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terça-feira, 17 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27831: (De)Caras (244): Alf mil inf MA Machado, natural do Porto, e alf mil inf Eduardo Figueiredo, que tinha casa em Bissau; ambos já falecidos (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)


Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 25 de dezembro de 1968 > Almoço de Natal com o pessoal da CCS e da CART 1744... À direita, o alf mil MA Machado, seguido do nosso camarada Virgílio Teixeira, ambos naturais do Porto.


Foto nº 2 > Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 25 de dezembro de 1968 > Almoço de Natal com o pessoal da CCS e da CART 1744. Do lado direito, ten SGE Godinho, alf Azevedo do Pelotão de Morteiros, Alf Carvalheira da Ferrugem e eu, Vt. Não está o alf Figueiredo. Este de óculos não sei quem é (à esquerda, em primeiro plano).


Foto nº 3 > Guiné > Região do Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 24 de dezembro de 1967 > Ceia de Natal > Presidida pelo comandante de Batalhão, tenente coronel Armando Vasco de Campos Saraiva, pessoa de uma rara delicadeza e personalidade. (**)

No segundo ano, 1968, já assim não aconteceu, o trágico desfecho de uma mina A/P em 20 de novembro desse ano, levou-o definitivamente para a Metrópole, onde após operações sucessivas, conseguiu sobreviver e se encontrou, passados mais de 15 anos, com os seus militares num almoço realizado em Tomar. (Foi substituído pelo ten cor inf Renato Nunes Xavier; o 2º cmdt era o maj inf Américo Correia.)

Pode ver-se no topo da mesa o nosso saudoso comandante, fardado, ladeado, como ele gostava, de duas senhoras, a mulher do tenente mil médico Cortez, e da mulher do alferes mil Figueiredo, recrutado na Guiné, onde vivia. Perto dele, os dois majores, Américo Correia e Graciano Henriques, bem como o médico.

Podem ver-se o cap inf José Bento Guimarães Figueiral Figueiral (comandante da CCS), Martins (o oficial de informações e ainda o oficial de pessoal e reabastecimentos), e outro que não conheci muito bem.

No outro topo da mesa, está o pessoal menor, os alferes milicianos.


Foto nº 4 > Guiné > Região do Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 31 de dezembro de 1967 > Jantar de fim de ano na messe de oficiais, o Comandante à civil, a brindar a todos. Os protagonistas são os mesmos, vê-se de óculos, o alferes comandante do Pel Rec Daimler 1143, Carvalho. Foi a última fotografia que tenho do nosso Comandante Campos Saraiva. O Machado será o primeiro da esquerda.



Foto nº 5 > Guiné > Região do Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 31 de dezembro de 1967 > Jantar de fim de ano na messe de oficiais. O Figueiredo só se vê a cabeça, em grande plano, e a esposa, ao lado.

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



O Virgílio e a esposa Manuela, na Tabanca de Matosinhos, 
Restaurante Espigueiro (ex-Milho Rei), 
5 de setembro de 2018 
(Foto: LG, 2018)

1. Seleção de fotos do álbum do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69). Mensagem de 13 do corrente, sexta, 000:01:

Luís estou a enviar algumas fotos onde aparecem os nossos visados (*), todos da CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69), a que eu pertenci:
  • Machado - Alf Mil de Minas e Armadilhas, natural do Porto;
  • Eduardo Figueiredo - Alf Mil de Pelotão de Reconhecimento e Informações, a viver em Bissau na altura do recrutamento;
  • Carlos Alberto Cardoso - Cap inf, cmdt da CCS (em substituição  do Figueiral).

Tens fotos em jantares na messe de oficiais, com ou sem a presença do nosso comandante de batalhão, quer em Nova Lamego quer em São Domingos.

Tinha muito que procurar e não há tempo por agora. A ideia é ver como eram estes três camaradas no tempo em que estivemos juntos,

Tens numa das fotos o Figueiredo, de costas e a sua esposa ao lado. Mas já te enviei mais.

Tens o Machado na messe ou noutros eventos. É fácil reconhecer. Tens o capitão Cardoso, oriundo da academia e a sua jovem esposa em lua de mel. Também está, em muitas fotos, o nosso médico, capitão mil Cortez, e a sua esposa. (A ver em próximo poste desta série.)

Faz o que entenderes, pois eram, os três camaradas impecáveis, que só conheci na tropa. Com o Figueiredo e o Machado tive convivência mais chegada no nosso quarto de 5 ou 6 pax. E na messe.

Se tiveres dúvidas pergunta por favor. Tentei legendar mas dava sempre erro.
Abraço, Vt.




Foto do Eduardo Figueiredo (*)


2. Comentários do Vt, ao poste P27811 (*)

Tenho ideia deste acontecimento que não causou vítimas.

O Machado, a que chamávamos na brincadeira de Machadão, pelo seu porte acima do normal, era também colega de quarto comigo e outros oficiais, alferes e um tenente. Era um grande amigo. Depois em 20nov68, houve a tal mina e emboscada às portas do quartel onde o comandante ten cor Saraiva ficou ferido com as pernas ao dependuro.

Morreu alguém que não posso precisar e o nosso Machadão ficou ferido e foi também evacuado. (Náo parece ter morrido ninguém, no CTIG, em 20/11/1968 | LG.)

Encontrei-o uns anos depois. No Porto. Na praça D. João l. Mais tarde soube que morreu antes do tempo.

Tinha algumas cenas para contar, talvez num próximo dia. Dele e do Figueiredo.

O nosso capitão Cardoso, foi substituir o nosso primeiro comandante da CCS, o capitão Figueiral (que foi para o QG). Estivemos em alguns almoços. Mas já faleceu também. O capitão Cardoso esteve lá em São Domingos. Com a mulher em lua de mel.

Tenho várias fotos com ambos que enviarei ainda hoje, sexta feira, por email para o Luís Graça. Tenho alguma nostalgia estar agora a relembrar esses tempos. (...)

quinta-feira, 12 de março de 2026 às 00:50:00 WET
 

(...) Agora reparei melhor o nosso homem das minas e armadilhas, baixado,  a retirar uma enorme mina! Pelo aspecto vê-se bem o seu bom aspecto de homem grande!

Era mesmo assim. Não sei nada de minas. Tenho um cunhado que também era sapador em Mueda, Moçambique. (Teve uma cruz de guerra, enaltecendo a sua pessoa, mas em particular, pela sua descontração e paciência na sua missão. Acho que era outra adjectivação mas já não me lembro. Essa condecoração valeu-lhe vários privilégios entre eles regalias nos estudos dos filhos. Ainda hoje é de uma calma impressionante. Era essa a palavra que me faltava. Calma. 
Nunca falámos das suas missões.)

O Machado era mesmo assim. Também de uma grande calma. 

O também já falecido Eduardo Figueiredo, enorme nas suas brincadeiras, teve aqui uma bela e inolvidável foto.

Quanto ao alf mil Figueiredo, conforme HU, apresentou-se na CCS /BCAÇ 1933, em 19nov67. Não era da formação do batalhão do RI15.

Era de infantaria, não constando ser de operações especiais, nem nunca se falou disso. Salvo melhor opinião.

Foi um companheiro que se integrou bem junto dos seus camaradas de quarto e vivência.
Mas nas alturas em que estava a esposa, encontrávamo-nos na messe ao almoço e jantar.
Ele teria outros aposentos, em Nova Lamego e em São Domingos, que nunca soube onde eram. (...)

E Viva São Domingos,  que também aparece neste enorme blogue. (...) (***)

quinta-feira, 12 de março de 2026 às 10:13:00 WET

(Revisão / fixação de texto: LG)
_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 11 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27811: Fotos à procura de... uma legenda (200): mina anticarro reforçada... na estrada de S. Domingos-Susana, 10/8/1968... 13 kg de trotil... Felizmente detetada e levantada em segurança, o sapador do IN era um trolha da construção civil... (Eduardo Figueiredo / José Salvado)

(**) Vd. poste de 24 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19329: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LVII: Festas de Natal e Ano, Nova Lamego 67, São Domingos 68

(***) Último poste da série > 31 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27688: (De) Caras (243): Procura-se um senhor da Rádio chamado Carlos Boto, que terá feito 3 comissões de serviço no CTIG, esteve em Cabuca, e trabalhou depois no Rádio Clube Português até 2010 - Parte III

quinta-feira, 12 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27814: O armamento do PAIGC (11): A mina anticarro russa TMD, reforçada com granadas de Pancerovka P27, um LGFog, de origem checa, a que o "Zé Turra" chamava "pau de pila" e só estorvava...


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026): Transcrição e esquema técnico elaborados com apoio de ChatGPT, modelo de linguagem da OpenAI (11 de março de 2026)


Guiné > Região de Cacheu > CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69) > Estrada S. Domingos - Susana, a meio caminho para Nhambalã > 10 de agosto de 1968 > Mina soviética anticarro, reforçada com 2 granadas de Pancerovka P-27, um LGFog, de origem checa, uma arma antitanque desenhada em 1946-1949 e produzida pela Skoda. (Lapso do Eduardo: não é Pankerovsky mas Pancerovka que em checo quer "panzer", "tanque", "blindado").

Foto alojada em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzidas com a devida vénia). (*)

Foto (e legenda): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


O LGFog Pancerovka P-27, de fabrico checo.
Cortesia de Wikimedia Commons.
Infografia: Blogue Luís Graça
& Camaradas da Guiné (2026)

1. Sobre este LGFog / RPG / bazuca, sabemos que equipou os exércitos da Checoslováquia e da Polónia nas décadas de 1950-60 até ser substituído pelo RPG-7 soviético e pelo RPG-75 checo.  Já "sucata", foi parar às matas da Guiné nos primeiros anos da guerra colonial (55 unidades, entre 1964 e 1968).


Não devia ser uma arma muito portátil e "maneirinha" (tal como a nossa bazuca)... No mato, não dava jeito, com aquele capim, aquelas lianas, aquele tarrafe... Mas a besta de carga do balanta  aguentava tudo....

Quando a longa metragem da guerra ia a meio, sem direito a intervalo para o cigarro e o chichi, o "Zé Turra" acabou por trocar a panzer" pelo RPG-2 e pelo RPG-7. E, pelos vistos, foi "semeando" granadas pelas picadas da Guiné, reforçando as minas TMD russas,
anticarro, de armação em madeira.

Ficha técnica:
  • Peso da arma: 6,4 kg (não carregada)
  • Peso da granada: 3,75 kg 
  • Calibre: 45 mm o tubo, 110 mm a granada;
  • Comprimento da arma: 1030 mm;
  • Comprimento da granada: 720 mm;
  • Alcance efetivo: 200 m
  • Operação: 2 homens (atirador e municiador):
  • Cadência de tiro: 4 tiros por minuto.
Em checo, Pancéřovky quer dizer "panzer", "tanque", "veículo blindado"... 

O Pancerovka P-27  foi uma arma antitanque checoslovaca utilizada nas décadas de 1950 e 1960, sendo posteriormente substituída pelo RPG-7 soviético (introduzido em 1963) e pelo RPG-75 checoslovaco  (a partir de 1975). 

2.  História da Pancerovka P27:

Após a Segunda Guerra Mundial, um grande número de armas antitanque alemãs foi capturado na Checoslováquia, especialmente o Panzerfaust 60 (no exército checoslovaco do pós-guerra, referido como Panzer N) e o Panzerschreck. 

Daí, e logicamente, a Checoslováquia ter  começado a desenvolver a sua própria arma antitanque, capaz de penetrar qualquer blindagem com espessura, na época, até 200 mm (20 cm).

O desenvolvimento deste LGFog foi encomendado em dezembro de 1947, com a designação de projeto PPZ. A condição era um peso de até 5 kg e um alcance efetivo de 100 metros, com possibilidade de disparos repetidos. A pólvora utilizada deveria sem fumo.

O desenvolvimento foi realizado pela Konstrukta Brno (Praga) e liderado por Ladislav Urban. A partir de 1950, este LGFog foi projetado como uma arma de cano liso e grosso calibre. Em maio de 1950, a comissão de armamento concordou em introduzir a arma sob a designação Pancerovka 75, sendo o número indicativo do alcance de tiro em alvos móveis.

A produção começou na fábrica Zbrojovka Vsetín. Diversas outras modificações se seguiram e a arma foi rebaixada como Pancerovka 27.

O preço da arma em 1955 era de 1.800 CZK. O Exército Popular Checoslovaco possuía um total de 18.400 unidades desta arma nos seus arsenais, em 1958.

(...) Entre 1951 e 1953, 2600 unidades foram exportadas para a Polónia. A Albânia encomendou 1000 unidades em 1954. 

No primeiro semestre de 1957, o Pancéřovky (em checo) foi exportado para o Iémen (1000 unidades). A Frente de Libertação Nacional da Argélia recebeu um total de 48 unidades entre 1957 e 1959, e outras 100 unidades em 1961. Outra ex-colónia francesa, a Guiné-Conacri, recebeu 150 unidades entre 1958 e 1960. Entre 1967 e 1970, o Pancéřovky 27 foi exportado também para a Nigéria e o Biafra.

O número exato exportado destas armas não é claro: por exemplo, em 1967, 75 unidades foram exportadas para a Nigéria. Em 1967, também foram aprovadas vendas de armas para o Egito e a Síria, e, no mesmo ano, 10 unidades foram entregues á Frelimo, Moçambique. Entre 1964 e 1968, 55 unidades foram entregues à Guiné Portuguesa (atual Guiné-Bissau).(...) (**)

Fonte: Wikipedia > Pancéřovka 27 (em checo) (traduzido do Google Tradutor, adapt. LG)


3. Comentário do editor LG:

Na gíria do PAIGC, as armas tinham alcunhas. Este Lança Granadas-Foguete Pancerovka P-27 , tinha várias, segundo o nosso saudoso A. Marques Lopes (1945-2025) (***);
  • Bazuca Bichan,
  • Lança Grande, 
  • Pau de Pila,
  • Bazuca Chinês.
Pau de Pila é uma alcunha bem pícara!... Mas Bazuca Chinês?!... Porque carga de água? O arsenal do Amílcar Cabral, que andava de mão estendida por todo o mundo, à cata de sucata militar para expulsar os "tugas", era uma verdadeira "Torre de Babel"... Um bico de obra para o pobre do quarteleiro das "barracas" do PAIGC, que tinha armas e munições de todos os fabricantes, modelos e calibres... 

Mas o "Zé Turra", balanta, biafada, mandinga, nalu...,  não sabia nada de geografia, é natural que confundisse a Checoslováquia e a China... Que importa, começavam os dois por C ou "Tch"...

Que merda de guerra, amigos e camaradas da Guiné!... As armas são como as p*tas, que não precisam de licença para f*der. 

(Pesquisa: LG | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

quarta-feira, 11 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27811: Fotos à procura de... uma legenda (200): mina anticarro reforçada... na estrada de S. Domingos-Susana, 10/8/1968... 13 kg de trotil... Felizmente detetada e levantada em segurança, o sapador do IN era um trolha da construção civil... (Eduardo Figueiredo / José Salvado)







Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > 10 de agosto de 1968 > CCS/BCAÇ 1933 e CART 1774 > Levantamento de uma mina A/C reforçada, com duas granadas checas (de Pancerovka P-27)-. Foi detetada por picadores da CART 1744.

Transcrição do documento:

S. Domingos, 10-8-68 / Guiné

O alf Machado, sapador, rasga a terra
para retirar uma mina colocada
na estrada S.D. → Susana, a meio
caminho para Nhambalã, a cerca
de 5 Kms de S. Domingos. A mina
estava mal montada:

(i) os detonadores não tinham sido
colocados;

(ii) o tampão (? com a mola de pressão) estava paralelo à estrada
em vez de estar horizontal.

Foi detectada pelos picadores da
CART 1744. A observar o
cap  Cardoso da CCS.

Guiné, S. Domingos, 10-8-68

A mina levantada:

2 Pancerovka (checas) ou 2 granadas
de LGFog, ligadas a uma mina
TMD (russa). Os 2 detonadores
também são russos,  tipo MUV, e eram
de compressão. Não estava arma-
dilhada. A mina pesava cerca de
6 quilos, só em explosivo (trotil) e as
granadas cada uma tem 3,5 Kg só
de trotil. Total: 13 Kgs só de
explosivos. Com as partes neutras e 
armações o conjunto iria para os 20 Kgs.

No canto inferior da direita nota-se o
orifício de saída donde foi retirada.

Fotos alojada em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzidas com a devida vénia).

Fotos (e legendas): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Estas imagens fazem parte da plataforma, alojada na página do Agrupamento de Escolas José Estêvão (AEJE), Aveiro e Cultura > Arquivo Digital, de que é coordenador o professor Henrique Oliveira, a quem saudamos pela paixão, rigor e perseverança na criação e manutenção deste arquivo digital.

Informação complementar enviada em 15 de maio de 2010 (23:29) por José Lourenço Saraiva Salvado (foto atual à esquerda), que esteve em S. Domingos, Guiné, tendo iniciado a comissão em 25/07/1967 e terminado em 20/05/1969. (O José Salvado é membro da nossa Tabanca Grande, desde 15 de maio de 2016; tem 8 referências no blogue; é hoje advogado.)

Prestei serviço em S. Domingos e noutros locais, porque fazia parte da CART 1744, companhia de intervenção às ordens do Comando-Chefe, pelo que, para além de estar sediada em S. Domingos, esteve em intervenções em Susana, Varela, Ingoré e Cacheu, tendo combatido em Ingoré, Susana e S. Domingos. 

A mina, cuja foto foi enviada pelo camarada Eduardo Figueiredo, de quem já não me recordo, foi detectada em operação de picagem, mesmo ao meu lado, com as duas granadas incendiárias, que só por mero acaso não ocasionaram vítimas, porque o instalador se esqueceu de retirar a segurança dos detonadores. 

Pensa-se que, aquando da montagem da mina acompanhada, foi feito um ataque a uma povoação que foi socorrida em tempo recorde, pelo que as viaturas de socorro passaram por cima das minas, não sendo accionadas por erro do instalador dos artefactos. Posteriormente, numa visita de apoio psicológico para manter o ânimo das populações da povoação atacada, com trabalho de picagem, é que a mina foi descoberta. 

José Salvado, 
ex-furriel miliciano


2. O autor das fotos é o Eduardo Figueiredo, ex-alf mil op esp, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69) (foto à direita).

Segundo informação do seu camarada e grão-tabanqueiro Virgílio Teixeira (Vt), o Eduardo já  terá morrido há uns anos, vítima de doença oncológica. 

Temos fotos do Vt com ele, que publicaremos em próximo poste.

(Revisão / fixação de texto, transcrição de manuscrito, título: LG)
________________

Nota do editor

(*) Último poste da série > 5 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27798: Fotos à procura de... uma legenda (200): Bingo, Paulo Raposo e Nelson Herbert!... Acertaram: é o antigo edifício da Marinha e Oficinas Navais, junto ao cais do Pijiguiti, Bissau

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27777: Documento (61): A retirada de Madina do Boé (e de Béli), segundo Gustavo Pimenta, autor de "A Sorte de Ter Medo" (2017), e com recensão de Beja Santos


Gustavo Pimenta


Capa do livro "A sorte de Ter Medo", de Gustavo Pimenta (Coimbra, Palimage, 2017, 198 pp., SBN 978-989-703-170-0, preço de capa, 17,00 euros (Indisponível)


Um impressionante relato sobre a retirada de Béli e Madina de Boé: recensão do livro "A sorte de ter medo", de Gustavo Pimenta (2017)

por Beja Santos 

1. Preâmbulo

Há anos atrás, aqui se saudou "sairòmeM - Guerra Colonial", de Gustavo Pimenta (*). É deplorável a ausência do registo desta obra em quem estuda a literatura da guerra, deplorável e injusto. Adiante.

Foi publicado recentemente este livro que impressiona pela singeleza, o discurso próximo e distante, a impressionante capacidade retentiva daquele mais de um ano que ele viveu em Madina do Boé, não conheço outro romance em que se fale com tanto pormenor da retirada dos dois quartéis, Beli e Madina (**), e que foram determinantes para o evoluir da guerra, quando o Boé se transformou em abandono por falta de presença portuguesa, o que deu ocasião para as grandes mudanças que o PAIGC operou no Norte e no Leste. É indispensável ler Gustavo Pimenta

De facto, desconheço que exista descrição tão minuciosa como a que Gustavo Pimenta faz do período de 1968 até à retirada de Madina de Boé, no início de fevereiro do ano seguinte. Quando chegam, ao fim da primeira semana, até duvidavam do que lhes tinham dito sobre aquele tão temível local.

Iremos viver uma escalada de flagelações, haverá compassos de espera, até tudo deflagrar em fogo em qualquer hora, o comandante de companhia ainda irá tentar uma série de expedientes para fazer regressar à normalidade a existência daqueles homens permanentemente acossados. 

Spínola decide ainda em 1968 a retirada de Béli e em fevereiro retira-se de Madina de Boé.

Iremos seguidamente falar de uma tragédia que marcou indelevelmente quem a ela sobreviveu.

Nestas coisas da escrita entre guerreiros, não vale a pena ter ilusões sobre a densidade autobiográfica. Gustavo Pimenta volta à Guiné e desvela o que foi a vida da sua companhia naquele período em que ali viveram entre 1968 e 1969.

Admito que haja outros relatos tão circunstanciados, só conheço este, e impressiona-me muito. Dirá talvez coisas que serão alvo de polémica, quanto às razões pelas quais aquela jangada tremeu, e quem deu ordens. Não quero estar na pele de quem perdeu 16 homens.

Recomendo sem qualquer hesitação a leitura urgente desta narrativa que ressuscita os fantasmas de Béli e Madina de Boé.


2. Nota de leitura (**):

Em 1999 Gustavo Pimenta publicou na Palimage “sairòmeM – Guerra Colonial”, aqui foi saudado com entusiasmo a obra, injustamente pouco referenciada (*).

Gustavo Pimenta está de volta com “A sorte de ter medo”, romance, Palimage, 2017. A urdidura não anda muito longe da sua anterior incursão pelas terras guineenses. No caso presente, há um avô que é interpelado do seguinte modo: “Avô, como sobreviveste à guerra?” e começa uma longa viagem de um limiano magricela que recebeu guia de marcha para as Caldas da Rainha, completou a recruta com elevada média e aceitou ir para o curso de oficiais  [COM], como atirador.

 Ainda passou uns dias pela Escola Prática de Administração Militar [EPAM],  depois mandaram-no para Mafra, aplicou-se, já aspirante foi colocado em Penafiel, seguiu depois para Tancos, onde tirou o curso de minas e armadilhas, segue para Tomar, irá combater na Guiné. 

Em 3 de outubro de 1967 o navio Timor acostou em Bissau.

Uma pausa para refletir com o leitor sobre a diferença abissal entre o escrever fácil e o escrever simples. Gustavo Pimenta discorre, é como se aquelas memórias que lhe apetecessem romancear, fossem contadas para que houvesse um entendimento absoluto, nunca desce ao facilitismo, à fluência deixada à toa, é uma simplicidade com calibração, em dois tempos, o que se exprime na conversa e uma súmula que volteia em pensamento. 

É esta construção que torna a leitura credível, sincera, memória que fica para as próximas gerações. Sem fugir aos diálogos brutais, ao enfrentamento, como nos conta de uma ida aos correios, estavam em Fá, foi com o capitão  [inf José Aparício], a Bambadinca, e é interpelado pelo comandante do batalhão :

- Que merda é essa que tens na cara? 

Ele passou a mão pela cara, olhou-a, e disse: 

- Não vejo merda nenhuma. Onde a tenho? 

O capitão interveio de imediato: 

- Meu coronel, o nosso alferes está devidamente autorizado a usar barba. 

- Autorizado? Isso são manias dos marinheiros, que no Exército dispensamos bem. 

Antes que a coisa azedasse, o capitão mandou o alferes para junto do jipe em que tinham vindo e ficou a conversar com o  coronel. Quando se lhe juntou, disse: 

- Assunto resolvido, mas veja lá se responde noutros termos a um oficial superior.


Estão a adaptar-se ao terreno, colaboram em operações, vão ao Xitole, depois Sinchã Jobel, tudo sem contacto mas com muita canseira. Em novembro seguem para o Poindom, é o batismo de fogo, morre um cabo atingido no pescoço, no regresso ao Xime são várias vezes flagelados por disparos de inimigo, voltam à base, Fá Mandinga. 

Há, em toda esta singela narrativa, alguém que é permanentemente considerado e respeitado: o comandante de companhia, homem prudente, sempre empenhado em manter a tropa em atividade, ninguém estava autorizado a andar de chanatas, firme e dotado de autoridade natural. 

Nova operação, desta feita na região de Caresse, o objetivo era uma total ruína, não havia um menor sinal de por ali alguém ter estado nos tempos mais recentes. 

De Fajonquito regressaram a Fá. Ainda estão nos previstos três meses em regime de intervenção, são levados até Bolama e sem razões a operação é cancelada e mandados regressar. 

Em 8 de dezembro chega a notícia: a companhia irá entrar em quadrícula em Madina de Boé. Entrementes, saem de Bissau para uma nova investida ao refúgio na mata de Poindom, referência de má memória. Tudo volta a correr mal, são emboscados, as munições escasseiam, voltam ao Xime para se remuniciar, nem novas nem mandados, não se avistou nenhum inimigo. 

Na véspera de Natal, estão em Porto Gole, em plena confraternização, o PAIGC flagela com armas ligeiras. Saem nesse mesmo dia para uma operação cujo objetivo é Sarauol e Sara, não encontram resistência, regressam a Porto Gole e depois andam a fazer patrulhamentos no rio Mansoa.

 Até que em 8 de janeiro voltam a Bambadinca, seguem para Nova Lamego, aqui começam os preparativos para se deslocarem para Madina. 

Saem manhã cedo, até Canjadude as viaturas seguem a boa velocidade, a partir daí a viagem é a pé, tudo picado; pela mesma hora uma outra equipa de picadores sai do Ché-Ché em sentido contrário ao da coluna. O desconcerto da guerra vai mesmo agora começar:  

“Estabelece-se o contacto: quatro nativos, com Mauser a tiracolo e uma pica na mão, aguardam a coluna sentados na berma à sombra de uma árvore. Escassa e débil força para tão delicada missão. A tropa retoma o seu lugar nas viaturas, a coluna avança pela estrada esburacada de terra batida.

Escassos quilómetros percorridos a viatura que segue na frente – uma GMC, sem capota para evitar traumatismos ao condutor em caso de rebentar alguma mina e com os guarda-lamas cobertos de sacos de areia para amortecer o impacto – é violentamente sacudida pelo rebentamento de uma anticarro.

O major de engenharia, que exigira ir ao lado do condutor na viatura da frente para não apanhar a nuvem de pó que a coluna levanta, fica gravemente ferido.

Parada a coluna, procura-se socorrer o major. O furriel que, a dias do fim da comissão o quis acompanhar, ao precipitar-se para ele pisa uma antipessoal e morre minutos depois.

O enfermeiro fica ferido pelos dois rebentamentos.


Monta-se segurança em volta do local. Picam-se os arredores à procura de mais minas, rebentam duas, uma delas fere mortalmente um soldado do grupo de nativos”.

O contacto rádio falha, surgem dois helicópteros, consegue-se contacto com um deles e pede-se-lhe apoio para a evacuação. Responde que estão a evacuar feridos graves da tropa de Ché-Ché, o melhor é ir até lá.

Já com o Ché-Ché à vista, outra mina anticarro que os picadores não detectaram.  é ativada pela viatura que segue na frente, o condutor sai inexplicavelmente ileso. 

Atinge-se o aquartelamento ao fim do dia. Estão junto ao rio Corubal, avista-se a jangada que permite a travessia até Madina. Aqui vai começar a operação para chegar ao mais temido aquartelamento de toda a Guiné.


3. E“A sorte de ter medo”, romance de Gustavo Pimenta, Palimage, 2017, temos a rara oportunidade de conhecer o sofrimento de quem combateu no Boé, o autor lá viveu no ano 1968, estará de férias em fevereiro de 1969, quando ocorrerá o desastre da jangada em direção a Ché-Ché, no rio Corubal, que vitimou 47 militares.

Acompanhámos os antecedentes de um percurso que começa no alto Minho até imprevistamente chegar ao mais temível dos locais, Madina do Boé.

Três grupos de combate vão para Madina, um outro seguirá para Béli. De Ché-Ché faz-se a cambança para a outra margem, sobrevoam os bombardeiros T6, a transferência de toda a coluna demora o dia inteiro, pica-se pormenorizadamente o terreno, a proteção aérea é constante, nas bermas há carcaças de viaturas destroçadas em operações anteriores, ao fim da tarde, sem incidentes, chega-se ao local, no dia seguinte a coluna volta para Nova Lamego, começa a adaptação de Gustavo Pimenta e seus camaradas. 

Apresenta-nos Madina:

  “Está num vale, entre pequenas elevações montanhosas, únicas na Guiné. A população é maioritariamente Fula, distribui-se por uma meia centena de habitações tradicionais. 

"No início da atividade de guerrilha fora para lá deslocada uma secção de tropa. Com o evoluir da guerra, passa a ser defendida por um grupo de combate e por um grupo de milícia local. 

"À medida que a situação piora, o efetivo passa para uma companhia, que vem a ficar instalada em abrigos semi-subterrâneos, construído ao redor de todo o perímetro da aldeia. No interior são construídos abrigos idênticos para refúgio da população durante os ataques, população que cultiva pequenas porções de terreno em volta das suas habitações. 

"Com o decorrer do tempo, acaba por se formar um aquartelamento fortificado no vale, em forma de tosco quadrado com cerca de 400 metros de largo, sem nenhuma defesa nas elevações em volta”.

É cuidadoso no detalhe, na apresentação do quartel. Nos primeiros dias, tudo decorre com serenidade, fazem patrulhamentos, não há a menor novidade nem sinais do inimigo. Passada uma semana, ao anoitecer há três disparos de armas pesadas, o PAIGC apresenta-se, mas tudo parece que irá decorrer normalmente, chega-se mesmo a pôr em dúvida a apregoada perigosidade do local. 

Os sonhos esmorecem rapidamente, começam os ataques a qualquer hora do dia, os guerrilheiros estão nos montes, gozam de muita impunidade. A tensão vai crescendo, durante 12 dias o inimigo não dá sinal de si, o pessoal já joga à malha e sai descontraído dos abrigos. Depois recomeçam os ataques.

Novo período de calma, durante mais de um mês e meio não há flagelações com armas pesadas, passam-se 15 dias sem se estabelecer com qualquer contacto. A 13 de março, recomeçam as flagelações com canhão sem recuo, não há baixas nem ferimentos. 

Béli parece viver em amena tranquilidade mas subitamente a situação muda, os ataques sucedem-se às horas mais desencontradas e inesperadas.

 O mês de abril de 1968 introduz uma novidade: um ataque a Béli ao nascer do dia e a Madina ao anoitecer, será um mês de enlouquecer, qualquer coluna de reabastecimento é uma terrível operação. 

A alimentação é diretamente proporcional ao isolamento: massa, arroz e conservas, quando chega Spínola à Guiné, Madina irá receber de vez em quando frutas e legumes. 

“Seguindo a determinação do capitão, quando acontece a vinda de frescos, é feito o rateio: primeiro para os soldados, depois para os sargentos e só no fim, se der, para os oficiais. Assim se come meia maçã ou um pouco de grelos cozidos”.

Deixou de haver equívocos: Madina, tal como Béli em menor escala, está transformada numa carreira de tiro, as flagelações com armas pesadas passam a ser diárias, menos quando se sai nas proximidades para recolher lenha, o inimigo não dá tréguas. 

Em junho, Spínola começa a tomar decisões para o abandono de Béli, que decorre sob a proteção de dois T6 que acompanham um longo comboio de viaturas, um dos aviões acidenta-se, estala o pandemónio, depois de uma áspera discussão a coluna retoma a sua missão e chega a Béli ao cair da noite, sendo recebida pelo fogo inimigo de armas ligeiras. 

O regresso faz-se sem novidades, com a chegada do grupo de combate e da milícia acantonados em Béli, reorganiza-se a distribuição do efetivo.

Não há descanso em Madina, o pessoal que circula pelo aquartelamento é alvo de tiros isolados e de roquetadas. 

Chega um grupo de paraquedistas sob o comando de um tenente e com a missão específica de tentar neutralizar os atiradores de armas ligeiras que tornam infernal o quotidiano no quartel. Os Páras travam combate, o tenente é ferido com uma rajada nas coxas. As flagelações com armas pesadas não abrandam, os Páras vão-se embora. 

Tudo vai perdendo normalidade, o comandante de companhia procura animar as suas tropas, fazem fotografias de todo o pessoal, executam postais de boas festas, a energia elétrica é levada a todos os cantos do quartel, o correio não falta, o aniversário de cada militar é sempre ensejo para festejo. 

O ano de 1969 anuncia-se com a retirada de Madina de Boé, a retirada acontecerá num só dia, até lá é necessário manter as condições de defesa e a operacionalidade da companhia, o narrador está de férias, tudo quanto irá descrever é contado por outros. 

Quem comanda a operação é o comandante de agrupamento de Bafatá [cor inf Hélio Felgas],   a 4 de fevereiro, uma enorme coluna sai de Nova Lamego enquadrada por duas companhias e assim se chega ao Ché-Ché, faz-se a travessia, há uma nova jangada sustentada em barcaças da engenharia militar.

Em 5 de fevereiro os militares abandonam Madina, a estrada é cuidadosamente picada, chega-se à margem do rio Corubal a meio da tarde. Em cada viagem é levada uma ou duas viaturas, começou-se pela população civil. 

Na margem do destino, em Ché-Ché, são montados os morteiros 81 retirados de Madina, ficam apontados para as imediações da concentração das tropas e viaturas na outra margem. 

Com morosidade, a travessia concretiza-se, de vez em quando é necessário despejar a água que com o peso do movimento da jangada se vai acumulando nas barcaças de suporte. Cai a noite, a operação continua. Ao amanhecer são poucas as viaturas e tropa que ainda falta transportar.


4. E“a sorte de ter medo”, uma poderosa narrativa que Gustavo Pimenta transmuta em romance (Palimage, 2017), temos uma descrição dos acontecimentos trágicos que ocorreram em 6 de fevereiro, frente a Ché-Ché. 

Na véspera, o grosso das tropas, das viaturas, equipamentos e armamento, já atravessou o Corubal. São nove horas da manhã, entram na jangada de uma só vez as viaturas e os militares, quase todos de Madina de Boé  [CCAÇ 1790], e de uma das companhias que fazia segurança à alteração [CCAÇ 2405].

Segue-se a descrição:

“O peso é enorme, há algumas horas que as barcaças não são esvaziadas, a jangada move-se lentamente.

O pessoal faz manguitos na direção da margem abandonada e grita impropérios dirigidos a inimigos imaginários.

Percorrido cerca do primeiro terço da travessia, o tenente-coronel
 [?],   comandante da operação,  ordena, sem qualquer prévio aviso ao pessoal, que os morteiros façam fogo para as imediações do local de embarque acabado de abandonar.

Na jangada é o sobressalto: nela vêm militares que, de há longos meses, estão habituados a correr para os abrigos ou fugir para a vala mais próxima quando se escuta o som de uma granada a sair à boca do morteiro.

A jangada oscila perigosamente, não se volta, mas fica meio submersa. Alguns militares atiram-se ao caudaloso rio, muitos outros caem à água.

O pessoal está subalimentado, sem dormir há longuíssimas horas, estafado, na água as armas e cartucheiras repletas de munições pesam insuportavelmente.

Largado tudo que os empece, a começar pela arma e as cartucheiras, uns poucos retrocedem a nado para a margem de origem, que está mais perto. Outros conseguem nadar para a margem do destino. A maioria, até porque há quem não saiba nadar ou nade mal, consegue equilibrar-se e manter-se na jangada com água pelo meio do peito.

Deita-se mão da jangada antiga para onde os militares sobem. A que fazia a travessia é puxada, a muito custo, para a margem. Imenso material cai ao rio, mas as viaturas, milagrosamente, não. Há a sensação de que nem todos os homens conseguiram salvar-se.

Todos já no quartel do Ché-Ché, mandam-se formar as forças envolvidas, confere-se o efetivo: 47 militares não respondem à chamada.

É o espanto, o desalento, o choro convulsivo, a raiva a custo controlado pelos comandantes: ninguém entende a razão de se ter feito o fogo de morteiro que precipitou o desastre”.

O narrador estava de férias quando se desenrola esta tragédia, quer prontamente regressar à Guiné, onde só chega a 15 de fevereiro. 

“Na pista, o capitão espera-me. Abraça-me e chora. Convulsivamente, sem palavras, choramos”. 

O narrador perdera 16 homens do seu grupo de combate.

Duas semanas depois do desastre, um grupo de fuzileiros foi destacado para recuperar corpos. Dos 47 desaparecidos apenas foram detetados 7. 

“Em adiantado estado de decomposição, irreconhecíveis e sem quaisquer elementos que os possam identificar, são enterrados numa elevação da margem direita do rio”.

Vai começar a via-sacra dos últimos meses: Nova Lamego, Cabuca, S. Domingos, já levam 19 meses de comissão. Neste último quartel, compete a esta companhia o controlo das povoações ao longo da estrada num raio de 25 quilómetros para Oeste e outros tantos para Leste. Por ali andam a fazer inventário das armas, a ver minas e armadilhas. 

Em maio [de 1969], o inimigo tenta bombardear o quartel com fogo de morteiro, não passou de um susto, retalia-se como bombardeamento a povoação senegalesa de MPack, encostada à fronteira. 

É nessa operação que um furriel fica com o pé direito destroçado por ter pisado uma mina antipessoal, segue-se um confronto com um grupo inimigo.

A exaustão vai tomando conta daquele contingente tão afetado por Madina do Boé. Segue-se uma operação para verificar se a povoação de Barraca Batata, junto à fronteira, está habitada. Desta vez, numa linha de água, é o enfermeiro que pisou uma mina antipessoal, chegará ao hospital já cadáver. Para além do desgaste, chegou a maldita hora da debilidade psicológica. 

Um cabo que tinha no pénis protuberâncias esponjosas entra em depressão, escreve uma carta à mulher e suicida-se, deixara a mala aberta e sobre a roupa meticulosamente dobrada uma carta fechada endereçada à mulher. 

Tenta-se animar a tropa, desdobram-se as iniciativas para preencher os tempos de repouso dos soldados, há muitas cantorias. No fim de Julho, caía a noite quando meia dúzia de morteiros desassossegaram o quartel.

 É nisto que irá processar-se a rendição da companhia, o regresso é no Uíge. E ouve-se, no final deste poderoso relato, a última confissão:

“Havia jurado a mim mesmo que só mataria para não morrer, não disparei um tiro contra qualquer adversário, mas não sei os efeitos das armadilhas que montei e das minas que implantei. 

"Na hora do embarque em Lisboa, prometi à irmã de um dos meus putos que lho devolveria inteiro e a mexer: morreu-me nas águas do Corubal (…).

"Este território não acolhe uma nação, há tantas etnias e tão distintas entre si como entre cada uma delas e os portugueses aqui despejados para fazer a guerra. Com culturas tão diversas e sem, ao menos, uma língua comum, poderá algum dia construir-se aqui um país confortável? 

"Levo comigo África, o que de África me foi dado conhecer e me dizem ser dos piores bocados. Mas não esquecerei a hospitalidade das suas gentes, o sabor das suas comidas, o fascínio das suas inclemências. E o seu cheiro, a sua cor. Que me de mim aqui terei deixado?”.

E, curioso, o neto pergunta-lhe:  

“Avô, como sobreviveste à guerra?”
.

Gustavo Pimenta fez bem em voltar, é um grande acontecimento nesta literatura de retornos, e cumpre agradecer-lhe o belo título escolhido para este labirinto de memórias a que ele chama romance: “a sorte de ter medo”.
____________

(Conjunto de três notas de leitura, do Mário Beja Santos, publicadas separadamente no nosso blogue em 11, 15 e 18 de setembro de 2017. Na altura comentámos: 

"Obrigado, Mário, pela tua extensa nota de leitura... O Gustavo Pimenta tem de ser conhecido e lido por nós!... Madina do Boé é um dossiê que nunca estará 'encerrado'... Como as nossas memórias doridas"...

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Notas do editor LG:

(*) Vd poste de 17 de março de 2010 > Guiné 63/74 - P6009: Notas de leitura (79): sairòmeM Guerra Colonial, de Gustavo Pimenta (Beja Santos)

(**) Último poste da série > 26 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27772: Documentos (60): A retirada de Madina do Boé (Gustavo Pimenta, ex-alf mil, CCAÇ 1790, 1967/69), autor do livro saieòmeM (Palimage, Coimbra, 1999, 120 pp.), apresentação do jornalista e escritor José Manuel Saraiva (Porto, 1999)

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27758: Em busca de... (331): Pedro Leones procura notícias de Diamantino Lopes Dias, Soldado Condutor Auto Rodas da Companhia de Transportes/CTIG, vítima mortal de uma mina antipessoal na estrada Cuntima-Jumbembem, em 20 de Março de 1972

1. É muito frequente familiares de camaradas nossos caídos em campanha, ou entretanto falecidos, dirigirem-se a nós no sentido de fornecermos pistas sobre a sua passagem pela guerra colonial.
Se algumas vezes conseguimos dar informações ou até estabelecer contactos, muitas delas não temos hipóteses de dar ajuda como o caso que nos chegou no dia 15 de Fevereiro:

Bom día,
Sou marido de uma senhora, filha de um combatente morto no ultramar em 20-03-1972 (Diamantino Lopes Días). A minha mulher nunca conheceu o pai nem nunca viu sequer uma foto dele.
Peço encarecidamente, se alguém me pode ajudar com alguma informação sobre este senhor. Estes são os dados que conhecemos:
Diamantino Lopes Días, morreu 20-03-1972, freguesia Campelo, Figueiró dos Vinhos.
Qualquer informação sería muito bem vinda. Muito obrigado e bem hajam.

Cumprimentos,
Pedro Leones


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2. No dia seguinte enviamos esta mensagem/resposta:

Caro Pedro Leones
Infelizmente não podemos ajudar muito.
Provavelmente o nosso camarada Diamantino Lopes Dias seria de rendição individual, e, nestes casos, é muito difícil referenciar os seus camaradas de ocasião. Tinha a especialidade de Condutor Auto e pertencia à Companhia de Transportes da Guiné. Por ali devem ter passado muitos camaradas nos diversos anos que durou a guerra.
Pelo anexo, sabemos que ele foi vítima da forma mais vil e traiçoeira de fazer guerra, uma mina antipessoal. O local foi no norte da Guiné, não muito distante de onde eu estive 22 meses. Os ferimentos que resultaram do incidente devem ter sido muito graves e ele, infelizmente, não resistiu.
Não posso deixar de falar da coincidência da data da sua morte. Cheguei a Lisboa, vindo, via aérea, da Guiné, no dia 19 de Março de 1972. No dia seguinte (20) cheguei a minha casa onde pude finalmente abraçar os meus pais e a minha namorada, esta, minha mulher há quase 54 anos.
Aquela maldita guerra foi um desenrolar de mortes e estropiados, da qual, apesar de tudo, muitos regressaram incólumes, como foi o meu caso.
Que o Diamantino repouse em paz. Honremos a sua memória assim como a de todos os outros, que como ele, não conseguiram regressar vivos.

O meu abraço
Carlos Vinhal
Coeditor

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3. Se entre os nossos leitores houver algum camarada que se tenha cruzado com o Diamantino Lopes Dias, Condutor Auto Rodas da Companhia de Transportes/CTIG, por favor contactem-nos, que nó entraremos em contacto com a família dele. Que sorte seria encontrar uma foto do Diamantino para que a sua filha tivesse uma ideia de seu pai quando militar.
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Nota do editor

Último post da série de 31 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27589: Em busca de... (330): Maria João Sá Lopes pretende contactar camaradas de seu tio Vítor Manuel da Silva de Sá Lopes, ex-Fur Mil Op Esp da CART 3567, falecido em 21 de Maio de 1973, numa emboscada a uma coluna auto na estrada Mansabá-Mansoa

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27728: Fotos à procura de... uma legenda (198): Restos da "batalha de Madina do Boé"...




Guiné-Bissau > Região de Gabu > Picada de Cheche-Gabu > 1998 > Trinta anos depois ainda eram vísiveis (e chocantes) os sinais das emboscadas e das minas que fizeram do triângulo do Boé (Cheche, Beli e Madina) um verdadeiro cemitério para os homens e as suas máquinas...

No dia 6 de fevereiro de 1969, ficaram lá, sepultados para sempre, pelo menos 47 camaradas nossos, 19 da CCAÇ 2405 e 28 da CCAÇ 1790.

Fotos (e legenda): © Francisco Allen / Albano M. Costa (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Região de Gabu > Picada Cheche - Madina do Boé > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé > 3 de fevereiro de 1969 > Viaturas das NT  (Mercedes), abandonadas em colunas anteriores.


Guiné > Região de Gabu > *Picada Cheche. Madina do Boé > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé > 3 de fevereiro de 1969 > Viaturas das NT  (Mercedes), 
abandonadas em colunas anteriores.


Guiné > Região de Gabu > Picada Cheche. Madina do Boé  > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé >  3 de fevereiro de 1969 > Viatura das NT abandonada (Berliet)

Fotos do álbum do cor inf ref Hilário Peixeiro, que foi capitão no CTIG, cmdt da CCAÇ 2403 / BCAÇ 2851 (Nova Lamego, Piche, Fá Mandinga, Olossato e Mansabá, 1968/70), e que participou na Op Mabecos Bravios (retirada de Madina doo Boé, 2-7 de fevereiro de 1969).

Fotos (e legendas): © Hilário Peixeiro (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné-Bissau > Região de Gabu > Sector de Boé > 1 de julho de 2018 > Caminhos do Boé, com colinas ao fundo, no regresso a Canjadude e a Gabu (antiga Nova Lamego). Para o Cherno Baldé, "a região, com as suas mil e uma colinas, é simplesmente, a região mais bonita do pais" (**) 

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A estrada Nova Lamego - Canjadude - Cheche - Madina do Boé foi um cemitério de viaturas das NT. Não sabemos quantas lá ficaram abandondas. Talvez duas ou mais dezenas, 

Enquanto houve guarnições nossas no triângulo Béli, Cheche e Madina do Boé, faziam-se em geral 2 colunas por mês, durante a época seca, para abastecer o pessoal que defendia aquelas posições a sudeste, junto à fronteira com a Guiné-Conacri (**).

Minas, emboscadas, flagelações, ataques... eram frequentes. Tornou-se um pesadelo aguentar aquelas três guarnições. Praticamente desde o início da guerra.

Até que foi dada ordem para desactivar e retirar Beli (logo em meados de 1968) e depois Madina do Boé e Cheche (em 6/2/1969). 

Canjadude (CCAÇ 5, "Gatos Pretos", 1968/70), a sul de Nova Lamego, passou a ser a guarnição no Sector L3, a par de Cabuca (a leste), mais próxima da nova linha de fronteira, o rio Corubal.

Quem fez esta estrada, e sobretudo o troço Cheche-Madina do Boé, no âmbito da Op  Mabecos Bravios, como os nossos camaradas e grão-tabanqueiros Hilário Peixeiro (CCAÇ 2403) e Paulo Raposo (CCAÇ 2405), é que pôde  testemunhar, para a posteridade, que a zona do Boé era nessa altura um "pequeno" emitério de viaturas.  O Paulo Raposo contou 15.  O Hilário Peixeiro  fotografou algumas viaturas abandonadas na bermas da picada.  

O nosso saudoso Xico Allen (1950-2022), quando por lá andou em 1998, ainda apanhou algum do "ferro-velho" da guerra.

2. A retirada de Madina do Boé era inevitável?, perguntarão alguns leitores.  Já estava prevista: a sua defesa era, a prazo, insustentável do ponto de vista sobretudo logístico, financeiro, humano, psicológico e até militar (***).  

A alternantiva era construir-se uma "grande base" no Cheche, na margem norte (direita) do rio Corubal... Mas depois deste desastre, toda a gente, a começar pelo próprio Com-Chefe e Governador, António Spínola, ainda brigadeiro, quis esquecer o desastre de Cheche e ultrapassar o trauma...

Em último caso, continuaria a fazer-se a "retração do dispositivo"... E, para defender as "joias da coroa" (que eram Angola e Moçambique), o chefe do Governo, Marcelo Caetano, estaria na disposição de lançar aos cães o "osso" da Guiné.

Deu-se o "ouro ao bandido"?... O PAIGC, sem ter dado um único tiro em 6/2/1969, foi um "claro vencedor" da "batalha de Madina do Boé".  

Batalha que, acrescente-se, não tem qualquer paralelismo, nem de longe nem de perto, com a batalha Dien-Bien-Phu (na guerra da Indochina, de 13 de março a 7 de maio de 1954: recorde-se que após oito semanas de duros combates, as tropas do Viet Minh, com cerca de 80 mil homens, apoiados pela China, cercaram o campo fortificado de Dien-Bien-Phu, sofrendo 7,9 mil 900 mortos e 15 mil feridos, mas vencendo as tropas da União Francesa; entre os franceses, houve 2293 mortos e 5193 feridos, além de 11 721 soldados feitos prisioneiros (a maioria dos quais não sobreviveu a um brutal cativeiro, tendo sido repatriados apenas 3290 homens) (Fonte: Wikipedia).

Habilmente, e como seria de esperar, o PAIGC declarou o Boé como "área libertada", mesmo sem qualquer população, a não ser as escassas centenas de chimpazés e uns tantos solitários e sazonais elefantes, que utilizavam um corredor transfronteiriço...  

E passou a usar o Boé  como trunfo propagandístico, diplomático e até militar.  Em contrapartida, não havendo quartéis portugueses, o Amílcar Cabral perdeu porventura uma fonte dos seus belos prazeres, que era ver de binóculos, da sua colina favorita, o ataque à canhoada a Madina do Boé.

Morto o líder histórico, o PAIGC iria proclamar a independência unilateral da Guiné-Bissau,  quatro anos e meio depois, alegadamente em 24 de setembro de 1973, ainda em plena época das chuvas, e "algures" no Boé ou "nenhures" (mais provavelmente já no território da Guiné-Conacri, embora não haja ainda "provas concludentes", mas a fronteira era porosa, como se sabe).

Mais tarde, o PAIGC arranjaria outros topónimos menos polémicos,  ou mais "exóticos" mas "pacíficos": Lugaloje,  Vendu Leidi, Orre Fello... (que ninguém sabe,  mesmo na Guiné-Bissau, e a começar pela gente de Bissau, onde ficam, tirando talvez alguns "tugas", Médicos Sem Fronteiras, etc...). 

É  de notar: o PAIGC, ao que se saiba, não convidou nenhum jornalista independente (tirando uma equipa de cinema sueca). Não há "provas concludentes" de que o local onde onde nasceu a nova pátria, tenha sido o coração do  Boé. Nessa época não havia georreferenciação. Mas nem eram precisas as coordenadas do GPS, para as Nações Unidas aceitarem como "mais do que credível" e consumado o "facto histórico", e carimbarem o nascimento da nova Nação lusófona...

Em Madina do Boé é que nunca foi, apesar da narrativa algo triunfalista e mistificadora do PAIGC na época. 

Durante décadas muita boa gente, portuguesa e estrangeira, aceitou de "boa fé" (como eu, em 1973...) este embuste do partido de Luís Cabral, Aristides Pereira e 'Nino' Vieira.

Pena é que estas  e outras fotos não pudessem circular livremente pelas mãos dos portugueses, nessa época... As nossas mãezinhas, que nos pariram, deviam ter pelo menos o direito de saber por onde é que os desgraçados dos filhos andavam, na Guiné...
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 7 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27711: Fotos à procura de... uma legenda (197): Qual o comprimento e o peso desta píton-africana (ou "irã-cego") apanhada na região de Quínara ? (Boaventura Alves Videira, CCS/BCAÇ 1861, Buba, 1965/67)

(**) Vd. poste de 21 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18863: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (8): Os meus passeios pelo Boé - Parte II: 1 de julho de 2018: Béli (e a Fundação Chimbo Daribó), Dandum, Madina do Boé, Canjadude...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27671: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (13): a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!


Guiné _ Região de Tombali > Cufar >  CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67.> Cão de guerra, o "Cadete". Foi formada pela CCAÇ 763 uma secção de caés de guerra, de que o "Cadete" era o chefe. Uma experiência única no CTIG. (*)

Foto (e legtenda) : © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.
 


(

Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;
(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(iii) tem já 130 de referências, no nosso blogue;
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;
(v) é professor de educação física, reformado;
(vi) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;
(vii) tem página pessoal do Facebook;
(viii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).



Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (13):   a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!

por Jaime Silva


Eu não esqueci a única operação do meu pelotão com a ajuda de um cão de guerra (pastor alemão). Foi no Norte de Angola,  na zona dos Dembos.

Após saltarmos dos Hélis, progredimos e, pouco depois, somos confrontados com uma emboscada. Reagimos, tiroteio, silêncio, fase de expetativa e foi o momento de decidir também a atuação do cão:

– Buscs, busca, ataca, ataca ! – ordena o tratador.

Enquanto aguardávamos pelo regresso do cão, protegi-me atrás de uma árvore e, quando olho para o chão, vejo, mesmo encostado ao meu pé direito uma mina antipessoal meia destapada…. Presumivelmente, teria sido pisada pelo cão, aquando da perseguição aos guerrilheiros. 

Entretanto, montámos segurança ao local e o comandante da Companhia, experiente, levanta-a, retira-lhe o detonador, guarda-a no bolso…E continuámos a progressão para assaltar o objetivo.

Já perto da base, o cão deteta uma emboscada e investe sobre os guerrilheiros e no tiroteio é atingido mortalmente. 

á me tinha salvado o pé direito e salvou, certamente, a vida dos paraquedistas que progrediam na frente do pelotão!

De acordo com as normas, o tratador cortou-lhe uma orelha como prova da morte do animal em combate, no regresso ao Batalhão. (**)

Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pág. 94.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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