domingo, 2 de agosto de 2015

Guiné 63/74 - P14960: Libertando-me (Tony Borié) (28): Pôr a carta no Correio, na guerra

Vigésimo oitavo episódio da série "Libertando-me" do nosso camarada Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66, enviado ao nosso blogue em mensagem do dia 27 de Julho de 2015.


Pôr a carta no correio... na guerra!

Os CTT’s em Mansoa estavam localizados na rua onde, ao fundo, existiam aqueles riachos enlameados que despertavam as canoas do nosso amigo Iafane, que andavam à deriva por altura da maré cheia, talvez querendo fugir, libertando-se dos sonhos do seu dono que estavam interligados num fluxo sinuoso, pois a sua Guiné era um refúgio seguro, onde podia ter relações legalmente, quase como se fosse um casamento, com três, quatro ou cinco mulheres, onde, como já dissemos em textos anteriores, a sua acção era ignorada, fazia parte da história colonial, daquele braço português de opressão racial e subjugação dos civis guinéus, longe da velha Europa, do resto do mundo, na altura, em algumas zonas, profundamente racista, mas felizmente, a simpática funcionária dos CTT’s em Mansoa era uma senhora africana que usava permanente, pintava os lábios, arranjava as unhas, usando roupas estilo quase europeu, mostrando, pelo menos para nós, um sorriso no atendimento e, cremos que não andaremos longe da verdade, se dissermos que devia de ser só ela a esposa do seu marido, pois ele acompanhava-a sempre quando iam à missa, pelo menos ao domingo, onde também iam as filhas do Libanês que inundavam a igreja com aquele perfume exótico.

Falar dos CTT’s de Mansoa é falar de jornadas de história do movimento que passou a ter com o nascimento da guerra colonial, com a presença dos militares, principalmente os vindos da Europa, os canteiros das ruas e os troncos de algumas árvores estavam pintados de branco, havia alguma ordem e arrumação pública, talvez fosse o lado menos mau da guerra, podemos dizer que era o outro lado da moeda, mas o aumento do seu movimento, tal como por aqui nos USA, quando surgiu o Pony Express, que foi estimulado pela ameaça da Guerra Civil e havia necessidade de uma comunicação mais rápida com o Ocidente.


Não queremos, mais uma vez, lembrar o furriel Honório que rasava, com a sua avioneta do correio, a árvore grande que existia no aquartelamento, que foi baptizada por “a mangueira do Setúbal”, que tinha na sua base muitas gaiolas de macacos e periquitos, que faziam um barulho estrondoso, anunciando a chegada do correio, pois isto era lembrar cenário de guerra, mas podemos dizer que quase todas as semanas íamos aos CTT’s de Mansoa comprar selos para enviar cartas com fotografias para familiares e amigos, não só para nosso uso como para companheiros que estavam nas suas tarefas e nos pediam. Cremos que os aerogramas que eram entregues no aquartelamento, com a ajuda do furriel Honório, viajavam mais rápidos que as cartas que se entregavam nos CTT’s e, mesmo assim, deviam demorar muito menos tempo do que o serviço do Pony Express, que consistia em homens montados a cavalo transportando alforjes de correio, através de um trilho de mais de 2000 milhas, serviço que abriu oficialmente em Abril de 1860, que começou a ter carreiras simultaneamente a partir de St. Joseph, no estado de Missouri, e Sacramento, no estado da Califórnia. A primeira viagem no sentido oeste foi feita em 9 dias e 23 horas e a viagem em sentido contrário, em 11 dias e 12 horas.

Na altura, eram as colunas militares que levavam as cartas e encomendas para Bissau, daí não devia haver muito perigo para irem de barco ou avião para a Europa, não como o Pony Express, que naquele percurso, tinha mais de 100 estações, cerca de 90 homens treinados para andarem a cavalo, assim como entre 400 e 500 cavalos, cuja via expressa era extremamente perigosa, todavia nunca foi perdida uma entrega, mas este serviço durou apenas 19 meses, até Outubro de 1861, quando a conclusão da linha Pacific Telegraph terminou com a necessidade da sua existência. Era uma novidade, todos invocavam as notícias do Pony Express, principalmente durante os primeiros dias da Guerra Civil e, esta linha a cavalo, nunca foi um sucesso financeiro, levando os seus fundadores à falência, no entanto, o drama romântico em torno do Pony Express tornou-se uma parte da lenda do Oeste Americano.

Telefonar dos CTT’s de Mansoa talvez fosse possível, a nós nunca nos passou pela cabeça tal aventura, pois na nossa aldeia, na vertente da montanha do Caramulo, onde a crosta terrestre, lentamente começava a ser plana, flutuando por perto as zonas ribeirinhas do rio Águeda, onde pela noite, não havendo luz eléctrica, se a terra tremesse, nascendo dos céus uma pequena luz, que seria uma qualquer estrela, mas talvez uma estrela nova, daquelas que fazem oscilar um continente, ninguém dava por isso, talvez na reunião da capela, na missa do próximo domingo, o senhor padre, com ar muito responsável, vestindo um traje preto, nos dissesse que o “Nosso Deus”, lá nas alturas, não gostava do nosso procedimento, estava zangado e teríamos que rezar, fazer mais sacrifícios, contribuir com mais donativos, baixar a cabeça, render homenagem aos senhores da aldeia e da vila, que eram os bons, os melhores, que só tinham intenção de nos fazer bem, pois todos os habitantes da aldeia não sabiam que o resto do mundo existia, pois não havia telefone.

Tony Borie, Julho de 2015
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Nota do editor

Último poste da série de 26 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14933: Libertando-me (Tony Borié) (27): Todos temos um rio, eu tenho quatro: o Águeda, em Portugal; o Mansoa, na Guiné e os Passaic e o Yukon, nos Estados Unidos

Guiné 63/74 - P14959: Álbum fotográfico de Jaime Machado (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046, Bambadinca, 1968/70) - Parte X: Bafatá



Foto nº 1  > O burro, que já estava em extinção


Foto nº 2 > Estrada (alcatroada( Bambadinca-Bafatá


 Foto nº 3 > Mercado de Bafatá (1)


Foto nº 4 > Mercado de Bafatá (2)


Foto nº 5 > Mercado de Bafatá (3)



Foto nº 6  Mercado de Bafatá (4), visto do exterior


Foto nº 7 > Loja da libanesa (, se não me engano)


Foto nº 8 > Porto fluvial de Bafatá


Foto nº 9 > Rua principal de Bafatá, vista da piscina; em primeiro, o parque com a estátua do governador Oliveira Muzanty, do princípio do séc. XX, e a casa Gouveia


Foto nº 10 > O Jaime Machado na prancha de saltos da piscina


Foto nº 11 > O Jaime Machado, na esplanada da piscina, tendo atrás de si o Rio Geba


Foto nº 12 > A mesquita de Bafatá


Fotos (e legendas): © Jaime Machado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: LG]


1. Continuação da publicação do magnífico álbum fotográfico do Jaime Machado, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046 (Bambadinca, maio de 1968/fevereiro de 1970, ao tempo dos BART 1913 e BCAÇ 2852) (*):

[foto atual à direita; o Jaime Machado reside em Senhora da Hora, Matosinhos; mantém com a Guiné-Bissau uma forte relação afetiva e de solidariedade, através do Lions Clube; voltou à Guine-Bissau em 2010]
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Nota do editor:

Último poste da série > 29 de julho de  2015 > Guiné 63/74 - P14943: Álbum fotográfico de Jaime Machado (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046, Bambadinca, 1968/70) - Parte IX: Os meus rios, Geba e Udunduma


sábado, 1 de agosto de 2015

Guiné 63/74 - P14958: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (18): Samuel e os amores desfasados

1. Em mensagem do dia 27 de Julho de 2015 o nosso camarada José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), reaparece com uma bonita história de amor para a sua série "Outras Memórias da Minha Guerra".

Caro amigo Vinhal
Aí vai mais uma história. Possivelmente a última para o livro.
Agradeço mais uma vez a tua colaboração no arranjo dos trabalhos

Grande abraço
JF Silva da Cart 1689


Outras memórias da minha guerra

18 - Samuel e os amores desfasados

Em Maio de 1968 conheci o pára-quedista Luís Samuel. Eu estava de regresso (de férias), esperando transporte para Catió e ele contava regressar a Vila Nova de Gaia dentro de poucos dias. Ali, na baixa de Bissau, bebemos umas cervejolas, convivemos e falámos da nossa proximidade geográfica, partindo do princípio de que eu estava destinado a vir a ser seu conterrâneo, lá para o interior leste do concelho de Gaia.
Com ele andava sempre o colega Martins, de Rio Tinto, formando uma dupla de amizade indiscutível. Tive a oportunidade de ir com eles aos Bijagós, à boleia de amigos marinheiros e dar uns mergulhos espectaculares.
Enquanto eu matutava sobre os riscos do regresso à guerra, eles falavam muito sobre o seu futuro próximo. O Martins estava determinado a ir para a Venezuela, onde contava com o apoio de um vizinho e o Samuel parecia mais inclinado para retomar os estudos.


***

Há cerca de cinco anos, com a minha adesão ao Facebook, retomei contactos interessantes com ex-combatentes, com quem tenho convivido frequentemente.
Num desses convívios encontrei o Samuel. Já pouco se lembrava de mim. Todavia, foi fácil reatar um relacionamento, que potenciava alguma empatia. Falámos várias vezes sobre estes quarenta e tal anos passados desde aqueles dias vividos em Bissau. No entanto, só numa recente deslocação a Lisboa tivemos tempo suficiente para ouvir a sua interessante história.

***

Quando o Samuel regressou da Guiné, arranjou emprego facilmente, talvez porque, conforme se verificava naquele tempo, muitos dos seus amigos estavam ausentes: uns na guerra e outros emigrados. Como empregado de escritório, entendeu que deveria frequentar o Instituto de Contabilidade. Depois meteu-se no negócio do imobiliário e chegou a ter uma vida financeira bastante folgada. Casou e fez-se pai de 2 filhos.

***

No dia 23 de Maio de 1984, dia da “Festa dos Páras”, em Tancos, o Samuel encontrou o Martins. Estava acompanhado da mulher e da filha.
- Então, como tens passado, que não te vejo há tanto tempo?
- Vim matar saudades. Cheguei ontem da Madeira e tenciono ir lá a cima, a Rio Tinto, passar uns dias. Ia procurar-te, para pormos a escrita em dia.
- Madeira?
- Sim, estou na Venezuela, casei com esta madeirense, a Conceição. Vou ver os meus velhotes que vêm de férias de França e convencê-los a irem à Madeira, passar uns dias. Praticamente já não tenho família em Rio Tinto, porque o meu irmão também está lá para a França, para onde levou os meus pais.
E adiantou:
- Antes do mais, dá-me o teu telelé, para não te perder mais.

Foto, com a devida vénia a Pára-Quedistas casa mãe BETP

Dois dias depois, o Samuel apresentou-lhe a sua família, em ambiente familiar e bastante amistoso. Por sua vez, o Martins abriu-se e falou da sua vida.
- Estou muito bem na Venezuela. A minha mulher é filha única. Trabalhámos nas duas padarias dos meus sogros e temos ganho umas coroas. Aquilo está a mudar e nós não queremos lá ficar. Estou inclinado para regressar às origens, embora não seja essa a vontade da Conceição. Mas, o que mais nos preocupa, é esta filhota. A Naíde já está com 12 anos e aquilo não é o ambiente que lhe desejamos. E ela é tudo para nós.

De tempos a tempos, estes dois amigos contactavam-se telefonicamente, especialmente por altura das festas anuais.

Dois ou três anos depois, voltaram para deixar a Naíde num colégio de uma ordem religiosa, como aluna interna. Regressaram deixando tudo acertado, inclusive o apoio da família do Samuel.
O apoio foi tal que a miúda confessou que, apesar da ausência dos pais e da disciplina religiosa no colégio, se sentia muito bem aqui, no Porto.
Sempre que saía do colégio era para acompanhar a família do Samuel. E foi assim que conheceu bem não só o Porto como outros pontos importantes do norte de Portugal.

***

A Naíde tornara-se uma jovem simpática, bastante formosa, de cabelos lisos aloirados e muito bonita.
Feito o Liceu, passou a frequentar as aulas da Faculdade de Economia e, quando terminavam, regressava ao seu ambiente austero de interna no Colégio Central.
Foi nessa altura que conheceu um rapaz, saído do seminário, que frequentava também a mesma Faculdade, mas com um ano de avanço.
O Aníbal era um jovem de bela figura. Andava sempre asseado, bem barbeado e bem penteado. Para as meninas de bem (e suas mães), que o viam, regularmente, a sair da igreja do Salvador, ele era o partido desejado. No entanto, também se aperceberam de que, ele e a Naíde, pareciam formar o par perfeito.

Quando casaram, ela foi viver para Lisboa, onde ele trabalhava.
Pouco tempo depois, a Naíde enviava fotos do pequeno Joel, fruto do seu matrimónio.
Entretanto, nesses últimos 10 anos o Martins, já sem sogros, vinha investindo no Porto, na compra de imóveis, com a colaboração do Samuel. No ano de 2000, tinha já quatro apartamentos, quatro lojas e duas moradias gémeas.
Porém, a situação política e económica na Venezuela começou a piorar, pararam os investimentos e o Martins preparou-se para regressar a Portugal. O Samuel tratava de gerir os bens. A filha, mantinha-se em Lisboa, com o marido.

O Martins já estava a viver na Madeira quando teve um AVC e apagou-se em poucos dias. A mulher, presa aos haveres herdados na Madeira, decidiu por lá ficar.
Por essa altura a Naíde acentua os contactos com o Samuel e manifesta desejo de viver no Porto. Confessa que não consegue adaptar-se àquele ambiente social cosmopolita, tão do agrado do marido. Ele apaixonara-se por Lisboa e ela não troca o Porto nem pela Madeira.
Com a crise do sector imobiliário, o Samuel entrou num período financeiro bastante difícil. A desvalorização repentina dos imóveis, a escassez de construção e as dificuldades nas vendas, provocaram o incumprimento das obrigações bancárias. Em pouco tempo, as hipotecas foram accionadas e o Samuel entrou em falência.
Os filhos já bem arrumados não tinham carências. Porém, a mulher, habituada a uma vida “à larga”, não aceitou a situação e martirizava-o, culpando-o e chamando-o incompetente. Na hora em que mais apoio precisava, ela massacrou-o, afastou-se dele e divorciou-se. Hoje ele confessa que essa desgraça teve o condão de o fazer entender muita coisa que nunca imaginara.
Passou a concentrar-se na sua actividade de Contabilista, assumindo uma atitude que o fez recuperar a estabilidade. Mais liberto, passou a dedicar-se mais ao para-quedismo, sua grande paixão, onde se destacara como Instrutor. Voltou a visitar e participar em vários eventos, alguns de nível internacional.

Em 2004 foi diagnosticado ao Samuel um tumor na bexiga. Dado como incurável, entregou-se com toda a força a um regime especial de tratamento difícil e muito controlado. Ele, que tanto sofrera e que tanto de mal já experimentara, não aceitava perder a vida aos 60 anos. Antes pelo contrário, ele sente que tem, ainda, muito por fazer e muitíssima vontade para viver.

Eram mais de 11 horas daquele dia cinzento de finais de Junho. O Samuel acabava de chegar do IPO. Vinha a pé. Saíra da Batalha em direcção a Gaia, passando pelo tabuleiro superior da Ponte D. Luís.
Sempre que podia, saboreava esse prazer de sentir as alturas, agora mais limitado à brisa marítima do alto da ponte. Já perto de casa, reconhece a Naíde.
- Ei, Princesa, por aqui?
Mal o Samuel a interpelou, ela aproximou-se e abraçou-o a chorar.
- Temos muito que falar e vamos aproveitar enquanto o Joel está a dormir no carro.
E continuou:
- Samuel, vou fazer 33 anos mas, tu que me conheces bem, diz-me que defeitos terei para ser rejeitada?
- Estás doida, rapariga? Toda a gente te vê como uma bela mulher. Uma mulher desejada por qualquer homem, por mais exigente que seja.
Agora, a balbuciar, a Naíde confessa:
- O meu marido… trocou-me. Eu… não lhe… agradava o suficiente… A culpa deve ser minha.
- Tem juízo, Naíde, deve haver confusão. O Aníbal não fazia isso. Onde é que ele ia arranjar uma mulher melhor que tu?
- Samuel, ontem como o Aníbal não atendia o telemóvel, quando fui buscar o miúdo ao Colégio, passei pelo Ginásio onde ele anda. Como o carro dele estava cá fora e já não se via ninguém, fui entrando. Quando empurrei uma das portas, encontrei o Aníbal, agarrado a outro homem, e a beijarem-se.
Após uma pausa, em que o Samuel ficou boquiaberto, continuou:
- Não quero ver mais esse homem nem quero que o meu filho esteja por perto dele.
O Samuel aconchegou-a, pediu-lhe calma e procurando atenuar a gravidade da situação, aconselhou:
- Vamos entrar, vamos descansar e vamos pensar o que fazer. Podes ficar aqui, se quiseres, ou ir para uma das vossas moradias que esteja vaga.

 Ponte Luiz I - Tabuleiro superior destinado a peões e Metro de superfície

Seguiram-se tempos de recuperação. Ela, porque ficara bastante afectada psicologicamente e ele, porque lutava pela superação do cancro da bexiga. Unidos na desgraça, experimentaram a evolução para melhores momentos. E mais estáveis.

A Naíde foi-se desligando do passado, foi-se ocupando a gerir os seus bens e a colaborar pontualmente na empresa de Contabilidade e Gestão do Samuel. Dentro das condicionantes criadas, as coisas iam correndo favoravelmente.
Por sua vez, o Samuel vivia momentos mais felizes, visto que parecia ter vencido o cancro. Lutava agora pela sua recuperação total e, muito em especial, pela sua capacidade na área sexual.
Viviam muito próximos. Para ele, ela era uma filha carente e merecedora de uma vida feliz. Para ela, ele era o pai ausente e, ao mesmo tempo, o pai que o filho precisava. O Samuel, sempre que podia, apresentava e proporcionava a Naíde possíveis namorados da sua confiança. Ele queria que ela perdesse a aparente relutância a qualquer novo relacionamento amoroso. Porém, quanto mais ele insistia na necessidade de ela se arrumar e de constituir família plena, mais ela parecia desvalorizar o assunto e acomodar-se à estabilidade presente.

Numa das deslocações à zona ribeirinha do Porto, para comer umas sardinhas, foram surpreendidos pelo Toni, um colega da Naíde, dos tempos da Faculdade, que viera ao Porto em rápida missão de serviço de Consultadoria. Foi um jantar agradável, onde se falou à vontade, sobre os seus passados recentes.
O Toni confessou que sempre se sentira atraído pela Naíde mas que ela não lhe havia dado hipóteses. Disse estar a viver bem em Paris mas que não tivera sorte no amor, e que já estava divorciado há uns anos. O Samuel pediu para se ausentar e levar o Joel para lhe comprar uma guloseima. E no dia seguinte o Samuel deixou-os à vontade.

Durante algumas semanas, a Naíde falou várias vezes do Toni. Por sua vez o Samuel aproveitava isso para promover algum interesse desse relacionamento. Porém, ela referia que o Toni ficara de telefonar e de voltar na semana seguinte, o que ainda não acontecera.
Uns dias depois, o Samuel interpelou a Naíde:
- Princesa, fui chamado a Paris para resolver um assunto de um cliente emigrado. Pensei que me poderias ajudar no assunto e aproveitarias para sair de casa.
E continuou:
- Podíamos levar o Joel à Disneyland. Teria muito gosto com a vossa companhia.

Logo que chegaram a Saint Denis, o Samuel, que já conhecia essa zona de Paris, procurou a casa de um amigo, conhecido desde a sua infância. Daí até à localização do Dr. Toni, um economista português bem referenciado entre os emigrantes, foi um rápido.
No dia seguinte, sem dizer nada à Naíde, o Samuel avançou por uma rua abaixo e parou mesmo junto de uma porta. Tocou à campainha e ninguém apareceu. Veio para o carro dizendo que a pessoa que procurava, não estava. Quando ia por o carro a trabalhar, apercebeu-se da chegada de uma senhora acompanhada por uma criança de uns 5 ou 6 anos. Foi ao seu encontro ainda a tempo de ela não fechar a porta.
- Minha senhora, desculpe. É aqui que vive o Dr. Toni?
- Oui, mais il est au Portugal. Je pense qu'il revient demain.
Respondeu o Samuel:
- Dommage. Nous allons retourner au Portugal. S'il vous plaît, dites-lui que nous sommes les amis avec qui il a dinné les sardines à Porto.
Ela voltou-se para a criança e disse:
- Dit un bonjour à les amis de papá.

Já com o carro a trabalhar, o Samuel olhou para a direita e vê a Naíde, muda, a olhar em frente e com as lágrimas a cair pelas faces. Nem um nem outro disseram uma palavra. Todavia, tudo estava perceptível: O Samuel pensava que ia fazer uma surpresa agradável à Naíde e as coisas correram mal e a Naíde ficou chocada com a situação esclarecedora sobre o Toni. Ao mesmo tempo, ficou espantada com a atitude do Samuel na insistente procura de lhe proporcionar a merecida felicidade.
Seguiram para a zona de Marne de la Valé, a caminho da Dieneyland.
A partir dali, direccionaram todas as atenções para o pequeno Joel, parecendo alhearem-se tacitamente da situação criada e, ao mesmo tempo, deixá-la amadurecer calmamente.
Mais tarde, o assunto foi bastante recordado, mas sem a carga emocional doutros tempos.

O tempo foi correndo e a ligação foi-se cimentando, como se se tratasse de uma família normal. Este relacionamento tornara-se cada vez mais íntimo. Um dia, sentados num banco do Parque de Serralves, após mais uma longa conversa sobre o mesmo assunto, a Naíde teve a coragem de dizer ao Samuel que seria muito difícil encontrar um homem como ele e que, caso ele a quisesse, poderiam viver juntos.
O Samuel reagiu, dizendo:
- Continuarei a fazer tudo que possa, para seres feliz. Sabes que gosto muito de ti, mas tens de ver a minha idade, a minha saúde e, até, o meu aspecto. Tu és uma mocetona e eu já não passo de um velhote.
A Naíde encostou-se a ele, abraçou-o, beijou-o e disse-lhe baixinho, ao ouvido:
- Podíamos experimentar. Por que não?

Dois dias depois, deixaram o filho Joel em casa de um amigo e resolveram dar um passeio pelo Minho. Visitaram Barcelos, Braga, Ponte da Barca e almoçaram o “arroz de sarrabulho” na Casa Encanada de Ponte de Lima. De tarde seguiram para Viana do Castelo e Monte de Sta. Luzia. Ela desafiou-o a subir o zimbório do Santuário e ele mostrou que, ainda, mantinha muita juventude. Lá em cima, maravilhados com a paisagem, percorriam com os olhos o brilho das águas límpidas do Rio Lima, para além de Darque e Sta. Marta de Portuzelo, com as suas ilhotas povoadas de vacas, a pastar. Mais ao longe e de fronte, a bela Praia de Moledo e a larga Foz do Lima. E do lado da cá, o Cais de Viana e o Castelo Fortaleza, de onde saíram muitos combatentes para a guerra. Mais a norte, para os lados de Areosa, um mar imenso limitado por praias extensas “manchadas” por lotes de sargaço a secar e por um grande tapete de parcelas de terrenos hortícolas, cada uma com a sua cor.

Monte de Santa Luzia - Viana do Castelo - Templo do Sagrado Coração de Jesus
Com a devida vénia a Portugal Tours

E foi lá nas alturas, onde a sensibilidade do Samuel mais se manifesta, que ele a acariciou de forma diferente. Inebriados pela paisagem, envolvidos pela suave brisa iodada e, talvez, abençoados pela proximidade do Céu, agarraram-se exteriorizando uma verdadeira paixão.
Quando se identificavam na recepção do Hotel, ela notou que ele tinha as calças molhadas abaixo da braguilha. Colocou-se na sua frente para disfarçar a situação até ao elevador.
A primeira reacção foi a de tirar as calças e pô-las a secar na varanda do quarto. O Samuel parecia afectado pela situação de incontinência motivada talvez por alguma pressão da bexiga. Todavia, a Naíde, conhecedora das suas possíveis limitações, reconfortava-o, desvalorizando o incidente, ao mesmo tempo que procurava criar ambiente de normalidade e de descontracção. Despiram-se, banharam-se e foram-se enrolando amorosamente e com prazer.

Perante aquela mulher tão bela e tão charmosa, o Samuel teria que sentir-se agradavelmente excitado. Confiante, fez questão de recuperar a sua condição de homem experiente, também em questões de amor. Tudo parecia correr pelo melhor. Porém, cedo se verificou que o pénis se tornara mole e insuficiente para a função desejada. Mesmo assim, ele procurava satisfazê-la o melhor possível. A Naíde não perdeu o entusiasmo e também fez tudo para que a boa relação se mantivesse. Aliás, a força da sua entrega parecia ter-se soltado de amarras muito antigas. Quando ele ficou deitado, virado para cima, ela encaixou a vagina sobre o pénis amolecido, onde se roçou a seu bel-prazer, durante largos minutos, vindo a atingir um prolongado e exuberante orgasmo.
Após um relaxante repouso, quando ele tentava culpar-se pelas suas forçadas incapacidades, ela não o deixou terminar. Aproximou-se mais e abraçando-o confessou baixinho:
- Queres saber uma coisa? Nunca senti tanto prazer numa relação sexual!

Nota:
Se um dia destes, ao viajares pela região do Porto, vires um casal um pouco atípico a caminhar calmamente, tendo ela cerca de 40 anos, discretamente bela e formosa (1,75) e ele (com cerca de 70 anos) mais baixo uns 10 centímetros, aparentando menos de 60 anos, podes estar a ver o Luís Samuel e a Naíde, sua mulher, e filha do seu grande amigo e colega pára-quedista, ambos heróis da Guerra da Guiné.
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Nota do editor

Último poste da série de 16 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14478: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (17): Operação Bola de Fogo - Construção de Gandembel (O Inferno)

Guiné 63/74 - P14957: Nas férias do verão de 2015, mandem-nos um bate-estradas (13): O meu amigo e camarada Joaquim Jorge, da CCAÇ 616 / BCAÇ 619 (Empada, 1964/66), que vive hoje em Ferrel, Peniche, e que eu não vejo há 50 anos (João Sacôto, ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619, Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66)


Foto nº 1


Foto nº 2


Fotos: © João Sacôto (2015). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]



1. Mensagem,  com data de 15 de julho último, do João Sacôto, ex-alf mil da CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66): 


Luís, lembro-me muito bem do Joaquim Jorge. 

Se o vires e já que é teu amigo e vizinho, ai do oeste (Lourinhã / Peniche), dá-lhe o meu endereço de email. Ficámos amigos mas há cinquenta anos que não nos vemos.



 Envio-te duas fotografias em que ele está:

(i) Luís, estes são alguns dos, ainda aspirantes, do Batalhão de Caçadores 619 , poucos dias antes do embarque para a Guiné (Foto nº 1): o  1º. da esquerda, sou eu, da CCaç 617; o 6º. é o médico da CCaç 617, Folhadela de Oliveira, o 7º. é o Montes, da CCaç 618 , o 8º. é o Joaquim da Silva Jorge, da CCaç 616;


(ii) na foto nº 2, já em Bissau, em janeiro de 1964, alguns oficiais do BCAÇ 619:  o 2º. sou eu e o 3º. é o Joaquim Jorge. 

Abraço, Sacôto.



Leiria > Monte Real  > Palace Hotel Monte Real > IX Encontro Nacional da Tabanca Grande >  14 de junho de 2014 > O Joaquim da Silva Jorge e a esposa Esmeralda, que residem em Ferrel, Peniche... Garantiu-me que ia mandar as fotos da praxe para poder integrar, de pleno direito, a nossa Tabanca Grande... o que até agora ainda não fez, certamente por lapso. A sua companhia,a  CCAÇ 616,  reune-se anualmente em Fátima.

É "velhinho" na guerra (ex-alf mil, CCAÇ 616, Empada, 1964/66, companhia que também comandou) e "pira" em Monte Real... Foi em Empada que a guerra começou, não foi em Tite... Estivemos a falar de episódios, ainda mal conhecidos e pior esclarecidos,  desses tempos e lugares... A CCAÇ 616 foi substituir malta açoriana.  

Foto (e legenda): © Luís Graça (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: LG]

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Nota do editor:

Último poste de 30 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14947: Nas férias do verão de 2015, mandem-nos um bate-estradas (12): Há festa na aldeia!...O Grupo de Bombos do Grilo, Baião, na Tabanca de Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses

Guiné 63/74 - P14956: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (49): Relativamente ao desaparecimento do Alferes Leite, trata-se de um caso do qual ouvi falar desde a minha infância (Cherno Baldé)

1. Comentário do nosso amigo tertuliano Cherno Baldé, deixado, em 24 de Julho de 2015, no Poste 14922 do nosso camarada Virgínio Briote:

Amigo V. Briote,
Relativamente ao desaparecimento do teu colega Leite1, trata-se de um caso do qual ouvi falar desde a minha infância, pois o homem que lhes servia de interprete e facilitador era o meu tio Samba Baldé - vulgo Samagaia - (ver Guiné 63/74 - P4679: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (6): Uma gesta familiar, de Canhámina a Sinchã Samagaia, aliás, Luanda).

O meu tio, confrontado com problemas de uma Guerra de sucessão, após a morte de Branjame seu tio, afastou-se da zona de Canhámina e foi viver em Sare-Bacar, onde teria entrado em contacto com o comandante do pelotão estacionado no local. Foram presos na localidade de Kumakara, escassos quilómetros de Sare-Bacar (uma bolanha separa as duas localidades) e o objectivo da missão, aparentemente, seria o de promover a paz entre os guineenses e convencer a população deslocada a regressar com todas as garantias de segurança.

Enfim, o relato é o mesmo que acabas de escrever. A única diferença é que na versão que conhecia, não seria só uma mas seis pessoas, das quais 4 soldados metropolitanos e dois civis guineenses (um dos quais o meu tio), que em Dacar estiveram presos em celas separadas. Pouco mais de um mês depois, seriam soltos na fronteira perto de Sare-Bacar conforme tinham solicitado, acompanhados do Governador da região de Casamança.

Na verdade, entre outras causas, é de prever que o Senegal, mesmo não estando interessado em ajudar abertamente a guerrilha dirigida por Amílcar Cabral, também não estaria interessado no regresso para o território português (?) das populações refugiadas numa região de Casamanca, quase despovoada.
De notar que entre os refugiados contavam-se ganadeiros e chefes religiosos importantes que nenhum país inteligente pode dispensar de ânimo leve.
O meu tio acabaria por juntar-se aos outros e levar toda a família para a área de Kolda, na pequena vila (prefecture) de Dabo com um estatuto especial de refugiado de guerra.

Com um abraço amigo,
Cherno
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Nota do editor:

1 - Recordemos Virgínio Briote no P14922: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (VII Parte): Clara; Apanhado à mão e Entre eles

 O Leite era companheiro das mesmas lides desde há anos. De baixa estatura, magro, enfezado, aparência tímida e muita lábia, via-se que era desenrascado há muito. Estiveram no mesmo curso em Mafra, seguiram juntos no navio “Carvalho Araújo” para os Açores e separaram-se no cais de Ponta Delgada.
Encontraram-se, de novo no mesmo navio, no regresso ao continente.
Mobilizados para a Guiné, apanharam o comboio em Santa Apolónia, para o norte, para gozarem os dias de licença a que tinham direito e reencontraram-se em Campanhã para o regresso a Lisboa. Passaram os dias na capital, despedindo-se da vida boa que lá se vivia, até embarcarem no “Alfredo da Silva”. Na véspera do embarque fizeram questão de mandar vir lagosta e champanhe francês, no “Solmar”, ali nas portas de Santo Antão.
Davam-se, nem sempre ligavam às mesmas coisas, nem eram muito parecidos mas entendiam-se bem. O acaso fizera com que se juntassem nesse percurso. Já em Bissau, com o Capitão Marques, o Black e outros companheiros da viagem, separaram-se, até um dia destes.

Numa dessas visitas ao QG soube que o Leite tinha desaparecido.
A comunicação oficial era confusa, não se sabia ao certo se tinha desertado ou sido apanhado. Certo é que tinha sido levado para Dacar.
O Leite estava a comandar um pelotão reforçado em Sare Bacar, no norte, um pouco a leste de Cuntima, encostado ao Senegal, uma zona calma. O PAIGC, na altura, servia-se das fronteiras do Senegal como corredores de passagem para o interior que o Shenghor, problemas já tinha que chegassem.
Levava uma vida tranquila, mantinha boas relações com a população local. Terá sido abordado pela polícia, em território senegalês, quando, sentado a uma mesa, defrontava um frango de chabéu que lhe tinham preparado. Puseram-lhe as algemas e meteram-no num jeep a caminho de Koldá.
Depois de ouvido foi para a cadeia de Ziguinchor e por lá ficou umas semanas, enquanto se desenvolviam negociações, por intermédio da família, que o Estado Português não se meteu. A Igreja interessou-se, a Cruz Vermelha Internacional intercedeu, levaram-no para Dacar, onde foi presente a um juiz que decidiu recambiá-lo para Lisboa. Mas ele não queria, temia represálias, queria voltar a Sare Bacar. Semanas depois, acabou por ser entregue na fronteira às autoridades militares portuguesas. Soube isto da boca dele, dois ou três meses depois, na esplanada do tal Bento, momentos depois de ter sido chamado ao Governador-geral.

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Nota do editor

Último poste da série de 25 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14660: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (48): Avião amigo ou inimigo!?

Guiné 63/74 - P14955: (In)citações (76): Fiquei chocado com a Guiné que conheci em 17 de Janeiro de 1967 (Mário Vitorino Gaspar)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Vitorino Gaspar (ex-Fur Mil At Art e Minas e Armadilhas da CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68), com data de 18 de Maio de 2015:

Caros camaradas
Mesmo sabendo do atraso da Guiné, fiquei bastante chocado. Chegámos à barra do porto de Bissau, na noite de 17 de Janeiro de 1967. Estranhamente, apercebi-me ter chegado. Mais parecia um pesadelo. Negros de tanga e descalços pediam de mão estendida. Comecei a escutar, descarregavam a bagagem, transportando-a. Pediam. Foi um grande primeiro choque, embora conhecesse um pouco sobre aquela realidade.

Ouvíamos uma língua que desconhecíamos. Aqui e ali escutávamos os palavrões, esses em português, daqueles nativos. Como já imaginava, aquelas gentes viviam num mundo bem diferente do nosso paupérrimo mundo português. Imagem que os transportava muitos anos atrás, sem evolução. Não tinham avançado no tempo. Atrasados sempre, e não por culpa própria.
Depois do temporal a bonança, ouvia-se dizer, mas tinha sido um choque maior para mim, choque ainda maior do que seria possível imaginar. Aquelas gentes continuavam analfabetas, e nem falavam o idioma português. Via-os estendendo as mãos implorando tabaco e dinheiro.

Avistava-se a iluminação de Bissau e o pessoal da minha Companhia unida, quem sabe se para se proteger. Houve que juntar a bagagem, tendo-se procedido ao transbordo para uma LDM e Batelão BM-1.
Ficámos espantados, visto julgarmos desembarcar na capital… Deram-nos uma maçã, um quarto de pão, uma laranja, um ovo e um destino incerto.

Depois de encaixotados avançávamos por via fluvial estreita, o mato quase que nos tocava. O capitão desconhecendo a paragem final e o tempo… O calor queimava o nosso interior e porque não existia comida, começaram a abrir as malas e comemos então uns nacos de presunto e de salpicão. Os pitéus salgados? A sede? Problemas. O calor ia aumentando à medida que amanhecia. Dormia-se aos solavancos e, só no dia seguinte fomos informados do nosso destino.
A fome e a sede apoderaram-se de nós. O pessoal começava já a sentir a mudança do clima, e depois dos vómitos, depois da saída de Lisboa, quando se tinha fome a comida já não existia e, a água escasseava. Havia quem comesse as cascas das laranjas, rindo talvez para disfarçar.

Avistámos uma povoação, na margem direita do rio, tendo o comandante de companhia talvez, através dos fuzileiros que nos acompanhavam, dito tratar-se de Cacine. Uma “avenida” de palmeiras, e cá bem à frente, militares gritavam:
- Salta que é periquito!

Com um pequeno barco os fuzileiros chegaram a terra, trazendo sacas. Verificámos serem laranjas, bem sumarentas, mas mais pareciam vinagre. Segundo diziam, tínhamos que nos apressar devido à maré. A mata nas margens era densa e nós éramos não só uns intrusos, mas também periquitos, termo utilizado para designar todos os militares que estavam no início da comissão. Muito embora as azedas laranjas não matassem a fome, de algum modo ajudavam a enganar o estômago.
O capitão, falando com os oficiais e sargentos informou que se juntaria a um pelotão uma secção, ficando destacados num local de nome Ganturé. Os restantes ficariam instalados em Gadamael Porto.

Feito um sorteio, tocou ao meu pelotão ficar no destacamento. Desembarcámos em Gadamael Porto, e o termo “porto” não tinha significado, visto não existir porto algum. Nem sequer um simples cais.
- Salta, salta periquito! – Ouvíamos, enquanto um aglomerado de militares pulava de contente.

Entendia aquela alegria, mas a verdade é que se éramos os periquitos, e a CCAÇ 798 é que saltava. Juntava-se a população civil, esta olhava-nos, não expressando alegria.
De imediato tivemos que carregar as malas e saltarmos para cima de uma caixa de uma GMC, que substituía o cais que não existia. Houve quem escorregasse e caísse no lodo. Os gritos continuavam, e as viaturas militares preparadas para transportarem o pelotão e a secção para Ganturé, começaram a andar. Não houve tempo para analisar aquele local isolado no mato, e enquanto uns recebiam instruções e continuava a descarga, nós avançávamos, também para local incerto. Alguém avisou não ser necessário picar visto existir movimento de viaturas durante todo o dia.

Ganturé em 1967

A Companhia de Caçadores 798, começava a embarcar na LDM e no Batelão. Para eles era a alegria do fim da comissão.
Depois de passado o casarão à esquerda, onde funcionava o comando, ultrapassámos o abrigo, que funcionava como porta-de-armas e, mais ou menos percorridos três quilómetros, cortámos à esquerda e eis à nossa vista a “colónia de férias”. Saíam já outras viaturas com os militares da companhia rendida, que gritavam sorridentes em altíssimos berros:
- Salta periquito, salta periquito...

Árvores de alguma altura abundavam. A população civil aproximava-se, querendo conhecer os novos vizinhos, enquanto um Alferes se apresentava. Tinha ido em rendição individual e ficaria ainda com a nossa companhia, segundo afirmado pelo próprio. Um militar, praticamente sem farda, disse ficar também connosco, aproximou-se de mim:
- Quer comer uns borrachos fritos?

Olhei-o admirado. Afinal aquilo não era assim tão mau. Até existiam uns pombinhos para comer!
- Onde estão eles?
- Oh Furriel, venha comigo!

Olhei para cima dos ombros e vi as divisas camufladas e retirei-as colocando-as no bolso.
Enquanto reparava que aquele 1.º Cabo, não vestia nenhuma roupa do exército: uns calções de banho e uns chinelos de enfiar nos dedos.

Fritados os borrachos e umas batatas, iniciei a minha primeira refeição em terras de África. E que pitéu! Não sabia a razão da escolha ter recaído sobre mim, o prémio daquela refeição acompanhada por cervejas de seis decilitros. O nosso 1.º Cabo que nunca me vira, confortava-me dizendo para eu não me preocupar, porque aquelas aves que comêramos não chegavam para todos, e estava-se a fazer o jantar, bacalhau com grão.
Fora um milagre, uma bênção. E depois da primeira fome, a primeira fartura, porque estava disponível para trincar a bacalhoada, logo que estivesse pronta.

Começámos a instalar-nos e o Alferes que ficara esclarecia-nos, acompanhando-nos.
Fiquei numa barraca encostada ao abrigo onde ficou a minha secção, coberta com chapa zincada. Era decerto um forno. Havia uma cama e um caixote de munições que funcionaria como mesa-de-cabeceira, sobre a qual via uma garrafa de cerveja cheia de gasolina com um pavio enfiado no buraco da carica. Era a iluminação da minha nova moradia.

Comecei por conhecer a população. Lindas bajudas. Converti-me.
Não entendendo patavina do que diziam. Prometi a mim próprio não contribuir para um palavreado que não entendia, mas repleta da asneira, em bom português. Todos senhores e senhoras, o nosso Soldado de igual modo tratado. Fui avisado, mas segui a caminhada. Escutava das Praças “U”, e nos Caçadores Nativos, frases em português. Não respondia a ninguém que me falasse que dialecto fosse.

Ensinei em dias o português. Eles sabiam-no. Foi o meu percurso. “Portuga”, nunca me chamaram, se o fizeram, não sei… Fui professor, ensinei. Fiz o meu papel e cumpri o meu papel. Tive imensos contactos com a população, comi a “bianda” nas mãos enrolada, só para fazer a vontade.

Em relação aos filhos que lá deixámos. Tenho conhecimento que sim. Casos que eles próprios o desconhecem. Alguém me ajude nesta descrição. Uma negra, bem negra e bonita, de Guileje (ou Mejo?), julgo ter sido em Guileje, tinha um filho branco. Era vestido pelos Oficiais e Sargentos. Se nasceu em 65, tem hoje 50. Diziam ser filho de um Capitão que o quis levar e a mãe não permitiu. “Mas «portuga», não”! Nem o autorizava. Visto tratar todos por você e senhor, tal não admitia. Tanto cá como na Guiné, sempre o trato foi você. Éramos iguais… é o único modo que conheço de tratamento.

Na Tabanca Grande, é Camarada. Também é verdade que existem Camaradas e camaradas.
Cumpri, mas não romperam esse cumprimento. Sou combatente e não ex-combatente. Devem-me os meses riscados com uma esferográfica “bic” no cinto, não nos pagaram. Alguns receberam.
Ninguém me venha dizer que foi pela Pátria, mas que pátria-mátria que não reconhece os seus filhos?
Paletes de amigos, é verdade, mas analfabetos ou não, mesmo não fazendo política me disseram, era o seu padre e confessor, mas perguntavam:
- Meu Furriel, o que fazemos aqui?

Palavras sábias…

Cumprimentos
Mário Vitorino Gaspar
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Nota do editor

Último poste da série de 24 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14515: (In)citações (75): Perspectivas sobre o 25 de Abril (José Manuel Matos Dinis)

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Guiné 63/74 - P14954: Notas de leitura (742): “Autópsia de um Mar de Ruínas”, de João de Melo (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Agosto de 2014:

Queridos amigos,
O romance de João de Melo centra-se em Calambata, junto de S. Salvador, norte de Angola. É muito mais do que um romance de guerra, analisa usos e costumes, vai cerzindo o português gentílico, analisa a compra do café pelos colonos a preços miseráveis, e assistimos às bebedeiras monumentais dos trabalhadores que tudo compram a esses colonos até ficarem sem um angolar. O escritor desenha um cenário em que a guerrilha vai em crescendo, o que obriga a multiplicar as operações e a procurar suspeitos nas sanzalas. É um livro que ficará nos anais da literatura, de uma amargura sem fim, entremeando a candura e a brutalidade sem restrições.
Leitura imperdível, portanto.

Um abraço do
Mário


Autópsia de Um Mar de Ruínas (2), por João de Melo

Beja Santos

Estamos em Calambata, não muito longe de S. Salvador, norte de Angola, em plena guerra, João de Melo descreve a sua vida como furriel enfermeiro, é implacável nas suas descrições anticoloniais, não esconde o seu asco à violência das polícias, tem sempre um olhar de aconchego, de delicadeza, com os mais frágeis, com os inocentes. Veja-se como descreve os meninos que vão buscar as sobras das refeições no quartel:
“Vindos numa corrida desde a porta de armas, com os cães ladrando-lhes à canela, no meio de um rumor de latas suspensas do arame, os miúdos enxameavam por ali. Tristes na sua sujidade e na sua nudez, vinham derriçar-se nos muros do refeitório, à espera dos restos que sobrassem dos pratos de alumínio. Por vezes um cozinheiro gordo agarrava na colher de pau e gritava:  Putas daqui pra fora, não há nada para ninguém!
Alguém o enfrentava, de cinturão nas mãos, pronto a malhar naquele costado gorduroso: 
- Deixa lá os putos em paz, texugo de panelas. Bota cá para fora as sobras, quando não ponho-te a derreter nesse maldito fogão de lenha. 
De sorte que os miúdos, os pobres e infelizes meninos atacavam em bando os caixotes do lixo, raspavam com as mãos o arroz encaroçado no fundo daqueles tachos medievais, serviam-se de um espeto para remover as bolas de cimento do esparguete e as cabeças do peixe – e enchiam à pressa as suas latas enferrujadas com restos de sopa, pedaços de pão molhado, ossos moribundos que levavam para os irmãos mais velhos, para mama doente ou para vavó com fastio de morrer em breve”.

Há descrições da messe de sargentos que entrosam o lirismo, mas também o homem reduzido a uma ilha deserta, a sensualidade epidérmica:
“O furriel Borges sentava-se à tarde, olhando para muito longe e pensando na mulher e as filhas. Era dos tais que bebia sem jeito, por força daquela espécie de elixir que levava a ver os anjos nos sítios improváveis e um inferno com anjos. Bochechava o uísque, dava-lhe pequenas dentadas, e os seus grandes dedos de gafanhoto apalpavam o copo ao longo das arestas. O furriel Tavares escrevia três cartas por dia à mulher da sua vida, e eram tratados práticos acerca do futuro de ambos, com poemas espontâneos ou minúsculas zangas a propósito de uma frase ou de um facto sem importância. O furriel vaguemestre combinava repetidamente com o furriel Silvares um encontro em Lisboa no dia 18 de Julho do próximo ano, quando fossem de férias à Metrópole. Iriam fazer uma orgia ou uma bacanal com as gajas da Faculdade de Farmácia, grande e especial coxame aquele, rapaz, que havemos de vir de lá de gatas ou de ambulância".
Também a descrição da chegada das lavadeiras ou dos doentes é parágrafo antológico, como segue:
Por volta das cinco da tarde, chegava a população civil à porta de armas, para receber os tratamentos do furriel enfermeiro. Ou eram as lavadeiras trazendo as roupas aos mui respeitosos patrões de sábado, dia de pagamento desse trabalho de lavar os brancos até nas partes proibidas. Vinham velhas com rosto de pergaminho e crianças com a febre das abelhas, tão comidas pelos furúnculos e pequenas descargas da diarreia que já não eram abelhas nem sentiam a sua febre; vinham velhos coxos e sem sangue: tinham a tosse consente e o ar ensimesmado dos eternos incompreendidos deste mundo e apoiavam-se a um graveto com a vaga forma de uma bengala, chupando sem cessar os cachimbos de bambu. Vinham mulheres sem sorriso nem alvoroço, com filhos às costas ou grávidas de muito tempo. Tão velhas eram, algumas delas, que mais pareciam avós engravidadas à força, pois o seu olhar de terra atingira já a baciez das lulas, a água parada dos pântanos, a idade dos metais inutilizados. As restantes recebiam os soldados e devolviam-lhes a roupa lavada e cerzida; recebiam a furiosa arremetida das mãos de ferro que lhes procuravam os seios; eram homens de dentes cerrados, tontos do seu desejo de mulher, cujo olhar se turvava como o dos violadores enlouquecidos, enquanto a fúria delas crescia, tornava-se lívida e dava ao bronze da sua pele um brilho de punhais esquivos”.

As descrições dos ambientes nativos têm uma força invulgar, são telas vivas, parece que atravessamos os caminhos entre as cubatas, ouvimos falar um português gentílico, João de Melo entremeia os registos duros com o olhar antropológico, prepara na lentidão deste morno olhar grandes angulares como a chegada das tropas a S. Salvador, sentimos a euforia dos militares, o olhar duro dos colonos que parecem dizer:
“Vão-se embora e deixem a guerra por nossa conta: uma simples batida pelo Norte serve-se ao domicílio um cadáver por cada terrorista, e Angola é nossa”.
É a primeira vez que lá vai o furriel enfermeiro, anda por ali embasbacado a ver a estação de rádio, o aeroporto de terra atida, a própria sanzala. Espera o amigo Gonçalves que lhe traz notícias da família. A alquimia da escrita toma também conta de nós quando se vão pincelar cenas de batalha, o autor introduz a África mágica:
“Eram apenas as nove da manhã em ponto, e as nervuras vermelhas das acácias destilavam sobre as lavras de mandioca o óxido do seu cobre solar; os imbondeiros e as palmeiras, assim à distância, devolviam-nos o mar sem água, e era o deserto; a areia fumegava, húmida, no salgema da pista de aviação, e entrara pelo quartel dentro a paz sem cor dos dias em que se espera a morte e ainda nada aconteceu (…).
E foi então que a voz do Santiago telegrafista, saindo disparado do posto da rádio, chegou ao meio da parada e gritou: O pelotão está debaixo de fogo! O pelotão está debaixo de fogo! De modo que, sabendo nós que trinta desgraçados rapazes da nossa idade começavam a morrer, pusemo-nos todos de pé, em grande e alvoroçada agonia. Corremos à procura dos camuflados e das armas (…). O furriel Borges reapareceu da névoa, como se emergisse do fundo do mar de ruínas. Era um homem ainda maior do que o deus da morte. Pairava nele uma espécie de paisagem naufragada no mar, porque apenas abriu os braços e disse: Tudo morto. Tudo morto. O alferes Abílio morreu. Está tudo cheio de mortos”. 

Segue-se a dimensão do desastre, os feridos agitam-se, o furriel enfermeiro acorda, grita por um helicóptero com serviço de sangue a bordo. E há os sinais grotescos desses objetos que sobravam da destruição:
“Eram gorros fitas vazias de munições, estúpidas bocas de cartuchos de balas, um cantil sem água; uma bota desgarrada sorria de lado à morte acontecida há umas horas apenas, tendo dentro de si alguns dedos destruídos, com enegrecidas unhas podadas à navalhada; um papel com manchas de gordura fora espetado numa árvore muito sofrida, com grossos nós onde alguns elefantes teriam já coçado os seus parasitas. O alferes ficou um instante a decifrar aquela letra torcida e incerta. Seguiu com o olhar todos os riscos e gatafunhos, fascinado mas enchendo-se aos poucos de cobre. Acabou por dizer em voz alta: Filhos de uma grande puta!”.

Há gente perdida, vai reaparecendo marcada pela alucinação, e dá-se ao regresso lento e doloroso, têm oitenta quilómetros a percorrer, é grande a fome e muita a sede, Calambata está longe, o furriel enfermeiro marcha transfigurado, quando recupera o ânimo vai cuidado dos seus feridos.

(Continua
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Nota do editor

Poste anterior da série de 27 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14934: Notas de leitura (741): “Autópsia de um Mar de Ruínas”, de João de Melo (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P14953: Blogoterapia (272): Segredos... de confessionário, precisam-se!... Neste nosso querido mês de agosto, baixa a G3, camarada, e conta-nos uma daquelas histórias que só se costumam contar na véspera da morte, para "alívio da consciência"....


Guiné > Região do Oio > CART 527 (1963/65) > Olossato > Julho de 1963 &gt Fardas novas (camuflado em vez da farda amarela), capacete de aço,  os graduados equipados com a pistola metralhadora FBP... Em primeiro plano, o fur mil António Medina,  com a sua secção. "Ainda guerra era um crinaça" (LG)...

Foto (e legenda): © António Medina (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: LG]

1. Mensagem enviada pelo editor LG, pelo correio interno, a toda a Tabanca Grande:

Assunto: Segredos... de confessionário, precisam-se!

Amigos/as e camaradas:

Todos temos, se não pecados, pelo menos pecadilhos que nunca confessámos a ninguém, muitas vezes apenas por falta de interlocutores ou de ocasião ou de ambiente, e não tanto por autocensura ou receio da censura dos outros... 

Refiro-me a "pecados e pecadilhos, grandes e pequenas patifarias", cometidos no tempo da tropa e da Guiné...

Recentemente veio aqui ao "confessionário" o veteraníssimo António Medina contar-nos como é que andou três dias "desenfiado" em Bissau, por causa de uns primos que tocavam no conjunto "Ritmos Caboverdianos", sujeito a apanhar uma porrada das grandes por violação grave dos seus deveres militares...

Estávamos em meados de 1964 e o que valeu ao Medina, que já não era "pira", já andava "apamhado do clima",  foi um taxista, seu patrício, que o levou de volta, de Bissau  até Teixeira Pinto, por mil pesos, sem qualquer escolta (!)... A única arma que o Medina levava debaixo do assento da viatura era a sua FBP... Em João Landim deu boleia a uma mulher que vendia ostras, e que ele já comnhecia do Cacheu (onde estava destacado)... E lá seguiu a "coluna solitária" até ao Canchungo: o Medina, a mulher, o taxista... A história, completa, está aqui neste poste recente, P14945

Já se ouviram aqui histórias espantosas que seria uma pena ficarem para sempre no "segredo dos deuses", o mesmo é dizer, perderem-se ... São histórias que  seguramente nunca chegaram (nem chegarão) ao Arquivo Histórico-Militar, não sobrevivendo ao "guardião da memória", que é cada um de nós... Claro que nenhuma delas vem "alterar" a visão final da História com H grande... Mas essa será sempre mais pobre sem as nossas histórias com h peqeueno...

 Estou-me a lembrar, por exemplo, do primeiro poste que publicámos nesta série, há 7 (sete) anos atrás (!)... Merece ser "revisitado" o poste, do Mário Dias, P3543

Este mês de agosto, de férias para alguns, à beira-mar, sob o efeito (dissolvente) da canícula, presta-se à escrita descontraída e relaxada... Pode ser que no meio da "pescaria" das nossas memórias, surja algum segredo que não seja de polichinelo (daqueles que toda a caserna já sabe...).

Ficamos na expectativa, em época de defeso, de sermos surpreendidos pelos nossos amigos/as e camaradas da Guiné que se sentam à sombra do sereníssimo e inspirador poilão da Tabanca Grande,,,

Boa saúde, melhor lazer... Luís Graça e equipa editorial.

PS - Em agosto, o Carlos Vinhal (CV) lá continuará no seu "posto de combate", O LG e o EMR vão a banhos... O VB continuará a publicar as suas surpreendentemente frescas  memórias da "Guiné, ir e voltar"... Para todos/as, um querido mês  de agosto!
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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 29 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14809: Blogoterapia (271): Não sabia que o tempo passava tão depressa (Juvenal Amado)

(**) Postes anteriores da série:

29 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14945: O segredo de... (19): António Medina (ex-fur mil, CART 527, 1963/65, natural de Cabo Verde, mais tarde empregado do BNU, e hoje cidadão norte-americano): Desenfiado em Bissau por três dias, por causa dos primos Marques da Silva, fundadores do conjunto musical "Ritmos Caboverdeanos"... Teve de se meter num táxi, até Teixeira Pinto, que lhe custou mil pesos, escapando de levar uma porrada por "deserção"!

(...) Sentindo-me eufórico pelos uísques e cervejas, perdi a noção da responsabilidade que tinha nos meus ombros, apontando o nosso cabo Augusto como comandante da coluna e ordenando que de imediato seguissem viagem. Que à chegada informasse o alferes daquela minha decisão e que voltaria logo assim me fosse possível. (...)

26 de abril de 2014 > Guiné 63/74 - P13046: O segredo de... (18): O ato mais irresponsável nos meus dois anos de serviço como soldado de artilharia (Vasco Pires, ex-alf mil art, cmdt do 23.º Pel Art, Gadamael, 1970/72)

(...) Decorria o ano de 1970, quando cheguei a Bissau, no BAC1 (ou já seria GA7?), que era Comandado por um controverso Oficial Superior de Artilharia, a quem a caserna dera o codinome de "Paizinho", entre outros, que vou me abster de mencionar. (...)

28 de janeiro de 2014 > Guiné 63/74 - P12648: O segredo de... (17): O maior frio da minha vida (Fernando Gouveia)

(...) Presentemente não se pode considerar propriamente um segredo mas, na altura em que  os factos aconteceram, tive que me abster de falar nesse assunto para eventualmente não sofrer represálias dos meus superiores, instrutores, na classificação final da especialidade, determinante para a mobilização, ou não, para a guerra. (...)


25 de janeiro de 2014 > Guiné 63/74 - P12632: O segredo de... (16): Ricardo Almeida (ex-1.º cabo, CCAÇ 2548 / BCAÇ 2879, Farim, K3 / Saliquinhedim, Cuntima e Jumbembem, 1969/71): Como arranjei uma madrinha de guerra, como lhe ganhei afeição e amor, e como por causa da minha
terrível doença fui obrigado a tomar uma dramática de decisão de ruptura... A carta de amor pungente que ela me escreveu, em resposta..

(...) Esta recordação que nunca apago da mente nem do coração, reporta-se a uma madrinha de guerra à qual devo gratidão eterna pelo apoio moral e psicológico que me deu enquanto combatente, doente com uma moléstia terrível, redundando isto num amor fraterno, solidário e muito apego à vida que ela me transmitia tanto nas cartas que me escrevia, como depois pessoalmente, como quando trocámos promessas de vida em comum e casamento, testemunhado no interior duma capela pelo santo que lá existia e que parecia concordar com a nossa decisão. (...) 


(...) No meu tempo de Guiné, mais propriamente aquando da minha passagem pela Secção de Justiça do Depósito de Adidos em Brá no ano de 1973, procedi a algo que, na altura a ser descoberto, no mínimo constituiria matéria do foro do direito penal militar, mas do qual ainda hoje não me arrependo por considerar que, em consciência, procedi de forma a aliviar um sofrimento desnecessário de um camarada. (...)

(...) Também fiz o curso de Minas e Armadilhas, em Tancos, ainda em 1971. Encartado, licenciado, nunca mais esqueço uma barras de trotil, amarelinhas, cilíndricas que roubei e escondi na cozinha da minha casa, em Benfica, com uns detonadores e cordão lento guardados no outro lado, na sala, à espera de fazer umas bombas para ajudar a rebentar com o regime.  Santa e perigosa ingenuidade! (...)

(...) Uma das primeiras operações (a segunda, depois de uma ida ao Óio) que o Amadú fez, integrado no Grupo Fantasmas, do Alf Saraiva, foi no meu conhecido Buruntoni, no Xime, em 11 de Novembro de 1964. Na véspera, o grupo deslocara-se de barco, de Bissau até ao Xime. A 11, andaram toda a noite, a corta-mato, com um guia local. Como era quase inevitável, nas matas do Xime, o guia perdeu-se. O objectivo era um acampamento da guerrilha. Chegaram ao Buruntoni por volta das 7h00, quando o sol já ia alto… Deparam-se, entretanto, com um “rapazito de 8 ou 9 anos” (...)


(...) Uma das primeiras operações (a segunda, depois de uma ida ao Óio) que o Amadú fez, integrado no Grupo Fantasmas, do Alf Saraiva, foi no meu conhecido Buruntoni, no Xime, em 11 de Novembro de 1964. Na véspera, o grupo deslocara-se de barco, de Bissau até ao Xime. A 11, andaram toda a noite, a corta-mato, com um guia local. Como era quase inevitável, nas matas do Xime, o guia perdeu-se. O objectivo era um acampamento da guerrilha. Chegaram ao Buruntoni por volta das 7h00, quando o sol já ia alto… Deparam-se, entretanto, com um “rapazito de 8 ou 9 anos” (p. 91). (...)

18 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5670: O segredo de... (11): Um ataque a Bissau, uma bravata do Hoss e do Django (Sílvio Fagundes Abrantes, BCP 12, 1970/71)

(...) Vou contar a história real dum ataque a Bissau feito em 1971. Um dia, eu e o meu amigo Julião Pais dos Santos (o Django), pensámos em atacar Bissau... Dito e feito. Mas faltava a estratégia. Depois de alguns dias a pensar na estratégia, finalmente chegou a luz ao fundo do túnel. (...)


24 de setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5529: O segredo de... (10): António Carvalho (ex-Fur Mil Enf, CART 6250, Mampatá, 1972/74): Os tabefes dados ao Bacari

(...) Desde há algum tempo tenho vindo a pensar que nem sempre éramos correctos no nosso relacionamento com os civis e que essa faceta raramente ou nunca tem sido aqui objecto de qualquer relato. Parecendo-me que esta perspectiva da nossa (con)vivência com a população também faz falta à verdadeira história da guerra do ultramar ou colonial, eis-me aqui a falar de mim, falando dos meus pecados (...)

21 de outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5138: O segredo de... (9): Fur Mil J. S. Moreira, da CCAV 2483, que feriu com uma rajada de G3 o médico do BCAV 2867 (Ovídio Moreira)

(...) O meu irmão, José dos Santos Moreira, [Fur Mil,] fez parte da CCAV 2483, Cavaleiros de Nova Sintra, BCAV 2867 [, Comando e CCS em Tite]. Em 1969 feriu a tiro de G3 o Cap Médico do batalhão.Regressou a Portugal em 28 de Dezembro de 1969. Teve baixa de serviço por incapacidade física em Março de 1970. Foi julgado no Tribunal Militar Territorial do Porto, em Novembro de 1973. Libertado depois do 25/4/74. (...)

24 de setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5006: O segredo de... (8): Joaquim Luís Mendes Gomes: Podia ter-me saído caro aquele pontapé no...

(...) Eu era um simples Aspirante a Oficial. Não tinha culpa de levar a sério a minha posição. Já tinha estado no RII 19 no Funchal nos meus primeiros meses de activo depois do curso de Oficiais Milicianos em Mafra. Destacado para Évora para preparação da Companhia que me iria levar para o Ultramar, eu levava as minhas responsabilidades muito a sério. Se era para ser Oficial de Dia ao Batalhão, era mesmo Oficial de Dia.(...)


(...) Apesar de me terem advertido para a eventual polémica a propósito da revelação da entrega de gasóleo ao PAIGC , surpreendeu-me a quantidade e agressividade dos comentários produzidos. Vou tentar clarificar as coisas. (...)

11 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4936: O segredo de... (6): Amílcar Ventura: a bomba de gasóleo do PAIGC em Bajocunda...

(...) Amigos e Camaradas Editores, há muito que quero contar um facto real que se passou comigo e o grupo do PAIGC da minha zona de guerra que era Bajocunda, mas como é um facto que pode ser sensível a alguns Camaradas de blogue. (...)


4 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4461: O segredo de... (5): Luís Cabral, os comandos africanos, o blogue Tantas Vidas... (Virgínio Briote)

(...) Das nossas lides bloguísticas eu sabia, talvez há mais de dois anos, que o meu amigo e camarada Virgínio Briote acalentava a secreta esperança de um dia poder entrevistar (ou ter uma conversa franca com) o Luís Cabral... Fez várias tentativas. Em vão. Até que a morte do histórico dirigente do PAIGC, ocorrida há dias em Lisboa, veio fechar-lhe a última porta (...)

11 de Dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3598: O segredo de... (4): José Colaço: Carcereiro por uma noite

(...) Numa das saídas das explorações que nos eram confiadas, foi apanhado um guerrilheiro e feito prisioneiro. Quando o pessoal chegou, já era noite. Não eram horas de entregar o prisioneiro à PIDE. Então o capitão lembra-se da brilhante ideia, como o Colaço está de serviço permanente ao posto rádio, fica a guardar o prisioneiro. Ordens são ordens e não há que contestar. (...) 

6 de Dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3578: O segredo de... (3): Luís Faria: A minha faca de mato

(...) Tinha-a comprado no Porto. Era equilibrada adaptava-se muito bem à minha mão, éramos inseparáveis e até dez passos o lançamento não falhava o alvo. Levantou 1032 minas, mas nunca chegou a ser usada em/contra alguém. Um dia, numa operação na zona de P. Matar, embrulhei (amos) forte e feio. (,,,)

30 de Novembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3544: O segredo de... (2): Santos Oliveira: Encontros imediatos de III grau com o IN

(...) Tinha acabado de receber notícias trágicas acerca da morte dos meus dois amigos de infância. Isolava-me e chorava e este sentimento de perda prolongou-se por alguns dias.  O poiso escolhido era o topo da paliçada, onde fingia estar a fazer a vigilância habitual, embora perfeitamente exposto. Apetecia-me morrer. Foi terrível. P3143: Blogoterapia (62): A minha vida morreu; morreram os meus amigos (Santos Oliveira) (...)

30 de Novembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3543: O segredo de ... (1): Mário Dias: Xitole, 1965, o encontro de dois amigos inimigos que não constou do relatório de operações

(..) Estando com o meu grupo de comandos no Xitole, sensivelmente em meados de 1965, fomos fazer uma patrulha de reconhecimento pois o inimigo há muito mostrava sinais de intensificar a sua actividade na região. Porém, as informações eram escassas. Desconhecia-se com precisão por onde andavam os guerrilheiros e as possíveis localizações dos acampamentos. Por tal facto, foi-nos dada a missão de efectuar um reconhecimento ofensivo, tentando localizar o destruir o inimigo. (...)

Guiné 63/74 - P14952: Parabéns a você (939): Manuel Augusto Reis, ex-Alf Mil Cav da CCAV 8350 (Guiné, 1972/74)

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Nota do editor

Último poste da série de 30 de Julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14946: Parabéns a você (938): Amaral Bernardo, ex-Alf Mil Médico do BCAÇ 2930 (Guiné, 1970/72); Júlio Costa Abreu, ex-1.º Cabo Comando do Grupo Centuriões (Guiné, 1964/66) e Victor Tavares, ex-1.º Cabo Paraquedista da CCP 121 / BCP 12 (Guiné, 1972/74)

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Guiné 63/74 - P14951: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (VIII Parte): "Hotel Portugal"; "Um guia" e "Artigo 4.º do RDM"

1. Parte VII de "Guiné, Ir e Voltar", enviado no dia 11 de Julho de 2015, pelo nosso camarada Virgínio Briote, ex-Alf Mil da CCAV 489 (Cuntima), e Comando do 2.º curso de Comandos do CTIG (Brá), CMDT do Grupo Diabólicos (1965/67).


GUINÉ, IR E VOLTAR - VIII

Hotel Portugal


A comunidade cabo-verdiana estava muito presente na Guiné, não só em número como também na posição social que ocupavam. Evitavam misturar-se com a tropa e distinguiam-se do resto da população guineense, embora muitos estivessem envolvidos no processo de insurreição, uns mais activamente que outros naturalmente. Tinham os seus pontos de encontro, quase exclusivos, normalmente em casas de familiares ou amigos e gostavam de se manter assim.
A casa da Dora, chamemos-lhe assim, nas margens do bairro do Cupilom, a caminho de Santa Luzia, era um exemplo desses. Apareciam frequentemente recém-chegados de Santo Antão, de S. Vicente e das outras ilhas. Juntavam-se lá, qualquer coisa servia de pretexto para conversarem e enquanto bebiam umas cervejas abanavam-se ao ritmo das mornas e coladeras1 do gira-discos.
Conheceu a Dora por intermédio de um amigo comum cabo-verdiano e, de vez em quando, passava por casa dela, encarando os olhos desconfiados de alguns dos presentes.

Bissau não tem nada para fazer, só sarilho, mais nada, dizia o empregado de mesa do restaurante do Hotel Portugal. Com a sua idade quem não estava aqui, sei eu quem era!
Senhor Gabriel, acho que vou até ao cinema, à UDIB2, tenho que me despachar senão já não vejo o princípio do filme. Contas feitas, o cinema logo ali, bilhete na mão, escadas acima que gostava de ir para o balcão, ver o filme e lá de cima via-se melhor.
Documentários, as inaugurações no Império Português com o Pedro Moutinho, o Fernando Pessa, uma curta antiga para cumprir programa, e começa Zorba, o Grego, com o Anthony Quinn a estrelar.
O filme a decorrer, sempre a mesma música, uma seca, se calhar até é um bom filme, o movimento um bocado para o lento, a madeira da cadeira incómoda de mais para as costas, os joelhos todos encolhidos, nem podia estender as pernas, no intervalo se isto não acelera vou mas é embora. Não esperou pela segunda parte, recolheu a Brá arrependido de não ter ido até à casa da Dora.

Da metrópole chegara há poucos dias a Brá um batalhão, um dos primeiros de fardas verdes.
Nessa noite do Zorba ouviam-se explosões ao longe, para os lados de Jabadá, do outro lado do Geba, flagelações que se estavam tornar diárias e que não despertavam qualquer interesse, para além da curiosidade inicial, tipo que estrondos são estes, a quem estivesse em Bissau.
Quando estava a entrar no sono acordou com ruído de vidros a partirem, barulhos de vozes logo a seguir e minuto depois mais nada, o silêncio. Deixou-se estar, afinal não era nada com ele.

Na manhã seguinte, como era hábito os comandantes de grupo reuniram-se no gabinete do Capitão Rubim.
Esta noite, em frente aos quartos dos sargentos, alguém lançou uma granada ofensiva para a frente de um jeep que passava, começou o capitão. Alguém sabe quem foi? E por que havia de ser alguém nosso, meu capitão?
Tempos depois veio a saber que um dos jovens comandos, talvez com insónias e farto da paz podre dentro do aquartelamento, mexia-se e remexia-se na cama, dormir é que não conseguia. Sabe-se que as insónias nem sempre são boas para as ideias. Às escuras tirou uma granada ofensiva que tinha debaixo da cama, pegou num fio da mesa de cabeceira e, sorrateiro, saiu para a rua. Olhos para um lado e outro, rastejou para a valeta, entre o passeio e a rua pouco iluminada. Deitado, colocou a granada com o fio atado na cavilha, por baixo de uma pedra solta na sarjeta. Ao atravessar a estrada para prender a outra ponta do fio, viu faróis de viatura a aproximarem-se. Escondido na valeta, esperou que passassem. Depois, completou o serviço. Regressou ao quarto, fechou os olhos e esperou que alguma coisa acontecesse.
Minutos depois, um jeep com oficiais do jovem batalhão foi sacudido por uma explosão. Vidros das janelas voaram em estilhaços, saltou pessoal de todos os lados, houve quem visse um capitão de cuecas com capacete na cabeça e Walter na mão a dizer que Brá estava a ser atacado. Mantinha-se assim tudo bem, o jovem batalhão desperto para as incertezas da guerra bem com o mau ambiente entre eles.

Era no Hotel Portugal que se juntavam para jantar, desde há uns tempos. O esforço era muito e a comida na messe não abria o apetite. Tinham uma mesa reservada para os quatro, o Vilaça, o Toni Ramalho, o Gião, o narrador desta história, e por vezes um ou outro camarada.

Alf Mil Vilaça (de costas), Fur Mil Valente de Sousa, ??, Alf Mil Gião, Alf Mil V. Briote, Fur Mil Marques de Matos e Alf Mil António Ramalho. Hotel Portugal.

Quando havia vaga naquela mesa do restaurante do hotel, Carlos3 sentava-se com eles, fazia grupo.
Carlos nascera de um parto prematuro, um nascimento difícil, tinha ido lá cima e vindo outra vez, o obstetra a explicar, orgulhoso do serviço, com as notas numa mão e a outra a fazer festas na carita do recém-nascido.
Infância e adolescência protegidas, a mãe sempre ao lado dele, o pai a ganhar dinheiro para manter a mulher viçosa, bem tratada, limpezas de pele num instituto lisboeta com fama para massagens nas pernas, coxas, cintura, tudo a pagar ao mês, o filho delicado nas mãos para se entreter, quando o bebé abria as goelas passava-o para a ama.
Nunca foi um aluno famoso, mas andara para a frente, até ao 7.º ano. E o pai ganhara experiência, com o decorrer dos anos evoluíra de vendedor de tecidos na praça de Lisboa para um industrial respeitado, arranjara conhecimentos e, sabe-se como as coisas são, conseguiu incorporá-lo na Força Aérea, já que livrá-lo da tropa não tinha sido possível.

Apreciador do belo sexo, o respeitável papá conhecera numa tabacaria do Rossio uma jovenzinha a rondar os 18, magra, engraçadinha, a prometer melhorar com o tempo. Iniciada uma relação mais íntima, alugou-lhe um pequeno estúdio na Infante Santo e arranjou-lhe um emprego, melhor que o da tabacaria, ao balcão de um estabelecimento novo, muito conhecido no fabrico e comércio de todo o tipo de artigos para bebés.
Com o novo emprego, ganhou uma alimentação mais cuidada, outros cuidados também, as últimas novidades em cima e dava nas vistas, o corpo arredondara onde era preciso e, claro, parava os atentos e também muitos distraídos.

Carlos evoluiu normalmente, embora com algum atraso num ou noutro aspecto que o pai, atento ao seu único filho, achava estar na altura de corrigir.
Dias depois do Carlos ter feito os 18 anos levou-o a jantar ao Estoril, ao casino, fizeram a digestão pela Rua Direita de Cascais, e depois meteram-se no Alfa Romeo, de regresso a Lisboa.
Pelo caminho foi-lhe contando como se iniciou. A mim aconteceu-me uma boa.
No Bairro Alto, tinha 16, não é coisa que se esqueça, num salão enorme, elas todas sentadas à volta, umas a ler revistas, outras a fazer malha, sentei-me, envergonhado, elas todas a olhar para mim, aquela é mais nova, mais jeitosa, não sabia como fazer, sem eu saber como, ela pôs-se a pé, pegou-me na mão, um corredor sombrio para um quarto, comecei a tirar a roupa, ela também, só ficou com o sutiã, deitou-se, eu ao lado dela, encosta-te a mim, estás à espera de quê, eu sem saber bem o que fazer, lá me cheguei, a renda a fazer-me cócegas na cara, o trabalho foi todo dela, puxou-me para cima, abriu as pernas, que pena eu não estar de fora a ver, lembro-me de pensar, a mão dela em mim, toda molhada, parecia que tinha posto manteiga, gargalhadas do pai e do filho. Não somos de pau não é Carlos?
Almirante Reis acima, estacionou na Gomes Freire, um prédio de vários andares, subiram no elevador, dedo na campainha, uma menina de gosto a abrir-lhes a porta, a jovem a preparar-lhes um uísque, o sapato de tacão alto, a racha da saia, um piscar de olho, desenrasca-te Carlinhos, agora é contigo, vai correr tudo bem, a menina à frente a abrir-lhe a porta, Carlos de pé também, até logo, paizinho!

O Carlos, acabado o curso na Força Aérea foi mobilizado para Guiné, para a Base Aérea de Bissalanca4, nos arredores de Bissau. O pai e a mãe despediram-se dele no aeroporto com as cenas do costume. Telefonavam-lhe uma vez por semana, queriam saber tudo, como era a guerra, se era tão mau como alguns diziam, se era bem tratado, se tinha muitos amigos, como se chamavam, o Carlinhos, cheio de saudades, estou morto por te ver, mamã! Mal o deixaram foi de licença à metrópole.
Mais de um mês depois, quando regressou ao Hotel Portugal, os quatro da mesa pararam os garfos e facas, ficaram-se a olhar para aquela moça branca, de cabelo louro de fogo pelas costas abaixo, a fazer-lhes lembrar a Brigitte Bardot, amarrada ao braço do alferes Carlos Morais5.
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Notas:
1 - A coladera é uma morna mais rápida. Se se tocar uma morna e acelerar fica uma coladera. Melodicamente são a mesma coisa, embora falem de coisas diferentes. A letra da morna fala de amor perdido, a coladera fala de alegria. O funaná fala de mensagem. Conta-se que o termo vem do século IX e deve o nome a dois músicos, um chamava-se Funa e o outro Naná. Alguns relatam que não era muito bem vista pelas autoridades coloniais de então, que a chegaram a proibir.
2 - União Desportiva Internacional de Bissau
3 - Nome fictício
4 - Base Aérea 12
5 - Nome fictício

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Um guia

Tinha sido apanhado numa emboscada que a tropa fizera junto a Mantida.
Ouvira um tuga, branco de barba preta, dizer a outro, amarra o gajo, amarra-o já, eu vou-me àquele. Nem sentira as cordas que lhe prenderam nas mãos, que as pernas não precisavam. Deitaram-no numa maca, camisa e calças em sangue, atordoado, só se lembrara que caíra para trás, sem forças.
Deram-lhe uma injecção no braço, nem sentira, só vira a seringa na mão do soldado de cigarro na boca, a cinza a cair por ele abaixo. Adormecera logo, mal o transporte arrancou.
Em Mansoa, os olhos fitos no tuga, não dava respostas às perguntas, um capitão a dizer, que venha outro, e agora?

As barracas de Uália foram reconstruídas a nordeste da antiga, estão lá 50 guerrilheiros mais ou menos assim: Maonde tem 12, José Camala 13, Imbunhe 13 também e Bacar Seidi tem 12 homens.
Exausto de febres e dores no corpo todo, fugia com os olhos de vergonha dos dois brancos da polícia e do balanta traidor que falava a língua dele. Ele percebia o que falavam, sabia português, andava na escola de Morés, fazia ditado e até já escrevera redacção.
Armas, cada guerrilheiro tem uma. No acampamento tem mais 2 metralhadoras ligeiras, escreve Picão6, deixa o cigarro para depois, temos mais que fazer, escreve lá, têm mais 2 bazucas, não, escreve antes, 2 lança granadas-foguete e 1 morteiro, é de 60, de 80 ou quê pergunta ao tipo anda! De 82, de 82 escreve Picão.

Vergonha na cara, tens que ter, não mereces estar agora com os camaradas, deixaste para trás o Baldé, o Camará, o Injai, todos os do acampamento. Que vais fazer agora que falaste? Tinhas aprendido com os outros a contar coisas verdadeiras, as que menos importavam, com muitas outras falsas, de assuntos mais importantes do Partido.
Mas não aguentara, nunca pensara que pudesse ser deste modo, se os camaradas soubessem haviam de lhe perdoar. Mesmo assim, não estava certo, o melhor agora é contar tudo direito, fazeres-te amigo deles, talvez até mais tarde ficar milícia ou tropa, quem sabe?

Dispõem, escreve Picão, de alguns abrigos individuais, a toda a volta, mas para homem deitado, no cruzamento de caminhos uma sentinela, uma armadilha no trilho Bambaia-Gussará, que o prisioneiro sabe evitar, escreve, já está, Picão?
Continua, a população está afastada das casas de mato, para Oeste, está desarmada.

Com menos dores, um dia pusera-se a pé na enfermaria. Mal o viram a andar, pegaram nele, outra vez, muitas viaturas a caminho. Falara antes de partir com um tuga, com outro balanta a fazer de intérprete, repetira tudo direito.
O comandante tuga disse que se os leva direito ao acampamento tudo vai correr bem, se não leva não vai ser bom.
Tinham partido nos carros de Mansabá quase até Demba Só, meteram para dentro a pé, sempre a andar até à bolanha, passaram o sítio mais estreito e pouca água também, andaram outra vez muito até se sentir fraco e pedir para parar. O comandante tuga veio ver. A olhar, mexeu nas cordas, a perguntar ao soldado, tão baixo que mal se ouviu, parar?
Desconfiado, sempre a olhar, os olhos dentro dos óculos amarrados com uma fita à cabeça, coisa boa não deve ser. Mas ele foi lá para trás, o que foi fazer não vi.
Chegou outra vez, falou no crioulo dele, se estava melhor, sim, já pode andar outra vez, começámos a caminhar até chegar lá, ao acampamento. Deixaram-me cá fora, amarrado ao soldado, abrigado numa palmeira. Depois, a tropa entrou a fazer fogo nas casas.

Na volta, a corta mato, rebentamentos muito grandes em Uália, disseram que era da artilharia dos tugas, quase no mesmo trilho da caminhada para o acampamento. Quando pararam, sol alto, os aviões a brilharem ao sol, a abanarem as asas, a irem embora, o outro avião pequenino, quase branco não saía de cima, o tuga com quico grande, com um rádio, como uma banana grande, a falar.
Depois retomámos o caminho até Demba Só onde estavam muitas viaturas, sempre a andar até Mansabá.
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Nota
6 - Nome fictício

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Artigo 4.º do RDM

Os acontecimentos na Associação Comercial alteraram o ambiente na cidade. A desconfiança entre a população negra, cabo-verdiana e a tropa, os nervos crispados, a porcaria mais ou menos submersa, subiu tudo. Levava-se uma vida normal, mas por toda a cidade irrompiam pequenos incidentes e à noite viam-se poucos civis. A PM aumentara os patrulhamentos. O PAIGC, como lhe competia, aproveitava e tirava dividendos.
Nos dias a seguir ao sucedido choveram exposições no Palácio, sete, dissera, todo cheio de importância o Ajudante de Campo do Governador. O General Schulz recebera individualidades civis, apresentara desculpas formais à Associação Comercial, e aos finalistas prometera pagar os prejuízos e tomar providências enérgicas, o habitual nestes casos.
Dias antes, a PM fez o relato dos acontecimentos e endereçou ao Comando Militar a participação contra o Alferes Godinho e um grupo de militares que não conseguiu identificar.
Inquirido o Godinho por um capitão, responsável pelo levantamento do “competente auto de averiguações”, sobre quem foram os militares que o acompanharam na perturbação da ordem pública, o mesmo terá respondido que tinha bebido várias cervejas, que mal se lembrava do que tinha ocorrido e que mesmo que se lembrasse não denunciaria ninguém.
Quando tiveram conhecimento desta participação, os camaradas do Godinho decidiram responsabilizar-se e, individualmente, em dias diferentes, dirigiram-se ao QG, procuraram o capitão e declinaram as respectivas identificações.

O Capitão Rubim interrompeu os desenhos que estava a fazer. Começou por lhe dizer que as saídas para a cidade estavam proibidas. Depois, pediu-lhe explicações.
Que se tudo tinha acontecido como se contava, não tivesse dúvidas que haveria consequências. O Governo da Província estava a ver o programa de pacificação a andar para trás, que aguardasse o auto de averiguações, que era tudo, chutara o capitão, cada vez mais longe dele e dos outros.
Naquela mesma tarde deu-lhe ordem para preparar o grupo para ir para o Xitole. Para quê? Bater a zona, procurar o IN, dar-lhe caça, para que é que havia de ser? Mantém-se lá e aguarda instruções. Mais alguma questão?

Grupo antes de embarcar no Dakota, rumo a Bafatá

Embarcaram num Dakota até Bafatá, uma coluna auto levou-os para Fá Mandinga, onde passaram a noite e no dia seguinte apanharam uma coluna de reabastecimentos para o Xitole.
Até Bambadinca o percurso foi-se fazendo. Depois, até ao Xitole foram sempre debaixo de chuva, os quilómetros nunca mais acabavam, as viaturas civis que integravam a coluna metiam-se na lama até à carroçaria e as viaturas militares GMCs, Mercedes e Unimogs atolavam-se constantemente.

De Bambadinca para o Xitole, atascamentos sucessivos.
Fotos de Torcato Mendonça, com a devida vénia.

Chegaram ao rio era noite cerrada. O Corubal7 parecia o Atlântico quando o atravessaram. Quando entraram no Xitole deitaram-se. No dia seguinte começou o inventário dos reabastecimentos. Estavam reduzidos a metade, alguns destruídos pelas águas, outros desapareceram ninguém sabia ou queria dizer como.

Escreveu, nessa altura, no seu diário, um dos participantes:
"Em 11 de Outubro, o nosso grupo deslocou-se de Bissau para Bafatá num Dakota. Depois, em coluna auto, para Fá, onde dormimos. No dia seguinte para Bambadinca onde apanhámos uma coluna de reabastecimentos para o Xitole.
Interminável a viagem, nem me lembro de quantas horas. Era época das chuvas, água por todo o lado, as viaturas atascavam-se, nunca mais lá chegávamos. A operação ao Galo Corubal era no dia seguinte. Estava tudo marcado, apoio aéreo, PCA8, companhia de apoio. Passámos o dia a desatascar viaturas, militares e civis. Chegámos ao Xitole com o dia fechado há horas. Ainda nos estávamos a sentar por ali, soubemos que havia uma mensagem radio a informar-nos que a operação tinha sido adiada 24 horas.
Dormimos, descansámos o dia e ao cair do sol pusemo-nos a caminho do Galo Corubal. Noite fechada, chuva sempre a cair, o rio a deitar por fora, noite sem luar, um caminho de desafios a ver quem caía mais, até esbarrarmos, já de madrugada, com uma sentinela que estranhou tanto movimento perto dela.
Resposta pronta do primeiro homem do grupo, o Marcelino, o ataque entusiasmado, a queda da equipa da frente nas águas de um ribeiro que ninguém tinha visto, a G3 de um que lhe escapou das mãos, a luta para a recuperar, o fogo sobre nós, o dia que surgiu quando não devia, um milícia com uma crise de nervos que parecia um ataque epiléptico, uma retirada muito difícil.
Quando a parelha de T6 nos sobrevoou, estávamos atolados na bolanha a servir de alvo a pontarias altas, só sentíamos as chicotadas. Depois foi a retirada para o Xitole com o pelotão de apoio a proteger-nos com fogo de morteiro.
O alferes tomou a decisão de reincidir na noite seguinte, contra a vontade do comandante da companhia que lhe respondeu na minha frente que não podia dar-nos apoio, que se quiséssemos ir que fôssemos. E fomos outra vez.
Noite igual às anteriores, água e mais água, parecia que a água estava do lado deles, andar difícil, chegámos outra vez à mesma zona da noite anterior.
O guia conhecia a área do Galo Corubal, só isso. Em cima daquele ourique descobrimos a cambança e entrámos num trilho que nos levou a um acampamento sem ninguém. Não conseguimos pegar fogo às casas de mato porque as duas granadas incendiárias que lançamos nem chegaram a pegar, só fumo é que saía delas. No regresso, quando passávamos em cima do ourique voltámos a servir de alvo à pontaria.
Distinguia-se bem das PPSHs e das Kalashs e barulho ritmado de uma metralhadora-pesada. Atirámo-nos para a bolanha, água quase pelo peito. Apoio aéreo fora no dia anterior, o capitão comandante da companhia que, afinal e ainda bem, resolveu apoiar com um pelotão, começou a bater as margens com fogo de morteiro e, pelo AN-PR C10, dizia para retirarmos, o que acabámos por fazer equipa por equipa.


Depois foi o regresso à estrada Bambadinca-Xitole. O pelotão reforçado de apoio e recolha esperou por nós, retirou para o Xitole, despedimo-nos, e nós continuámos até Bambadinca. A pé, como se fosse a penitência por uma operação mal concebida. Íamos parando de vez em quando, como se fosse um exercício. Uns bons quilómetros andados, ouviu-se um deles perguntar ao chefe de equipa, o Furriel Azevedo, se íamos a pé até Bissau.
Derreados por tanta chuva, por tantos quilómetros em tão poucos dias, uma coluna encontrou-nos e recolheu-nos em Bambadinca no dia a seguir, sentados e em boa ordem, apesar de tudo".

Dias depois em Brá, um capitão procurou o alferes, queria ouvi-lo para o tal processo que estava a decorrer, já tinha ouvido os outros, só faltava ele.
O que tinha acontecido, como, quando, porque é que, quem fora o cabecilha, leia, assine aí em baixo, se estiver de acordo, claro.
À noite fora até Bissau, encontrar-se com os companheiros do costume.
Passaram-lhe para as mãos a "Plateia", uma revista de cinema que saía em Lisboa. Folheou-a, parou numa página. Crónica da Guiné na Plateia!


Um bando de energúmenos influenciados pelos tedies de Birmingham e Liverpool? Olharam uns para os outros, calados. Quem é o tipo que escreveu isto, perguntou.

Num daqueles dias, seguiram as indicações que o Capitão Rubim lhes tinha dado, os 5 sujeitos ao auto apresentaram-se no QG, ao Comandante Militar da Guiné. Vamos receber uma medalha cada um, disse o Godinho.
Entraram no gabinete, fizeram-lhe a continência e puseram-se em linha, aprumados. O Brigadeiro Gaspar Sá Carneiro mexia nuns papéis em cima da secretária, não encontrava, abriu gavetas, ah, estão aqui, satisfeito. Quando levantou os olhos para eles, mudou de cara.
Ora bem, antes de mais, devo manifestar-lhes o profundo desagrado que sinto em tê-los aqui nestas circunstâncias. Já tive convosco manifestações de apreço, quando o mereceram, o que não é o caso desta vez, bem antes pelo contrário. Relatar aquilo que ficou apurado, é desnecessário.
Depois, foi um por um. Tirando o caso do Alferes Godinho que teve uma redacção e uma pena diferentes, aos outros foram aplicadas as mesmas penas com a mesma redacção.
“Puno com 3 dias de prisão simples o Sr. Alferes Milº/Furriel Milº fulano de tal, porque fez parte dum grupo de militares que, trajando de modo não correspondente ao estipulado para as circunstâncias, penetrou no baile dos finalistas da Escola Técnica de Bissau, vencendo a oposição da autoridade policial de serviço no local. Infringiu os n.ºs 22.º, 41.º e 51.º do art.º 4.º do RDM.
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Notas
7 - Rio da Guiné. Nasce no maciço do Futa-Jalon, Guiné-Conacri e encontra-se com o estuário do rio Geba, a cerca de 50 km a montante de Bissau.
8 - Posto de comando aéreo (PCA) normalmente montado numa Dornier.

(Continua)
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Nota do editor

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