sábado, 2 de agosto de 2014

Guiné 63/74 - P13457: Memórias de Mansabá (33): No dia em que morri (Carlos Vinhal, ex-Fur Mil Art MA)

MEMÓRIAS DE MANSABÁ

33 - NO DIA EM QUE MORRI

Carlos Vinhal

Domingo. Para fazer algo de diferente, sempre o que as actividades operacionais permitissem, era dia de vestir à civil, jogar ténis de mesa pela manhã e após o almoço dar um pequeno passeio pela tabanca. Às vezes até se batiam umas chapas para mandar à família e mostrar que a guerra não era aquilo que se dizia. Então não se via nas fotos?!

O pessoal da tabanca, acho que também se tinha adaptado aos nossos hábitos. As pessoas corriam em menor número à enfermaria civil e militar, e as nossas lavadeiras não entregavam roupa lavada. A população, pela manhã, assistia com respeito ao hastear da Bandeira Nacional em frente ao Posto Administrativo, cerimónia que só acontecia ao domingo. Os homens conversavam ou deambulavam pela tabanca ouvindo música ou os relatos de futebol da Metrópole, em alto som, como era hábito, naqueles portáteis enormes por vezes carregados ao ombro.

Depois de um almoço melhorado, bem regado com uma cervejinha geladinha, tomado o digestivo, normalmente um VAT 69 ou um White Horse, como era hábito lá fomos arejar o fato domingueiro.

Tínhamos aprendido na Doutrina que o domingo era dia do Senhor, dia de descanso, dia de paz e amor.
As diversas actividades quotidianas nem sempre permitiam o contacto directo com a população. Assim, aproveitava-se para dois dedos de conversa aqui, um piropo a uma bajuda ali, por que não até uma inocente foto com algumas delas, e assim se ocupava algum tempo. 

 Interior do quartel de Mansabá, 28 de Novembro de 1971 - Dias, Fur Mil Mec Auto, e eu

Naquele domingo, terminado o passeio, regressava o grupo já em direcção à porta de armas, ainda em plena avenida de acesso ao quartel, quem vinha de Cutia, quando rebenta um fogachal enorme.
O quartel estava a ser atacado em pleno dia, o que era extremamente raro.

Armas pesadas e ligeiras pareciam instaladas junto ao arame farpado, quando não, já do lado de dentro.
Começámos a correr o mais que podíamos em direcção aos nossos aposentos para nos armarmos e ocuparmos os nossos postos ou pura e simplesmente irmos para o abrigo mais próximo.
Lembro-me que ultrapassei a porta de armas, antecedido por uns quantos camaradas e, quando a escassos vinte metros da porta do meu quarto, situado precisamente no enfiamento da entrada do quartel, sinto um impacto violento nas costas.

Caio de bruços, curiosamente sem dores. Acho que se apaga uma luz ao mesmo tempo que sinto uma sensação de paz como nunca tinha vivido.

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O quarto dos pesadelos

Sobressaltado, dou um pulo na cama e desperto.
Não era domingo, não era de dia, nem felizmente o quartel estava a ser assaltado.
Tento na escuridão verificar que o meu camarada Dias não se tenha apercebido do meu pesadelo. O silêncio reinava no quarto. Ainda bem.

Lá fora, na noite escura e misteriosa, alguns dos meus camaradas velavam com certeza pela nossa relativa segurança. Bem hajam.
Esperei acordado pelo romper do dia já que não mais consegui adormecer.

Carlos Vinhal, 
ex-Fur Mil Art MA, 
CART 2732, 
Mansabá, 1970/72
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Nota do editor

Último poste da série de 15 de Maio de 2014 > Guiné 63/74 - P13143: Memórias de Mansabá (32): Conversas filosóficas com o Alferes Médico (Francisco Baptista)

Guiné 63/74 - P13456: Blogoterapia (257): Julgo que pelo menos a maioria de nós tínhamos medo, eu tinha, e às vezes muito, mas procurava não mostrar (Manuel Carvalho)

1. Mensagem do nosso camarada Manuel Carvalho (ex-Fur Mil Armas Pesadas Inf, CCAÇ 2366/BCAÇ 2845, Jolmete, 1968/70), com data de 1 de Agosto de 2014:

Um dia o meu grupo, o 4.º, estava escalado para uma operação com o Pelotão de Naturais e a Milícia, e o local era como qualquer outro. Localizava-se na mata do Jol, e em qualquer lado podia estar uma surpresa . Mas eu comecei a pensar na minha vida, naquilo que já tinha passado com quase um ano de Guiné e naquilo que acontecia a muitos, que também me poderia acontecer a mim nesse dia. Deitei-me tarde, estive a beber e a conversar com o meu amigo Alfredo Gaspar que também vai entrar nesta história.

Fui-me deitar e comecei a ter pesadelos, nos quais eu era perseguido umas vezes sem munições, outras a arma encravava, enfim, passei a noite toda nisto e convenci-me que ia morrer.
Estes pesadelos já os tive cá várias vezes, não logo a seguir ao regresso mas talvez nos últimos vinte anos.

Depois disto comecei a pensar como me ia safar de ir à operação.
O Capitão estava de férias e o Eduardo Moutinho estava a comandar a Companhia. Levantei-me e fui dizer-lhe que estava doente da garganta, ele só disse: "mas tu ontem estavas bem". Respondi: "estava mas agora estou assim".

Como eu nunca tinha falhado a nada, ele acreditou em mim, nem me mandou ao enfermeiro, só disse: "vê se arranjas um furriel para ir na tua vez".

Eu pensei para uma coisa destas só o Gaspar, fui direito ao abrigo dele, acordei-o e ele saltou logo da cama. Começou a vestir as calças e diz-me isto: "só agora é que dizes" e passados dez minutos já estava junto do Pelotão pronto para sair.
Não haveria muita gente a fazer o que o meu amigo Alfredo Gaspar fez.

Eles foram e vieram sem ouvir um tiro, no entanto se eu fosse não sei se seria assim.
Lembro-me de perguntar à rapaziada se gostaram de ir com o Gaspar à operação e um disse: "ele pendura granadas de mão em todo o lado e só tinha medo que ele levasse um tiro e aquilo rebentasse tudo".

E agora pergunto eu: onde se encontraria um maluco como o Gaspar para fazer uma coisa destas?

Curiosamente nem o Gaspar nem o Eduardo Moutinho se lembram disto mas eu lembro-me muito bem e é uma pequena homenagem que quero prestar ao maluco do Gaspar.

Vou tentar enviar algumas fotos com o Gaspar e se acharem que isto serve para alguma coisa podem usar.

Manuel Carvalho


Fotos com o Gaspar

Baile de recepção aos periquitos da 2585
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 Nota do editor

Último poste da série de 21 de Julho de 2014 > Guiné 63/74 - P13424: Blogoterapia (256): "Prece de um Combatente - Nos Trilhos e Trincheiras da Guerra Colonial", para que as minhas memórias não se percam no tempo (Manuel Luís R. Sousa)

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Guiné 63/74 - P13455: Os nossos regressos (32): Fotos do álbum do ex-1º cabo bate-chapas, pelotão de manutenção comandado pelo alf mil Ismael Augusto, CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70)




Foto nº1 > Entrada ba barra do Tejo...Aproximação da costa... A cidadela de Cascais... (se não erro)


Foto nº 2 > Estuário do Tejo... Depósitos de combustível na outra banda (Trafaria, concelho de Almada)


Foto nº 3 > A ponte sobre o Rio Tejo e o Cristo Rei (1)... Ainda estava pintada de fresco... e não tinha o tabuleiro para a circulação ferroviária...


Foto nº 4 > A ponte sobre o Rio Tejo e o Cristo Rei (2)... Em 1970, a febre da construção na outra banda já tinha começado, mas o Cristo Rei ainda era uma figura solitária na paisagem


Foto nº  5 > Os "paisanos"... O Otacílio, de perfil, é o quarto da  fila, a contar da esquerda para a direita... Presume-se que a foto tenha sido tirada à chegada a Lisboa, ou então já em Abrantes, RI 2...



Foto nº 6 > Estação da CP... Lisboa, Alcântara ? Entroncamento ? ... Sei que o pessoal foi de comboio para Abrantes...


Foto nº 7 > RI 2, Abrantes... A unidade mobilizadora do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70) (1)


Foto nº 8 > RI 2, Abrantes... A unidade mobilizadora do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70) (2)


Foto nº 9 > Uma rua e uma estação rodoviária de uma vila da Estremadura... (se não erro)



Foto nº 10 > O regresso ao doce lar... A festa  (1)


Foto nº 11 > O regresso ao doce lar... A festa  (2)


Foto nº 12 > O regresso ao doce lar... A festa  (3)


Foto nº 13Foto nº 11 > O regresso ao doce lar... O fim da  festa... As (in)confidências... Conversas de homem para homens... Ir à guerra (e voltar) "dava estatuto"...


Foto nº 14 > Um bate-chapas no leste da Guiné... O Otacílio Luz Henriques, algures em Bambadinca (1968/70)

Fotos, sem legendas, do álbum do Otacílio Luz Henriques, 1º cabo bate-chapas Otacílio Luz Henriques,  CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70). Pertencia ao pelotão de manutenção,  que era comandado pelo alf mil Ismael Augusto, membro da nossa Tabanca Grande. o bcaç 2852, se mão erro, regressou à metrópole em 28/5/1970, um ano depois, curiosamente, do ataque a Bambadinca...


Fotos: © Otacílio Luz Henriques (2013). Todos os direitos reservados. (Edição e legendas: LG)


[Todos, não, mas a grande maioria de  nós fizemos esta viagem de regresso, por via marítima, de Bissau a Lisboa, nos Niassa, nos Uíge, nos navios da nossa marinha mercante postos ao serviço do transporte do pessoal mobilizado para a guerra do ultramar (ou guerra colonial, ou guerra de África, como quiserem)... Era com emoção que se avistava a barra do Tejo, o Bugio, Cascais, a Costa da Caparica,a  Trafaria, a ponte, o Cristo Rei, o casario de Lisboa, o cais da Rocha de Conde de Óbidos donde tínhamos partido, 22, 23, 24 meses antes...

E depois ia-se de comboio até à unidade mobilizadora. No caso do BCAÇ 2852, foi o RI 2, Abrantes... E, por fim, o regresso, solitário, a casa, onde nos esperavam, em alvoroço, a família, os amigos, os vizinhos...  O "day after", o dia seguinte, não foi fácil para muitos de nós... Uma geração partida e repartida. uns tomaram os caminhos da diáspora (Brasil, EUA, Canadá, França, Alemanha...); outros, deixaram as suas terras e fixaram-se na grande Lisboa e no grande Porto, procurando oportunidades de trabalho... "Cacimbados", "apanhados do clima", "estranhos", "envelhecidos", "mudados", "fechados, de poucas falas", "truculentos", "noctívagos", "bebendo e fumando em excesso"... eram expressões que trocávamos uns com os outros ou que ouvíamos aos nossos amigos, familiares e vizinhos... A (re)adaptação, em muitos casos, não foi fácil, e levou o seu tempo... A maior parte casou, teve filhos e tentou ser feliz...

Uma sugestão de verão: legendas mais completas, precisam.se para estas fotos... Se não estou em erro, o Otacílio mora(va) na região da Grande Lisboa, ou pelo menos na Estremadura... Ele disponibilizou-me estas e outras fotos em 2013, no encontro da malta de Bambadinca (de 1968/71) em Coimbra. Preciso de um endereço de email dele (ou do nº de telefone) antes de o apresentar à Tabanca Grande. Gostava de voltar a falar com ele... De resto, é mais do que justa a homenagem que quero fazer-lhe, sentando-o à sombra do poilão da nossa Tabanca Grande.... É justo que ele figure na nossa lista de grã-tabanqueiros, já que temos aqui publicado bastantes fotos do seu álbum... Um grande abraço para ele, se me estiver a ler... Estivemos juntos em Bambadinca quase um ano, iu pelo menos uns 10 meses, mas não sei se alguma vez trocámos uma palavra... Ele era 1º cabo bate-chapas da CCS, eu era furrriel, operacional,  da CCAÇ 12, uma unidade de intervenção adida a (leia-se: às ordens de) o BCAÇ 2852.. Uma companhia de pretos... Mas vivemos e dormimos todos (eu, às vezes) naquele maravilhoso promontório que era Bambadinca, a "cova do lagarto", na língua mandinga... LG]

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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P13454: Ser solidário (162): SOS, Ébola!... Recomendações para viajantes com destino a regiões afetadas por doença por vírus Ébola (Portugal, Diretor-Geral de Saúde)










Portugal > Ministério da Saúde > Direção Geral de Saúde > Doença por vírus Ebola > Recomendações para Viajantes > Comunicado nº C77_01_v1 de 30/07/2014 com recomendações para viajantes com destino a regiões afetadas por doença por vírus Ebola.


1. Com a devida vénia reproduz-se acima, por ser de interesse público, um comunicado recente do Diretor Geral de Saúde, dr. Francisco George que, além de ser meu colega (é professor convidado na Escola Nacional de Saúde Pública da NOVA),  é um grande amigo de África, e em especial da Guiné-Bissau, onde trabalhou há largos anos atrás no âmbito da OMS - África.

Para mais informação, ver sítio da Direção-Geral de Saúde..

Há crescentes e fundados receiso que o atual surto de ébola que está a atingir a África Ocidental possa chegar à Guiné-Bissau cuja situação sanitária é, já de si, muito precária. As recomendações das autoridades sanitárias portuguesas, na pessai do Diretor-Geral de Saúde, são muito úteis para todos, em especial os nossos camaradas e amigos que vivem na Guiné-Bissau ou que viajam, em lazer ou trabalho, para as regiões afetadas.

