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sábado, 31 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28479: Os nossos seres, saberes e lazeres (757): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (277): Um jardim zen à moda de um jardim de Quioto, no Planalto das Sezaredas (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Outubro de 2026:

Queridos amigos,
Estava indeciso se vos devia falar hoje de uma importante exposição patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea sobre as memórias do Tarrafal, com base numa obra de João Pina publicada na Tinta da China em 2024 ou dar-vos conta de uma amizade que ganhei a um pedaço de terra de barro duro e ácida, onde teimosamente se combate a dureza de um terreno infestado de pedregulhos e onde despontam árvores de fruto, imensos e inesperados catos, suculentos, bolbos, lírios bravos e agapantos. Ganhamos amor a um local, descobrimos nele o que há de belo num terreno cheio de acidentes que se veio encontrar cheio de mato bravio, dizia o anterior proprietário que não queria que ninguém por ali andasse para que não se dessem graves acidentes. Não é bem um jardim zen, é um jardim à medida dos sonhos que cada um de nós, por regra, acalenta, por amor à natureza.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (277):
Um jardim zen à moda de um jardim de Quioto, no Planalto das Sezaredas


Mário Beja Santos

Vai para uns anos bons adquiri num local chamado Reguengo Grande, uma freguesia do concelho da Lourinhã, já a abicar no distrito de Leiria e concelho do Bombarral, uns casebres que o anterior proprietário tinha em alojamento local. Fartara-se de obras, de desistências em cima da hora, de dificuldades em arranjar pessoal para as limpezas e até reparações. Pronto me afeiçoei ao interior das casinhas (um quarto, uma entrada/sala com cozinha e casa de banho, cada uma) parece terem sido moldadas para o dito alojamento local, o proprietário foi-me mostrando as dependências, os terraços e apontou para o que me pareceu um matagal, fiz-lhe perguntas, sim, o terreno fazia parte das casas, era muito pedregoso, temendo acidentes para os sucessivos usuários das casas, deixara crescer todo aquele mato bravio que indispunha qualquer curioso a meter-se por ali a dentro. Enquanto apalavrávamos o negócio, o dito senhor perguntou-me, depois de me dizer categoricamente que o preço não era negociável, que obras eu pretendia que ele fizesse antes da venda. Não fui peco a pedir: pinturas dos casebres, limpeza dos ladrilhos dos terraços e remoção daquela vegetação anárquica, queria saber o que me esperava para ali, tanto quanto possível, ajardinar. Cumpriu à risca, e quanto ao jardim dei com um declive tendo à entrada duas laranjeiras, uma infinidade de infestantes, um loureiro monumental e uma figueira.

Devo dar uma explicação para o título que usei para este texto, é um tanto bombástico e não cumpridor da verdade. De facto, um jardim zen tem a singularidade de assentar em rochas e muita areia. Este, que me coube, era uma terra barrenta e ácida, via-se imediatamente que tinha de trazer umas boas sacas de terra, testar o que ali podia medrar. Havendo barro pesado e ácido, era natural que ali se pudessem dar bem bolbos, catos, suculentos, narcisos, beladonas. Foi por aqui que começou a aventura jardineira, com o empolgante desafio de tentar de pôr plantas nas fendas e resquícios das rochas. Chegou a hora de mostrar as imagens e contar o que se ensaiou, o que resultou e o que fracassou.

Encostado a uma parede do terraço, acredita-se piamente que esta glicínia, que já pareceu ter morrido duas vezes, desta vez vai singrar. A glicínia pode demorar 15 anos para florescer, aquelas lianas têm que ser fixadas, conduzidas em linhas horizontais ou numa pérgola, dá aqueles cachos pendurados, tantas vezes de cor roxa, com os anos os troncos robustecem, a glicínia dura uma vida. E há aquele combate constante de limpar à volta, as infestantes não dão descanso. Foi aqui que tudo começou à volta das duas laranjeiras, limpando todo aquele mato fora de controlo.
É um exercício feito de paciência, aproveitar estas trinchas e estar atento à evolução dos catos, eu maravilho-me com este fulgor da natureza, como arrebitam catos dentro destes pedregulhos de calcário que devem ser muito anteriores ao Quaternário.
Está na estação do plumbago, já por aqui perto andaram agapantos e lírios bravos
Perco-me, extasiado, com estes sinais da natureza, catos teimosos, resistentes, ornam estas massas calcárias de eras muito antigas, há catos que dão flor, percorre-se com cuidado à procura de frinchas para meter mais catos, isto quando também se anda à procura de como estão as árvores de fruto que se plantaram, houve uma pereira que deu sinais de raquitismo e depois espigou, houve uma ameixoeira no primeiro ano da compra da casa deu umas ameixas amarelas saborosíssimas e depois secou… a vigilância tem de ser permanente, felizmente que nas ausências a nossa amiga Susana, uma vizinha adorável e que mora lá em baixo junto ao vale, sobe até aqui e põe a mangueira a funcionar. Com o andar da experiência, as perdas são cada vez menores.
Não dava nada por estes catos há um ano, bem me enganei, olho-os com a emoção de sentir a natureza vibrante, lutadora, a seu modo espetacular.
Uma imagem de baixo para cima, impõe-se ter um caminho bem definido por aqui amarinhar, descendo vou todo lampeiro ver a pereira tratada, a figueira limpa de infestantes, saber, como agora se sabe, que aqui podem crescer fisálias, jarros, malmequeres, açucenas; o loureiro está bom de saúde e recomenda-se, há um loendreiro branco, há sálvia mexicana, sálvia branca e púrpura, nerina que tem uma cabeça como se fosse um agapanto, não falta lantana nem alecrim, nos meses de verão delicio-me com tanta policromia.
O antigo e o novo, a árvore já cá estava, o cato veio com os novos proprietários
Detenho-me a olhar para o vale e a ver no topo da colina moinhos e miradouro, cá em baixo a Susana e o Henrique têm a terra em pousio, agora dedicam-se também à vinha, estou ansioso que plantem abóboras para eu fazer sopas.
Andei à procura do ângulo para tirar esta imagem, não tive fé nenhuma neste cato, pensei que desaparecesse com a primeira invernia, agora estou de joelhos a fotografá-lo, viçoso e saudável.
Uma outra perspetiva, o casario no topo de uma outra colina, e moinhos não faltam
Chegou o outono, mas na aspereza deste solo de barro pesado e ácido, como gotas de sangue, estas flores voltam-se para a luz do sol.
Daqui a umas semanas tenho à minha disposição umas laranjas sumarenta, mas um tanto ácidas, nada sei da limpeza das laranjeiras e a saúde do meu amigo Henrique fraqueja, paciência.
Despeço-me com duas imagens que só são idênticas na aparência, um pouco de vale no seu pousio, e dois níveis do casario, detenho-me às vezes a pensar nas alegrias que a vida nos dá, este permanente combate para que a terra seja vicejante, e sempre num estado de fé de que este Planalto das Sezaredas não venha a ser alvo de cobiças que lhe retirem a placidez de uma orografia que nos fala do esplendor da pedra, como se tivéssemos saído ontem da última etapa da Pré-História.
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Nota do editor

