sábado, 25 de abril de 2015

Guiné 63/74 - P14526: X Encontro Nacional da Tabanca Grande, Palace Hotel de Monte Real, 18 de abril de 2015 (18): Envio dois poemas que fiz na noite em que não dormi (Mário Vitorino Gaspar)

1. Ainda a propósito do nosso X Encontro, o nosso camarada Mário Vitorino Gaspar (ex-Fur Mil At Art e Minas e Armadilhas da CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68), enviou-nos dois poemas da sua autoria.

Caros Camaradas 
Envio os poemas elaborados para o “X ENCONTRO NACIONAL DA TABANCA GRANDE”, noite que não dormi. 

Um abraço
Mário Gaspar



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Nota do editor

Último poste da série de 23 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14511: X Encontro Nacional da Tabanca Grande, Palace Hotel de Monte Real, 18 de abril de 2015 (17): Distribuição de Certificados aos tertulianos totalistas dos 10 Encontros nacionais e admissão de duas novas tertulianas: Graciela Santos (hnº 682) e Lígia Guimarães (nº 683)

Guiné 63/74 - P14525: Efemérides (186): Dia 9 de Abril de 2015 - Dia do Combatente - 97.º Aniversário da Batalha de La Lys e Romagem ao túmulo do Soldado Desconhecido, na Batalha

Dia do Combatente - 97.º Aniversário da Batalha de La Lys 

Romagem ao túmulo do Soldado Desconhecido, na Batalha

A Direção do Núcleo de Matosinhos organizou, no dia 9 de Abril, uma deslocação à Batalha, num autocarro alugado, com um grupo de 51 participantes entre sócios, familiares e amigos, acompanhados por seis elementos da Direção e o sócio Porta-Guião, Combatente Patrocínio Amorim, a fim de estarem presentes na cerimónia.

Depois do almoço no Regimento de Artilharia de Leiria, dirigiram-se ao Santuário de Fátima onde se realizou, da parte da tarde, uma visita à Exposição “Neste Vale de Lágrimas”, onde se encontra “O Cristo das Trincheiras”, e à Capelinha das Aparições.

Deste dia ficam algumas fotos:


Interior do Mosteiro da Batalha


Autoridades e Convidados presentes




Desfile das Forças em Parada

Desfile dos Guiões dos Núcleos da Liga dos Combatentes

O Porta-Guião do Núcleo de Matosinos, Patrocínio Amorim, o terceiro a partir da esquerda

Secretária de Estado Adjunta e da Defesa Nacional, Dra. Berta Cabral; General Ramalho Eanes e General Chito Rodrigues

Entrada para a Exposição "Neste Vale de Lágrimas"


O Cristo das Trincheiras

A Representação do Núcleo de Matosinhos fotografada no Regimento de Artilharia de Leiria

Fotos: © Núcleo de Matosinhos da LC
Texto editado por Carlos Vinhal a partir do texto enviado pelo Núcleo de Matosinhos da LC
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Nota do editor

Último poste da série de 22 de Abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14500: Efemérides (185): Tabanca de Matosinhos, 10 anos de convívio fraterno e solidariedade que merecem ser festejados, com um almoço especial, animado com fados e guitarradas, na 4ª feira, dia 29 de abril, no sítio do costume, o Restaurante Milho Rei, Rua Heróis de França 721, Matosinhos, telef 22 938 5685 (José Teixeira)

Guiné 63/74 - P14524: Convívios (669): XX Encontro do pessoal do BCAÇ 2885 (Mansoa, 191979/71) comemorativo do 44.º aniversário do seu regresso à Metrópole, a realizar no dia 16 de Maio de 2015 em Arganil (César Dias)

1. Em mensagem de 24 de Abril de 2015, o nosso camarada César Dias (ex-Fur Mil Sapador da CCS/BCAÇ 2885, Mansoa, 1969/71), solicita a divulgação do 20.º Convívio comemorativo do 44.º aniversário do regresso à Metrópole do BCAÇ 2885, a realizar no dia 16 de Maio em Arganil.



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Nota do editor

Último poste da série de 22 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14504: Convívios (668): XIX Encontro do pessoal da CCAÇ 2660 (Teixeira Pinto, 1970/71), dia 23 de Maio de 2015 em Travanca-Amarante

Guiné 63/74 - P14523: Agenda cultural (392): "O medo à espreita", documentário (Portugal, 2015, 86'), de Marta Pessoa, hoje, às 18h00, no Cinema São Jorge, no âmbito do Indie Lisboa 2015 - 12ª Festival Internacional de Cinema Independente








"O cinema independente celebra-se, duplamente, no dia da liberdade. A 25 de Abril, será exibido o mais recente documentário de Marta Pessoa: O Medo à Espreita. Um olhar sobre os passos escondidos e as manobras secretas da PIDE, a política política do Estado Novo, e que ainda marcam, hoje, as vidas e memórias de quem sofreu com as suas perseguições e torturas. A sessão especial terá lugar hoje, às 18h, na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, com a presença da realizadora. Um filme que promete não fazer esquecer os que sofreram, em Portugal, com os passos secretos da ditadura".


O Medo à Espreita
18:00 | 25 DE ABRIL DE 2015
Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira

Marta Pessoa, Documentário, Portugal, 2015, 86'

Secção: Sessões Especiais

Sinope:

Depois de “Lisboa Domiciliária”, estreado nas nossas salas em 2009, Marta Pessoa filma outras memórias secretas: a de cidadãos que viveram, até à queda do Estado Novo, uma vida de perseguição pessoal e política. Ao longo de toda a sua existência, uma das piores faces da ditadura movia-se por passos secretos, informações ocultas, e perseguições, no dia-a-dia, a pessoas suspeitas de viverem contra o regime. “O Medo à Espreita” é o retrato, assim, de pessoas que viveram diariamente debaixo da sombra dos informadores da PIDE/DGS e da sua tortura. Mas é também o retrato de um país onde o instrumento da denúncia cresceu para além dos círculos políticos para se instalar, sorrateiramente, no nosso quotidiano.

PS1 - Bilhete  com desconto: (i) jovens até aos 30, (ii) maiores de 65 anos, (iii) desempregados (mediante a apresentação de cartão do IEFP): 3,5€.

PS2 - A nossa amiga Marta Pessoa é também a realizadora de Quem Vai à Guerra [Portugal, Real Ficção, 123', 2011, disponível em DVD, € 10]. E foi a diretora de fotografia do filme de Silas Tiny, Bafatá Filme Clube  (Portugal e Guiné-Bissau, 2012, 78').
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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P14522: Agradeço aos amigos atabancados as mensagens de parabéns que me enviaram a propósito do meu aniversário (David Guimarães)

A pedido do nosso camarada David Guimarães, (ex-Fur Mil, At Inf, MA da CART 2716, Xitole, 1970/1972), publicamos o seu postal de agradecimento pelas mensagens de parabéns a ele enviadas a propósito do seu aniversário ocorrido ontem, dia 24 de Abril.


Guiné 63/74 - P14521: Manuscrito(s) (Luís Graça) (55): I'm sorry





O Paço da Ribeiro (finais do séc. XV / princípios do séc. XVI) com a Casa da Indía, perpendicular ao Rio Tejo, tendo à sua esquerda a Ribeira das Naus e à direita o Terreiro do Paço. Este conjunto monumental, sede do império, foi completamente  destruído pelo terramoto de 1755. Reprodução de azulejo da Fábrica Santana, Rua do Alecrim, 95, Lisboa, 

Foto (e legenda): © Luís Graça (2014). Todos os direitos reservados

I’m sorry!

Não tenho boas recordações
do império,
nem da sua praça,
nem do seu paço,
nem do seu terreiro.

Só sei que não consegui defendê-lo,
ao império,
e às joias da coroa,
até à última gota do meu sangue,
como deveria ser o meu desidério...


Pergunto, desolado:
em que repartição da pátria
é que eu poderia apresentar
os restos da minha farda de soldado,
com as minhas desculpas, 
o meu  pedido de perdão ?

Ou até apresentar-me,
de baraço ao pescoço,
qual Egas Moniz dos anos 70
do século vinte ?

Peço desculpa,
se houve aqui um erro de casting,
ou se alguém, na tropa,  entrou e saiu,
e me trocou os papéis,
as botas 
ou as voltas,
ou se o império, 
pura e simplesmente,
nunca existiu.


Lisboa, terreiro do paço, fevereiro de 1977

Luís Graça
v6 25 abr 2015

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Guiné 63/74 - P14520: Memórias de Gabú (José Saúde) (54): Amarras do medo



1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos mais uma mensagem desta sua magnífica série.

As minhas memórias de Gabu
Amarras do medo

Manietados pelas amarras do medo, fomos antigos combatentes que, não obstante a nossa jovialidade, conhecemos os horripilantes terrores da guerra colonial. No horizonte de além-mar vislumbravam-se, a espaços, sinais de esperança. Uma esperança por todos ambicionada e literalmente com honra concretizada.

Porquê estas breves palavras de liberdade? Há 41 anos que as armas justamente se calaram nas antigas províncias ultramarinas. Eu, furriel miliciano de Operações Especiais/Ranger, tive o condão em pertencer a uma lista imensa de camaradas que prestávamos serviço militar obrigatório na Guiné.

Em Gabu cruzei a guerra com a paz. Vivi intensamente os momentos que se seguiram após a Revolução dos Cravos. Os primeiros contactos com os guerrilheiros do PAIGC e o subsequente duvidar da facilidade deparada. Estávamos em liberdade e o inimigo de ontem eram os homens que agora conviviam libertos das amarras do medo.

Lembro-me de as cavaqueiras, precisamente no bar de sargentos de Nova Lamego, entre antigos opositores no palanque da peleja. Recordo, infelizmente, as armas que outrora serviram, única e exclusivamente, para matar outros homens. Os confrontos diretos onde os horripilantes sons das armas se difundiam num horizonte manchado pela negridão de uma África sempre harmoniosa. Porra, porquê aquela malvada guerra? O regime novo assim o ordenava e nós lá partíamos desconhecendo o destino.

Escalpelizando esses enviesados trilhos guineenses, somos forçados a mergulhar em realidades que tendem cair no limbo do esquecimento, essencialmente por parte daqueles que fogem do tema como o diabo foge da cruz. Não fomos e não seremos reconhecidos por uma gentalha de malfeitores que desconhece o sofrimento dos soldados portugueses nas “trincheiras”. Ponto final.

Todavia, existe uma certeza que ainda nos prende o coração: miúdos de 20, 21, 22 e 23 anos foram heróis numa guerra para a qual foram atirados à força e mal preparados para lidar com a guerrilha.

Conheci essa indesmentível verdade. Coloco-me, justamente, no leque de “putos” que tinham como missão comandar outros “putos” apesar do momento hostil vivido. Não temiam a imprevisibilidade da densidade de um mato que escondia inesperados encontros sempre indesejados. Iam em frente. Desafiavam o medo. 

O 25 de Abril foi o momento solene para todos os camaradas que combatiam nas três frentes de guerra - Angola, Moçambique e Guiné - se libertassem das amarras do medo e gritassem bem alto “viva a liberdade”.

Os alaridos das armas deram então lugar às tréguas. Os inimigos definiam-se em abraços fraternos. Porém, existia em cada um de nós uma imensurável raiva do passado. Revíamos os camaradas mortos, os estropiados, os feridos com menos gravidade e desconhecíamos o futuro. Um futuro onde hoje damos contas de camaradas que jamais conseguiram reencontrar-se com a estabilidade emocional numa sociedade que os renega. Sofrem do stress pós traumático de guerra. 

Camaradas, é tempo de vivermos Abril, é verdade, mas no nosso baú de antigos combatentes existem mágoas que ainda mexem com o nosso ego. 


Revejo a portas-de-armas do nosso quartel em Nova Lamego. Nativos que procuravam quiçá ajuda. Nas suas caras, com idades transversais, notavam-se sinais de medo e de incertezas no futuro. Tentavam um presumível “assalto” ao quartel. Queriam arroz e outros bens alimentícios. A sua ingenuidade parecia atroz. As forças da ordem no futuro imediato chamavam-se PAIGC. Eles, membros de uma população com a qual habitualmente convivíamos, por lá ficaram sujeitos a um novo regime e nós partimos.

Sinais de Abril que cruzavam fronteiras e que libertavam as amarras do medo de um exército que ambicionava o seu regresso a casa. E foi assim o culminar da Revolução dos Cravos em Abril de 1974.

Um abraço camaradas, 
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523
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Nota de M.R.: 

Vd. último poste desta série em: 


sexta-feira, 24 de abril de 2015

Guiné 63/74 - P14519: (Ex)citações (272): Os bailaricos de Jolmete com instrumentos oferecidos pelo MNF (Manuel Carvalho)

1. Mensagem do nosso camarada Manuel Carvalho (ex-Fur Mil Armas Pesadas Inf, CCAÇ 2366/BCAÇ 2845, Jolmete, 1968/70), com data de 11 de Abril de 2015:

Boa noite Carlos
Ao ver o poste sobre os instrumentos musicais oferecidos pelo MNF para Bambadinca(*), lembrei-me que nós CCAÇ 2366 também recebemos uma oferta semelhante em meados de 68 pouco tempo depois de chegarmos a Jolmete.

Como a população era pouca e a maioria vinha do mato e pernoitava tudo dentro do arame farpado procurávamos animar um pouco o ambiente e então os instrumentos eram fundamentais.

Fizemos um ou outro bailarico inclusive na recepção aos periquitos da CCAÇ 2585, outras vezes cantávamos e tocávamos, enfim o que era preciso era animar a malta.

Já não me lembro o que foi feito dos instrumentos, se vieram se ficaram lá.

Tenho pena destas fotos não serem vídeos com som. As baterias parecem iguais.

Carlos estás à vontade para fazeres o que muito bem entenderes com este material.

Um grande abraço
Manuel Carvalho





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Notas do editor

(*) Vd. poste de 10 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14455: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (97): José Maria de Sousa [ Ferreira, minhoto de Braga, com escola de condução no Porto], ex-sold mec aut (BART 1904 e PINT, Bambadinca, 1968/70) descobre os seus companheiros do conjunto musical, da CCS/BCAÇ 2852, a quem o Movimento Nacional Feminino ofereceu, em 1969, os instrumentos

Último poste da série de 16 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14479: (Ex)citações (271): Também estive na Op Bola de Fogo, de 8 a 14 de abril de 1968, no apoio à construção do aquartelamento de (e depois nos reabastecimentos a) Gandembel (Mário Gaspar, ex-fur mil MA, CART 1659, Gadamael, jan 67 / out 68)

Guiné 63/74 - P14518: Memória dos lugares (289): Os derradeiros sobreviventes de Ponate (Armando Teixeira da Silva)

1. Mensagem do nosso camarada Armando Teixeira da Silva (ex-Soldado Atirador da CCAÇ 1498/BCAÇ 1876, que esteve em Có, Jolmete, Bula, Binar e Ponate), com data de 7 de Abril de 2015:

Caro Carlos Vinhal:
Os meus melhores cumprimentos, extensivos a toda a Tertúlia.

Teixeira da Silva


OS DERRADEIROS SOBREVIVENTES DE PONATE

Quis o destino que um conjunto de 48 atónitos maçaricos - um pelotão reforçado - da CCAÇ 1498, acabadinha de desembarcar, comparecesse em Ponate a fim de render tropas do BCAV 790 que estavam em mudança para o Quartel de Pelundo.

Assim, após um dia inteiro de marcha, em que as surpresas sucediam a cada instante, surgiu, imperceptível, numa área desmatada, um lastimável aquartelamento nunca antes imaginado.

 Ponate - Vista geral do quartel

Passado o cavalo-de-frisa, depararam com a mais humilhante miséria:
- Um casebre construído em adobes de argamassa, coberto a chapa zincada, para alojamento de pessoal, sem distinção de postos ou classes;
- Duas barracas, em colmo, a servirem de cozinha e refeitório;
- Três atalaias - cinco a seis metros acima do solo - com sentinelas cercadas por bidões de gasolina;
- Quatro paliçadas em cibes carcomidos sitiavam toda a desgraça.

Aonde é que nos viemos meter? – Se estavam atónitos à chegada, estarrecidos ficaram quando o sol se escondeu!
A iluminação era a petróleo: candeeiros Petromax em redor do arame farpado e mechas de gaze - em gargalos de garrafas - na caserna, cozinha e refeitório. No resto, a escuridão era absoluta.

Equipamentos destinados a cuidados de higiene? Nenhuns! – Nada que pudesse garantir saúde, bem-estar físico e mental, de modo a evitar doenças. Em vez de latrinas abriam-se valas, fora do arame farpado, e em vez de duches existiam selhas feitas de barris de vinho, serrados ao meio.
O estado das coisas motivou um lamento: tratam-nos como bandoleiros. - A frase inspirou a criação de um topónimo para colocar, logo nesse dia, à entrada do principal cavalo-de-frisa: “HOTEL BANDIDO DE PONATE”.

Ponate - Junto ao topónimo

Mas o pior ainda era a falta de água. A privação deste precioso líquido sujeitava o pessoal a riscos diários, em deslocações a Bula, percorrendo 13 Km, em cada sentido, com uma cisterna de 1000 litros atrelada.

Ocupando uma área com cerca de 3000 m2 e sem população à vista, o Quartel situava-se nas proximidades da mata de Jol, não muito distante da assombrosa bolanha de Nhaga. – A missão do seu reduzido efectivo consistia em assegurar liberdade de acção entre Bula e o Cais de São Vicente, na margem Sul do rio Cacheu, mantendo-se ao corrente de todos os acontecimentos e em total ligação com o comando do sector.
A segurança das instalações era inquietante: Refúgios ou abrigos, praticamente nem existiam e as paliçadas dificilmente aguentariam um simples ataque. Daí elaborarem um plano de obras a executar em duas fases:
1 – Construção de 3 refúgios subterrâneos, bem como um conjunto de chuveiros e latrina, sem dispensar a reconstrução de todas as paliçadas.
2 - Edificação de uma “casinhota”, em blocos de cimento, para instalação de um gerador eléctrico. - Nada serviu esta edificação, porquanto, embora prometido, o gerador jamais ali apareceu.

Ponate - Abrindo um abrigo subterrâneo - Armando Teixeira da Silva ao meio com a pá

Estas obras realizavam-se sem prejuízo das actividades a desenvolver além do arame farpado, ou seja: escoltas diárias à cisterna da água, patrulhamentos diurnos e/ou nocturnos, inspecções às tabancas e consequentes controlos da população indígena, reconhecimento de trilhos e caminhos, e de quando em vez, montagem de emboscadas. E como se já não bastasse, ainda ajudavam Companhias de intervenção, em operações na confinante e arriscada mata do Jol. Isto é: em Ponate, a missão, além de perigosa, era árdua e difícil.
Até dentro do arame farpado a situação era delicada, sobretudo, pela indigência das instalações e das privações de toda a espécie – mesmo alimentares. Apesar de tudo lá iam sobrevivendo.

 Ponate - Se não fossem os petiscos...

 Ponate - Momento de lazer
Fotos: © Armando Teixeira da Silva
Editadas por Carlos Vinhal

Até que, inesperadamente, uma mensagem, recebida no ANGRC 9, melhora-lhes as expectativas. – Bula comunicava-lhes o fim da sua presença em Ponate. O primeiro a saltar, de contentamento, foi o radiotelegrafista. Outra coisa, porém, ainda estava para vir.
Continuando a tradução da mensagem concluíra-se que o próprio Quartel, simultaneamente, desapareceria do mapa. Jamais uma mensagem fora tão marcante. Acontecimento para comemorarem de modo muito especial - emborcando cerveja até o stock se esgotar.

Assim, abruptamente, extinguiu-se o Quartel de Ponate. Decisão que os maiorais tomaram quando perceberam, a meu ver tardiamente, a evidência dos perigos a que as tropas estavam sujeitas e as condições deploráveis (porventura infra-humanas) em que se encontravam. A mensagem surgiu-lhes ao cair da noite, todavia, a vontade de mudarem de ares era tanta que se dispensaram de dormir. Puseram mãos à obra e foi até ser dia.

Entretanto, já o sol raiava, vêem chegar camaradas especialistas em minas e armadilhas, transportando engenhos explosivos para armadilhar os pontos mais susceptíveis, na expectativa de o IN os virem a despoletar.
Por fim, com as viaturas a abarrotar a seu lado, percorreram, a pé, os 13 Km que os distanciava de Bula, em cujo Quartel já tinham missão determinada.
A história da guerra considerá-los-á os derradeiros sobreviventes de Ponate. - O calendário assinalava, então, 04/Dezembro/1966. - Entretanto a guerra duraria mais sete anos e meio.

Ao que sabemos, jamais outro qualquer Quartel ali foi edificado. Naquele espaço de tempo - superior a 10 meses - houve minas que os feriram, emboscadas que os massacraram, bolanhas que os inundaram, picadas que muito os agastaram, trilhos e caminhos que os emaranharam, tempestades que os atemorizaram. – Todavia, também houve, em abono da verdade, momentos aprazíveis, de amizade e júbilo, que muito os distraíram e estimularam.

 Localização de Ponate. Vd. Carta de Bula 1/50.000

O último efectivo em Ponate:

Agostinho Costa Ferreira
Albino Baptista Barroso
Albino Sá Júnior
Alfredo Lopes Correia
Amadeu Pereira Couto
Amândio Sá Silva
António Ascensão Nascimento
António Beatriz Pedro
António Guilherme Silva
António Joaquim Inverneiro
António José Carneiro Santos
António José Martins Correia
António Mingote Mouco
António Montana Silva
Armando Barbosa Lemos
Armando Teixeira Silva
Carlos Alberto Rodrigues
Carlos Silva Martinho
Daniel Cabaço Sordo
Dias Cabo-verdiano (fur)
Francisco João Viegas Piedade (fur)
Fernando António V. Lisboa
Henrique António Nunes
Hilário Viana Cruz (fur)
Isidro Mesquita Almeida
João de Barros
João Luís Barros Coelho
João Maria José
João Teotóneo Marques Leal
Joaquim Santos Pinto Caldas
Joaquim Vidigueira Ferreira (fur)
Joaquim Luís Barata
José Jorge Sousa Melo (alf)
José Manuel Felício Manco
José Rodrigues Chaves
Lourenço Silva Machado
Manuel Alves
Manuel Alves Martins
Manuel Ferreira Pinto
Manuel Gomes Ferreira
Manuel José Lopes Gonçalves
Manuel Sampaio Leal
Manuel Serafim C. Ferreira
Manuel Silva Loureiro
Mário Pereira Cunha
Orlando Santos Espadaneira
Virgílio Justo Marques
Victor Manuel M. Chaveiro

Armando Teixeira da Silva
ex-Soldado Atirador
CCAÇ 1498/BCAÇ 1876
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Nota do editor

Último poste da série de 24 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14514: Memória dos lugares (288): Gentes do Geba, parte I (A. Marques Lopes, coronel inf, DFA, na situação de reforma, ex-alf mil da CART 1690, Geba, 1967; e da CCAÇ 3, Barro, 1968)

Guiné 63/74 - P14517: Recordações da CART 2520 (Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71) (José Nascimento) (4): Primeiro dia no Xime

1. Em mensagem do dia 25 de Março de 2015 o nosso camarada José Nascimento (ex-Fur Mil Art da CART 2520, Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71) enviou-nos a sua segunda recordação da CART 2520:

Caro amigo Luís Graça
Embora a distância do tempo tenha apagado algumas coisas da minha memória, lembro-me do meu primeiro dia de Xime.

Quando desembarcámos da LDG, estava uma "equipa de televisão" da Companhia 1746 a fazer uma reportagem sobre os importantes acontecimentos do dia. Os recepcionistas eram uns velhinhos de barbas brancas, feitas de algodão, fazendo lembrar o Pai Natal. Atirei a minha bagagem para um abrigo, creio que era o abrigo do pessoal de Transmissões, depois ainda tentei dar uns pontapés numa bola, num jogo de futebol que os "velhinhos" disputavam.
À noite enfiei-me no referido abrigo para tentar descansar um pouco e aliviar a ansiedade, a tensão e alguns receios da nossa chegada à Guiné. Havia três ou quatro dias que tínhamos desembarcado em Bissau e esta tensão também era motivada pelas informações de que dispúnhamos e que a nossa estadia no famoso Xime, não iria ser tarefa fácil.
E numa espécie de recepção ou aviso, o nosso querido inimigo, atacou as tabancas de Amedalai e Dembataco, que estavam em autodefesa e já depois do cair da noite.

A velhinha tropa saiu em socorro destas populações, mas levaram com eles também, um ou dois pelotões de "periquitos", o meu pelotão incluído e sem que eu me tenha apercebido desta movimentação.
Para bem da minha saúde mental, faltei. Só dei por isso quando passado algum tempo vim tomar um bocado de ar e vi a nossa tropa a regressar.

Foi o meu primeiro desenfianço, voltei para o meu refúgio, do qual só sairia pela manhã.

Xime - Atirado ao Geba pelo Fur Mil Enf Augusto Costa

Cais do Xime ao pôr-do-sol

Xime - Messe de Sargentos - Da esquerda para a direita, os furriéis Costa, Lopes, Nascimento, Soares, Santo Oliveira e sentado o Barradas. Está também um rapaz da tabanca, que ajudava a troco de alguma comida.

Xime - Obus 10,5

 Xime - Atrás dos bidões eram os aposentos dos oficiais. Ao centro a pequena Capela
Fotos: © José Nascimento

Com um grande abraço
José Nascimento
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Nota do editor

Último poste da série de 31 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14422: Recordações da CART 2520 (Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71) (José Nascimento) (3): Eu e o malogrado fur mil mec auto Joaquim Araújo Cunha, da CART 2715, em Amedalai, em junho de 1970, de bicicleta a pedal