ATENÇÃO:  Como bem frisa o nosso Diretor-Geral de Saúde, as viagens para os países afetados pelo surto de ébola "não são desaconselhadas", no entanto devem ser observadas as devidas precauções.

2. Para saber mais sobre o ébola, clicar aqui:




OMS [WHO (World Health Organisation)] > Global Alert and Response (GAR) >  Ebola virus disease (EVD) (em inglês)

OMS [WHO (World Health Organisation)] > Ebola virus disease > Fact sheet N°103 > Updated April 2014 (em inglês)

Guiné 63/74 - P13453: Notas de leitura (618): “Guiné-Bissau - Páginas de História Política, Rumos da Democracia", por F. Delfim da Silva (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Janeiro de 2014:

Queridos amigos,

Num país onde as memórias políticas são frugais, onde há uma percetível sensação de que os políticos do passado se refugiaram no silêncio, este punhado de reflexões é de primordial importância enquanto olhar sobre as décadas de 1980 e 1990, é um olhar panorâmico sobre a ascensão militar e a queda da importância da direção política.

Nesta aceção, as memórias de Delfim da Silva iluminam os dirigentes políticos do tempo e deixam claro que eram uma pálida herança para pôr em prática o sonho de Amílcar Cabral, o autor desvela expetativas em torno de Chico Mendes e Filinto Barros, por exemplo e dá-se como completamente provado de que Cabral não teve titulares à altura.

Depois, foi o ajuste de contas e a edificação do golpismo permanente.
Livro bem documentado e que mostra a coragem de Delfim da Silva. Aqui e acolá, infelizmente, volta aos estafados chavões como o assassinato de Amílcar Cabral perpetrado por Momo Touré e companhia, o que raia o inconcebível, percebe-se que a matéria do assassinato ainda é ferro em brasa.

Um abraço do
Mário


Fernando Delfim da Silva: Memórias e considerações de um político guineense (2)

Beja Santos

“Guiné-Bissau, Páginas de história política, rumos da democracia”, por Fernando Delfim da Silva, Firquidja Editora, Bissau, 2003, é um relato indispensável de um dos protagonistas proeminentes que trabalharam à volta de Nino Vieira no chamado processo da transição democrática. Em jeito confessional, aquele que foi por duas vezes ministro dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau narra o seu grau de confiança e entusiasmo no referido processo de transição.

Depois das eleições de 1994, pareceu-lhe que o horizonte político guineense estava a conhecer o desanuviamento. Para trás, tinham ficado o golpe de 1980 e o caso Paulo Correia que terminou com os fuzilamentos de julho de 1986 que se saldaram no triunfo da componente militar sobre a componente política do PAIGC, a partir de 1980 os militares e a segurança do Estado assenhorearam-se da Guiné. Daí o modo exaustivo como ele analisa esses acontecimentos, profundamente crítico. Nino Vieira, de quem ele se tornará indefetível colaborador a partir de 1990, é acusado de conspirador, de ser déspota e fator de divisão do PAIGC. É uma crítica demolidora:

“Entre o golpe de Estado de 1980 e os fuzilamentos de 1986, a Guiné-Bissau tinha conseguido completamente descapitalizar-se no plano diplomático. Internamente, o país tinha entrado na espiral negativa de golpes sucessivamente anunciados. Externamente, o presidente Nino não deixou de apoiar todos os golpes militares que ocorreram na nossa sub-região porque, afinal, não sabia distanciar-se deles sem se deslegitimar. A diferença política com Cabo Verde só se foi acentuando. Aliás, não deviam ser muitos os que ainda acreditavam subsistir qualquer laço entre o regime político guineense e o reivindicado legado político comum de Amílcar Cabral. Seguramente, só ficou uma imagem de deceção, de desilusão, enfim, do drama de uma guerra civil fria já instalada entre os próprios combatentes da liberdade de Pátria”.

Nino cedo aspirou ao poder absoluto: em 1982, deu um sinal de semipresidencialismo, era criado o cargo de primeiro-ministro, mas em 1984 o Presidente do Conselho da Revolução passou a ser primeiro-ministro, Victor Saúde Maria foi varrido da cena política. Nasceu depois a “ameaça tribalista”, o perigo balanta, não identificado mas rapidamente difundido. O planeamento de Estado falhou, no mesmo ano dos fuzilamentos de Paulo Correia, Viriato Pã e outros, a Guiné desvalorizou o peso e com o apoio do FMI arrancou a liberalização económica. Funda-se o Movimento Bâ-fatá, a oposição torna-se realidade.

É neste contexto que Delfim da Silva especula à volta de uma figura que ele classifica como profeta: o artista José Carlos Schwarz, alguém que se desilude rapidamente depois da apoteose da independência nacional, apercebeu-se que Luís Cabral não tinha timbre de líder e que Filinto Barros não conseguia descolar para a liderança. O artista previu a tragédia nacional, denunciou a rápida degradação política do “combatente da liberdade da pátria”.

Mais adiante, Delfim da Silva refere uma composição de José Carlos Schwarz dedicada aos combatentes, uma recordação a Djon Farim, é muito claro: “Sabes, as dificuldades não acabam com o silêncio das armas. Aparecem sob outra forma como o rasgar da terra dos radis e dos tratores ou com o matraquear pesado das primeiras máquinas que se montam nas fábricas. Não é mais que uma crise de dentição que logo passará, posto ainda que dê muito trabalho”. Esta esperança não se concretizou.

Delfim da Silva refere ainda as figuras de Francisco Mendes (Chico Té), então primeiro-ministro (ou comissário principal) precocemente falecido num desastre na região de Bafatá, em julho de 1978. A sua geração voltou a interrogar-se sobre a degradação que atingira o sistema político, dominado pelo laxismo e a incompetência. Salum Sanhá, um militante do PAIGC, dias depois da morte de Chico Mendes comentou: “Chico Té morreu, PAIGC acabou”.

Estavam criadas, observa Delfim da Silva, as condições para o golpe militar de novembro de 1980, a liderança política colapsara, os militares já rilhavam os dentes. Outro caso apontado é o da morte do major Robalo de Pina que andara colado ao golpe de Estado de 14 de novembro de 1980. Delfim da Silva sente que a confrontação entre fações atingira o seu auge. Em 1990, o apoio a Nino mudara de natureza. Dez anos antes, quem apoiara Nino mandara para as prisões quadros valorosos, outros partiram para o exílio forçado. Nesse período, Delfim irá estudar filosofia na URSS e regressará para participar no processo político ao lado de Nino.

Ao escrever este punhado de reflexões em 2003, Delfim da Silva confessa as ilusões em que viveu acreditando que havia amadurecimento para a transição democrática, esquecera que por detrás do golpe de novembro de 1980 estava uma ascensão militar ao serviço do poder cesarista do dia, neste caso de um Nino que distribuía prebendas no seu círculo de apoios.

Mudando completamente de agulha, Delfim da Silva analisa com os números o comportamento eleitoral dos guineenses e avança com um novo modelo de círculo nacional, círculos regionais e círculos eleitorais locais, matéria que não tem sentido ser apreciada aqui.

De grande utilidade revela-se a grelha de análise que ele faz sobre o sistema político-partidário da época. Começa pelo PAIGC e afere do desastre eleitoral de 1999. O PAIGC refundara-se com o golpe de Estado de novembro de 1980, ao longo dos anos, seguramente com o apoio das etnias Fula e Mandinga, Nino foi montando a psicose do “perigo Balanta”, começou a ser visto como um partido que já não abrangia todas as etnias, o que leva a explicar a ascensão do PRS – Partido da Renovação Social, de Koumba Yalá. No termo da guerra civil, o PRS tornou-se num vencedor minoritário, acima do Movimento Bâ-Fatá. Inicialmente considerado um partido Balanta, a sua geografia eleitoral expandiu-se. Em 2003, o contestado Koumba Yalá fora forçado a abandonar a Presidência da República, punha-se o problema da sucessão de liderança. Eram enormes as incógnitas sobre o futuro deste partido (como se sabe, Koumba irá manter-se na penumbra durante muito tempo, e será mesmo considerado um discreto apoiante dos autuais militares no poder.

O Movimento Bâ-Fatá fora a grande promessa na transição democrática, talvez por ter perdido importantes apoios na etnia Balanta, perdeu votos entre as eleições de 1994 e 1999. Na sua análise, Delfim da Silva acreditava que o partido estava longe do esgotamento político, tudo dependeria no futuro da capitalização de queixas das comunidades étnicas, Fula e Balanta. A análise do autor prossegue com outros partidos: União para a Mudança, o PDC de Vitor Mandinga, a FLING, a Frente Democrática Social, que contara inicialmente com Rafael Barbosa, o Partido Social Democrata, a União Nacional para o Desenvolvimento e Progresso, a Liga Guineense de Proteção Ecológica, o Partido Unido Social Democrata, o Fórum Cívico Guineense, o Partido Manifesto do Povo, a Aliança Socialista, o Partido da União Nacional.

Memórias de um responsável político que tece críticas implacáveis à era de Nino Vieira mas que, anos depois, quando Nino Vieira é novamente eleito presidente, voltará ao poder, como, mais tarde, será membro da governação dos militares golpistas.
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Nota o editor

Último poste da série de 28 de Julho de 2014 > Guiné 63/74 - P13439: Notas de leitura (617): “Guiné-Bissau - Páginas de História Política, Rumos da Democracia", por F. Delfim da Silva (1) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Guiné 63/74 - P13452: Efemérides (168): No dia 30 de Julho de 2014 fez 48 anos que embarquei para a Guiné, em rendição individual (José António Viegas)

1. Mensagem do nosso camarada José António Viegas (ex-Fur Mil Art do Pel Caç Nat 54, Enxalé e Ilha das Galinhas, 1966/68), com data de 28 de Julho de 2014:

Meu caro Luís
O tempo voa faz agora, dia 30 de Julho, 48 anos que embarquei para a Guiné no célebre Uíge que tanta juventude levou para a guerra, para o desconhecido, poucos sabiam ao que iam.

Ainda me lembro desse dia.
Descendo a Calçada da Ajuda vindo dos Adidos, com a malinha na mão, sozinho, parei no quiosque em frente ao museu dos coches e tomei o meu pequeno almoço, nisto e para meu espanto aparecem duas amigas de infância que estavam em França, não sei como me descobriram e dizem: "Tu não vais para a guerra, temos tudo preparado para te levar para França", ao que eu respondi que não, que queria ir para a guerra.

Depois de alguns minutos de discussão foram embora zangadas comigo, e só voltaríamos a fazer as pazes muitos anos depois.

Segui então para o Cais e entrei no Uíge a observar todo aquele espectáculo de despedida, não tinha qualquer família e olhava parvo a ver aqueles gritos lancinantes e lágrimas de todos aqueles familiares. Comecei a ver este espectáculo no principio da guerra quando a tropa que seguia para Angola, que saia de Faro do RI 4, e embarcava na estação de Faro sempre com confusão e policia à mistura.
Depois no Uíge, como ia em rendição individual, lá fui encontrando amigos do curso e amigos de infância.

Em anexo a Ordem de Serviço da minha mobilização, mais umas fotos da viagem, acho com amigos da 1587.

Desembarcámos a 4 de Agosto de 1966, onde fui receber em Bolama o Pel Caç Nat 54, treinado pelo o nosso Camarigo Jorge Rosales.
Voltei a 22 de Setembro de 1968.

Em breve vou escrever as memórias de Porto-Gole

Um grande abraço
Zé Viegas

 





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Nota do editor

Último poste da série de 27 de Julho de 2014 > Guiné 63/74 - P13438: Efemérides (167): Homenagem aos Combatentes da Grande Guerra do Concelho de Loures, levado a efeito no passado dia 25 de Julho de 2014 (José Martins)

Guiné 63/74 - P13451: Histórias da CCAÇ 2533 (Canjambari e Farim, 1969/71) (Luís Nascimento / Joaquim Lessa): Parte XVIII: Uma farra a bordo da última LDG, de Farim para Bissau...Uma despedida em grande que ia dando um problema disciplinar prontamente resolvido com bom senso e sabedoria pelo capitão (Carlos Simões, ex-fur mil op esp, 1º pelotão)

1. Histórias da CCAÇ 2533 > Parte XVIII (Carlos Simões, ex-fur mil op esp, 1º pelotão):

Continuamos a publicar as "histórias da CCAÇ 2533", a partir do documento editado pelo ex-1º cabo quarteleiro, Joaquim Lessa, e impresso na Tipografia Lessa, na Maia (115 pp. + 30 pp, inumeradas, de fotografias). (*)

Registe-se, como facto digno de nota, que esta publicação é uma obra coletiva, feita com a participação de diversos ex-militares (oficiais, sargentos e praças) daquela companhia.

A brochura, com cerca de 6 dezenas de curtas histórias (de 1 a 2 pp.), e proifusamente ilustrada,  chegou-nos às mãos, em suporte digital, através do Luís Nascimento, que vive em Viseu, e que também nos facultou um exemplar em papel. para consuta. Até ao momento, ele é o único representante da CCAÇ 2533, na nossa Tabanca Grande, apesar dos convites, públicos, que temos feito aos autores cujas histórias vamos publicando.

Temos autorização do editor e autores para dar a conhecer, a um público mais vasto de amigos e camaradas da Guiné, as aventuras e as desventuras vividas pelo pessoal da CCAÇ 2533, companhia independente que esteve sediada em Canjambari e Farim, região do Oio, ao serviço do BCAÇ 2879, o batalhão dos Cobras (Farim, 1969/71).

Desta vez publicamos um episódio, vivido pelo Carlos José Póvoa Simões, no último dia em Farim, e à espera da LDG que levaria a companhia até Bissau, de regresso a casa.. O  Simões fez uma despedida em grande, com mais alguns camaradas.. Resultado: uma valente  "cadela" que ia originando um problema disciplinar, resolvido com bom senso e sabedoria pelo capitão... Afinal, não é todos os ias que um homem acaaba uma guerra e  regressa, são e salvo,  ao doce lar... Se essa não é uma boa ocasião para comemorar, então não haverá  muitas mais na vida...  LG

PS - O  fur Sousa deve ser o José L.B. de Sousa, de minas e armadilhas. O fur Nuno Conceição, Nuno M B. da Conceição, era o fur  mecânico.




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Nota do editor:

Último poste da série > 28 de julho de 2014 > Guiné 63/74 - P13442: Histórias da CCAÇ 2533 (Canjambari e Farim, 1969/71) (Luís Nascimento / Joaquim Lessa): Parte XVII: 4 episódios recordados pelo José Joaquim da Costa Fonseca, ex-sold at inf,1º pelotão entre elas uma dramática saída para o mato em 29 de abril de 1970, ou aquela outra em que o Vieito "perdeu" a G3 na confusão de um ataque ao aquartelamento


Guiné 63/74 - P13450: Parabéns a você (765): Manuel Augusto Reis, ex-Alf Mil Cav da CCAV 8350 (Guiné, 1972/74)

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Nota do editor

Último poste da série de 30 de Julho de 2014 > Guiné 63/74 - P13447: Parabéns a você (764): Amaral Bernardo, ex-Alf Mil Médico do BCAÇ 2930 (Guiné, 1970/72); Júlio Costa Abreu, ex-1.º Cabo Comando do Grupo Centuriões (Guiné, 1964/66) e Victor Tavares, ex-1.º Cabo Caçador Paraquedista da CCP 121 (Guiné, 1972/74)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Guiné 63/74 - P13449: Biblioteca em férias (Mário Beja Santos) (1): Francisco Marques Geraldes, um herói militar português na Guiné

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Julho de 2014:

Queridos amigos,
Consta que a época estival traz lazeira e menor apetência para a escrita.
Faço uma curta remessa de colaboração avulsa, começo pela Guiné, depois pela poesia anticolonial em livro descoberto na Feira da Ladra, depois pela exaltação do romancista Mickey Spillane e o seu portentoso detetive Mike Hammer, mostrarei fotografias tiradas em viagens por Inglaterra, e talvez outras coisas mais que andam por aqui dispersas e que talvez vos interessem em tempos de puro desfastio.
Oxalá não me engane.

Um abraço do
Mário


Quem quer que tenha captado este fulgurante fim de dia está de parabéns, e até há amanheceres muito semelhantes, são momentos genesíacos e todos nós tivemos o privilégio de assistir ao encantatório da natureza a apagar-se de rompante, como se aquela luz fosse dispendiosa, rara e mágica, pondo em comunhão o céu e a terra.


Biblioteca em férias (1)

Francisco Marques Geraldes, um herói militar português na Guiné

Beja Santos

Não é a primeira vez que aqui se fala em Francisco António Marques Geraldes, que começou a sua carreira militar na Guiné como comandante do presídio de Geba, nos anos 80 do século XIX. O nosso prezado camarada José Martins, num texto publicado no nosso blogue em 23 de Fevereiro de 2013 (Guiné 63/74 - P11143: Para que a memória não se perca (1): Histórias da dobragem do século XIX para o século XX (José Martins)) refere as operações de pacificação no Geba e refere o desempenho de Marques Geraldes. Eu próprio usei o seu nome, a propósito de umas páginas que encontrei no Centro de Estudos da Guiné Portuguesa e que muito me comoveram, a ponto de parcialmente terem sido reproduzidas também no nosso blogue. O que me impressionou na época foi o destemor e o elevado sentido do dever deste brioso militar português.

No Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa vem reproduzida a carta que o governador Pedro Inácio de Gouveia dirigiu a partir do palácio de Bolama, em 4 de Maio de 1883 ao Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar. A carta reza o seguinte:

Ilustríssimo e excelentíssimo senhor,

Em princípios de Março, os Fulas Pretos agrediram a pequena povoação de São Belchior, na margem direita do rio Geba, onde existiam alguns grumetes de Bissau, gente pacífica e inerte, que faziam algum comércio com os poucos recursos que dispunham.

Os Fulas Pretos, capitaneados por Deusá, queimaram as cubatas, levando prisioneiros dez homens e duas mulheres, todos cristãos.

Este ponto fica sob a jurisdição imediata do presídio de Geba e do concelho de Bissau.

Depois deste ataque à povoação, foi Deusá com a sua corte para os lados de Geba, e parece que receando-se de algum agravo da parte do governo português, que ultimamente não tem poupado os díscolos, apresentou-se ao comandante do presídio de Geba o alferes Francisco António Marques Geraldes, levando-lhe um presente de vacas e não lhe falando em nada do ocorrido.

Aquele oficial, sabendo então do procedimento do chefe em São Belchior, recusou-lho e exigiu-lhe os prisioneiros que ele conservava em seu poder; o chefe intimidou-se e entregou os homens, pois as duas mulheres iam a caminho do Indornal, que fica pouco mais de um dia proximamente ao SE de Gambia e dois proximamente ao NE de Selho.

Aquelas mulheres iam fazer naturalmente parte do serralho do régulo gentílico Dembel, potentado entre os Fulas Pretos, e a que todos obedecem, e pai do agressor do Deusá, ou então trocadas por vacas, conforme os usos do gentio.

Deusá desculpou-se com o chefe do presídio de Geba, por atacar aquela povoação, dizendo ignorar que São Belchior pertencia aos portugueses, entregando três dias depois os prisioneiros, explicando a impossibilidade da entrega das duas mulheres, aliás que lhe seriam também apresentadas.

Aqui principia a fase brilhante e digna do alferes Francisco António Marques Geraldes, comandante do presídio de Geba; participa o ocorrido para o seu imediato chefe, o comandante militar de Bissau, e dizendo que ia buscar as mulheres, estivessem onde estivessem, pedindo para ser relevado de não esperar autorização superior pelo receio de que, esperando, chegasse tarde, receio fundado, pois no dia seguinte à sua chegada ao Indornal já estariam trocadas por vacas, segundo os ajustes feitos.

Põe-se este oficial a caminho, acompanhado apenas de um enfermeiro ao serviço na praça, António Mendes Rebelo, de José Lopes, comerciante em Geba, e quatro grumetes para conduzir a pequena bagagem da expedição, levando fazendas, tabaco e cola na diminuta importância de 35 mil reis, para lhe facilitar a passagem nos caminhos das diferentes povoações que tinha de atravessar.

Aí vai este oficial, convencido da sua nobre causa, em condições excecionais, sem cómodos, sem força, levando a ideia inabalável de que devia exigir e havia de trazer as duas mulheres cristãs, que, abusiva e violentamente, foram arrebatadas dos seus lares. Chegada à tabanca do régulo Umbucú, apresentou-se-lhe completamente uniformizado, dizendo quem era e qual o seu destino. Este régulo, bastante poderoso e dominando o território vizinho de Geba, recebeu-o admiravelmente, e ofereceu-lhe três cavalos para fazer a jornada e quatro Fulas armados para o acompanharem, e seu filho para lhe servir de guia e obviar a algumas dificuldades de ocasião, que em seu trajeto lhe aparecessem.

Andando nove a dez horas por dia, percorreu aquele trajeto (cerca de 54 léguas) sob um sol ardente, bebendo má água, seguindo tranquilo e cônscio de que realizava a sua nobilíssima ideia. Atravessou o rio Farim no dia 15, dois dias a jusante desta praça, onde é estreitíssimo e obstruído de paus, de difícil navegação, e no dia seguinte o rio Casamansa, a maior distância de Selho, também a jusante, chegando no dia 16 às oito horas da noite ao Indornal.

No dia seguinte, expôs ao régulo de Dembel o fim da sua visita, declarando-lhe as boas relações que têm havido entre o governo português e os da sua raça; que não podia acreditar que ele, régulo, permitisse as correrias dos seus, o que aliás obrigava o governo português a usar de represálias, como já tinha procedido para com os Fulas Forros, Beafadas e todos que praticassem violências para com gente sossegada, que apenas trata do seu comércio, concluindo por exigir as duas mulheres e uma indemnização para aqueles que sofreram na agressão em São Belchior.

O régulo ouviu no mais profundo silêncio a peroração do oficial, e considerou-a caso tão melindroso que só depois de conferenciar com os seus “maiores” lhe poderia responder. No dia seguinte, mandou-o chamar e disse-lhe que estava pronto a entregar as duas mulheres que seu filho tinha mandado para ali; que a indemnização aos roubados não podia ser a que ele entendia dever satisfazer, pois havia pouco tinham sido devoradas pelas chamas duas povoações importantes, como o próprio oficial presenciou, e daí grandes despesas a fazer para abrigar os seus vassalos; que também ia mandar cavaleiros buscar o seu filho para o repreender e proibir-lhe de fazer guerra sem ordem dele, e nunca que pudesse indispô-lo com o governo português.

Convidou-o a esperar pelo regresso do filho.

No dia 24, apareceu o filho de Deusá, e foi severamente repreendido pelo pai, entregando este as duas mulheres e 40.560 reis para distribuir pelos prejudicados de São Belchior.

O oficial saiu no dia 26 do Indornal, sendo acompanhado por Mussá, sobrinho e sucessor do régulo Dembel e seu primeiro-cabo de guerra, em quem deposita toda a confiança. A este ofereceu o alferes Geraldes uma espingarda de repetição que possuía, como presente dos seus bons serviços. Mussá declarou que, em quaisquer circunstâncias que o governo português carecesse dos seus serviços, que podia contar com ele e toda a sua gente, cuja força é superior a 6 mil homens.

No dia 26 saiu às seis horas da tarde do Indornal, seguindo o mesmo itinerário, tendo sido, tanto na ida como no regresso, admiravelmente recebido pelos povos onde passou.

Causou espanto no Indornal à aparição do oficial, pois ali nunca esteve um europeu, chegando a pedir-lhe para descalçar as botas, duvidando se também o corpo era branco,

Excelentíssimo senhor, um oficial que assim procede, nas condições e fim nobre como realizou esta expedição, parece-me merecedor de uma remuneração condigna, que à munificência régia lhe apraza conceder. Este oficial levou a sua abnegação a querer custear as despesas à sua custa, não obstante os seus pequenos vencimentos, e só instado é que se resolveu a mandar para a junta da fazenda a despesa feita, que importa apenas em cerca de 70 mil reis.

Pedindo toda a atenção de vossa excelência para o serviço relevante que o alferes Francisco António Marques Geraldes acaba de prestar ao país, entende cumprir o meu dever levando ao conhecimento de vossa excelência tão relevante serviço.

Deus guarde a vossa excelência.

Fotografia constante no álbum “José Henriques de Mello, o primeiro fotógrafo de guerra português, campanhas de 1907-1908”, organizado por Mário Matos e Lemos

A fortaleza de São José de Amura, Bissau, gravura do início do século XIX

Guiné 63/74 - P13448: Diário da CART 1742 (Mário Alves, 1.º Cabo Corneteiro) (4): Conclusão: Período entre Fevereiro e Junho de 1969 (Abel Santos)

1. Conclusão do "Diário da CART 1742" de autoria de Mário dos Anjos Teixeira Alves, 1.º Cabo Corneteiro, enviado ao Blogue pelo nosso camarada Abel Santos (ex-Soldado Atirador da CART 1742 - "Os Panteras" - Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69).



Diário da CART 1742

Autoria de Mário dos Anjos Teixeira Alves
1.º Cabo Corneteiro
Guiné, 1967/1969

Este diário foi oferecido aos camaradas presentes no 9.º convívio da Companhia de Artilharia 1742, em Campeã - Vila Real de Trás-os-Montes em 25 de Maio de 2013.

Eis a razão
Dos momentos
Da nossa indisposição,
Mandaram-nos para a guerra
Sem a nossa opinião.
Por isso o Salazar
Não terá o nosso perdão.


Fevereiro 69 
Dia 7 - sexta-feira: 
Fui mais uma vez ver o Adão ao hospital, e ele disse-me que ia ser transferido para Portugal.
E tudo continuou normalmente até ao dia 14, sexta-feira, em que fui chamado à secretaria, e me disseram que a minha companhia tinha mandado uma mensagem para me apresentar, pois pensavam que eu já tinha sido operado, e que continuava cá desenfiado. Então, levei as guias que me deram na secretaria para ir ao hospital para as assinarem, mas como já era tarde, mandaram-me voltar na segunda-feira dia 17.
Nesse dia lá compareci, e o médico consultou-me, e disse que me queria voltar a ver na sexta-feira dia 21, e que depois decidia.

Dia 18 - terça-feira: 
É dia de carnaval em Portugal, mas aqui o carnaval é outro.
De manhã encontrei cá nos Adidos o 1.º Sargento da minha companhia, que me entregou o ordenado do mês anterior, e eu contei-lhe como estava a minha situação, sobre a qual ele se mostrou compreensivo. 

Dia 22 - sábado:
Faz 19 meses que deixámos Portugal a caminho desta terra.
Ainda continua cá o sargento Bonito, e pagou-me o corrente mês, e assim continuou tudo normal até ao dia 27.

Dia 28 - sexta-feira: 
Mais um fim do mês.
De manhã fui ao hospital, mas ainda não fiquei internado, e marcaram-me nova consulta para segunda-feira do próximo mês.

Março 69
Dia 3 - segunda-feira:
De manhã fui á consulta no hospital, e o médico que me consultava já não tinha forma de resolver o meu caso, e foi chamar o chefe da cirurgia. Estiveram a ver se havia vaga para os próximos dias, mas não conseguiram, e deram-me alta por 30 dias, com a possibilidade de poder ir à companhia.
De tarde fui à secção de transportes, e deram-me uma requisição para o avião Dakota. Assim, fui de seguida assinar a mesma ao quartel-general onde me marcaram passagem para o dia 5, quarta-feira.

Dia 4 - terça-feira: 
Andei a tratar das guias de marcha.

Dia 5 - quarta-feira:
Às 7h fui ter com o delegado do batalhão de Nova Lamego, e disse-me que o avião tinha ido fazer um voo a Cabo Verde e, que a viagem ficava cancelada. Fui então ao Q.G. marcar nova passagem para o dia 7.

Dia 6 - quinta-feira:
Entre outras coisas, levantei as guias de marcha para amanhã fazer a viagem.

Dia 7 - sexta-feira:
Fui novamente ter com o delegado do respectivo batalhão para me levar ao aeroporto, mas disse-me que tinham cancelado novamente a viagem para Nova Lamego. Então fui novamente fazer a apresentação à secretaria, por não ter ido de viagem.
Até ao dia 20 não consegui viagem alguma.

Dia 21 - sexta-feira:
Às 8h fui avisado para levantar as guias, visto que amanhã a lancha da marinha vai a Bambadinca, e todos os que estão aguardar viagem para aquela região vão poder fazê-la. Assim o esperamos.

Dia 22 - sábado: 
Fazemos 20 meses de missão.
Às 7h30 entrei na porta de armas, na viatura que nos levou ao cais, e depois foi um dia de juízo para embarcarmos, só partimos às 9h na dita L D M, e chegámos a Bambadinca às 16h, e aí pernoitámos.

Dia 23 - domingo:
Eu e um colega do batalhão de Nova Lamego, às 8h conseguimos transporte para Bafatá numa viatura que veio buscar gelo, onde chegamos às 9h30. Como não havia transporte para Nova Lamego, tivemos que nos apresentar à secretaria do esquadrão e assim pernoitamos cá

Dia 24 - segunda-feira:
De manhã saímos para ver se conseguíamos transporte, e encontrámos uma coluna de viaturas civis que iam a Bambadinca buscar material para a engenharia de Nova Lamego. Então os tropas que iam a fazer a escolta mandaram-nos esperar por eles. Por volta das onze horas fomos ao esquadrão levantar as guias, e às 12h30 eles chegaram, e assim partimos para Nova Lamego onde chegamos às 16h, de seguida fiz a apresentação no batalhão e cá pernoitei.

Dia 25 - terça-feira: 
Ao meio-dia estava a almoçar no refeitório, quando o sargento de dia me entregou as guias de marcha, e disse-me para estar às 14h no aeroporto para seguir de avioneta para Buruntuma.
Às 14h lá iniciei a viagem com o piloto Honório. Passados 30 minutos aterrámos em Piche, retomando a viagem em poucos minutos, viagem essa que terminou em Buruntuma às 15h.
Após cumprimentar os colegas fui à secretaria fazer a apresentação, e, como o meu camarada Oliveira estava a comer juntamente com os mecânicos, também acabei por comer com eles.
A partir de agora vou passar a dormir no abrigo 8.

Dia 26 - quarta-feira:
De manhã fui à enfermaria fazer o curativo e, expor o meu caso da consulta externa.
Até ao dia 31 segunda-feira, tudo normal.

ABRIL 69 
Dia 6 - domingo, Páscoa em Portugal: 
Mesmo assim, eu, o Oliveira, e os mecânicos arranjámos 6 frangos, e foram assados no forno com batatas, e apesar de já não haver cerveja há alguns dias, o alferes Cruz arranjou algumas na messe deles, e claro também almoçou connosco, tal como o furriel mecânico Neves.
A restante semana tudo normal, excepto a alimentação, já que vai faltando quase tudo, inclusivamente o pão.

Dia 13 - domingo:
Fui avisado que amanhã vai uma coluna a Piche, e eu vou com eles, para regressar a Bissau e tratar do meu problema de saúde.

Dia 14 - segunda-feira: 
Às 7h30 deixei Buruntuma definitivamente, e partimos em direcção a Piche onde chegámos às 10h30. Uma vez aí, encontrei alguns amigos da minha terra, e para bebermos algumas cervejas fomos ao comércio civil, pois na cantina também estavam esgotadas, tal como em Buruntuma. Também vai comigo para Bissau à consulta externa o cabo cozinheiro Saraiva e o Ribeiro, o furriel Pinto vai tratar de outros assuntos. Foi o Pinto que tratou da entrega das guias na secretaria.
À noite pernoitámos cá em Piche.

Dia 16 - quarta-feira:
Às 8h30 partimos numa coluna para Nova Lamego tendo cá chegado às 9h45. A seguir fui com o furriel fazer compras para mandar à companhia, e depois fomos entregar as guias na secretaria, e à noite cá pernoitámos.

Dia 17 - quinta-feira: 
Ainda continuámos cá em Nova Lamego, com a passagem do dia sossegado.

Dia 18 - sexta-feira: 
Às 9h45 fomos ao aeroporto aguardar que chegasse o avião Dakota, e ver se havia vaga para nos levar. Foi nos ditos que sim, e então fomos levantar as guias e às 10h45 partimos em direcção a Farim, onde aterrou por 10 minutos, e depois, seguimos para Bissau onde chegámos às 12h10. A seguir apanhamos boleia para os Adidos, onde entregámos as guias na secretaria, e assim passou mais um dia.

Dia 19 - sábado: 
Como é fim de semana não dá para tratar de nada, mas deu para dar um passeio por Bissau, tal como no domingo.

Dia 21 - segunda-feira:
De manhã fui ao hospital a uma consulta, e mandaram-me voltar na sexta-feira a fim de ser operado.

Dia 22 - terça-feira:
Completo 21 meses de missão. De resto tudo normal, tal como os dias 23 e 24.

Dia 25 - sexta-feira:
De manhã fui ao hospital e disseram-me para baixar já amanhã até ao meio-dia. De tarde entreguei nos Adidos o boletim da consulta, e da baixa para assinar, mas como o capitão da companhia estava ausente, não foi possível.

Dia 26 - sábado:
Às 10h o capitão assinou os documentos necessários e às 11h30 dei entrada no hospital, fiquei no pavilhão A, cama 31.

Dia 28 - segunda-feira: 
Pedi ao médico para não demorarem a operar, em virtude de estar a aproximar-se o dia de regressar a Portugal.

Dia 29 - terça-feira:
À noite avisaram-me para amanhã não tomar o pequeno-almoço, com a finalidade de ser operado.

Dia 30 - quarta-feira:
Às 9h45 levaram-me para a sala de operações e fui anestesiado, e acordei cheio de dores.
Foi uma tarde e noite difíceis.

Maio 69 
Dia 1 - quinta-feira: 
Um dia difícil com dores, tal como na sexta-feira, pois no sábado já comecei a resistir com mais facilidade.

Dia 4 - domingo:
Além das dores, fiquei triste com a notícia da morte por acidente de viatura de João Fernandes Caridade, um camarada da companhia.

Dia 5, 6 e 7: 
Tenho vindo a melhorar aos poucos.

Dia 8 - quinta-feira: 
De manhã tiraram-me os pontos na sala de tratamentos, e logo senti um grande alívio.

Dia 9 - sexta-feira: 
Ao fazer o curativo o enfermeiro disse-me que o golpe tinha aberto, e chamou o médico, este disse-me que foi por eu me ter posto de pé, mas já nada havia a fazer.

Dia 12 - segunda-feira: 
O médico disse que me ia propor alta, e que ficava em consulta externa a fazer o penso diário até que ficasse bom.

Dia 13 - terça-feira:
Foi-me dada alta da parte de tarde, então entregaram-me a roupa e as guias e passei para a enfermaria dos Adidos que também pertence ao hospital, se bem que continuo a ir ao hospital fazer o penso diariamente.
Foi o que aconteceu até ao dia 29, quinta-feira.

Dia 30 - sexta feira:
De manhã vi um desfile de militares chegados de Portugal, e fui fazer o penso ao hospital, à tarde fui até ao cais ver o NIASSA que os trouxe, e nos vai levar de regresso à nossa terra.

JUNHO 69 Dia 3 - terça-feira:
Chegou o 1.º sargento Bonito para tratar do assunto do embarque, e disse-me que a companhia chega depois de amanhã, ele fica instalado no quartel dos 600 em Sta. Luzia.

Dia 4 - quarta-feira:
De manhã fui ao hospital, e disse ao médico que ia embarcar no dia 6, e ele divertiu-se comigo, dizendo que não me dava alta e por isso eu ficava, mas lá ma passou, e deu-me uma carta para eu apresentar na enfermaria do barco para me fazerem o curativo.

Dia 5 - quinta-feira:
Fui à secretaria levantar as guias para passar para a minha companhia, visto que ela chega às 20h.
Ao meio da tarde fui para o cais à espera do meu pessoal, mas quando chegaram já eram 22h30, e com a demora do desembarque chegámos aos Adidos à meia-noite e meia.

Dia 6 - sexta-feira: 
Desde que chegámos, das 0h30 até às 6h30 estive com o meu colega Oliveira e o sargento Ribeiro a receber o fardamento, as armas e o restante material para entregar.
Depois fui feliz da vida dizer adeus a Bissau.
Às 16h regressei aos Adidos, e às 17h partimos para o local onde embarcámos, neste grande barco NIASSA, que à meia-noite deu a partida para a viagem tão desejada.

Niassa

Dia 7 - sábado:
Às 14h30 o barco fez uma curva e começaram os rumores que o barco voltava para Bissau, a fim de levar um furriel que estava em perigo de vida.

Dia 8 - domingo:
Às 6h acordei e ouvi o barulho de um helicóptero, então levantei-me e fui para o convés, ver o que se estava a passar. Então vi que o barco estava parado e o helicóptero fazia todas as tentativas para pegar no doente, mas não conseguia. Então, desceram uma baleeira e foram levar o doente a uma pequena ilha que se via à distância, e só lá o helicóptero consegui resgatar o doente, tudo isto se passou na região de Cabo Verde.
Às 7h30 o barco reiniciou a viagem.

Dia 9 - segunda-feira:
Continua tudo razoavelmente bem, embora com um pouco de enjoo, mas a ansiedade de chegar a Lisboa nada nos incomoda.

Dia 10 - terça-feira:
Tudo bem, embora tenha tocado o alarme de perigo para formarmos com o devido equipamento de salva-vidas mas nada passou de um simulacro.

Dia 11 - quarta-feira:
Quando tomávamos o pequeno-almoço deu para ver terra à distância, quando nos foi dito que eram as Canárias.
Às 13h voltou a tocar o alarme, e lá formámos de novo com os respectivos coletes salva-vidas, mas nada aconteceu de mal.

Dia 12 - quinta-feira:
Tudo continua bem.
À noite houve mais uma sessão de cinema como é habitual todas as noites, só que esta tem um significado especial, pois acreditámos que seja a última passada aqui no barco.

Dia 13 - sexta-feira: 
O dia mais alegre da vida até hoje.
Logo de manhã tirámos as malas do porão para o convés, às dez horas já começámos a ver terras e não deu para ver mais cedo por estar nevoeiro.
Às 11h chegámos ao cais de Alcântara, e às 12h30 desembarcámos dando assim largas aos abraços dos familiares que nos esperavam, e que assim faziam esquecer todo o sofrimento passado ao longo de quase dois anos.
Às 16h despedimo-nos desses familiares, e partimos de combóio para Penafiel, onde chegámos sábado dia 14 pela madrugada. Logo a seguir fizemos espólio da roupa que trazíamos vestida e a mochila com o restante, vestimos a roupa civil, dando um abraço de amizade aos camaradas, com o desejo de nos voltarmos a encontrar um dia.
Assim dei por terminada a minha missão obrigatória chamada de soberania, na dita Guiné, dando graças a Deus por me trazer de volta aos braços da minha família, e a esta terra querida do lugar do Cotorinho, Campeã, Vila Real.

Mário dos Anjos Teixeira Alves.
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Nota do editor

Vd. postes da série de:

24 de Julho de 2014 > Guiné 63/74 - P13434: Diário da CART 1742 (Mário Alves, 1.º Cabo Corneteiro) (1): Período entre Agosto de 1967 e Janeiro de 1968 (Abel Santos)

26 de Julho de 2014 > Guiné 63/74 - P13437: Diário da CART 1742 (Mário Alves, 1.º Cabo Corneteiro) (2): Período entre Fevereiro e Julho de 1968 (Abel Santos)
e
28 de Julho de 2014 > Guiné 63/74 - P13441: Diário da CART 1742 (Mário Alves, 1.º Cabo Corneteiro) (3): Período entre Agosto de 1968 e Janeiro de 1969 (Abel Santos)

Guiné 63/74 - P13447: Parabéns a você (764): Amaral Bernardo, ex-Alf Mil Médico do BCAÇ 2930 (Guiné, 1970/72); Júlio Costa Abreu, ex-1.º Cabo Comando do Grupo Centuriões (Guiné, 1964/66) e Victor Tavares, ex-1.º Cabo Caçador Paraquedista da CCP 121 (Guiné, 1972/74)



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Nota do editor

Último poste da série de 17 de Julho de 2014 > Guiné 63/74 - P13408: Parabéns a você (763): Álvaro Basto, ex-Fur Mil Enf da CART 3492 (Guiné, 1971/74) e José Manuel Pechorro, ex-1.º Cabo Cripto da CCAÇ 19 (Guiné, 1971/73)