sábado, 8 de abril de 2017

Guiné 61/74 - P17222: Tabanca Grande (431): Adolfo Cruz, ex-fur mil at inf (Gadamael, Vicente da Mata, Ome (Bijemita), Quinhamel, Biombo e Bissau, 1970/72)... Grã-tabanqueiro nº 740.


Guião da CCAÇ 2796,  cortesia do do ex-alf mil médico Amaral Bernardo, nosso prezado camarada da Tabanca Grande, que esteve no TO da Guiné nos anos de 1970/72.






Adolfo Cruz, foto atual


Adolfo Cruz, foto do antigamente (fur mil at inf, CCAÇ 2796, Gadamael, Vicente da Mata, Ome (Bijemita), Quinhamel, Biombo e Bissau, 1970/72)


1. Mensagem do nosso camarada e novo grã-tabanqueiro nº 740, Adolfo Cruz, com data de 7 do corrente;

Assunto - Tabanca Grande

Caros Amigos,

Aproveito este momento para me registar na entidade em epígrafe [, a Tabanca Grande,] acreditando que passarei a fazer parte de uma entidade  que nos diz muito, não pela missão que nos moveu, naquele tempo, mas pelo simbolismo, além da cumplicidade e admiração que todos nutrimos uns pelos outros.

Nasci em Vieira do Minho, em 11 de Setembro de 1948.

Vivi em Aveiro, Lisboa, Ponte da Barca, Ansião, Coimbra, Arcos de Valdevez, Braga, Figueira da Foz.

Residi em Lisboa, novamente, desde Maio de 1973. Actualmente (, sendo pensionista, desde Setembro de  2005. ) resido em Algés, Oeiras.

Sou do 4º turno de 1969, tendo entrado no RI 5,  Caldas da Raínha, em 6 de Outubro, seguindo para o CISMI de Tavira, para complemento da especialidade de  atirador.

Depois, dei instrução no RI 7,  Leiria e, em Julho de 1970, formei a Companhia de Caçadores Independente, CCAÇ 2796, no RI 2, Abrantes, seguindo para o Campo Militar de Santa Margarida, onde fiz o IAO.

Em 31 de Outubro de 1970, embarcámos para a então Província da Guiné, no velho "Carvalho Araújo", tendo chegado a Bissau, em 9 de Novembro.

Como teria que ser, primeira etapa no Depósito de Adidos (Brá), aguardando disponibilidade de LDG ou LDM para a viagem para Gadamael Porto, nosso destino de operações.

A viagem foi "interessante" ..., tendo feito transbordo em Cacine, para batelões, pois eram os meios possíveis para complemento da viagem naquelas circunstâncias de navegação.

Em Gadamael Porto, estivemos durante 16 meses (embora nos tivessem dito que seriam, apenas, 12 meses, período máximo considerado para aquela zona).

Depois, passámos para 4 destacamentos, um grupo de combate em cada um: S. Vicente da Mata, Ome (Bijemita), Quinhamel, Biombo, onde permanecemos cerca de 7 meses, seguindo para o COMBIS, Bissau, onde aguardámos voo para Lisboa.

Em 5 de Outubro de 1972, após desfilar perante o Governador-Geral e Comandante-Chefe, gen Spínola, partimos para Lisboa !

Abraço

Adolfo Cruz

Blogue "Se Penso, Blogo, Existo".
http://www.kruzadolphus.blogspot.com

2. Comentário do editor:

Adolfo, chegas num dia triste, em que desaparece o nosso camarada Jorge Portojo, que esteve em Catió, em 1968/70. Mas o dever de cada de um de nós é o de passar uns aos outros e aos vimdouros o nosso testemunho, as nossas memórias.

Sê bem-vindo. Passas a ser o membro da Tabanca Grande nº 740. E ficamos à espera que nos fales, com mais detalhe, dos sítios por onde passaste com os teus camaradas da CCAÇ 2796. Se sobre Gadamael, Quinhamel e Biombo,  temos muitas referências no blogue, já sobre São Vicente da Mata  e Ome sabemos muito pouco ou nada.

Senta-te no teu lugar, à sombra do nosso poilão, e já sabes: a partir de agora tens licença para falar em voz alta, e com propriedade, sobre as tuas andanças na Guiné.  É para isso que o nosso blogue serve, além de ser um traço de união entre todos os camaradas que por lá passaram, de 1961 a 1974.

Que sejas bem vindo e que fiques connosco por muito tempo. Diz-nos a tua data de nascimento, se quiseres que a gente te cante, em público, os "parabéns a você" no dia do teu aniversário... Conheces as regras de convívio do blogue e já sabes que a gente se trata por tu. Fica bem.

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Nota do editor:

Último poste da série > 30 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17189: Tabanca Grande (430): António Salvada, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2854/BCAÇ 2884, Có, 1969/71, nosso 739.º amigo tertuliano

Guiné 61/74 - P17221: Parabéns a você (1235): José Augusto Miranda Ribeiro, ex-Fur Mil Art da CART 566 (Guiné, 1963/65)

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Nota do editor

Último poste da série de 7 de Abril de 2o17 > Guiné 61/74 - P17214: Parabéns a você (1234): António Rocha Costa, ex-Alf Mil Op Especiais da CCAV 2539 (Guiné, 1969/71); Fernando Manuel Belo, ex-Soldado Condutor Auto do BCAV 8323 (Guiné, 1973/74) e Mário de Azevedo, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 6 (Guiné, 1970/72)

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Guiné 61/74 - P17220: Memórias de Gabú (José Saúde) (67): As minhas memórias de Gabu: A morte de um camarada (José Saúde)

1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos mais uma mensagem desta sua série.
As minhas memórias de Gabu


A morte de um camarada

Nas exaustas sombras de um ténue silêncio, revejo romanescas imagens de uma guerra que ousou quebrar a irreverência de uma juventude que, no auge dos seus irreverentes 20 anos, era atirada para as frentes de combate sem que se premeditasse o momento seguinte.

Hoje, vergado ao peso dos meus 66 aninhos de idade, ajoelho-me perante todos os camaradas que, tal como eu, viveram inolvidáveis momentos de prazer e dor.

Prazer pelos instantes em que a guerra dava pausas e a rapaziada divertia-se com as ocasionais festanças, quer bebendo endeusados refrigerantes nos bares de oficiais, sargentos ou praças, quer matando o tempo em jogatanas de futebol, ou num outro tipo de divertimentos.

A dor, incessantemente a dor, era, e é, uma mágoa que todos nós ainda transportamos nas nossas já usadas memórias. A dor da morte de um jovem projetado para a frente de combate e muitas vezes mal preparado para uma peleja onde as balas ditavam dramáticos fins, apresentava-se como um enorme sofrimento para o camarada que se sentia revoltado por uma morte que lhe passou, por enquanto, ao lado.

Dor por aqueles que ficaram estropiados e/ou por outros que ainda sofrem com as contingências de um pós-traumático stress de guerra, situação esta retirada de uma comissão militar obrigatória numa Guiné, como é o caso, onde tudo para nós se apresentava como novidade.

Revejo a drástica situação em que a morte ocorria amiúde e nós, miúdos de tempera rija, reagimos a uma intempérie que acabava por salpicar mais uma página do calendário da vida de um combatente que se atrevia a enfrentar o medo e os imprevisíveis encontros com inimigos que lutavam de peito aberto num terreno que era seu e que muito bem conheciam.

Acompanho no nosso blogue histórias de famigeradas emboscadas onde muitos camaradas perderam a vida e outros ficavam feridos. Instantes dramáticos relatados por camaradas que conviveram com essa irrefutável realidade. Palavras soltas, por vezes duras, que visavam somente dar ânimo àqueles que lutavam em desespero e que se agarravam a um limitadíssimo fio de vida que literalmente os separava de uma morte que estava ali tão perto.

Irra a guerra!... Irra a tantos fatídicos fins!... Irra a quem fez da guerra um cemitério de jovens! Irra para aqueles tempos em que a incerteza do ir e voltar ficava estampada nas joviais caras de mancebos que levavam na testa o selo de “carne para canhão”. Enfim!…

A propósito deste fatigado cavaquear doutros tempos, lembro-me irrepreensivelmente um dia observar a chegada ao meu quartel de um camarada morto em combate na região de Gabu. O destino do corpo foi a enfermaria. O furriel miliciano enfermeiro Navas, permitiu-me que lhe prestasse o último adeus.

Cruzámos olhares, observámos o corpo, e verificámos um pequeno orifício na testa de uma bala que lhe foi fatal. De resto todo o seu corpo se apresentava ileso.

Como eram cruéis aqueles tempos em que a guerrilha ditava bárbaras atrocidades. Hoje, tudo passou à história e aqueles velhos tempos em que sustínhamos nos braços uma G3 para nos defendermos do IN, são apenas recordados por camaradas que por ora ainda vão debitando memórias de uma guerra onde fomos atores forçados numa tela de longa metragem desenhada a preto e branco e em que a sigla terminal regista a palavra FIM.




Um abraço, camaradas
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

Mini-guião de colecção particular: © Carlos Coutinho (2011). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

9 DE JANEIRO DE 2017 > 
Guiné 61/74 - P16937: Memórias de Gabú (José Saúde) (66): Noratlas

Guiné 61/74 - P17219: In Memoriam (284): Jorge Teixeira (Portojo) (1945-2017) cujo funeral é amanhã às 14h30, da Capela Mortuária de Rio Tinto, Gondomar, para o cemitério de Paranhos, no Porto, um artista visto pelos seus amigos (Carlos Vinhal / José Ferreira da Silva / Dinis Souza e Faro / Francisco Baptista)

Momento musical - Lacrimosa, de Mozart, dedicado hoje, no facebook, à Memória do Jorge Portojo, pelo seu amigo e camarada José Ferreira da Silva

Jorge Teixeira (Portojo) - 1945-2017 - A sua cidade como fundo

O nosso Portojo deixou-nos ontem. Estava internado internado há alguns dias no Hospital de S. João, onde se encontrava depois de o seu estado de saúde ter piorado.

Os amigos mais chegados, principalmente os que o acompanharam nesta fase terminal, esperavam já este desfecho.

O nosso amigo Portojo era homem de poucas palavras mas que prezava os amigos, aos quais fez centenas de fotografias, ou não andasse ele sempre com a sua inseparável máquina fotográfica. Estava doente há muitos meses, passando por algumas melhoras aparentes. Nunca deixou de estar presente nos convívios mensais da "Tabanca dos Melros" e nos do "Bando do Café Progresso, das Caldas à Guiné".

Deixa na Web imensos trabalhos, em Power Point, dedicados à cidade do Porto, que conhecia, amava e fotografou como poucos. O Douro e as suas margens, até às terras transmontanas, foram objecto da lente da sua máquina fotográfica. O Grande Porto foi também registado em imagens, de que saliento por, motivos sentimentais, Matosinhos e Vila do Conde. Desta última cidade, dedicou o Jorge o seu primeiro trabalho a mim, a quem chamou um matosinhense de Azurara, e ao Carmelita, este sim um vilacondense de alma e coração, do qual deixo a foto da Igreja Matriz de Azurara, onde fui baptizado.

Igreja Matriz de Azurara - Vila do Conde
Foto de Jorge Portojo

De Matosinhos, mas propriamente de Leça da Palmeira, esta belíssima perspectiva tirada do local onde existiu o primeiro farol, esse sim, o da Boa Nova.

Casa de Chá da Boa Nova, Farol de Leça e panorâmica de Leça da Palmeira
Foto de Jorge Portojo

E por que não o Porto a preto e branco?

Belíssima esta foto da meia-laranja sobre a Praia do Molhe - Foz do Douro - Porto
Foto de Jorge Portojo

Terminamos com "Glória", de Vivaldi, dedicado hoje mesmo, no facebook,  pelo camarada Diniz Souza e Faro ao nosso já saudoso Portojo.

Carlos Vinhal

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2. Texto enviado ao nosso Blogue por Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72):

Conheci pessoalmente o Jorge Portojo somente o ano passado quando fui convidado pelo José Ferreira, a integrar o Bando do Café Progresso. 

Dentre muitos camaradas simpáticos e educados conheci, o Jorge, um pouco alheio e indiferente a este intruso. Esse Jorge Portojo, de quem já tinha ouvido falar vagamente, com o realce e a admiração que o blogue do "Luís Graça e Camaradas da Guiné" sabe ter por todos os camaradas e artistas que se destacam em diferentes áreas do saber e da arte. 

Confesso que o Jorge Portojo, que não foi muito simpático quando o conheci, com o tempo apercebi-me que ele teria algumas exigências em aceitar a convivência de estranhos. O Jorge teve sempre uma exigência estética, talvez um pouco egoísta, para decidir a aceitação de estranhos, porque ele foi sempre um esteta e um artista. Procurei entender esse capricho de artista ao elogiar-lhe os seus trabalhos fotográficos, que realmente eram admiráveis, e recebi sempre dele um retorno e agradecimento positivo. 

O Jorge Portojo para mim é um grande artista e um grande homem desta grande cidade do Porto, onde vivo e que aprendi a amar. Descobri o Jorge Portojo há um ano entre muitos bandalhos, todos homens de respeito, e aprendi com ele a amar mais esta cidade linda. Vós outros camaradas e amigos Bandalhos com uma convivência mais próxima e prolongada sabereis. 

Por muitas razões teria que gostar deste nosso camarada que nos deixou, nascido e criado no Porto, a viver muitos anos em Fânzeres, encostado ao Porto, um grande fotógrafo da cidade e ex-combatente da Guiné. Retratou a cidade do Porto com alma e coração, retratou o norte do país rural e urbano igualmente com o mesmo amor e a mesma arte (há cerca de quinze dias comentei fotos admiráveis dele que me enviaram).

Honra e glória ao Jorge Portojo! 
Nunca te esqueceremos. 
Um grande abraço ao Jorge que parte mas fica na nossa alma e na arte que perpetua a sua memória. 

Francisco Baptista
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Nota do editor

Último poste da série de 7 de Abril de 2017 > Guiné 61/74 - P17217: In Memoriam (283): Jorge Teixeira (Portojo) (1945-2017), ex-Fur Mil, Pel Canhão s/r 2054, Catió, 1968-70... O funeral é amanhã às 14h30, da Capela Mortuária de Rio Tinto, Gondomar, para o cemitério de Paranhos, no Porto

Guiné 61/74 - P17218: Notas de leitura (944): “O país fantasma”, de Vasco Luís Curado, Publicações Dom Quixote, 2015 (3) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Janeiro de 2016:

Queridos amigos,
São quase 500 páginas de uma história bem contada, tudo irá começar no torvelinho dos acontecimentos de 1961, com o massacre de brancos e pretos em fazendas no Norte de Angola. O escritor vai pondo os protagonistas no terreno, descobre um ponto de encontro para eles comunicarem e lança-os, em plena guerra civil, a viajar em colunas como refugiados em que se volatizou a esperança.
Uma estrutura impecável, com as tensões bem doseadas, é um caminhar até 1975 sem mascarar os dramas humanos, sem lamechices, sem bodes expiatórios, cuidando de que há sempre um juízo histórico para aquilatar como se decidiu, como se errou, como se perdeu e achou.

Um abraço do
Mário


O país fantasma, por Vasco Luís Curado (3)

Beja Santos

Continua a escalada da guerra civil, os brancos, em colunas quilométricas, chegam a Nova Lisboa, procuram a família e os amigos. Célia, a namorada de Alexandre, viaja com elementos de um partido da extrema-direita branca, gente que criou um esquadrão da morte encarregado de cometer assassinatos políticos, assaltos a portos policiais e quartéis para obter armas. “Queriam sabotar o programa para a independência. Assaltavam bancos e carrinhas de valor, agentes cambistas, estações de rádio, fábricas. Infiltrados em negócios de tráfico de armas, formaram um arsenal particular com armas ligeiras e pesadas. Suspeitava-se de que tinham sido eles a atacar uma viatura militar portuguesa, disfarçados com fardas da FAPLA, para criar confusão entre os militares portugueses e o MLPA”. Tomé, o elemento do esquadrão da morte explica a Célia como é que pretendem reestabelecer a ordem em Angola:
“Receberemos ajuda da África do Sul. Vamos fazer o que já devíamos ter feito há muito tempo, se os brancos não estivessem tão desunidos e não fossem enganados por Lisboa. Vamos proclamar unilateralmente a independência de Angola e construir um Estado à imagem da Rodésia. Uma aliança entre as forças armadas sul-africanas e a FNLA, com muitos portugueses à mistura, derrotará o MPLA”.
Célia agradece a boleia, sai em Sá da Bandeira. Capelo, antigo oficial português e fazendeiro na Gabela, discursa na primeira pessoa do singular, narra que chegaram a Nova Lisboa, os refugiados procuram um conforto possível naquele pandemónio. Inscrevem-se na lista de espera do voo para Portugal:
“A maior ponte aérea civil do mundo atingiu proporções que ninguém previra. Não havia horários de voo. Assim que aterrava, um avião reabastecia-se de combustível, enchia-se de passageiros até aos limites mínimos de segurança e descolava. Não se sabia quando chegaria o seguinte”.
Tudo serve para fugir, parece um êxodo bíblico: viaja-se em barcos de capotagem e barcaças, no paquete de luxo Infante D. Henrique, colunas motorizadas, algumas com 3 mil camiões, empreenderam a travessia de África em direção a Portugal, arrisca-se tudo para sair do Inferno. Nova Lisboa está num caos, já se comprou todo o ouro possível, a moeda estrangeira era trocada por angolares a um quinto do valor oficial. Comprava-se tudo o que os refugiados ou as empresas vendiam barato por não poderem transportar para fora do país. Todos os fugitivos têm histórias deprimentes para contar. Célia parte para se juntar à família em Nova Lisboa, é impossível chegar a onde está Alexandre. Sobrelotada, Nova Lisboa rebenta pelas costuras: vai desaparecendo a comida, as fábricas fecham, as quintas e vacarias eram assaltadas e os guerrilheiros matavam animais caros, como vacas leiteiras, por serem brancos e ser necessário matar tudo o que era branco. Depois, começou a faltar o carvão, a lenha, o gás e a gasolina. A capital da região agropecuária mais rica de Angola estava a passar fome. Aquela família vai para o aeroporto no dia marcado para o voo, tudo caótico:
“As listas de espera obrigavam pessoas a viver ali há mais de uma semana. Havia tendas oferecidas pelo Exército, havia abrigos improvisados com chapas de zinco como teto, entre caixotes e malas. Cozinhava-se o que se podia”.
Ouve-se perfeitamente o tiroteio, depois de muitas peripécias entram no avião:
“O piloto recusou a descolar enquanto estivesse montada uma metralhadora antiaérea sobre o telhado do aeroporto”.
E assim chegam a Lisboa, é o tormento da adaptação, a via-sacra à procura de familiares ou de um espaço definido pelas autoridades. Voltou-se ao discurso na primeira pessoa do singular, um discurso penitente, uma sentida discriminação, a vida vai-se refazendo, como diz o autor somos também o resultado de catástrofes e mudanças, aquela última descolonização africana era apenas um episódio de perdas e sobrevivência que os seres humanos protagonizavam.

O ponto de encontro destes retornados é a Baixa, mais propriamente o Rossio. Capelo e Mateus reencontram-se. Em Portugal vive-se o período revolucionário. À porta do Banco de Portugal, são longas as filas dos funcionários públicos do Quadro de Adidos, vêm levantar o vencimento, conversam, desabafam, contam histórias mirabolantes dos caixotes que se extraviaram. Os retornados vão acompanhar as notícias da intensa guerra civil, sobretudo do que se vai passar em Luanda, à volta do 11 de Novembro de 1965. Capelo reencontra a irmã, é uma conversa de surdos. Estamos em Novembro, o Rossio está cheio de gente, há para ali uma manifestação, pretendem levar um caixão com terra de Angola para o Palácio de Belém. Do outro lado há uma outra pequena multidão de ex-combatentes das guerras de África, os ânimos aquecem, o confronto é iminente, e o final do romance histórico é metafórico, sublime:
“O caixão que continha terra de Angola foi erguido no ar, acima das cabeças, e só então é que Mateus o viu. Num impulso absurdo, vários braços empurraram o caixão na direção dos ex-combatentes, como para lhes mostrar que tinham alguma culpa pelo morto de que se estava a fazer o funeral simbólico. Pondo-se em bicos de pés, Mateus tornou a ver o caixão, caravela periclitante movida por vagas e vagas de braços, que alcançou o limite daquele mar e oscilou mais ainda, por que já não se sabia que rumo lhe dar, e desapareceu da sua vista, náufrago”.

A trama de um romance histórico como este é um correr da escrita em cima da lâmina, é preciso uma história muito bem contada, plausível, com gente que aparenta ter carne e osso para que a narrativa capture o leitor, é então que o rigor histórico, ou quase, corre fluido entre os parágrafos, e toda aquela multidão que vivera tantos anos longe da guerra apercebe-se que chegou a hora de partir, aquele dragão vomita um fogo que os colonos não poderão apagar. Vasco de Luís Curado ganhou a aposta com este importante romance histórico, em que as próprias descrições da violência se inserem corretamente na tessitura das descrições. Naquele ano de 1975 chegaram náufragos que contribuíram para o fermento novo da democracia portuguesa.
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Nota do editor

Último poste da série de 3 de abril de 2017 > Guiné 61/74 - P17202: Notas de leitura (943): “O país fantasma”, de Vasco Luís Curado, Publicações Dom Quixote, 2015 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P17217: In Memoriam (283): Jorge Teixeira (Portojo) (1945-2017), ex-Fur Mil, Pel Canhão s/r 2054, Catió, 1968-70... O funeral é amanhã às 14h30, da Capela Mortuária de Rio Tinto, Gondomar, para o cemitério de Paranhos, no Porto

Gondomar > Fânzeres > Tabanca dos Melros > Março de 2017 > Uma das últimas fotos do Jorge Teixeira (Portojo) (1945-2017). Cortesia da página do Facebook da Tabanca dos Melros de que ele foi cofundador em 2009.


1. O Jorge Teixeira (Portojo) (ex-Fur Mil, Pelotão de Canhões S/R 2054, Catió, 1968/70), despediu-se da "terra da alegria"... O  funeral é amanhã às 14h30, da Capela Mortuária de Rio Tinto, Gondomar, para o cemitério de Paranhos, no Porto (*).

O seu grande amigo e camarada, o José Ferreira da Silva, é que nos confirmou a triste notícia, que já circulava esta manhã nas redes sociais:

"Comunico a todos os meus amigos que o Jorge Portojo faleceu esta noite, no Hospital S. João do Porto, onde se encontrava há uma semana.

O Funeral sairá da Capela Mortuária de Rio Tinto pelas 14,30 de amanhã, em direcção ao Cemitério de Paranhos.

Todos os que tiveram o prazer de o conhecer sabem bem da perda que vamos sentir. Resta-nos manter a sua boa memória, bem como a amizade e camaradagem que ele tanto nos incutiu.

Sempre juntos, desde a guerra até à paz eterna!"


2. O Portojo tinha mais de 6 dezenas de referências no nosso blogue.  Fazia anos a 8 de dezembro. Tinha um grupo indefetível de amigos e camaradas, o Bando do Café Progresso. Tinha página no Google Mais com 355 seguidores. Era um apaixonado pela vida, amante das coisas boas da vida. 

Era um notável fotógrafo. "Cartografou" a sua cidade como poucos, deixando-nos belíssimas imagens do Porto e dos recantos. A mim ajudou-me a conhecer melhor o Porto (**),

Era um homem, de verbo fácil, grande contador de histórias, dotado de grande argúcia e corrosiva ironia... Convivi com ele duas ou três na Tabanca de Matosinhos e no último encontro da Tabanca Grande, o ano passado, em Monte Real.

Tinha página no  Facebook, era um um homem perfeitamente adaptado às redes sociais. Estava também no Twitter, como  Jorge Portojo... Os seus interesses manifestados era,: "Fotografia, Caminhadas, Convívios, Leitura, Música, Amizades, Copos". Tinha diversos blogues de que destaco A Vida em Fotos.

Em 27 de abril de 2013, no  9º aniversário do nosso blogue, escreveu o seguinte depoimento que diz muito da sua personalidsde e da sua maneira de ser e estar na vida (***):

(...) "Fálo (com acento, assim evito confusões com o falo que nos querem impôr na nova ortografia) por mim, pois a muitos amigos e camaradas a quem envio esses lugares comuns tal não seria possível sem o Blogue que criaste e os editores desenvolveram e os correspondentes mantêm vivo.

Por ele e por causa dele, Blogue, reencontrei camaradas, fiz amizades pessoais e correspondentes espalhados pelo mundo.

Roubando ao Eduardo Campos a sua célebre frase: Salazar foi um fdp que me tirou anos de juventude, mas permitiu-me conhecer muitos amigos.

Ao Blogue cabe perfeitamente a adaptação da frase. Na minha resposta ao questionário, escrevi que já não tenho mais estórias para contar. Claro que tenho, mas muitas não podem ser publicadas. Faltar-lhes-ia em primeiro lugar o engenho da escrita para descrever situações que à distância de 40 e tal anos parecem estúpidas e irreais.

Também foi por causa do Blogue que recebo a minha pensão militar. Não sei se é assim que ela se chama, mas para o caso também não interessa nada. (Acho que é a única frase boa que alguma vez a Teresa Guilherme exprimiu, serve para tudo).

É estória velha já contada. Ao correr da pena, foi o saudoso Carlos Pinhão que me ensinou a diferença entre estória e história. Não tem nada a ver com a nova ortografia ou ter apanhado a palavra dos amigos Brasileiros. Mas este Blogue tem história e muita e tem muitas estórias.

Para lá dos parabéns, blablabla, deixo o meu abraço ao Luís e seus muchachos extensivos à rapaziada da Peste Grisalha." (...).

Até sempre, camarada Jorge Portojo. A tua memória e o teu nome ficarão, para sempre connosco,  sob o sagrado, mágico, protetor poilão da Tabanca Grande, indo juntar-se à lista, infelizmente já extensa, dos que "da lei da morte já se foram libertando".

As nossas condolências, à família, amigos e camaradas mais chegados. (LG)
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(*) Vd. poste de 28 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14087: Os nossos seres, saberes e lazeres (75): O Porto (e)terno (Luis Graça)

(***) Vd. poste de  27 de abril de 2013 > Guiné 63/74 - P11487: 9º aniversário do nosso blogue: Parabéns (3): Parabéns ao grandioso Blogue (Felismina Costa) e Por ele e por causa dele, Blogue, reencontrei camaradas, fiz amizades pessoais e correspondentes espalhados pelo mundo (Jorge Teixeira - Portojo)

Guiné 61/74 - P17216: Notícias (extravagantes) de uma Volta ao Mundo em 100 dias (António Graça de Abreu) - Parte VII:Canal do Panamá




Parte VI (pp. 20-22)



Texto, fotos e legendas: © António Graça de Abreu (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Publica-se hoje a VII parte das crónicas da "viagem à volta ao mundo em 100 dias", do nosso camarada António Graça de Abreu, escritor, poeta, sinólogo, ex-alf mil, CAOP 1 [Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74], membro sénior da nossa Tabanca Grande, e ativo colaborador do nosso blogue com mais de 175 referências.

É casado com a médica chinesa Hai Yuan e tem dois filhos, João e Pedro. Vive no concelho de Cascais.

Sinopse: o navio de cruzeiro "Costa Luminos", com cerca de 3 mil passageiros e tripulantes e mil tripulamtes (quase 300 metro de comprimento, e 92 mil toneladas; vd. aqui ficha técnica),  parte do porto de Barcelona em 1 de setembro de 2016. 

Duas semanas depois está nas Caraíbas e na Colômbio (Cartagena de las Ìndias). Atravessa depois ocanal do Panamá para ir  navegar durante mais de um mês no  Oceano Pacífico. (Sobre o Canal do Panamá, vd. aqui entrada da Wikipédia.)

Guiné 61/74 - P17215: (De) Caras (70): A lavadeira Miriam e o furriel Mamadu... Comentários: da misogenia ao levirato, da tragédia da infertilidade feminina ao sexo em tempo de guerra...



A Miriam e o furriel Mamadu


Foto (e legenda): © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentários ao último poste do Mário Fitas (*)


[Mário Fitas foi cofundador e é "homem grande" da Magnífica Tabanca da Linha, escritor, artesão, artista, além de nosso grã-tabanqueiro da primeira hora, alentejano de Vila Fernando, concelho de Elvas, reformado da TAP, pai de duas filhas e avô; foto atual, à direita]


(i) Valdemar Queiroz:

Belo texto.
Esquisita aquela passagem 'apesar de ser negra Mariam não era nada de desperdiçar' Não percebo por que é que por ser uma mulher negra tinha que ser desperdiçada?  Mas desperdiçada de quê? (Por cá dizemos o mesmo, mas não é por ser branca)
Ainda bem que naquela pequena tabanca (o Mamudu não sabia se fula ou mandinga ?) a população dominava perfeitamente o crioulo e até o Aqueba tocava kora, mas, estranhamente, nada sabia da infertilidade das mulheres.
Venham mais textos
Valdemar Queiroz

5 de abril de 2017 às 18:46

(ii)  Tabanca Grande:

Mário, é um texto "corajoso", em que te expões, dás a cara... Concordo com o Valdemar, é um pouco "infeliz" a tua observação: "apesar de ser negra, Miriam não era nada de desperdiçar"... Tal como aquela outra, mais à frente: "ao fim de quinze dias na Guiné, as negras começam a ficar brancas”...

Bom, a Miriam é uma grande mulher e se ela foi tua lavadeira e amante, foste um tuga, além de "balente", com sorte na guerra e nos amores... Tiro-lhe o quico, a ela e ao Mamadu!

O teu texto é prosa e da boa. É literatura, é ficção, memso com um fundo autobiográfico. E o romancista, o novelista, o contista, não tem que ser "politicamente correto"!... Hoje temos dificuldade em abordar, com frontalidade, as questões de género...

Muitos de nós, na época, "pensavam" o mesmo... De resto, a misogenia (e o racismo) está ainda bem presente em muitos provérbios e outros lugares comuns da língua portuguesa... Aqui vai uma mão chão deles, selecionados por mim:

"A mulher e a mula o pau as cura";

"A raposa tem sete manhas e a mulher a manha de sete raposas";

"Até aos vinte, evita a mulher; depois dos quarenta, foge dela";

"Com mulher louca, andem as mãos e cale-se a boca";

"Da cintura para baixo não há mulher feia";

"De má mulher te guarda e da boa não fies nada" (Séc. XVI);

"Debaixo da manta tanto faz a preta como a branca";

"Desejo de doente, visita de barbeiro, serviço de mulher";

"Dia de Santo André, quem não tem porcos mata a mulher";

"Foge da mulher que sabe latim e da burra que faz ‘im’…";

"Frade e mulher - duas garras do diabo";

"Frade, freira e mulher rezadeira - três pessoas distintas e nenhuma verdadeira";

"Hábito de frade e saia de mulher chega onde quer";

"Guarda-te do boi pela frente, do burro por detrás e da mulher por todos os lados";

"Guarde-vos Deus de moça adivinha e de mulher latina" (Séc.XVI);

"Mulher beata, mulher velhaca";

"Mulher doente, mulher para sempre";

"Mulher não se enceleira: ou se casa ou vai ser freira";

"Mulher se queixa, mulher se dói, enferma a mulher quando ela quer";

"Não provam bem as senhoras que se metem a doutoras";

"O homem deve cheirar a pólvora e a mulher a incenso";

"Para perder a mulher e um tostão, a maior perda é a do dinheiro";

"Para se encontrar o Diabo não se precisa sair de casa";

"Três coisas mudam o homem: a mulher, o estudo e o vinho";

"Vaca triste e pançuda não presta e não muda".

Fonte: Graça (2000) -

http://www.ensp.unl.pt/luis.graca/textos76.html

Já quanto à Miriam ter sido "herdada" pelo velho sargento de milícias Aqueba Baldé, por morte do marido, temos que ter alguma "cuidado" com a palavra... O nosso Cherno Baldé é capaz de te vir dizer que a lei islâmica proibe que uma mulher seja "herdada"... Mas uma coisa é a lei e outra a prática social dos fulas, há meio século atrás...

Em todo o caso estamos perante um caso de levirato, que remonta ao antigo Testamento: é um tipo de casamento no qual o irmão de um falecido é obrigado a casar com a viúva de seu irmão, e a viúva é obrigada a casar com o irmão do seu falecido marido.

O casamento levirao foi (e continua a ser) praticado por sociedades com uma forte estrutura tribal e clânica em que o casamento fora do clã (exogamia) era proibido. A prática é semelhante à "herança" da viúva, em que os parentes do falecido marido podem decidir com quem a viúva pode casar.

O termo deriva do latim "levir", o "irmão do marido".

5 de abril de 2017 às 20:06
 

(iii) Tabanca Grande: 

"Jarama" ou "djarama" em fula quer dizer obrigado...

O que é que o velho sargento de milícias queria dizer com a frase:
-Jaramááááá… furiel Mamadu qui na bai na mato e cá tem medo, Jaramááááá!...

Mário, levantas outra questão interessante, e aqui pouco abordada, o uso de "mezinhas" contra bala do inimigo... É interessante a tua descrição do ritual a que o furriel Mamadu foi submetido, com o propósito de "fechar o corpo" contra as balas... Era uma prática "animista", corrente na Guiné... Toda a gente usava "amuletos", tanto os cristãos, como os muçulmanos como os animistas, a começar pelo 'Nino' Vieira... E o pobre do Amílcar Cabral, que combatia a prática "irracional" dos amuletos, também devia usá-los... Se calhar as balas da Kalash do "traidor" Inocêncio Kano não lhe teriam entrado no corpo, na noite de 20 de janeiro de 1973...

5 de abril de 2017 às 20:46

(iv)  Tabanca Grande

O que diz a Bíblia, Antigo Testamento, sobre o levirato:

Deuterónimo, 25: 5-10

5. Se alguns irmãos habitarem juntos, e um deles morrer sem deixar filhos, a mulher do defunto não se casará fora com um estranho: seu cunhado a desposará e se aproximará dela, observando o costume do levirato.

6.Ao primeiro filho que ela tiver se porá o nome do irmão morto, a fim de que o seu nome não se extinga em Israel.

7.Porém, se lhe repugnar receber a mulher do seu irmão, essa mulher irá ter com os anciães à porta da cidade e lhes dirá: meu cunhado recusa perpetuar o nome de seu irmão em Israel e não quer observar o costume do levirato, recebendo-me por mulher.

8.Eles o farão logo comparecer e o interrogarão. Se persistir em declarar que não a quer desposar,

9.sua cunhada se aproximará dele em presença dos anciães, tirar-lhe-á a sandália do pé e lhe cuspirá no rosto, dizendo: eis o que se faz ao homem que recusa levantar a casa de seu irmão!

10.E a família desse homem se chamará em Israel a família do descalçado."

Deuteronômio, 25 - Bíblia Católica Online

Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/deuteronomio/25/

5 de abril de 2017 às 20:57

(v)  Tabanca Grande:

Mário, a tua "Miriam" dá... pano para mangas!... Levantas outra questão que é uma tragédia em África, a da infertilidade "feminina"...

A cultura africana, e nomeadamente subsariana, impõe aos casais uma prole numerosa. Os filhos são a principal riqueza de um homem. E o papel da mulher é a reprodução. A mulher infértil (... não há homens infertéis!) é vítima de discriminação, estigmatizados, marginalização social, rejeição. Sem um filho biológico, a mulher cai facilmente no círculo vicioso da pobreza e da marginalização... Na África subsariana, a proporção dos casais inférteis é muito alta (quase um terço dos indivíduos em idade fértil, segundo estima da OMS - Organização Mundial de Saúde.

Miriam, provavelmente, também sentia culpa e vergonha por não ter filhos... E desejo de os ter, mesmo que fosse um "filho do vento"... Mal sabia ela que os não podia ter...

Mário, é comovente o desfecho da história:

(...) Regresso junto ao pântano, fizeram conversa giro com aquele como fundo. O furriel esquecendo o carregamento e camaradas sentiu-se na obrigação de partilhar alguma coisa com aquela mulher-criança. O corpo de Miriam estremeceu, sentiu algo de novo que nunca tinha conhecido e a lavadeira chorou. As causas ninguém as saberá. No espírito e corpo Miriam nunca mais esqueceria aquele momento em que não houve cor, raça ou fêmea, mas simplesmente foi considerada mulher a corpo inteiro, a quem a sua própria crença e raça tinham castrado, retirando-lhe parte desse estatuto de um ser livre. E acreditou que teria sido o momento do seu sonho. Pelo contrário o militar sentiu-se safado e triste por utilizar os seus instintos brincando com os sentimentos de um ser humano.

Perdoa, mulher negra, mas o teu sonho não será realizado nem por branco safado nem por outro homem qualquer. Serás eternamente uma flor que não transformará a sua polinização em fruto. (...) (**)

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Notas do editor:


Guiné 61/74 - P17214: Parabéns a você (1234): António Rocha Costa, ex-Alf Mil Op Especiais da CCAV 2539 (Guiné, 1969/71); Fernando Manuel Belo, ex-Soldado Condutor Auto do BCAV 8323 (Guiné, 1973/74) e Mário de Azevedo, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 6 (Guiné, 1970/72)



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Nota do editor

Último poste da série de 6 de Abril de 2017 > Guiné 61/74 - P17211: Parabéns a você (1233): Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492, Pel Caç Nat 52 e CCAÇ 15 (Guiné, 1971/73)

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Guiné 61/74 - P17213: Agenda cultural (552): Lançamento do livro de Sérgio Neto, "Do Minho ao Mandovi: um estudo do pensamento colonial de Norton de Matos" (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2016): 10 de abril, 2ª feira, às 17h., Casa Municipal da Cultura, Coimbra. Apresentação: professores doutores Luís Reis Torgal e Armando Malheiro da Silva


Capa do livro de Sérgio Neto, "Do Minho ao Mandovi: um estudo sobre o pensamento colonial de Norton de Matos. Coimbra". [ Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2016, 464 p., 23 cm. (História contemporânea, 2183-9840), ISBN 978-989-26-1172].



O autor, Sérgio Neto, historiador


Resumo:

A longa vida do general José Norton de Matos (1867-1955) teve na questão colonial, apesar do “Milagre de Tancos” e da sua candidatura à presidência da República, em 1949, um esteio maior. Com efeito, a sua comissão na Índia, (1898-1908), onde dirigiu os Serviços de Agrimensura, a sua participação na missão encarregue de delimitar os limites de Macau (1909-1910), assim como os cargos de Governador-Geral (1912-1915) e de Alto-Comissário (1921-1924) da província de Angola, assinalaram muitos anos de actividade no Ultramar, a que se seguiu, uma vez concluída a acção no terreno, a redacção de livros de pendor doutrinário e uma vasta colaboração em jornais e revistas, sendo de destacar aquela que desenvolveu n’O Primeiro de Janeiro (1931-1954).

De resto, é possível falar num saber (sobretudo) de experiência feito, em que Norton beneficiou do contacto directo com colonialistas de gerações anteriores, como Mouzinho de Albuquerque, Henrique Paiva Couceiro ou Joaquim José Machado, governador da Índia quando da sua chegada a este território. Seja como for, as leituras dos clássicos ingleses da colonização tiveram o seu lugar no ideário “nortoniano”, expressando o general grande apreço pela aliança com a Grã- Bretanha e admiração pelos seus processos administrativos nos territórios africanos e na Índia. 

O objectivo deste estudo é seguir o percurso colonial de Norton de Matos, de modo a integrá-lo na sua época. Havendo convivido com a questão ultramarina, ao longo de três regimes políticos, ensaiar-se-á avaliar a sua experiência colonial a partir das linhas de força da Monarquia Constitucional, da Primeira República e do Estado Novo. Apreciar os debates e os argumentos trocados. Explicar o impacto da geopolítica mundial do período de entre-guerras no olhar desta importante figura histórica portuguesa do século XX, cotejando-a com a mitologia colonial herdada da Primeira República e aqueloutra desenvolvida pelo Estado Novo. 

Importa, pois, estabelecer os pontos de contacto entre os três regimes e explicitar algumas ideias que permearam as suas visões, nomeadamente, o mito prometeico da “gesta colonizadora”, o Apartheid, a miscigenação e o entendimento colonial que fazia dos imperialismos coloniais, assim como as primeiras independências, na Ásia e em África.

Fonte: NETO, Sérgio Gonçalo Duarte - Do Minho ao Mandovi : um estudo sobre o pensamento colonial de Norton de Matos. Coimbra : [s.n.], 2013. Tese de doutoramento. Disponível na WWW: http://hdl.handle.net/10316/23772
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Nota do editor:

Guiné 61/74 - P17212: Homenagem a Clara Schwarz (1915-2016): gravações precisam-se para passarem na Rádio Voz de Klelé e eventuamente na Rádio Sol Mansi, em programas que deverão ir para o ar depois da Páscoa (Catarina Schwarz)


Uma das últimas fotos de Clara Schwarz (1915- 2016): uma (e)terna imagem de despedida para os seus filhos, netos, bisnetos e demais família e amigos... A foto é da Catarina Schwarz, a neta que nos últimos anos esteve mais próxima da avó paterna, afetiva e efetivamente, tendo-lhe dado inclusive a alegria de mais uma bisneta,

A Clara era carinhosamente conhecida no seio da família e dos amigos mais íntimos pelo "nickname" Calinhas. Para além dos amigos e admiradores, mais recentes, da Tabanca Grande, deixa muitos amigos também entre os antigos alunos e professores do Liceu Honório Barreto, em Bissau, de que foi cofundadora, com o marido, o jurista e escritor Artur Augusto Silva (1912-1983), e onde foi também professora de francês... Deixou uma marca indelével nos seus antigos alunos, alguns dos quais são membros da nossa Tabanca Grande (como, por exemplo, os camaradas António Estácio e o embaixador Manuel Amante da Rosa) ou ainda prestigiadas figuras da nossa vida intelectual e cultural como a escritora e investigador Maria Estela Guedes, que foi sua aluna de francês, "do 2º ao 7º ano" (*). Ou ainda de outras figuras como  João Ramiro Caldeira Firmino, o João Câmara, a engª agrónoma Xanda Monteiro, esposa do engº agr. Manuel Monteiro, amigos da Maria Alice Carneiro.  O nosso António Júlio Estácio tem esses contactos dos antigos alunos da porfessora de francês dra. Clara Schwarz.

Por sua vontade expressa, as suas cinzas vão ser depositadas junto do marido e do filho Pepito (1949-2014), em Bissau. A Catarina está a organizar um programa de homenagem nas rádios locais e pede a nossa colaboração.

Foto: Cortesia da Catarina Schwarz, Página no Facebook, disponível aqui,


I. Mensagem da nossa amiga Catarina Schwarz, filha do nosso saudoso amigo Pepito (1949-2014) e neta da mulher grande Clara Schwarz (1915-2016), que foi durante anos a "decana" da Tabanca Grande

Data: 31 de março de 2017 às 11:14

Assunto: Clara Schwarz

Olá.  Luís e Maria Alice,

Como estão? Espero que esteja tudo a correr bem convosco!

Nós andamos por Bissau... Um Bissau já bem diferente de há uns anos atrás. Novas caras, outras dinâmicas e outras crises políticas!

Escrevo-vos pelo seguinte: há 3 anos atrás, a minha avó Calinhas, Clara Schwarz, expressou a sua
vontade em ser enterrada na Guiné-Bissau, junto do marido [, Artur Augusto Silva,] e do meu pai.

Assim fizemos e neste momento, estamos a preparar um pequeno programa de rádio em sua homenagem, na Rádio Voz de Klelé e, em princípio,  na Rádio Sol Mansi.

Este programa irá decorrer durante 5 dias e incluirá:


1 - Um apresentação da biografia  da Calinhas;

2 - Pequenas passagens de uns apontamentos  que a Calinhas escreveu em "cadernos dos avós"

3 - Entrevistas presenciais com pessoas  que foram alunas de francês  [, no Liceu Honório Barreto, em Bissau,]  ou conheciam a Calinhas;

4 - Emissão de contributos gravados de amigos  e ex-alunos da Calinhas e que vivem fora da Guiné;

5 - Uma linha aberta para quem esteja interessado em participar com questões ou contributos,


Gostávamos muito que este programa fosse enriquecido com o vosso testemunho, amigos do meu pai, amigos da minha avó, que de uma forma ou de outra, sempre a acompanharam e de quem ela falava com regularidade e muita estima.

A ideia é gravar (via WhatsApp ou Skype) breves palavras sobre a Calinhas, ou uma história que viveram com ela (o vosso contributo seria enquadrado no ponto 4 do programa de rádio).

Caso tudo isto seja possível, teríamos de trocar contactos (WhatsApp ou Skype), para que depois eu possa descarregar as gravações e passá-las na rádio.

Por outro lado, se acharem mais conveniente (do que as gravações) podemos ler o poema que escreveste à minha avó, por ocasião dos seus 100 anos,  e passar a(s) música(s) que o João tocou para a Calinhas, em São Martinho do Porto.

Beijinhos e um bom fim-de-semana.
Catarina

II. Resposta do nosso editor Luís Graça:


Catarina: Que bom receber notícias tuas!... Acabamos, eu e a Alice, de chegar do sul de Marrocos onde fomos passar 12 dias de "férias"... Estive estes dias completamente desligado do blogue e da Net...

Fico feliz pela tua iniciativa de cumprir o desejo da tua avó... A "Tabanca Grande" quer desde já associar-se a homenagem que estás a preparar... Afinal, para além de amiga, ela foi durante anos a "decana" da Tabanca Grande... Pelo que, se mo permites, deixa-me dar a notícia no blogue e da nossa página do Facebook, de modo a que outros contributos de amigos e admiradores da tua avó possam aparecer...

Para já dispõe de todos os materiais (textos, fotos, vídeos...) que publicámos ao longo destes anos de convívio estreito com o teu pai, com a tua avó, contigo, a tua mãe e demais família...

O João está no sul de Itália, deve voltar no próximo fim de semana. Vou-lhe  pedir que grave de novo uma das músicas klezmer de que a tua avó tanto gostava (a começar pelo Bulgar de Odessa, cidade onde os teus avós, Samuel e Agatha, se casaram).

Diz-me qual é o teu "timing"... Posso também gravar um texto poético... E haverá, por certo, outros amigos, como o Zé Teixeira, que vão querer participar...

Vai dando notícias... Beijinhos para ti, para a tua menina e para a tua mãe.

Luís.
Xicoração da Alice.

PS - A Clara Schwarz entrou para a Tabanca Grande em 14/2/2010, no dia em que fez 95 anos (*). Foi a nossa "decana" até à data da sua morte, em 11 de dezembro de 2016. (**)

Na altura, escrevemos-lhe o seguinte: "A nossa singela prenda de aniversário, é pô-la aqui, debaixo do poilão da nossa Tabanca Grande, a falar com todos os amigos e camaradas da Guiné, a partilhar connosco as histórias de uma vida... A Clara, que atravessou o Séc. XX e continua a sorrir-nos e a surpreender-nos no Séc. XXI, passa ser a Mulher Grande da nossa Tabanca Grande, o novo membro, o 397º, da nossa tertúlia. (O seu nome figura, desde hoje, na nossa lista alfabética, na letra C)... E daqui a cinco anos, em 2015, vamos apagar-lhe a vela do centenário!... Combinado ?"...

E a verdade é que ela e nós cumprimos o prometido. Ela chegou, não aos 100, mas aos 101. Não quis festejar os 100 anos por estar ainda a fazer o luto da morte recente do seu filho Carlos Schwarz da Silva, o nosso Pepito. Mas não demos-lhe, como sempre, os parabéns (***). Tem 44 referências no nosso blogue. O seu nome continuará  a figurar, na Tabanca Grande, na coluna do lado esquerdo do nosso blogue, na lista dos 53  amigos e camaradas da Guiné que "da lei da morte já se foram libertando".

III. Nova mensagem da Catarina Schwarz, com data de anteontem: 

Olá, Luís, Maria Alice e João

Obrigada desde já pela vossa atenção!

Marrocos e Itália, parece-me muito bem! Será que as catástrofes naturais de Itália já acabaram? A nossa catástrofe chama-se José Mário Vaz, o presidente da república da Guiné... que diz que quer ser o melhor PR do país e só faz disparates!

Entretanto, estamos a apontar para depois da Páscoa, o início do programa de rádio.

Vou aproveitar então o poema e a música tocada pelo João que também está no blogue. A história da Joana também é engraçada! A minha avó ficou maravilhada e lembrava-se sempre desse episódio.

Os contributos da Tabanca Grande serão mais do que bem-vindos!

Temos de encontrar uma forma eficaz de fazer as gravações (o WhatsApp parece ser a forma mais simples).

Beijinhos a todos!
Catarina

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 14 de fevereiro de 2010 >  Guiné 63/74 - P5813: Parabéns a você (79): Clara Schwarz da Silva, 95 anos, uma grande senhora, viúva de Artur Augusto da Silva, mãe do nosso amigo Pepito, leitora do nosso blogue, novo membro da Tabanca Grande (Luís Graça)

(**) Vd. poste de:

11 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16825: In Memoriam (272): dra. Clara Schwarz da Silva (1915-2016), mãe dos nossos amigos Henrique, João e Pepito (1949-2014), cofundadora e professora do Liceu Honório Barreto, em Bissau, decana da Tabanca Grande. Dia 14, 4ª feira, haverá uma pequena cerimónia de despedida, no crematório de Barcarena, Oeiras 20 de dezembro de 2016 



(***) Vd. postes de:


14 de fevereiro de 2016 > Guiné 63/74 - P15744: Parabéns a você (1033): Senhora D. Clara Schwarz, Centenária Amiga Grã-Tabanqueira, Mãe do nosso falecido amigo Carlos Schwarz (Pepito), e decana da Tabanca Grande... Faz hoje 101 anos!

14 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14256: Homenagem da Tabanca Grande à nossa decana: a "mindjer grande" faz hoje 100 anos... Clara Schwarz da Silva, mãe do Pepito (8): Mensagens da Tertúlia

14 de fevereiro de 2014 > Guiné 63/74 - P12715: Parabéns a você (691): Senhora Dona Clara Schwarz, Grã-Tabanqueira, mãe do nosso amigo Pepito, que a partir de hoje fica a um pequeno passo do seu centenário

14 de fevereiro de 2013 > Guiné 63/74 - P11094: Memória dos lugares (212): Ilha da Brava, Sotavento, Cabo Verde... Em homenagem a Clara Schwarz (n. 1915, Lisboa) e ao seu saudoso cretcheu Artur Augusto Silva (1912, Brava -1983, Bissau) (João Graça / Luís Graça)

14 de fevereiro de 2013 > Guiné 63/74 - P11093: Parabéns a você (535): Senhora Dona Clara Schwarz faz 98 anos!

14 de Fevereiro de 2012 > Guiné 63/74 - P9484: Parabéns a você (216): 97° Aniversário de Clara Schwarz da Silva, mãe do nosso amigo Pepito, a nossa matriarca, a decana da nossa Tabanca Grande, a anfitriã da Tabanca de São Martinho do Porto

14 de fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7780: Parabéns a você (216): 96° Aniversário de Clara Schwarz da Silva, nascida a 14/2/1915, uma cidadã do mundo, co-fundadora e professora do Liceu Honório Barreto, em Bissau, cuja presença na Tabanca Grande muito nos honra... (Luís Graça, co-editores, amigos e antigos alunos)


Guiné 61/74 - P17211: Parabéns a você (1233): Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492, Pel Caç Nat 52 e CCAÇ 15 (Guiné, 1971/73)

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Nota do editor

Último poste da série de 5 de Abril de 2017 > Guiné 61/74 - P17204: Parabéns a você (1232): António Dias, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2406 (Guiné, 1968/70); Agostinho Gaspar, ex-1.º Cabo Mecânico Auto do BCAÇ 4612/72 (Guiné 1972/74); Hernâni Acácio Figueiredo, ex-Alf Mil TRMS do BCAÇ 2851 (Guiné, 1968/70) e José Eduardo R Oliveira (JERO), ex-Fur Mil Enfermeiro da CCAÇ 675 (Guiné, 1963/65)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Guiné 61/74 - P17210: Os nossos seres, saberes e lazeres (206): Uma biblioteca de pedra na estação do Metro de Entre Campos (Mário Beja Santos)

Estação do Metro de Entre Campos


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 29 de Dezembro de 2016:

Queridos amigos,
Gostos não se discutem, é a minha estação preferida, em termos artísticos. Teria 18 anos quando me fiz sócio da Gravura, uma cooperativa de gravadores, recebia regularmente belíssimas gravuras de Alice Jorge, António Areal, Júlio Pomar, João Hogan e as daquele que para mim foi o maior dos gravadores portugueses, Bartolomeu Cid dos Santos.
Aquando da inauguração do painel para a estação do metro de Nihonbashi, em Tóquio, escreveu Margarida Botelho algo que eu perfilho: "Há em Bartolomeu uma vontade contida e obstinada de dar corpo aos grandes sonhos e de cobrir as obras de conceções que se poderiam apelidar, com alguma verdade, de românticas. Bartolomeu pertence tanto à poesia como à gravura. Os seus temas intemporais e os seus motivos, magistral e totalmente dominados, não são o resultado de uma escolha, mas uma forma de evidência que o mobiliza. Daí decorre a unidade e também a mensagem da sua obra".

Um abraço do
Mário


Uma biblioteca de pedra na estação do Metro de Entre Campos

Beja Santos

A estação Entre Campos abriu ao público em 1959, quando da inauguração da rede, seguiu, em termos arquitetónicos e artísticos, o programa adotado para todas as estações desta primeira fase da sua vida, o projeto arquitetónico foi de Keil do Amaral e o revestimento de azulejos pertenceu a Maria Keil. Esta adotou um padrão que tem como fundo uma harmonia de cores quentes que vão do amarelo ao vermelho, marcados aqui e além por pequenos grupos de azulejos de fundo verde e claro.


Em 1993, Entre Campos foi a primeira estação a beneficiar de obras de remodelação, Bartolomeu Cid dos Santos foi o artista convidado para a animação plástica e o escultor José Santa Bárbara para o tratamento da zona de ligação com o interface com a CP.



O interface entre o Metro e a CP tem 150 metros de comprimento, o escultor José Santa Bárbara idealizou, em pedra e aço inox, uma espécie de fonte estilizada. O escultor declarou a tal propósito:
“Não cedo à tentações de facilidade e rejeito o àvontade de um computador que faz tudo menos conseguir transmitir qualquer tipo de sentimento". O interface tem passadeiras e um corredor por onde se espalham lojas. Ali estive o tempo suficiente para me aperceber que a multidão leva destino, não se debruça sobre a peça estética de Santa Bárbara, há gente a ler nas passadeiras rolantes ou a congeminar a elaboração do jantar, mas há gente que se passeia com propósito de compra ou beber um café ou mordiscar um salgado ou ver as montras com roupa e artigos de papelaria.




Enfim, já estamos no átrio Sul, é território de Bartolomeu Cid dos Santos, está aqui a sua decoração mural em pedra gravada, é um painel dedicado a uma biblioteca. Bartolomeu deu a seguinte explicação: “Tentei organizar os livros, não só cronologicamente mas também por associações de autores ou movimento literários”. Para quebrar a monotonia deste trabalho, Bartolomeu repensou as lombadas de modo a assegurar referências gráficas do conteúdo dos livros ou dos seus autores. No centro da composição, um número significativo de escritores autografaram o painel, num grafiti representativo da literatura atual (da época).


Frente à biblioteca, mesmo por cima das linhas do metro, está um painel transversal, com 40 metros de comprimento. Bartolomeu deu o seguinte esclarecimento: “Eu e os meus colaboradores decidimos dedicar este espaço ao grande pintor norte-americano Robert Motherwell, admirado por todos nós e que havia falecido recentemente. Criou-se um trabalho discreto, em branco sobre branco, ou seja, em que o branco da pedra polida e não gravada contrasta com a área baça, corroída pelo ácido”. No painel pode ler-se: “Importa saber que não se pode falar numa arte nacional; ser simplesmente um artista americano ou francês não significa coisa nenhuma. Não ser capaz de sair do seu primeiro meio artístico, é meio caminho para nunca atingir o Humano”, Motherwell define assim o conceito de universidade de arte, que Bartolomeu subscreve.



A plataforma poente tem por tema Luís de Camões, é uma sequência de 10 imagens, cada uma referente a um dos Cantos dos Lusíadas, todos interpretados muito livremente.


Os painéis que prolongam pelas escadas os outros dois painéis correspondentes aos de Camões e Fernando Pessoa levantaram problemas a Bartolomeu. Ele explicou: “Enquanto os painéis até aqui descritos foram desenhados no verniz e depois gravados, os restantes foram pintados com verniz na horizontal antes de serem tratados com ácido. Quem subir qualquer das escadas encontrará em sequência aos painéis dos poetas duas enormes cabeças de mulher, memórias de pinturas romanas que numa recente visita a Roma havia conhecido. Se assim o desejarmos, poderemos também considera-las como as musas dos respetivos poetas”.




A plataforma nascente é dedicada a Fernando Pessoa, a sua obra foi descoberta por Bartolomeu em 1952. Ele não esconde a admiração por ele: “A obra do heterónimo Álvaro de Campos e especialmente a Ode Marítima, com o seu sentido de espaço, de distância, bem como de nostalgia de terras nunca visitadas, influenciou grande parte do meu trabalho desde então. Nada mais natural que dedicar 30 metros de parede a um dos meus poetas preferidos, usando uma forma de decoração afim do grafiti em que as palavras e as imagens se confundem”.
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Nota do editor

Último poste da série de 29 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17187: Os nossos seres, saberes e lazeres (205): De Pedrógão Pequeno a Tomar, com mala-posta e azémolas (Mário Beja Santos)