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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27704 Tabanca da Diáspora Lusófona (39): (In)confidências: fui para Montariol, em 1954, com 10 anos, pela mão do João Maria Maçarico (n. 1937), e para a tropa aos 19, em 1964... (João Crisóstomo, Nova Iorque)



EUA > Nova Iorque > Mineola > 2018 > Vilma Kracun Crisóstomo e João Crisóstomo,   na Parada alusiva ao Dia de Portugal,  em Mineola, NY, 10 de junho de 2018: 



1. Mensagem do nosso John Crisóstomo, o luso-americano régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona   (*) 

João Crisóstomo, membro da nossa Tabanca Grande, com 290  referências no blogue, a viver em Queens, Nova Iorque, ativista social, ex-alf mil inf, CCAÇ CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).


Data - 4 fev 2026 08:17
Assunto - Comentário ao poste P 27695 (**)

Pus-me a escrever um comentário ao poste 27695 e depois ficou tão grande que não tive coragem de o publicar

Permito-me uma “confissão", uma conversa com os meus camaradas, pois que, como irmãos que somos pelo que todos experimentámos, sei que a maioria vai compreender e aceitar este meu “desabafo", que talvez seja coisa que suceda com outros também. 

Creio que um dos muitos benefícios que este blogue tem proporcionado a muita gente, é exactamente o de uma "catarse" terapêutica (do grego kátharsis, "purificação"). A mim, pelo menos, tem-me ajudado.

É que tenho vindo a seguir, mais ou menos, os postes relacionados com o saudoso Horácio Fermandes (1935-2025) e sei que devia fazer uns comentários ao muito que se tem escrito. E não o tenho feito. "Desculpas de mau pagador" nunca são boas, por melhores que elas sejam e por mais voltas que se lhe deem; e portanto não mereço desculpas.

Não sei se virei “bipolar”, pois de vez em quando tenho momentos de muita energia para logo voltar ao mesmo marasmo. Explicarei apenas que,  de há bastante tempo,  já me sinto muito em baixo e é sempre com esforço que faço algo.

Mas este poste de ontem (**) menciona o nome dum quarto Maçarico, desconhecido  até aqui,  e que eu conheço bem. 

Como o Luís Graça descreve, o João Maria Maçarico era de Ribamar e a casa dele era mesmo junto da casa do Horácio. Eu conhecia-o bem assim como o pai (mas não me lembro da mãe ) e o irmão, o Veríssimo, que emigrou para o Canadá. 

Por instruções do Padre António Alves Sabino, que era meu primo direito e que era na altura subprefeito do colégio de Montariol, o João Maria Maçarico veio-me buscar a minha casa e levou-me pela mão, literalmente, que para que os meus pais ficassem descansados. Foi no dia 7 de setembro de 1954. Eu era muito novo.

O facto do meu aniversário de nascimento ser em fins de junho levou a que eu fosse sempre muito jovem em relação aos meus colegas de cursos. Isso sucedeu até na minha entrada para a tropa onde entrei muito novo em comparação com os outros que entraram nesse dia. É que,  ao sair do seminário de Leiria,  logo verifiquei que não conseguia arranjar qualquer trabalho. Meus pais tinham dificuldades e eu queria trabalhar imediatamente mas não conseguia nada. 



João Maria Maçarico (*):  nascido em 1937, também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico

Foto: cortesia de : Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002.


Recordo-me que entre outros lugares onde fui pedir emprego, foi ao gerente do Banco Nacional Ultramarino (BNU) em Torres Vedras. A resposta foi a mesma que me davam em toda a parte: "faça a tropa primeiro” e depois venha falar comigo. E por isso informei-me como devia fazer para cumprir o serviço militar logo que pudesse. Fui a Santarém e aceitaram-me logo, dando-me as devidas instruções para o fazer. Entrei em Mafra,  em janeiro de 1964,  aos 19 anos! Fiz 20 anos em junho desse ano.

Ainda sobre o João Maria Maçarico: ele veio a minha casa para me acompanhar nessa primeira e longa viagem de comboio de Torres Vedras a Braga. E da estação do comboio de Braga até ao colégio de Montariol onde chegãmos à noite desse mesmo dia e me “entregou" ao meu primo.

Devo dizer que pouco ou muito pouco me valeu o facto de eu ser primo do subprefeito: vivi e sofri física e mentalmente o mesmo que o Horácio viveu e descreve no seu livro “Francisco Caboz : a construção e desconstrução de um padre”.

Eu e o João Maçarico estivemos juntos dois anos em Montariol. Depois disso,  porque ele andava sempre três anos à minha frente,  eu apenas sabia notícias dele pela família. Só o vim a reencontrar anos mais tarde,  quando soube que ele trabalhava em Lisboa na companhia de telefones (TLP, mais tarde Portugal Telecom).

E depois outra vez em 2018 ou 2019: eu soube que havia um encontro de antigos alunos em Ourém e eu quis lá ir. Convidei o Rui Chamusco e fomos. Quando lá chegámos, foi-nos dito que o encontro era apenas por vídeo, embora fossemos bem-vindos se quisessemos participar nesses encontro. E quando através dos écrãs se fizeram as apresentações e eu ouvi o nome do João Maria Maçarico,  eu interrompi para perguntar se este era o João Maria Maçarico, de  Ribamar, Lourinhã. 

Depois ficámos em contacto,  soube que ele tinha feito o serviço militar em Moçambique em 1966/67, como alferes miliciano. Mas um encontro pessoal como eu queria,  nunca foi possível e acabei por perder o contacto pois ele deixou de atender o telefone. 

Este ano, já depois do Ano Novo, quando estive em Portugal soube pela Carmitas, irmã mais nova do Horácio,  que ele está internado num lar na zona do Oeste, na Marquiteira, não longe da casa onde nasceu. Mas foi tudo o que me soube dizer.

PS1 - Estou quase a acabar de ler o livro “Os Có Boys” do Luís da Cruz Ferreira, que comprei no encontro da Magnífica Tabanca da Linha, em 14 de janeiro deste ano,  Não vou fazer comentários sobre ele pois nunca saberei fazer pertinentes comentários como os muitos que foram feitos nos postes dedicados a este livro.

Entre estes,  o teu comentário "as suas observações críticas (mesmo que 'anedóticas') sobre o quotidiano da tropa naquela época merecem, só por si, uma nota de leitura à parte” resume tudo o que se pode dizer. Acrescentarei da minha parte que o Luís Ferreira tem a minha muita admiração.
 
PS2 - Li também algures (agora não encontro onde!) um comentário/resposta a um outro do António Graça de Abreu e sua esposa em que sugeres ou pões a ideia de virem um dia "à casa do João e da Vilma" … Mas que grande ideia!

Quanto a vocês… nós e a nossa casa estamos à vossa espera desde o primeiro dia em que os encontrámos. E,  quanto a eles, eu convidei-os logo no primeiro encontro que tive com eles, se me não engano foi em Algés na primeira vez que lá fui. Se o facto de eles vierem,  ajuda a que tu e a Alice venham finalmente … Abençoados sejam todos, vai ser mesmo “manga de ronco” …

Um grande abraço nosso,
João e Vilma

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 12 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27310: Tabanca da Diáspora Lusófona (38): Parabéns, João & Vilma, acabados de se unir com a benção de Deus, na igreja eslovena de São Ciro, Nova Iorque...Hoje, âs 10h30 locais, 15h30, em Lisboa.

(**) Vd. poste de 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos


Lourinhã > Ribamar > c. 1959 > Da esquerda para a direita  os então padres franciscanos (Ofm - Ordem dos Frades Menores)  Horácio Neto Fernandes (1935-2025) e Júlio Alberto Maçarico Fernandes (1934 -  falecido, no Canadá, em data desconhecida)


De acordo com o   "livro da família Maçarico", tanto o Horácio  como o Júlio eram meus parentes: no caso do Horácio,  as nossas bisavós paternas, Maria da Anunciação e Maria Augusta,  nascidas por volta de 1860, eram irmãs;  no caso do Júlio, o  seu avô materno, Manuel Filipe Maçariço, era o primeiro dos cinco irmãos, machos, da Maria da Anunciação e da Maria Augusta.  
Um outro irmão do clã Maçarico foi  José Martinho.



 José Martinho ficou conhecido por Frei José de Cristo (Ribamar, Lourinhã, 1861 - Varatojo, Torres Vedras, 1937). Vestiu o hábito aos 16 anos, em 1888, iniciando assim o Noviciado. Trabalhou e deixou obra artística em vários conventos  (Montariol, Braga; Colégio de Tuy, Galiza; Varatojo, Torres Vedras) como carpinteiro-entalhador, arte que já vinha da famíla. Morreu aos 76 anos, com quase meio século de vida religiosa. Era tio-avô do Júlio, e tio-bisavô do Horácio (e meu...). 

O Júlio foi missionário, OFM, em Moçambique (João Belo, Mavila, Zvala, Maxixe). Regressou à metrópole em 1970. Saiu da ordem, franciscana, nessa altura. Emigrou para o Canadá, lá casou e lá morreu, em data que desconheço.

Fui de resto à missa nova de ambos, em agosto de 1959, com uma semana de intervalo. Eu tinha 12 anos. Lembro-me da terra (casas, ruas...) toda engalanada com ramos de palmeira, eucalipto, flores, numa alegria indescritível. Ainda não havia igreja, na altura Ribamar nem sequer era freguesia. Começava-se a ganhar bom dinheiro com a pesca da lagosta. E os filhos da terra deixaram de ir para o Varatojo, começavam a estudar no Externato Dom Lourenço, na sede do concelho, Lourinhã, inaugurado em 1958.

Há um quarto Maçarico, o João Maria Maçarico, nascido em 1937, que também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico.


Ribamar da Lourinhã era uma terra vizinha de Varatojo, sofrendo portanto a sua influência. A restauração da Província Portuguesa da Ordem Franciscana ou dos Frades Menores (OFM) oficializou-se no final de 1891, após a extinção das ordens religiosas em 1834. Embora tenham sido expulsos, os franciscanos organizaram o seu regresso progressivo, celebrando o 1.º centenário desta restauração em 1991. Mas em 1888 o "Maçario" José Martinho já era noviço no Varatojo.

A família Maçarico tinha tradição na arte da construção naval e da capintaria. (LG)

Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002,  pag.123.

PS - Américo Maçarico (foto à direita, acima),     que era 1º ten ref da Armada, morreu  aos 80 anos, em Ribamar, em finais de 2024.  Nasceu em Ribamar, em 1943. Fez diversas comissões no ultramar:   Angola (1964/66), Moçambique (1967/69), Timor (1972/74).Tinha mais de 41 anos de serviço na Armada. Passou à reserva em 1999.


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 

No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  seis postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em 1959).

(vii) até ser mobilizado para a Guiné, em 1967, ele conta-nos, muito sucintamente, o que foi a sua vida. 


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Testemunho de uma época. Autópsia de uma "total institution" que eram os ainda os seminários das ordens regulares, e nomeadamente da Ordem dos Frades Menores (OFM): Montariol / Braga, Varatojo / Torers Vedras, Leiria, Carnide / Lisboa...

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga. 

Até ser ordenado padre,  passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre,  ainda antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã. 

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e  Estado Novo (1926-1974).

14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.


Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro.  




História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII:   Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

por Horácio Fernandes


4. 5. Ordenação e Missa Nova (12)

Seis meses antes, juntamente com mais 4  colegas, entre eles o meu primo (13), comecei a aprender as cerimónias da Missa, com a ajuda de um Mestre  de Cerimónias. 

Não cabia em mim de contente. Ia  ser a minha verdadeira entronização em Arribas do Mar [lRibamar, Lourinhã], perante os olhares atónitos daquela gente. 

A cerimónia na Sé Catedral de Lisboa, com  a assistência dos meus pais e de muita gente de  Arribas do Mar, foi o primeiro passo de uma corrida  alucinante, que ia durar todo o mês de agosto de  1959. 

Depois, foi a primeira missa no convento [na Luz, Carnide, Lisboa], com  os recém-ordenados. Todos queriam participar e  beijar-me as mãos, ainda recém-ungidas e sentia-me  importante. 

De casa recebia cartas a revelar-me todos os  preparativos da grande festa. O meu primo  [Júlio Fernandes],celebraria num domingo e eu no seguinte. Uma  festa não ensombrava a outra. A minha festa, asseguravam-me, era mais de todo o povo.

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A Missa Nova, na minha terra, foi além de todas as expectativas. A cerca de um quilómetro de distância, foi toda a população esperar-me com foguetes e procissão a preceito. 

Estavam presentes as autoridades da terra e o meu padrinho de Missa Nova foi o Presidente da Câmara [João Ferreira da Costa, presidente da edilidade, entre 1958 e 1970].    

A missa foi cantada, pelos meus colegas que vieram acompanhar-me. O significado foi maior, porque foi no local da futura igreja, com toda a solenidade. A minha família era cumprimentada por todos e recebeu também as honrarias. Eu nem sabia para onde me havia de voltar, com tanta gente a querer beijar-me a mão de recém-sacerdote.

Seguiu-se o almoço para dezenas de convidados, no recinto, à frente da minha casa toda engalanada e servido pelas pessoas da terra. As despesas foram todas cobertas com ofertas do povo de Arribas do Mar. 

Não me enganara. O povo aderiu entusiasticamente. Tudo se conjugou, portanto, para ser uma festa de arromba. Dormi essa noite em casa dos meus pais, mas ao outro dia vieram buscar-me. 

Regressava agora ao quotidiano do ser padre.

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Nota do autor:

(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado

Nota do editor LG

(13)  Falhou esta nota de riodapé. O primeiro era o Júlio Alberto Maçario Fernandes, que seria missionártio OFM em Moçambique, até 1970.

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4. 5. Depois de 13 anos de inculcação do 'habitus' sacerdotal, Francisco com 23 anos feitos já não era o jovem tímido de fato preto e chapéu na cabeça, mas sentia segurança da própria legitimação.

Francisco assumia que foi escolhido e  ungido para sempre (Tu es sacerdos in aeternumentre 47 companheiros e detinha o poder simbólico de administrador do sagrado: perdoar pecados, fazer filhos de Deus pelo baptismo, celebrar a Eucaristia, pregar a palavra de Deus.

Tinham-lhe inculcado que a sua presença era requerida pelos pobres pagãos, que lá longe, em África, pediam, suplicantes, a graça do baptismo para poderem ir para o céu. Sem pensar em compensações terrenas, havia de ser querido pelos fiéis e combatido pelos infiéis, por ser o representante da Santa Igreja «a Nossa Mãe".

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As representações de criança transformaram-se em realidade e não obstante o duro caminho que teve de encetar,  sentia-se recompensado.

À medida que se aproximava o momento da Ordenação, Francisco sentia todo o protogonismo de quem tinha sido vencedor. Tinha conseguido ser o herói não só do seu avô, como dos devotos que tinham confiado nele.

Afinal era a mesma geração que o viu ir para o Seminário, agora mais amadurecida e com mais dinheiro. O povo de Arribas do Mar, culturalmente, mantinha ainda a subordinação ao sagrado, embora estivesse a dar os primeiros passos na senda do progresso económico. O motor substiuira a vela e os barcos de maior calado ganharam outra autonomia. Com a descoberta de novos bancos de pesca e equipados de novas tecnologias, as estadias de 8 e 15 dias em Sesimbra, Cascais, Setúbal e Algarve, abriram brechas no seu ruralismo fechado.

Francisco, alheado dos problemas sociais e vestido do seu duplo hábito, apenas via o povo cristão que era preciso alimentar da palavra de Deus. As suas representações do ser padre e missionário estavam ainda intactas. Afinal, pensava, tinha valido a pena tantos sacrifícios

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5.  Missão

A lógica da instituição era geralmente encaminhar os padres mais novos para os Colégios, os tidos como mais «observantes» (14)  para Mestres de noviços e coristas, e os restantes para as Missões. Para Prefeitos de Disciplina eram escolhidos os maiores domesticadores, sem qualquer formação em Pedagogia. Desta normalidade, ficavam de fora os favoritos na instituição, que, ou por mérito próprio, ou com algum patrocínio,tinha acesso aos saberes da Igreja, numa Universidade transnacional, trampolim mais directo para o poder.

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Nota do autor:

(14) Que, no discurso simbólico, significa, mais conformados com o 'habitus'.

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Francisco, pautado pela normalidade, nunca questionou as tarefas que lhe destinavam os Superiores. Construira, contudo, a par das suas representações simbólicas, o desejo de ajudar a família. O 'habitus', contrariamente ao estatuído, não tinha desenraizado Francisco da primeira instância de socialização. O sangue falava mais alto que o 'habitus'.

Verdadeiramente, Francisco nunca interiorizou que tinha deixado a sua família, e tinha se integrado na família institucional, onde foi domesticado. Nunca lhe deram o afecto e o carinho de uma família. Os superiores não eram os pais. Eram os chefes. A casa não era dele, por mais que no Noviciado e Coristado lhe tentassem meter isso na cabeça. Aí comia e dormia e passava a maior parte do tempo, mas isso não bastava para a considerar sua casa. Nunca encontrou aí um espaço familiar, mas um lugar em que alguém mandava e obrigava a cumprir os Regulamentos e os outros obedeciam, ou procuravam refúgio em famílias amigas.

 O poder sacralizado dos Superiores, envolto em cenários simbólicos de investidura medieval, nunca foram interiorizados por Francisco. A família religiosa, eclesial, nunca substituiu a geneológica. Desde que o desenraizaram das suas raizes familiares, viveu sempre órfão, agarrado às suas representações.

A missão trazia ainda o inevitável contacto com os problemas afectivos da vida real, que tão zelosamente tinham sido escondidos no Colégio Angélico,  Noviciado e Coristado. Os maiores clientes habituais de Francisco eram do sexo feminino, que procuravam na relação espiritual o alívio catársico e simbólico para as suas preocupações e angústias.

Contudo, o 'habitus', estava ainda vigilante qual Prefeito, embora imperceptivelmente fosse abalando as estrumas panópticas ab intra e ab extra.

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Cenário 1 - Professor no Externato,   Capelão de freiras nos dias úteis e servidor   de famílias ricas aos domingos.

O lugar que os Superiores me   destinaram, sem o mínimo de interferência da   minha parte, foi o de professor no Externato,  que funcionava no rés-do-chão do Seminário [em Leiria]

Fui incumbido de dar aulas de Ciências   da Natureza, disciplina em que tinha que estudar   mais que os alunos. Contudo, à força de   persistentes apelos à memória, os meus   alunos não fizeram má figura no liceu.  

Nos dias de semana, o despertar era às  7 horas e ia celebrar missa a um Colégio de  freiras. Ao domingo, levantava-me ainda mais  cedo, pois havia que celebrar missa para os  lados de Setúbal, numa quinta de pessoas muito importantes no meio financeiro (14A),.

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Sempre com a veste regulamentar e sandálias nos pés descalços, fosse inverno ou verão, apanhava o eléctrico até à Baixa, descia a pé até ao Terreiro do Paço e aí tomava o barco para Cacilhas. Depois era a camioneta para uma vila próximo de Setúbal  onde um empregado da quinta me esperava numa furgoneta de caixa aberta.

Cheio de entusiasmo fazia todos os domingos, e dias santos este percurso para; celebrar missa para meia dúzia de criados. Os patrões, a quem estavam reservados genuflexórios de veludo, só assistiam à missa, nas festas principais do ano, mas, assim, ficavam com a consciência tranquila.

No Natal e Páscoa pedia licença para ir um ou dois dias antes, pernoitando numa casa anexa dos hóspedes. Aproveitava para ensaiar cânticos com o pessoal da quinta. 

Numa festa de Natal fiquei muito admirado, porque pedi a uma filha dos senhores para acompanhar os cânticos ao órgão da capela e recebi, como resposta, que não acompanhava os criados.

Conservo, contudo, outras recordações: futuros pretendentes aos tronos europeus e embaixadores participavam nas recepções. Só foi uma vez convidado a estar presente e, não obstante a amabilidade de todos, senti-se usado como um adereço desnecessário.

Ao fim do mês era portador de um cheque para o Seminário, não sei de quanto; porque nunca abri o envelope. Por vezes, aparecia péla quinta um capelão militar, amigo do filho dos senhores, que cumpria o serviço militar, mas não me ligava. Alinhava com o filho do patrão a transpor obstáculos de terra batida, em jeito de diversão, onde os carros novos saiam todos amachucados. Conservo, sim, na memória, um ou outro  passeio, nas alamedas da quinta, de charrete,  com o filho do caseiro, a meu pedido.  

- 127 - 

Entretanto um pensamento me  perseguia: ajudar a minha família endividada. A primeira coisa que fiz, foi pedir uma entrevista ao Provedor  Misericórdia de Lisboa. Expus-lhe a minha   situação e consegui uma bolsa de estudo para a minha irmã, que tinha com grande sacrifício   de meus pais tirado o 2º ano e queria ser enfermeira. 

Entretanto, a mais nova, também   quis estudar. Como os meus pais não podiam  custear os estudos, arranjei uma família algarvia, sem filhos, que a recebeu. Pode assim estudar o 1 ° e 2o anos, sem nada pagar.  

________________

Nota do editor LG:

(14A) No livro de 2009, o Horácio Fernandes diz que se tratava da Herdade da Comporta.
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Cenário 2 -Prefeito de Disciplina no Colégio Angélico

 Entretanto, abriu outro Colégio Angélico na região Centro para captar novas vocações. Sob pressão das instâncias internacionais da Igreja (...),  os alunos passaram a fazer exame ao liceu, em regime de  ensino doméstico. Registei o meu Diploma do Ensino Natureza Particular no Liceu Nacional da cidade   [Leiria] e fui assumir o cargo de Prefeito aos 26 anos, tendo como Subprefeito um colega mais novo.

 No mesmo edifício havia ainda um asilo, onde era Director também um colega. Quando me nomearam,sem me consultar, tomei conhecimento que o Colégio  tinha um ano de experiência liceal, mas sem resultados satisfatórios, sobretudo a Ciências e Matemática. Era preciso reabilitar a sua imagem.

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O primeiro contacto com Colégio Angélico ficou-me bem marcado na memória. Comecei a receber umas cartas dirigidas ao «Senhor Padre Prefeito» e abri-as. Era a correspondência dos alunos para o meu antecessor. 

Abri uma ou duas e fiquei boquiaberto: os alunos, na sua inocência falavam de momentos de intimidade, que me deixaram estupefacto. Aconselhei-me com o colega e. a partir daí, todas as cartas dirigidas ao ex-Prefeito eram queimadas, sem as abrir.

Estava-se em 1962 e tinha 26 anos, Tomei a peito a tarefa, mas não descurei a promoção social e material da minha família. Trouxe para essa cidade a minha irmã mais nova, para prosseguir a Escola Comercial. Dormia em casa de uma senhora amiga, mas preparava as lições e almoçava no Colégio Angélico.

Era preciso mostrar resultados no liceu, a qualquer custo. Aceitei o desafio e obrigava os alunos a multiplicarem as horas de estudo. 

Os métodos para conseguir manter cerca de 100 alunos em silêncio e a estudar, horas a fio, num largo salão, eram os mesmos com que tinha sido formado: disciplinação a todo o custo. 

Assumi o papel de Prefeito e os métodos que sempre vira praticar. Afinal os Regulamentos eram os mesmos: o ritual da formatura, do silêncio, da domesticação do corpo e espírito. 

Por feitio próprio, não me isolava dos alunos e jogava a bola com eles. Contudo, o Prefeito era o guardião da disciplinação e os castigos dependiam unicamente da representação que ele fazia do delito e tinha sempre razão.

A Ciências já vinha treinado do Externato, mas a Matemática tinha grandes dificuldades. Assumi o desafio de a reaprender e obtive óptimos resultados no liceu, à custa da repetição e mecanização dos exercícios do Palma Fernandes.

Mesmo assim, era um pouco diferente do Colégio Angélico, onde estudara os primeiros cinco anos [em Montariol, Braga]. Os tempos era outros. Os alunos tinham mais contactos com as famílias. Iam a férias do Natal, Páscoa e fim do ano lectivo e podiam receber visitas eisair com familiares, ao fim de semana. Eram quase todos filhos de emigrantes.

- 127 -

Esta preocupação pela minha fámília, levou a que muitas vezes deixasse o Colégio ao fim da tarde, em conluio com o meu colega,  e fosse visitar os meus pais, de camioneta, a cerca de 130 quilómetros.

Anexo ao Colégio, havia o Seminário de Filosofia. Estava-se nos anos 60 e os Coristas com quem ia por vezes jogar futebol, andavam em autêntica revolução. De noite, tiravam o hábito e iam às escondidas para o cinema da cidade. Tinham um jornal clandestino, 'O Esgravilhão', onde criticavam os Mestres e as normas. Faziam piqueniques com produtos furtados ao Seminário, à noite, durante o silêncio e ninguém conseguia contê-los. 

Iniciara-se a assim a revolta que iria continuar pelos anos 60 e multiplicar as deserções (...).

Como Prefeito do Colégio Angélico, estava relacionado com as famílias dos alunos, com os clientes do Seminário e com o pessoal feminino que trabalhava para o asilo e o Colégio. Era o primeiro contacto informal, mas assumido, com o sexo feminino, depois da repressão de 13 anos.

- 128 -  


Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 124 -128 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, bold, itálicos, título: LG)

(Continua)

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Nota do editor LG:

Último poste ds série > 27 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre
 
Vd. postes anteriores: 




terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27651: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V: O noviço

Convento de Montariol, Braga. Fonte: cortesia de Wikimedia Commons, imagem do domínio público



Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).

Será capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor do livro de cariz autobiográfico "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 


No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz,  seu "alter ego".  Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas,  cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, aos 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  quatro  postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão.

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv)   os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço [Convento do Varatojo, Torres Vedras] .

É um trabalho relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico no Estado Novo.

2. Temos de fazer aqui, entretanto, uma "viagem no tempo e no espaço"  e reconstituir sumariamente os passos do percurso formativo no nosso Horácio, para se perceber melhor o seu texto autobiográfico.


Antes do 25 de Abril de 1974 (e até á reforma de 1967), a formação de um padre franciscano em Portugal (Província Portuguesa da Ordem dos Frades Menores) seguia um modelo tradicional e rigoroso, estruturado em ciclos que podiam durar entre 12 a 14 anos. 

Este percurso levava o postulante desde a infância ou adolescência até à ordenação sacerdotal. No caso do Horácio, vai de 1946 (já com 11 anos feitos, em 15 de setembro) até agosto de 1959 (Missa Nova) (aos 23 anos, ia fazer 24).

Aqui estão as etapas e os conventos/seminários por onde ele passou:

(i) Seminário Menor (Ensino Secundário) > 
Montariol, Braga (de 1946 a 1951)

O percurso começava normalmente cedo, com rapazes de 10 a 12 anos. (O Horácio fez a 4ª classe do ensino primário no ano letivo de 1945/46, com 10 anos.)

O objetivo era completar o que hoje chamamos de ensino básico e secundário, com forte ênfase no Latim e Humanidades.

O principal centro era o Seminário de Montariol, em Braga: era o grande "viveiro" de vocações franciscanas no Norte do país.. O regime em vigor era o de internato, pura e duro, com uma rígida disciplina monástica, farda própria e um foco muito grande na formação do caráter e no reforço da vocação.

(ii) Noviciado (Ano probatório) > 
Convento do Varatojo, Torres Vedras (1951/52)

Após concluir os estudos liceais (5º ano, em 1951), o jovem Horácio entrou no Noviciado (6º ano, 1951/52).

 Este era o ano mais importante da vida espiritual, dedicado ao silêncio, à oração e ao estudo da Regra de São Francisco. Era aqui que o jovem recebia o hábito castanho e o cordão (ainda sem nós ou com nós simples).

O noviciado era feito no histórico Convento de Varatojo, conhecido como o "Seminário Apostólico". Ficava a escassos quilómetros (18 km) da sua terra natal. 

Ao fim de um ano, se aprovado, o noviço fazia os Votos Temporários (Pobreza, Castidade e Obediência). 

(iii) Filosofia (Estudos Maiores I) > Coristado > Convento
 de São Francisco, Leiria (de 1952 a 1955,  dos 17  aos 19 anos).