Último post da série de 24 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28460: Os nossos seres, saberes e lazeres (756): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (276): Os quadros de António Palolo, a sua alegria luminosa, as cores incandescentes, as transbordantes secções do mundo (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28437: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XV: semana de 12 a 18 de maio


Lourinhã > 4 de outubro ode 2026 > Caas do Rui Chamusco : As minhas netas, Clara e Rosa, mais a avó  Chita., a ajudar o Rui a apanhar diospiros. Reconstituiçáo artística, com recurso a ferramenta de IA, a patir de uma imgem HDR (High Dynamic Range).

.Foto (e legenda: ©  Luís Graça (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT/Open AI]
 


1. Prosseguimos a publicação das crónicas de 2019 (III Viagem a Timor-Leste) do nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, natural da Malcata, Sabugal, a viver na Lourinhã.

Vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (só não foi  na pandemia, 2020, 21 e 22). Ele é um exemplo vivo do que é a solidariedade e o amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar, e de que é dirigente (a ASTIL).

Essa história, em tétum e em português,  de dedicação às crianças das montanhas da martirizada Liquiçá (onde está funcionar, em Manatti / Boebau, a Escola de São Francisco de Assis) merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné. Bem como outros aspetos da geografia, história e cultura de Timor-Leste, país membro da CPLP, que as crónicas do Rui também procuram  divulgar.

Em Timor-Leste, o Rui fica na casa do Eustáquio, irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro dos co-fundadores  e dirigentes da ASTILl juntamente com a Glória Sobral).




Prompting  e orientação editorial: Luís Graça
Imagens e texto: Rui Chamusco (2019)
Geração gráfica assistida por IA (Google Gemini AI)
(2026)


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 22 de março de 2025 > 7º aniversário da Escola de São Francisco de Assis (ESFA) > O 1º ministro da RDTL com o grupo de professores, mais o Rui  (à direita) e o  João Moniz Sobral ("Eustáquio") (ao lado de Xanana Gusmão)


O 1º ministro da República Democrática de Timor-Leste (RDTL), Kay Rala Xanana Gusmão, acompanhado do administrador do município de Liquiça, Rogério dos Santos, fez uma visita-surpresa à ESFA, em Boebau / Manatti, município de Liquiçá, por ocasião do 7º aniversário, sendo recebido pelo Rui Chamusco ("Tiu Rui" ou "Abô Rui"), "malae"m português, dirigente da ASTIL, e pelo coordenador da escola, o timorense João de Araújo Moniz Sobral ("Eustáquio").

Imagens da Média - GPM / RDTL (República Democrática de Timor-Leste, com a devida vénia)... Fonte:  Página do Facebook do 1º Ministro da RDTL, Kay Rala Xanana Gusmão
I

III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XV: semana de 12 a 18 de maio (*)



12.05.2019, domingo - A ociosidade...mãe de todos os vícios

Já referi em relatos anteriores que um dos grandes problemas a resolver nesta sociedade timorense é a ocupação dos jovens. Enquanto que bastantes prosseguem os seus estudos, obtêm diplomas e tentam arranjar emprego no país ou no estrangeiro, outros ficam-se pelo ensino básico, à espera que algo lhes aconteça.

É frequente encontrarmos grupos de jovens em qualquer parte e a qualquer hora do dia. E nós perguntamo-nos: “ O que é que eles estão fazendo?” 

Muitos deles frequentam lições de artes marciais, capacitando-se assim para a luta de corpo a corpo. De vez em quando há episódios que lhes são atribuídos. Por exemplo terem atacado e morto um senhor (normalmente atacam para roubar, sobretudo dinheiro que tanta falta lhes faz). Depois, esquartejaram o seu corpo e foram lançá-lo ao mar, para alimento dos crocodilos.

Esta noite, aqui bem perto, aconteceu outro ataque: um senhor que descansava tranquilamente na sua casa, foi assaltado por um destes grupos para o roubar. Estragaram-lhe a motorizada e, possivelmente, limparam-lhe os dólares que encontraram. Safou-se ao menos de ser atirado ao mar.

Este clima de insegurança já levou uma alta patente do exército − o coronel Ledere  − a fazer declarações em canal televisivo, dizendo: 

 −  Se o governo não tomar medidas, a tropa virá para a rua resolver a situação.

 Mas até agora, não se tem sentido o efeito de qualquer medida adotada.

“Quem poderá domar os cavalos do vento” ? Quem terá a coragem de intervir? Oxalá não apareça algum político demagogo a prometer mundos e fundos a estes jovens, pois facilmente os arrastará pra a sua causa e, quem sabe, para o combate violento.

Não sei,  não! Mas gostaria que, tal como a maioria dos habitantes deste país,a guerra e a violência nunca mais cá voltassem.

Hoje e amanhã, dia 12 e 13 de Maio, multiplicam-se rezas e procissões pelas ruas e igrejas deste país, porque é o aniversário da primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima. 

Que bom seria que todos pedissem a paz para este povo tão martirizado recentemente. As cicatrizes e as memórias da guerra ainda estão muito presentes.

13.05.2019, segunda feira    − A festa dos mortos

Parece incrível mas é verdade. Logo de manhã, depois do matabicho (pequeno almoço), inadvertidamente comecei a trautear uma canção. Fui logo chamado atenção pela Adobe e pela Aurora: 

− Tiu Rui não pode cantar, porque morreu asenhora.

 Ontem soou a meio da tarde a sirene do carro mortuário que trazia o corpo da senhora falecida cuja casa de família é daqui bem perto. E por respeito aceitei a reprimenda, sem que no entanto deixasse de pensar e retorquir: 

− Então eu aqui em vossa casa não posso cantar, mas vocês à noite, na casa do velório, a rir, comer e beber,rezar, jogar cartas, etc...?!”

Parece um paradoxo, segundo o que queiram pensar. O facto é que, aqui em Timor, o culto dos mortos é motivo de tristeza e de festa. Guardam os corpos durante três ou quatro dias, e durante esse tempo, todas as noites se faz o mesmo ritual. Sei até que há o costume de nessas vigílias falarem bem e mal do morto, pondo a nu a sua vida.

Choro e riso, lágrimas de alegria e de tristeza, mal dizer e bem dizer, preces e orações, tudo pode acontecer. E estas cerimónias vão repetir-se ao longo do ano: seis meses depois para anunciarem o o pequeno luto (luto kíik), e um ano depois para comunicarem o desluto (koremetan).

A tradição, a cultura timorense, é muito exigente no cumprimento destas cerimónias e rituais. Traz muita carga de responsabilidade, sobretudo para os “manefons” (genros) que têm de suportar uma despesa enorme, conforme os “humanes” (irmãos do falecido) decidirem. É por isso que eu digo: esta gente que respeitar e cumprir estas exigências culturais nuca poderá enriquecer.

Talvez um dia possa descrever em pormenor toda a negociação que se gera em torno destes eventos associados à morte. Por enquanto não me resta outra solução do que respeitar esta cultura e tentar compreender esta dialética entre a vida e a morte.

14.05.2019, terça feira  - Nós, os mosquitos e o mosquiteiro

Viajar para países tropicais supõe sempre uma prevenção que passa pela consulta do viajante, por vacinas e cuidados a ter contra as doenças que proliferam no país de destino. Timor não sai desta regra e, quase sempre, vimos prevenidos com cremes, comprimidos, etc, etc...

Um dos agentes mais comuns na transmissão destas doenças são os mosquitos que, a bem dizer, nem sei porque Deus os põe neste mundo, mas como bom crente acredito que de alguma missão foram incumbidos. Que mais não seja para nos chatear e por à prova a nossa paciência.

Por precaução e para evitar as picadas de mosquitos, particularmente das melgas, utilizamos diversos artefactos: 

  • raquete mosquiteira (muito eficaz mas que deixa um rastro de carne queimada), 
  • os sprays (também infectam o ar tornando-o irrespirável);
  •  a rede mosquiteira.;
  • e, em último recurso, a palmada certeira que reduz a vítima asanduíche. 
De todos eles, a rede mosquiteira é talvez a mais utilizada, o que implica uma espécie de teto falso sobre as nossas camas. tornando-o quase transparente.

Muitas vezes não conseguimos distinguir se os atacantes estão dentro ou fora deste habitáculo, originando assim situações caricatas. Quantas das vezes não fazemos deDon Quixote de la Mancha, perseguindo mosquitos que mais não são do que pontos negros ressaltando do teto ou das paredes. E então quando o perseguidor já tem falta de vista ou é mirolho, pior ainda. São golpes e chapadas em vão que até nos fazem rir de nós próprios. É uma guerra injusta, mas que temos de suportar...

14.05.2019 - “Com bolos se enganam os tolos...”

Hoje vim a saber que, em Portugal como em Timor, há práticas ancestrais comuns para alcançar determinados fins.

Lembro-me em criança, nos anos cinquenta, que um dia os ciganos apresentaram uma égua a meu pai, para fazerem o negócio de troca por uma burra mais uma quantia em dinheiro. Para provarem que o animal era manso, foram à Eira buscar uma carga de ferrém. O meu pai ficou encantado, a égua era mansinha, e de pronto se fez o negócio. 

No dia seguinte, meu pai foi experimentar de novo a doçura do equídeo, e depressa se deu conta que tinha sido enganado. O animal parecia que tinha o diabo no corpo. Ninguém a segurava. Soubemos então que eles tinham embebedado a égua,  deitando-lhe aguardente para dentro das orelhas. Claro que o meu foi de imediato ter com os ciganos para desfazer o negócio. A troca da burra pela égua endiabrada foi possível. O que não conseguiu foi recuperar o dinheiro.

Vamos então ao caso de hoje em Timor, em Ailok Laran. O Eustáquio, como os outros vizinhos, tem por aqui vários galináceos, donde ressaltam belos exemplares de galos (manu-aman") que, devido à liberdade de que gozam, é muito difícil apanhá-los. 

Então qual foi a estratégia adoptada? Deitou-lhes uma mão cheia de grão de milho e, num recipiente improvisado (uma garrafa de água vazia cortada ao meio) misturou "sabu" (aguardente de palmeira) com cocola e deu de beber aos dois “pica-no-chão”.

 Regalados, foram bebendo até à saciedade, até cairem de borrachos como se costuma dizer. Não caíram, mas ficaram muito calmos, podendo assim, se o quiserem, apanhá-los e levá-los para onde for o seu destino: mudança de lugar, luta de galos, ou o cadafalso para servirem de manjar.

Pois é! Parece que a utilização do álcool como droga anestesiante funciona mesmo.

Quem teria ensinado este povo timorense? Não me admiraria nada que tenham sido os portugueses. Aliás temos a fama de sermos grandes consumidores de álcool, particularmente de vinho.

16.05.2019, quinta feira  - Há mar e mar...Há ir e voltar...

Esta é a sina de todos nós: viajar. No tempo, no espaço, de uns lados para os outros num constante devir. Ontem chegamos, amanhã partimos. Tal e qual, como peregrinos e forasteiros neste mundo.

Estes últimos anos os ventos sopraram para os lados do Oriente. Pela terceira vez que o destino é Timor, sempre com ordem de voltar ao país de origem. E chegou a hora de pensar no regresso, atempadamente, até porque nos fazem melhores preços. Pois assim será: na primeira semana de julho próximo, lá estaremos nós (eu) de abalada.

Mas como ainda falta um mês e meio, e há tanta coisa por fazer, vamos trabalhar no projeto de solidariedade com unhas e dentes, na esperança que alguns dos problemas e necessidades se resolvam. Penso até que, quando o tempo urge, somos mais eficazes nas nossas ações. Assim mesmo. Sem perdermos de vista o que realmente nos traz porcá, vamos caminhando nesta reta final, de peito ao vento e de cabeça erguida, esperando o dia do regresso.”Há mar e mar...Há ir e voltar...”

17.05.2019, sexta feira - Farmácia natural

Hoje tomei conhecimento de mais uns quantos produtos naturais que a cultura timorense aplica para determidas doenças. Enquanto esperávamos no jardim do Mundo Mágico, o Eustáquio deu-me uma aula sobre remédios naturais, a partir das plantas que ali se encontram, A saber:

  • Buganvília: as suas raízes, depois de bem lavadas, são fervidas. Não se deve tapar o recipiente. A sua água deve beber-se regradamente. É um remédio utilizado para curar a tuberculose. O Eustáquio afirma que já foi aplicado num familiar, e que a partir daí nunca mais teve esse problema de saúde.
  • Birama: as suas folhas esfregadas são bom coagulante do sangue. Uso externo.
  • Papaia: as suas sementes, engolidas sem mastigar, são um bom digestivo e regulador do intestino.

Sempre a aprender nesta escola da vida, com um professor de excelência.



Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2023 > Transporte coletivo, uma "anguna"

Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


18.05.2019, sábado  - A caminho de Boebau ...


Mais uma viagem para as montanhas de Liquiçá. Como sempre cada viagem é uma aventura, nunca sabendo o que iremos encontrar: chuva, sol, nevoeiro, lama, buracos e árvores atravessadas no caminho, animais ("kraus" / bois e "manus" / galinhas), pessoas sobretudo crianças, etc... Uma constante atenção a ter em conta, especialmente pelos condutores.

Desta vez tivemos de alugar um “carro” para transportar alguns materiais (mesas e cadeiras) que o Jardim Mágico (creche e jardim de infância, fundado em 2016, e que fica na Rua Santo António de Motael, em Díli, junto à Igreja de Motael) ofereceu, a fim de equiparmos a Escola de São Francisco. Carga pronta, e lá fomos até Liquiçá, onde dois amigos − o professor Mário e a educadora Mariana − nos esperavam para seguirmos a viagem até Boebau.

Por conselho do Eustáquio a Mariana deixou o seu “motor” em Hepu’u, em casa de familiares da família Sobral. E começou então propriamente a aventura desta viagem:os dois “motores” do Eustáquio e do Mário à frente, e o “carro” do Apeu atràs, onde viajávamos eu e a Mariana. 

Para além dos solavancos e apertões a que fomos sujeitos, pois os buracos do caminho são cada vez mais e maiores  não há manutenção nem seviços de estrada - por três vezes tivemos de descer da viatura para a ajudarmos a sair do lamaçal ou de subidas íngremes onde o cheiro dos pneus queimados nos ia entupindo as narinas. 

Valeu-nos em situação mais difícil a boa vontade dos viajantes da “anguna” (camioneta ou carrinha, tipo toca-toca)  que prontamente acudiram para empurrar.

Depois de duas horas de caminho com mais ou menos doze quilómetros de distância carregado de peripécias, chegámos finalmente a Boebau, onde nos esperavam as crianças, as assistentes e bastantes pais à entrada da Escola de São Francisco. 

Cantado o hino da escola e mais algumas canções anteriormente aprendidas procedeu-se à sessão de fotografias das crianças que frequentam esta escola: 

  • grupo A (3, 4 anos) )= 16; 
  • grupo B (5,6 anos) = 25. 

A professora Rita Gonçalves, a lecionar na escola de Kilo, e que colobora na escola de São Francisco, reuniu os pais das crianças e quis que eu dissesse algumas palavras sobre esta visi ta. Quiseram também saber qual o motivo da presença do professor Mário e da educadora Mariana. E tive que lhes dizer que é uma visita de amigos, porque alguns já pensavam que eram os professores para a Escola de São Francisco de Assis. Quem nos dera!...

Chegou a hora do almoço e, como sempre, fomos até à casa do Bozé, onde nos esperavam as iguarias desta refeição: arroz, folha de mandioca, flor de papaia, bocadinhos de frango caseiro (aqui não há frango de aviário) ("manus") e água. 

A Mariana comentava: 

 −Adoro estas comidas... 

Eu também.

A Mariana ainda teve tempo para dar as instruções necessárias sobre a utilização e aplicação do material pedagógico que nos trouxe.

Rui Chamusco  | Revisão / fixação de texto, título, negritos: LG.

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Nota do editor LG:

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28428: Convívios (1076): hoje é o dia da caldeirada anual da amizade, na festa de Ribamar, Lourinhã, em homenagem ao nosso Eduardo Jorge Ferreira (1952-2019)



Prompt e orientação editorial: Luís Graça
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)
Geração gráfica assistida por IA (ChatGPT/OpenA)


Eduardo Jorge Pinto Ferreira (Lourinhã, Vimeiro, 1 de outubro de 1952 - Torres Vedras, 23 de novembro de 2019). O querido professor Eduardo, como lhe chamam ainda hoje  as gentes de Ribamar, a sua segunda terra natal. (Foi um dos professores-fundadores da Escola C + S de Ribamar, mais tarde, Escola Básica de Ribamar, no ano letivo de 1992/93… E depois seu diretor, até à reforma.)

Foi também o nosso saudoso régulo da Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã. Membro da nossa Tabanca Grande desde 31 de agosto de 2011. Apresentou-se nestes termos aos camaradas Guiné: "Estive em Bissalanca, na BA12, de 20 de Janeiro de 1973 (triste data, a do assassínio de Amílcar Cabral, ) a 02 de Setembro de 1974, colocado na EDT (Esquadra de Defesa Terrestre) como Alferes miliciano da Polícia Aérea, onde era conhecido por Ferreira. (...) Depois de vir da Guiné, e como era voluntário na Força Aérea por 6 anos, passei pela Comissão de Extinção da PIDE/DGS (Gabinete de Imprensa) e pelo Estado Maior General das Forças Armadas (1ª Divisão) donde passei à disponibilidade em Junho de 1977."



Ao nosso Eduardo: a amizade 
continua em Ribamar



1. Para o nosso (e)terno Eduardo

Há seis anos, em 23 de novembro de 2020, ainda em plena pandemia, juntámo-nos no cemitério do Vimeiro, onde repousam os teus restos mortais,  para te prestar uma pequena homenagem, com a colocação de uma lápide na tua campa.

 Foi então que te li estas palavras, em meu nome e dos teus muitos amigos, colegas, companheiros e camaradas. Estavam presentes um dos teus filhos e a tua São.


Para o nosso (e)terno Eduardo: notícias dos amigos cá de baixo

Eduardo, p’lo bem, amor e amizade
Qu’em vida connosco quiseste partilhar,
A tua memória prometemos honrar,
Deixando aqui o rasto doce da saudade.

Notícias te damos também da nossa terra,
Onde nasce e se põe o sol todos os dias,
Sabes como é, há tristezas e alegrias,
Mais a pandemia, que lavra como guerra.

Mas faz-nos falta teu sorriso luminoso,
Tua gargalhada fraterna e sonora,
Teu abraço acolhedor e generoso.

Teimamos em falar contigo, cá deste lado,
Também um dia chegará a nossa hora,
Mas até lá serás sempre... por nós lembrado!

Vimeiro, 23 de novembro de 2020

Os teus amigos, colegas, companheiros, camaradas.


Leiria > Monte Real > 25 de maio de 2019 > XIV Encontro Nacional da Tabanca Grande > Da esquerda para a direita, Carlos Camacho Lobo, médico (Maia), Jorge Pinto (Sintra) e Eduardo Jorge Ferreira (Lourinhã) (seis meses antes de morrer)...

Foto (e legenda): © Luís Graça (2019). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].

2. Notícias dos amigos cá de baixo: encontramo-nos hoje em Ribamar!


Se fosses vivo, Eduardo,  terias completado 74 anos no passado dia 1 de outubro. Foste alf mil de Polícia Aérea (PA), na BA 12, em Bissalanca, na Guiné, em 1973/74... Ainda te recordas ?... Foste professor de educação física e, mais tarde, diretor da Escola Básica de Ribamar, no Agrupamento de Escolas de Dom Lourenço Vicente, na Lourinhã... 

Foste tantas coisas, Eduardo, de autarca a dirigente associativo, de caminheiro a "sargento das tropas luso-britânicas durante a Batalha do Vimeiro de 1808"... 

Foste sobretudo um homem de afetos, de encontros, de convívio e de amizades duradouras.

A tua memória continua bem viva entre nós. O teu exemplo permanece inspirador e o nosso blogue tem 75 de referências à tua vida e à tua memória.

Uma das melhores maneiras de continuarmos a lembrar-te  é mantermos a tradição que tu próprio criaste: juntarmo-nos na festa de Nossa Senhora de Monserrate, em Ribamar, à volta de uma boa caldeirada à pescador.

Coube depois a uma comissão "ad hoc",  dos teus  amigos, condiscípulos e camaradas   (João Vinagre, Jaime Silva, Luís Graça, Pinto Carvalho, Rogério Ferreira, etc....) manter este encontro anual, marcado para a segunda-feira da segunda semana de outubro. 

Uma tradição com mais de 30 anos, iniciada em 1994, quando tu eras professor em Ribamar, e que só foi interrompida em 2020 e 2021, por causa da maldita pandemia. Ainda não havia a Tabanca Grande, nem a Tabanca de Porto Dinheiro, nem nenhum  outra... Aliás, só te conheci por volta do início deste milénio,

O encontro de 2019 foi organizado por  ti próprio. Pouco mais de um mês depois, a tua morte inesperada, na sequência de uma intervenção cirúrgica de ambulatório numa clínica privada, deixou-nos a todos em choque. Custa ainda aceitar que  tu tenhas partido tão cedo e de forma tão abrupta.

Hoje, 12 de outubro de 2026, segunda-feira da segunda semana do mês, vamos  imaginar-te de novo de braços abertos, na festa de Ribamar (que era a tua segunda terra), pronto a receber os teus amigos, colegas e camaradas, como tantas vezes o fizeste.

Este ano, somos menos do que noutras ocasiões, mas contamos com 52 inscrições para o nosso convívio anual. Em 2024, fomos 75. Reunimo-nos sobretudo antigos colegas de seminário da região Oeste, com percursos por Santarém, Almada, Penafirme e Olivais, uma boa parte dos quais antigos combatentes. São vidas que seguiram caminhos diferentes, mas que continuam ligadas por uma história comum e por amizades que resistem ao tempo. 

Estará connosco, mais uma vez, a tua querida Conceição Ferreira,  mãe dos teus filhos, que também «bebeu a água do Geba», como tu.

Da Tabanca Grande, também não faltam presenças amigas, eu, Luís Graça, Alice Carneiro, Jaime Silva, Joaquim Pinto Carvalho e Estêvão Henriques, entre outros. 

Desta vez, não poderemos contar com o Carlos Silvério,  o Jorge Pinto e alguns companheiros habituais. Mas teremos, pela primeira vez, o Manuel Resende e a esposa, bem como o João Crisóstomo e Vilma, vindos de Nova Iorque, onde vivem, e de visita a Portugal (. Acaba de me dizer que não pode ir, por ter adoecido de repente; estamos já na época das gripes e viroses...) Fui eu que te apresentei o João Crisóstomo, lembras-te ? E foste tu que depois o apresentaste ao Rui Chamusco... 

Como o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... Grande!

A logística também está assegurada, graças ao Jaime que faz a ligação à comissão organizadora e à à nossa querida Fátima, que continua a ser  a "alma mater" da festa, como no teu tempo: foram encomendados 26 tachos de caldeirada, cada um para duas pessoas, e as reservas foram feitas com antecedência, logo no início das festas, que decorrem de 8 a 14 de outubro. Quem nos "chama a capítulo", agora é o João Vinagre, da Benedita.

A festa de Ribamar, a tua (e nossa) festa,  continua ser um dos grandes acontecimentos sociais do concelho da Lourinhã. Para nós, os teus amigos cá de baixo. porém, tem um significado ainda mais especial: é a continuação da nossa Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã, de que tu foste  régulo, o homem que nos juntava e que fazia de cada encontro (apesar de anual) uma celebração da amizade. E a continuação de outras tabancas...

É por isso que voltamos. É por isso que nos sentamos à mesma mesa onde tu te sentaste.

Eduardo, já não estás fisicamente entre nós, mas há tradições que são mais fortes do que a ausência. À volta da mesa, entre a caldeirada, as conversas, as recordações, as gargalhadas, as cantorias... continuamos a dar-te notícias dos amigos cá de baixo.

E, daqui a um bocado, ao meio dia, quando nos começarmos a  juntar em Ribamar, vindos dos quatro cantos do Oeste, o teu sorriso, a tua generosidade e a tua amizade reviverão!

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Nota do editor LG:

Último poste da série 13 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28344: Convívios (1075): 66º Almoço-convívio, dia 24/9/2026, quinta feira, no Resturante Caravela de Ouro, Algés: há já 31 inscritos (Manuel Resende)

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28368: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (20): a "Venda" na literatura portuguesa dos séc. XIX e XX - Parte II: Neorrealismo (Manuel da Fonseca, Alves Redol, Fernando Namora)

 























Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Em todas as nossas terras havia uma venda, ou pelo menos uma taberna.  Multifunções na aldeia:  mercearia; drogaria;  loja de bugigangas, tachos e panelas; carvoaria;  casa de comida ou  de pasto; pensão, hospedaria (de beira de estrada),  etc. ... Mais especializada na vila, onde  havia mais oferta e maior número de estabelecimentos comerciais.  Mas, em geral, a taberna também é casa de comida, de petiscos , etc. O taberneiro não podia viver só dos " copos de três"... 

  No seu romance,  "3 x 44: Abel e Caim en Contrapé"  (Porto: Vida Económica, 2026, pp.33-36), o António Carvalho tem uma primorosa descrição da "venda da igreja", no lugar de "Emendadas" (leia-se: Medas, Gondomar), em plena II Guerra Munidal.

 Para além da função comercial (estabelecimento onde os aldeões, os vilões e até os viajantes se abasteciam do que precisavam para a sua subsistência ou viagem), a venda (misto de taberna, merceria, casa de pasto e até hospedaria) era um local de socialização por excelência. E um dos raros espaço de liberdade ou de evasão, naquela época, no Portugal provinciano do Estado Novo.

Era um espaço masculino, tal como a igreja e o lavadouro público eram territórios femininos. A mulher não entrava  na tasca, mandava o filho mais velho fazer alguma compra de  última hora. "In extremis" , entrava na tasca para trazer para casa o homem com vinho a mais.

A minha terra, uma vilória do Oeste, teria uma meia dúzia de tabernas, quando eu era puto: umas evoluiram, outras extinguiram-se.  O cheiro a sarro, a serradura no chão, a peixe frito, a vomitado e  a lixivia ainda está "entranhado" nas minhas memórias de infância... 

Uma das últimas, que eu frequentei, com o jornal diário ("Diário de Lisboa") ou um semanário ("Comércio do Funchal" ou " Notícias da Amadora") e um livro debaixo do braço, já depois de vir da Guiné, em 1971, era a "Taberna do Macaco". 

Era uma tasca icónica, e também casa de pasto, conhecida, ironicamente, por "Sociedade de Geografia", por nela ter assento a "nata" local dos "colarinhos brancos", a pequena burguesia do funcionalismo público  (câmara municipal, tribunal,  finanças, conservatórias, grémios, etc.). Funcionava como tertúlia, ao fim da tarde, depois de fecharem os serviços. Também servia de escritório para os solicitadores...

A expressão, "Sociedade de Geografia",  é atribuída a um poeta local, o saudoso Mariano Vicente (1917-1977), homem de fino trato, de verbo fácil,  autodidata,  que era contabalista da firma José Maria Carvalho, e  que foi escritor, jornalista, poeta de talento, e um dos raros lourinhanenses que se assumia publicamente como figura da oposição democrática local. Seria depois autarca a seguir ao 25 de Abril.  Infelizmente morreu cedo,  aos 60 anos.

O topónimo, "Taberna do Macaco", advinha-lhe da existência de um pobre babuíno ("macaco-cão", no crioulo da Guiné), trazido por antigo combatente  lourinhanense, no regresso da guerra de Angola, logo no início. 

Do alto do seu poiso, numa trave de eucalipto, o bicho assistia a acaloradas partidas de chinquilho, jogatanas de sueca ou de bisca, e também a umas rodadas de "tinto", acompanhando os pratinhos de salada de polvo ou postas de moreia e de "arraial" fritas.

  Morreu no exílio e, por certo, de saudade dos cafezais do Norte de Angola, o macaco. E sem nunca ter ouvido discussões, em voz alta, sobre a guerra do ultramar, tema que era tabu.

Sem preocupações de sermos exaustivos, nem muito menos originais, vamos continuar a procurar referências literárias à "Venda" que, no séc. XX, passa a ser sobretudo a "Taberna" (ou a "Tasca"), e que sobreviveu até ao 25 de Abril de 1974. (*) 

Neorrealismo português (meados do século XX):  a representação da venda e da taberna 


Há aqui uma profunda viragem ideológica e estética, em relação ao romantismo e ao naturalismo do séc. XIX.   

O espaço perde quase por completo a conotação pitoresca, folclórica,  romântica ou até pícara do séc. XIX e as primeiras décadas do séc. XX,  para se converter no foco da consciência de "classe", do desespero e da opressão social. (Para já fica de fora desta análise, a  taberna dos bairros populares de Lisboa, intimamente ligada à história do fado.)

Se no séc. XIX a venda, no interior do país, era o poiso do viajante, do almocreve, etc., a par do  local das bisbilhotices da aldeia mas também o sítio onde chegavam, atrasadas, as notícias da capital, é no romance neorrealista que ela assume mais nitidamente três funções fundamentais:

(i) espaço da servidão financeira: é onde o camponês, o ganhão, o jornaleiro, oo cavador de enxada, o mineiro ou o operário gasta a sua féria, jorna ou salário, vende a sua força de trabalho a eito (aos agentes da "praça da jorna", aos recrutadores de mão-de-obra), empenha a pouca terra que tem ou amanha, acumula a dívida do "fiado" na caderneta da loja, ficando, enfim,  acorrentado ao comerciante ("vendeiro" ou "taberneiro" ) ou ao lavrador abastado;

(ii)  "válvula de escape" do alcoolismo: o álcool (o vinho e o bagaço) surge como um anestésico amargo contra a miséria, o cansaço do trabalho esgotante e o desemprego sazonal (e nomeadamente no inverno);

(iii) fórum da solidariedade e da revolta de "classe": é na penumbra da venda ou da taberna, longe dos olhos daos patrões, das autoridades e das polícias ( a GNR, a PVDE / PIDE), que nascem os sussurros de greve,  de incitações á revolta , a solidariedade entre o proletariado (urbano e rual)  e a tomada de consciência política.

Três autores, entre outros, podem ser aqui citados, ligados à estética neorrealista. São hoje, injustamente, tratados como "escritores menores", sobretudo pela crítica académica. Ou, pelo menos, estão já esquecidos, apesar da existência, em Vila Franca de Xira, do Museu do Neorrealismo.

Acrescente-se, a propósito, que aescolha de Vila Franca de Xira não foi casual; a região do Ribatejo, as lezírias, o trabalho duro no campo e no Tejo, a conflitualidade social  etc., serviu de cenário e inspiração direta para obras estruturantes como o romance Gaibéus (1939) de Alves Redol, ou o Cerromaior, de Manuel da Fonseca (1943), que são  justamente considerados dois  marcos fundadores do movimento neorrealista;  o museu consolida essa ligação identitária entre o território e a criação literária.


Manuel da Fonseca (Santiago do cacém, 1911 - Lisboa, 1993)


  • Manuel da Fonseca: a taberna alentejana como palco do drama social


Manuel da Fonseca, alentejano de Santiago do Cacém,  foi talvez quem melhor terá captado a atmosfera densa e dramática das vendas / tabernas das vilas e montes do Alentejo. Retrata o Alentejo com um tom lírico e social, onde a venda é um símbolo da comunidade e da identidade local.  A taberna é um refúgio escuro de homens de chapéu enterrado até às orelhas.

Obras de referência: Cerromaior (1943), Seara de Vento (1958)

A venda e a taberna são espaços de convívio popular, onde se retratam os costumes e as dificuldades do mundo rural alentejano. 

Em Aldeia Nova, a venda da aldeia é um local onde se reúnem os trabalhadores agrícolas, trocando histórias e queixas. Na venda, entre copos de vinho e conversas arrastadas, os homens da aldeia falavam das secas, dos patrões, e das promessas não cumpridas.

Em Seara de Vento, a mercearia é um espaço de resistência cultural, onde se preservam tradições orais.

Seara de Vento (1952):

A taberna é o centro gravitacional onde a fome e a opressão dos ceifeiros desempregados se condensam:

(...) "A taberna estava cheia de uma fumaça densa que fazia doer os olhos. Homens de braços cruzados, encostados ao balcão de madeira gasta, ouviam em silêncio. Não havia dinheiro para o vinho, nem sequer para o fiado. O taberneiro olhava de lado, com a caderneta das dívidas aberta sobre a gaveta do tinto. Ali, no escuro daquele compartimento que cheirava a aguardente e a suor antigo, a raiva dos homens não fazia barulho: crescia por dentro, devagar, como o fogo na ceifa." (...)

Cerromaior (1943) / O Fogo e as Cinzas (1951) (contos) 

Nas suas narrativas curtas, as vendas de beira-estrada alentejanas são descritas com um lirismo duro: o jogo da bisca, o murmúrio dos homens sós e o olhar vigilante dos proprietários rurais (ou dos seus maiorais ou manajeiros) que controlam quem bebe, quem fuma, quem se avia quem fala...

Em Cerromaior (1943), a venda, o café e o clube são três lugares distintos, social e espacialmente segregados:

(...)  " - Então, por cá Maltês ?

Maltês não respondeu, entretido em arranjar as calças em volta da corda que lhe servia de cinto, A seguir torceu as pontas  do colete, que pingaram para o chão escuro da venda, e uniu-o, ajeitando-o sobre o  peito arqueado.

Chegou-se ao balcão.

- Enche-me um dos grandes, Brissos.

O homem da venda olhou-o, inquisitivo. Maltês aparou-lhe o olhar, sereno,  como se não temesse nem devesse. O Brissos curvou-se, encheu o copo. Maltês esvaziou-o. Pediu outro. O sol aparecia, luminoso,  por entre a   chuva miúda que abrandava. Voltou atrás, jogou a manta paar o ombro. Rapidamente, à laia de despedida, disse:

- Mete na conta, Brissos. " (...)



Alves Redol (Vila Franca de Xira, -1911- Vila Franca de Xira, 1969)


  • Alves Redol: o feitor, o fiado e o trabalho duro

Em Alves Redol, o pioneiro do movimento com Gaibéus (1939), a venda e a taberna no Ribatejo e na lezíria  surgem intimamente ligadas à exploração do trabalho agrícola sazonal.  São espaços fundamentais no Ribatejo rural, onde se retratam as condições de vida dos trabalhadores do campo (gaibéus, ceifeiros) e do rio (avieiros). 

Além dos Gaibéus, outras obras de referência são Barranco de Cegos (1961) e Avieiros (1942)

 Em Gaibéus, a venda é descrita como um local de encontro dos trabalhadores, onde se trocam notícias, se bebe vinho e se tecem intrigas. A venda era o "coração da aldeia",  ali se falava dos patrões, das jornas, das colheitas,  dos conflitos, e até dos amores e desamores  que excitavam corpos e inebriavam almas.

Alves Redol documenta o Ribatejo com um olhar neorrealista, onde a venda é um microcosmo da vida rural e das tensões sociais.A venda à beira da estrada é um motivo recorrente, simbolizando a marginalidade e a luta pela sobrevivência

Em Barranco de Cegos, a mercearia é um espaço de resistência e solidariedade entre os mais pobres.

Em Avieiros, a taberna à beira do rio é um local de abrigos para os corpos cansados  para os trabalhadores do Tejo.

Gaibéus (1939):

(...) "A loja do senhor Tomé era o coração faminto da aldeia. Vendia-se lá de tudo: desde o petrópio para os candeeiros ao bacalhau duro como tábua. Mas o que mais pesava na loja era o lápis do vendedor a apontar no caderno as somas do fiado dos camponeses. Cada côdea de pão levada para casa vinha carregada com os juros da miséria. Na taberna ao lado, os ceifeiros ribatejanos afogavam a mágoa do salário de fome em quartilhos de tinto carrascão." (...)

Em Fanga (1943), Redol explora a figura do pequeno comerciante da venda que, embora pertencendo ao povo, atua muitas vezes como intermediário e instrumento de pressão dos grandes latifundiários sobre os camponeses enfraquecidos pelas dívidas.

 

Fernmando Namora (Condeixa-A-Nova, 1919 - Lisboa, 1989)


  • Fernando Namora: a  taberna das Beiras vista pelo João Semana

Em Fernando Namora, particularmente nos romances de ambiente rural da Beira Baixa e Serra da Estrela, a venda e a taberna surgem vistas através do olhar do médico de aldeia, o "João Seamana", que testemunha a degradação física e moral causada pelas condições de vida.

Retalhos da Vida de um Médico (1949/1963):

(...) "A taberna do Ti Bento era um antro enfumaçado onde a gente da serra se ia encharcar em vinho roxo para esquecer a geada e a fome. O ar era irrespirável, impregnado do cheiro a sardinha assada, a sabão e a roupas encharcadas pela chuva. 

Naquela penumbra, entre um gole e uma praga, viam-se os rostos chupados pela maleita e pela tuberculose. Para aquela gente, a taberna não era um vício: era o único posto de socorro contra a dor de viver." (...)

Mina de S. Francisco (1946):

Nas zonas de mineração do volfrâmio, a venda torna-se a "loja da empresa" ou o estabelecimento explorador onde o mineiro deixa o magro salário do mês antes mesmo de o receber, trocando o seu suor por víveres de péssima qualidade. (A ação do romance situa-se no Fundão.)

Síntese das diferenças estéticas sobre a venda / taberna  na literatura dos séc. XIX e XX

(i) Século XIX (Camilo, Eça)

  • Ambiente: pitoresco, acolhedor, idílico, pícro ou tragicómico.
  • Vinho: elemento de folguedo, apetite e convívio rústico.
  • Função: pousada de viajante, troca de notícias da capital.
  • Protagonistas: almocreves, fidalgos, morgados e estalajadeiros/as.

(ii) Século XX (Neorrealismo) (Alves Redol, Manuel da Fonseca)

  • Ambiente: denso, enfumaçado, claustrofóbico e tenso.
  • Vinho: anestésico contra o desemprego, a fome, o frio e o desespero.
  • Função: mecanismo de endividamento e controlo social.
  • Protagonistas: ceifeiros, jornaleiros, operários, mineiros e o "fiador".

 
 Conclusão: A "Venda/Taberna" como Símbolo Literário

A "venda" (merceria, taberna, loja) na literatura portuguesa dos séculos XIX e XX assume múltiplas funções: 

 (i) espaço social (local de encontro, convívio e trocas) (Eça, Camilo, Alves Redol);

(ii) crítica social (retrato das desigualdades e conflitos de classe) (neorrealismo: Alves Redol, Manuel da Fonseca); 

(iii) cenário etnográfico (descrição dos costumes e da vida rural (Camilo, Aquilino); (

iv) símbolo de resistência possivel e espaço de solidariedade entre os mais pobres (Manuel da Fonseca, Alves Redol).
 
Pesquisa: LG + Museu do Neorrealisno + Wikipedia + IA (ChapGPT, Mistral)
Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG
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Nota do editor LG: