sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Guiné 63/74 - P15073: Notas de leitura (753): “Etnia, Estado e Relações de Poder na Guiné-Bissau”, por Carlos Lopes, Edições 70, 1982 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Setembro de 2014:

Queridos amigos,
Sendo absoluto, ou quase o silêncio das artes plásticas sobre as guerras que travámos em África, a partir de 1961, parece-me ter todo o sentido referir aqui os desenhos de Melício, artista que eu desconhecia, apresentados numa exposição que realizou em 1997.

O livro de Carlos Lopes, um dos mais significativos pensadores da Guiné-Bissau, produziu em 1980, na sua fase académica, este estudo que, a despeito de incompreensíveis dislates para um investigador universitário, é ainda hoje uma referência obrigatória para o estudo dos desmantelamentos do ideário do PAIGC, após a independência.

Um abraço do
Mário


A guerra colonial vista por Melício

Beja Santos

Foi uma exposição que se realizou no Museu República e Resistência, em 1997, intitulada “A Guerra Colonial”, desenhos de Melício. Melício (1957-) é escultor, designer e pintor, membro da Sociedade Nacional de Belas-Artes, professor de Artes Plásticas. Participou num número apreciável de exposições individuais, coletivas nacionais e internacionais.

Ninguém ignora que é escassíssimo o número de artistas plásticos que tenham ou se têm dedicado ao tema da guerra. Pela gama de desenhos que vêm publicados no catálogo desta exposição, e que tive acesso numa feira de promoções da Livraria Municipal, na Avenida da República em Lisboa, vê-se perfeitamente que Melício se documentou, viu inúmeras fotografias, observou posturas, quer dos combatentes portugueses quer dos guerrilheiros, as minas anticarro, os golpes-de-mão, os descarrilhamentos de comboio, as evacuações, são plausíveis. Melício, no final, e após revelar imagens de extrema crueldade, mostra a paz com imagem de um pássaro, é seguramente a resposta que o artista dá à guerra, à dor, ao silêncio e à morte. Como escreve Diva Morazzo na apresentação do catálogo: “A vitória do primeiro cavaleiro do Apocalipse conotada com imagem do pássaro-esperança-paz é preconizada pela capacidade potencial do traço crítico de Melício”. Vejamos agora uma amostra do seu desenho.




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Etnia, Estado e Relações de Poder na Guiné-Bissau (1), por Carlos Lopes

Beja Santos

“Etnia, Estado e Relações de Poder na Guiné-Bissau”, por Carlos Lopes, Edições 70, 1982, foi o primeiro trabalho de sociologia política, após a independência, assinado por um guineense. Foi inicialmente publicado pelo Instituto Universitário de Estudos do Desenvolvimento, em Genebra. Um professor desta instituição explica o que se pretende: uma explicação que permita compreender como é que uma luta de libertação nacional acabou por conduzir ao controlo do poder político económico pela burocracia do aparelho de Estado. Carlos Lopes afirma que o seu trabalho estava pronto muito antes do golpe de Estado de 14 de Novembro de 1980, as suas conclusões não teriam sido influenciadas pelo golpe de Nino vitorioso. Ao virar da década de 1980 assistia-se a um refluxo dos movimentos de solidariedade na Europa, desencantados por não se reconhecerem ou reverem nos ideais dos dirigentes de muitos movimentos de libertação. Para a publicação das Edições 70, Carlos Lopes apresenta igualmente justificações: “O objetivo era mostrar que as contradições hoje existentes na Guiné-Bissau, ao nível do poder, eram a consequência lógica do afrontamento de duas conceções distintas: uma, ligada à experiência de conjugação e técnica originada na luta armada; a outra ligada à ideologia do aparelho de Estado nascido após a independência”. Carlos Lopes afirma que o seu exercício utiliza o aparelho conceptual marxista.

O seu primeiro olhar é sobre a história da Guiné, do passado remoto à independência. Na origem dos povos guineenses, revela-se um autor documentado, aliás a sua tese de doutoramento, anos mais tarde, andará à volta desta temática, e ainda hoje não foi ultrapassado. Tendo em conta este rigor, que é esperável de um trabalho universitário, não se compreende como é possível um autor deste gabarito de vez em quando asnear e deixar-se levar pela propaganda do PAIGC do tempo da luta, sem nenhum recurso ao contraditório. Vejamos um só exemplo: “Os portugueses sofrem a maior derrota militar na batalha da ilha de Como, no Sudoeste do país. Este ataque durou cerca de três meses e saldou-se pela morte de 650 homens”. Pouco aceitável é também o recurso à patranha de que Spínola mandara infiltrar o PAIGC de informadores, colaboradores diretos da PIDE, procurando explorar os incidentes, prometendo-lhe promessas de lugares de relevo num futuro Estado de cariz neocolonial. Afirmar isto na ausência absoluta de documentos, mesmo ainda sem haver acesso aos arquivos da PIDE/DGS, surpreende num investigador universitário. O PAIGC, aquando da independência, considerava que a principal vitória não fora a luta contra os portugueses mas antes a capacidade de construir uma nova sociedade, com novas relações, uma outra vida cultural, ao mesmo tempo que se lutava.

Outro despautério que desequilibra a investigação, e convém dizer liminarmente de que se trata de um trabalho ousado e incontornável para os estudos sobre a Guiné-Bissau, é a apresentação de um mapa referente a 1969, dando conta da evolução da guerra. Como todos nós nos recordamos, a propaganda do PAIGC não era peca nos números quanto ao controlo do território: era afirmado na rádio, nos comunicados e nos areópagos internacionais que cerca de dois terços do território eram controlados pelo PAIGC. Veja-se o mapa. Todo o Sul, com exceção de Bolama e dos Bijagós era considerada região libertada, mas também o Corubal, e a região de Boé; a região do Gabu era dada como zona ainda sob o controlo português; a região de Bambadinca era zona contestada, tal como um povo do território do Norte, acima do Gabu; todo o território da região de Farim até Mansoa era zona libertada; Susana, S. Domingos, Cacheu, Canchungo e Bula eram regiões contestadas; a península de Bissau e as ilhas próximas eram dadas como zonas ainda sob controlo português. Basta este mapa para se perceber o dislate da propaganda dos dois terços controlados e os números depois apresentados, em perfeita colisão. No entanto, o investigador não se pronuncia sobre a enormidade que salta à vista.


Passando para a racionalidade étnica, o autor procede ao estudo dos Fulas, aproxima esta etnia dos Mandingas e dos Manjacos, trata-se de uma sociedade vertical ao contrário das sociedades horizontais (caso dos Papéis e dos Balantas), sonda a sua vida socioeconómica e cultural e releva que em meados do século XX coexistiam diversos modos de produção no mesmo território, uns dentro do modo capitalista outros baseados em práticas de subsistência e troca. E em apartado novo explica as novas relações sociais surgidas após a luta armada. Amílcar Cabral, o ideólogo do PAIGC apostava na participação cada vez mais alargada da população, num novo tipo de relações que se desenvolvessem em todos os escalões da atividade social; dessa nova realidade social faziam parte “os armazéns do povo” onde se podia permutar produtos; criaram-se infraestruturas de saúde, deu-se prioridade à justiça popular. Era, no fundo, a aplicação prática do conceito que Cabral tinha para a mobilização para a nova cultura: o desenvolvimento da luta armada e a consolidação de novas estruturas sociais onde a exploração do homem pelo homem já não tinha lugar, era assim que se estava a criar a nova consciência associada ao processo revolucionário.