Após o noviciado, o Horácio passou  ao coristado, ou seja ao início dos estudos superiores. 

A Filosofia (geralmente 3 anos) era o alicerce intelectual antes da Teologia. O centro de estudos de Filosofia funcionava predominantemente no Convento de São Francisco de Leiria, mais aberto como instituição e organização, e ponto de passagem obrigatório para Fátima. 

Nesta fase, os frades eram conhecidos como "Coristas": a sua obrigação principal, além do estudo, era a oração do Ofício Divino no coro da igreja.  O Horácio esteve aqui até ao 9º ano. 

(iv) Teologia (Estudos Maiores II) > 
Convento da Luz, Carnide, Lisboa

A última etapa antes da ordenação sacerdotes  eram os 4 anos de Teologia (do 10º ao 13º anos). 

Durante este período, o frade fazia a sua Profissão Solene, tornando-se membro definitivo da Ordem. O curso de Teologia funcionava no Convento da Luz, em Carnide, Lisboa.


3. É uma história de vida, pungente, sofrida,  bem dura, em tempos muito difíceis (antes, durante e depois da II Guerra Mundial), que merece ser conhecida dos nossos leitores. 

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4a. classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol.

A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica  

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

O nosso camarada e amigo Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre em 1959,  antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959. 

Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969), tendo terminado a sua comissão no HM 241 com uma crise de paludismo. Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós,  paternas, nascidas na década de 1860, eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).

A história de vida do Horácio é a de muitos de nós, que fizemos o percurso clássico de mobilidade social através da educação, num Portugal rural e pobre dos anos 40/50/60.  



História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V:  O noviço

por Horácio Fernandes


4.1.3. Rituais de interiorização do 'habitus'

Na igreja, ainda sonâmbulos, os angélicos recitavam de cor as orações da manhã e ouviam, todos encolhidos, uma leitura do «Jovem Piedoso», lida com voz solene, que lhes servia de meditação. 

Seguiam-se 15 minutos de joelhos, em que o pensamento voava para longe, sem querer concentrar-se, ou então deitava a cabeça no banco, até que o Prefeito, no melhor dos casos, o obrigava a ficar de pé, de castigo.

Seguia-se a «Santa Missa». Quem não comungava era «marcado» pelo Prefeito, ou seus acólitos e ficava suspeito de andar em pecado. 

Para repor a legalidade simbólica das consciências havia sempre um confessor de serviço, de entre os nomeados pelo Provincial, para atender os angélicos (...).

O bom Angélico confessava-se pelo menos todos os 8 dias e ia ao quarto do Director Espiritual, também expressamente designado, pelo menos uma vez por semana. Podia não ter nada para lhe dizer, mas era obrigado a fazê-lo (...).

Mas os rituais de interiorização dominavam também os tempos extra-estudo, porque não havia tempos livres. «O ócio é o inimigo da alma», repetiam os Directores Espirituais. 

Para as grandes festas litúrgicas, ou do Santo Patrono, havia uma representação teatral, onde procuravam inculcar nos angélicos as aprendizagens do dia a dia: 

  • a sacralidade das hierarquias, 
  • o cumprimento da lei de Deus, 
  • a fidelidade à vocação, 
  • a supremacia das vidas consagradas a Deus, 
  • a imitação dos santos, 
  • a missão heróica dos missionários, 
  • o castigo dos pecadores 
  • e o perdão aos arrependidos
{Alvorada Missionária, Braga, 1946)

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Antecedendo as férias do Natal, Carnaval, Páscoa e férias grandes havia o retiro espiritual. O Director Espiritual ou outro padre fazia as palestras de manhã e à noite e os recreios eram em silêncio. 

No Carnaval redobrava-se as orações e os sacrifícios pela conversão dos pecadores que ofendiam Nosso Senhor com os seus desvarios carnavalescos. Competia aos eleitos de Deus fazer-Lhe companhia nesses dias, porque era muito ofendido.

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4.1.3. A conselho do meu Director Espiritual,  tinha um caderninho, onde apontava os defeitos que havia de corrigir, as boas acções a praticar e os sacrifícios que devia fazer para conseguir progressos na vida espiritual. Cada semana, tinha de lhe relatar tudo o que me acontecia e fazia. 

Em troca, era aconselhado a como combater as tentações da carne e os maus pensamentos, mortificando o corpo e rezando muitas jaculatórias, suportando a dor e passando voluntariamente horas sem falar nos recreios, para conseguir ganhar a virtude do silêncio. 

Para conseguir a virtude da pureza, nos ferrvores dos meus 12, 13 e 14 anos, cheguei a usar cintas entrelaçadas de espinhos de roseira, ou tabuinhas com pregos, por debaixo das roupas, para afastar os «maus movimentos» e ser puro. 

Ser puro como o Santo Patrono dos Angélicos, que, como diziam os livros que o Director Espiritual recomendava, quando o assaltou o pensamento de casar, tirou as vestes e lançou-se à neve, fez uns bonecos e disse: «Eis aí os teus filhos e mulher, trata deles»; e assim lhe passou à tentação. Com estes e outros exemplos espirituais, procurava permanecer «puro», como os anjos do céu. 

'Nas férias do Natal, Carnaval e Páscoa era permitido requisitar livros, devidamente selecionados, como os de Madame Ségur, que falavam de meninas dos Colégios bem comportadas e acabavam por ir para freiras, Contos Missionários, Aventuras de Júlio Verne, e montes de livros de santos.

 Lembro-me que já quase sabia de cor as aventuras de Júlio Verne que li várias vezes, durante os cinco anos.

Ajudar às missas devidamente fardado e pertencer às Associações Religiosas da instituição também era uma obrigação. Pouco mais servia, do que nas festas dos santos patronos e procissões irmos atrás do estandarte. 

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Outro momento solene era o exame de consciência. Todas as noites, antes de deitar o Prefeito interrogava em voz solene as consciências dos rapazes que não excediam os 16 anos: «o machado está lançado à raiz da tua vocação», começava ele, «teme os inimigos que rondam o teu coração». 

Seguia-se uma torrente de perguntas a que o Angélico respondia, em silêncio, questionando se teve maus pensamentos e quantas vezes, se os consentiu, se tinha alguma amizade particular com os colegas, percorrendo um a um todos os pontos do Regulamento. 

Terminava por um apelo ao arrependimento e um propósito firme de sermos fiéis ao chamamento de Deus, sob pena de trairmos a sua predilecção.

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4.2. Os rituais de interiorização tiveram o seu auge no 6º ano [, no Convento do Varatojo, Torres Vedras], em que o panoptismo foi reforçado. 

A maior parte do tempo era consagrado ao estudo da Regra e Constituições, Cerimonial Doméstico e Ordenações Peculiares da Instituição.

 O clima de silêncio permanente, a meditação o retiro espiritual, a autoflagelação, as práticas rituais de subordinação simbólica, a clausura efectiva predispunham a pessoa à renúncia obrigatória das subjectividades e aniquilamento do 'self'.

Ao Angélico, durante o Colégio, procuravam inculcar o 'habitus', através de uma praxis ritualizada e uma prática discursiva, Ao noviço, vestiam mesmo o hábito, a túnica e o «caparão» (6), seu símbolo, procurando integrá-lo na «família» simbólica da instituição. Era a tentativa de impor uma identidade colectiva, construída por espaços próprios e um poder teocrático.

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Nota do autor:

(6) Pequeno rectângulo de pano, seguro ao hábito que servia para distinguir os noviços dos outros professos.

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4.2. O noviço

O Noviciado foi o meu ano de transição para o Coristado de Filosofia e Teologia. 

Tido como ano probatório, aí entrei aos 16 anos. A cerimónia da tomada de hábito foi impressionante. Deitámo-nos nos degraus do altar, o coro rezou as ladainhas a implorar a todos os santos e santas a protecção e só depois nos despiram o «homem velho",  simbolizado no fato preto que trazíamos e nos vestiram de «homem novo», com o hábito. 

Assistiram os meus pais e muita gente de Arribas do Mar. No claustro, houve uns breves momentos para uma fotografia com os pais e amigos, mas nem houve tempo para conversar Tive de recolher ao convento, onde não podiam entrar pessoas estranhas.

Depois de cinco anos, via-me livre dos Prefeitos, mas caía na alçada dos Mestres e de toda a comunidade com votos solenes, que faziam a minha avaliação, todos os trimestres, com feijões pretos e brancos depositados numa urna. Contavam-se e conforme tivesse mais pretos ou mais brancos, assim era rejeitado ou podia continuar. No fim, ainda tinha de beijar os pés aos que me tinham avaliado.

Completamente afastado do contacto das outras pessoas, inclusive os outros padres do convento e familiares,  encerraram-me na parte mais alta do convento à chave. 

Só podia sair para o coro, defendido do resto da igreja por altas grades, refeitório, ou mata, em formatura,  de cabeça baixa, mãos nas mangas e devidamente fardados, pés descalços com sandálias de inverno ou verão, cordão à cinta, túnica de pano grosseiro hábito e cuecas ou ceroulas. Calças eram proibidas, e o reforço da roupa só por doença e com licença expressa dos superiores;

As sextas feiras participava na confissão pública dos pecados e a respectiva penitência. Era o chamado capítulo de culpas, na sala capitular. 

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Ora um ritual, em que todos de joelhos, excepto os padres, porque esses ajoelhavam só no fim e apenas pediam perdão dos seus pecados a Deus, confessavam um pecado e recebiam a admoestação do Superior e a penitência.

O que mais me custou, para além do isolamento, foi o ritual das «disciplinas» às sextas-feiras. Nos meus verdes 16 anos, lá ia para o meio do corredor, com as «disciplinas» confeccionadas por mim, na mão. 

Apagavam-se as luzes e ao som do salmo Miserere mei Deus começava a autoflagelar-me. Parecia que o salmo nunca mais acabava e, na Sexta- feira Santa,  era repetido três vezes. Gomo estava distante dos outros noviços, cerca de um metro,  percebia perfeitamente quem batia com mais força.

Havia um colega meu, candidato a irmão leigo, que era um caso singular: mais avançado em idade, pois tinha sido sargento na tropa, batia com um cinto que se ouvia muito ao longe, enquanto pedia a Deus perdão dos seus pecados em voz alta, desafinando do resto do coro. Durante a noite não dormia na cela e, de manhã, encontrávamo-lo muitas vezes deitado, debaixo do altar da capelinha do Noviciado, porque tinha medo do diabo que o perseguia.

Da minha parte, convencido de que era o eleito de Deus para salvar o mundo pecador, cumpria o que me mandavam, sem regatear, como se pode observar num artigo que escrevi para a revista do Noviciado {Vita Abscondita, Ano VII, 1952, n.° 6).

As ocupações, para além do estudo da Regra e Constituições, era ouvir duas vezes por dia as palestras dos Mestres sobre como dominar «o irmão asno» - o corpo. 

Enfadonha e ritualmente ouvíamos repetir como os santos manejavam as armas brancas da oração, as ligeiras e pesadas das jaculatórias e sacrifícios. As aprendizagens propriamente ditas consistiam em confeccionar coroas angélicas em silêncio, ou falando baixinho, aprender os cerimoniais conventuais e fazer «disciplinas».

Outros rituais eram, depois do almoço, o prandium ou a sesta, ou em sua substituição estar recolhido na cela; caela mihí coelum (a cela é o meu céu). 

À noite, antes de deitar, entoava-se mais um responso pelas «benditas almas do purgatório» e aspergia-se as celas com água benta, não viesse o demónio trazer maus pensamentos, durante o sono.

Os únicos móveis da minha cela eram: uma mesa nua, uma cama de ferro e um armário de pinho, para pendurar os dois hábitos: um de trabalho e outro das festas.

As celas ficavam alinhadas num largo corredor, com a particularidade de dispor de um orifício, por onde o Mestre ou o vice - Mestre dos noviços podiam espreitar, para ver o que se passava lá dentro. Aliás, era expressamente proibido fechar a cela à chave.

O ritual das punições era agora mais requintado: os Mestres não me batiam, mas mandavam-me à culpa com um objecto ao pescoço, no caso de se ter partido alguma coisa, mesmo sem querer. Eu só fui uma vez à culpa sozinho. Acompanhado, ia todas as semanas, ou porque o Mestre mandava, mesmo sem motivo, ou por ser apanhado a falar.

Durante algum tempo fui destacado para regar as flores, sob a jurisdição de um padre mais velho, que não podia já com o regador. Tirava a água do tanque e fazia o que ele me mandava. Um dia, no Verão, não resisti. Apanhei o padre distraído, tirei num instante o hábito e mergulhei no tanque. 

- 119 - 

Se a comunidade religiosa era já um microcosmos, dentro do macrocosmos social, o Noviciado era um permanente retiro espiritual, em que os actores sociais representavam ao vivo os papéis de reconstrução dos modelos simbólicos do século XIII. 

Os cenários eram apropriados: 

  • convento do século XV [Convento do Varatojo, Torres Vedras]cuja arquitectura está de costas voltadas para a pequena povoação que lhe deu o nome, 
  • paredes grossas e lajedos do gasto pavimento, ligados a estórias de penitentes, 
  • estatuária simbólica cultivando as representações da morte, 
  • azulejaria dissuasora dos apreciadores dos prazeres quotidianos.

Todos os rituais terminavam com orações pelos benfeitores, que davam a esmolas e a sustentação dos frades, em troca das súplicas e sufrágios, para terem descanso no antiquotidiano. 

Os mais lembrados eram geralmente famílias abastadas e devotas que se lá iam confessar e tinham os padres, como amigos da família. Se tinham capela em casa, dispunham ainda desse mesmo padre, ou outro, que aos domingos lá ia celebrar missa. 

Era um bom conluio, entre os grandes da terra e os administradores do céu. Era frequente o Mestre, confidente dessas famílias, pedir aos noviços orações e sacrifícios para que os seus clientes fossem bem sucedidos!

Mas a colheita de dádivas para sustentar os frades, não se ficava por aqui. Pelas aldeias próximas, andava um «irmão» a mendigar para os frades pobrezinhos. 

Francisco, por vezes, sabendo das dificuldades da sua família, questionava-se porque pediam os frades, se comiam melhor que as famílias remediadas. Ainda não lhe tinham inculcado o mito do pobre de espírito, o antídoto que serve para tranquilizar as consciências dos ricos.

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 Explicavam que era uma ocasião do povo devoto do Santo Patrono mostrar a sua generosidade e beneficiar das orações da comunidade. 

Habituado a aceitar e não raciocinar, resignou-me mais uma vez à lógica do sistema. Estava mesmo entusiasmado a imitar o Santo Patrono. A semente tinha caído em bom terreno {Vita Abscondita, 1952, n°6).

Foi com certeza esta resignação que ditou a sua escolha para os votos simples de 'pobreza voluntária, obediência inteira e castidade perpétua', em 15/08/52.

 Dos 14 noviços clérigos que iniciaram o Noviciado, só 10 transitaram para o Coristado no ano 1952  [, no Convento de São Francisco, em Leiria] (Livro de Registos de Admissões e Livro de Registo de Profissões Simples, 1952).

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Foi rápido, mas ao chegar ao pé do padre, este interpelou-me por ter a cabeça molhada e ter demorado muito. Não valeu de nada desculpar-me. Foi fazer queixa ao Mestre. A partir daqui, houve uma série de rituais até ser castigado.

Primeiro tive de me dirigir ao Mestre e, de joelhos, cumprir o ritual, dizendo: peço me dê penitência por amor de Deus. Ouvi um ralhete e fui mandado à 'culpa'. 

Depois, antes de ir para o refeitório, tive de me ajoelhar novamente a pedir perdão ao Mestre, dizendo "perdoe-me a penitência por amor de Deus".

 Não me perdoou, mas tive de lhe beijar, na mesma, a mão. Finalmente, fui à Guia ao refeitório e substítuiram-me no serviço de regar as flores, passando agora os os tempos de trabalho fechado a fazer terços e «disciplinas».

No dia combinado, no refeitório, de joelhos, perante toda a comunidade, disse a fórmula ritual:

"Digo a Deus a minha Culpa, a vossa Paternidade e a iodos os frades e irmãos por todas as faltas e negligências, sobretudo por ter tomado banho no tanque. Pelo que, peço a Deus perdão e avós, Padre, a penitência". 

Seguiu-se o sermão pelo padre Superior e a penitência que consistiu em rezar uns quantos Padre-Nossos e Avé Marias pelos benfeitores e beijar ôs pés a toda a comunidade. :

Para cumprir a penitência, arrastei-me por debaixo das mesa para beijar os pés a todos os frades Alguns, sobretudo os que trabalhavam na quinta e com os pés mais sujos taparam-nos com o hábito, mas os mais observantes esticavam-nos mesmo bem.

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(Continua)

Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 117-120 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, bold, itálicos, título: LG)
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Nota do editor LG:

(*) Vd. postes anteriores: 



17 de janeiro de 2026 Guiné 61/74 - P27642: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir