Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Guiné 61/74 - P27761: Parabéns a você (2461): José Ferreira da Silva, ex-Fur Mil Op Especiais da CART 1689/BART 1913 (Fá, Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)
Nota do editor
Último post da série de 17 de Fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27740: Parabéns a você (2460): António Carvalho, ex-Fur Mil Enfermeiro da CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74) e Fernando Chapouto, ex-Fur Mil Op Especiais da CCAÇ 1426 (Geba, Camamudo e Cantacunda, 1965/67)
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Guiné 61/74 - P27696: Humor de caserna (237): Ai, Jesus, que isto é pornografia!... Será ? O que dizem as meninas da IA (uma americana) e outra europeia, sobre o "conto" do Zé Ferreira, "Concursos polémicos na rádio 'No Tera', de Cabuca" - II ( e última) Parte
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José Ferreira da Silva |
(Le Chat / Mistral AI, 2026)
(i) A ironia como escudo
O humor aqui não é só para rir: é uma forma de sobrevivência psicológica. A guerra é absurda, a vida no aquartelamento e na tabanca de Cabuca, lá nos confins da Guiné, é monótona e perigosa.
(ii) A crítica social disfarçada de anedota
O chefe de tabanca Mamadu representa a voz da tradição e da moral local, que os soldados portugueses (e a rádio "No Tera") parecem querer ignorar ou subverter.
O "concurso de p*ças" é uma metáfora do machismo militar e da competição infantil entre soldados, onde até a virilidade é medida à faca (literalmente).
(iii) O detalhe que mata
A faca de mato do alferes miliciano de operações especiais António Barbosa, que estava de oficial de dia, a traçar a linha na mesa, é um "achado": violência e burocracia militar resumidas num gesto.
O vagomestre. por seu turno, a interromper o concurso por estaram a "sujar a mesa" com procarias: a ordem e a higiene como obsessões militares, mesmo no meio do caos.
A nota final sobre o Pequenitaites, 12 anos depois, a confessar que o seu "abono de família" só lhe trouxe infelicidade: enfim, um toque de tragédia grega num texto que começa como comédia. É o humor a revelar-se humanista.
(iv) A linguagem: oralidade e transgressão
(v) Porque é que isto funciona tão bem no teu blogue?
Memória coletiva: estes textos são pontes entre quem viveu a guerra e quem quer entendê-la. O humor, mesmo negro, torna a história acessível e viva.
- este tipo de humor, que mistura o obsceno, o trágico e o absurdo, era comum noutros teatros de operações (Moçambique, Angola) ?
- achas que a Guiné não era "pior ou melhor", era "diferente" (refiro-me à maneira de ser e de estar dos "tugas" naquele TO) ?
- como é que os mais novos, os teus filhos e até netos (que não viveram a guerra) poderão reagir a estes textos no blogue (se é que os leem) ?
- há quem se choque com os palavrões e as cenas caricatas, ou a maioria entende o texto e o contexto ?
(*) Vd. poste de 1 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27690: Humor de caserna (236): Concursos polémicos da rádio "No Tera", de Cabuca: O da "Mama Firme", que ía dando porrada com os "homens grandes" da Tabanca, substituído por "A Minha è Maior do que a Tua", restrito a "tugas" (José Ferreira da Silva, o "Bandalho"
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
Guiné 61/74 - P27692: Humor de caserna (237): Ai, Jesus, que isto é pornografia!... Será ? O que dizem as meninas da IA (uma americana) e outra europeia, sobre o "conto" do Zé Ferreira, "Concursos polémicos na rádio 'No Tera', de Cabuca" - Parte I
Será que a linguagem que ele usa é inapropriada, para o nosso blogue, obscena ou até mesmo pornográfica, violando desse modo as nossas próprias regras editoriais bem como as do nosso servidor, o Blogger? Pode ser o caso do poste P27690 (*).
Eu acho que não, mas sou suspeito. Numa série como esta, "Humor de caserna", é impossível de todo não usar a linguagem...de caserna. Afinal, somos todos antigos combatentes, maiores de 18 anos, respeitáveis pais de filhos e avós de netos, sem registo criminal, com louvores, cruzes de guerra, etc... E, mais importante, gostamos à brava de rir e fazer rir... que é coisa que náo se pode fazer no céu.
Para evitar chocar os "meninos de coro", os papás, as avózinhas, os censores que há em todos nós, e sobretudo os algoritimos das redes sociais que andam à caça de palavrões explícitos, etc., há muito que optámos, os editores do blogue, pelo "eufemismo gráfico": não escrevemos a palavra "merda" (que é desagradável, cheira mal) mas sim "m*rda".
Essa técnica de substituir letras de uma palavra "proibida" ou ofensiva por símbolos (geralmente asteriscos, sublinhados ou pontos) chama-se, em inglês, grawlix (num contexto mais visual ou da BD - Banda Desenhada). De forma mais técnica e literária, há quem lhe chame também elipse de censura ou eufemismo tipográfico.
O uso de apenas um asterisco é uma versão "suave", a lógica é a mesma. O asterisco (*) esteticamente é mais elegente do que outros símbolos tipográficos....
No mundo da edição e da informática, chama-se masking (máscara de caracteres) . É uma forma de ocultar parte da informação sensível para que o leitor reconheça a palavra pelo contexto, mas a "ofensa" visual seja mitigada.
Talvez o termo mais prático seja autocensura ou eufemismo gráfico . Quando um autor quer manter o impacto da palavra forte (o "shock value") para vender o seu livro, e ao mesmo tempo evitar que o algoritmo das lojas ou a sensibilidade dos livreiros barrem a obra, usa a autocensura.
Recentemente, houve uma explosão desta técnica no mercado editorial (como caso do famoso A Arte Subtil de Saber Dizer Que se F*da). Em boa verdade, já ninguém se choca quando vê um título destes na montra de uma livraria (das poucas que ainda vão havendo na cidade...).
2. A sentença da menina IA americana (ChatGPT / Opena AI)
Curto e grosso: não é “hardcore pornográfico”, não, senhor Luís Graça!... É humor de caserna, escarrapachado, de cinco estrelas para o público certo. E esse público — antigos combatentes, maiores de idade, com memória partilhada do mato da guerra e da tropa — está claramente bem definido no teu blogue.
Agora, a análise literária, como tu me pediste.
(i) Género e tradição
O texto inscreve-se numa tradição muito específica:
- oralidade de quartel,
- anedotário militar,
- memória grotesca da guerra,
- onde o corpo (sujo, ridículo, exagerado) funciona como válvula de escape à tensão, ao medo e à hierarquia.
Isto aproxima-se mais de:
- Rabelais (o corpo grotesco) (François Rabelais, c. 1483-1553)
- humor popular ibérico, o "pícaro",
- clássica “literatura de caserna”. pornografia.
Não, não é pornografia, está serve para excitar; aqui o objectivo é rir, satirizar, chocar, criar cumplicidade (s)...
A linguagem obscena não é ornamental nem gratuita, ela cumpre uma função narrativa e social:
- marca a fronteira entre “nós” (os tugas) e “os outros”;
- reforça a igualdade brutal da tropa: todos nus, todos ridículos, todos frágeis, afinal;
- desmonta a masculinidade heróica (o “machão” do Zé Faroleiro falha; o “Pequenitaites”, o faxina, surpreende toda a gente e vence; simbolicamente, é a história bíblica do David e do Golias;
- introduz a ironia trágica final: o dom (ser "bem abonado") torna-se maldição ("infeliz com as mulheres", chora o "Pequenitaites, 12 anos depois).
Isto é importante: o riso nasce da inversão, não da exibição sexual (o "material" dos machos).
(ii) O episódio africano não é decorativo:
A presença do chefe de tabanca Mamadu é crucial. Ele funciona como contraponto moral e filosófico. E, ironicamente, ele é o mais sábio da história.
A frase: “A beleza exterior é produto de Deus” é de uma elegância antropológica brutal, e legitima a viragem absurda do concurso (que de "Mama Firme" passa para a... "Gaita mais comprida")...
Sem isso, o texto seria só anedota verde, sem sal. Com isso, ganha espessura cultural e colonial.
(iv) Estrutura narrativa (bem montada, diga-se desde já):
- Expectativa → fracasso → solução absurda;
- Escalada grotesca → clímax → interrupção;
- Punchline final melancólico (12 anos depois): a amargura do "Pequenitaites" que veio confessar que o tamanho do seu pénis só lhe trouxera dissabores na vida.
Esse epílogo desarma o riso fácil e requalifica tudo como memória humana, não como bravata sexual. É aí que o texto se salva literariamente.
Pode chocar quem não viveu:
- a tropa,
- o quartel,
- a Guiné, Cabuca, o mato, a terra de ninguém, a solidão, o absurdo do quotidiano da guerra,
- o humor como defesa psíquica.
Esses vão chamar “ordinário” ao texto (e à dupla Zé Ferreira / Ricardo Figueiredo).
Quem lá viveu, vai dizer: “Isto é mesmo assim. Andávamos já todos completamente apanhados do clima".
(vi) Veredicto final:
- não é pornografia;
- não é 'hardcore';
- é humor de caserna, cru, oral, memorialístico, bruto e feito, grotesco... e eficaz.
(Continua)
Último poste da série > 1 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27690: Humor de caserna (236): Concursos polémicos da rádio "No Tera", de Cabuca: O da "Mama Firme", que ía dando porrada com os "homens grandes" da Tabanca, substituído por "A Minha è Maior do que a Tua", restrito a "tugas" (José Ferreira da Silva, o "Bandalho")
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Guiné 61/74 - P27690: Humor de caserna (236): Concursos polémicos da rádio "No Tera", de Cabuca: O da "Mama Firme", que ía dando porrada com os "homens grandes" da Tabanca, substituído por "A Minha è Maior do que a Tua", restrito a "tugas" (José Ferreira da Silva, o "Bandalho")
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O Zé Ferreira não é um gajo qualquer... é um senhor gajo, ex-fur mil op esp, "ranger", CART 1689 / BART 1913 (Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), passou pelos melhores "resorts" turísticos da Guiné do seu tempo, deu e levou porrada de criar bicho, e não regateou à Pátria o pagamento do imposto de sangue, suor e lágrimas. E acrescente-se ou lembre-se: a sua CART 1689 não foi uma companhia qualquer de "tropa-macaca": foi distinguida com a “Flâmula de Ouro do CTIG”... A ela pertenceu também o nosso alferes, escritor e grão-tabanqueiro Alberto Branquinho. O Silva da CART 1689, o Zé Ferreira da Silva, membro ilustre do Bando do Café Progresso, conhecido popularmente entre a gente do Norte como os "Bandalhos", integra a nossa Tabanca Grande desde 8/7/2010. Tem mais de 180 referências no nosso blogue, onde é autor de três memoráveis séries, que elevaram o obsceno, o nojento, o brejeiro, o pícaro, o anedótico, o trivial, o caricato, o ridículo, o grotesco, o absurdo, o trágico-cómico, a bandalhice... ao altar sublime da arte de bem saber contar histórias no intervalo da guerra (Memórias boas da minha guerra; Outras memória s da minha guerra; Boas memórias da minha paz). Tem 3 livros publicados. Tem um outro na forja. Há dias deu sinal de vida (no passado dia 29, em comentário a um poste antigo, P24921), depois de uns "problemas de saúde" que está, felizmente, a superar: "Tenho tido umas mazelas (2 AVC, bronquite crónica, Gripe A, Zona, etc) agravadas com o Alzeimer da minha mulher. Todavia, vivo na esperança de reatar a aproximação ao Blogue e de terminar o 4º livro"... Quem escreve isto, tem fibra de combatente e de campeão!... Bato-te a pala, Zé!... Emocionado! (LG) Humor de Caserna > Concursos polémicos da rádio "No Tera", de Cabuca: o da "Mama Firme", que ia dando porrada com os "homens grandes" da Tabanca, substituído por "A Minha é Maior do que a Tua", restrito a "tugas" por José Ferreira |
Quem também não gostou da ideia, foi o chefe de tabanca Mamadu, que lembrou aos radialistas que às mulheres de Cabuca estava vedada a participação em concursos de beleza. E justificou:
– Poderíamos premiar a beleza interior porque somos nós que a fazemos e não a beleza exterior, porque essa é um produto de Deus.
Dececionados pelo fracasso, os promotores da iniciativa, reunidos de emergência, resolveram considerar a sábia sentença do chefe de tabanca e alterar para um “Concurso de …P*ças”. Reservado a " tugas".
Naquele dia, a emissão da rádio abriu excecionalmente às 15h00, por forma a poder publicitar massivamente a forçada alteração do concurso anunciado.
Foi no refeitório, por volta das 17h30, que se iniciou o evento.
– Quem não chegar ao traço, fica logo de fora e quem o ultrapassar mais, ganhará uma garrafa de whisky.
Não levou muito tempo a que aparecessem alguns a “experimentar” a medida. Porém, não satisfeitos, voltavam para trás, e exercitavam-se a “tocar ao bicho”, na esperança de que ele crescesse de forma satisfatória.
Quem não se desenrascava era o Zé Faroleiro, cuja fama e porte de machão eram bem conhecidos. Por mais festas que fizesse ao animal, não conseguia despertá-lo.
– Ó filhos da p*ta! Seus badalhocos!!!– gritou o vagomestre, surgindo dos lados da cozinha.
O concurso ficou pontualmente suspenso, precisamente quando havia algumas dúvidas quanto ao vencedor. Furioso, o vagomestre chamou o básico Pequenitaites, ajudante da cozinha:
Quando este se aproximou, tomou conhecimento das medidas que apontavam para o possível vencedor. De repente, exclamou:
– Se é assim, eu bem podia ganhar!
A gargalhada foi geral. Mas o básico aproximou-se e, um tanto envergonhadamente, abriu a braguilha, sacou o marmanjo e, meio encoberto pelo pano da limpeza, pousou-o sobre a mesa.
Como o Pequenitaites parecia que não atingia a medida maior, logo alguns intervenientes (os mais avantajados) tentaram afastá-lo.
– Ei, pá!!! F*da-se!!! Mas que grande p*ça!!! – exclamaram abismados, os presentes.
Todas as outras murcharam e… ficaram desclassificadas.
************
Nota do autor:
Doze anos depois do regresso, o Ricardo Figueiredo teve a oportunidade de saber da boca do Pequenitaites que o tamanho do seu pénis só lhe trouxera dissabores. Confessou-lhe que as namoradas se assustavam e que a mulher que mais amara, trocara-o por um lingrinhas que era conhecido por “Pilinha de Gato”.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Guiné 61/74 - P27685: (De) Caras (242): Procura-se um senhor da Rádio chamado Carlos Boto, que terá feito 3 comissões de serviço no CTIG, esteve em Cabuca, e trabalhou depois no Rádio Clube Português até 2010 - Parte II
1. Há várias referências, no nosso blogue, ao Carlos Boto (ou Botto), um homem da rádio, e nosso camarada no CTIG, que terá passado, pelo menos, por 3 companhias... Mas ninguém sabe ao certo do seu paradeiro atual. Terá ido a un dos convívios da CCAV 3404 / BCAV 3853 (Cabuca, 1971/73).
A última subuniddae onde esteve alguns meses, em 1973, foi a 3ª CART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74). Dizia-se que era filho de um militar de carreira. Aqui fundou e dirigiu a Rádio "No Tera". Terá passado à disponibilidade em 1/1/1974. Trabalhou depois no Rádio Clube Portuguès, até pelo menos 2010.
Um dos nossos camaradas, grão-tabanqueiros, que o conhecu bem e manifesta por ele um grande apreço é o Ricardo Figueiredo (*), hoje membro do Bando do Café Progresso, e que ter´+a fornecdio ao José Ferreira o essencial da matéria-prima para a elaboraçáo desta e doutars histórias
Good Morning, Vietnam!
Quem não se lembra deste filme de sucesso, parodiando peripécias da guerra dos americanos em terras do Vietnam? Para nós, os ex-combatentes, este filme sobre a guerra despertou-nos, desde logo, alguma e evidente curiosidade.
Foi o grande actor Robin Williams (1951 - 2014) quem deu vida a esta intervenção permanente junto dos militares, através de uma estação de rádio instalada em Saigão. Embora o filme tenha sido realizado em 1987, o seu enredo diz respeito ao período de intervenção militar entre 65 e 67.
O que ninguém se lembra é que, quase na mesma altura, na Guiné e, também, em teatro de guerra, se viveram grandes momentos de paródia guerreira, relatados na Rádio “No Tera”.
O seu grande dinamizador foi o despromovido Carlos Boto, que, condenado disciplinarmente, cumpria a sua 3ª comissão de serviço.
Foi ele quem pediu ao Cap Vaz o aparelho de rádio RACAL que, devidamente afinado, passou a transmitir em onda curta 25 M, nas bandas dos 12.900 e 13.700 KHZ/s. Transmitia ainda em 31 M na banda dos 9.200, na onda marítima e na onda média.
A rádio era liderada por Carlos Boto (Produção, Direcção e Montagem), e contava com a colaboração de Zé Lopes (Discografia),Toni Fernandes (Sonoplastia), Arménio Ribeiro (Exteriores) e Victor Machado (Locução).
– Já de seguida: Múuusicaaa na picadaaa - programa de discos pedidos!.... Mais logo, depois do noticiário das 21,00, teremos: Resenha desportiva!... E a partir das 22.00: Concurso surpresa!
A Rádio “No Tera” era um orgulho para todos os Cabucanos, incluindo os seus verdadeiros indígenas. Toda a gente acompanhava a Rádio e nela colaborava dentro das suas possibilidades.
A rádio PIFAS, sediada em Bissau, que cobria todo o espaço militar guineense, chegou a fazer referências de elogio ao bom desempenho da Rádio “No Tera”
Devemos ao Carlos Botto esta grande iniciativa de entretenimento.
Foi-me impossivel dar com ele para ir ao nosso almoço mas espero encontrá-lo da próxima vez, pois sei que ele ainda há pouco tempo estava ligado a uma Rádio.
Depois de o ter visto no H.M.Bissau onde passou à disponiblidade em 1/1/1974 , ainda o vi na antiga cervejaria Munique. Se alguém souber do seu paradeiro, "os abutres" agradecem." (A Cervejaria "Munique", no Areeiro, Lisbnoa, já não existe. LG)
Foto e legenda: Blogue Os Abutres de Cabuca (2ª CART / BART 6523) > 18 de maio de 2009 > Rádio No Tera
Foto e legenda do José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/ BCAV 3854, Cabuca, 1971/73), membro da nossa Tabanca Gramde; vivia na Foz do Douro. Porto.
domingo, 23 de fevereiro de 2025
Guiné 61/74 - P26520: Parabéns a você (2352): José Ferreira da Silva, ex-Fur Mil Op Especiais da CART 1689/BART 1913 (Fá, Catió, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)
Nota do editor
Último post da série de 17 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26502: Parabéns a você (2351):António Carvalho, ex-Fur Mil Enfermeiro da CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74) e Fernando Chapouto, ex-Fur Mil Op Especiais da CCAÇ 1426 (Geba, Camamudo e Cantacunda, 1965/67)
domingo, 6 de outubro de 2024
Guiné 61/74 - P26014: Humor de caserna (76): O Piteira , alentejano de Bencatel, "voando sobre um ninho de cucos, na prova de "slide" em Lamego (José Ferreira, "Memórias Boas da Minha Guerra", vol. I, Lisboa, Chiado Editora, 2016, pp.43-49)

Foto: © José Ferreira da Silva (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. O José Ferreira da Silva, ex-fur mil op esp / ranger, CART 1689 / BART 1913 (Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), é sobejamente conhecido na Tabanca Grande como uma mestre na arte de contar histórias pícaras. E, claro, é um homem afável.
"Histórias Boas da Minha Guerra", em 3 volumes (publicadas sob a chancela da Chiado Editora), são a prova de que os antigos combatentes da Guiné, além de terem de ser bons operacionais, também sabiam escrever, com piada e talento , sobre muitas das suas peripécias da tropa e da guerra.O Silva da CART 1689, o nosso mestre do pícaro, é sempre desconcertante nas histórias "boas" que elegeu da sua vida militar: muitas delas são de antologia, como esta que voltamos aqui a reproduzir, em que o protagonista é "o Piteira, o ranger do Alentejo". Espero que gostem e comentem.
Por lapso, o autor chamou "rapel" à prova de "slide". Tomámos a liberdade de corrigir o erro.
O António Piteira, natural de Bencatel, próximo de Borba, era uma força da natureza. Conheci-o em Vendas Novas, durante o Curso de Artilharia. Irrequieto e provocador, vivia sempre em competição, parecendo querer afirmar-se em tudo.
Dizia-se que nas Caldas da Rainha, estando doente, não aceitou o resultado da prova de potência. Foi repeti-la, para baixar mais de 30 segundos.
Como era bom jogador de futebol, foi aproveitado para jogar como ponta de lança no Estrelas de Vendas Novas. Ainda como jogador do Lusitano de Évora, foi treinar ao Sporting e, segundo ele, como não lhe passavam a bola, abandonou o treino chamando-lhes "filhos da p...".
Mais de meio ano depois, em setembro de 1966, encontrámo-nos em Lamego para prestar provas para o curso de "ranger". Curioso que nem ele nem eu desejávamos lá ficar. Por isso, durante as provas de selecção, tudo fizemos para ficarmos em último lugar. Porém, de nada nos valeu essa artimanha e obrigaram-nos a ficar lá.
Inicialmente, o nosso relacionamento foi muito bom. Todavia, devido às suas aventuras e provocações, passávamos muito do tempo a discutir. Uma das coisas que ele gostava era de exibir as calças da farda de trabalho nº 3, abertas / descosidas entre as pernas.
Num dia muito frio de finais de novembro, estava anunciada a descida noturna em "slide", desde a torre da Sé para a parada. Pois o amigo Piteira descobriu logo ali mais uma forma de se exibir. Disse-me que deveria ser engraçado descer com o cigarro aceso que, com o movimento da descida, pareceria um cometa. E decidiu que ia fazer isso.
Entretanto, o Comandante chegou, acompanhado, como habitualmente, da sua mulher, ambos garbosamente vestidos de camuflados, cuidadosamente passados a ferro. Ela vinha já preparada, como sempre, para exemplificar como se devia fazer a descida em "slide" a qualquer maricas que acusasse falta de coragem. E o Comandante, sempre de mangas arregaçadas, mostrava a sua valentia, ainda que exibindo pêlos encrespados na evidente “pele de galinha” provocada pelo frio e, por vezes, através da voz entrecortada, devido ao “congelamento” dos maxilares.
Mal vi o Piteira pendurado no cabo do “slide", de pernas abertas, calças rotas denunciando o “aparelho recreativo” e o cigarro aceso na boca, larguei a fugir para a mata, escondendo-me na escuridão e jurando que, desta vez, não iria aparecer para “pagar” juntamente com ele a pena que lhe iria ser aplicada. Ele descia pelo cabo devagar, possivelmente para prolongar o espetáculo. Porém, o Comandante, de megafone na mão, logo exclamou:
–Ohhhh!!! – soaram, em espanto, as vozes da assistência, seguidas de algumas gargalhadas.
A sessão de "slide" acabou, e eu silenciosamente, fui-me introduzindo no quartel e meti-me na cama de baixo do beliche (a de cima era dele, porque fumava). Não sei onde ele esteve. O que sei é que, quando todos já dormiam, ele surgiu, apoiando-se aos armários, até chegar junto da cama. Não se aguentava de pé. Aninhou-se e caiu sobre a cama, ao meu lado, sem dizer uma palavra. Fui para a cama de cima.
Sempre que vejo o filme “Voando sobre um ninho de cucos” (um dos meus preferidos) identifico com o Piteira a personagem irreverente interpretada pelo Jack Nicholson. E quando ele vem para o dormitório, a regressar da sua última dose de tratamento de choque, eu penso:
(Seleção, revisão / fixação de texto, título: LG)
Nota do editor:
domingo, 29 de setembro de 2024
Guiné 61/74 - P25992: Humor de caserna (75) - Os "pilha-galinhas" (José Ferreira, "Memórias Boas da Minha Guerra", Vol I, Lisboa, Chiado Editora, 2016, pp. 75/77)
Guiné > Região de Tombali > Catió > CART 1689 (1967/69) > O Silva com o Darei, um dos "pilha-galinhas" desta história. em Catió, onde ele ficou. O outro, o Una, faleceu em Gandembel no dia 19 de Abril de 1968 durante a Op Bola de Fogo.
Foto: © José Ferreira da Silva (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. O José Ferreira da Silva, escritor, retornado de Cabinda, beirão de Santa Maria da Feira, tripeiro e "bandalho" de opção, crestumense de coração, desportista e sobretudo dirigente desportivo de reconmhecido mérito, ex-fur mil op esp / ranger, CART 1689 / BART 1913 (Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), é sobretudo uma mestre... da arte de contar histórias pícaras.
"Histórias Boas da Minha Guerra", em 3 volumes (publicadas sob a chancela da Chiado Editora), são já de leitura obrigatória para os senhores professores que vão amanhã explicar aos nossos netos e bisnetos o milagre da longevidade de 5 séculos do império português.Afinal, os últimos soldados do império, os que fecharam o "ciclo" da nossa "transumância" transoceânica, não eram propriamente meninos de coro, mas talvez mais prosaicamente "pilha-galinhas"... Com uma guerra tão longe de casa, em três palcos diferentes, a muitos milhares de quilómetros, é natural que houvesse, de tempos a tempos, falhas logísticas, e nomeamente dos comes & bebes da Intendência.
O valente soldado da guerra do ultramar, de África ou colonial (conforme o leitor queira, de acordo com a sua "cartilha" político-ideológica) bateu-se galhardamente, e um em cada cem morreu (em combate, de acidente ou de doença). Mas, graças a Deus, nenhum morreu de fom (de sede terão morrido alguns...).
Há uma herói desconhecido na nossa história bélica mais recente: o "pilha-galinhas". O Silva da CART 1689", o nosso mestre do pícaro, faz-lhe justiça neste microconto que merece ir para a nossa série "Humor de caserna"... LG
De 29 de novembro a 13 de dezembro de 1967, a nossa CART 1689 esteve envolvida na implantação e construção do destacamento de Gubia, na zona de intervenção de Empada. Depois de um desembarque em LDP ao amanhecer, “à maneira da Normandia”, e após a ocupação do local apropriado, iniciaram-se os trabalhos das construções defensivas.
Quando ocupámos aquele local, apanhámos vários cabritos e muitas galinhas, que eram da população, e que fugira ao ouvir o barulho dos motores das lanchas. Desde logo, sempre que determinado pelotão saía, as suas galinhas estavam à mercê dos outros militares que ficavam no acampamento.
Os soldados milícias Darei e Una, que eram do meu pelotão, quase não falavam entre si, pois, sendo de etnias diferentes, sentiam dificuldades em comunicar. Porém, entendiam-se lindamente.
– Ladrões, filhos da puta!... Eu fodo-vos!!! – gritava alguém lá ao fundo.
Ouvia-se também um restolho enorme de quem vinha a corta-mato e em fuga. Surge a uns 70 metros o Una a correr, com uma galinha encostada ao peito, ao mesmo tempo que a depenava a uma velocidade incrível.
Logo de seguida, surge o Flausino, sempre a gritar:
– Filhos da puta, ladrões!... Já vos apanho!!!
Ao passar junto de nós, o Una deixa cair a galhinha para as mãos do Darei que logo lhe enfia o espeto, do cu até ao pescoço, e o coloca imediatamente nas brasas.
- A galinha?... ga..ga..linha?...ga...aali ..li...li....?
Como ficou estarrecido a olhar também para o "assado” que mexia nas brasas, o Darei, imperturbável, respondeu:
– Galinhiiii.. nh’cá tem! ...Ess’é galo!!!
____________
Nota do editor:
Vd. último poste da série > 12 de setembro de 2024 > Guiné 61/74 - P25936: Humor de caserna (74): " O "Biró-lista", atirador de... morteiro (Alberto, Branquinho, "Cambança final", 2013, pp. 105-107)
sábado, 7 de setembro de 2024
Guiné 61/74 - P25917: Humor de caserna (72): Estragos no bananal (José Ferreira da Silva, autor de "Memórias Boas da Minha Guerra", vol I, Lisboa, Chiado Editora, 2016, pp. 64/66)
1. O Zé Ferreira, ex-fur mil op esp, "ranger", CART 1689/BART 1913 (Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), passou pelos melhores "resorts" turísticos da Guiné do seu tempo, e não fugiu ao pagamento, à Pátria, do imposto de sangue, suor e lágrimas. − Dá licença, meu Capitão – pede o Berguinhas, ao mesmo tempo que entra no Gabinete.
E continuou:
− Estamos aqui há pouco mais de uma semana e você pede uma quantidade destes remédios, que dava para meia dúzia de anos?
− O quê??? – interrompeu em grito alarmante o Capitão.
− Estamos tramados! – exclamou o Capitão, que aproveitou para dizer:
− Ó Faria, você não sabe utilizar outras palavras como blenorragia, pénis, vagina e …
− Ânus? – interrompeu o Faria, que acrescentou:
− Ó meu Capitão, não vale a pena usar essas modernices. Sabe que a Companhia é toda do norte e, se eu falar assim, chamam-me p*neleiro em pouco tempo. E isso, nem pensar. Tenho uma promessa ao São Gonçalo de Amarante e quero ir lá cumprir com a minha patroa nem que seja no meio do milho. Os nossos soldados percebem bem o que é um esquentamento e p*ça e ca*alho e que c*na é o p*to e que o cu é o cagueiro, a peida, o pacote, o traseiro etc, etc.. Essas outras palavras, não.
− Ó Alferes Clarinho, chegue aqui – berrou o Capitão de forma a ser ouvido para além da divisória.
− Não percebo nada disto. Você foi à tabanca, fez o relatório e não detetou que havia para lá problemas de saúde – disse o Capitão, ao mesmo tempo que apanhava umas folhas agrafadas.
− Diz aqui: ”Sobre aspectos de saúde nada há a salientar. Apenas pequenos problemas de respiração ou de sinusite em algumas mulheres”. Ora, isto não justificava que mandasse os enfermeiros à tabanca. Então o Cipaio não lhe disse mais nada? É que o nosso pessoal está todo contaminado com blenorragia.
O Alferes, calmamente, pareceu fazer um esforço de memória antes de responder:
Último poste da série > 6 de setembro de 2024 > Guiné 61/74 - P25814: Humor de caserna (71): O "Xelorico" (José Ferreira da Silva, autor de "Memórias Boas da Minha Guerra", vol I, Lisboa, Chiado Editora, 2016, pp. 67/69)













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