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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69);

1. O poeta, de origem açoriana, Nuno Dempster, nome literário de Manuel Gusmão Rodrigues, morreu na sexta-feira passada, dia 2 de janeiro de 2026,  na sua casa em Viseu. A notícia dada foi comunicação social. (*)

O Nuno Dempster era membro da nossa Tabanca Grande desde 9/2/2011 (**). Tinha página no Facebook. Era também amigo do Facebook da Tabanca Grande.

Nasceu em 1944, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel Açores (donde era originária a família paterna, sendo a  família materna de Amarante). 

Foi fur mil SAM, ou seja, vagomestre, da CCAÇ 1792, a companhia dos lenços azuis, que andou por Farim, Saliquinhedim/K3, a norte, mas também, Mampatá, Colibuía e Aldeia Formosa, a sul... 

Além de poesia, Nuno Dempster cultivou o conto e o romance. Obras mais recentes do autor, publicadas pela Companhia das Ilhas, sediada nas Lajes do Pico,  
  • “Seis histórias paralelas” (contos, 2023), 
  • “Limbo, inferno e paraíso” (poesia, 2022), 
  • “Variações da perda” (poesia, 2020), 
  • “Há rios que não desaguam a jusante” (romance, 2018) 
  • e “Na luz inclinada” (poesia, 2014).

Em 2021, Nuno Dempster organizou, com Anabela Almeida, a antologia de poemas do seu avô, Armando Côrtes-Rodrigues (1881-1971), “Um poeta rodeado de mar” (Companhia das Ihas,  2021).

Além de poesia, Nuno Dempster cultivou o conto e o romance. Outras obras do escritor:
  • “Uma paisagem na Web” (poesia, editado pela & etc, 2013), 
  • “Elogia de Cronos” (poesia, Artefacto Edições, 2012), 
  • “O papel de prata, o reflexo e outros contos pelo meio” (Companhia das Ilhas, 2012), 
  • “Pedro e Inês. Dolce Stil Nuovo” (poesia, Edições Sempre-em-Pé, 2011),
  •  “K3” (poesia em que faz uma incursão no tema da guerra colonial, & etc, 2011);
  • “Uma flor de chuva (poesia, Escola Portuguesa de Moçambique, Maputo, 2011),
  •  “Londres” (poesia, & etc, 2010) 
  • e “Dispersão – Poesia reunida” (Edições sempre-em-pé, 2008) 
Tinha também um blogue, que mantevce de 2007 a 2021, A Esquerda da Vírgula, dedicada aos livros, aos seus e aos dos outros.

Vivia em Viseu (cidade, onde vivo exilado por força dos meus erros e suas consequências", escreveu ele algures, no seu blogue).


Capa do livro com o longo poema K3 (& Etc., 2011, 64 pp.) (Autoria da capa: Maria João Lopes Fernandes)

Sinopse: Nuno Dempster (autor de "Londres, ed. & etc) revisita o Horror. Felizmente para elas, as jovens gerações (também de poetas) desconhecem esse Horror que foi, para quem o sofreu nos ossos e no que houvesse de alma, a Guerra Colonial. Algures na Guiné e algures num quartel subterrâneo: o K 3. Nossa palavra: não conhecemos, na literatura sobre o tema, tão fundo, tão magistral testemunho desse Horror. Elegia, catarse, contrição, K3 combate o esquecimento. (Fonte: Wook)



Dedicatória do autor à nossa Tabanca Grande:

 "Para o Luís Graça & Camaradas da Guiné, todos meus companheiros nesta guerra que em muitos ainda está por digerir, com o afecto e a camaradagem do Nuno Dempster. 3/2/2011. Na Guiné, de [1967-1969,], no K3, Mampatá, Colibuía e Quebo (Aldeia Formosa), por esta ordem".


2.  Comentário do editor LG:

Morreu mais um poeta da nossa terra. Morreu mais um canarada nosso. Morreu mais um grão-tabanqueiro. É uma tripla perda. Os meus votos de pesar para a família e os amigos mais íntimos, sem esquecer a companhia dos lenços azuis, a CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (1967/69).

Não conheci pessoalmente o Nuno Dempster. Trocámos apenas alguns emails. Li com grande emoção, e de um só fôlego, o seu extenso poema K3. Ele teve a gentileza de mandar uma cópia, autografada, do livro, com dedicatória a todos os camaradas da Guiné.

A CCAÇ 1792 tem 14 referências no no blogue. E o Nuno apenas meia dúzia. A companhia dos lenços azuis andou por Farim, Saliquinhedim/K3, a norte, mas também, Mampatá, Colibuía e Aldeia Formosa, a sul... 

Pertencia ao BCAÇ 1933 (Nova Lamego, Bissau, S. Domingos). Teve  3 comandantes:  
  • Cap Mil Art Antóno Manuel Conceição Henriques (que ficaria sem as pernas numa mina A/C); 
  • Cap Art Ricardo António Tavares Antunes Rei, 
  • Cap Inf Rui Manuel Gomes Mendonça. 
A companhia foi mobilizada pelo RI 15, tendo partido para a Guiné em 28 de Outubro de 1967 e regressado à Metrópole em 20/8/1969.

Sobre estes comandantes, o Nuno Demspster escreveu o seguinte, em mails que trocámos em 2011:

(...) Recordei, no link que enviaste, o capitão Rei, de carreira, que teve a ideia dos lenços [azuis] e que substituiu o capitão miliciano, cujo nome já não recordo, um homem lúcido, vítima de um fornilho, na estrada de Farim, uma das passagens mais intensas do poema [Cap Mil Art António Manuel Conceição Henriques]. (***)

Isso sucedeu dentro dos seis primeiros meses do início, quando estávamos no K3. Até sairmos de lá, o aquartelamento ficou entregue ao alferes miliciano, segundo comandante, bem como em Mampatá e Colibuia, penso. O Cap [Art Ricardo António Tavares Antunes] Rei chegou já no tempo de Quebo. (...)

O Nuno Dempters, ou melhor, o Manuel Gusmão Rodrigues era engenheiro técnico agrícola (trabalhou em cooperativas) e empresário. 
 
3. Comentário de Nuno Dempster, quinta, 1/07/2010, 21:51, ao poste P4782, do Cherno Baldé (****);

(...) "A vontade de suplantar o outro, o dominador, e de ocupar o seu lugar mas no sentido de que tudo continue na mesma, apenas mudando a sua posição de baixo para cima, afastando para isso o outro, o estranho que o impedia de usufruir de privilégios e de ser o epicentro das atenções das imaculadas bajudas."

A propósito do escrito acima, para Cherno Baldé, de quem estou a ler aqui, interessadíssimo, as suas crónicas, um trecho de um muito longo poema que acabei há dois dias e que se publicará como livro, julgo, em 2011. O poema intitula-se K3, onde em 1968 estive enterrado.

(...) Não fazemos história,
a História não regista
a sina dos anti-heróis
que pululam em toda a parte,

o mundo sublevado em armas,
o mundo velho que noutro se transforma,

mas a essência do mundo
não é tornar-se novo,
é afinar o modo de fazer
que o novo permaneça antigo,

anti-heróis
que não chegam a ser anti-heróis,

são uma chapa com número
no fio ao peito, à prova de fogo,
o corpo esturricado,
a medalha de Fátima, fundida,

mas não o número,
útil aos funerais anónimos
dos que «morreram pela pátria»,
dizia-se em Lisboa.(...)


Nuno Dempster
quinta-feira, 1 de julho de 2010 às 21:51:35 WEST

(***) Vd. poste de 12 de novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9028: Blogpoesia (167): K3, de Nuno Dempster: excerto: "Capitão, meu capitão, não nos deixes sós!"

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27587: Documentos (49): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed. (Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte VI: Aspeto humano (cont): saúde e instrução pública; religiões: imprensa e rádio... Aspeto económico: agricultura e florestas; pecuária e pescas; recursos de origem mineral: energia: vias de comunicação... Mais de 300 km de estradas alfaltadas (pp. 51-65)


No princípio da década de 1970, já havia mais de 3 centenas de estradas asfaltadas, sendo o maior  troço o de Bafatá - Nova Lamego,  com mais de 50 km. Até ao fim da guerra, ainda se farão mais 200 e tal quilómetros, e nomeadamente no sul. Destaque para o papel da Engenharia Militar e da empresa TECNIL (a que mais tarde, já depoois da independência, ficará ligado o nosso camarada António Rosinha).

Era assim a "Spínolândia"   Fizeram -se mais quilómetros de estrada alcatroada em meia dúzia de anos do que nos últimos  500 anos de presença histórica portuguesa por aquelas paragens. Aplicando a estatística, foi um quilómetro por ano... em média.

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Capa do livro: Portugal. Estado Maior do Exército - "Missão na Guiné". 

Lisboa: SPEME, 1971, 77, [5] p., fotos.


1. Qual o valor ("sentimental"  mas também "documental")  desta brochura do Estado Maior do Exército, que nos era distribuída já a bordo do navio que nos transportava para a Guiné (ou do avião dos TAM, a partir de finais de 1972) ?

Estamos a reproduzir a brochura da 3ª edição,  de 1971. A primeira remonta a 1967 E A 2ª edição  é de  1969. Presume-se que desta publicação, editada pelo SPEME (Serviço de Publicações do Estado Maior do Exército) tenham tido sido impressas dezenas e dezenas de milhares de exemplares. 

Tem 77 páginas (mais 5 inumeradas) e é ilustrada com  9 fotos.  Tudo a preto e branco. Baratinho. A edição é do SPEME (Serviço do Publicações do Estado Maior do Exército). 

 Em 1967 (de 1958 a 1969) era Chefe do Estado Maior  (CEME) o gen Luís Câmara Pina (1904-1980), considerado um dos homens fortes do regime do Estado Novo. Era oriundo a arma de engenharia .

É constituída, esta brochura, por três partes:  (i) Missão no Ultramar;  (ii) Monografia da Guiné: aspeto físico, humano e económico;  (iii) Informações úteis. 

Vamos continuar a reproduzir, sem comentários,   a parte da monografia respeitante agora ao aspeto económico (pp. 51-65).

Esperamos que os nossos leitores possam fazer a sua apreciação (crítica) do documento. Tal como o PAIGC tinha os seus documentos de doutrinação e propaganda, também as NT tinham os seus.

 "Missão na Guiné" não era um texto apenas técnico e informativo. Tinha uma componente político - ideológica, como acontece em todas as guerras.




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(Continua)


Fonte: excertos de Portugal. Estado Maior do Exército: "Missão na Guiné". 
 Lisboa: SPEME, 1971, pp. 51-65.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27531: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (8): escapei à terceira mina... mas o sold pqdt Lamas apanhou com um 'balázio' no braço


Angola > Leste > O alf mil paraquedista Jaime Silva, do BCP 21 (1970/72), em 1970, a norte do Rio Cassai

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã:
4 de agosto de 2012 > Jaime Silva

Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3ª Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; reside na Lourinhã, é professor de educação física, reformado, foi autraca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": residiu lá durante cerca de 4 décadas): Tem página pessoal do Facebook


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (8): escapei à terceira mina... mas o meu sold pqdt Lamas apanhou com um 'balázio' no braço

por Jaime Silva

Não esqueci que o soldado paraquedista Joaquim da Silva Lamas Júnior apanhou com um “balázio” num braço. Este acidente ocorreu no final da “operação Remover II”, realizada na região do rio Cassai, no Leste de Angola, entre os dias 29 de outubro e 6 de novembro, de 1970.

Participavam na operação dois pelotões de paraquedistas e um pelotão do exército. sediado em Vila Teixeira de Sousa [desde 1975, Luau, hoje província do Moxico Leste]. Este deu-nos apoio em transporte, com duas viaturas Berliet, no trajeto entre o aquartelamento e o rio Cassai e, ainda, na travessia do rio em barco de borracha.

Durante este trajeto, o pelotão do exército, comandado por um alferes miliciano de Operações Especiais, progredia em cada um dos dois lados da picada, montando segurança às viaturas que transportavam os paraquedistas.

Acontece que, nesse trajeto, à frente da primeira viatura em que eu seguia, ao lado do condutor (e em cima de sacos de areia), dois soldados picavam o trilho por onde os pneus das viaturas iriam rodar, a fim de detetar minas anticarro colocadas pelo MPLA. Então, quando a tropa já tinha percorrido quase metade do percurso, o alferes do exército manda parar a coluna, em virtude de um dos soldados, que progredia na frente, ter detetado movimentos de pessoas à distância.

O mesmo alferes aproveita a paragem para revezar os Picas [#], uma vez que lhes era exigida grande concentração para detetar a existência de minas.

O intervalo prolongou-se, em virtude de haver necessidade de verificar se o IN nos tinha preparado alguma emboscada. O Pica do meu lado, que tinha terminado o seu turno, veio falar comigo, encostando-se ao guarda-lamas da roda da frente da Berliet. Enquanto conversávamos, esse soldado picava o terreno junto ao pneu, perto dos seus pés, num gesto mecânico e automático. Em determinado momento, incrédulo, exclama (e foi mesmo assim!):

 − Quer ver, meu alferes?!  quer ver,. quer ver?!... Está aqui uma mina! 

E estava, mesmo junto à roda da Berliet… aos pés do soldado… e do meu lado!

E eu volto a escapar à terceira mina… as minas não quiseram nada comigo.

Nessa altura, o alferes do exército, com experiência nestas circunstâncias, deita-se no chão, de barriga para baixo e, com uma faca de mato, começa a retirar a terra em volta da mina. Uma vez posta a descoberto e, com todos os militares à distância de segurança, ata-lhe uma corda e consegue retirá-la do local. Depois, agarra na mina, que estava dentro de uma caixa de madeira, cujo material explosivo chegava para dar cabo da viatura e da maioria do grupo, e leva-a consigo para o quartel.

A deslocação da tropa continuou; atravessámos o rio num bote. Os militares do exército regressaram ao quartel e os paraquedistas embrenharam-se na mata para cumprir a missão.

Três dias depois, no final da operação e no horário combinado, o exército voltou a aparecer para nos apoiar na travessia do rio e no transporte para Vila Teixeira de Sousa. Porém, no momento em que o primeiro grupo estava a atravessar, acontece que, a determinada altura, ouvimos vozes e vimos um grupo de guerrilheiros a aproximar-se do rio. 

Deu-se um tiroteio… e o confronto do costume. Nesse tiroteio, o Lamas fica ferido com um tiro no braço. Este soldado pertencia à Secção, comandada por mim, que estava responsável por montar a segurança e proteger a retirada e travessia do rio dos nossos camaradas.

Fonte: excerto de Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 88-90
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Nota do autor:

[#] O Pica era treinado a detetar minas. Caminhava à frente dos rodados das viaturas e picava o terreno com um pau rudimentar com ponta de ferro na extremidade. Pelo impacto do ferro ao cravar-se na terra percebia se algo fora do normal, ferro ou madeira, seria sinal da existência de uma eventual mina.
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27503: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (7): o ferimento do 2º srgt pqdt Henrique Galvão da Silva





Angola > Luanda > Junho de 1971 > 3º Pel / 1ª CCP / BCP 21 (1970/72) > Os bravos do pelotão


O Jaime é o promeira da fila de pé, a contar da direita para a esquerda. 

Em  18 de fevereiro de 1970,  embarcou no eroporto de Figo Maduro num avião Dakota da Força Aérea rumo a Angola para se apresentar no BCP 21 (Batalhão de Caçadores Paraquedistas) a fim de iniciar uma Comissão de Serviço que só terminaria em 1 de julho de 1972.

"(...) Nessa madrugada lisboeta embarcaram três alferes milicianos (eu, Rosinha e Vítor Marques) e um tenente da Academia Militar (Sousa).

"Na madrugada do dia 19 tínhamos à nossa espera no aeroporto de Luanda o Comandante do BCP 21, tenente coronel Rafael Durão que, logo ali, após as boas vindas, não deixou escapar uns reparos quanto ao atavio da farda n.º 1 que vestíamos e de indicar as Companhias onde seríamos integrados. De seguida perguntou quem era o alferes  Silva e, após me identificar disse: «Você foi destacado para a 1.ª CCP (1.ª Companhia do BCP 21) e prepare-se para embarcar para o Leste no próximo avião onde, em Ninda, está destacada a sua companhia'-

"Um avião Nord Atlas transportu-me de Luanda à cidade de Henrique Carvalho e daqui um avião DO aterrou, finalmente, na pista de areia do destacamento de Ninda. Foi-me atribuído o comando do 3.º Pelotão, rendendo o tenente Grão, onde participai na minha primeira operação de combate, denominada  “ Operação Alfange” e onde fomos transportados nos helicópteros das Forças Armadas da África do Sul.

"Foram 29 meses de muitas operações de combate no Norte e no Leste, de algumas lutas renhidas frente a frente com o IN  e , em cujas refregas, abatemos alguns deles, tendo também eles conseguido roubar a perna ao Soldado Santos e a vida ao soldado Ramos!

"Foram também bons momentos de amizade cimentados na provação das operações de combate e no convívio nas horas livres no Batalhão ou nos 'botecos' espalhados pela cidade de Luanda!"

Fonte: Jaime Bonifácio da Silva > Página pessoal do Facebook > 18 de fevereiro de 2018 (com a devida vénia...)  (Foto editada por LG)


Foto à direita: Jaime Bonifácio Marques da Silva, autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), 235 pp.

Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já cerca de 130 de referências, no nosso blogue; reside na Lourinhã, é professor de educação física, reformado, foi autarcaa em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": residiu lá durante cerca de 4 décadas): 



Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (7) > o ferimento do 2º srgt pqdt Henrique Galvão da Silva


por Jaime Silva



Eu não esqueci quando o 2.º sargento paraquedista Henrique Galvão da Silva foi ferido durante a Operação “Bútio Encarnado”, realizada entre 6 a 10 de agosto 1970.

O acidente ocorreu na região da serra Vamba, Norte de Angola, depois de aquele ter tropeçado numa armadilha. 

O acidente deu-se já ao final da tarde, e não houve hipótese de ser evacuado por helicóptero. O seu corpo ficou crivado com alguns estilhaços de granada. Por isso, teve que ser transportado numa maca improvisada feita com troncos de árvores.

Conseguiu sobreviver, passando a noite com morfina e com o apoio dos cobertores de todos os elementos do grupo de combate. No dia seguinte, ainda se tentou o resgate e evacuação através do guincho do Helicóptero, mas, dada a altura das árvores e a densidade da mata, não foi possível fazê-lo.

Restou-nos caminhar, até ao meio da tarde, em direção a uma fazenda de exploração de café e madeira, cujas coordenadas me foram indicadas, via rádio, pelo Comandante de Companhia.

Acontece que, a poucos quilómetros da chegada a essa fazenda, onde iríamos ser recuperados, deparámo-nos com uma clareira de árvores abatidas por colonos portugueses.

Este facto, em local em que a tropa sofria emboscadas dos guerrilheiros do MPLA ou FNLA e, ao mesmo tempo, civis madeireiros conseguiam aí chegar e derrubar árvores e transportar a madeira sem problemas, demonstra “o que se dizia por lá”, acerca da eventual colaboração entre colonos e guerrilheiros dos Movimentos de Libertação.


Fonte: excerto de Jaime Bonifácio Marques da Silva,  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 87-88.
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27493: S(C)em comentários (82): a filha da mãe da guerra que não desgruda... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72)


1. Comentário do Jaime Silva,ex-alf mil pqdt, BCP 21 (Angola, 1970/72), membro da nossa Tabanaca Grande (*):


Luís, lembro-me como se fosse hoje: a operação não parou e decorreu durante três dias. Um outro soldado transportou o rádio que, por sorte, ficou intacto, e fui eu que assumi as transmissões. O trivial nestas circunstâncias da guerra!...

Ao que chegámos naquele nosso tempo de juventude!... O teu camarada ficou estropiado para a vida e tu continuas como se nada acontecesse!... e, sempre, na convicção de que a seguir podias ser tu!...

Já lá vão 55 anos e a filha da mãe daquela guerra não desgruda.

Abraço para todos os nossos camaradas combatentes naquela guerra

Jaime (**)


(**) Último poste da série > 31 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27368: S(C)em Comentários (81): O gen António Spínola e o major cav Carlos Azeredo que eu conheci, em julho de 1968, depois do ataque a Contabane (José Teixeira, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, "Os Maiorais" , Buba, Aldeia Formosa, Mampatá, Empada, 1968/70)

domingo, 23 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27455: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (5): a mina A/P que ceifou a perna do soldado radiotelegrafista Santos, alentejano



1971, Norte de Angola, na zona de Nambuangongo, no final de uma operação e à espera do heli: o alf mil pqdt Jaime Silv, comandante do 3º Pel / 1ª CCP / BCP 21 (Angola, fev 70 / jul 72) com o Lopes dos Santos, na altura 2º  srgt pqdt, hoje capitão pqdt  na reforma  



Jaime Silva


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (5) > a mina A/P que ceifou a perna do soldado radiotelegrafista Santos, alentejano

por Jaime Silva



Não esqueci o primeiro estropiado do meu Pelotão, o soldado radiotelegrafista Santos. Esta tragédia aconteceu durante uma operação, na zona de Santa Eulália, no norte de Angola. Ele pisou uma mina antipessoal, logo minutos depois dos helicópteros nos terem lançado no alto de um morro.

Estou a ver o momento em que descemos a encosta do morro correndo. E, indo eu na frente, ao deparar com um trilho, ordenei que o grupo progredisse fora do mesmo, em virtude de ter detetado sinais evidentes de poder haver minas antipessoal dissimuladas. 

Minutos depois, há um rebentamento na curva do trilho, por onde eu e mais três paraquedistas tínhamos passado. Nessa altura, oiço o Santos a gritar:

– Eu vou morrer. Ai, minha mãe, eu vou morrer! 

Foi mesmo assim! Foi a primeira vez que vi a perna de um homem esfacelada: a perna tinha desaparecido abaixo do joelho. O enfermeiro injetou-o logo com morfina, um camarada levou-o às costas, morro acima, mas enquanto eu contactava o helicóptero, via rádio, para o evacuar, olhava, incrédulo, o que restava da tíbia e do perónio daquele meu camarada, cujo sangue jorrava e deixava um rasto vermelho no capim verde. 

Vinte minutos depois, empurrãmos o Santos para dentro do heli e, lembro-me, de lhe gritar:

Aguenta, já te safaste!

O Santos, safou-se.

E, entre muitas outras coisas da sua vida, casou e tem duas filhas. Vive no Alentejo.

Fonte: Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 84-86.


(Revisão / fixação de texto, título: LG)

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27388: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (113): Nunca desistir é a mensagem que pretendo transmitir aos camaradas que tenham em curso, ou venham a iniciar algum processo, para atribuição de incapacidade resultante de ferimentos sofridos em combate ou acidente, ocorridos durante a guerra colonial (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)

1. Em mensagem de 1 de Novembro de 2025, o nosso camarada Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), descreve-nos a sua odisseia para conseguir provar que o incidente de que foi vítima no dia 4 de Agosto de 1969 lhe provocou lesões oculares irreversíveis com consequências para toda a vida.


NUNCA DESISTIR

Nunca desistir é a mensagem que pretendo transmitir aos camaradas que tenham em curso, ou venham a iniciar um processo, relativamente à atribuição de incapacidade resultante de ferimentos sofridos em combate ou acidente, ocorridos durante a guerra colonial.

Volto a dizer “nunca desistir”, porque o processo que iniciei naquele sentido, foi uma autêntica odisseia.

Resultante das lesões oculares sofridas no incidente de 04 de Agosto de 1969 (ver Poste 26820), que originou um processo por ferimentos em combate, restaram sequelas. Porque anos mais tarde sentia desconforto e diminuição da visão, no dia 2 de Abril de 1991 entreguei na Secção de Justiça do DRM – Porto, um requerimento ao qual juntei um relatório médico, solicitando ser obervado no Hospital Militar do Porto, para verificação das sequelas e eventual atribuição de uma incapacidade.

Em 17 de Dezembro de 1992 fui presente à consulta de Oftalmologia no HMR1, tendo o especialista declarado “Não se encontra abrangido pela Tabela Nacional de Incapacidades pelo que não se justifica qualquer taxa de incapacidade. Deve ser enviado à Exma. JHI para os devidos efeitos”.

Em 12 de Janeiro de 1993 fui presente à JHI que me julgou “Pronto para todo o Serviço Militar” e portanto sem atribuição de qualquer incapacidade. Uma Junta Médica (JHI) é sempre constituída por três médicos, mas aqui só estive perante um Capitão, eventualmente médico, que não me observou, não dialogou comigo, limitamdo-se a comunicar o atrás referido.

Porque os problemas oculares continuavam, no dia 12 de Outubro de 2005 fiz novo “REQUERIMENTO PARA PEDIDO DE REVISÃO DE PROCESSO POR ACIDENTE/DOENÇA EM SERVIÇO” ao qual juntei novo relatório médico. Daqui resultou que passados 18 meses, no dia 30 de Maio de 2007, fui presente a uma JHI (Oftalmologia) e desta vez sim, na presença de três médicos, que após observação emitiram a seguinte decisão “H.M.R 1 – incapaz de todo o serviço militar, apto, parcialmente para o trabalho com 23,5 de desvalorização”, baseando-se nas seguintes lesões: epíforas e conjuntivites crónicas e bilaterais.

Julgava eu que passados mais alguns meses passaria a receber uma indemnização, cujo valor monetário desconhecia totalmente. Puro engano, o processo andou a saltar durante SETE ANOS E MEIO, de organismo em organismo, tais como: Ministério da Defesa; Direção de Justiça e Disciplina; Arquivo Geral do Exército; Direção de Saúde, Comissão Permanente Para Informações e Pareceres e finalmente a Repartição de Reserva Reforma e Disponibilidade.

É aqui que nunca devem desistir, pois, apesar da atribuição da incapacidade em Junta Médica, não é certo que venhas a receber qualquer pensão, ou então, não na totalidade da incapacidade atribuída.

Os vários organismos vão tentar tudo para não te darem a merecida desvalorização e é preciso estar atento e contestar os pareceres que vão emitindo, tais como: a inexistência de nexo causalidade entre as lesões diagnosticadas e o acidente sofrido; alterando a profissão de modo a que incapacidade seja reduzida para metade (1) e referindo que as sequelas das lesões sofridas não podem ser resultantes do acidente (2), mas sim de causa orgânica (doença).

• (1) - na vida civil fui empregado de escritório, mas classificado como carpintero neste processo. Como o empregado de escritório necessita mais da visão que o carpinteiro, logo aqui e segundo a Tabela Nacional de Incapacidades, que eu conhecia bem por motivos profissionais, a desvalorizção baixava para metade. Tive de contestar, o que logo originou atrasos de meses na resolução do caso.
• (2) – A Direção de Saúde disse que as sequelas das lesões tinham origem em doença bacteriológia e não traumática (acidente), o que tive também de contestar e daí mais uns meses de espera.

Foram sete anos e meio de muita luta, muita paciência, mas consegui ganhar o processo e a desvalorização na totalidade. Ver anexo NOTAS, onde tudo registava, tal como: telefonemas; contactos pessoais, cartas e emails, etc, num total de 11 páginas.

Para concluir o processo e começar a receber a pensão, faltava uma última etapa, uma Junta Médica na Caixa Geral de Aposentações, a entidade pagadora, que foi feita e posterior publicação no Diário da Républica.

A Pensão é paga a partir da data da realização da Junta Medica que determinou a incapacidade, pelo que tive direito a receber os retroativos dos sete anos e meio e depois passei a receber mensalmente, por débito em conta, através da CGA.

Uma última questão, só quem tem uma incapacidade igual ou superior a 30% é que é considerado Deficiente das Forças Armadas, que para além da pensão, tem outras regalias.

Arcozelo/Gaia
01 de Novembro de 2025
Aníbal Silva

_____________

Notas do editor:

1 - Citando Aníbal José da Silva no seu Poste 26820 de 29 de Maio de 2025:

[...]
Chegado à base de Bissalanca segui de ambulância para o Hospital Militar. Fui colocado não sei onde deitado na maca. Não sabia se estava no chão ou em cima de qualquer coisa. Com a mão direita de fora da maca, tocava no que me rodeava e conclui que estaria no chão pois sentia uma superfície fria e lisa.

As pessoas passavam por mim mas não ligavam nenhuma. As dores nos olhos e o rubor na cara era escaldante. Comecei por insultar quem por mim passava, chamando-lhes filhos desta e daquela, até que alguém, creio que era um sargento pois chamaram-lhe assim, veio ter comigo e perguntou a outros o que é que aquele homem estava ali a fazer. Responderam que estava à espera do oftalmologista. Era uma segunda-feira e o médico devia ter ido passar o fim de semana à ilha dos Bijagós. Mas o sargento ordenou que eu fosse de imediato ao RX para a eventualidade de ter algum estilhaço no corpo, o que felizmente não se veio a confirmar. O médico chegou e mandou-me para a sala de observações, onde permaneci três dias.

Foi iniciado o tratamento prescrito, que consistia na lavagem dos olhos várias vezes ao dia e mesmo durante a noite, mais umas injeções não sei para quê. Ao fim da tarde desse dia, ouvi passos que vinham na minha direção. Abeiraram-se da cama e uma voz perguntou: “Rapaz de onde és e o que te aconteceu?”. Reconheci logo a voz do General Spínola e resumidamente respondi. O acompanhante habitual do general era o Capitão Almeida Bruno, que me perguntou se eu sabia com quem estava a falar. Respondi que era o General Spínola e ele o Capitão Almeida Bruno. No dia seguinte voltaram a visitar a sala de observações, tomando conhecimento dos que chegaram nesse dia. Era do conhecimento geral, que desde sempre, os dois ao fim da tarde iam ao hospital quase todos os dias. De madrugada entrou alguém na sala a gemer e a berrar. Era uma parturiente que horas mais tarde deu à luz uma bebé.

O barbeiro do hospital, de dois em dois dias, ia-me fazer a barba e eventualmente aparar o cabelo. Para ir ao refeitório, nos primeiros dias, era acompanhado pelo cabo enfermeiro, que me ensinou a fazer o percurso sozinho. Saía da porta da enfermaria, dava quatro passos em frente atravessando o corredor e tocava na parede, virava à esquerda e caminhava uns tantos passos ao longo da parede até ao início da escada, depois à direita, descia seis degraus, contornava o patamar e descia mais seis degraus até à entrada do refeitório. Quando entrava diziam, lá vem o ceguinho, quem é que lhe vai dar a sopa na boca e cortar o bife? Obviamente que meter a sopa na boca era exagero, era uma brincadeira, mas o restante sim, precisava de ajuda. No trajeto inverso contava os mesmos degraus e dava os mesmos passos. Na cama não podia estar de barriga para cima, porque a deslocação de ar provocado pelas enormes pás das ventoinhas colocadas no teto, ao bater nas pálpebras agravava as dores.

[...]

2 - Último post da série de 27 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27358: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (112): Através do nosso blogue, na pessoa do camarada Manuel Domingos Ribeiro, soubemos do falecimento do Fur Mil Art Silva da CART 6552/72 (João Ferreira / Manuel Domingos Ribeiro / Carlos Vinhal)

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27271: O início da guerra (Armando Fonseca, ex-sold cond, Pel Rec Fox 42, mai 62 / jul 64) - Parte II: outubro de 1963: os primeiros grandes sustos com as minas A/C

 

Guiné > s/l >s/d > Pel Rec Fox 42 > A guarnição de viatura do "Alenquer" (o terceiro, a contar da esquerda para a direita, conforme indica a seta branca. Parece ser a viatura blindada canadiana GMC 4x4 M 957, armada com 2 metralhadoras Browning de 12,7mm (a do Armando usava a Borsig).   




N/M e T/T António Carlos > Navio misto, de carga e passageiros a motor, com 93m de comprimento, a sua construção data de 1946-1947 no estaleiro da Rocha, Administração Geral do Porto de Lisboa, da CUF - Companhia União Fabril. Foi encomenado pela Sociedade Geral de Transporte para aumentar a sua frota da marinha mercante. Deslocava c. 4,5 mil toneladas. Tinha 8 camarotes para passageiros.

A partir de 1959, esteve fretado ao ministério do Exército para transporte de tropas e material de guerra. Em 1971, foi vendido à Companhia Nacional de Navegação, de Lisboa, operando principalmente na carreira de Cabo Verde e Guiné. Em 1981, foi desmantelado no Cais Novo de Alhos Vedros.


Fotos (e legendas): © Armando Fonseca (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Armando Fonseca, ex-sold cond cav, Pel Rec Fox 42, Bissau, Mansoa, Porto Gole, Buba, Bedanda, Guileje e Aldeia Formosa, 1962/64; também conhecido como o "Alenquer", integra a nossa Tabanca Grande desde 22 de setembro de 2010; tem cerca de 20 referências no nosso blogue. Julgamos que nasceu em 1941. Natural de Alenquer, vive na Amadora desde 1965, depois do regresso à "peluda". É autor da série "O Alenquer retoma o contacto" (de que se publicaram 7 postes, em 2012).
 

Fotos (e legendas): © Armando Fonseca (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


I. O Armando Fonseca (conhecido como o "Alenquer", terra donde é natural, mas que vive na Amadora desde 1965), ex-soldado cond cav, Pel Rec Fox 42 (1962/64), foi dos primeiros militares, da arma de de Cavalaria, a chegar à Guiné, quando "oficialmente" ainda não havia guerra. Fiz ele que na guerra teve um "bom anjo da guarda". Não foi só ele, nós que ainda aqui estamos hoje, também podemos dizer o mesmo.

Cumpriu o serviço militar desde abril 1961 até julho 1964 (3 anos e 3 meses). Esteve 26 na Guiné, desde maio de 1962 até julho de 1964. Chegou ao CTIG em finais de maio de 1962. Escreveu ele:


(...) Nesta altura a guerra ainda estava muito no começo, havia aqui e ali algumas escaramuças e nós ficámos a fazer a segurança da cidade e do aeroporto. Então, fazia serviço durante 24 horas no aeroporto de Bissalanca, passando inspecções à pista e mantendo a segurança nas aterragens e nas descolagens dos aviões tanto civis como militares. Durante essas inspecções por vezes eram avistadas cobras que atravessavam a pista e nas cercanias junto do arame farpado viam-se também hienas e onças que procuravam o seu meio de subsistência.

Nos restantes dias estávamos às ordens para qualquer imprevisto a que tivéssemos que acorrer. Às vezes, muito raras, tinha um dia de folga que aproveitava para ir até à cidade, para ir ao cinema ou fazer algumas compras de certos artigos que não me eram fornecidos. (...)


Ao fim de 16 meses a sua Fox é colocada, em Mansoa, às ordens do BCAÇ 512, para fazer segurança às colunas logísticas a Mansabá e Bissorã.



 O início da guerra  (Armando Fonseca,  ex-sold cond, Pel Rec Fox 42,  mai 62 / jul 64) 

Parte II:  outubro de 1963:  os primeiros grandes sustos com as minas A/C



Regressados a Mansoa, vindos de Porto Gole (*), recomeçaram as escoltas diárias a caminho de Mansabá, Bissorã e Porto Gole, até que no dia 17 de outubro de 1963 ao dirigir-me para Mansabá, próximo de uma tabanca denominada Mamboncó foram encontrados na estrada dois buracos provocados pelo rebentamento de fornilhos dois dias antes.

Foi o primeiro grande sinal de perigo, porque até aí ainda não tinham aparecido minas por aqueles lados.

No dia 19 ao fazer outra escolta a Mansabá e depois de ter percorrido mais ao menos metade do percurso, rebentou uma mina mesmo na minha cara, mas por sorte minha e dos camaradas que seguiam no carro, foi comandada uns décimos de segundo antes do carro estar em cima dela, não provocando estragos.

Foram feitas umas rajadas para reconhecimento em todas as direcções pelas "Borsig" e entretanto um dos soldados da CCAÇ 413, que seguia na coluna e que se tinha apeado, viu um fio que vinha do mato para dentro da estrada e alertou o furriel de minas e armadilhas que seguia na coluna, tendo este verificado que havia outra mina montada e sobre a qual eu já tinha passado.

Essa mina, que pesava quatro quilos cento e cinquenta, foi levantada com as devidas precauções e a viagem foi recomeçada e seguiu até ao destino.

Como a reacção do apontador das metralhadoras foi imediata, não houve tempo para o IN despoletar a outra mina, caso contrário tinha sido uma chacina, haveria decerto mortes e muitos feridos.

Esta foi a primeira de muitas das intervenções do meu bom anjo da guarda.

Em 20 de outubro, pelas cinco da manhã, lá ia a caminho de Enxalé e uns quilómetros depois de Porto Gole, perto da tabanca de Flora, estava a estrada cortada não permitindo a passagem dos carros.

Depois da intervenção dos sapadores lá fomos passando mas passadas umas dezenas de metros começaram a rebentar sobre nós várias granadas e de seguida várias rajadas a baterem no carro. Agimos de imediato e a situação pareceu acalmar-se. 

Entretanto foram avistados vários elementos IN a fugir. Alguns camaradas foram em sua perseguição, mas como havia outra autometralhadora do outro lado do morro, era uma ação arriscada porque podiam ser confundidos com o IN e haver acidentes, como veio a acontecer.

Convencido de que o perigo tinha passado, avancei e, quando cheguei ao cimo do morro para me juntar ao restante grupo que se encontrava do outro lado, senti o rebentamento de outra granada mesmo em cima do carro e novas rajadas se notavam a bater no mesmo.

Voltamos a reagir e entretanto quando tudo ficou calmo. Fomos até aos camaradas que estavam do outro lado e verificamos que eles tinham feito fogo sobre o grupo que tinha ido em perseguição do IN. Sem acidentes ao que se julgava, visto se terem apercebido que eram camaradas e não elementos do IN.

Esta nossa missão consistia em fazer passar uma autometralhadora e um "granadeiro" para Enxalé e, como a zona de perigo já estava passada, eles seguiram tendo a restante coluna regressado a Mansoa convencidos de que tudo não tinha passado de susto.

Ao chegar verifiquei que tinha uma roda furada e no outro dia ao desmanchá-la encontrei uma bala de nove milímetros introduzida entre a jante e o pneu, mas não ficou por aqui, porque pela noite comecei a ouvir uns rumores de que faltava um camarada da CCAÇ 413, que decerto teria ficado na operação do dia anterior.

Assim, no dia 22, de manhã lá me vejo de novo a caminho da tabanca de Flora, só que, cerca de um quilómetro antes do local de destino, rebentou uma mina na frente do meu carro, mas de novo sem consequências para nós. Entretanto o rebentamento foi precedido de novo ataque com a mesma intensidade do anterior. Respondemos ao ataque, tendo então um pelotão ido mato fora em busca do camarada perdido, sem resultado algum.

Quando a escaramuça acabou, tanto eu como a restante guarnição do meu carro, estávamos intoxicados pelo fumo e pelos gases da pólvora que se acumularam dentro dele. Eu tive que ser assistido pelo médico, porque ao sair do carro se não me tivessem amparado tinha caído para dentro da bolanha.

O tempo continuou a passar com escoltas quase todos os dias, por vezes mais do que uma.

Entrou o mês de outubro e nem no dia dos meus anos (10) tive descanso, escoltas atrás de escoltas umas de dia outras de noite para colocar Pelotões ou a Companhia a fazer tentativas de emboscada ao IN.

Numa destas operações, no dia 15, eu sofri uma entorse no dedo polegar da mão direita que me deixou um pouco debilitado. Ainda continuei a fazer os serviços que me eram destinados, mas com algum esforço. Um certo dia, devido a algumas dores e a um pouco de ronha, fui queixar-me ao capitão dizendo que não podia continuar a trabalhar e teria que ir a Bissau fazer uma radiografia à mão. Ele ficou um pouco atrapalhado, mas compreendeu o meu esforço e pediu-me para ir ter com o furriel mecânico para ver se ele arranjava quem fosse capaz de me substituir.

Assim fiz e, em conjunto com o furriel, preparamos um condutor que depois de umas breves noções já se desenrascava, era um camarada de Freixo de Espada à Cinta que pertencia à CCAÇ 413.

A sua primeira e única saída, no dia 19, foi para Bissorã, e passado algum tempo da coluna ter partido de Mansoa chegou uma comunicação via rádio de que tinha rebentado uma mina debaixo da autometralhadora e que o condutor tinha ficado ferido.

Resultado, o carro ficou com a frente parcialmente destruída, tendo uma das rodas ido pelo ar e ficado em cima de uma árvore. Apenas o condutor tinha sofrido algumas escoriações no rosto e numa das pernas.

Mais uma vez o meu bom anjo intercedeu por mim e creiam que não ficou por aqui este meu fado.

Como o carro ficou inutilizado, no dia 18 de outubro regressei a Bissau, substituído por outro carro e outra guarnição.

(Continua)

(Seleção, revisáo / fixação de texto, título: LG)

___________________


Nota do editor LG:

(*) Últrimo poste da série > 30 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27269: O início da guerra (Armando Fonseca, ex-sold cond, Pel Rec Fox 42, mai 62 / jul 64) - Parte I: aquele terrível mês de setembro de 1963

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26825: (Ex)citações (433): Ao pesquisar na Net informações relacionadas com o aquartelamento de Nova Sintra, li as crónicas do Fur Mil Joaquim Caldeira, da CCAÇ 2314, e numa delas com o título “Um tronco sem pernas e sem braços”, verifiquei que, pelas piores razões, eu era um dos protagonistas da história (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)

1. Em mensagem enviada ao blogue, o nosso camarada Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), a propósito do seu incidente, contado no post P26820 de ontem, conta-nos como um acaso de pesquisa na net, o levou até um camarada da CCAÇ 2314, o ex-Fur Mil Joaquim Caldeira, que comandava a coluna apeada que saiu de Tite em direcção a Nova Sintra. Neste percurso, o malogrado soldado da CCAV 2483, de seu nome Domingos da Conceição Verdade Ventinhas, natural do Concelho de Moura, pisou uma mina antipessoal reforçada, que além da sua morte, originou ferimentos graves ao Aníbal que seguia muito perto dele.
O título do texto que se segue diz tudo.



1 - EMOÇÕES E AMIZADES FORTES

Ao pesquisar na Net informações relacionadas com o aquartelamento de Nova Sintra, na Guiné, tive acesso ao Blogue do Batalhão de Artilharia 1914, que o meu, Batalhão de Cavalaria 2867, rendeu na região do Quínara em Março de 1969.

Nele li as crónicas do Furriel Joaquim Caldeira, da CCAÇ 2314, e numa delas com o título “Um tronco sem pernas e sem braços”, verifiquei que, pelas piores razões, eu era um dos protagonistas da história (ver recorte de imprensa abaixo). Fiquei com muita curiosidade e vontade de falar com o Caldeira.

Através do mensenger do facebook fiz-lhe chegar, em 30/11/2016, a seguinte mensagem:

Amigo Joaquim Caldeira

Peço desculpa por o tratar assim, mas creio que não me levará a mal este tratamento. Não nos conhecemos pessoalmente, muito embora tivéssemos tido um contacto pessoal, no, para mim, trágico dia 04/08/69.

Na net, ao pesquisar informaçoes e relatos sobre Nova Sintra, encontrei as suas crónicas e numa delas a referência àquele dia trágico com o título “Um tronco sem pernas e sem braços”. Eu era o vagomestre da CCAV 2483 sediada em Nova Sintra, que naquela madrugada chuvosa, fomos comboiados de Tite para Nova Sintra, numa coluna apeada que o meu amigo comandava e que segundo refere na crónica “tinha perdido os dois olhos”.

As lesões que sofri nos olhos e de que tenho sequelas, não foram tão graves quanto à aparência daquele dia. Estive quarenta dias no Hospital Militar de Bissau, trinta dos quais internado e dez na consulta externa. Nos primeiros vinte dias não via rigorosamente nada, para além das dores horríveis nos olhos.

E passo a apresentar-me. O meu nome é Aníbal (...) e quero agradecer-lhe o muito que fez por mim naquele dia.


Dias depois o Caldeira telefonou-me, mas não foi possível estabelecer qualquer conversa, tendo ele enviado a seguinte mensagem:

“Boa tarde, sou o Caldeira. Ainda estou comovido com a notícia de que, o homem que ficou cego naquela manhã, afinal vê. Levei quase 50 anos com estes demónios que me atormentavam desde então. Desculpa não ter conseguido falar. È muita emoção para gerir. Temos muito que falar , muitas memórias para recordar. Afinal, consegues ver e estou muito feliz por isso. Em boa hora me lembrei de escrever aquela aventura. Sem isso nunca teria tido paz e sossego. Também nunca cheguei a saber quem foi que pisou a mina. Assim que puder eu ligo. Ficas a pertencer ao meu grupo de combate.

Um abraço sentido,
J Caldeira”.


********************

Poucos dias depois o Caldeira, já refeito das emoções, voltou a ligar e então lembramos o acontecimento do tal dia, falamos sobre a vida pessoal e profissional de cada uma. Passamos a trocar mensagens nos aniversários, pela Páscoa e pelo Natal, mas faltava um encontro cara a cara para um melhor conhecimento pessoal. Tal tornou-se realidade no dia 22 de Setembro de 2018, data em que a sua companhia (CCAÇ 2314) realizou no Porto mais um almoço/convívio.
Fui convidado e estive presente.

Houve uma missa na Igreja do Cristo-Rei, à Boavista, e foi aí o local de concentração do pessoal. Só conhecia o Caldeira pela fotografia do facebook, bem como ele a mim. Ao chegar ao local identifiquei-o, embora estivesse de costas para mim. Os camaradas que o rodeavam não me conheciam e não sabiam o que ia acontecer. Toquei-lhe no ombro, ele virou-se e disse “tu és o Aníbal”.

Seguiu-se um abraço forte e emocionado por breves momentos e um humedecer dos olhos. Depois fixou-me olhos nos olhos e disse sentir uma enorme alegria pelo facto dos seus receios, de que ficara cego, não serem reais. Novo abraço e a minha apresentação aos seus amigos, dizendo, lembram-se daquela coluna apeada de Tite para Nova Sintra, em que um soldado desta companhia pisou uma mina e morreu e um Furriel tinha ficado sem ver?

Pois é, o ceguinho é este que está aqui à vossa frente e com os olhos bem abertos. Ficaram surpreendidos e satisfeitos e um deles à boa maneira da linguagem da tropa disse: "Oh pá, tiveste uma sorte do c@r@lho, nunca pensamos que voltases a ver, tanta a lama que tinhas na cabeça".

Seguiu-se a missa em homenagem a um camarada que falecera no ano anterior e a deposição de um ramo de flores na sua sepultura no cemitério da Foz do Douro, no Porto, seguida de animado almoço em Leça da Palmeira.

E ficou para sempre, a amizade, forte, sincera e desinteresada, construída na adversidade.

Arcozelo, 17 de Abril de 2025
Aníbal Silva



2 - UM TRONCO SEM PERNAS E SEM BRAÇOS

Lá vou eu, de novo, a caminho de Nova Sintra, desta vez comboiar alguns militares da unidade lá aquartelada. Meus, eram para aí vinte homens. De Nova Sintra apenas quatro. Mas alguém havia de fazer segurança para que eles chegassem bem. Saímos de Tite pelas três horas, numa madrugada chuvosa e escura. Pedi ao Zé Carlos, o enfermeiro, que seguisse ao meu alcance. Sempre poderiamos falar se fosse preciso.

Desta vez não me fazia acompanhar de guia, pois que o caminho era já sobejamente conhecido, embora nunca trilhássemos o mesmo. Lá fomos seguindo perto da picada que já nos era familiar, umas vezes à direita, outras à esquerda. Tínhamos passado Gatangó e informei, via rádio, que tudo seguia normal. A chuva era cada vez mais intensa, mas chuva civil não molha militares. A previsão de chegada era pelas oito horas e tinha combinado que um pelotão de Nova Sintra viria ao meu encontro logo, que houvesse luz para nos podermos juntar sem problemas.

BUMMMMMMMMMM... grande estrondo. Alguém tinha pisado uma mina. Após os procedimentos que se impunham, tentei saber quem tinha sido o infeliz. Mas ninguém sabia quem teria sido e não se via nada que pudesse indicar homem ferido. Tanto pior. Um soldado dos meus, já não me recordo de qual, disse-me que tinha voado por cima de mim e estava bastante ferido num braço, provocado pela queda. Entrguei-o ao Zé Carlos e continuei as buscas ajudado por quem estivesse são. Três homens vieram ter comigo. Um caminhava amparado pelos outros dois e pensei que estivesse encontrado o infeliz. Mas não. Era mais um, Furriel de Nova Sintra, que nunca cheguei a conhecer, que tinha perdido os dois olhos. Já não tinha dúvidas de que ainda havia outro. Este tinha os dois pés. O Zé Carlos não tinha mãos a medir e o Lourenço, o radiotelegrafista, não parava de comunicar com o Furriel Garcia, este em Tite, o que se ia passando.

Após algum tempo de buscas, alguém tropeçou numa coisa que parecia um corpo. Sem luz não era fácil saber do que se tratava, porque até podia ser um animal que tivesse, ao fugir de nós, ter pisado a mina. Fui verificar e após ter revirado o que restava, apurei que era uma cabeça presa a um tronco sem pernas e sem braços. Despi o blusão e embrulhei-o o melhor que pude, pedi a alguém que o carregasse e pedi ao Zé Carlos que o mantivesse vivo. A Força Aérea não evacuava mortos. A única maneira, disponível, era injetar CORAMINA e, sem saber, abreviámos-lhe a morte.

Pobre dele. Já não sentia sequer que vivia. Nunca cheguei a saber quem era. Chegados a Nova Sintra, consegui convencer a enfermeira paraquedista a levá-lo no avião, como se ainda estivesse vivo. Ela não era trouxa, mas compreendeu o meu problema, pois sabia que eu teria de carregá-lo de regresso a Tite, o que só poderia acontecer no dia seguinte durante a noite.

E assim se passou mais um episódio. Júlio Garcia, tu lembras-te muito bem. Comenta este episódio, tal como poderás comentar os restantes. Tu também os viveste. Só o Zé Carlos não pode por ter falecido pouco tempo após termos regressado a Portugal.

Joaquim Caldeira
Furriel Miliciano da CCAÇ 2314

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Notas do editor

Vd. post de 20 de Maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26820: Vivências em Nova Sintra (Aníbal José da Silva, Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483/BCAV 2867) (11): O meu acidente

Último post da série de 4 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26764: (Ex)citações (432): Gosto de arquivar para mais tarde recordar e por vezes surpreender os amigos com peripécias vividas há anos (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)