O autor analisa seguidamente a racionalidade do Estado. Havia o Estado numa perspetiva étnica: os Fulas fundamentavam o poder na sua religião, tal como os Mandingas; o Estado colonial funcionava num quadro típico do modo de produção capitalista; e havia o Estado surgido da luta pela independência que retirava a sua substância e as suas caraterísticas dos dois precedentes. O Salazar insistia que não havia discriminação entre os portugueses e os indígenas. Um dos mais importantes vultos da historiografia colonial, Charles Boxer, admirado e detestado pelas autoridades do Estado Novo, dizia sem rebuço que o império português fora sempre uma talassocracia dependente do comércio com o Oriente (especiarias), a África Ocidental (escravatura) e o Brasil (tabaco, açúcar e ouro). O autor revela fundamentação sobre o tráfico de escravos, as estruturas do estado colonial e como veio a ser introduzido o modo de produção capitalista na Guiné. Em contraposição, documenta a organização do PAIGC e de imediato, passando para a independência mostra como esta orgânica se revelou inadequada e ao arrepio dos sonhos de Amílcar Cabral. E tece críticas sem qualquer tipo de macieza:  
“O primeiro Governo nacional foi criado ainda durante a luta. Compreendia, entre outros, dirigentes que foram integrar o Governo cabo-verdiano formado depois da independência assim como membros da direção política do partido. A hierarquia posta em prática no seio do PAIGC, na base da participação e da contribuição à luta armada e política vinha a assentar sobre a do aparelho de Estado. A estrutura governamental privilegiava as decisões de natureza coletiva (…) Desde a independência e da tomada de controlo da administração que apareceram graves lacunas. A falta de conhecimentos em matéria de administração faziam-se cruelmente sentir dentro de certos meios responsáveis. Alguns destes optaram pela solução de facilidade e recorreram ao apoio dos antigos funcionários coloniais. Estes iniciam uma rápida ascensão no aparelho administrativo e alguns atingem mesmo o lugar de diretores-gerais ou de secretários-gerais nos ministérios. A sua influência era tanto mais forte quanto é certo que alguns ministros se demitiam das suas responsabilidades, ocupados que estavam noutras tarefas. A médio prazo, esta política do deixa andar permitiu o regresso de relações administrativas caraterísticas do período colonial”. E dá mesmo exemplos da rápida desagregação: “O que nos parece mais grave ainda é que certos ministérios chegaram mesmo a destruir o funcionamento democrático interno que os militantes do PAIGC privilegiavam. Um dos exemplos mais conhecido em Bissau é o de Fernando Fortes, cofundador do PAIGC, ex-comissário dos Correios e Telecomunicações, cuja atitude se assemelhava à de um colono do antigamente”.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 31 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15058: Notas de leitura (752): “O Guardião”, por Fernando Antunes, Edição de Setembro de 2011 (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P15072: (Ex)citações (289): A propósito de Casamansa: a Guiné-Bissau não devia alimentar orgulhos caducos e tem a obrigação de respeitar as fronteiras coloniais existentes, se quiser continuar a existir como país.

1. Comentário de Cherno Baldé ao poste P15066 (*)


[Cherno Naldé: natural de Fajonquito, setor de Contuboel, região de Baftá, fez a sua formação universitária  na Ucrânia (ex-União Soviética) entre 1985/90 e depois em Portugal (Pós-graduação no CEA - Centro de Estudos Africanos /ISCTE); é quadro superior em Bissau, onde vive]

Caro amigo Luis,

Bem que gostava de fazer uma apreciação crítica o conteúdo sócio-cultural e ideológico dos artigos apresentados sobre Ziguinchor e suas gentes por apresentarem grandes similitudes com as realidades sócio-culturais das chamadas 'praças' vs 'presídios' na actual Guine-Bissau, infelizmente o tempo escasseia.

A Casamansa é a grafia antiga, portugues,  que, pouco a pouco, por influência do francês passou para Casamança aà francesa (Casamance) e acabou por ser a grafia oficialmente adoptada nas diferentes línguas e nas cartas geográficas modernas.

A terminologia ou conceito oportunista de "fijus de terra" que é prática corrente em toda a região foi desde sempre fonte de discórdia, de intrigas e de instabilidade social e política cujos efeitos nocivos podemos encontrar quase em todas as organizações, agrupamentos (os famosos Gan) ou partidos políticos como o PAIGC, FLING e outros.

Penso que o prefixo "mansa" estaria ligado ao poder tradicional (autoridade) na altura derivado ou por extenão do poder longínquo do Mansa de Mali e nao é sinónimo de mansidão como o pretende Torcato.

O declinio da aristocracia crioula em Ziguinchor, de certo modo, também, está relacionada com o declínio e pauperizacção dos centros de cultura crioula da Guiné-Bissa,  fruto do retrocesso desta desde a independência.

Quanto a interferência "guerreira" no Casamansa,  a pequena Guine-Bissau não fica a dever em nada ao vizinho Senegal, pois o tráfico de armas e de alianças duvidosas estão na origem da maior parte dos conflitos que ocorreram nos últimos anos.

Pessoalmente, sou de opinião que a Guine-Bissau não devia alimentar orgulhos caducos e tem a obrigapção de respeitar as fronteiras coloniais existentes,  se quiser continuar a existir como país. (**)

Com um abraço amigo,

Cherno Baldé

Igreja católica nos arredores de Ziguinchor. Cortesia de Wikipedia
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 2 de setembro de  2015 > Guiné 63/74 - P15066: Em bom português nos entendemos (12): Casamança ou Casamansa ? Como se deve grafar este topónimo do Senegal ? A resposta do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

(...) Comentários de LG:

Uma chamada de atenção para a página "República Cultural Lusófona" (RCL)... onde se (re)descobrem inesperadas comunidades onde a lusofonia parece estar viva ou ainda não morreu (...)

Sobre Ziguinchor, capital da região de Casamansa, pode ler-se o artigo "Ziguinchor, a vila crioula do Senegal"... Desconhecem,os o autor, mas aqui vão uns excertos, com a devida vénia (. A revisão e fixaçãon de texto é nossa):

(...) "Ziguinchor foi fundada pelos portugueses no sec. XVII, em 1645, na margem sul do Rio Casamansa. O seu nome deriva da expressão portuguesa 'cheguei e choram', porque os nativos pensavam que os vinham escravizar. Esta feitoria fora aí sediada para comerciar com o reino de Casamansa o qual era um aliado dos portugueses.

"Segundo as crónicas este era o reino mais amigo dos portugueses, ao longo da costa da Guiné. O rei vivia à moda europeia, com mesa, cadeiras e roupas ocidentais, na sua corte habitavam muitos portugueses onde comerciavam e faziam cortesia ao rei. No entanto o progressivo desleixo por Portugal de África, a favor da Índia e depois do Brasil,  deixou esta zona praticamente abandonada. Cedo a feitoria se transformou num mero presídio, praticamente vazio...

"Hoje Ziguinchor é a capital da provincia senegalesa de Casamansa que luta pela sua independência do norte.

(...) "A população era constituida pelos fijus di terra que ainda hoje se auto-intitula a verdadeira população de Ziguinchor. Esta população era constituída por descendentes de portugueses e mulheres Diola, e ainda hoje mantêm os apelidos portugueses como Alfonso, Barbosa, Carvalho, da Silva, Fonseca, só para citar alguns. Para além dos fijus di terra são ainda distinguidos os fijus di fidalgu, a aristrocracia de Zinguinchor que se distinguem pelo prestígio nobiliárquico que exibem.

"Os fijus di terra eram os proprietários da terra, destinguiam-se dos outros grupos étnicos pela língua crioula, pela religião católica pelas maneiras, hábitos e roupas europeus. Talvez a característica mais sonante desta população fosse o bem conhecido domingo de Ziguinchor em que a população vai à missa e se passeia elegantemente de paletó e chapéu pelas ruas e jardins de Ziguinchor. Daí que, para os franceses, os crioulos tivessem sido os interlocutores por excelência com o resto da população. E tiveram eles mesmo de aprender o crioulo, língua que era bem mais fácil que as outras línguas nativas para um europeu. Mesmo os funcionários do norte que os franceses mandavam vir devido ao facto de serem mais escolaralizados que os sul, aprendiam rapidamente a falar o crioulo, este era o mais falado pela população, e até as outras etnias aprendiam a língua crioula por ser a língua do comércio, devido não só à proximidade com a Guiné-Bissau e ao contrabando que se fazia entre os dois países, mas ainda ao comércio do mercado local que atraía os camponeses do interior.

"Os laços com a Guiné-Bissau são muito fortes, desde familiares, sociais, religiosos e étnicos, de tal forma que em 1985,  num questionário, 70% repondeu já ter visitado a Guiné-Bissau. E, mesmo apesar do crioulo de Ziguinchor ser do tipo de Cacheu,  a influência do de Bissau faz ainda sentir-se aqui. Para além dos fijus di terra vieram da Guiné-Bissau principalmente durante a guerra colonial muitos refugiados, os manjacos, os  manés e os papeis, para reforçar a população crioula. Nas familias mais abastadas costuma-se ainda casar com membros das famílias de Bissau ou Cacheu.

"Numa pirâmide que ilustrasse a estrutura social de Ziguinchor poderiamos colocar quatro bases: na mais alta os fijus di fidalgu a seguir os fijus di terra,  de seguida os manjacos, vindos da Guiné-Bissau, e por fim as outras etnias locais. " (...)

(...) "Nos censos de 1963, dos 42.000 habitantes de Ziguinchor, 35.000 falavam o crioulo (83%), e 30.000 tinham o crioulo como lingua materna (71,4%).

"Depois de 75 anos de domínio francês e de 37 anos de independência,  os crioulos de Ziguinchor ainda são conhecidos como "les portugais" - portuguis, na população local. No entanto o crescimento da cidade e o aparecimento dos subúrbios tirou a terra aos fijus di terra, deixando-os na pobreza. 

"Depois da independência a situação alterrou-se por completo, os crioulos eram vistos como cúmplices dos franceses. Os cargos públicos ocupados pelos crioulos foram substituidos pelos funcionários vindos do norte que falavam wolof, e assim começou o declínio da população crioula de Ziguinchor que fora sempre a maioritária. De tal modo que em 1985 apenas 37% da crianças que iam para a escola falavam em crioulo. (...)

"As diferenças étnicas e culturais entre os povos de Casamansa, da qual Ziguinchor é a capital, e os do norte maioritariamente wolof [, islamizados,] são bastante grandes. Há já alguns anos que Casamansa luta pela sua independência (desde 1982). Muitos historiadores veem neste fenómeno uma herança dos conflitos luso-franceses sobre o território e que nomeadamente a Guiné-Bissau e o Senegal herdaram. São sabidas as interferências das tropas senegalesas em território guineense mas há ainda a ter em conta a grande ligação afectiva que liga as populações de Casamansa e da Guiné-Bissau. Esta última tentou servir de mediadora no conflito armado dos rebeldes do MFDC (Movimento das Forças Democráticas de Casamansa) mas a neutralidade da Guiné-Bissau nunca foi muito segura e a verdade é que o exército guineense tem fornecido armas ao movimento liderado por um padre de origem crioula,  Sengor (Senhor).

"Os fijus di terra acabaram por apoiar os rebeldes e tem ainda por isso sido exterminados culturalmente. Por outro lado enfrentam uma senegalização imposta. Ser-se crioulo era um estatuto privilegiado que tem começado a desaparecer, pois passou a ser secundário em relação aos wolof que anteriormente nem sequer existiam na região. (...)"

(**) Último poste da série > 3 de agosto de 2015 > oesGuiné 63/74 - P14964: (Ex)citações (288): Estações dos CTT na Guiné (Jorge Araújo)

Guiné 63/74 - P15071: Parabéns a você (957): Armor Pires Mota, ex-Alf Mil Cav da CCAV 488 (Guiné, 1963/65); José Câmara, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3327 (Guiné, 1971/73) e Torcato Mendonça, ex-Alf Mil Art da CCAC 2339 (Guiné, 1968/69)



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Nota do editor

Último poste da série >  3 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15067: Parabéns a você (956): Luís Gonçalves Vaz, Amigo Grã-Tabanqueiro

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Guiné 63/74 - P15070: Estórias cabralianas (89): Os filhos do sonho (Jorge Cabral)

Foto de Jorge Cabral. Cortesia de JERO
1. Mais um história, surpreendente, do "alfero" Cabral... Acabada de chegar...

Estórias cabralianas (89) > Os Filhos do Sonho

por Jorge Cabral


Grande escândalo em Missirá. A bela bajuda Mariama, apareceu grávida. Sobrinha do Régulo e há muito prometida a um importante Daaba de Bambadinca, era preciso averiguar..,

Reuni com o Régulo e chamámos a rapariga, Após um interrogatório cerrado, ela, muito a medo, esclareceu: 
 O pai era o Alfero… 
 Mas quando e onde? 
 É que uma noite sonhei com ele…

O Alfero riu, mas o Régulo pareceu levar a sério e apontou mesmo outros casos, que tinham acontecido no passado…Felizmente eu estava a acabar a comissão, mas nunca esqueci o episódio... E quando começava um ano lectivo, avisava sempre as alunas:
– Nunca sonhem com o Professor…

Ultimamente, por via do Facebook, ganhei vários amigos empresários da Guiné, que me fazem propostas de negócios…Um quer construir uma discoteca em cada Tabanca, outro uma pista de gelo a norte de Finete, e outro ainda um viveiro de sardinhas no Mato Cão…Não me lembro das mães deles, mas certamente, quando eram bajudas,  sonharam com o Alfero…Trata-se de um gene cabraliano…

J. Cabral

[ex-alf mil at art, cmdt do Pel Caç Nat 63, Fá Mandinga e Missirá, 1969/71]
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Nota do editor:

Último poste da série > 29 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15054: Estórias cabralianas (88): A bebé de Missirá (Jorge Cabral)


(...) Só no início de julho de 1969, quando o Pelotão se preparava para ir para Fá é que descobri que além dos vinte e quatro soldados africanos, contava com as respectivas mulheres, filhos, cabras e galinhas… Instalados, o quartel virou tabanca, animada com as brincadeiras das crianças e os risos das mulheres. Todos os soldados fulas eram casados e alguns com mais de uma mulher, pelo que existiam sempre grávidas e partos. (...)

Guné 63/74 - P15069: Convívios (704): Convite da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira e do núcleo local da Liga dos Combatentes para a cerimónia de inauguração do Monumento aos Combatentes do concelho: sábado, 5 de setembro de 2015, pelas 9h30




Recorde-se que foram 9 os filhos do concelho de Vila Franca de Xira que morreram durante a guerra colonial / guerra do ultramar, de acordo com a preciosa informação do portal Ultramar TerraWeb.  No TO da Guiné, morreu em combate, em  25/11/1966, o sold sap António Manuel Carvalho Celorico, da CCS/BCAÇ 1858 (1965/67). Natural de Vila Franca de Xira, está sepultado no cemitério local.

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Nota do editor:

Último poste da série > 20 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15022: Convívios (703): Ponte de Lima, 29 de agosto, pelas 10h: homenagem aos 52 combatentes limianos que morreram na guerra do ultramar... Há ainda seis cujos restos mortais estão por resgatar (António Mário Leitão)

Guiné 63/74 - P15068: Ser solidário (188): Conseguimos! Campanha de "crowdfunding" completada com sucesso!.. Dinheiro (c. 2 mil euros) para investir em material para a escola e o hospital de Cumura (João Martel e Ana Maria Gala)

1. Mensagem dos nossos dois mais recentes membros da Tabanca Grande, os jovens amigos da Guiné- Bissau, Ana Maria Gala e João Martel: 


Data: 31 de agosto de 2015 às 15:27
Assunto: Conseguimos! Campanha de "Crowdfunding" completada com sucesso!


Caros Camaradas da Guiné!

Aqui partilhamos convosco a alegria de vermos hoje completada com sucesso a campanha de "crowdfunding" para aquisição de materiais para Cumura!


A generosidade de Portugal, como é sobejamente conhecido, revelou-se uma vez mais avassaladora. Terminámos com 118% (!!!) do montante angariado, o que equivale a 1771 euros a investir em material já escolhido para a escola e para o hospital de Cumura.

Só podemos deixar a todos um grande obrigado, em nome de quem vai e decerto de quem nos recebe, e pedir-vos que tenham presente esta campanha missionária, que se lançará para o ar já no dia 10!

Obrigado por nos darem armas para esta luta! 

Fiquem connosco!

Um abraço cheio de gratidão

Ana Maria e João



Na realidade, a campanha de angariação de fundos terminou com 1981 euros, provenientes de 51 apoiantes... Boa viagem e boa estadia para os nossos amigos Ana Maria e João!... Mandem notícias!

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Nota do editor:

Vd.  postes anteriores:

26 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15041: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (32): O "making of" de um projeto de ajuda ao Hospital de Cumura (João Martel e Ana Maria Gala)

25 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15039: Ser solidário (187): tempo de missão em Cumura: partiremos em 10 de setembro, com regresso previsto para junho de 2016... Entretanto, e até final de corrente mês, está a decorrer uma angariação de fundos para aquisição de material médico e escolar... Um euro é muito! (João Martel, médico, e Ana Maria Gala, professora, novos membros da Tabanca Grande)

Guiné 63/74 - P15067: Parabéns a você (956): Luís Gonçalves Vaz, Amigo Grã-Tabanqueiro


O Luís Gonçalves Vaz, membro da nossa Tabanca Grande, tem mais de meia centena de referências no nosso blogue.  Recorde-se que: (i) é professor do 2º e 3º ciclos do ensino básico, em Vila Verde; (ii) reside em Braga; (iii) é um ativo ambientalista; (iv) é filho do falecido  Cor Cav CEM Henrique Gonçalves Vaz (último Chefe do Estado-Maior do CTIG, 1973/74); e tinha 13 anos e vivia em Bissau quando se deu o 25 de abril de 1974.
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Nota do editor

Último poste da série > 1 de setembro de  2015 > Guiné 63/74 - P15061: Parabéns a você (955): Manuel Joaquim, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 1419 (Guiné, 1965/67)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Guiné 63/74 - P15066: Em bom português nos entendemos (12): Casamança ou Casamansa ? Como se deve grafar este topónimo do Senegal ? A resposta do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa


Localização de Casamansa no Senegal: Fonte: Cortesia de
Wikipedia
1. Pergunta: Casamança ou Casamansa, Patrício Ribeiro ? (*)

Trata-se de um topónimo do Senegal. Casamance (em francês) foi um território que já pertenceu no passado à ex-colónia portuguesa da Guiné:  recorde-se que  em 13 de maio de 1886, o governo português cedeu aos franceses a região de Ziguinchor e de Casamansa; a França, por sua vez,  cedeu a Portugal a região de Cacine, no sudeste da atual Guiné-Bissau.

Estas trocas (e baldrocas, dirão os africanos)  territoriais  entre potências coloniais europeias,  surgem no âmbito da Conferência de Berlim (1884-1885), que repartiu o continente africano entre ingleses, franceses, belgas, alemães, espanhois e portugueses.

Em 1886, a França reconhecia, além disso,  a Portugal o direito de exercer a sua influência nos territórios entre as possessões portuguesas de Angola e de Moçambique (Mapa Cor-de-Rosa), o que entrava em conflito  com os interesses e pretensões imperiais dos ingleses... Comos e sabe, Portugal, que defendia o chamado "direito histórico",  foi o "grande perdedor" da conferência de Berlim, depois obviamente dos povos africanos...

Quatro anos depois, o nosso "velho aliado" fez-nos um ultimato...

2. A dúvida posta agora ao Patrício Ribeiro, "pai dos tugas" da Guiné-Bissau,  foi já posta ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, em 2006... Eis aqui a resposta dos especialistas... Nós, no blogue, também optamos pela grafia "Casamansa" (**)

(...) "José Pedro Machado, no Dicionário Onomástico-Etimológico da Língua Portuguesa, regista Casamansa como designação de um rio que serve de fronteira entre o Senegal e a Guiné-Bissau (África Ocidental). Além disso, é o nome da zona senegalesa atualmente dividida nas regiões de Ziguinchor e Kolda, compreendidas entre o sul da Gâmbia e o referido rio.

O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves também inclui a forma Casamansa. E mais recentemente, o Dicionário Temático da Lusofonia (direção e coordenação de Fernando Cristóvão, Lisboa, Texto Editores, 2005) dedica um artigo a Casamansa, grafando este nome com s na última sílaba. A forma “Casamança” não é, portanto, correta, devendo ter surgido por influência do francês “Casamance”. (...)


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Guiné 63/74 - P15065: Memória dos lugares (318): em terra dos felupes: Bolor, Rio Cacheu, Djufunco, Varela... (Patrício Ribeiro)



Foto nº 1 > Bolor, rio cacheu


Foto nº 2 > Bolor, casa


Foto nº 3 > Bolor, vinho de palma e correntes


Foto nº 4 > Bolor, correntes


Foto nº 5 > Bolor, canhões


Foto nº 6 > Djufunco


Foto nº 7 > Varela, casa do homem grande

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro  (2015). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]


1. Mensagem do Patrício Ribeiro, com data de 31 de agosto último

 [Foto à esquerda, em Farim: Patrício Riubeiro, português, natural de Águeda, criado e casado em Angola, com família no Huambo, ex-fuzileiro em Angola durante a guerra colonial, a viver na Guiné-Bssau desde 1984, fundador, sócio-gerente e director técnico da firma Impar, Lda; também conhecido carinhosamente como "pai dos tugas"]





 Assunto - Fotos, Bolor, Rio Cacheu e Palha


Ao ler o bom texto do Manuel Vaz, sobre a demarcação das fronteiras da Guiné (*)...

Vem a propósito (já que ando a reler), “ A questão de Casamança e a delimitação das fronteiras da Guiné",  de Maria Luísa Esteves, destinado ao IV Centenário da Fundação da cidade de Cacheu 1588-1988.

Envio, para recordarem, algumas fotos tiradas no mês de maio,  de visita por terra à Tabanca, do antigo Fortim da Ponta de Bolor, que é mencionado no artigo. (Foto 1)

Era época da mudança da palha (Foto 2):  ver a vedação da varanda, em paus de tarrafe, as casas naquela tabanca são autênticos fortins.

Era época das cerimónias, antes das chuvas, corria por todo o lado o vinho de palma (foto 3).

Como sabemos, esta tabanca [Bolor,  no estuário do Rio Cacheu, na margem direita, e vizinha de Jufunco ou Djufunco,] está cheia de histórias:

(i) afundamento de um barco inglês e morte dos tripulantes;

(ii) morte de mais de 30 militares portugueses, envenenados por flechas e lanças;

(iii) queda de avioneta com dois franceses, que desapareceram; após muitas buscas em terra e nos rios, nunca foram encontrados...

A quem pertencem estas correntes ? (vd. foto nº 4).

Foi a pergunta que o nosso amigo Pepito (Carlos Shwarz) fez aos Homens Grandes da tabanca, nunca teve resposta … aquando do almoço nesta tabanca de dezenas de brasileiros descendentes de escravos, em 2010,  em Cacheu.

Será que alguém sabe a quem pertence? (Foto nº 4).

Fotografei,  nesta festa, mais ou menos 5 canhões , do tempo das caravelas, que só neste dia estavam nos largos da tabanca. (Foto nº 5)

Jovens felupes, na tabanca de Djufunco (Foto nº 6). [Falta-nos a carta, de 1/50 mil, de Jufunco, lapso nosso ou do nosso "cartógrafo" Humberto Reis...Esta região faz parte do Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu, "considerado o 5º maior parque  com mancha contínua do ecossistema do mangal em África"... LG.]

Sou também um morador daquela zona desde há 20 anos, onde passo muitos fins de semana, na praia de Varela. Fiz como os outros, em maio troquei a palha, na casa do “homem grande” (Foto nº 7) (**)

Patrício Ribeiro
Impar Lda. Bissau
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Notas do editor:

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Guiné 63/74 - P15064: Memória dos lugares (317): Zambujeira e Serra do Calvo, concelho da Lourinhã: mais duas terras que prestam uma justa homenagem aos seus combatentes


Foto nº 1



Foto nº 2

Lourinhã >  Zambujeira e Serra do Calvo > 31 de agosto de 2015 > Homenagem aos combatentes da Zambujeira e Serra do Calvo >

Em dia de festa (foto nº1: o arco festivo mais alto da região), passei por lá e fiquei agradavelmente surpreendido com este painel de azulejos de homenagem aos combantentes da guerra do ultramar (Foto nº 2),  destas duas terras, hoje pegadas,  e que fazem a sua festa anual em conjunto. Acabei de tirar estas duas fotos à hora do jantar, ao lusco-fusco. Desconhecia a existência do  monumento. Vou tentar saber mais pormenores.Sei que fica junto à Associação Grupo Desportivo, Cultural e Recreativo de Zambujeira e Serra do Calvo, em Zambujeira, e foi inaugurado em 5 de outubro de 2013.

O painel representa a despedida e o embarque de soldados para o ultramar, no T/T Niassa. A quadra do lado esquerdo diz o seguinte: "Adeus terras da Metrópole / Que eu vou pró Ultramar / Não me chorem mas alegrem / Que eu hei de regressar".

Da Serra do Calvo, é o meu amigo de infância, que reencontrei ontem: esteve em Moçambique, durante a guerra colonial, e vive hoje no Brasil.  É autor de "Diário de um combatente: nas sendas da floresta" (Lisboa, Chiado Editora, 2013, 422 pp., preço de capa 14 €).

Sobre o autor, Silvino Pereira,  Chiado Editora tem a seguinte nota biobliográfica:

(i) é natural de Lourinhã onde sempre viveu, mas com visto de residência no Brasil há 5 anos;
(ii) foi combatente na guerra do Ultramar, em Moçambique, nos anos 1968 - 1970;
(iii) como aposentado, tem por hobby a escrita - gosto adquirido desde muito novo, patente nos diversos artigos da sua autoria publicados em jornais regionais;
(iv) além do "Diário de um combatente", escreveu e publicou nesta editora o romance "Destinos Cruéis", onde  tenta reproduzir a vivência da sociedade portuguesa, essencialmente, nas décadas de 60 e 70, cuja história se desenrola na Europa, África e América.
Fotos (e legendas): © Luís Graça (2015). Todos os direitos reservados

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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P15063: Os nossos seres, saberes e lazeres (113): Un viaggio nel sud Italia (4): Ver Nápoles por um canudo (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Agosto de 2015:

Queridos amigos,
Com este passeio meteórico à Costa Amalfitana, despeço-me da Campânia, a viagem pelo Sul de Itália irá prolongar-se por Tivoli, um recante esplendoroso a que a UNESCO fez reconhecimento, e depois Assis, um dos sonhos da minha juventude, Giotto é um dos meus mestres indiscutíveis da pintura e há depois o ambiente dos lugares de S. Francisco.
Deste passeio de que hoje vos falo Amalfi foi ponto alto, ainda se respira o cruzamento de culturas entre o Ocidente e o Oriente, não é por acaso que estamos no Mediterrâneo Central.
Parto com vontade de regressar, Herculano, Nápoles e Caserta continuam nos meus imperativos. Não parto desapontado com a Costa Amalfitana, é demasiado trabalhada para meu gosto, sem detrimento de toda aquela pedra florestada a derramar-se para o mar tranquilo.

Um abraço do
Mário


Un viaggio nel sud Italia (4) 

Beja Santos

Um dia na Costa Amalfitana

Entre os vários itinerários possíveis para sair do porto de Salerno, para percorrer Amalfi, Positano, Capri e Sorrento, escolhi ir direto a Positano, depois Capri e Sorrento e ter Amalfi como penúltima paragem. Tudo de barco até Amalfi e regresso a Salerno de autocarro. Mal sabia eu a armadilha que estava a preparar para aquelas horas entre Amalfi e Salerno, numa estrada estreitíssima, permanentemente com ravinas a pique. Parecia o terror dos filmes. É o preço da inexperiência. E vamos ao passeio.



Não há turista que não diga, desvanecido, que a costa palpita com belezas incomparáveis, com os seus terraços de verde luxuriante, as casas suspensas, tudo entremeado com uma natureza selvagem, ardente e romântica (até parece linguagem de folheto turístico). Aproximamo-nos de Positano, e ninguém pode desdenhar quanto impressiona esta cenografia teatral, a cor do mar, um cíclame, e lá em cima as casas polícromas esparramadas pelas vertentes. Positano teve passado ilustre, competiu com a República de Amalfi pela supremacia do comércio marítimo no Mediterrâneo, no século XVIII. Teve a sua grande importância no Reino das Duas Sicílias, hoje é procurada pelo pitoresco e pelas praias. John Steinbeck, um dos seus visitantes ilustres, não escondeu a emoção que o lugar lhe provocou.


E de Positano rumámos para Capri, alguém lhe chamou “um dos pontos magnéticos do Universo”. Com ou sem exagero dos encómios, é uma das ilhas mais famosas do mundo e atribui-se-lhe o magnetismo à combinação da terra, mar e luz. Dispõe de grutas e farilhões, a costa é recortada, emerge dos abismos e a vegetação empina-se pelas rochas. Esta foi a Capri que li no livro de Axel Munthe e mais tarde em Malaparte, que deixou vila moderna num projeto arquitetónico excêntrico. Se saí e andei por ruas empinadas em Positano, deambulando por lojas de toda a sorte, chamarizes turísticos, aqui preferi ficar a olhar, quedo e mudo, sei que Capri tem sido cenário de muitos filmes, que um dos seus primeiros grandes admiradores foi o imperador Tibério, que aqui passou os seus últimos anos de vida. Nada de me meter em autocarro, táxi ou funicular, só olhar, procurar absorver esse milagre da natureza. O escritor Ivan Turgueniev desabafou: guardo a imagem de Capri até morrer. Gostei mas é uma beleza que não se me cola à pele.



Prossigo viagem, caminhamos para Sorrento, outro cenário natural maravilhoso convertido num dos lugares turísticos mais famosos de Itália. Vamo-nos aproximando desse imponente promontório que cai a pique sobre o mar, em terra sente-se que estamos numa zona pura de atrações turísticas, um pouco em contradição com o pitoresco da costa, vinha à procura dos testemunhos clássicos e medievais, das arquiteturas do Renascimento e do Barroco, o que encontrei foi o uso extravagante de uma posição exclusivamente dominada pela hotelaria e por recantos transformados em bilhetes-postais. Mas não hesitei em fotografar o autor da belíssima canção “Torna a surriento”. Para que conste.




E pronto, é o momento mais empolgante do meu dia, aqui respira-se a mesma serenidade do azul do céu e do mar, parece que foi tudo escavado à mão, sai-se do porto, percorre-se uma rua e é aquele baque do coração quando surge de chofre uma grande praça que tem no alto de uma escadaria a majestosa catedral, galvaniza pela dimensão humana, é o ponto alto de um verdadeiro palco, com belezas naturais ao fundo. Percorrem-se as ruas entre faunas de montanha e há vestígios seguros dos faustos dessa república marítima que viveu momentos de esplendor entre os séculos X e XII, com o seu comércio marítimo a apontar para o Oriente. Subi e desci porque queria gozar da posição panorâmica da catedral, abrir e fechar os olhos perante esta impressionante policromia, os seus esmaltes e mosaicos e o seu tímpano dourado. Àquela hora a catedral tinha fechado e assim perdi a visita ao Claustro do Paraíso e ao seu precioso museu diocesano. Ficará para a próxima, jamais poderei riscar Amalfi do meu coração. E agora vou-me meter num autocarro de pesadelo.



Enquanto esperava o autocarro, refletia sobre estes compactos que os turistas arranjam, tipo um dia na Costa Amalfitana. O tanas! Não fui a Ravello, nem a Praiano nem a Vietri, onde me interessava visitar o Museu de Cerâmica.
A viagem de autocarro começou por me divertir, tive lugar à frente e acompanhei as peripécias do condutor naquela estrada exígua para conseguir avançar no trânsito delirante. O pior foi quando me apercebi do declive para o abismo, aquelas centenas de metros, e entre nós e o abismo uma rede simbólica, entrei em agonia, foram duas horas a olhar para a berma esquerda, via arquitetura nos socalcos e ouvia os outros turistas delirantes com o espetáculo paradisíaco da costa até Salerno.

Despeço-me com algumas saudades, para a próxima vou até Herculano, Nápoles merece uma estadia, ficou por visitar o Palácio Real de Caserta, sonho de Carlos de Borbon, dizem que é esplendoroso. Vou arrumar a trouxa depois do último passeio pela Via dei Mercanti. Amanhã vou de passagem até Roma, a viagem prossegue para Tivoli, ali tenho património da UNESCO, Villa Adriana, mandada construir pelo imperador Adriano no século II depois de Cristo, Villa d’Este com todo o fascínio das suas fontes e jogos de água e Villa Gregoriana e o seu parque, por cima da acrópole romana. É a antepenúltima etapa, depois Assis, mais um olhar apressado sobre Roma e o regresso a Lisboa.

(Continua)

Texto e fotos: © Mário Beja Santos
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Nota do editor

Poste anterior da série de 26 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15040: Os nossos seres, saberes e lazeres (112): Un viaggio nel sud Italia (3): Ver Nápoles por um canudo (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P15062: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (18): De 8 a 21 de Julho de 1973

1. Em mensagem do dia 29 de Agosto de 2015, o nosso camarada António Murta, ex-Alf Mil Inf.ª Minas e Armadilhas da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74), enviou-nos a 18.ª página do seu Caderno de Memórias.


CADERNO DE MEMÓRIAS
A. MURTA – GUINÉ, 1973-74 

18 - De 22 a 25-7-1973 


Da História da Unidade do BCAÇ 4513:

JUL73/22 – Forças da 2.ª CCAÇ patrulharam a região de NHACOBÁ e LENGUEL sem terem detectado qualquer sinal da presença IN na região.


Das minhas memórias:

22 de Julho de 1973 – (Domingo) – Patrulhamento com missa. 

Caminhámos dentro da mata durante bastante tempo e julgo que a saída de Cumbijã deve ter sido bem cedo, pois que a meio da manhã tínhamos atingido o objectivo e inspeccionado a zona que me foi indicada. Eram percursos e objectivos nunca antes efectuados pelo meu grupo, e não sei se alguma vez por outros. A caminhada na mata foi normalíssima, igual a tantas outras, mas acabámos por desembocar num lugar estranhíssimo, que me causou algum desconforto, próprio da insegurança e da acuidade máxima dos sentidos. Ainda antes de atingirmos a orla da mata sentimos no ar um cheiro a maresia que nos deixou um pouco atónitos, pois na nossa frente, em campo aberto, nada indicava a proximidade de um desses braços de mar tão frequentes na Guiné, mas completamente estranhos para nós. Os odores marinhos, o dia cinzento, um chão estranho e um silêncio incomodativo, conjugavam-se para criar uma atmosfera e um cenário quase opressivos, como se indiciassem um perigo escondido ali algures. Decidi instalar o grupo na orla da mata e ir lá frente investigar sozinho. À minha frente, em campo aberto, tinha o que me pareceu uma lala, uma faixa estéril talvez com sessenta a setenta metros de largura e no limite da qual corria paralelo um cordão de pequenas árvores, a denunciar a presença de um riacho, não deixando ver nada para além dele. Havia que ir espreitar. Ao aproximar-me reparei que ao longo desta fiada de árvores havia paralelamente um uma leira muito uniforme e compacta de plantas que me davam um pouco abaixo dos joelhos e que, a uma certa distância, parecia um campo de trevo. Atravessei em direcção ao riacho por cima desse tapete muito verde e ocupei-me a observar o leito quase oculto no negrume das sombras. Para o outro lado das árvores e da vegetação cerrada, não consegui ver nada. Voltando para trás reparo, espantado, que o caminho que fiz pisando o tapete verde, parecia um corredor de um vermelho muito vivo. Fiz sinal para um dos furriéis se aproximar e partilhar comigo aquela visão estranhíssima. Ficou tão espantado como eu. Simplesmente porque aquelas plantas de folhagem miúda eram vermelhas por baixo, só se dando conta disso ao pisá-las.

Ao afastarmo-nos do riacho reparámos que à nossa direita se estendia uma bolanha com todo o aspecto de ter sido cultivada. Mas como é que, quando saí da orla da mata em direcção ao riacho, não a vi? Só percebi ao entrar na bolanha: todo o terreno tinha sido nivelado pela cota mais baixa, ficando ocultado pelo terreno poisio e irregular do lado da mata, muito mais alto. Dentro da bolanha completamente seca, chegava-nos com a aragem o cheiro a salgado com mais intensidade, mas em nenhum momento consegui vislumbrar a origem. Ao fundo da bolanha a visão era limitada pela fiada de árvores do riacho e outra vegetação de pequeno porte e nada se via para além dela. Nem eu naquela zona arriscava indagar mais longe. Até porque, em todo o tempo em que ali estivemos, tive sempre a sensação desconfortável de andar a espiolhar o quintal do vizinho. Já sozinho, ainda tentei encontrar vestígios ao longo da bolanha mas nada vi. Pelas medas pequenas de palha de arroz quase em decomposição, espalhadas um pouco ao acaso, percebia-se que tudo estava abandonado há muito.

Regressei para junto do grupo na mata decidido a pormo-nos rapidamente a milhas dali, mas encontrei no caminho um grupo de seis ou sete soldados, afastados do pelotão e sentados contra a pequena ribanceira do terreno mais elevado. À medida que me aproximava em passo acelerado, vi que estavam todos muito compenetrados e com ar solene, olhando para mim sérios mas sem intenções de se levantarem. Intrigado, só ao parar frente a eles percebi que estavam a ouvir missa – era domingo -, através de um pequeno “transístor” colocado no chão no meio deles com o som reduzido. Perguntei apenas se faltava muito para acabar, ao que um deles respondeu que devia estar quase no fim. Disse-lhes que se levantassem logo que acabasse, para eu dar ordem de marcha. E fui esperar e descansar um pouco na mata junto do grupo. Depois foi o regresso a Cumbijã, com algumas almas mais lavadas.


Da História da Unidade do BCAÇ 4513:

JUL73/23 – Forças da 1.ª CCAÇ durante a acção “OURIQUE” patrulharam a região de SAMENAU, TUNANE e R. DÉBEL. Na região de SAMENAU ouviram umas rajadas de AAutm (armas automáticas). Dada a impossibilidade de atravessar a bolanha do R. CUMBIJÃ, bateu-se a região com Artª., cessando as rajadas.

- Realizou-se uma coluna extraordinária entre Nhala e Buba para evacuação de um ferido. (da H. U. do BCAÇ 3852).

JUL73/25 – Forças da 2.ª CCAÇ durante a acção “ORIUNDO” patrulharam a região do R. GONHEGEL sem contacto.

- Pelas 17h30 GR IN não estimado flagelou o Destacamento de CUMBIJÃ durante 10 minutos com 9 granadas de canhão S/R 82, sem consequências.


Das minhas memórias: 

25 de Julho de 1973 – (quarta-feira) – Flagelação a Cumbijã: minha 1.ª vez aqui e 4.ª ao todo.

Cumbijã, tanta vez alvo de flagelações, foi flagelada nesta data e outra vez no dia 30. Pela hora referida na História da Unidade, julgo ser a data em que, pela 1.ª vez, fui apanhado no aquartelamento durante uma flagelação. Era o 4.º ataque para o meu registo “curricular”. Mas o que ficou para sempre na minha memória, não foi a flagelação em si, mas um episódio um pouco bizarro e enigmático, que me deixou assim numa espécie de desconsolo piedoso.

Conversávamos despreocupadamente encostados ao balcão do bar, julgo que se chamava “Flor do Cumbijã”, cada um com o seu copo na mão, quando caiu a primeira granada, lá para os fundos do aquartelamento e longe do arame farpado. A primeira reacção foi largar o copo e correr para a vala mais próxima, sem medo nem precipitações, ainda duvidoso de que fosse mesmo um ataque. Mas não tardou a segunda granada, a terceira e as seguintes, cada vez mais próximas do arame farpado, para um lado e para o outro do aquartelamento. Saltei para dentro da vala, creio que era quase no meio aquartelamento, junto ao Comando e outras dependências, e já lá estava o Major D. M. com o Capitão de Operações e outros. Já dentro da vala e ao virar-me para a frente, o lado do bar, fiquei estupefacto ao ver ainda encostado ao balcão o Cap. B. C. com o seu copo de gin na mão, como se não fosse nada. Surpreso, por momentos alheei-me dos rebentamentos e a minha mente vagueou à procura de uma explicação para aquela atitude, recusando a ideia de uma bravata despropositada, que não condizia com a personalidade que lhe reconhecíamos, ou de uma postura suicida, mas não encontrando mais nenhuma explicação. Fiquei meio sem reacção, podia ter tido alguma iniciativa mas estava bloqueado. Porquê aquilo? Não lhe conhecia problemas que merecessem um tal despreendimento da vida, ainda mais na frente de todos. Mas, o que sabemos nós do foro íntimo dos outros? E de nós mesmos? Vamo-nos revelando conforme o meio e as circunstâncias inusitadas, ao ritmo em que as vamos ultrapassando. Que sei eu?

Despertou-me do devaneio, o berro do Major, “Capitão B. C. venha imediatamente para a vala!”. Ele, impávido, fitava-nos de lá onde estava, enquanto levava o copo à boca, com uma expressão que não era de desdém nem superioridade, mas de uma serenidade que não batia certo com o momento. Pareceu-me ver-lhe aflorar um sorriso mas, por certo, foi impressão minha. Entretanto o Major insistiu para que saísse dali e ele, aos poucos, foi-se aproximando de nós, sempre com uma expressão natural, nem apática nem enfática. Não estava a desafiar nem a provocar, apenas mostrava desprezo pela vida, com naturalidade.

Não recordo se chegou a entrar na vala, até porque uma das últimas granadas caía agora do lado da estrada, fora do arame farpado, e tudo acabava por essa tarde sem que houvesse sequer feridos. Entretanto os camaradas da artilharia, que haviam começado a resposta à flagelação quase no início desta, continuaram a disparar o obus por mais algum tempo e o último disparo foi também o ponto final naquela tarde de sobressalto.


Histórias marginais (1): Abelhas assustadoras. 

Por um destes dias saímos pela estrada nova, não asfaltada ainda, em direcção a Nhacobá para depois nos embrenharmos na mata num patrulhamento que já não recordo. Era apenas o meu grupo de combate e caminhávamos em fila indiana, guardando grandes distâncias, pelo meio da estrada. A via paralela à estrada, mais baixa e de terra batida, só se podia usar após picagem e nessa ocasião não era necessária. A tarde estava tão amena e solarenga que a disposição de todos era óptima, parecia até que íamos para um passeio. Uma grande recta com a mata alta de ambos os lados e próxima da estrada. Parecia que estávamos no Bussaco. A verdade é que, desde o princípio, tivemos a percepção de que tudo iria correr bem, e quando isso acontecia, tudo corria bem mesmo. Excluindo os percalços...

Indo entre os primeiros homens, vi que o da frente parou, recuou uns passos e o segundo fez o mesmo. Depois viraram-se para trás e, hesitantes, fizeram-me sinal. Apreensivo, fui à frente saber o que se passava mas, ainda distante, comecei a ouvir uma zoada intensa e que aumentava à medida que me aproximava dos dois homens da frente. Chegado junto deles, de novo virados para a frente e muito temerosos, vi com espanto uma nuvem de abelhas tão compacta e volumosa, que fazia uma grande sombra na estrada a cerca de dois metros do chão. A nuvem de abelhas, - não lhe posso chamar enxame porque seriam muitos enxames -, cobria quase toda a largura da estrada e, embora fervilhassem em reviravoltas loucas fazendo uma zoada de meter respeito, mantinham-se estáticas em relação à estrada. Nunca tinha visto nada assim nem voltei a ver, embora tropeçasse muitas vezes ainda em enxames de abelhas. Estávamos a vinte ou trinta metros das abelhas e recuámos um pouco mais para aguardar a evolução daquele imprevisto, ou eu ter de decidir o que fazer.

Nesse compasso de espera fui avaliando as hipóteses e, uma a uma, fui-as descartando. Estava a ficar num impasse e elas continuavam ali. Mesmo que tivesse uma granada de fumos, não a utilizaria naquelas circunstâncias, pois isso poderia desencadear o ataque delas em vez de as afugentar. Ocorreu-me a história que me contaram em Nhala do único burro que lá havia e que morreu com um ataque de abelhas. Acho que tive um estremecimento. Mas também não podia comunicar ao Comando que estava bloqueado com uma nuvem de abelhas, por parecer ridículo e porque eles não compreenderiam. Passar na faixa de terra batida adjacente à estrada estava fora de questão porque teríamos de fazer uma picagem à minha responsabilidade e, ainda assim, não teria garantia de passar ao lado das abelhas sem que nos atacassem. Juntei o grupo e decidi o seguinte: vamos passar um a um, lentamente, o mais agachados possível e sem movimentos bruscos. Os que aguardam mantém-se quietos assim como os que passam para o outro lado. Se as abelhas atacarem durante a passagem, deitar de barriga para baixo, imóveis e com a cara protegida. A distância segura manter a vigilância para a mata.

Pela reacção da maioria do grupo, nada convencidos, pareceu-me que com melhor ânimo aceitariam a ordem para um golpe de mão. Sentindo que era meu dever passar à prática as instruções que lhes comunicara, avancei eu para aquele turbilhão vivo e aterrador, que persistia ali. Quico enterrado na cabeça até às orelhas, golas para cima e mangas para baixo, avancei. Não tenho vergonha de confessar que, já sob a nuvem de abelhas e com aquela zoada de entontecer, embora calmo, levava o sangue gelado. Mas não aconteceu nada e eu afastei-me, sempre na defensiva, até quase as deixar de ouvir. Virei-me para trás e fiz sinal para que avançasse o seguinte. Passámos todos, embora a operação demorasse mais do que eu supusera.

A descompressão que se seguiu foi tal que parecia que caminhávamos para uma festa, mesmo se quase em silêncio. De tal modo que, já não muito longe de Nhacobá, encontrámos uma granada do nosso morteiro 60 por rebentar na berma da estrada e eu, com alguma irresponsabilidade tendo em conta a zona em que estávamos, pu-la de pé com “pinças” num monte de terra da berma e tentei acertar-lhe de longe com dois tiros de G3, falhados, quem sabe se para meu bem... O problema é que eu sabia como era delicado manusear aquele tipo de granada na situação de encravamento do dispositivo de percussão: falara-se disso quer em Mafra, quer em Tancos. Já não recordo bem mas suponho que me resignei a deixá-la assinalada na berma para, numa oportunidade melhor, a accionar com um petardo. Também já não recordo o nosso destino nesse patrulhamento, nem o regresso a Cumbijã mas, tenho a certeza, não voltámos a ver as horríveis abelhas em tal situação. Tivemos outros casos, - que mais tarde talvez conte -, mas nunca mais vimos nada parecido. Felizmente.

(continua)
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Nota do editor

Poste anterior da série de 28 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15050: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (17): De 8 a 21 de Julho de 1973

Guiné 63/74 - P15061: Parabéns a você (955): Manuel Joaquim, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 1419 (Guiné, 1965/67)

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Nota do editor

Último poste da série de 28 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15047: Parabéns a você (954): António Barbosa, ex-Fur Mil Cav do Pel Rec Panhard 1106 (Guiné, 1966/68) e José Manuel Corceiro, ex-1.º Cabo Op Cripto da CCAÇ 5 (Guiné, 1969/71)

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Guiné 63/74 - P15060: Notas de leitura (753): "Diário dos Caminhos de Santiago", do nosso camarada Abílio Machado, português e minhoto, com costela galega, ex-alf mil, CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/72... Um livro que nos ajuda a aprender a envelhecer de maneira saudável, ativa e produtiva... (Luís Graça)

1. A obra:

Título: Diário dos Caminhos de Santiago

Autor: Abílio Machado

Número de páginas: 358

Editora: Edita-me
[Rua Barata Feyo, 140, sala 1.10,
4250-076 Porto]

Ano: 2013

Ilustrações (capa e interior): Miguel Teixeira

Tamanho: 235 x 153 mm


ISBN 987-989-743-011-4

Preço: 15 €

Excerto da obra


2. Nota biográfica > Abílio Machado

Abílio Machado nasceu em janeiro de 1947, em Guardizela, Guimarães, numa família humilde, sendo o mais velho de oito irmãos.

Frequentou a escola primária de 53 a 56.

Aos 10 anos ingressou no seminário, o que terá marcado a sua personalidade e o interesse pela vida cultural.

Abandonado o seminário, vai para Coimbra, em 66, onde segue a vida académica, no curso de Direito. Fez o serviço militar obrigatório de 1969 a 1972, tendo sido mobilizado para a guerra colonial, na Guiné, de 1970 a 1972 [, CCS/BART 2917, Bambadinca].

Trabalhou como delegado de informação médica durante 31 anos. Aos 60 anos aposentou-se.

Em 1985, dinamiza um grupo de jovens desafiando-os para cantarem as janeiras e... desde aí a música como que fez acordes com a amizade mantendo-se uma presença constante na sua vida.
Narrador de histórias, amante da boa gastronomia, a sabedoria é um acento tónico no seu dia a dia, que gosta de partilhar como bom conversador.

Não guarda para si o que aprende e com frequência o ouvimos transmitir histórias deste e doutros mundos. 

Amante da natureza e dos homens, com a teimosia que lhe corre nas veias, iniciou-se como peregrino a Santiago em agosto de 1993, após - segundo diz - uma conversa tida com o Santo.

Os motivos culturais, do espírito, a curiosidade histórica fizeram com que se apaixonasse por estes caminhos e não mais parou, somou ao registo do olhar, as palavras salpicadas da alma, no seu exponente máximo de sentido crítico e sensibilidade... 

A 10 ade gosto de 1993, “a torre da velha igreja exultou, batendo as nove badaladas...” e os primeiros caminhos de Santiago surgem enternecidos e eternizados, por vontade e por paixão, estreando-se na literatura com os seus diários, pincelados de um humor característico.

Redescobre-se um narrador que estava adormecido. O seu destino era mesmo este e isso o deve a um santo...

A natureza e os caminhos foram os seus cúmplices... e no silêncio das folhas quase se ouve o resvalar das pedras... avancemos, rumo a Compostela!

Fonte: texto e fotos: Edita-me [com a devida vénia].


3. Comentário de L.G.:

Já aqui temos falado do Abílio Machado, nosso camarada e amigo de Bambadinca (CCS / BART 2917, 1970/72). E sobretudo a propósito de música. Ele é um dos fundadores, em finais de 1985, na Maia, de um notável grupo musical, o Toque de Caixa, de que saíram, além de inúmeros espetáculos ao vivo,  dois CD,  Histórias do Som (1993) e  Cruzes, Canhoto (2010).

 O seu gosto pela música, as suas excecionais qualidades humanas, o sentido da camaradagem, a afabilidade,  o gosto pelo convívio, o "espírito coimbrão", a irrequietude intelectual... eu já os conhecida de Bambadinca: o "Bilocas", como era tratado carinhosamente, esteve connosco em Bambadinca, entre maio de 1970 e março de 1971. Alf mil, CCS / BART 2917, Bambadinca, 1970/72, fizemos lá uma bela amizade: ele, "baladeiro", tocava viola, mas era um "periquito", um alferes de secretaria, e nós, operacionais, já calejados da guerra, "pretos de 1ª classe", da CCAÇ 12, uma companhia de intervenção africana, ao serviço dos senhores da guerra de Bambadinca e de Bafatá...

Quando digo nós, refiro- me a mim, ao Humberto Reis, ao Tony Levezinho, ao Zé da Ilha (José Vieira de Sousa), o GG  ( Gabriel Gonçalves, o nosso cripto), e outros, noctívagos, que gostávamos de cantar, beber, conviver, de preferência, pelas horas altas da noite... Ele era dos poucos alferes, para além do Zé Luís Vacas de Carvalho,  que nos acompanhava nessas noites de insónia,  de copos e de tertúlia... Como se o bar de sargentos de Bambadinca (e os nossos quartos...) fosse uma república coimbrã...

Perdi-o de vista até 2007.  Foi a música e, claro, o nosso blogue e a Guiné, por mão do Humberto Reis e do Benjamim Durães, que de novo nos aproximou... Em boa hora!...  O que não conhecia do Abílio era o gosto pela escrita e a paixão pelo sagradlo e pelo profano, onde se incluen os caminhos de Santiago, o "matamouros"...

Mandou-me em março passado, uma cópia do seu livro, o "Diário dos Caminhos de Santiago", com a seguinte dedicatória:

"Para o Luís, velho amigo, com quem, noutras guerras, os caminhos da vida me fizeram encontrado. Com a amizade do Abílio Machado, 9/3/2015".

No "meu querido mês de agosto" de 2015, tentei pôr as leituras em dia, e um dos livros de praia e de cabeceira, que li de um fôlego,  foi justamente o "Diário dos Caminhos de Santiago". De maneira obsessiva, empenhada, determinada, o "português e minhoto" Abílio Machado, com costela galega, meteu-se nas suas tamanquinhas, e de cajado na mão, começou por fazer o "caminho português" (Vila Nova da Telha / Santiago de Compostela), entre 10 e 16 de agosto de 1993, o ano do Jubileu...

Treze anos depois, já reformado da indústria farmacêutica, retomou os caminhos de Santiago, sem nunca se esquecer do seu "vade mecum", o caderninho de notas ou diário de caminhante: caminho aragonês (Col de Somport / Puente la Reina, 2 a 9 de abril de 2006); caminho inglês (Ferrol / Pontedeume / Betanzos / Ardemil / Santiago,  13 a 18 de abril de 2009); caminho de Finisterra ou Fisterra (Santiago / Negreira / Oliveiroa / Muxia / Fisterra, 16 a 20 de agosto de 2010) e, por fim, caminho de Navarra ou caminho de Prisciliano (18 de maio a 17 de junho de 2011).

A minha primeira reação foi de "inveja": como eu gostaria de ter estado, não no lugar do caminheiro, mas a seu lado... E depois, não menos emocional, a de admiração e de regozijo. Passei ainda a ter mais orgulho deste amigo e camarada da Guiné que foi capaz de realizar um sonho e superar-se a si próprio... Porque a vida e o sonho são como os caminhos de Santiago... "A onde ira o meu romeiro /, Meu romeiro a onde ira, / Caminho de Compostela, / Não sey se la chegara"... O provérbio é galego, a citação, logo no início do livro, dá o mote, e mostra o tamanho do desafio.

Tomei uma série de notas, a lápis, nas margens do livro, que quero compartilhar com o autor e os seus leitores, atuais e potenciais. Fica para um próximo poste. Quero apenas registar, agora,  quanto me agradou a escrita, viva, fresca, solta, criativa, muitas vezes "caligráfica". O tom é o do bom humor, da ironia e da auto-ironia: nos caminhos de Santiago, também há saudações provocações e piropos brejeiros... As referências, no texto,  historiográficas, geográficas e toponímicas são muito úteis, sem nem nunca serem pesadas como nos trabalhos académicos da gente erudita (...e chata). O Abílio foi um fantástico caminheiro, quase sempre solitário, mas que fazia antes o seu TPC, o seu trabalho de casa. Aprendi muito com ele.

Parabéns, "Bilocas", amigo e camarada, pela capacidade de sofrimento, superação e realização, e pelo teu trabalho, literário, que passa a ser uma referência útil e até obrigatória para os futuros romeiros de Santiago.

Já desafiei a Alice para pegar na trouxa e zarpar: ela é muito mais caminheira (e gaiteira) do que eu,.. Confesso que o teu exemplo é contagiante... Mais importante: é a prova provada de que os "camaradas da Guiné" podem, apesar da idade e o do contexto societal depressivo, aprender a envelhecer de maneira saudável, ativa e até produtiva. Afinal, o(s) caminho(s) de Santiago, para além do mito e da realidade, é(são) sobretudo um estado de espírito, sem deixar(em) de ter o requsito da boa forma... física!

Um grande alfabravo fraterno. LG

PS - Falei esta manhã, através do telemóvel, com o Abílio, que estava em Albufeira, fazendo de avô baboso (e talentoso) de dois netos gémeos, da sua sua filha Rita (que é diretora de 2 hoteis  em terra de mouros). A música agora pode esperar e o Santiago também. Diz-me que vai falando com o santo, e que ainda não cumpriu a promessa (ou a penitência ?) toda,., Antes dos 70 anos, ainda vai ter que pamilhar, desta vez com companhia, o difícil mas deslumbrante caminho do norte, que segue entre mar e montanha.

Também confirmei, com ele, o ano em que voltou á Guiné, por terra, de jipe: foi no início de 2013. Tenho o relato em papel, falta-me o ficheiro digital e algumas fotos.

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Nota do editor:

Último poste da série > 31 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15058: Notas de leitura (752): “O Guardião”, por Fernando Antunes, Edição de Setembro de 2011 (Mário Beja Santos)