quinta-feira, 28 de maio de 2015

Guiné 63/74 - P14675: Agenda cultural (405): "África em Lisboa": cinco países irmãos (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé), cinco dias (de 27 a 31 de maio), no Museu da Carris



África em Lisboa | 27 a 31 de Maio

Quarta a sexta-feira: 18h00-00h00

Sábado e domingo : 13h00-00h00

Museu da Carris | Rua Primeiro de Maio, 101-103, 1300-472 Lisboa


Bilhetes:
+ 6 anos:: 5 €/dia
Passe Família/dia (4 pessoas: dois adultos e dois menores 12 anos):: 18 €
Passe 5 dias:: 22 €
Locais de venda:: Bilheteira no local


Do sítio da Carris, com a devida vénia (e adaptação livre do texto)


Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé marcam presença no “África em Lisboa”.

O evento lugar no Museu da Carris até o dia 31 de maio, e mostra o melhor das artes performativas, moda, artesanato e gastronomia destes cinco países de ritmos, cores, cheiros e sabores apaixonantes.

Um mercado de marcas e produtos africanos e uma área de gastronomia, com ementas típicas dos países representados, além de espetáculos musicais, teatro, dança, exposições de pintura, escultura e fotografia, tertúlias literárias, moda e acessórios, juntam-se no mesmo espaço, no coração da capital portuguesa, para reavivar sensações aos africanos que moram em Portugal, arrebatar os portugueses que amam África e cativar os inúmeros turistas estrangeiros que visitam Lisboa.

Cada dia terá um país em destaque e, também, momentos de fusão da cultura africana com a portuguesa, numa exaltação à partilha dos percursos quotidianos dos vários povos.

África em Lisboa é paixão!

[Vd, também página do Facebook, África em Lisboa.]

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Nota do editor;

Guiné 63/74 - P14674: Notas de leitura (718): "Cabra-cega: do seminário para a guerra colonial" (autor: João Gaspar Carrasqueira, pseudónimo literário de A. Marques Lopes): Excertos (Parte I): "Tinha-se interrogado várias vezes sobre as razões que o levaram a entrar no seminário"...


Guiné > Região do Ccaheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968 > À direita.  ex-al fmil at inf, A. Marques Lopes, que comandava o grupo Os Jagudis.  Antes, em 1967, tinha passado pela CART 1690, om sede em Geba (Zona leste, região de Bafatá, onde foi gravemente ferido; evacuado para  metrópole, voltaria cerca de nove meses depois para acabar a sua comissão de serviço na CCAÇ 3,. em Barro, na fronteira com o Senegal).

Foto: © A. Marques Lopes (2005). Todos os  direitos reservados


Guiné > Região do Ccaheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968 > Grupo Os Jagudis > Ao centro, o ex-al fmil at inf, A. Marques Lopes,

Fotos: © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados



Capa do livro (Lisboa, Chiado Editora, 2015). Já está á venda na 85ª edição da Feira do Livro de Lisboa (que abre esta tarde, e vai prolongar-se até 14 de junho,  no Parque Eduardo Sétimo).


Ficha técncia:

Título: Cabra-cega: do seminário para a guerra colonial
Autor: João Gaspar Carrasqueira
Data de publicação: Junho de 2015
Número de páginas: 582
ISBN: 978-989-51-3510-3
Colecção: Bíos
Género: Biografia
Preço: 19 € (edição em papel) [10 € na sessão de lançamento)


1. Excertos do livro de memórias "Cabra-cega", que vai ser lançado no próximo dia 3 de
junho, às 15h30, na biblioteca municipal de Matosinhos (*)



Gentileza do nosso camarada e amigo A. Marques Lopes, coronel inf, DFA, na situação de reforma, ex-alf mil da CART 1690 (Geba, 1967) e da CCAÇ 3 (Barro, 1968), um dos primeiros membros membros da nossa Tabanca Grande (entrou em 14 de maio de 2005) [, foto atual à direita]:


(...)  Guardava os papéis há muito tempo e ficou preocupado com as gotas que pingavam das telhas partidas das águas-furtadas. Oxalá não tivessem borrado o que lá tinha escrito. Aquele último andar do velho prédio pombalino da Calçada da Patriarcal metia água sempre que chovia.

Mas paciência, era o que podia ser. Apesar de mau era bem melhor do que morar em partes de casa ou quartos alugados, como antigamente. Agora, com a idade que tinha, não queria passar novamente por essa situação.

A caixa de lata da Oliva tinha uns pingos na tampa mas nenhum passara para dentro. Estavam bem, felizmente. Era nela que a mãe antes guardava os dedais, tesouras, carrinhos de linhas e demais coisas do seu trabalho de costura para os Rodrigues da Rua de São Paulo. Porque já não podia por causa da doença, coitada, teve de deixá-lo e deu-lhe a caixa para ele guardar os cadernos onde escrevera os seus diários e pensamentos.

Ontem viera um aviso para se apresentar na Escola Prática de Infantaria em Mafra. Disciplina de quartel, vida de caserna não eram coisas que o preocupavam, não era muito mais do que aquilo a que estava habituado desde pequeno.

Mas havia a guerra, e era mais que certo ir lá parar e isso é que o fazia estar receoso e apreensivo e com pena de ter deixado os estudos na universidade. Preferia tê-los acabado primeiro. É claro que, acabados ou não, estava condenado na mesma. Para morrer lá, tanto fazia ter acabado ou não.

Já dissera aos pais desta ordem de apresentação na tropa e viu a angústia com que ficaram, na cara do pai e nas lágrimas da mãe. Já tinham essa preocupação há muito, sempre na expectativa que sucedesse. Sabiam que era assim para todos e que, num dia qualquer, também lhes ia acontecer. Mas estava ali aquele papel a dizer que era agora, o que supunham aconteceu mesmo. Pensar que pode ser que um dia é diferente de ver que já é. Tentara um lenitivo dizendo-lhes que vir a ser oficial era uma coisa simpática, um salto na condição de filho de pobres, e podia ser que não lhe calhasse ter que ir para a guerra, sempre havia alguns que não iam. O pai não ficou convencido mas ficou mais calmo, a mãe não deixou de chorar. O irmão não se manifestou, pareceu não ser nada com ele, mas a irmã acompanhou a mãe nas lamentações.

Agora, só ele é que estava em casa. Os irmãos estavam no trabalho, o pai também, e a mãe fora a uma consulta no hospital. Altura ideal para ver com calma o que escrevera.

Era a recordação dos dias em que lhe doíam a alma por quase tudo e o corpo por não ter nada, quando a vida parecia fugir, quando a desilusão o afundou no purgatório dos vencidos. Ia ler cada “caderno diário”, este com uma caravela e um padrão dos descobrimentos na capa e a inscrição “por mares nunca dantes navegados”, e este com Viriato e a narrativa da saga dos lusitanos, com Camões e outros heróis muito elogiados. Conseguira escrevê-los no seminário quando estava mais sereno e podia estar sozinho, o que não era nada fácil no ambiente extremamente vigiado em que era obrigado a estar.

A vida alterou-se depois disto que escrevera e estava para mudar agora novamente, mas num novo ciclo totalmente diferente.

Queria ver novamente como foi, tentar compreender as tramas do seu destino, ver se conseguia desfazer esta dúvida que ainda tinha de se foi ele ou se foram outros que as teceram. Interrogou-se se não seria masoquismo voltar a esse passado. Não, não era. Precisava aprofundar o conhecimento de tudo o que lhe aconteceu, de tirar lições para que não sucedesse o mesmo nesta nova situação que se avizinhava.

Tinha tudo lá escrito.

O pai e a mãe, bem como os seus avós, bisavós e trisavós nasceram todos no Alentejo, no Baixo, e talvez os de antes também, mas isso não sabia ao certo. Já falara sobre isso, sobre as raízes e a árvore genealógica da família, mas o pai riu-se dizendo-lhe que essa árvore era um chaparro com raízes fundas, como há muitos nos montados. Lembravam-se dos seus antepassados directos mais chegados mas não conseguiam ir muito longe. A mãe foi ceifeira que andava à calma, lembrava-se bem desta canção, e o pai foi tractorista nos campos dos latifundiários, rasgando-os com aivecas. Pensa que foi por isso que lhe acrescentaram a alcunha Aiveca ao nome próprio, sendo conhecido lá na terra como Eduardo Aiveca. Mas a vida era má, contaram-lhe da miséria e da fome passada, razão por que tinham vindo para Lisboa na tentativa de encontrar melhor. Foi por isso que nascera na maternidade Magalhães Coutinho, ali para os lados da Estefânia. O pai quis pôr-lhe o nome de António Aiveca mas o registo civil do Socorro não deixou acrescentar Aiveca pois não era o apelido que ele tinha no bilhete de identidade. Mas a família sempre o tratou assim e assumiu esse nome toda a vida. Até porque, após o nascimento, só passara um anito na Rua da Mouraria. A mãe adoeceu dos pulmões e o médico disse-lhe para ir apanhar ares para o campo, lá para baixo. Fora com ela, ainda bebé, e ali ficou sete anos. Lá na terra sempre foi tratado por António Aiveca, o filho do Eduardo Aiveca. Não desgostava do nome.

Quando tinha seis anos metera-se-lhe na cabeça que queria ser padre. Não havia pároco a residir no Penedo Gordo, devido á extrema miséria dos assalariados rurais que constituíam a grande maioria da população da aldeia e porque a maior parte deles não ligava grande coisa às questões da religião. Só aos domingos é que o seminário de Beja mandava um padre para que os crentes pudessem cumprir os seus deveres dominicais. Nessa altura ia à igreja com a avó Rosário. Os avôs Salustiano e João, materno e paterno, não ligavam, nem os tios, a mãe não ia porque estava doente, dizia ela, mas sempre lhe pareceu a ele que também não ligava muito àquilo. A avó Violante, a mãe do seu pai, nunca a vira na igreja. Mas ele gostava de ver o senhor prior com aquelas vestes bonitas, as campainhas, a solenidade, e o respeito de todos os que lá estavam impressionavam-no muito. Todas aquelas cores, luzes e sons eram uma maravilha. Os revérberos do sol através dos vidros coloridos das janelas exerciam o mesmo efeito que qualquer coisa extraterrestre poderia exercer, encantamento, espanto e redobrado respeito. Era bonito, também queria ser padre. Tanto insistiu com a mãe que esta, num dia que teve de ir a Beja, levou-o ao seminário para lá ficar. O reitor ficou encantado, sorriu e afagou-lhe a cabeça. Mas recomendou-lhe, depois, com ar sério que tinha primeiro de tirar a 4ª classe e deu-lhe uma mancheia de rebuçados. Deixou-o contente e muito esperançado de um dia poder igualmente viver no meio de tantas maravilhas, numa casa enorme e bonita como aquela e ter sempre à mão quantos rebuçados quisesse.

Estas lembranças ainda agora eram agradáveis e o faziam sorrir. Mas queria ver mais algumas páginas

(...) Tinha-se interrogado várias vezes sobre as razões que o levaram a entrar no seminário. Mais para carpir a mágoa por um passo mal dado do que para tentar esclarecer aquilo que já sabia. Tinha sido a condição de menino pobre que levara a isso como necessidade. Mas é claro que não fora responsável pela decisão. A necessidade era dos seus pais, que aproveitaram o desejo de um padre que se tinha armado em protector.

As pressões daí decorrentes e os meios em que passou a ter que se mover fizeram o resto. À distância, sentia uma grande mágoa por não ter conseguido libertar-se mais cedo dessa catástrofe que lhe sucedera na vida. Mas, nem sabia se poderia ter sido diferente. Para quem tinha fome, para quem passava o dia com uma fatia de pão com margarina ou, mais do que uma vez, com uma côdea seca, era impossível recusar a possibilidade de ter refeições a tempo e horas. Como não aceitar a perspectiva do café com leite e pão com marmelada, da sopa, da carne e do peixe, se chegara, quando era puto, a ter que andar aos caixotes?
Preço: 19 € (edição em papel) [10 € na sessão de lançamento)
Já tinha desejado muitas vezes não acreditar em Deus. Mas não tinha conseguido. Numa guerra, nesta guerra em que se encontrava como interveniente activo, os desejos, a esperança, a ideia de que quem morria eram os outros e não ele, tudo estava depositado no Deus que o havia de proteger e guardar. Mas porquê a ele e não aos outros, aos que morreram, aos que ficaram sem braços e sem pernas, aos que ficaram cegos e aos que ficaram loucos? Era uma dúvida e, ao mesmo tempo, uma incompreensão muito funda que se afogava e perdia naquilo que a sua formação religiosa chamava os insondáveis desígnios de Deus. Queria dizer que era desígnio de Deus morrer ou ficar estropeado, e também era vontade d’Ele se saísse bem disto tudo. Deus era a explicação de todas as coisas, ele não riscava nem decidia nada, podia tranquilamente continuar a fazer a guerra. Podia matar porque nos desígnios de Deus tanto podia estar o prémio como o castigo. Ele é que decide quem mata e quem morre. O prémio era para ele que matara e não morrera e o castigo era para o outro que não o matara e morrera? Ou ele seria castigado porque matara o outro e este terá um prémio na outra vida porque não o matara? Se comparecer perante Deus, durante ou após esta guerra, será condenado às penas eternas ou entrará no rol dos bem aventurados? Será condenado ou premiado por ter matado para obedecer aos seus legítimos superiores, àqueles que têm sobre ele a pesada responsabilidade de governar e mandar? Será condenado ou premiado se lhes desobedecer e não matar?

A Deus o que é de Deus e a César o que é de César... Citação hipócrita para justificar a passividade da Igreja perante a guerra quando César vai contra o mandamento não matarás. Ou consentimento? Como admitir que a Igreja abençoe a guerra?  (...) (**)

(Continua)





Guiné > Região do Ccaheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968 > Natal de 1968 > Areograma do A. Marques Lopes, enviado á irmã e cunhado: "Querida irmã e cunhado, um Natal feliz e que o Ano Novo seja sepre melhor que o anterior. António Manuel... Uma ginginha!.. Pois dar de beber à dar é o melhor"...

"Este é mais outro aerograma que descobri. Mandei-o, pelo Natal, em 1968. O que eu quis transmitir é que eram natais de morte e que o que procurava era esquecer, dando de beber à dor".

Foto (e legenda): © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados

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Notas do editor:


Guiné 63/74 - P14673: Tabanca Grande (465): José Rodrigues, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 1419/BCAÇ 1857 (Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67) - 689.º Grã-Tabanqueiro

1. Convidado através do facebook a fazer parte da nossa tertúlia, recebemos do nosso camarada José Rodrigues, (ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 1419/BCAÇ 1857, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67), a seguinte mensagem:

Boa tarde Carlos
Uma falha grave da minha parte, não me ter apresentado nas devidas condições.
Como castigo, não adianta dares-me uma carecada, porque não há nada para cortar. Deixo ao teu critério o castigo a aplicar.

Histórias sobre a guerra, não vale a pena pois o meu percurso foi igual ao de milhares de "mancebos", mas tive a sorte de regressar vivo. Digo vivo, porque mentalmente quer queiramos quer não, todos viemos com "pancada".

Mas recordo-me que havia um nativo que poderíamos apelidar de "ordenança", pois dava apoio à nossa moradia em Bissorã.
Pedi-lhe um dia que fosse à cantina comprar-me um sabonete e disse-lhe uma marca que na altura estava muito em voga "CADUM". Passados minutos aparece-me com meia dúzia de sabonetes.
Admirado, perguntei-lhe... porquê tantos sabonetes?
- Furriel disse-me para trazer um de cada um !!!

No dia 6 de Janeiro de 1966, ele e mais cinco camaradas, tombaram ao pisar um fornilho.
Para ele e para todos os camaradas, minha homenagem!!!

Recebe um abraço amigo,
Zé Rodrigues

José Rodrigues a caminho da Guiné, diz o editor observando aquelas divisas tão novinhas


2. Comentário do editor:

Caro amigo e camarada José Rodrigues, bem-vindo à Tertúlia.
Já nos conhecemos pelo facebook onde vais acompanhando a Tabanca Grande. Aqui fazes companhia ao teu e nosso amigo Manuel Joaquim de quem foste camarada na CCAÇ 1419. A tua cara não nos é estranha pois já publicámos várias fotos dos convívios da Magnífica Tabanca da Linha onde apareces, como neste último convívio de Maio.

José Rodrigues no Encontro da Magnífica Tabanca da Linha, 21 de Maio de 2015

Já sabes que estamos disponíveis para publicar as tuas fotos e uma ou outra memória dos tempos de Guiné que surja e queiras partilhar.

Se quiseres conviver com a tertúlia da Tabanca Grande, terás a primeira oportunidade no dia 16 de Abril do próximo ano. Muita da malta da Tabanca da Linha é assídua dos Encontros nacionais, assim como muitos camaradas da grande Lisboa pelo que até nem darás pela diferença.

Em nome da tertúlia da Tabanca Grande e dos seus editores, aqui fica um abraço de boas-vindas.

Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último poste da série de 26 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14665: Tabanca Grande (464): António Melo de Carvalho, Coronel Inf na situação de Reforma, ex-Cap Inf, CMDT da CCAÇ 2465/BCAÇ 2861 (Có e Bissum-Naga, 1969/70), Grã-Tabanqueiro 688

Guiné 63/74 - P14672: O cruzeiro das nossas vidas (21): Os últimos dias, a família, os amigos e finalmente o embarque, em 28/5/1968 (José Martins)

1. Mensagem do nosso camarada José Marcelino Martins (ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), com data de 27 de Maio de 2015, falando-nos do Cruzeiro da sua vida.

Amanhã, 28 de Maio, faz 47 anos que iniciei o meu primeiro cruzeiro da minha vida, que podia ser o cruzeiro da minha morte.

Abraços
Zé Martins


O EMBARQUE

Os amigos e conhecidos ao saberem da minha mobilização, mesmo sem lhes ser pedido, passaram a fazer as suas recomendações, sobre os problemas e carência comuns a qualquer das frentes de combate. No casão militar adquiri uma quantidade enorme de fardamento, para fazer face às necessidades em campanha, e, sobretudo, porque lá não haveria a possibilidade de adquirir algo que tenha faltado ou que fosse necessário substituir.

Mais uma vez, com as malas às costas e de volta a Torres Novas, nova guia de marcha para Lisboa, para me ir apresentar no Depósito Geral de Adidos, na Ajuda.

Os mobilizados em rendição individual mais não eram que pedras de xadrez num tabuleiro desmantelado, em que era extremamente difícil deslocar-se qualquer que fosse a direcção. Com apatia, insensibilidade, desmotivação ou desprezo, temos de admitir, era assim que os militares, independentemente da patente, eram recebidos. Os soldados que desempenhavam as funções de recepção, não só não tinham qualquer preparação para a tarefa, como não tinham qualquer problema em mostrar desagrado.
A falta de organização dentro da unidade, apesar de ser compreensível dada a quantidade de militares que chegavam e partiam, originavam enormes problemas de logística; a marcação dos embarques e o seu adiamento sistemático, provocava uma sensação de vazio e mal-estar, que obrigava a que cada um procurasse, fora do âmbito militar, o apoio que necessita naqueles dias difíceis.

Cargueiro N/M Alenquer, da Sociedade Geral 
© Foto Google – imagens de navio Alenquer

Esta situação originou que efectuasse várias viagens Lisboa/Porto e Porto/Lisboa, obrigado a noites mal dormidas, a gastos inesperados de dinheiro, e, sobretudo, a despedidas contínuas. Foi numa dessas vezes, ao deixar a casa paterna, que ouvi um barulho fora do normal. Parei. Pensei em voltar atrás. Mas fosse o que fosse, nada poderia fazer. Cerrando os dentes a apertando com mais força as pegas do saco de viagem que transportava, segui em frente, segui o curso da minha própria história.
Só dois anos mais tarde, já de regresso e com a missão cumprida, apesar de ter estado duas vezes de licença na metrópole, é que soube que, perante a impossibilidade de fazer parar e/ou alterar os acontecimentos, o meu pai, na sua raiva e desespero igual à de tantos outros pais, tinha partido o tampo da mesa da sala.

Enfim. Ao cabo de quase uma semana de “embarca hoje de avião”, “o voo foi adiado vinte e quatro horas”, “o embarque aéreo foi cancelado”, “vão de barco dentro de dias”, chegou o dia do meu embarque.

Nesse dia, sabendo da odisseia passada nos Adidos, ou melhor, à sua volta, o meu irmão mais velho, o João, invocando que tinha de resolver alguns assuntos em Lisboa, telefonou e marcamos um encontro para a hora do almoço.
O local do encontro foi algures na baixa lisboeta. Com o meu irmão, vinha a minha cunhada, a Lai.
Como o João era vegetariano, de curta data, rumamos para a Rua da Emenda, ao Bairro Alto, para um almoço de vegetais no restaurante Colmeia
A ementa era extremamente simples: vários vegetais cozidos, acompanhados com um sumo de laranja e como sobremesa um doce de cenoura.
A minha cunhada apenas observou o almoço. O seu seria a seguir num restaurante mais tradicional na Rua Primeiro de Dezembro, e com uma refeição menos sofisticada: bife com batatas fritas, que, por cavalheirismo e porque realmente “aquilo dos vegetais não era propriamente almoço”, a acompanhei “aviando” uma boa costeleta.
Mal sabia eu que este duplo almoço do dia 27 de Maio de 1968 me ficaria na memória para sempre, sendo recordado, com saudade, especialmente quando me sentava à mesa para a refeição, no destacamento longínquo perdido no leste da Guiné, e tinha para comer, quase invariavelmente, feijão ou arroz com chouriço ou salsichas.

A hora da partida aproximava-se e o carro rumou o Cais da Rocha do Conde de Óbidos.
Naquela tarde de Maio de 68, o cais e a zona envolvente estava calma. Só o N/M Alenquer deixava escapar algum fumo pela chaminé, prenúncio de que aquecia as máquinas para a viagem que iria iniciar.

Não havia a aglomeração de militares e de suas famílias, a que nos habituara, desde há muito, a televisão. Constatou-se que havia, como passageiros, apenas, quatro furriéis e oito marinheiros, que constituíam as tripulações de duas lanchas LDM que estavam embarcadas no convés, mas, no porão, a carga era constituída por armamento e munições, mas que só o viemos a saber quando o navio procedia à descarga.

Despedi-me da família e subi a bordo, onde um velho guarda-fiscal me saudou militarmente. A promoção a Furriel Miliciano era tão recente, que nem sequer raciocinei de que já tinha direito a continência. Correspondi com um “boa tarde” seguido de um aperto de mão, a que o guarda correspondeu entre o satisfeito e o surpreendido.
O alojamento duplo que me estava destinado para os dias seguintes, podia ser catalogado como de cinco estrelas e era de fazer inveja a muitos hotéis da capital. Além das duas camas, dispunha de dois guarda-fatos individuais, uma secretária com material para escrita, e além de uma zona de descanso, dispunha de instalações sanitárias amplas e modernas.
Mas a família tinha ficado no cais. Há que voltar ao convés para corresponder ao sinal de despedida que, os que ficavam em terra, queriam enviar.
Tirando a boina e despindo o blusão, fui até à amurada.

Ouviu-se um silvo agudo seguido pelo roncar das máquinas do N/M Alenquer e do rebocador que o auxiliava na manobra.
Algo estranho se passou, pois um militar não chora (?). Tirei um cigarro do bolso e escondi as lágrimas, que me escorriam pela cara abaixo, atrás do fumo que o mesmo libertava.
Lisboa ficava para trás, iluminando-se, cada vez mais longe, na noite cálida. A proa indicava o futuro e o futuro, naquele dia, chamava-se África...
Chamava-se Guiné!

12 de Julho de 2000
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Nota do editor

Último poste da série de 18 de janeiro de 2013 > Guiné 63/74 - P10958: O cruzeiro das nossas vidas (20): Viagens de avião de ida para a Guiné, e volta, patrocinadas pelo Estado Português (Henrique Cerqueira)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Guiné 63/74 - P14671: Sondagem: Os "nossos filhos da guerra" deveriam ter acesso à nacionalidade portuguesa... A maioria dos nossos leitores (4 em cada 5 dos votantes) acha que sim... Resultados preliminares (n=62)


Lisboa > Cinema São Jorge > Festival Rotas & Rituais 2015 > "Filhos do vento" > Exposição fotográfica de Manuel Roberto > "Inês Miriam Henrique é filha de um ex-combatente português de quem conhece apenas o apelido". Foto de Manuel Roberto (cortesia do autor e do jornal Público)

Ver aqui a sua história resumida:

 "Nasceu em 1967, sabe apenas que o pai português trabalhava no Hospital Militar de Bissau. A mãe, Lígia Vaz Martins, teve mais dois filhos de militares portugueses, um deles é José Carlos Martins, o outro rumou a Portugal à procura do pai, mas não teve sucesso e foi para a Alemanha. Miriam vende sacos de carvão à porta da sua casa. Tem oito filhos. Nos seus sonhos, o seu pai aparece-lhe a dizer que a quer conhecer. Ela só sabe o que julga ser o seu apelido". 

(Fonte: cortesia de Catarina Gomes e Manuel Roberto, Público > Os filhos do vento)


I.  Resultados preliminares (n=62) da sondagem em curso no nosso blogue (vd. coluna do lado esquerdo, ao alto):

SONDAGEM: OS "NOSSOS FILHOS DA GUERRA" DEVERIAM PODER TER ACESSO À NACIONALIDADE PORTUGUESA


1. Discordo totalmente  > 1 (1%)

2. Discordo  > 1 (1%)

3. Não discordo nem concordo / Não sei  > 9 (14%)

4. Concorrdo  > 23 (37%)

5. Concordo totalmente  > 28 (45%)


Total de votos  apurados = 62 (até às 13h de hoje)

Faltam 3 dias para fechar a sondagem


II. CAMARADA, NÃO DEIXES QUE SEJAM OS "OUTROS" A MANDAR "BITAITES" SOBRE OS ASSUNTOS QUE TE DIZEM RESPEITO...

Camarada:

Não é fácil falar, com serenidade, objetividade e rigor, deste tema: os "nossos filhos da guerra" (pessoalmente, prefiro esta expressão)...

Estamos a falar de filhos de portugueses que passaram pela antiga província ultramarina (ou colónia) da Guiné, entre 1961 e 1974, em geral no âmbito do cumprimento de uma missão de serviço militar... Haverá, por certo, também filhos de pessoal civil (por exemplo, comerciantes, administradores, missionários, etc.)...

Independemtente do direito à procura e conhecimento do progenitor (pai biológico) e até do reconhecimento da paternidade, há uma questão sobre a qual se começa a fazer um consenso: estes homens e mulheres, hoje na casa dos 40/50 anos, são filhos de portugueses e, como tal, deveriam poder ter "acesso à nacionalidade portuguesa"...

Se há um reparação (material e/ou simbólica) que, na maior parte dos casos, ainda se pode fazer ao fim destes 40/50 anos, é o reconhecimento pelo Estado português da origem portuguesa destes "nossos filhos da guerra"... Como isso se faz, é já um problema técnico, jurídico e político, que nos ultrapassa...(Esperemos que a embaixada portuguesa na Guiné-Bissau possa fazer qualquer coisa neste sentido.)

De qualquer modo, como simples membro (entre 700) desta Tabanca Grande, também defendo que "mais do que apontar o dedo, é preciso estender a mão para a ajudar"... A exposição fotográfico do Manuel Roberto, no "foyer" do cinema São Jorge, em Lisboa, no âmbito do Festival Rotas & Rituais 2015 (dedicado aos 40 anos da descolonização portuguesa)  interpela-nos a todos, sendo no mínimo "obrigatório" ir vê-la por estes dias... (É só tomar o metro e sair na estação da Avenida.)

 Camarada, sobre este tema (como sobre muitos outros temas que temos aqui abordado)  é importante que dês a tua opinião, sincera, qualificada, serena, sem preconceitos...  E a questão desta vez é simples, é a da possibilidade (legal) de atribuição da nacionalidade portuguesa àqueles dos "nossos filhos da guerra" que eventualmente ainda a (re)queiram... No caso da Guiné-Bissau, não sabemos ao certo quantos são os elegíveis, podem ser umas (escassas) centenas. Infelizmente nunca foi feito nenhum recenseamento destes filhos de portugueses, nascidos entre 1961 e 1975 (*).

Podemos tomar como exemplo os norte-americanos em relação aos seus "mestiços vietnamitas" (e também aprender com os sucessos e insucessos deste processo levado a cabo pelos EUA em relação aos "filhos do pó", deixados pelos seus soldados no Vietname)... 

Este assunto, os "nossos filhos da guerra", nunca sequer chegou ao parlamento português, tanto quanto sabemos... Ora precisamos sensibilizar os nossos deputados que fizeram a guerra colonial... Ainda há alguns, felizmente,  que não têm vergonha de dar a cara, isto é, de pôr no currículo a sua participação na guerra colonial... Temos pelo menos um,  na nossa Tabanca Grande, o Arménio Santos, do grupo parlamentar do PSD, nascido em 1945, sindicalista, aluno do prof Jorge Cabral na Lusófona (**)... Esteve no TO da Guiné como  fur mil reec Inf (Aldeia Formosa, 1968/70). (*)

Por sua vez, Jerónimo de Sousa, deputado e secretário geral do PCP, ainda recentemente, em entrevista ao jornal on line "Observador", de 22/5/2015,  fez referência ao seu passado militar, no TO da Guiné 1969/71. No seu breve CV, no sítio do PCP, diz apenas que "entre 1969 e 1971 cumpriu serviço militar no Regimento de Lanceiros 2 e na Guiné". Como já aqui o temos referido, no nosso blogue, ele foi 1ºcabo PM (polícia militar), da CPM 2537, que participou para a Guiné no T/T Niassa em 24/5/1969.

São seguramente dois homens (e camaradas) com sensibilidade política e social para este problema dos "nossos filhos da guerra".

Mais uma vez queremos chamar a atenção para o facto de esta "sondagem" ter uma finalidade apenas didática e pedagógica: qualquer que seja o seu resultado final, não dá aos editores do blogue qualquer legitimidade (a não ser moral) para falar em nome dos ex-combatentes da guerra colonial na Guiné: este tipo de sondagem (ou inquérito de opinião "on line") é apenas uma forma de auscultar e revelar sensibilidades e opiniões dos amigos e camaradas da Guiné que se reunem à volta do simbólico poilão da Tabanca Grande...Ótimo, se ela puder contribuir para algo mais... e nomeadamente ser útil à causa da associação Fidju di Tuga e dos que, em Angola, Guiné e Moçambique,os 3 teatros de operações da guerra colonial, por onde passaram mais de um milhão de militares,  querem dar uma ajuda concreta a estes homens e mulheres que, muitos deles, apenas querem ver reconhecida a sua ligação (biológica e sentimental) a Portugal.

Camarada, se ainda não votaste ou se queres mudar o teu voto, restam-te 3 (dias) para o fazer... 

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Notas do editor:

Guiné 63/74 - P14670: Filhos do vento (35): "Não nego a existência de 'filhos da guerra', mas defenderei sempre a dignidade dos combatentes portugueses" (Jorge Cabral) / "Sempre considerei e tratei os/as guineenses como sendo tão portugueses/as como eu" (João Martins) / "Sou claramente pela concessão da nacionalidade, o Estado que assuma as suas obrigações" (José Manuel Matos Dinis)

1. Comentário de Jorge Cabral (*) [, foto à esquerda, alguns anos atrás: ao lado da sua aluna da licenciatura de serviço social,  Beni Barbosa Ferreira, guineense, nascida em Bissau em 1980; jurista, especialista em direito penal, professor universitário reformado da Universidade Lusófona]:


Defenderei até à morte a honra e a dignidade dos Combatentes Portugueses na Guiné. Filhos de Portugueses e de Mulheres Guineenses,claro que existiram. Seria interessante averiguar quanto filhos de pai incógnito,nasceram no mesmo período em Portugal.

Concordo que os todos os Filhos sem nome de Pai devem ter o direito de conhecer a identidade do respectivo Progenitor. Claro que ser Progenitor e ser Pai constituem realidades diferentes. 

Abraço! Jorge Cabral


2. Comentário do João Martins (*) [, foto à direita, em 1978, em 

São Martinho do Porto; ex-alf mil art, do BAC 1 (Bissum, Piche, Bedanda e Guileje, 1967/70)]


Amigo e camarada Luís Graça:

Bem sei que não é políticamente correto, mas, como não sou mentiroso e sempre defendi a verdade, embora, durante a minha vida tenha mentido, mas espero que tenham sido mentiras sem consequências de maior, não posso deixar de pensar que estivemos na Província Ultramarina da Guiné, território tão português como o Algarve, a Madeira, os Açores, e muitos outros territórios ultramarinos, pelo que, considero, os seus naturais e seus descendentes tão portugueses como eu, e é dessa maneira que os trato quando os tenho pela frente.

Lamento é que, com a tal descolonização, tenhamos ficado, e refiro-me à grande maioria, mais pobres, mais endividados, e mais "colonizados" pelos grandes interesses internacionais contra os quais combatíamos e continuamos a combater e que nos derrotaram. 

Face a esta perda de direitos e de poder de compra que nos afeta, considero que a "solidariedade" não deve ser um sentimento para "meter na gaveta", e devemos assumir as nossas responsabilidades para com todos estes nossos concidadãos com um passado histórico comum, devendo votar em partidos que os defendam, se é que existem..., e muito particularmente, que defendam esses nossos descendentes a que te referes, que têm sangue bem lusitano correndo em suas veias.

Grande abraço de alguém que teve a sorte de conhecer a Guiné como poucos... e apaixonar-se por aquelas gentes, francas, sinceras, gentis e amigas...

João Martins

PS - Lutemos por um espaço lusófono de entreajuda entre povos com origens diferentes mas que se expressam na mesma língua e acabam por ter a possibilidade de uma comunicação, de um diálogo, de uma sintonia, que nos afasta de outros povos com passados históricos e experiências bem diferentes.
Haverá no caminho muitos espinhos, mas a beleza e o perfume das rosas sairão vitoriosos, e o bom senso virá ao de cima e apagará todos os mal-entendidos.


3. Comentário de José Manuel Matos Diniz (*) [ex-fur mil, CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71), "amanuense da Magnífica Tabanca da Linha, em efectividade de serviço"; ex-quadro técnico da Diamang, Angola, 1972/74; membro de longa data da Tabanca Grande, mãe de todas as tabancas]


Camaradas,

A questão é muito delicada e, presumo, deve ser tratada sem que se criem falsas expectativas e graves perturbações.

Na presunção de que ainda haverá muitos combatentes vivos com descendência na Guiné, também não me parece razoável que se façam denúncias de casos supostamente conhecidos. Passados 40 a 50 anos, só os filhos nunca se sentiram com vida estruturada, mas colocá-los perante a amargura de não serem reconhecidos, será o maior trauma que pode vitimar um ser humano.

O Blogue, e outras pessoas de boa intenção, já deram indicações de filhos do vento", às vezes com identificação dos pais. Assim, aqueles que tomaram conhecimento e sentiram necessidade de se apaziguarem, já terão dado os passos necessários com vista ao reencontro.

Quanto à questão da nacionalidade, já é outra coisa, muito mais fácil de decidir, quanto a mim, mas muito mais dificil quanto ao Estado. Sou também da opinião que devia ser concedida a nacionalidade a todos os que comprovadamente a solicitassem. 

Diz o João José que são todos filhos de Portugal. Alguém tem dúvidas? Só que estão tão deslocados do "jardim", e dependentes de raízes que entretanto desenvolveram, que na ausência dos pais, pouco proveito poderão receber.

Mas sou claramente pela concessão da nacionalidade. O Estado deve assumir as suas obrigações. (**)

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Notas  do editor:

(*) Último poste da série > 25 de maio de  2015 > Guiné 63774 - P14659: Filhos do vento (32): Festival Rotas e Rituais, 2015: 22 de maio > Conferência "Filhos da Guerra": apontar o dedo ou dar a mão para ajudar ? (Hélder Sousa / João Sacôto)

(**) Último poste da série > 27 de maio de  2015 > Guiné 63/74 - P14667: Filhos do vento (34): Festival Rotas e Rituais, 2015: 22 de maio > Conferência "Filhos da Guerra": vídeo com a intervenção da jornalista Catarina Gomes

Guiné 63/74 - P14669: Os nossos seres, saberes e lazeres (96): Tomar à la minuta (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 29 de Abril de 2015:

Queridos amigos,
Por muito insólito que pareça, tenho casa em Tomar, troquei uma casa em pedra no concelho de Pedrógão Grande por um andar junto de um lugar mágico, a magia é sempre produto da nossa imaginação ou dos nossos credos. Vou conhecendo Tomar, tateia-se aqui e acolá, descobre-se o cineclube, o espaço dedicado a Lopes Graça, um museu de arte contemporânea com a doação do professor José Augusto França à cidade, percorro as ruas do centro histórico, vou ao Café Paraíso, impecavelmente Arte Deco, há muitíssimos pontos a descobrir. E por isso tomei a liberdade de escancarar algumas imagens para vos convocar ao idílio tomarense.
Espero que gostem.

Um abraço do
Mário


Tomar à la minuta (1)

Beja Santos

Trago uma relação idílica com este local que é, sem qualquer exagero, um dos berços da Nacionalidade. Berço e berçário: aqui se afirmou a Ordem do Templo, os guerreiros guardiães que afugentavam mouros e que partiam em cruzada para Jerusalém, quando extintos o gémeo de um rei concebeu a nacionalização dos seus bens, a Tomar vinha o Infante D. Henrique avaliar as suas posses, daqui partiu muito capital para as expedições para cá e para lá do Bojador; o Convento de Cristo é mesmo património da Humanidade, visita-se a charola, ali perto a mais bela janela que existe em Portugal, a do Capítulo, um devaneio de D. Manuel I, de que o filho certamente considerava excêntrico, aquele D. João III que resolveu entaipar o ponto alto da arquitetura tomarense construindo um convento para que ninguém tivesse acesso aos delírios do grande patrocinador do estilo manuelino.

Tomar oferece muito: o Nabão, que serpenteia entre vales dulcíssimos; tem a Igreja dos Templários, que comove e arrepia; tem a Festa dos Tabuleiros, um dos fenómenos mais mirabolantes do culto do Espírito Santo; tem cineclube, teatro amador, bandas, futebol e hóquei; tem sinagoga, raríssimo exemplar de templos judaicos medievais; tem espécimenes de valor absoluto na arte da Contra-Reforma, basta pensar-se no claustro de D. João III, ali muito perto dos delírios manuelinos; tem a singularidade de um museu dos fósforos, aparentemente uma estopada, e de facto um regalo para os olhos; tem um centro histórico onde apetece passear, numa atmosfera apaziguante; e tem o RI 15, daqui partiram muitos mancebos do nosso tempo para a Guiné e outras paragens. Habito em cima de uma lezíria, no termo do Ribatejo, da janela da sala avisto castelo, convento e charola e também os choupos do Nabão, a ventania apresenta-se com regularidade, sibilante, lavando os ares e torcendo a ramaria das árvores. Ponho-me a caminho, e centenas de metros à frente encontro monumentos de valor incalculável, a recordar o encontro das hostes do Contestável D. Nuno com os homens do Mestre de Avis, uma memória a El Rei D. Sebastião, sigo depois por uma avenida onde habita a comunidade cigana, seguem-se stands, lojas dos chineses, de roupa para noiva, aqui e acolá moradias magníficas e vestígios da Tomar industrial, pois aqui pontificou Jácome Ratton e Manuel Mendes Godinho. E estou no centro histórico, o Nabão corre desalmado e entro naquela que é a minha rua mais bela, a Serpa Pinto ou a Corredoura. Daqui perto, minha avó partiu com 14 anos, levando bonecas, destinada a casar com um homem de 36, a viver no Cuanza Norte. Chega de conversa, vou dar-vos algumas imagens em passo de corrida, são imagens ligadas a lugares da minha atração, pode muito bem acontecer que depois, pelo adiante, se dê sequência e se faça uma apresentação mais acabada e até mais vistosa.



Estamos no Museu dos Fósforos, chama-se Aquiles da Mota Lima, este senhor foi assistir à coroação de Isabel II, viu caixas de fósforos, tomou-lhe o gosto e juntou-as aos muitos milhares, de muitos países. Doou a sua coleção à edilidade tomarense, prantaram o museu no antigo RI 15, resulta bem, entra-se e temos uma infinidade de compartimentos, com fósforos por todos os lados. É impressionante, recomendo a visita ao forasteiro.



Estamos na Igreja da Misericórdia, deixo-vos duas imagens contrastantes, a riqueza polícroma e ao fundo uma nave típica da Contra-Reforma, severa, é uma das grandes peças da arquitetura religiosa tomarense, uma das demonstrações do poder das misericórdias.


Por aqui se entra para visitar o Convento de Cristo, o guardião da Ordem, o Infante D. Henrique passou muito provavelmente por aqui, bem perto está o Paço, são ruínas imponentes nem dá para perceber como D. Catarina de Áustria, que foi regente do reino até D. Sebastião atingir a maioridade, pode viver com o mínimo de conforto.



Recomenda-se a visita guiada a quem se afoitar a entrar pelas muralhas do castelo, é tudo extenso e muito é indecifrável. Quando estamos para entrar no convento avista-se uma construção monumental arruinada, o teto há muito que desapareceu. Nesse lugar celebraram-se as Cortes de Tomar onde Filipe II de Espanha foi aclamado como Filipe I de Portugal, percebe-se o incómodo logo a seguir à Restauração. O que não se entende são as belas paredes pejadas de salitre e o Paço Real todo desconjuntado.



Lá dentro as coisas fiam mais fino. Fiz a visita no Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, havia descontos chorudos na loja de vendas, comprei um álbum de desenhos de Domingos Sequeira ao preço da chuva. E o teto da loja é a magnificência que vos mostro. E a seguir entrei na charola, é sempre a primeira vez, à falta de uma Capela Sistina temos outra sorte de fausto, é um cocktail de arte oriental, opulência de ouros, frescos, tudo cheio de telas em madeiras que vieram do Báltico, o monarca não se poupou a despesas, convocou grandes mestres flamengos e o produto final é o deslumbramento, ficamos de garganta seca, aturdidos com tanto e tal esplendor.



Sai-se da charola e deparam-se detalhes de como o severíssimo D. João III quis esconder o estilo manuelino, a primeira imagem é quase um entaipamento, os motivos escultóricos ficaram encobertos, o piedoso fomentador da Inquisição exigiu que o desafogo se concentrasse numa peça feita ao estilo italiano, o claustro, reconheça-se que é muito belo, mas fica-se indignado como o monarca absoluto, ao tempo que o nosso Império atingira a sua máxima extensão e se encaminhava para o declínio, escondeu manuelino só para que o visitante se sinta enfeitiçado por esta arte depurada do neoclassicismo, um pouco da Itália em Portugal. Isto assombra, mas volto as costas a D. João III e aos seus rigores, vou-me desenfastiar a contemplar a mais linda janela que foi feita em Portugal.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 22 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14649: Os nossos seres, saberes e lazeres (95): Se fosse presunto... (Manuel Luís R. Sousa)

Guiné 63/74 - P14668: Agenda cultural (404): Colóquio - O Jornalismo Português na Guerra Colonial, dia 28 de Maio de 2015, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Auditório 1 - Torre B, em Lisboa



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Nota do editor

Último poste da série de 26 de Maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14662: Agenda cultural (403): Lançamento do livro de memórias "Cabra-cega: do seminário para a guerra colonial", Biblioteca Florbela Espanca, Matosinhos, 3 de junho, 15h30: convite do nosso camarada A. Marques Lopes, cor inf DFA, reformado

Guiné 63/74 - P14667: Filhos do vento (34): Festival Rotas e Rituais, 2015: 22 de maio > Conferência "Filhos da Guerra": vídeo com a intervenção da jornalista Catarina Gomes



Vídeo (12' 42'')   > You Tube > Luís Graça

 [Pode-se aumentar o volume de som, clicando na imagem, em baixo, à direita]


1. Lisboa, Cinema São Jorge, Festival Rotas & Rituais, 2015 > 22 de maio: conferência "Filhos da Guerra".

Intervenção de Catarina Gomes, organizadora e moderadora do painel, em que intervieram ainda Margaridade Calafate Ribeiro, Luís Graça e Rafael Vale e Reis. A Catarina é a primeira, à esquerda.

A jornalista do Público deu visibilidade mediática ao problema dos filhos da guerra ou filhos do vento. E, mais  do que isso,  apoiou, discretamente,  à criação, em Bissau, da associação Fidju di Tuga (que ainda não tem existência legal por falta de meios financeiros e logísticos). Voltará a Bissau no próximo dia 29.

Ver (ou rever) aqui, no Público, a reportagem,  Filhos do Vento, de Catarina Gomes (texto), Manuel Roberto (foto) e Ricardo Rezende (vídeo). [Trata-se de um trabalho financiado no âmbito do projecto Público Mais]

(...) No tempo da guerra colonial havia quem lhes chamasse "portugueses suaves", agora, há entre os ex-combatentes quem prefira "filhos do vento". A maioria dos filhos de militares portugueses com mulheres guineenses guarda pedaços de história incompletos, com a ambição de que um dia esses poucos dados os venham a reunir aos pais. Andaram boa parte das suas vidas  Em busca do pai tuga. (...). 



2. Na altura da publicação da reportagem da Catarina Gomes, por volta de julho de 2013, escrevemos,  entre outros e outras coisas,  o seguinte, no nosso blogue (**);

(...) "Pronto, a Catarina Gomes e o 'Público' abriram a 'caixinha de Pandora'!... E ainda bem... A comunicação social chega a outros públicos que nós não podemos atingir... Nós que,  no blogue,  há já muito que falamos destas e doutras coisas da Guiné, esquecidas, se não mesmo silenciadas... Sempre o dissemos e sempre temos defendido que no blogue não há (nem deve haver) tabus...

Por outro lado, a liberdade de pensamento e de expressão é um valor intocável, inalienável... De qualquer modo, não deixam de ser disparatados alguns comentários que alguns leitores estão a mandar para o sítio Público > Filhos do vento...

É bom que alguns de nós lá escrevam, e deem o seu testemunho.  Às tantas vamos todos ser crucificados como os maiores... bandidos da história!... Admito que alguns comentários sejam meras provocações, outros sejam pura ingenuidade, e outros ainda fruto da compulsiva necessidade de "marcar o terreno" (, como fazem alguns grafiteiros quando veem um muro limpinho)... 

Enfim, há de tudo, dos comentários de gente intelectualmente séria e honesta aos mais hipócritas e cínicos... Alguns fazem-me simplesmente sorrir... De qualquer modo, temos de prevenir e combater a santa ignorância que é a mãe do pérfido preconceito, a par do falso moralismo que é o pai de muitas tiranias... Felizmente que a vida e a história dos homens e das mulheres não são feitas nem escritas a 'preto e branco' " (...).

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Notas do editor

(*) Últimos postes da série:

24 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14657: Filhos do vento (31): Festival Rotas e Rituais, 2015: 22 de maio > Conferência "Filhos da Guerra": vídeo com a intervenção de Rafael Vale e Reis, especialista em bioética e direito da família ("Filhos do Vento: direito ao conhecimento das origens genéticas ?")

25 de maio de  2015 > Guiné 63774 - P14659: Filhos do vento (32): Festival Rotas e Rituais, 2015: 22 de maio > Conferência "Filhos da Guerra": apontar o dedo ou dar a mão para ajudar ? (Hélder Sousa / João Sacôto)

26 de maio de 15 > Guiné 63/74 - P14663: Filhos do vento (33): "Quando a guerra terminar, e a tropa se for embora, ainda hei-de ver por aqui alguns brancos a trepar às palmeiras", dizia-me um chefe de tabanca no meu tempo (Domingos Gonçalves, ex-alf mil, CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68)


Os primeiro postes desta série (ou sobre este tema) remontam a 2011:


23 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8813: Filhos do Vento (1): Nem branquear os casos nem culpabilizar ninguém (José Saúde)

20 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8799: (In)citações (36): Filhos do vento, ontem, brancu mpelélé, hoje (Cherno Baldé)


Na realidade o tema é mais antigo ainda, no blogue,  se quisermos,  já vem dos "primórdios", provando que não temos tabus:

Guiné 63/74 - P14666: Parabéns a você (911): António Manuel Salvador, ex-1.º Cabo Aux Enf da CCAÇ 4740 (Guiné, 1972/74)

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Nota do editor

Último poste da série de 26 de Maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14661: Parabéns a você (910): Carlos Alberto Cruz, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 617 (Guiné, 1964/66); Carlos Nery, ex-Cap Mil, CMDT da CCAÇ 2382 (Guiné, 1968/70); Gabriel Gonçalves, ex-1.º Cabo Op Cripto da CCAÇ 2589/CCAÇ 12 (Guiné, 1979/71); Jorge Narciso, ex-1.º Cabo MMA da BA 12 (Guiné, 1970/72) e João Santiago, Amigo Grã-Tabanqueiro

terça-feira, 26 de maio de 2015

Guiné 63/74 - P14665: Tabanca Grande (464): António Melo de Carvalho, Coronel Inf na situação de Reforma, ex-Cap Inf, CMDT da CCAÇ 2465/BCAÇ 2861 (Có e Bissum-Naga, 1969/70), Grã-Tabanqueiro 688

1. Mensagem do nosso camarada e novo amigo tertuliano, António Melo de Carvalho, ex-Cap Inf, CMDT da CCAÇ 2465/BCAÇ 2861 ( e Bissum-Naga, 1969/70), actualmente Coronel Inf na situação de Reforma, com data de 21 de Maio de 2015:

Caros camaradas,
Sou um leitor assíduo do vosso blogue.
Julgo que chegou a hora de me juntar à vossa Tabanca Grande, que afinal também tem vindo a ser minha desde há anos.

- Nasci em Barcouço, em 18-8-1940.
- Frequentei o ensino primário em Barcouço e o liceal em Coimbra.
- Entrei para a Academia Militar em 1960.
- Sou coronel na situação de reforma.
- Cumpri 2 comissões no Ultramar. Uma na Guiné, em 1969/70, como comandante da Companhia de Caçadores 2465. Pertencia ao Batalhão de Caçadores 2861.
- Outra comissão em Moçambique, de Out 1973 a Abril 1975, no Serviço de Reconhecimento das Transmissões.
- A última unidade que comandei foi o Batalhão Infantaria Mecanizado, da Brigada Mista Independente (Santa Margarida).
- Depois de passar à situação de reforma, a meu pedido, desempenhei várias funções na empresa MCG durante 13 anos, no Carregado. A última foi a de Director Administrativo e Financeiro.

E agora digo mais duas palavras sobre a comissão da Guiné.
Estivemos em Có durante três meses, integrados na segurança à construção da nova estrada Bula - Teixeira Pinto. Depois, até final da comissão, a CCaç 2465 ficou como responsável pelo sector de Bissum – Naga. Era a área mais problemática do Batalhão, que tinha o comando em Bissorã.
A actividade operacional em Có e de modo particular em Bissum, até final do ano de 1969, foi muito dura.
Em 1970 diminuiu de intensidade. Então, o acento tónico da nossa actividade ficou inscrito em acções de paz, bem vivas ainda hoje na memória daqueles que então ainda continuavam a fazer a guerra. O apoio dado à população de Bissum, na formação escolar das crianças, no campo sanitário, habitacional e outros, a valorização escolar e profissional dos soldados da CCaç 2465, teimam em não deixar de afirmar-se, nas recordações desses dois anos, como o mais gratificante que fizemos na Guiné.
Apesar de largas dezenas de contactos com os guerrilheiros do PAIGC, regressámos todos.

Com um abraço
Melo de Carvalho

Vista aérea de Bula
Foto: © Carlos Ricardo.

 Estrada Bula-Có-Pelundo-Teixeira Pinto - Vd. Carta da Província da Guiné 1:500.000

Abril/Maio 1967 - Construção do quartel de Bissum-Naga. Como se pode ver, estas construções davam-nos cá uma qualidade de vida...
Foto e legenda: © Carlos Ricardo. 


2. Comentário do editor:

Caro camarada Melo Carvalho, bem-vindo à nossa caserna virtual de ex-combatentes da Guiné.
Uma vez que nos segues atentamente, não estranharás o nosso tratamento menos informal, por tu, que é uso na nossa tertúlia, independentemente da nossa idade, dos nossos postos antigos e/ou actuais, formação académica, profissão e outras circunstâncias que "lá fora" podem fazer diferença mas que entre camaradas são irrelevantes.

Saberás que este blogue é um repositório de memórias escritas e fotográficas dos momentos mais ou menos marcantes dos combatentes da Guiné. São relatos escritos na primeira pessoa e fotos, elas próprias também falantes.
No teu caso, poderás, se assim o entenderes, deixar um ou outro apontamento da tua passagem por Moçambique, esta última vivida nos tempos conturbados da passagem do testemunho da soberania nacional para aquele novo país independente e soberano.
Claro que o que mais nos interessa são apontamentos da História da CCAÇ 2465, da qual, além de ti, só temos na tertúlia o ex-Alf Mil Aníbal Magalhães que em tempos nos disse:

[...]
A nossa estadia na Guiné, no ambiente de guerra, foi difícil como deve calcular. Mas havia uma grande união entre todos, nos bons como nos maus momentos. 
É de realçar que fomos comandados superiormente pelo Capitão António Melo Carvalho a quem tudo devemos. Mas, como o Luís tem dito, todos temos uma história para contar. 
A minha (história) começou no início da década 1950, quando conheci Amílcar Cabral. Conheci como? Pois Maria Helena, primeira mulher de Amílcar era minha prima. As nossas mães eram irmãs. As reuniões familiares eram frequentes e algumas vezes em casa dos meus Pais. 
Tenho de Amílcar Cabral grandes recordações,uma grande simpatia, uma grande amizade. Toda a família o respeitava. Eu pessoalmente fiquei impressionado com aquela figura que apresentava uma grande confiança. 
Esta história como deve calcular teve muitos episódios sobretudo quando fui mobilizado para a Guiné. Estive na Guiné sem complexos e como afirmou Amílcar, a sua luta não era contra o povo português. A morte de Amílcar deixou-me triste, perdi um amigo e sua morte nada resolveu. 
[...]

Militam também na tertúlia: da CCS/BCAÇ 2861, o ex-Fur Mil Enf Armando Pires; da CCAÇ 2464/BCAÇ 2861: o ex-Fur Mil António Nobre, o ex-Sold Apont AP Alexandre Cardoso e o ex-Sold Radiotelegrafista (DFA) José Maria Claro.

Se ainda não leste e quiseres aceder às suas memórias, clica nos nomes na cor laranja.

Os editores ficam ao teu dispor para esclarecer qualquer dúvida que tenhas e desejam que te sintas bem entre nós porque é com o maior prazer que te recebemos. Poderás conhecer alguns de nós no nosso próximo Encontro de 2016, muito provavelmente a levar a efeito no dia 16 de Abril em Monte Real.

Aqui fica um abraço em nome da tertúlia e dos editores
Carlos Vinhal
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 Nota do editor

Último poste da série de 5 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14568: Tabanca Grande (463): Joviano Teixeira, grã-tabanqueiro nº 687... É natural de Tavira, e pertenceu à CCAÇ 4142 (Gampará, 1972/74)

Guiné 63/74 - P14664: Efemérides (189): Cinquenta anos do encerramento da Casa dos Estudantes do Império (CEI) (1944-1965)... Homenagem aos associados da CEI pela UCCLA (união das Cidades Capitais de Língua Portuguesa)... Exposição sobre a CEI na Câmara Municipal de Lisboa até 25 de junho


"Pela CEI [Casa dos Estudantes do Império] de Coimbra e Lisboa passaram Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Pedro Pires, Vasco Cabral, Mário Pinto de Andrade, Marcelino dos Santos, Luandino Vieira, Manuel Rui Monteiro, Rui Mingas, António Jacinto, Óscar Monteiro, João Craveirinha, Joaquim Chissano, Sérgio Vieira, Miguel Trovoada, Francisco José Tenreiro, Alda Lara,Pepetela… Uma constelação de intelectuais e de futuros líderes políticos"... Pela CEI, terão passado mais de 2200 estudantes  (Nuno Ferreira, Público, 16/6/2014).

1. Exposição “Casa dos Estudantes do Império. Farol de Liberdade”

Câmara Municipal de Lisboa

De 21 de maio a 25 de junho de 2015 | Das 10 às 13 e das 14 às 17 horas.

No âmbito da homenagem que a UCCLA [, União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa,] tem vindo a promover à Casa dos Estudantes do Império, terá lugar, dia 21 de maio, às 18 horas, a inauguração da exposição “Casa dos Estudantes do Império. Farol de Liberdade”, na Sala de Exposições da Câmara Municipal de Lisboa (Praça do Município), em Portugal.

A exposição é uma mostra documental, com fotografias, publicações periódicas, livros, documentos oficiais, etc, cedidos ou disponibilizados pelos associados e por algumas instituições que se associaram à exposição.

Entrada livre. [Fonte: Cortesia de UCCLA]


Cartaz da exposição "Casa dos Estudantes do Império (1944-1965)" (Cortesia de UCCLA)


2. Do sítio da UCCLA, com a devida vénia:

GRANDE HOMENAGEM AOS ASSOCIADOS DA CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO

A UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa) tem vindo a homenagear a Casa dos Estudantes do Império (CEI), desde 28 de outubro de 2014. Esta homenagem corresponde, sem dúvida, a um desígnio comum dos povos de língua oficial portuguesa e não é possível conceber-se o futuro sem a preservação da memória que a todos respeita.

Atendendo a que este ano se assinala os 50 anos do encerramento da CEI, em Lisboa, os 30 anos de existência da UCCLA, e a passagem dos 40 anos do reconhecimento das independências dos países africanos de língua oficial portuguesa, diversas serão as iniciativas programadas para os próximos dias.

Programa:


- Dia 21 de maio, 18h00 - Inauguração da exposição “Casa dos Estudantes do Império. Farol de Liberdade”, nos Paços do Concelho (Praça do Município).

Trata-se de uma mostra documental, com fotografias, publicações periódicas, livros, documentos oficiais, etc, cedidos ou disponibilizados pelos associados e por algumas instituições que aderiram à exposição. A exposição estará patente ao público até ao dia 25 de junho, das 10 às 13 e das 14 às 17 horas, todos os dias;

- Dias 22, 23 e 25 de maio - Colóquio Internacional “Casa dos Estudantes do Império: histórias, memórias, legados”, na Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, n.º 45A), em Lisboa.

O evento é organizado pela UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa), CES (Centro de Estudos Sociais - Laboratório Associado da Universidade de Coimbra), Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa) e apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), Camões - Instituto da Cooperação e da Língua Portuguesa e CML (Câmara Municipal de Lisboa).

3. Sobre a CEI (Casa dos Estudantes do Império) 

A Casa dos Estudantes do Império) (CEI) foi criada em 1944, pelo regime anterior, para responder ao reforço do convívio dos estudantes universitários das ex-colónias portuguesas, que não possuíam instituições de ensino superior e que tinham assim que continuar a frequência universitária em Portugal. Este objetivo integrou-se num outro, mais visto, de formação de eleitos que se admitiam virem a ser enquadradoras dos objetivos que o próprio regime colonial prosseguia.

Sob os ventos da descolonização, documentos da Segunda Guerra Mundial, e da aprovação da Carta das Nações Unidas que reconhecem o direito inalienável dos povos à autodeterminação e à independência, o mundo assistiu ao surgimento de novos países no continente africano, o primeiro dos quais foi o Gana, em 1957.

A partir dessa altura muitos dos associados da Casa dos Estudantes do Império são impulsionados para o aprofundamento dos estudos relativos à identidade dos territórios de que eram originários, frequentando debates, colóquios e promovendo edições próprias, com conteúdo diversificado, incluindo poemas, contos e outras formas de expressão cultural.

Em resultado desta ação, a Casa dos Estudantes do Império é encerrada por intervenção da PIDE em 1965. Em 2015 ocorrerá a passagem do 50.º aniversário desse encerramento que coincide com o 40.º aniversário das independências das ex-colónias portuguesas.

Foram associados da Casa dos Estudantes do Império, ou tiveram participação nela, personalidades incontornáveis da cultura e da política como Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Lúcio Lara, Fernando França Van Dúnem, Joaquim Chissano, Pascoal Mocumbi, Pedro Pires, Onésimo Silveira, Francisco José Tenreiro, Alda do Espírito Santo, Vasco Cabral, Pepetela, Alda Lara e tantos outros.

Decorridos, como se disse, cinquenta anos sob a extinção da Casa dos Estudantes do Império, a UCCLA entendeu dever dar um pontapé de saída para homenagear o conjunto desses jovens, tanto mais que Lisboa, que foi sede da Casa dos Estudantes do Império e Coimbra, onde existiu uma delegação, são associadas da UCCLA. No Porto houve também uma delegação durante alguns anos.

Esta homenagem corresponde, sem dúvida, a um desígnio comum dos povos de língua oficial portuguesa e não é possível conceber-se o futuro sem a preservação da memória que a todos respeita.

Enquanto Secretário-Geral da UCCLA agradeço à Comissão Organizadora, constituída para a preparação e execução do programa, aos patrocinadores, sem os quais não seria possível levá-lo a bom porto, às instituições públicas de todos os nossos países e às respetivas embaixadas acreditadas em Portugal, aos convidados que prontamente aceitaram participar nos inúmeros eventos que foram programados e, por fim, à comunicação social que, desde a primeira hora, acolheu de forma muito solidária a iniciativa, fazendo repercutir pela opinião pública.


Vitor Ramalho
Secretário-Geral da UCCLA 
[Cortesia do sítio da UCCLA]


4. Sobre a história da CEI (, "criada para perpetuar a dimensão imperial do Portugal do Estado Novo, (...) foi viveiro de dirigentes independentistas que chegaram ao poder nas ex-colónias"), vd reportagem de Nuno Ribeiro, Público, 16/6/2014 ("Cinquentenário do fecho da Casa dos Estudantes do Império vai ser assinalado a partir de Outubro"). 

Texto completo, aqui.

Vd. também entrevista, feita pela RTP África, programa "Grande DEntrevista", de 26/5/2014, ao são tomense e dirigente da CEI, Tomás Medeiros: "Casa dos Estudantes do Império: demos um tiro no dedo do colono" [Vd,. transcrição da enrtrevista aqui].

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Nota do editor:


Guiné 63/74 - P14663: Filhos do vento (33): "Quando a guerra terminar, e a tropa se for embora, ainda hei-de ver por aqui alguns brancos a trepar às palmeiras", dizia-me um chefe de tabanca no meu tempo (Domingos Gonçalves, ex-alf mil, CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68)



Guiné > s/l> s/d [c. 1961/64] > "Trepando à palmeira para a recolha do vinho de palma. (eu nem com um cabo de aço de 20 mm, me atrevia a estar naquela posição àquela altura)"...


Foto do álbum do nosso "veteraníssimo" Joaquim Ruivo, ex-1º cabo mec obus 8.8, BAC (Santa Luzia, Bissau, out 61/ fev 64).

Foto (e legenda): © Joaquim Ruivo (2013). Todos os direitos reservados

1. Mensagem de Domingos Gonçalves (ex-alf mil,  CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68)

Data: 26 de maio de 2015 às 09:00
Assunto: Filhos da guerra/filhos do vento


Prezado Graça:

Antes de mais, saúde. Depois, envio a minha opinião sobre o assunto em questão (*.

Filhos do Vento? Filhos da Guerra?

O nome parece-me secundário. São filhos de portugueses. E é por serem filhos de portugueses que merecem a nacionalidade portuguesa.

Poderíamos invocar, reforçando o primeiro, outro argumento: os que nasceram antes de 25 de Abril
de 1974, nasceram em território português, administrado por Portugal. Também, por esta razão,
deveriam ter direito à nacionalidade portuguesa, caso a desjassem.

Serão muitos? Serão poucos? Ao certo ninguém sabe.

Recordo-me de ter escutado algures, da boca de um chefe de tabanca, o seguinte comentário:
"Quando a guerra terminar, e a tropa se for embora, ainda hei-de ver por aqui alguns brancos a trepar às palmeiras."

Não sei se a profecia se cumpriu, ou não. De qualquer modo, sejam eles brancos, negros ou mestiços,
penso  que deveriam ter direito à nacionalidade portuguesa.

Com um aqbraço amigo,

Domingos Gonçalves

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Nota do editor:

Último poste da série >  25 de maio de  2015 > Guiné 63/74 - P14659: Filhos do vento (32): Festival Rotas e Rituais, 2015: 22 de maio > Conferência "Filhos da Guerra": apontar o dedo ou dar a mão para ajudar? (Hélder Sousa / João Sacôto)

Guiné 63/74 - P14662: Agenda cultural (403): Lançamento do livro de memórias "Cabra-cega: do seminário para a guerra colonial", Biblioteca Florbela Espanca, Matosinhos, 3 de junho, 15h30: convite do nosso camarada A. Marques Lopes, cor inf DFA, reformado




Matosinhos >Câmara Municipal > Biblioteca Florbela Espanca [Rua 1 de Maio, 188,  vd aqui localização ]


1.  A pedido o nosso querido amigo e camarada A. Marques Lopes,  coronel inf, DFA, na situação de reforma, ex-alf mil da CART 1690 (Geba, 1967) e da CCAÇ 3 (Barro, 1968),  um dos nossos primeiros  grã-tabanqueiros (, entrou em 2005 e tem, mais  de 200 referências no nosso blogue), dá-se a notícia do lançamento de mais um livro de memórias sobre a guerra colonial na Guiné:


Título: Cabra-cega: do seminário para a guerra colonial
Autor: João Gaspar Carrasqueira
Data de publicação: Junho de 2015
Número de páginas: 582
ISBN: 978-989-51-3510-3
Colecção: Bíos
Género: Biografia
Preço: 19 € (edição em papel)


Sinopse

"Ali, deitado sobre a terra e desejoso de nela se afundar, deixou a sua condição humana, alapado como um coelho que segue os passos do caçador à espera do momento oportuno para fugir. Levantou instintivamente a cabeça por cima do capim que cercava o baga-baga para ver o momento oportuno. Tendo abandonado as suas posições de combate, os guerrilheiros avançavam em linha ao longo da clareira lançando rajadas curtas de costureirinha e kalash. Estava a vê-los, numa imagem de ocasião, sem saber ainda se era real ou imaginária. Fortes, atléticos mesmo, em passadas decididas, senhores da vitória. Despertou nele o animal cujas reacções são comandadas pelo instinto de sobrevivência e, ao mesmo tempo, o animal especial que era domesticado para reagir a determinados sinais e estímulos. Pôs instintivamente em práctica todo o mecanismo de comportamento do animal encurralado por numerosos caçadores. Decidiu rastejar até à orla direita da clareira. Mas antes, lixado com a maçariquice de andar com eles, enterrou os galões camuflados que usava e jurou nunca mais os usar. Achou que não lhe servia ali a Convenção de Genebra, que o seu futuro de prisioneiro seria melhor se não soubessem do seu posto. Uma ideia estúpida avaliar nesses termos a enrascadela em que se encontrava, mas era melhor assim, concluiu".

(Fonte: Chaido Ediora, Lisboa)

João Gaspar Carrasqueira 

"António Aiveca, a personagem principal e real deste livro, nasceu em Lisboa, na maternidade Magalhães Coutinho. Com apenas um ano foi para a terra dos pais no Alentejo, Penedo Gordo, perto de Beja

Aos sete anos regressou a Lisboa, onde fez a instrução primária num colégio de padres de onde saiu para o seminário, donde foi convidado a sair aos vinte anos, resultado de vários percalços.

Esteve cerca de um ano como ajudante de fiel de armazém na AGPL, Administração Geral do Porto de lisboa, em Santos, como ajudante de fiel de armazém. Foi incorporado em Mafra, depois, para frequentar o COM, Curso de Oficiais Milicianos, aí estando sete meses e onde tirou a especialidade de Atirador.

Nove meses depois foi mobilizado para a Guiné, integrado numa companhia metropolitana. Foi ferido em combate e evacuado para o Hospital Militar, na Estrela. Esteve aí em tratamento durante nove meses.

Após isso foi novamente enviado para a Guiné e colocado numa companhia de recrutamento local, isto é, de naturais da Guiné, onde esteve dez meses.

Regressado à metrópole e já consciente dos males da guerra e dos seus responsáveis, foi militante de algumas organizações que lutavam contra o regime e a guerra colonial". 

(Fonte: Chiado Editora, Lisboa)

2. Sobre este obra, de João Gaspar Carrasqueira (pseudónimo literário de A. Marques Lopes), já aqui escreveu o nosso crítico literário Mário Beja Santos (*):

(...) Por intermédio do nosso confrade Marques Lopes, recebi esta "Cabra-Cega" que, segundo apurei, terá o seu lançamento em Junho.

A vários títulos, estamos perante uma obra invulgar, seguimos o itinerário de uma criança pobre educado no seminário até aos 20 anos, faz o 7.º ano enquanto estuda como ajudante de fiel armazém. Segue-se Mafra, e na Amadora vai formar batalhão.

Em impressiva água-forte, regressamos aos anos 1960, quatro aspirantes que foram convergidos à pressa para uma companhia dialogam entre a inocência e um certo fundamentalismo. O capitão Mendonça é uma figura antológica, verão. E depois a Guiné, algures, depois de um rio largo que depois se estreita. E um dia, aquele alferes descobre que está sozinho, a sua tropa debandou depois de um fogo intenso.

E há muito mais para vos dizer. (...)


3. Segundo informação do A. Marques Lopes [, foto atual à direita,] o  livro será apresentado às livrarias do comércio tradicional e aos grandes grupos comerciais (Fnac, ECI, Bertrand, Sonae, Almedina, Auchan, Bulhosa, entre outros) que farão encomenda da obra se assim entenderem. No caso da não-encomenda a obra estará sempre disponível em qualquer balcão através de encomenda.

Em relação ao comércio tradicional, será também enviada para os seguintes espaços:
  • Desassossego: Rua de São Bento, nº 34, 1200-815 Lisboa 
  • Livraria Sousa & Almeida, Lda: Rua da Fábrica, 40-42, 4050-245 Porto 
  • Livraria Nunes: Avenida Boavista 887, 4100-128 Porto 
  • Livraria de José Alves: Rua da Fábrica, n.º 74, 4050-246 Porto 
  • Europa-América Porto: Rua 31 de Janeiro, 221, 4000-543 Porto

Nas livrarias o preço será  de 19 €.  Na sessão de lançamento será vendido a preço promocional de 10 € (**).

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Notas do editor: