Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Lourinhã. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lourinhã. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26617: História de vida (55): José Álvaro Carvalho (ex-alf mil art, BAC, Bissau, Olossato, Catió, 1963/65), fadista e guitarrista, e depois da "peluda",... "doutorado em metalomecânica pesada"


Guiné > Região de Tombali > Ilha do Como > 1964 > Ilustração, in "Tridente - Memórias de um Veterano", de António Manuel Constantino Vassalo Miranda @ 12Fev2007, 29 pp. (Disponível em formato pdf, no Portal UTW - Dos Veternos da Guerra do Ultramar: https://ultramar.terraweb.biz/Livros/AntonioVassalo/OpTridenteAntonioVassalo.pdf) (com a devida védia...)


1. Nota biográfica do nosso camarada José Álvaro Carvalho, grão-tabanqueiro nº 890:

(i) nasceu há 85 anos, em Reguengo Grande, Lourinhã;

(ii) com 26 meses de tropa, acabou por ser moblizado para o CTIG por volta da primavera de 1963 (não conseguimos ainda apurar a data);

(iii) foi render um alferes de uma companhia de intervenção, de infantaria, sediada em Bissau (QG/CTIG) (não conseguimos ainda identificar qual);

(iv) irá cumprir mais uns 26 ou 27 meses, no TO da Guiné, entre o primeiro trimestre de 1963 e o início do segundo semestre de 1965;

(v) passou por Bissau, Olossato, Catió e a ilha do Como, aqui já a comandar um Pel Art, obus 8.8 (a duas bocas de fogo), com que participou, entre outras, na Op Tridente (jan-mar 1964);

(vi) em Catió esteve adido ao BCAÇ 619 (14 meses);

(vii) Cruz de Guerra, 3ª Classe, por no"período de catorze meses em que esteve destacado no Batalhão de Caçadores nº 619, foi sempre um Oficial zeloso, dedicado e muito competente, salientado-se a sua acção, principalmente, no campo operacional, em que foi utilíssimo o apoio, sempre eficaz, que soube dar com o seu pelotão em todas as operações em que interveio, nomeadamente, nas "Tridente", "Broca", "Macaco", "Tornado" e "Remate", contribuindo assim, dentro do seu âmbito, para o prestígio da Arma a que pertence";

(viii) no CTIG era popularmente conhecido pelo seu nome artístico, "Carvalhinho" (cantava o fado de Lisboa e tocava guitarra no "Cantinho da Saudade"); em Bissau, chegou a fazer espetáculos com o alf médico Luís Goes (que cantaca e tocava o "fado de Coimbra"); 

(ix) depois do regresso à vida civil, trabalhou na empresa metalomecânica 
L. Dargent Lda (onde foi diretor do departamento de trabalhos exteriores, e sócio minoritário), empresa q1ue fez, por exemplo, a montagem da superestrutura metálica e cabos de suspensão da ponte na foz do Rio Cuanza em Angola);

(x) depois do 25 de Abril, também conheceu a Sorefame e outras;

(xi) em 2019 publicou, na Chiado Book, um livro misto de autobiografia, e ficção histórica, de em prosa e em veros, mais de 700 pp. ("Livro de C.") (tem em mãos, uma nova versão, revista):

(xii) é nosso grão-tabanqueiro, desde 26/6/2024;

(xiii) autor da série "Memórias de um artilheiro" de que se publicarm 10 postes, entre julho e setembro de 2024;

(xiv) é também autor de 26 fados,  cantor e guitarrista (

(xv) autorizou-nos a publicar no blogue diversos excertos da versão difital, em revisão,   do "Livro de C", incluindo este que se segue com parte da sua vida profissional.




Angola > Ponte do rio Cuanza (em contrução), projeta pelo prof Edgar Cardoso > c. 1970/73 > O José Àlvaro Almeida de Carvalho, diretor do departamento de trabalhos externos da empresa L. Dargent Lda. Aqui ainda no início da montagem do tabuleiro da ponte...


Foto (e legenda): © José Álvaro Carvalho (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. Memórias de trabalho e outras

por José Álvaro Almeida de Carvalho



Capa do "Livro de C",  de
 José Álvaro
Almeida de Carvalho (Lisboa
Chiado Books, 2019, 707 pp.)

(i) L. Dargent Lda


Tenho 78 anos de idade. Estou na reta final.

Depois de sair do serviço militar, entrei na empresa L. Dargent, Lda. uma das mais antigas da metalomecânica pesada, primeiro nos Serviços Administrativos, passando mais tarde para os Serviços Técnicos onde cheguei a director do Departamento de Trabalhos Exteriores.

Esta empresa montou o elevador de Stª. Justa, os guindastes do Porto de Leixões, a Ponte Elevatória de Alcácer do Sal, e construiu dragas de grande dimensão, várias pontes metálicas de caminho de ferro, assim como outras obras grandes e pequenas da sua especialidade. 

Era uma sociedade por quotas inteiramente privada, cheia de crédito 
no sistema bancário que nunca usou.

Tinha em média 150 operários, uma boa sala de desenho apoiada em
 técnicos competentes e uma excelente secção de serralharia mecânica de suporte à oficina.

Ainda nos serviços administrativos, interessei-me pelo que se passava nesta oficina. Em primeiro lugar pela soldadura no que me especializei com a ajuda da Welding Researche Assotiation de Londres a que a empresa se associou e o contacto assíduo com empresas como a multinacional sueca ESAB de Gotengourgo, e outras.

No fabrico e montagem de reservatórios e tubagens aprendi muito com os operários que iam trabalhar para a Chicago Bridge and Iron Company , quando regressavam e entravam de novo no anterior serviço, porque já iam nessa condição, ou com os que não regressavam mas quando vinham de férias visitavam a fábrica.

Deles recebi preciosos conhecimentos através de informações, desenhos de pequenas peças para acerto de montagem, mais evoluídas que as nossas etc.

A empresa americana de que falo, tinha um escritório em Lisboa, onde recrutava pessoal para os seus estaleiros, principalmente soldadores. Tínhamos excelentes soldadores.

Até aquela altura todas as refinarias europeias eram feitas por empresas americanas principalmente por esta, que conheci melhor. Cheguei a deslocar-me a Huelva para ver o trabalho que alguns dos nossos operários faziam na construção da sua refinaria.

Quanto ao trabalho de metalomecânica em geral, adquiri o conhecimento que acabei por ter, com os experientes e conhecedores operários encarregados e técnicos da L. Dargent Lda. que recordo com amizade e agradecimento, principalmente quanto aos trabalhos de caldeiraria, por ser impossível haver escolas para esta arte. As chapas mais pequenas com que se trabalham em caldeiraria têm geralmente 6 m, por 2 e os produtos finais podem ter a dimensão dum porta contentores, dos guindastes que os manuseiam ou dum petroleiro. Mesmo as suas componentes que se trabalham normalmente ao ar livre já são muito grandes.

A minha formação académica levou-me a frequentar a faculdade de economia, donde saí para o serviço militar. Tinha portanto conhecimentos de matemática suficientes para estudar Resistência de Materiais, que entretanto comecei a fazer nos livros do mundialmente conhecido engenheiro Timoshenko e me foi de grande utilidade, principalmente no último trabalho, que mais à frente refiro, para me entender com o sr. Professor Edgar Cardoso que o projetou e tinha um profundo conhecimento de engenharia.

Como diretor do departamento de trabalhos exteriores, dirigia no local a montagem das obras importantes como a cobertura da segunda fase da Siderurgia Nacional ou a montagem duma parte do parque de tanques de stocagem da refinaria de Leixões. No que se refere às mais pequenas, visitava semanalmente os respetivos estaleiros.

O último trabalho importante de que falo acima, foi a montagem da superestrutura metálica e cabos de suspensão da ponte na foz do Rio Cuanza em Angola. Tendo estado a residir com a família em Luanda cinco anos por este motivo.

Antes de ir para Angola ensinei a soldar com máquinas semiautomáticas 6 soldadores que já eram bons profissionais em soldadura clássica. Depois de um período de prática fi-los examinar pela Loyd’s Register of Shipping que com o Bureau Vertitas constituíam na altura as mais importantes entidades fiscalizadoras dos trabalhos da nossa especialidade na Europa. Apesar da dificuldade destes exames todos foram aprovados.

Não sabia o nível da fiscalização que ia ter e mais vale prevenir do que remediar. Levei também para Angola uma máquina de Raios X pela mesma razão. Mas a fiscalização era fraca e esta máquina nunca trabalhou. Por outro lado o Professor Edgar Cardoso tinha muita confiança na minha empresa que conhecia de longa data.

Quanto a estes soldadores, com a carta da Loyd’s na mão, começaram a ser solicitados para trabalharem nos estaleiros do Médio Oriente. De quando em quando vinha um pedir para o fazer. Nunca tive coragem para lhes dificultar a vida. Iam ganhar muito mais e possivelmente obter know how diferente do que estavam habituados. Só um ficou, o mais velho, que me fez companhia até ao fim.

Esta situação originou a que já depois de executado um pouco mais de metade do trabalho, sempre que se montava uma viga principal (14 m de comprimento e 14 tons de peso), entregava o estaleiro ao encarregado e passava 3 dias a soldá-la dum lado, com o soldador que ficou no outro. Eram soldadas ainda suspensas do guindaste que as levantava do rio. Assim se fez o trabalho até ao fim.

O encarregado de que falo, era um soldador que em tempos tinha pedido para trabalhar num estaleiro do Médio Oriente, que passados alguns anos regressou e foi promovido a encarregado. Quando fui para Angola acompanhou-me nessa qualidade e foi o meu braço direito durante toda a obra.

As vigas a que atrás me refiro foram fabricadas em Lisboa nas oficinas da empresa a partir de chapa importada da Alemanha.

Este trabalho foi no geral concluído em março de 1974, tendo entrado em acabamentos a partir dessa altura.

(ii) Construtora Moderna

Passei dia 25 de Abril desse ano aí e regressei algum tempo depois.

Andei a ir e vir a Angola até deixar de ser necessário, após o que ingressei na empresa Construtora Moderna,  situada na margem Sul perto da povoação do Fogueteiro.

A empresa a que eu pertencia tinha sido extinta e os seus operários integrados nesta, a qual fora construída e equipada pela Sacor, a grande gasolineira da época, de grande capacidade financeira e que Marcelo Caetano obrigou a vender, por não ter comprovada capacidade para a sua gestão, ficando a Sorefame com a maioria do capital e L. Dargent, Lda. com uma pequena parte.

Fiquei orgulhoso e entusiasmado quando entrei para a equipa de direção desta oficina, que tinha 400 operários incluindo mais de 100 que eu bem conhecia. Mas foi sol de pouca dura.

Tinha 3 halls com 30 metros de elevação e mais de 200 metros de comprimento cada. Havia em cada um, duas pontes rolantes bem dimensionadas, para movimentarem materiais e peças do armazém para os postos de trabalho e entre estes. 

Estava equipada com o que de melhor havia na época para oficinas de caldeiraria (para quem não sabe, caldeiraria deriva do verbo caldear que significa aquecer duas partes de ferro ao rubro e juntá-las uma à outra, batendo-lhes com força a formar uma. Refere-se há muito a todos os trabalhos em aço de espessura superior a 3mm. O trabalho em espessuras inferiores chama-se de serralharia).

As principais obras a decorrer consistiam a primeira, no fabrico de pernas tubulares com 60 metros de comprimento e três de diâmetro em chapa com 30mm de espessura para duas torres de petróleo da Mobil, uma subempreitada da Sorefame.

Esta obra começou a sofrer da particularidade de todas as semanas diminuir o ritmo de produção. Chamava-se a Comissão de Trabalhadores que,  depois de explicada a gravidade do assunto, a importância que a obra tinha para a indústria e para o país, respondia sempre: “Estamos aqui para defender os trabalhadores e não para os atacar”. Nunca entendi este raciocínio.

Quanto à outra obra grande em execução, a construção de vigas em T com 16 m de comprimento de 40 x 20 cm a partir de chapa de 12 mm de espessura, para a reparação dum navio sueco que se encontrava no porto, acontecia o seguinte:

No primeiro dia, vi uma chapa de 16 m x 2.5 m x 0.012 m com o peso aproximado de 5000 kg suspensa de duas pontes rolantes, que a transportavam perigosamente, por cima de vários postos de trabalho.

Conclui que a preparação devia estar mal feita.

Em caldeiraria a preparação é constituída pelas fichas e instruções entregues nos postos de trabalho, onde se descreve o trabalho a fazer. Estas fichas eram feitas nos departamentos de Preparação e Traçagem. Antigamente chamavam-se simplesmente de Traçagem, por ser esse o seu objectivo principal, já que os desenhos provenientes das salas de desenho, não indicam como executar as peças.

Os desenhadores em geral não sabem fazer o trabalho de traçagem, que tem muitas características próprias e métodos empíricos, alguns antigos, como por exemplo a marcação em plano da chapa que depois de enrolada irá formar um tubo que intercepta outro em determinado angulo. O corte dum dos seus lados tem percurso sinusoidal surpreendente.

O primeiro traçador que houve em Portugal veio da Bélgica e foi mais tarde o fundador da empresa onde trabalhei a maior parte da minha vida. Penso que viveu duas gerações antes da minha e o seu nome era Lambert Dargent.

A primeira ficha da obra a que pertencia a chapa referida, indicava que este posto de trabalho traria do armazém uma chapa standard de 12 m x 2,5 m x 0.012 m e uma de 4 m x 2,5 m x 0.012 m , soldava-as uma à outra formando uma que enviava para a máquina de corte.

Se a preparação estivesse bem feita estas duas chapas deveriam ser cortadas em barras primeiro e soldadas depois no sentido longitudinal para atingirem os 16 m. Acresce que o caminho de rolamento da máquina de corte só tinha 14 m e para cortar uma chapa de 16 m , até aos 14 m o trabalho fazia-se com rapidez mas depois era feito com métodos ancestrais do que resultava que a máquina em vez de cortar 20 chapas por dia, só cortava duas ou três.

(iii) Sorefame

Eu dependia do diretor de produção da Sorefame. Pouco depois, este senhor, acusou-me numa assembleia da direção de não acompanhar devidamente esta obra, já ameaçada com multas de incumprimento pelo cliente.

Esclareci a situação e o que havia a fazer era substituir a preparação existente por uma nova bem feita. Ele afirmou que ou as coisas eram executadas como eu dissesse, ou não punha lá mais os pés.

Isto originou a que fosse chamado a uma assembleia de trabalhadores onde me foi perguntado porque queria alterar coisas que estavam bem feitas. Respondi a esta pergunta anunciando a minha saída da empresa.

Em pouco tempo já tinham acontecido alguns factos que,  somados, me fizeram pensar que ela iria soçobrar a curto ou médio prazo, como aconteceu.

(iv) Mague, Lisnave, Setenave... e tudo o vento levou

Mas, estava longe de saber que iria acontecer o mesmo a toda a indústria metalomecânica, incluindo os grandes estaleiros navais, a Sorefame na Amadora , e várias outras, como a Mague em Alverca, - especializada em aparelhos de elevação, que fez a maior parte dos guindastes para contentores do porto de Lisboa, o enorme pórtico de 300 toneladas da Lisnave, e muitos aparelhos desta especialidade para outros países. Nesta altura, fabricava guindastes de contentores para o Porto de Estocolmo, mas já tinha começado a ter problemas.

Beneficiando destas empresas maiores, havia outras médias e pequenas ligadas por subempreitadas e acordos de trabalho, por terem custos de estrutura menores e praticando preços para obras pequenas ou partes de obra, convidativos.

Desaparecidas as primeiras, começaram pouco depois a desaparecer as segundas. Um castelo de cartas.

A Mague de que falei acima, nasceu da necessidade duma oficina de reparação de equipamentos de construção civil para trabalhos de grande dimensão como a construção de barragens, na empresa “Moniz da Maia & Vaz Guedes”, que construiu a Barragem de Castelo de Bode.

Terminada esta construção, já tinha equipamentos e know how suficientes para se tornar independente e concorrer em construções de engenharia mecânica pesada, como aparelhos de elevação e turbinas, que veio a fabricar para todo o mundo como já disse. Adotou o nome de Mague formado por carateres dos nomes Moniz da Maia e Vaz Guedes.

Chegou a ter milhares de operários e em subempreitadas e ligações de trabalho a ocupar outros tantos.

A soldadura foi descoberta em 1911, passado tempo viu-se que um pingo de soldadura resistia tanto como um rebite e era muito mais barato. A pouco e pouco a construção em aço incluindo a naval deixou de ser rebitada, e passou a ser soldada, ao mesmo tempo as siderurgias começaram a produzir aços mais homogéneos com menos carbono e inclusões de produtos nocivos, como o enxofre, e portanto mais resistentes e soldáveis.

Mas a soldadura não fica capaz se efetuada a 0º C de temperatura e no Norte da Europa esta temperatura é frequente. Em Lisboa solda-se todo o ano.

Foi este motivo, somado à excelente posição estratégica do seu Porto e ótimas condições naturais, que fez com que três estaleiros suecos e dois holandeses se aliassem a três nacionais e a um banco, para construírem o grande estaleiro de reparações navais da Margueira, a Lisnave, que chegou a ser o mais importante do mundo no seu tampo nessa área de atividade. A sua maior doca a doca13 podia por em seco navios com que deslocassem 1 milhão de toneladas.

Foi também o mesmo principio que esteve na origem da instalação no porto de Setúbal da Setenave para a construção naval de petroleiros ou navios de grande dimensão.

A Lisnave foi oficialmente constituída a 11 de Setembro de 1961.

Em 1969 já detinha 39% da reparação mundial de navios até 300 000 toneladas.

Em 1970, 96% dos navios reparados pertenciam a armadores estrangeiros.

Neste ano iniciou um novo tipo de actividades, com a construção de grandes secções, proas e partes centrais de navios.

Entra assim num campo mais elevado de tecnologia, que lhe irá permitir efectuar reparações mais complexas, assim como Jumboizing (termo aplicado ao aumento de capacidade de carga dos navios, por acrescento de uma nova secção).

Ainda neste ano, o estaleiro da Margueira aumentou a sua produção 41% relativamente ao ano anterior.

No ano de 1973, a empresa tinha 7700 trabalhadores. Em 1974 teve inicio a sua decadência até à extinção.

A construção do estaleiro da Setenave começou nos inícios de 1972 e um dos seus administradores, afirmou à imprensa que seria um investimento de 2,5 milhões de contos, para 6.000 trabalhadores na fase plena.

Efectivamente a construção naval arrancou em 1973. Mas no ano seguinte aconteceu o 25 de Abril de 74 e, a partir dessa data, a Setenave passou a ser uma caldeirada politica laboral.

A empresa Sociedades Reunidas de Fabricações Metálicas, S. A. R. L., foi uma sociedade anónima de responsabilidade limitada portuguesa, especializada na construção de componentes eléctricos e mecânicos pesados. Foi fundada em 1943 e dedicou-se, inicialmente, ao fabrico de equipamentos hidromecânicos, cuja procura era elevada devido ao programa de construção de barragens hidroelétricas no âmbito da industrialização do país.

Afirmou-se mais tarde quando essa atividade deixou de ser necessária, como um importante construtor de material circulante ferroviário, em parceria com várias empresas internacionais.

Nos princípios da década de 50, a CP afirmou a sua intenção de adquirir carruagens metálicas de aço inoxidável canelado.

Para responder a tal necessidade, a Sorefame  associou-se à empresa americana Budd Company, que detinha a patente para a construção deste material, tendo recebido uma licença de fabrico e os conhecimentos técnicos necessários. Era a única empresa a fazê-lo na Europa.

Fabricou importantes encomendas de automotoras de vários tipos, normais e triplas, assim como locotratoras, carruagens e locomotivas eléctricas para a CP e mais tarde para o Metro e Carris.

Forneceu também equipamentos destes para a África do Sul.

Chegou a ter, no início dos anos 80, mais de 4.100 trabalhadores e uma base tecnológica e de engenharia própria, conceituada.

Fabricou também 200 carruagens para o material circulante do Metropolitano de Chicago, encomendadas pela Boeing em 1974.

Neste ano, recebeu também uma encomenda da Alsthom para o fabrico de 30 locomotivas, de 2800 CV, para a Rodésia. Tendo realizado a sua montagem com os motores e restantes equipamentos enviados por essa empresa.

A Revolução de 25 de Abril de 1974 veio trazer um clima de instabilidade social e política, que a atingiu fortemente. Começaram a realizar-se greves consecutivas que deram inicio ao seu declínio.

Foi totalmente extinta em 2001.

(v) Listrafego

Algum tempo após sair da metalomecânica pesada,  fui trabalhar para uma pequena empresa que operava no porto de Lisboa especializada na reparação de contentores.

Nessa altura o trafego portuário era intenso e não havia mãos a medir. A empresa embora só com trinta operários faturava mensalmente um valor muito elevado para a sua dimensão.

Tinha o seu escritório principal numa rua perto do Saldanha e um estaleiro com escritório, armazém de peças e ferramentas no grande parque de contentores do porto, a Listrafego, onde passei a trabalhar. Todos os dias o pessoal partia daqui numa carrinha para as zonas de trabalho do porto e por vezes para parques dos arredores da cidade, em Camarate, em Loures, em Sacavém e outros, uma vez que o trafego era muito intenso e estava esgotada a capacidade necessária de armazenamento.

Parecia ser esta a altura de executar finalmente o projecto antigo de ligar o porto de Lisboa ao de Setúbal fazendo um canal entre o Tejo e o Sado. Este canal já se encontrava assinalado nas cartas de navegação e podia ser feito com o dinheiro gasto a construir um troço de autoestrada, formando-se assim a infraestrutura portuária mais importante da Europa.

Mas não foi o que aconteceu. O que aconteceu foi que uma vez por semana havia um plenário de trabalhadores e o porto parava. Os custos aumentaram e obrigaram os navios a procurarem outras paragens.

O espaço começou a ser excedentário. O trabalho a ser reduzido. A empresa para a qual trabalhava ia ficando mais pequena à medida que os trabalhadores pensaram com razão, já não estar ali o seu futuro. Eu disse no escritório do Saldanha que quando houvesse tantos gerentes como operários me vinha embora. Saí quando havia quatro e quatro gerentes.

Foi no meu local de trabalho e de muita outra gente que nasceu a Expo 98, um barrete bonito.

A metalomecânica pesada e uma importante parte da média e ligeira frequentemente suas subempreiteiras, associadas ou subalternas, assim como o Porto de Lisboa, contribuíam com uma quota elevadíssima para a riqueza do país, sendo os seus serviços principalmente pagos em divisas. Sustentavam milhares de famílias.

Quando se despreza o know how como foi desprezado ultimamente no nosso país que não nos pôs na miséria por termos a ajuda da CEE,  não se conhecem situações como a que passei nos meus primeiros anos de metalomecânico quando me interessei por acompanhar as primeiras obras da oficina. 

A primeira foi o fabrico de 3 caldeiras de 600 cv cada para a Sociedade Central de Cervejas de Via Longa. Estas caldeiras como julgo que todas as que se fabricaram foram feitas sob licença duma empresa Norte Americana da especialidade á qual se pagaram os necessários royalties.

Juntamente com os desenhos de fabrico que se receberam, vinham também as necessárias instruções e o tempo em horas necessário para a execução de cada tarefa. O exame destes documentos provocou-me a genial ideia de que como pagávamos 5 vezes menos que os americanos, quando fizéssemos em 5 horas o que eles faziam numa poderíamos colaborar com eles em pé de igualdade, parceria, subempreitada etc.

Por este motivo acompanhei atentamente esta obra. Tínhamos operários muito competentes e experientes, as máquinas principais eram as mesmas, uma calandra boa e um engenho de furar de precisão para furos de 50mm em chapa de 40mm de espessura o qual tínhamos adquirido havia pouco tempo.

No final da obra conclui que tínhamos feito em 16 horas o que eles faziam numa e por qualquer razão não tinham concorrido ao seu fabrico, ou porque consideravam sermos o seu parceiro cá e lhes compensava só os royalties, ou qualquer outra.

Foi este o meu primeiro balde de água fria na metalomecânica. Houve depois muitos outros que me escuso de contar.

É por isso que depois de assistir a ser ignorado e despezado, o know how pacientemente adquirido ao longo de dezenas de anos e a ligeireza com que um tão grande volume de postos de trabalho e correspondente riqueza foi tratado, peço desculpa aos meus amigos socialistas, mas tenho a maior dificuldade em não concordar com as palavras da srª Tatcher quando discursou na greve dos mineiros em Manchester:- “ Os sindicatos em vez de defenderem os postos de trabalho, destroem-nos. Nunca mais nos livramos do maldito socialismo.”

Definir como objectivo acabar com os patrões foi trágico porque havia patrões maus, bons, justos, injustos, que corrompiam e que não, que sobreviviam ou estavam em sério risco, etc. , mas tinham todos duas coisas em comum. A primeira é a de que arriscavam na actividade o seu património, a sobrevivência da família e a segunda é que criavam a parte mais importante da riqueza do país.

Muito do que nós perdíamos era ganho por outros. Penso que houve influências discretas neste processo, que obtiveram os ganhos correspondentes. A história o dirá.

Julgo assim que depois do que se passou nos temos que habituar à escassez generalizada e a praticar níveis de vida mais modestos. Só espero que sejam dignos.

Embora simpatizasse com as ideias socialistas, toda a minha vida lutei pela produção, por isso entendo que quando um posto de trabalho é eliminado leva com ele know how difícil de se voltar a obter.

Um dia, a minha filha mais nova, sabendo-me um mau socialista, perguntou-me com malandrice:

- Ó pai, porque será que a maior parte dos homens cultos são de esquerda?

Ao que respondi no mesmo tom :

- Sabes porquê? Porque são esses que depois de nela caírem, conseguem dar a volta aos erros de que padece.

Fazem falta para a manter viva.

Pensei e penso que acabar com a exploração do homem pelo homem é um objectivo nobre a cumprir.

Mas a inevitabilidade da vida, que obriga a termos que comer, vestir, ter cuidados de saúde, educação, etc., tornou também inevitável a existência de meios de produção. O seu desaparecimento pode pôr-nos a pão e laranjas e ser considerado uma ameaça à sobrevivência. Não ponho aqui a questão de a quem devem pertencer, se aos particulares ou ao Estado, mas no geral, não tenho conhecimento de qualquer Estado capaz de geri-los com eficácia, sendo a meu ver, esta a razão da existência da sociedade de consumo com todas as suas monstruosidades. Posso estar enganado.

Então e agora? Agora é murmurar, gritar espernear, barafustar, etc. Pode ser que resulte, mas um caldeireiro ou um serralheiro mecânico não se fazem numa semana, nem num mês, nem num ano, nem longe duma oficina e uma oficina de caldeiraria ou serralharia mecânica idem idem, aspas aspas a multiplicar por 10.

Para quem for crente e queira ultrapassar dificuldades recomendo uma ida a Fátima a pé.

A destruição irreversível dos meios produtivos não foi só da responsabilidade das esquerdas,  como parece.

Não se pode deixar de falar na política de terra queimada que a direita praticou ou quem por ela se fez passar, alheando-se propositadamente, de tudo e de todos, não explicando que o resultado do processo em curso iria descambar onde estamos agora e no que ainda está para vir.

Podemos portanto dizer adeus aos trabalhos de construção naval, de guindastes , de pontes, de comboios, etc., assim como de fazer da infraestrutura portuária dos Portos de Lisboa e Setúbal a maior e melhor da europa.

Esta promissora e comprovada competência da nossa terra e da nossa gente é já só o sonho duma noite de Verão, chão que deu uvas.

(vi) O regresso às origens


Finalmente acabei por vir prá região onde nasci e dediquei-me algum tempo a elaborar projetos de construções pecuárias e depois turísticas que me ocuparam alguns anos.

Mais tarde comecei a elaborar projetos técnicos de betão armado para vivendas e pequenos prédios, ao serviço dum gabinete de engenharia.

Entretanto pouco depois reformei-me, mas continuei a trabalhar no mesmo durante anos. Elaborava em média a estrutura de betão armado de duas vivendas ou um pequeno prédio por semana.

A certa altura comecei a achar estranho que se construíssem tantas casas e o preço das mesmas aumentasse exponencialmente de ano para ano. Parecia-me que isto contrariava as velhas leis económicas da oferta e da procura, mas como tinha poucos conhecimentos da matéria e a vida me corria bem, fiz aquilo que os ingleses recomendam nestes casos, “wait and see”.

Mais tarde, refletindo melhor conclui que as bolhas imobiliárias tinham sido originadas pelas promessas dos políticos antes de ascenderem ao poder que depois não cumpriam na totalidade mas só em parte a qual já era suficiente para, com a constante subida de impostos e outros malefícios,  pôr as economias em derrapagem, as receitas dos governos inferiores às despesas. 

Na nossa terra houve ainda a preciosa ajuda dos sindicatos com a rápida destruição do tecido económico.

Os bancos cuja atividade começou a ser fortemente afetada, para se defenderem e manterem as altas regalias que tinham, começaram a investir com abundância no sector imobiliário, o mais fácil, garantidos pela 1ª hipoteca dos imóveis,  mais tarde também pela 2ª e até pela 3ª. Como investiam com a mesma facilidade tanto na construção como na aquisição, o valor das casas não descia. 

Nas bolsas de valores começaram a aparecer produtos tóxicos com base nestes comportamentos até que os credores em presença dos elevados encargos com que acabaram por ficar, deixaram de cumprir no todo ou em parte e as bolhas rebentaram com as muitas consequências negativas conhecidas

O milionário George Soros que se formou em economia na Inglaterra e fez fortuna na bolsa de Nova Yorque, num dos livros que escreveu (2008), criticou fortemente a atuação dos governos do Senhor Bush e da Senhora Tatcher e seus conselheiros, que recomendavam a não intervenção nos mercados, porque estes se autorregulavam de acordo com as leis da teoria económica clássica.

Na opinião deste senhor, ou os governos intervinham, ou a economia global dava uma cambalhota. Parece que está aí.

Aqui na minha terra tenho tido mais tempo para meditar. Lembro-me dum amigo do meu pai lhe dizer que quem trabalha muito não tem tempo para ganhar dinheiro.

Acho que o atual generalizado desprezo pelo trabalho se fundamenta nesta máxima.

Não era preciso que atualmente existissem junto do poder conselheiros tão bons como houve junto do rei D. João II, mas há mínimos a atingir seja no que for.

Também nunca mais soube nada do enorme tesouro que existia no Banco de Portugal em depósito ou crédito, que constava no relatório mensal do Banco Português do Atlântico de Março de 74 e era constituído por 800.000 barras de ouro de 1 kg e mais o equivalente em divisas.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26487: Notas de leitura: "Um preto muito português", da luso-angolana e antiga "rapper" Telma Tvon (Lisboa, Quetzal, 2024)... Quem somos nós, "pretugueses" ? - Parte I (Luís Graça)



Telma Tvon (aliás, Telma Marlise Escórcio da Silva
(cortesia da Quetzal Editores)


(i)  nasceu em Luanda em 1980 (portanto, em plena guerra civil angolana, que vai de 1975 a 2002);

(ii) imigrou para Lisboa, em 1993 (com a irmã, sendo acolhida pela avó); 

(iii) frequentou o ensino secundário ao mesmo que tempo se integrava, desde os 16 anos,  na cultura rap, do soul e do hip hop;

(iii) pertenceu aos grupos Backwordz, Hardcore Click e Lweji, sendo os três grupos compostos por MC  femininas;

(iv) mais recentemente colaborou com o brasileiro  Luca Argel no projeto Samba de Guerrilha;

(v) licenciou-se em Estudos Africanos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa;

(v)  fez  mestrado em Serviço Social pelo ISCTE-IUL.


