e sugestões como colocar em prática a ajuda aos ex-combatentes necessitados, bem como a angariação de fundos para esse efeito.
Coloca-se já algum valor sobre o almoço para começar a amealhar?
Por exemplo os tais 10,00€? Mais?
Não estou a “comandar”, estou a perguntar, a sugerir!
A colaborar na Tabanca do Centro estão já os camarigos Vasco da Gama, Juvenal Amado e o Miguel Pessoa como “outsider”, mas precisamos de mais gente.
Ficamos à espera das inscrições.
Muito grato, subscrevo-me camarigamente com um abraço
Joaquim Mexia Alves
__________
Nota de CV:
(*) Vd. poste de 30 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5728: Convívios (177): 1.º Encontro da Tertúlia do Centro, aconteceu no dia 27 de Janeiro de 2010 em Monte Real
Vd. último poste da série de 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5759: Convívios (180): Operação Coruche no dia 30 de Janeiro de 2010 (José Manuel M. Dinis)
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Carlos Vinhal
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1. O nosso Camarada José Corceiro* (ex-1.º Cabo TRMS, CCaç 5 - Gatos Pretos -, Canjadude, 1969/71), enviou-nos em 4 de Fevereiro de 2010, a 2ª parte das suas memórias da primeira saída para o mato, complementando assim a narração iniciada no poste P5745: 





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Eduardo J. Magalhães Ribeiro
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1. Mais umas notas soltas da CART 643, enviadas por Rogério Cardoso (ex-Fur Mil, CART 643/BART 645, Bissorã, 1964/66), em mensagem com data de 2 de Fevereiro de 2010:
RONDAS À VOLTA DE BISSORÃ EM MEADOS DE 1964
Como todos os ex-combatentes sabem, as rondas eram serviços com algum perigo, senão vejamos:
Na Cart643 saía um jeep com o condutor, normalmente um Furriel Miliciano e duas Praças, sentados no banco trazeiro e que era virado para fora. A volta era um pouco complicada porque Bissorã era cruzada por diversas estradas, assim descriminadas:
Partindo do Largo dos Correios, que era paredes meias com o chamado Quartel, saía a estrada para Mansôa com muitas moranças com uma extensão considerável.
Para Mansabá, estrada que na altura não tinha circulação, mas continha também muitas moranças.
Para o Olossato, que pelo menos tinhamos de rondar até ao "campo de aviação", que ficava talvez entre 2 a 3km, também com moranças nos dois lados da estrada.
Havia ainda a estrada para Encheia ou a chamada outra banda, e outra para Norte em direcção a Barro.
Além destas estradas um pouco difíceis, havia a ronda à Central Eléctrica que tinha uma torre com 2 homens, a Agro-Pecuária com sentinelas nativas, algumas residências de funcionários civis e comerciantes, como a Casa Gouveia, Barbosa & Comandita, Casa Alves, Casa Gardete, alguns libanêses como Michel Ajouz, Miguel Heni, etc. e também cabo-verdianos, funcionários dessas casas.
Não era tarefa fácil e isenta deperigo, as rondas foram diversas vezes apanhadas entre dois fogos, do IN e de quem defendia, visto Bissorã, pelo que descrevi, ser uma povoação complicada na sua defesa.
Estrada de Mansoa/Bissorã
Na Cart 643 havia um espírito de confiança muito elevado, não existiam muitas Companhias em que o pessoal fosse tão unido. Posso contar que quando o nosso 1.º Cabo Antonio Melo morreu em combate, no dia 16 de Agosto de 1964, não havia urna e o local indicado para o funeral era Bissorã. Houve mobilização geral, o Soldado Pinheiro construiu a urna e todos nós trouxemos o nosso querido camarada até ao cemitério de Bissau. A Cart643 ultrapassou todas as dificuldades, até do nosso Comando, fizemos a nossa obrigação com muita mágoa.
O espirito de solidariedade era enorme. Uma noite o Capitão Ricardo Silveira vei-nos dizer que tinha de estar no outro dia de manhã em Bissau, porque tinha de embarcar para Lisboa e naquela noite teria de estar em Mansôa. Como e quem iria fazer esse serviço, pois precisava de voluntários? Rápidamente aprontou-se um jeep, eu no volante e 2 homens atrás, entre eles o 1.º Cabo Carlos Alberto, e lá fomos depressa num pé e voltámos no outro.
Rogério Cardoso
__________
Nota de CV:
Vd. último poste da série de 28 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5718: Notas soltas da CART 643 (Rogério Cardoso) (5): Um Guerreiro desdentado
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1. Mensagem de Fernando Franco, (ex-1.º Cabo Caixeiro do PINT 9288, Guiné, 1973/74), com data de 7 de Fevereiro de 2010:
Amigo Vinhal.
Venho pedir que publiques no nosso blogue estas linhas de agradecimento a todos os nossos camaradas, que se lembraram de mim no dia do meu aniversário*.
Aproveito para informar que apesar de andar a substituir peças do meu motor e mandar algumas fora, nesse dia não deixei de regar uma bela pá de porco assada, com umas belas cervejinhas de que tanta saudade já tinha.
Admito que foi um crime pois uma vinhaça calhava melhor, mas como sabem aqueles que me conhecem, nunca fui admirador de vinho seja ele qual fôr.
De todas as formas o almoço foi bem regado e neste dia lembro-me sempre do jantar que tive com alguns camaradas meus no restaurante PELICANO em Bissau, que saudades...
Amigos só vos posso dizer que foi uma daquelas bubas colectivas de ficar na memória, de tal forma que quando entramos no BIG lá para as 2 da manhã, acordámos a caserna inteira para o resto da comemoração.
As consequências disso foram de tal forma, que no dia seguinte fui chamado ao Conselho de Justiça, pois dois camaradas meus pegaram no carro que era pertença de um sargento nosso e espatifaram-no contra um muro. Agora deixo ao vosso pensamento o que se passou naquela noite memorável.
O meu comandante de pelotão João Lourenço e o enfermeiro Baia devem-se lembrar disso, pois essa noite deu muito que falar, ainda um dia escreverei sobre esse assunto.
Amigos e camaradas a todos um muito obrigado pela vossa lembrança.
Um grande abraço
Fernando Franco
__________
Nota de CV:
Vd. poste de 6 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5771: Parabéns a você (75): Fernando Franco, ex-1.º Cabo do Pel Int 9288, Guiné 1973/74 (Editores)
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Carlos Vinhal
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Ajuda Humanitária à Guiné 2010
Amigos e Camaradas,
Acompanhem a par e passo a Ajuda Humanitária à Guiné pela nossa Associação Ajuda Amiga cujo contentor de donativos irá partir do Porto de Setúbal a 22-02-2010 e uma equipa de dirigentes da Associação partirá de avião em 2-3-2010 por sua conta, tendo em vista o acompanhamento da distribuição dos bens.
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Eduardo J. Magalhães Ribeiro
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Luís Graça
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1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Fevereiro de 2010:
Queridos amigos,
Que grande surpresa, receber o romance da Tânia Ganho! E orgulho, por ver que o blogue é acompanhado em várias partidas do mundo, somos úteis na construção de personagens, que a Guiné existe no imaginário dos escritores e que os combatentes, com mais ou menos sofrimentos e marcas, são convocados para romances, apaixonam-se por fulas e são felizes a seu lado.
Um abraço do
Mário
Já participamos nos romances dos outros!
Beja Santos
Em 2009, recebi um e-mail de Tânia Ganho a pedir-me informações sobre a vida em Bambadinca, concretamente pretendia elementos sobre a vida das lavadeiras que prestavam serviço aos militares do aquartelamento. Lá procurei responder, de acordo com a minha vivência e apresentei Bambadinca enquanto quartel e tabanca, povoações limítrofes, porto e rio Geba. Importa esclarecer que Tânia Ganho é autora de romances e vive da tradução (tem traduzido autores como David Lodge, Annie Proulx, Anais Nin), já conhecia Bambadinca porque frequenta regularmente o nosso blogue.Pois bem, acabo de receber o seu mais recente romance “A Lucidez do Amor” (Porto Editora, 2010) em que a autora agradece a António Graça de Abreu e a mim, bem como às histórias do blogue, escreve ela que se inspirou num texto de Vítor Junqueira “A chacun, sa putain” sobre a prostituta Fanta Baldé e a ideia de que havia crianças felizes em Bambadinca. O seu romance baseia-se em quatro personagens: um piloto francês, Michael, estranhamente supersticioso, Paula, uma portuguesa que conheceu Michael em Porto Santo, uma artista que vive em permanente ansiedade na sua residência em França, separada de Michael por quatro meridianos e cinco mil quilómetros de distância; Álvaro, um alferes que combateu na Guiné e que carrega um pesado segredo dos seus tempos de guerra; e Binta, uma fula de Bambadinca, que trabalhou como lavadeira e se apaixonou por Álvaro (Binta e Álvaro são os pais de Paula).
Tânia Ganho urde a trama do seu romance com base num telefone inquietante ou pacificador: Paula trata do filho recém-nascido, Artur, vive rodeada de mulheres cujos maridos andam também lá longe, no Tajiquistão e no Afeganistão, em missões para todas elas incompreensíveis, está sempre à espera do contacto telefónico, é a tónica da ansiedade que a mortifica e que no fundo é o lastro da comunicação que a congrega com as mulheres dos outros militares. Tem pesadelos, sonha com a queda de aviões, cada telefonema de Michael é o alívio possível, o que se passa lá longe, a partir de Duchambé, dos Mirages que bombardeiam ou abastecem, ela pouco ou nada sabe, mas não deixa de ver o noticiário internacional e sabe que Cabul é uma capital ameaçada. É uma espera feita de telefonemas, é uma comunicação sincopada, é um acordar e adormecer à espera de notícias, o ciclo de comunicação de Michael é o de produzir informação, inócua quanto ao serviço, personalizada quanto ao seu estado de espírito e dos camaradas.
Como é evidente, as histórias de Álvaro e Binta são relativamente acessórias às vidas de Michael e Paula que se movimentam em paralelo. Não vamos aqui contar qual é o segredo de Álvaro, o importante é que Binta é o amor da sua vida, estão constantemente a adiar a sua viagem a Bissau, querem lá ir em 2009, mas quinze dias antes de partirem Nino Vieira é assassinado, o casal volta a adiar o regresso à terra em que se conheceram e que mudou as suas vidas. Tânia Ganho termina assim o seu livro: “Dizem que o amor é cego, mas é a paixão que não vê defeitos e incoerências. O amor é lúcido, vê as falhas e as contradições e, apesar disso, subsiste”.
Quando, em finais de Agosto de 1970, viajei no Carvalho Araújo, a caminho de Lisboa, conheci um alferes que vinha com a sua esposa libanesa, um amor construído e consolidado em Bafatá, tanto quanto me recordo. Às vezes pergunto-me por onde andará aquele casal, como também me pergunto por andam, passadas estas décadas, as crianças que conheci em Bambadinca, fruto de amores efémeros. Há dias, telefonei ao Fodé Dahaba, a propósito do estado do cemitério de Bambadinca, onde estão os restos mortais de três camaradas nossos. Ele insistiu que eu devo voltar, rever tudo, há ainda gente que pergunta por mim, ainda há vários soldados vivos que nunca esqueceram o nosso tempo. Ele tem razão. Eu queria ver se regressava, em nome da lucidez do amor que lhes guardo. E aproveito para agradecer à Tânia Ganho em ter posto a Binta de Bambadinca no seu último romance. E digo com orgulho que agradeço em nome do blogue.
Este livro irá pertencer ao blogue, por direito próprio.
__________
Nota de CV:
Vd. último poste da série de 6 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5774: Notas de leitura (63): Salgueiro Maia (2): Guidaje numa descrição digna do Apocalypse Now (Beja Santos)
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Carlos Vinhal
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1. Mensagem de Jorge Picado (ex-Cap Mil da CCAÇ 2589/BCAÇ 2885, Mansoa, CART 2732, Mansabá e CAOP 1, Teixeira Pinto, 1970/72), com data de 31 de Janeiro de 2010, dirigida ao nosso Blogue:
Amigo Carlos
Envio-te mais uma composição, sobre algumas das actividades desenvolvidas no CAOP 1*.
É capaz de ser um pouco longa, com as fotos que junto, mas, com a tua experiência, decidirás como melhor fazer.
Abraços para todos e desculpa-me por mais este trabalhito "á borliú".
Jorge Picado
ACOMPANHANDO VISITAS NO CHÃO MANJACO
Constituindo o CAOP 1 um dos “baluartes” da política “Uma Guiné Melhor”, do então GG e ComChefe, estava, por conseguinte, “transformado” numa das mais importantes, se não mesmo a mais importante, “sala de visitas” daquele TO.
Assim, os jornalistas e políticos, adidos militares e outros altos funcionários de várias nacionalidades, convidados por Portugal a tomar conhecimento e observar, com os próprios olhos, o que se fazia pelas POPs e como estas viviam “em paz e harmonia” connosco – justificando assim a guerra que nos era imposta por quem, não tendo razão, apenas queria desestabilizar e impedir o desenvolvimento dos nativos que apenas desejavam continuar a ser Portugueses e usufruir do bem que estes lhes proporcionavam – passavam praticamente todos pelo “Chão Manjaco”.
Normalmente, após um “briefing” restritivo à área – no seguimento do mais geral que lhes tinha sido apresentado em BISSAU – existia um programa, mais ou menos longo de acordo com o tempo de permanência disponível e com a personalidade em questão e, se bem que direccionado, procurava-se dar satisfação aos desejos dos visitantes.
Estando a minha actividade ligada aos assuntos da ACAP/POPs, como já referi em escritos anteriores, uma das funções de que estava incumbido era tratar da logística, diligenciando para que as respectivas unidades fornecessem a segurança, assegurassem os transportes e providenciassem para que os locais a visitar estivessem “conformes” e os contactos assegurados, acompanhando quase sempre “esses visitantes”.
Socorrendo-me das anotações que fiz, parcas, como também já tive oportunidade de dizer quando da minha apresentação, incompletas e algumas quase já indecifráveis, decidi agrupá-las e enviá-las, para conhecimento dos camaradas e com a esperança de que algumas, ao serem lidas por alguns daqueles que pertenciam aos efectivos que nesse período actuavam naquela área, lhes recordem estas actividades.
Reportando-se ao período de MAIO/71 a JANEIRO/72, estiveram envolvidas pelo menos, já que não especifíco aquelas cuja missão era a protecção aos trabalhos da estrada Bachile-Cacheu:
- CCS e CCaç 2660 do BCaç 2905; CCS, CCaç 3459 e CCaç 3461 do BCaç 3863, sedeadas em T. Pinto;
- CCaç 2637 em T. Pinto e Chulame, CCaç 3327 em Bassarel;
- BCaç 3833 no Pelundo e respectivas CCaç 3306 no Jolmete, CCaç 3307 no Pelundo e CCaç 3308 em Có;
- possivelmente certos GComb de várias CCaç (2789, 2790, 2791, 3328) dependentes do BCaç 2928 sedeado em Bula.
Eis o que me resta, chamando desde já a atenção para a grafia dos nomes estrangeiros, uma vez que não os copiei de documentos, mas os anotei de ouvido.
MAIO/71
No dia 7, meu terceiro dia nesta unidade, iniciei-me com a visita dum estrangeiro – por ventura uma visita rápida, já que não consta qualquer indicação de localidade – Dr. Wilensky, Arg., A? ?d, F. Milit.
Perante as anotações simbólicas que precedem o nome seria, muito provavelmente, de nacionalidade Argentina e Funcionário Militar –Arg., F. Milit – mas não relaciono agora a simbologia intermédia – A…d – uma vez que era o diminutivo de 2 palavras, em que a 1.ª começava por A com mais 2 letras riscadas – a ultima das quais provavelmente um v? – e a 2.ª começa por uma letra maiúscula – igualmente riscada – seguida do d.
A 8, visita de “Bob” – E.U., F. Emb. EU. Era um americano, provavelmente civil, de diminutivo “Bob” – Robert? – e funcionário da Embaixada – muito naturalmente em Lisboa – que se deslocou ao PELUNDO para observar “in loco” a nova política dos reordenamentos.
De 19 a 21, acompanhamento duma equipa de fotografia e cinema do PIFAS constituída por 3 elementos: José Ribeiro (militar ou civil?); 1 Fur.; 1 soldado.
No 1.º dia, após a recepção e delineamento do programa andou-se apenas em TEIXEIRA PINTO.
No 2.º dia começou-se com filmagens e fotos dos trabalhos na estrada para o CACHEU e prosseguiu-se com recolhas em BATUCAR e CAIÓ.
Caió 1-71
Caió 2-71
Caió 3-71
Batucar 1-71
Batucar 3-71
Batucar 4-71
Batucar 5-71
Fotos: © Jorge Picado (2010). Direitos reservados.
Estas 7 fotografias, que quase com toda a certeza se referem a “encenações” preparadas para estas filmagens. As 3 primeiras foram obtidas em CAIÓ, segundo anotação no verso das mesmas, mas as outras não sei se são desta povoação ou de BATUCAR.
Muito gostaria que os camaradas que “me acompanharam nesta deslocação, bem assim os que estavam estacionadas nestas povoações” aparecessem, para com base em elementos visíveis, identificassem melhor as mesmas. Na marcada com Caió_3_71, há lá muitos militares a assistir e, nas Batucar_1,_4 e_5, há edifícios que devem ser suficientes para identificar por quem lá esteve estacionado vários meses.
Finalmente no 3.º dia, foi-se para CÓ e PONTA LUIS CABRAL, já nas imediações do Rio Mansoa, onde se deram por finalizados os trabalhos e regressando a equipa a BISSAU.
Nestes trabalhos recolhiam imagens da paisagem, estradas, caminhos, povoações, casas construídas nos aldeamentos ou melhoradas, benfeitorias diversas de uso colectivo – Postos Escolares, Postos Sanitários, recuperação de bolanhas – tudo “embelezado” com as POPs “muito sorridentes” e as declarações de agradecimento dos chefes de tabanca, material necessário para a composição dos documentários promocionais.
AGOSTO/71
A 19, três dias depois de regressar de férias da Metrópole, participei na visita dum Adido Militar Americano, Cor Bloom(?). Quando se tratava de pessoal militar, privilegiava-se mais a parte operacional e as actividades de APSICO que as tropas desenvolviam, não só nos trabalhos de Eng.ª – reparação e mesmo abertura de caminhos –, mas também na Saúde – consultas e tratamentos efectuadas pelo Pessoal Militar nos Postos Sanitários – e na Educação – aulas dadas por militares transformados em Professores nos Postos Escolares Militares.
A 27 houve uma visita do Secretário-geral – Ten Cor ou Cor(?) Pedro Cardoso –, do Funcionário Superior da Administração Ultramarina, para a Agricultura – Eng.º Agrón.º Vinício Marques(?) –, do Director(?) dos Serviços de Veterinária – Dr. Sales – e do Intendente(?).
Depois duma sessão de trabalho no CAOP, seguiu-se uma ida ao chamado Porto de T.PINTO, à Escola Secundária – designada por Ciclo –, à Casa do Enfermeiro e ao Depósito(?) – de quê, não sei – seguindo-se para o PELUNDO e depois para BULA. Daqui eles regressaram a BISSAU e nós à sede.
Cais do Porto de TEIXEIRA PINTO
Foto: © Jorge Picado (2010). Direitos reservados.
Esta foto, que não está datada, pode referir-se ou não à visita destas individualidades neste dia. De qualquer modo, pelo aparato que se vê, não se refere a um dia normal, mas antes “festivo”.
Como se pode verificar, havia um cais feito de pedra e argamassa de cimento para a acostagem dos navios de cabotagem e militares, bem como uma rampa de acesso para colocação e recolha dos botes de borracha militares – e não só – e que permitia a acostagem das lanchas de desembarque que assim podiam embarcar e desembarcar viaturas e outras cargas.
Neste dia estava atracado um barco local de cabotagem e, a este, uma lancha de desembarque pequena (LDP) vendo-se ainda um bote de borracha dos Fuzos. Note-se que não era um dia normal, pois aparenta haver muita animação no cais, já que além dos militares, alguns até em calções de banho – o que não constituía surpresa visto que, quando de folga, aproveitavam para “brincar” na água –, vêm-se muitos nativos – crianças, homens e mulheres, algumas de guarda-sol aberto, lá bem no fundo – cuja presença daquele modo não se me afigura justificável pelo simples facto de haver um barco de cabotagem ali acostado. Como mera curiosidade sobressaem várias bicicletas e motorizadas – pertença do pessoal nativo – meios de transporte muito vulgarizados por aquelas bandas.
SETEMBRO/71
Em 19, recebeu-se a visita do Deputado Inglês do Partido Conservador, Ian Sproat, a quem se proporcionou o habitual “briefing” e uma volta pela vila, seguindo depois para PELUNDO onde almoçou. Após um rápido passeio pela localidade, seguiu-se para JOLMETE. Aqui se jantou e pernoitou junto das NT aí aquarteladas, podendo assim o visitante tomar conhecimento com as precárias condições a que as NT estavam sujeitos e o seu grau de isolamento numa zona onde existia um importante “corredor de trânsito IN” para abastecimento do CHURO-COBOIANA.
Em 28, depois de regressar pela manhã(?) a TEIXEIRA PINTO com o súbdito de Sua Majestade Britânica, após o almoço acompanhei um fotógrafo da REP/ACAP a BAJOPE, CHUROBRIQUE, BINHANTE e PELUNDO, para mais uma sessão de recolha de fotos promocionais.
OUTUBRO/71
Em 19, chegou a TEIXEIRA PINTO, na coluna de regresso de BISSAU, Sheike Sabidou, um Chefe Religioso(?) da Mauritânia, para contacto com os naturais deste concelho. Não ficou a sua estadia a cargo do CAOP 1, pois creio ter ficado a expensas do Chefe da Tabanca dos Mandingas da povoação, mas as deslocações para fora ficaram a cargo do Agrupamento.
No dia 24 realizou-se uma sessão na sede do Clube local – FC TEIXEIRA PINTO – pelas 10H, na qual ele falou para a população local. Evidentemente que assisti, no âmbito das funções que me competiam.
A 25, segui às 8H30M para o PELUNDO, acompanhando o Sheike Sadibou e respectiva comitiva, apresentando-o ao respectivo Comandante Militar.
Da visita desta Entidade Muçulmana da Mauritânia, guardo cópia de uma informação que elaborei e que, antes das férias do passado verão remeti para publicação no Blogue. Como naturalmente ficou perdida no imenso porão segue agora naturalmente.
Remeto em anexo o rascunho, com as correcções efectuadas antes da apresentação ao meu superior, Maj Lobo da Costa, da informação respeitante à VISITA DUMA ENTIDADE MUÇULMANA DA MAURITÂNIA AO CHÃO MANJACO.
Na perspectiva de não ficar legível o documento, transcrevo-o.
Em 18OUT71 o CAOP 1 foi informado telefonicamente por um oficial da REP ACAP (COMCHEFE) da vinda do SHEIKE SADIBOU na coluna de 19OUT.
Em 20OUT pela manhã, apresentou-se neste Comando o civil SHERIFO BALDÉ solicitando uma viatura para aquela entidade, não sabendo explicar qual o fim a que se destinava. Na ausência do Snr. Administrador, foi o mesmo acompanhado ao Snr. Secretário da Administração a quem foi exposto o assunto, sendo-lhe comunicado que deveria o referido SHEIKE SADIBOU apresentar-se na Administração para, ao mesmo tempo que apresentaria cumprimentos à entidade civil se providenciar para a resolução da sua petição.
Pouco tempo depois, apresentou-se no CAOP 1 a individualidade em causa, acompanhado de ALADJE INJAI – Chefe da Tabanca dos Mandingas – que vinha apresentar cumprimentos e solicitar viatura. Na ausência do Exm.º Comandante e na impossibilidade do Chefe do EM, nesse momento em reunião de trabalho com os empreiteiros da estrada, foi recebido pelo OF. APSIC.
Desta conversa há a salientar o seguinte:
- a viatura destinava-se apenas ao transporte do SHEIKE SADIBOU de casa à Mesquita (cerca de 100 m);
- comunicou-se-lhe que a administração facultar-lhe-ia a viatura, mas devia dirigir-se ao Snr. Secretário;
- relutância da individualidade em assumir tal atitude, declarando que apenas tinha de contactar com as Autoridades Militares. Posteriormente verificou-se que não foi à Administração;
- foi-lhe comunicado que as suas deslocações para fora de T.PINTO ficariam a cargo deste Comando.
Em 21 OUT cerca das 0830 o chefe Mandinga, ALADJE INJAI, esteve neste Comando a informar e a convidar para assistir a uma reunião que teria lugar no largo da Missão do Sono. Ficou combinado que mandaria avisar quando a população estivesse reunida, não o fazendo, apesar de posteriormente se ter tido conhecimento de que se realizou a referida reunião.
Em 22OUT à tarde, o Snr. Administrador compareceu com o SHEIKE SADIBOU e Homens Grandes Muçulmanos, sendo recebido pelo Exm.º Comandante, tendo ficado planeado o seguinte:
- 231500OUT cedência de 2 jeeps para uma visita ao Régulo da COSTA DE BAIXO;
- 240800OUT sessão na sala de cinema do Clube de T.PINTO;
- 250830OUT transporte do SHEIKE SADIBOU e Homens Grandes Muçulmanos ao PELUNDO;
- 26OUT transporte do SHEIKE SADIBOU do PELUNDO para BULA.
Posteriormente foi alterada a ida para BULA, que passou a ser na coluna de 29OUT.
Em 241000OUT realizou-se a sessão atrás indicada em que estiveram presentes o Snr. Administrador do Concelho, um Delegado do CAOP, o Rev. Padre FAUSTINO e o Régulo BATICÃ FERREIRA. A palestra proferida durante cerca de 1H45M pelo SHEIKE SADIBOU em marabu e traduzida para crioulo foi integralmente gravada, tendo abordado os seguintes tópicos:
- necessidade e importância de escolarização;
- necessidade do trabalho para desenvolvimento dos povos;
- alusão à união e adesão de todos na colaboração do esforço feito pelo Governo da Província para elevar a população da Guiné;
- igualdade dos sexos no trabalho e responsabilidades no desenvolvimento da sua terra;
- afinidades das religiões católica e muçulmana;
- aspectos puramente religiosos islâmicos;
- novas referências ao trabalho efectuado pelo Governador da Província;
- finalizou com a formulação de preces para que sejam concedidas Bênçãos a todos quantos trabalham no esforço de desenvolvimento da Guiné Portuguesa.
Em 250830OUT foi conduzido ao PELUNDO pelo Delegado do CAOP 1 que o apresentou ao Comandante Militar.
Segundo informações do Comandante do BCaç 3833 a visita ao PELUNDO decorreu bem, sendo na reunião realizada abordados os mesmos assuntos da de T.PINTO.
Assinado: JMSPicado
Cap.Mil.”
Conforme escrevi à mão no canto superior direito, esta informação foi transcrita na Nota n.º ? de 27OUT71 dirigida à REPACAP.
Quando refiro na informação “Delegado do CAOP 1”, só posso estar a referir-me a mim próprio, pois se assim não fosse acrescentaria o Posto respectivo.
Não me peçam mais pormenores, por que não os poderei fornecer. Se este papel não tivesse “sobrevivido”, apenas podia dizer que no dia 24OUT71, um domingo, tinha havido aquela sessão e no dia seguinte tinha ido para o PELUNDO às 8H30M, acompanhando o visitante.
Em 28, chegada do jornalista Francês, Phillip Marcovici, do jornal Combat, que nesse dia foi submetido ao tratamento de costume, na sede.
No dia seguinte (29) seguimos para BINHANTE, CHUROBRIQUE e para os trabalhos na estrada BACHILE-CACHEU.
A estadia deste jornalista prolongou-se até 1NOV, tendo-o acompanhado em 31OUT e 1NOV, como consta da Agenda, mas sem a indicação de locais. Porquê. Mero esquecimento ou teria permanecido em T.PINTO? Tenho imensas dúvidas que assim fosse, pois na sede, a permanência mais prolongada, quando muito só para dormida, já que os dias tinham de ser aproveitados para acções promocionais…
Entretanto, o Sheike Sadibou que devia ter seguido para BULA a 26 afim de continuar com a sua “endoutrinação”, só o fez neste dia, ficando entregue aos cuidados do BCaç respectivo, mas já sem a minha companhia.
NOVEMBRO/71
A 6, chegada de outro jornalista, o Português Santana da Mota, correspondente do jornal brasileiro Estado de S. Paulo. Não deve ter saído da sede…
A 9, mais um jornalista Português, Redondo Júnior, chefe de redacção de O Século. Passou por CHUROBRIQUE, BACHILE e PELUNDO, onde almoçou.
A 10, visita de Neil Bruce, Inglês, correspondente do jornal The Economist e Prof. de Ciência Política e História Contemporânea da U.I. Keele. Também não assinalei localidades!
A 22, nova visita, agora do Brigadeiro Inglês e jornalista, Michael Calvert, que também era Prof. de História (?).
Este visitante deslocou-se, pelo menos, à frente de construção na estrada para o CACHEU, cujos trabalhos se situavam, na altura, algures entre o BACHILE e CAPÓ.
Participei nesta deslocação em deficientes condições de saúde, em consequência duma grave intoxicação alimentar sofrida no almoço da véspera, um domingo, que constava de sardinhas de conserva. Por ter sido o primeiro a ser servido fui o único afectado, pois assim que engoli a primeira e única garfada dei o alerta de possível deterioração uma vez que o gosto era horrível. Alguém, não posso precisar quem, apenas colocou uma muito pequena porção na língua, confirmou e ninguém mais tocou naquela comida. Cerca de 2 horas depois os efeitos apareceram, ficando com o corpo em estado deplorável com uma urticária quase total e comichão insuportável. “Não fui desta para melhor”, como é costume dizer-se, mas fiquei mal, acabando por seguir na coluna do dia seguinte, terça-feira 23, para o HM em BISSAU, onde fiquei internado.
DEZEMBRO/71
Em 22, visita do jornalista Português, Metzener Leone, que se deslocou a CHUROBRIQUE e ao BACHILE.
JANEIRO/72
A 17, deve ter sido o último acompanhamento duma visita, neste caso do jornalista Português do Diário Popular, Botelho da Silva, bem como de uma Sub-inspectora dos Serviços de, Educação ou Saúde?
Durante a tarde houve deslocação, pelo menos da Sub-inspectora, a BAJOPE e BINHANTE, não sei se o jornalista acompanhou ou foi para outro destino, mas nesta data já andava perfeitamente fora de mim, assoberbado com a tarefa de regularizar a minha situação militar, uma vez que o Comandante do CAOP, Cor Rafael Durão, me tinha confirmado que me “passaria a guia de marcha” nos primeiros dias de Fevereiro, mesmo sem substituto.
E por agora já chega.
Jorge Picado
__________
Notas de CV:
(*) Vd. poste de 13 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4681: Estórias de Jorge Picado (9): A minha passagem pelo CAOP 1 - Teixeira Pinto (V): Passeio fluvial pelos rios Baboque e Mansoa
Vd. último poste da série de 25 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5339: Estórias de Jorge Picado (10): Como fui a Fátima a pé, comandando a CART 2732
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1. Mensagem de José Marcelino Martins* (ex-Fur Mil, Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2010:
Caríssimos
Junto texto, sujeiro às fixações que acharem oportunas.
Um abraço
José Martins
O Che-Che ainda está presente!
6 de Fevereiro de 1969 / 6 de Fevereiro de 2010
41 anos depois
O Luís Graça, em telefonema de hoje, lançou-me o repto. Voltar a escrever sobre o desastre do Che-Che que, ainda que lateralmente, vivi intensamente!
De imediato pensei, não escrever, mas procurar no blogue referências ao acontecido.
Encontrei, creio, a minha primeira participação no blogue. O tema era o Desastre do Che-Che, e das baixas que causou.
24 Outubro 2005 > Guiné 63/64 - CCLVII: A contabilidade dos mortos na operação de retirada de Madina do Boé
Caro Luis Graça:
Ví no blogue-fora-nada o texto sobre a retirada de Madina do Boé (1). Na realidade morreram nesse desastre quarenta e sete homens, apesar da maioria das referência apontar para 46. Efectivamente a 47ª vítima era um caçador nativo (2), pelo que não consta das estatísticas militares.
Sei do que se passou, dado ter sido eu, na altura, Furriel de Transmissões da CCAÇ 5, de Canjadude (3), a proceder ao levantamento dos desaparecidos, junto de cada companhia, e de ter redigido a mensagem que foi enviada, momentos depois, para todos os escalões superiores.
Em nota de rodapé, registe-se a preocupação dos sobreviventes, traduzida na tentativa de enviar TELEGRAMAS, para avisar a família de que se encontravam bem. Não foi enviada nenhuma mensagem/telegrama, dado que, mesmo que transmitidos para o batalhão os enviar depois via Marconi, seriam fatalmente censurados no percurso (4) (5).
Um abraço do camarada
José Martins
_____________
Notas de L.G.
(1) Vd. post de 2 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre de Cheche, na retirada de Madina do Boé (1969)
(2) Presumo que o autor do texto quer dizer soldado africano de um Pelotão de Caçadores Nativos, tropa regular, embora de recrutamento local, que deve ser confundida com as milícias.
(3) Vd. Carta da Guiné (1961). Na zona leste da Guiné, hoje região do Gabu, entre Nova Lamego (hoje Gabu) e Cheche (ou Ché Ché), na estrada Nova Lamego-Madina do Boé que atravessa o Rio Corubal precisamente em Cheche, sítio onde se deu a tragédia que vitimou os 47 militares.
(4) Madina do Boé tem um significado mítico tanto para nós, que fizemos a guerra colonial, como para os guerrilheiros do PAIGC. Depois da nossa retirada, o aquartelamento, abandonado e armadilhado pelas NT, terá sido imediatamente ocupado pelos sitiantes.
(5) Em Julho de 1973, o PAIGC realiza em Fulamor, a oeste de Madina do Boé, o 2º seu Congresso. E, finalmente, em 24 de Setembro de 1973 é ali proclamada a Independência Unilateral da Guiné-Bissau pelo PAIGC, sendo Luís Cabral eleito Presidente do Conselho de Estado.
__________________
Antes, em 2 de Agosto de 2005, tinha sido publicado o post
02 Agosto 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre de Cheche, na retirada de Madina do Boé (5 de Fevereiro de 1969)
1. Este documento, que me chegou às mãos através do Humberto Reis, relata a dramática operação em que participou a CCAÇ 2405, sedeada em Galomaro, e pertencente ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), operação essa que tinha em vista retirar as NT da posição insustentável de Madina do Boé, cercada pelo PAIGC (e depois ocupada logo a seguir, no mesmo dia, a 6 de Fevereiro de 1969, após a retirada das NT).
Na passagem do 37º aniversário desta infausto acontecimento, escrevi “Madina do Boé – Contributos para a sua história”, que veio a ser publicado, em três partes;
18 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1292: Madina do Boé: contributos para a sua história (José Martins) (Parte I)
15 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1370: Madina do Boé: contributos para a sua história (José Martins) (Parte II)
21 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1388: Madina do Boé: contributos para a sua história (José Martins) (III parte)
Jangada para travessia do Rio Corubal, no Che-che.
© Foto de José Azevedo Oliveira, com a devida vénia.
A foto acima, da autoria do ex-Furriel Miliciano Oliveira (CCaç 5, que esteve destacado no Che-Che integrado num grupo de combate), é a anterior à que sofreu o acidente.
Muito foi escrito pelos camaradas que, directa ou indirectamente, estiveram ligados ao acontecimento ou ao local.
8 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2819: Lista dos militares portugueses metropolitanos mortos e enterrados em cemitérios locais (4): 1968-1973 (Fim) (A. Marques Lopes)Guiné-Bissau > Região de Bafatá > 1 de Março de 2008 > O Rio Corubal, visto da margem direita, junto ao Saltinho... Neste rio (o único verdadeiro rio da Guiné, segundo dizia o Amílcar Cabral), morreram afogados 46 militares portugueses das CCAÇ 1790, CCAÇ 2405 e outras unidades, além de um civil guineense, no dia 6 de Fevereiro de 1969, na travessia junto ao Cheche, na sequência da evacuação de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios). Nenhum dos corpos foi recuperado (1).
O nosso camarada Armandino Alves, que esteve em Madina do Boé e em Beli, dois dos vértices do “Triângulo do Boé”, também escreveu
14 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4518: Controvérsias (19): Sob a evacuação das NT de Madina do Boé (Armandino Alves)
15 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4533: Controvérsias (20): A minha análise pessoal do desastre com a jangada no Cheche, na retirada de Madina do Boé (Armandino Alves)
O Armandino Alves foi 1.º Cabo Enf da CCAÇ 1589 (1966/68), em Beli, Fá Mandinga e Madina do Boé, apresentou um comentário em 13 de Junho no poste:
Guiné 63/74 - P2984: Op Mabecos Bravios: a retirada de Madina do Boé e o desastre de Cheche (Maj Gen Hélio Felgas †), que merece ser poste:
Também os que chegaram depois do acontecido, vieram a observar o que o acidente influenciou os que iam chegando ao teatro de operações:
1 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5745: José Corceiro na CCAÇ 5 (2): A primeira saída para o mato (1ª parte)
"- Tu chegaste hoje, dia 13 sexta-feira, e amanhã vais logo para o Cheche, onde há quatro meses perderam a vida perto de meia centena de militares (47), isto não é, convém que se diga, uma colónia de férias, para vires com discos e gira-discos na bagagem. Isto aqui é a guerra amigo e não vais ter propriamente vida facilitada, até porque os nossos graduados não são flor que se cheire, as surpresas, não vão ser glico-doces para o teu lado.
Houve, inclusivamente, empenho festivo para receber com a dignidade possível e agradecimento merecido, os martirizados heróis que deixavam Madina de Boé. Eu sou testemunha ocular que passados 4 meses após a infausta tragédia, existirem ainda a cerca de 1km de Canjadude, na picada que liga ao Cheche, fachas de pano passadas de árvore a árvore, por cima da picada, onde se podiam ler coisas como: “Canjadude saúda-vos”.
Pelo menos 1 ou 2 dessas fachas estavam por lá e só a acção do tempo as destruiu. Assim como haviam algumas folhas de palmeiras atadas nas árvores, ao longo da picada, como que a saudar e louvar os heróis. É lógico que os indícios preliminares de festividade deixaram de ter sentido após a aziaga tragédia.
Creio que ainda há história para contar, sobre a martirizada companhia que esteve e fechou Madina de Boé. Aqui não me alongo mais porque não fui testemunha.
Presto a minha homenagem pessoal a estes heróis, os que ficaram e os que partiram.
Também recordo que, na página de “ultramar.terraweb.biz” há texto sobre o acontecimento, com especial chamada para “Madina de Boé - 47 Militares morreram no Rio Corubal” que apresenta diversos recortes de jornal, com entrevistas a sobreviventes.
Termino como terminei a primeira parte do meu texto já citado, com os parágrafos que antecediam o nome de cada um dos HERÓIS/MARTIRES:
Naquela tarde de 6 de Fevereiro de 1969, o Corubal roubou, a todos e a cada um de nós, quarenta e sete amigos e camaradas, dos quais, poucos viriam a ser encontrados e sepultados nas margens do Rio Corubal.
É com emoção, que quando falo ou escrevo sobre este tema, me curvo perante a memória daqueles que não voltaram, me perfilo em continência e os meus lábios murmuram uma oração.
José Martins
5 de Fevereiro de 2010
__________
Notas de CV:
(*) Vd. poste de 31 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5734: Ser solidário (53): Que muitas Runas se levantem (José Martins)
Vd. último poste da série de 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5768: Efemérides (43): 4 de Fevereiro de 1961, O princípio da Guerra Colonial (José Marques Ferreira)
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Carlos Vinhal
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1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) , com data de 29 de Janeiro de 2010:
Carlos e Luís,
Aprende-se toda a vida, foi a lição que tirei deste texto.
Posso agora perceber a força daqueles versos do Manuel Alegre, no elogio ao Salgueiro Maia: “Ficaste na pureza inicial /do gesto que liberta e se desprende /Havia em ti o símbolo e o sinal /havia em ti o herói que não se rende”.
Um abraço do
Mário
Salgueiro Maia:
Guidage numa descrição digna do Apocalypse Now
Beja SantosSalgueiro Maia recebe ordens de ir apoiar a abertura do cerco a Guidage. Em 26 de Maio chega a Binta com uma companhia desfalcada, estão lá três capitães, pouca comida e há que dividir as munições por todos. Não há um só oficial superior para comandar a operação. Começa aqui a sua descrição:
“No dia 29 de Maio, pelas 5 horas, iniciámos a abertura do itinerário Binta-Guidage. Cerca das 10 horas, ao ser picada, foi accionada uma mina anti-carro, de que resultou um morto (ficou somente com um bocado do tronco, pois o resto desapareceu), um furriel cego e dois feridos ligeiros. Foi ordenado ao pelotão a que pertenciam as baixas para, em dois Unimogs, fazer evacuação para Binta, onde a companhia local os evacuaria para Farim e daqui para Bissau, por já não haver evacuações aéreas no local, devido à existências de mísseis terra-ar. O pelotão que fez a evacuação aproveitou a oportunidade e não voltou, como lhe tinha sido ordenado, e assim ficámos com menos duas viaturas e cerca de 30 homens. Talvez para que o mau exemplo não se espalhasse, esta deserção colectiva em frente do IN, apesar de constar do relatório da operação, não originou qualquer procedimento disciplinar”. A progressão faz-se a corta-mato, com algumas viaturas à frente, os cunhetes vão abertos, prontos a utilizar: este regime em self-service ir-se-á revelar providencial. Prova que o PAIGC mudara de táctica e queria levar o cerco de Guidage até às últimas consequências a que cada um dos seus homens armados levada dois a três carregadores para o substituir. Pelas 12 horas, as forças do PAIGC começaram a atacar a coluna, foram repelidos várias vezes. As tropas de Salgueiro Maia estão sem água, há homens desmaiados, felizmente que a coluna de reabastecimento de Bissau ia progredindo. Mais adiante, na região de Ujeque, do corta-mato passou-se para uma antiga picada, tentou-se progredir por aqui, arrebentou uma nova mina debaixo de um Unimog 404, um soldado milícia ficou sem uma perna. Mais adiante conseguiu-se contacto com o destacamento de fuzileiros retido em Guidage. Pelas 19 horas entraram em Guidage que tinha um aspecto irreal. Dá-se de novo a palavra a Salgueiro Maia:
“O chão estava lavrado por granadas, as casas, todas atingidas, pareciam ruínas, os homens viviam em buracos, luz e água não havia... como que para nos cumprimentar, pelas 21 horas somos flagelados por um morteiro de 82, com as granadas a cair em grupos de cinco e, para cúmulo, granadas nossas de 81 mm, das capturadas na coluna de reabastecimentos, agora disparadas contra nós. No dia seguinte, pouco depois do alvorecer, inicia-se a coluna de regresso com o pessoal que, até à data, tinha sobrevivido e que, para além dos sofrimentos de que já padecia, deitado sobre colchões velhos, saltava como pipocas cada vez que a Berliet passava num buraco”.
E a descrição que ele faz de Guidage é perfeitamente dantesca:
“A enfermaria e o depósito de géneros tinham sido praticamente destruídos; como assistência sanitária, tínhamos um sargento enfermeiro e alguns maqueiros. O pessoal dormia e vivia em valas abertas ao redor do quartel. Esporadicamente, errava-se por lanços por entre os edifícios ou o que deles restava. Como dormir no chão não é muito agradável, na primeira oportunidade passei revista aos escombros e tive sorte: descobri dentro de um armário que tinha pertencido a um alferes madeirense que ficou sem uma perna uma farda nº 3, o que me permitiu lavar o camuflado e, como prenda máxima, um bolo de mel e uma garrafa de vinho da madeira quase cheia e inteira no meio de tudo partido. Com isto fiz uma pequena festa com três ou quatro homens, porque era perigoso juntar mais gente. Nesta altura pensei em, depois de regressar a Bissau ir ao HM 241 saber quem era o alferes para lhe agradecer tão opíparo banquete, mas tal não foi possível e ainda hoje tenho esse peso na consciência.
Nas minhas visitas pelos escombros, desci ao abrigo da artilharia, onde houvera quatro mortos e três feridos graves. O abrigo fora atingido em cheio por uma granada de morteiro 82 com retardamento; a granada rebentou a meio de uma placa feita com cibes; o resto do abrigo ficou totalmente destruído; o chão tinha um revestimento insólito – consistia numa poça de sangue seco, cor castanha com 2 a 3 mm de espessura, rachada como barro ressequido. O odor envolvente era um pouco azedo, mas sem referência possível; o sangue empastava os colchões e as paredes. A minha preocupação era encontrar um colchão. Depois dar volta aos oito que lá se encontravam, escolhi o que estava menos sujo. Tirei-lhe a capa, mas o cheiro que emanava de dentro era insuportável; mesmo assim, consegui trazê-lo para a superfície, onde ficou a secar debaixo da minha vigilância, para não ser capturado por outro. Depois de bem seco e com os odores atenuados, levei a minha conquista para a vala, onde, para caber, tive de o cortar ao meio, fazendo bem feliz o meu companheiro do lado que, sem esforço, ganhou um colchão, e sem saber de onde ele tinha vindo”.
Assim foram aqueles tempos em Guidage: sem horas para comer, com arroz e salsicha ao jantar, o resto estava desfeito, enquanto se comia caiam à volta morteiradas para ninguém se esquecer que se estava em guerra.
Esta descrição, dura e crua, bem devia ser apresentada nas escolas, para se ter uma imagem da bestialidade da guerra que se desenvolvia na Guiné. Tenho encontrado muitos relatos sobre a violência, a crueldade, o horror das matanças, das perseguições, o caos das populações no meio de tanta destruição. Julgava que “Kaputt”, de Curzio Malaparte, tinha lá tudo o que o demónio da guerra comporta, o inumano, o truculento, os muitos medos desavindos, imprevistos. Salgueiro Maia ensinou-me que há sempre surpresas, basta, como lhe aconteceu, ter saído de Binta para Guidage, aquele inferno inesquecível de Maio de 1973. Um relato para a história, até para se perceber como aquele homem tinha razão fundada em ter chegado ao Largo do Carmo, naquele dia 25 de Abril.
__________
Nota de CV:
Vd. último poste da série de 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5763: Notas de leitura (62): Salgueiro Maia (1): Crónica dos Feitos por Guidage (Beja Santos)
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Hoje, dia 6 de Fevereiro de 2010, acrescenta mais um ano de vida, o nosso camarada José Teixeira, que foi 1.º Cabo Enfermeiro na CCAÇ 2381, Mampatá, nos anos de 1968 a 1970.
Ao Zé, desejamos um feliz dia de aniversário, como ele merece, junto de sua esposa e filhos, assim como da restante família e dos numerosos amigos que tem.
Que a tua vida seja tão longa quanto possível, não só por ser bom sinal para ti, mas porque tens muito para dar aos outros.
Falar de José Teixeira parece fácil e no entanto é muito difícil.
Trata-se de um ser humano que tem como divisa fazer bem ao próximo. Como se entende então que tenha ido para a tropa e para a guerra? Por sorte e acaso, tirando a melhor Especialidade que lhe permitia fazer o bem, o de Enfermeiro. Se em momento combate a sua acção se dirigia a socorrer os seus camaradas de armas, e por que não o próprio inimigo, no aquartelamento dedicar-se-ia ao bem estar das populações, especialmente jovens mães e respectivos filhotes. São inúmeras as sua estórias onde o seu humanismo é evidente, seja na acção de enfermeiro, seja no relacionamento puro e simples com os naturais.
Sendo um dos fundadores, ou pelo menos, um dos elementos mais antigos da Tabanca de Matosinhos, quis, ele e outros companheiros que os encontros das quartas-feiras fossem mais do que isso. Se bem pensaram, melhor fizeram, e hoje a "Tabanca Pequena, Grupo de Amigos da Guiné-Bissau", é já uma realidade. Seria injusto não falar neste momento de Álvaro Basto, outro elemento activo desta novel Associação, cujos Estatutos e primeiros Corpos Gerentes foram votados em Dezembro passado, aquando do jantar de Natal que a Tabanca de Matosinhos promove.
O seu espírito de solidariedade não se fica pela "Tabanca Pequena, Grupo de Amigos da Guiné-Bissau". Há umas semanas atrás foi visualizada uma sua entrevista na televisão, aquando do imenso frio que se fazia sentir na Cidade do Porto, porque integrava uma equipa de apoio aos sem abrigo. Estas acções são efectuadas durante a noite, chova ou faça sol, enquanto a esmagadora maioria de nós está no quentinho dos lençóis. Trabalho que não acaba e não tem visibilidade. Perfeitamente anónimo, não fosse o acaso televisão andar à procura de notícia e ir acompanhá-los naquela noite. Vindo o calor, só o Zé e os seus amigos continuarão a sua tarefa. Quanto à televisão, talvez os volte a acompanhar para o ano.
Não vamos publicar fotografias do Zé exibindo armas mortíferas. Se em tempos foi publicada uma no nosso Blogue, logo o Teixeira se aprestou a esclarecer-nos que aquilo era pose, pois sempre se recusou a levar para o mato, além do equipamento de enfermeiro, qualquer tipo de arma.
Aconselho vivamente a que procurem no lado esquerdo da nossa página os marcadores/descritores "José Teixeira", "Estórias de Zé Teixeira", "Tabanca de Matosinhos" e "Ser solidário". Se lerem a muita colaboração que o Zé tem neste Blogue, não darão por mal empregue o tempo que perderam, perdão, que ganharam.
Como diria o nosso Torcato Mendonça, aqui ficam estas fotos falantes:










__________
Nota de CV:
Vd. último poste da série de 6 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5771: Parabéns a você (75): Fernando Franco, ex-1.º Cabo do Pel Int 9288, Guiné 1973/74 (Editores)
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1. Todos os anos, no mês de Fevereiro, mais propriamente no dia 6, há festa rija em casa do nosso camarada e meu particular amigo Fernando Franco.
Está-se mesmo a ver que neste dia, desde há muitos anos (e por muitos mais ainda, assim desejamos), se festeja o seu aniversário.
Como todos os que não pertecem ao grupo dos S.Exa. tem o Franco uma porcaria de idade, coisa que o tempo vai curar, não tarda muito.
Que o Fernando, a Guida, seus filhos e a minha favorita Mafaldinha, passem um dia pleno de alegria. Estão de parabéns também os pais do nosso camarada, felizmente ainda entre nós.
É minha convicção que a tertúlia subscreve os meus votos, porque estamos perante um camarada, que não participando muito, escrevendo, nos lê e nos acompanha nos Encontros Anuais, desde o memorável na Ameira, em 2006.
Vamos em frente camarada, mesmo que nos vão tirando uma ou outra peça, que acaba por nem fazer falta. Um abraço colectivo para ti.
Há inúmeras fotos do Fernando, mas acho que estas são significativas da sua presença, em corpo e alma, onde deve estar, junto dos camaradas.
Fernando Franco em Bissau
O grande Fernando Franco acompanhado de uns pequenos habitantes da tabanca local.
Lisboa, 10 de Junho de 2007. Fernando Franco acompanhado de Vacas de Carvalho, à esquerda da foto e de Hugo Moura Ferreira à direita. De referir a presença de uma senhora na foto, cuja identidade desconhecemos.
Fernando Franco e António Baia, num convívio com camaradas da Intendência.
Ameira 2006. O Encontro dos Encontros. Fernando Franco, que julgo se ter dirigido ao Blogue pela primeira vez, precisamente para falar deste Encontro, escuta com a maior atenção o nosso baladeiro/fadista, grande camarada e amigo, Vacas de Carvalho. Na foto, algumas das senhoras presentes. De azul, Alice, a esposa do Chefe Luís. Este apontamento é só para ver se tenho aumento de ordenado.
II Encontro da Tertúlia em Pombal. Estava previsto o ataque pelo flanco esquerdo, daí a barreira, mas o fotógrafo surpreendeu o Fernando pela frente. Este é o momento em que ele se delicia com um leite-creme.
III Encontro da Tertúlia em Ortigosa. Foto curiosa de três barbas, ou peras, bem marcadas pela contagem do tempo. Os sempre presentes Fernando Franco, David Guimarães e Carlos Marques Santos.
IV Encontro da Tertúlia em Ortigosa. Franco, que nunca faltou a um Encontro, tendo ao seu lado esquerdo a Guida, companheira de uma vida.
Aqui ficam os poste do Fernando Franco que foi 1.º Cabo no Pel Int 9288, nos anos de 1973/1974:
20 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1195: Ameira: O nosso encontro fez-me bem à alma (Fernando Franco)
16 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1283: Os nossos intendentes, os homens da bianda (Fernando Franco / António Baia)
e
Guiné 63/74 - P1284: A Intendência também foi à guerra (Fernando Franco / António Baia)
20 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2462: Convívios (38): Minitertúlia da Intendência / Administração Militar, Belém, Lisboa, 18 de Janeiro de 2008 (Fernando Franco)
26 de Fevereiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3943: Sr. jornalista da Visão, nós todos fomos combatentes, não assassinos (5): Quero exprimir a minha revolta (Fernando Franco)
18 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4370: O mundo é pequeno e o nosso blogue... é grande (10): Reencontrei o meu Comandante (Fernando Franco)
__________
Nota de CV:
Vd. último poste da série de 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5762: Parabéns a você (74): Mário Silva Bravo, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 6, Bedanda 1971/72 (Editores)
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1. O nosso Camarada José Marques Ferreira, ex-Sold. Apontador de Armas Pesadas da CCAÇ 462, Ingoré - 1963/65 -, enviou-nos a seguinte mensagem, com data de 4 de Fevereiro de 2010: 

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Mais um texto para a série Contraponto, enviado pelo nosso camarada Alberto Branquinho (ex-Alf Mil de Op Esp da CART 1689, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), ao Blogue no dia 1 de Fevereiro de 2010:
CONTRAPONTO (5)
NOJO
Era a segunda vez que o alferes ia almoçar àquela tabanca fula, a convite do Bacar e do Jau, soldados do seu pelotão.
Feitos os cumprimentos às várias mulheres e depois de umas brincadeiras com a garotada, estava o alferes a passear pela morança com os dois soldados, quando as mulheres começaram a chamar para o almoço.
Balaios e alguidares esmaltados estavam já colocados no interior de um círculo de esteiras, colocadas no chão batido. Arroz, muito arroz, peixe miúdo da bolanha em molho de palma, galinha em pequenos pedaços e condimentos.
As mulheres ficaram do lado da casa, com as crianças. No lado oposto o alferes, no meio dos dois soldados nativos. Todos sentados no chão, com as pernas cruzadas, em cima das esteiras e por baixo do telheiro, também feito de esteira.
Começou o almoço e a conversa. As mulheres deram indicações sobre comida e temperos e os homens passaram-nas, em crioulo, ao alferes.
Falaram sobre a última operação, sobre os outros militares, sobre os vizinhos, enquanto as mulheres algaraviavam entre elas, no meio gargalhadas.
Comiam fazendo as habituais bolas de arroz com a mão direita ou esquerda (ao jeito de cada um), que, depois, uma a uma, eram molhadas nos condimentos dos alguidares mais pequenos, acrescentadas do conduto, depois mordidas, mastigadas, engolidas. Toda a gente conversava em fula, excepto quando os soldados falavam com o alferes em crioulo.
As mulheres tinham que se levantar continuamente para obrigar as crianças mais pequenas e fugidias a dar as suas dentadas na bola de arroz ou a petiscar pequenas doses, agarradas entre o polegar e o indicador.
A meio do almoço o alferes notou uns risos abafados e brejeiros de duas ou três mulheres à sua frente. Logo a seguir um dos rapazes, com cinco ou seis anos, levantou-se e colocou-se atrás delas. Com ar enojado e mantendo sempre a sua bola de arroz na mão, começou a olhar o alferes no rosto e, alternadamente, para as pernas. Depois começou a cuspir, cuspir, cuspir para o chão, ao mesmo tempo que limpava, com os pés, as cuspidelas do chão.
O alferes olhou para as suas pernas e viu que o testículo esquerdo se tinha libertado do controle das cuecas e assomava, curioso, espreitando para fora dos calções. Discretamente levantou-se, arrumou o indiscreto como pôde e… tudo voltou ao seu lugar.
O almoço decorreu sem mais incidentes.
__________
Nota de CV:
Vd. último poste da série de 31 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5573: Contraponto (Alberto Branquinho) (4): Desenraizado
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1. Mensagem de Joaquim Mexia Alves*, ex-Alf Mil Op Esp/RANGER da CART 3492, (Xitole/Ponte dos Fulas); Pel Caç Nat 52, (Ponte Rio Udunduma, Mato Cão) e CCAÇ 15 (Mansoa), 1971/73, com data de 1 de Fevereiro de 2010:
Meus caros camarigos editores
Espero que o Luís esteja já recomposto do aniversário!
É que são muitos anos já, e devem doer a fazer!!!!
Aqui vai um texto, que em certa medida foi inspirado pela leitura do texto do camarigo Torcato.
Como sempre fica à vossa disposição para arquivo na "cesta" secção, ou para publicação.
Depois acusem-me a recepção, por favor.
Com o meu abraço camarigo para todos
Joaquim Mexia Alves
QUE ESTOU EU AQUI A FAZER?
Que estou eu aqui a fazer?
Que calor é este tão intenso que sinto e que humidade é esta que se me agarra ao corpo de tal modo que tudo em que eu pego me fica colado às mãos, me fica colado à pele?
Há quanto tempo aqui estou, e quanto tempo falta ainda para me ir embora?
Devo fechar os olhos e sair daqui por uns momentos nas asas do pensamento que me leve a Monte Real, que me leve a Lisboa, ou é melhor ficar assim de olhos abertos, para não me deixar levar por ilusões?
Mas o que é que faço aqui?
Porque me chamam Alferes, porque vêm ter comigo pedindo-me autorização para tanta coisa?
O que eu queria era ser médico!
Não tem nada a ver com isto!
Mas como é que raio eu vim aqui parar?
Mas eu tinha como certo que só acontecia aos outros! Eu tinha como certo que a mim ninguém chamaria para isto?
Mas que raio de coisa é esta que me acontece?
Sim, está bem, eu tenho este corpo alto, mas ainda sou menino!
Como podem colocar em mim a responsabilidade das vidas daqueles homens todos?
Alguns até são casados, valha-me Deus, e com filhos!
E depois vêm de quando em vez pedir-me conselhos!
Então e o que é eu, menino estudante, (pouco é certo), muito pouco calejado da vida, posso dizer a cada um?
O problema é que nos olhos deles eu vejo que confiam em mim!
Valha-me Deus! Em mim!
Mas eu sou ainda um pouco menino de casa dos pais. O que sei eu da vida, a não ser gozar com a vida!
E depois isto de andar de arma ao ombro não tem nada de heróico!
Quando brincava às guerras isto tinha muito mais graça, não morria ninguém e os bons ganhavam sempre!
E quem é que raio são os bons?
Lembro-me até, (onde raio tinha eu a cabeça), de ter um certo orgulho em vir para a guerra!
Pois é, mas a verdade, verdadinha, é que afinal nesta coisa guerra morre gente, e também há gente que fica estropiada para o resto da vida, uns fisicamente e outros mentalmente.
Basta ver, já andam por cá alguns que não estão muito certos da cabeça!
Se calhar eu também não!
O que estará o meu pai a fazer agora? E a minha mãe? E os meus irmãos? E os meus amigos?
Nem sei já se é tempo de Verão ou de Inverno, com o calor que por aqui faz!
Apetecia-me adormecer e só acordar no fim disto tudo.
Mas gaita, se já em Lisboa eu dormia mal, quanto mais aqui com este calor e o estupor dos mosquitos que parecem hordas de japoneses em Pearl Harbor!
Voltarei vivo? E todo inteiro?
Porra, os olhos! Os olhos é que não! Um braço, sei lá, uma perna, mas os olhos não! Sem olhos não, mato-me!
Bem, já estás a divagar que nem um tonto!
Deixa-te lá dessas merdas que só te chateiam ainda mais e não resolvem a ponta dum corno!
Endireita-te, abre bem os olhos e dá uma ordem qualquer:
- Ó Festas, traz lá outra cerveja!!!
Monte Real, 1 de Fevereiro de 2010
Nota:
O Festas era o “barista” da messe de oficiais no Xitole.
As fotografias e o texto do Torcato, levaram-me a ir recordar as minhas fotografias.
Deparei com esta, tirada no Xitole, nos idos de 1972, e pus-me a falar com ela e ela comigo.
__________
Notas de CV:
(*) Vd. poste de 6 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5599: Blogues da Nossa Blogosfera (31): Tabanca do Centro (Joaquim Mexia Alves)
Vd. último poste da série de 2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5748: Blogoterapia (143): Pensar em voz alta: Colonialismo... jamais... jamais... (Torcato Mendonça)
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Carlos Vinhal
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Chegou até nós, via mensagem de 31 de Janeiro de 2010, do Arquitecto José Paradela, ilhavense, amigo do nosso camarada Jorge Picado e do nosso editor Luís Graça, um recorte do jornal "Tribuna da Madeira", fazendo a apresentação, a duas páginas, do livro "Guiné-Bissau de Colónia a Independente" de autoria de José Gregório Gouveia que foi Fur Mil Enf.º da CART 1525.Foto retirada do site do "Tribuna da Madeira", com a devida vénia
"Guiné-Bissau de Colónia a Independente" de José Gregório, está disponível na página da CART 1525, em: http://www.cart1525.com/
Também, com a devida vénia ao jornal "Tribuna da Madeira", aqui fica a Biografia de José Gregório Gouveia:
Biografia do Autor
José Gregório Gouveia tem 65 anos, é casado, advogado e natural da Calheta. Prestou serviço militar na Guiné, integrado na CART 1525, nos anos de 1966 e 1967, depois de fazer o Curso de Sargentos Milicianos (1964/65) na Escola Prática de Cavalaria de Santarém e o 2.º Ciclo do CSM na Especialidade de Enfermeiro no Hospital Militar de Lisboa.
Após o regresso do ultramar, em 1968, foi sucessivamente funcionário da Câmara Municipal da Calheta, trabalhador bancário, dirigente regional do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, dirigente do PS-Madeira e deputado na Assembleia Legislativa Regional da Madeira.
O advogado tem inúmeras colaborações com a imprensa.
Primeiro no "Jornal da Madeira" com crónicas sobre a Calheta e depois como autor de vários trabalhos no semanário "Madeira Hoje. Seguiram-se colaborações como articulista no "Diário de Notícias" e, actualmente no "Tribuna da Madeira", onde começou por subscrever a rubrica "Período Revolucionário da Autonomia" e agora uma denominada "Rosas e Espinhos da Nova Autonomia". Não é a primeira vez que Gregório Gouveia dedica-se à produção literária. O advogado publicou o livro "Madeira-Tradições Autonomistas e Revolução dos Cravos".
__________
Nota de CV:
Vd. último poste da série de 14 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5107: Recortes de Imprensa (21): Revista da Liga dos Combatentes - Homenagens aos Combatentes (Ribeiro Agostinho)
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1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2010:
Queridos amigos,
O Vasco Lourenço tinha razão quando me disse que estes textos do Salgueiro Maia são inigualáveis.
São mesmo, o que mais aprecio é a capacidade de ter agido com tanta dor contida, fazendo bem tanto quanto possível, de acordo com o tumulto das circunstâncias.
Não dá para perceber como estes textos não são dados às crianças que vão crescer a ignorar a guerra que fizemos.
Um abraço do
Mário
Salgueiro Maia: Crónica dos feitos por Guidage
Beja SantosÉ provável que existam textos ainda mais apocalípticos, brutais e crus do que estes. Pessoalmente, não conheço nada mais violento sobre a guerra, a morte estúpida, a dor incompreensível, a dignidade humana no grau zero, do que o testemunho que Salgueiro Maia nos deixou nos textos que intitulou “Crónica dos feitos por Guidage”. É na secção “depoimentos” que faz parte do livro “Capitão de Abril, Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril”, de Salgueiro Maia (Editorial Notícias, 1994). Estamos em Maio de 1973, a comissão militar da companhia de Salgueiro Maia está praticamente no fim. Naquele dia 5 de Maio notou-se uma azáfama anormal de meios aéreos; depois um forte tiroteio, pede-se apoio aéreo, da artilharia, evacuações. Tudo aquilo partia de um destacamento onde Salgueiro Maia tinha um pelotão. Sem hesitar, o capitão avança para o destacamento. Aí, há notícia de um novo contacto com as forças do PAIGC, as nossas tropas tiveram seis mortos, há feridos graves, material abandonado, sobreviventes à deriva. Novo contacto, mais um morto e três feridos graves. Os nossos soldados permanecem no terreno, pedem auxílio. O comandante do batalhão manda avançar uma companhia em reserva para acudir aos camaradas, a companhia recusa-se a avançar. Salgueiro Maia parte em seu auxílio:
“Para quem não conheceu a mata da Guiné, é difícil explicar como se consegue ir a corta-mato com viaturas tendo de encontrar passagem por entre as árvores, os arbustos, o capim alto, as ramagens com picos e, ao mesmo tempo, seguir uma direcção certa, apesar de tentarmos ir o mais depressa possível. Depois de rotos pela vegetação e cansados de correr ao lado das viaturas, chegámos ao local de combate. Ainda pairava no ar o cheiro adocicado das explosões; os homens tinham um ar alucinado, de náufrago que vê chegar a salvação, mas, em lugar de mostrarem a sua alegria, estavam ainda na fase de não saber se era verdade ou não.
Mando montar segurança à volta da zona e pergunto pelos feridos ao primeiro homem que encontro – tem um ar de miúdo grande a quem enfiaram uma farda muito maior do que ele; parece de cera, olha-me sem me ver e aponta com o braço. Sigo na direcção apontada e depressa vejo uma nuvem de mosquitos e moscas: já sei que à minha frente tenho sangue fresco. Debaixo de uma árvore, estão estendidos cinco homens; o capim está todo pisado; alguns dos homens estão em cima de panos de tenda; à volta, estão várias compressas brancas empastadas de vermelho; o chão parece o de um matadouro, há sangue coalhado por todo o lado; a maioria do sangue vem de um dos homens que já está cheio de moscas. Dirijo-me para ele – está cor de cera e praticamente nu. Olha-me como que em prece; ninguém geme, o silêncio é total. Trago comigo o furriel enfermeiro e um cabo maqueiro. Mando-os avançar, assim como as macas. Dirijo-me ao ferido mais grave – o ferimento provém-lhe da perna. Tem em cima dela várias compressas empastadas de sangue. Tiro as compressas e vejo que o homem não tem garrote. Pergunto estupefacto por que é que não lhe fizeram um. Alguém me responde que o enfermeiro está ferido. Começo a sentir raiva”.
O dia tomba, é impossível recorrer a uma evacuação por helicóptero, os feridos são depositados nas caixas dos Unimogs. O PAIGC volta a atacar, desta vez com foguetões de 122 mm. O ferido da perna morre. Salgueiro Maia escreve: “Guardo dele uns olhos assustados a brilhar numa pele branca e seca, a ficar vazia de vida porque, em 60 homens ninguém sabia o mais elementar em primeiros socorros: fazer um garrote”.
É desolação a toda a volta, enquanto se forma a coluna para regressar a Bissau, Salgueiro Maia dá consigo a contemplar os mortos de boca e olhos abertos, com aspecto de quem não compreende nada do que aconteceu. E escreve: “Mecanicamente, tiro os atacadores das botas dos mortos, ato-lhes os queixos, ponho-lhes as mãos em cruz, os pés juntos. Com a água do cantil molho-lhes os olhos e fecho-lhes. Olho para a minha obra e também não entendo”.
O pior vem depois. No dia 22 de Maio de 1973, Salgueiro Maia e a sua companhia estão prontos para seguir para o Cumeré, parece que a comissão terminou. Mas não, têm que partir de urgência para o Norte. O PAIGC desencadeara uma ofensiva em Guidage, a guarnição estava cercada e, aparentemente, isolada. As flagelações do mês de Maio, na zona de Guidage, eram incontáveis. O PAIGC apostara numa operação de grande envergadura: trouxera mísseis terra-ar para dissuadir os meios aéreos; implantara um campo de minas anti-carro e anti-pessoal na estrada Guidage-Binta. A última coluna de reabastecimento fora atacada durante cerca de 24 horas sem interrupção, as NT retiraram abandonando mortos e viaturas, seguiram para Guidage. O comando-chefe reage com a operação Ametista Real. Uma companhia de pára-quedistas e um destacamento de fuzileiros tentam abrir o itinerário, chegam a pé a Guidage depois do destacamento de fuzileiros ter caído num campo de minas e os pára-quedistas terem sofrido uma emboscada. Salgueiro Maia recebe ordens para seguir para Binta-Farim e depois, com uma companhia africana e uma companhia de atiradores, abrir o cerco para Guidage. O relato que ele faz é uma peça espantosa.
Este livro fica a fazer parte do património do blogue. Precisei de ir à Associação 25 de Abril buscar livros para recensão, em conversa com o Vasco Lourenço veio à baila este texto sofridíssimo e de uma camaradagem sem igual. Ofereceu-me o livro, ele deve ficar em boas mãos.
(Continua)
__________
Notas de CV:
(*) Vd. poste de 4 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5758: Pré-publicação de Mulher Grande, de Mário Beja Santos (3): Dois anos maravilhosos: S. Domingos, Varela, Ziguinchor, antes da guerra...
Vd. último poste da série de 3 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5753: Notas de leitura (61): Armor Pires Mota (6): Estranha Noiva de Guerra, uma obra prima à espera de reconhecimento (Beja Santos)
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Hoje, dia 4 de Fevereiro de 2010, está de parabéns o nosso camarada Mário Silva Bravo, ex-Alf Mil Médico na CCAÇ 6, que esteve em Bedanda nos anos de 1971 e 1972.
Ao Dr. Mário Bravo vem a Tertúlia desejar um divertido dia de aniversário, na companhia de seus familiares e amigos, na certeza de que esta data vai ser festejada durante muitos anos, não sejamos, o Mário e quase todos nós, jovens sexagenários.
O ex-Alf Mil Médico Mário Bravo, apresentou-se à Tabanca no mês de Janeiro de 2007, assim:
Meu Caro Luís Graça:
Por motivo ocasional, tive conhecimento da existência deste fabuloso movimento de memórias das gentes que estiveram na Guiné.
Fui médico (alferes miliciano) na CCAÇ 6, em Bedanda, desde finais de 1971 até aos primeiros meses de 1972.
Actualmente, com 60 anos de idade, sou ortopedista na cidade do Porto. Ainda não estou reformado, mas tenho vontade de ocupar algum do meu tempo livre a relembrar velhos tempos.
Envio duas imagens (fotos), como se pretende e aguardo as vossas instruções para o envio de outras fotos que tenho e que se referem a Bedanda, isto é, a companheiros dessa época. Por exemplo, tenho fotos do Cap Ayala Botto que, segundo li, é Coronel na reserva.
Cumprimenta
Mário Bravo
O editor do poste não sabe se o Dr. Mário Bravo ainda está em actividade, oxalá que sim, porque são precisos técnicos com experiência, principalmente ortopedistas, porque a armação é o que mais se deteriora com a idade. Eu que o diga.
Vem isto a propósito, de que, se eventualmente já tiver mais tempo disponível, está na altura de nos contar as suas vivências na Guiné. Sou fã das histórias dos militares que estiveram ligados ao serviço de saúde, porque viveram experiências ímpares, quer pela diversidade dos problemas encontrados, quer pela dificuldade e capacidade de improvisação, face às necessidade mais básicas para desempenharem as suas funções.
Do espólio fotográfico do Camarada Mário Bravo, escolhemos as fotos que se seguem:
Alf Mil Médico Mário Silva Bravo
Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 3477 (Novembro de 1971/ Dezembro de 1972) > O Alf Mil Médico Mário Bravo - ao meio, na foto - esteve na CCAÇ 6 em Bedanda, mas também ia regularmente a Guileje, no tempo do Samúdio (1.º Cabo Enfermeiro, o primeiro à esquerda).
Foto: © Amaro Samúdio (2006). Direitos reservados
Guiné > Região de Tombali > Guileje > 1972 > O Mário Bravo na porta de armas
Guiné > Região de Tombali > Guileje > 1972 > O Alf Mil Médico Mário Bravo, que pertenceu à CCAÇ 6 (Bedanda, 1971/72) ia também regularmente a Guileje, prestara assistência médica aos respectivos militares e população. Ironicamente, esta a mensagem de boas vindas - Boa viagem - com que as visitas eram recebidas.
Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > 1971/72> O Alf Mil Médico, Mário Bravo, à direita; e o Tenente Miliciano Capelão Mário Oliveira.
Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > 1972 > O Alf Mil Médico Mário Bravo - o quarto a contar da esquerda, de óculos - no meio de um grupo de oficiais. O António Graça de Abreu - Alf Mil (CAOP1, Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74) - é o primeiro da esquerda.
Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > 1971/72 > Na foto, o Mário de pé, à esquerda... O grupo era o que trabalhava com ele na enfernaria... Do lado direito, de pé, está o Fur Mil Enf Dias, natural de Viana do Castelo.
Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > 1971/72 > O Alf Mil Médico Mário Bravo e o terceiro, de pé, a contar, da esquerda. Da primeira fila, à direita, segurando a bola, então Comandante da CCAÇ 6, Ayala Botto que, na Guiné, também foi ajudante de campo do Gen Spínola.
Fotos: © Mário Bravo (2007). Direitos reservados
Finalmente a listagem de postes do Doutor Mário Bravo ou a ele relativos
23 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1457: Tertúlia: Apresenta-se o Alf Mil Médico Mário Bravo, CCAÇ 6, Bedanda (1971/72)
27 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1466: Mário Bravo, médico de Guileje (Amaro Munhoz Samúdio)
28 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1467: Bem vindo a Guileje, Doutor (Mário Bravo)
e
Guiné 63/74 - P1469: Bedanda, manga de saudade ou uma dupla sinistra, o padre e o médico (Mário Bravo, CCAÇ 6)
12 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1517: Tertúlia: Com o António Graça de Abreu em Teixeira Pinto (Mário Bravo)
3 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1726: Álbum das Glórias (12): Bissau: Clube Militar, mais conhecido por Biafra (Mário Bravo)
21 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2566: Em busca de ... (21): Malta de Bedanda, do futebol e dos serviços de saúde (Mário Bravo, Alf Mil Médico, CCAÇ 6, 1971/72)
23 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2573: Futebol em Bedanda, CCAÇ 6, 1971/72 (Ayala Botto / Mário Bravo)
3 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5396: Os Nossos Médicos (10): Mário Bravo (CCAÇ 6, Bedanda, 1971/72), hoje ortopedista no Porto
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Nota de CV:
Vd. último poste da série de 2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5751: Parabéns a você (73): Germano Santos, ex-Op Cripto da CCAÇ 3305/BCAÇ 3832 (Mansoa, 1971/73) (Editores)
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Marcadores: Mário Silva Bravo, parabéns a você
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Relatório de uma Operação nas imediações de Coruche, enviado por José Manuel Matos Dinis, em mensagem datada de 30 de Janeiro de 2010. Da referida Operação, supomos não haver registo fotográfico, porque o mesmo não nos foi facultado.
OPERAÇÂO CORUCHE
Situação: Apetite quanto baste
Missão: Golpe de mão nas imediações de Coruche
Objectivo: Território em poder de Jorge Rosales
Forças actuantes: Oficial: Jorge Rosales; Sargento: José Manuel M. Dinis
Meios: Abastecimento durante a deslocação
Planos estabelecidos para a acção: Deslocação em meios auto até ao objectivo e retorno no mesmo dia à base.
Data da acção: 30JAN2010
Meu Capitão,
Para reflexão analítica e eventual tomada de decisão, passo a descrever sob a forma de relatório, a acção hoje concretizada de uma espécie de golpe de mão.
O oficial Jorge Rosales, que é proprietário de um palacete na lezíria ribatejana, algures entre Coruche e a Casa do Carvalho, a gozar um período de grande prestígio por ter comandado a operação Magnífica, na Linha, depois de ter comandado Porto Gole, e já ter sido futebolista há muitos anos, contactou-me telefonicamente, com vista à exploração de uma agressiva campanha militar sobre um objectivo alimentício.
Ora, tendo eu nascido com costela combatente, não poderia regeitar o repto. O dito oficial ainda me alertou para a hora matinal a que se obrigava sair, mas lembrei-lhe que um operacional não tem horários, princípio confrangedor para muitos amanuenses da A.M.
Metidos ao caminho, sem escolta, nem espalhafato, atingimos o primeiro objectivo na praça de Coruche, onde, atónitos, a peixeira chamava o marido peixeiro, e, ambos muito cortezes e disponíveis, puseram-se incondicionalmente sob o comando do antes referido senhor oficial. De seguida, passámos à banca de frutas e legumes, onde, pode dizer-se ocorreu idêntica reacção dos locais.
Dada a facilidade com que ultrapassámos estes objectivos, ainda sobrou tempo para dois dedinhos de conversa com originários da terra, comer uma bifana (só o senhor oficial a comeu, já que eu tinha passado a véspera de caganeira (desculpe V.Exa. mas não conheço a expressão militar), vinho e cafés. Resolvido este problema, regressámos à viatura com os seguintes trofeus: 2 fataças escaladas; dois carapaus pujantes de frescura; um choco cujos olhos sorriam; um queijo de ovelha; dois pães caseiros; batatas; tomates; um pepino e um molho de agriões.
Chegados ao local, abertas as janelas do palácio e feito o reconhecimento do local, que inclui a piscina, duas casotas de apoio, uma adega e um barbecue, arredámos um jeep para aliviar a área de acção e, constatando bastante antecedência para o acto, dirigimo-nos em passeio descontraído de reconhecimento dos arredores, só nos detendo por momentos à porta de Joaquim Galvão, um exótico palrante de matérias políticas.
Regressados, distribuímos funções, que calharam quase todas a mim, em reconhecimento das minhas capacidades, e consistiram, no ajuntamento de artigos combustíveis para o necessário braseiro; o deslocamento de uma mesa e duas cadeiras; a preparação e confecção de uma excelente salada; e a colocação do peixe no devido lugar do barbecue. As restantes tarefas ficaram por conta do já identificado senhor oficial.
Manducámos com muito apetite, que a operação já exigia reforço estomacal, e bebemos da pinga do ainda agora referido senhor oficial, um produto que ele gaba ser exclusivamente suco de uvas. Poderá V.Exa. avaliar o perigo decorrente dessa beberagem, tendo em conta a delicadeza dos estômagos do pessoal, habituados à ingestão de produtos químicos delicados com a designação de vinhos, com dóques e tudo. Não fora a boa preparação dos intérpretes, e poderia ali ter acontecido alguma desgraça.
Seguidamente, fomos orientados por uma pista olfativa de café e bagaço. No local, encontrámos um nativo de faladura entremelada que se propunha pagar a despesa por ser aniversariante. Esta declaração causou grande impacto junto das NT, pelo que foi decidido sermos nós a oferecer ao festejante, mesmo correndo o risco de cair em cilada oportunista. No entanto, esta acção não deixou de impressionar um grupo de senhoras da sociedade local, bem como a dona do estabelecimento, que se mostrou muito agradada com a nossa presença.
Consumada a vitória, e de regresso ao palácio, o senhor oficial proprietário do imóvel, bastas vezes referido, deu-me a subida honra de lavar a loiça, tarefa de que me incumbi com entusiasmo e a merecer a aprovação geral, quer do senhor oficial, quer dos espíritos basbaques que assistiram a tudo.
A operação epílogava-se com tremendo êxito, e não havendo outros objectivos identificados, nem manifestações provocatórias a carecerem de amansamento, decidimo-nos pelo regresso à base, depois de tomadas as medidas adequadas de fechar janelas e portas, viagem que decorreu com normalidade, e uma paragem na tasca da rabo-de-cavalo, uma mulherona com que nos regalaríamos em treinos, não fora ela casada e boa dona da casa de pasto.
Pelo caminho, o senhor oficial ainda fez referências a concentrações do grupo do Cadaval, ou da Tabanca Magnífica, pelo que se aguarda o competente despacho de V.Exa.
JMMD
30JAN2010
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Nota de CV:
Vd. último poste da série de 2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5750: Convívios (179): 1º Encontro/Convívio do BCAÇ 4513 (Fernando Costa)
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