Capa do livro de Telma  Tvon, "Um Preto Muito Português". 
Lisboa: Quetzal, 2024, 184 pp. (Série "Lígua Comum") (c. 15 €)



Sinopse > Um Preto Muito Português

João, aliás, Bidjura, como é conhecido, é filho de cabo-verdianos que vivem há muito em Portugal e neto de cabo-verdianos que nunca conheceram Portugal. Também é bisneto de holandeses que mal conheceram Portugal e de africanos que muito ouviram falar de Portugal. Vive em Lisboa, mas não é considerado alfacinha. Terminou a licenciatura na faculdade e vai trabalhar num call center, com outros negros e brancos, pobres e ricos. 

Budjurra faz parte de uma minoria que, lentamente, vai sendo cada vez menos minoria. É um preto português, muito português, que, ao longo do livro e das aventuras que relata, levanta questões relativamente a temas como racismo, discriminação, estereótipos, igualdade e humanidade, mas também música, rap, identidade - numa Lisboa morena e colorida que é necessário conhecer: 

«Posso dizer, sem qualquer orgulho, que sou um homem estranho. Tão estranho como a minha alma. […] E assim como os anos e meses  que4 passam em redor, continuo apenas mais um preto muito português.» 

Com a sua rara humanidade, Budjurra mostra-nos como se vive por dentro da invisibilidade da comunidade africana, como se lida com as narrativas falsas que a envolvem, como se sobrevive aos preconceitos e ao esquecimento. (Fonte: contracapa)


1.  Não sei se vamos ter um nova grande escritora da língua portuguesa. Esta é a sua primeira incursão no romance.  Nem sei se é um romance. É uma espécie de "diário de bordo" de um "pretuguês" que na sua viagem pelo seu quotidiano  da Grande Lisboa se interroga sobre a sua identidade, a sua relação com os outros, a começar pela sua família, os amigos, os colegas de trabalho, as mulheres e os homens com quem se cruza na vida, e que tem de lidar com o rascismo, o preconceito, a ignorância, a estupidez, o estereótipo, a discriminação, na escola, na rua, na esquadra de polícia, na agência de emprego,  no local de trabalho, na cama, na comunicação social, na política...

Longe de ser panfletário, é um livro que dá voz a muitos portugueses que tem raízes em África. Uma minoria até agora silenciosa, para além de alguns cantores e "rappers" de sucesso como o Gutto (nascido em Luanda em 1972,  "retornado" em Portugal, com  2 anos)... 

O mérito do livro, para já,  é o de dar voz a uma juventude que nem sempre está bem na sua pele, com a sua pele, e no país  onde nasceu, de pais em geral "imigrantes".

(...) " Telma Tvon trouxe a voz da juventude negra portuguesa para o romance. Amante de literatura, não encontrava obra que reflectisse a sua realidade. E assim nasceu Um Preto Muito Português, retratos da juventude negra dos subúrbios de Lisboa e de quem passa a vida a ser questionado: “De onde és?” (...) (Joana Gorjão Henriques, Públioc. 5 de Junho de 2018, 9:50

O protoganista não é sequer  a autora, bem podia ser uma espécie de "alter ego".  Mas teve "pudor" em escrever a sua própria história. Não, ela escreveu um livro na primeira pessoa, em discurso direto, dando voz a um homem, ao João, aliás, Badjurra, português nascido em Lisboa, filho de pais cabo-verdianos que emigraram em tempos "à procura de uma vida melhor": ele, de Santiago, ela de Santo Antão... 

E que até nem vivem na... Cova da Moura, ou naqueles "bairros problemáticos", ou nos chamados "bairros sociais"...Ele, João Moreira Tavares, o irmão Carlos e a irmã Sandra, nasceram ainda no "gueto", mas já não vivem no "gueto", desde cedo foram "viver nos prédios" (sic) com uma tia da mãe, já melhor integrada socialmente... 

Na cabeça de quem "imigra", também há a imagem do famoso "ascensor social" que leva os pobres das "subcaves" até pelo menos ao "1º andar", onde já se pode respirar fundo e ver a luz do sol...

No livro não dá perceber onde e quando, exatamente onde e quando, mas é na periferia de Lisboa, na "linha de Sintra", na primeira década do século XXI... 

Apesar de até nem ser muito "escuro", o  João, aliás Budjurra,  é preto mas "muito português"... E até licenciado, com estudos superiores:  licencidado em gestão ambiental, a trabalhar num "call-centre", e num segundo emprego, como muitos outros jovens...

2. Conhecia-a, à Telma Tvon,  na Lourinhã, nos "Livros a Oeste", em 15/5/2024. E fiquei encantado com a sua simplicidade, graça, espontaneidade, frontalidade,  inteligência emocional, capacidade de comunicação... 

Afinal, ela nasceu e viveu em Angola, até aos 13 anos  e tem a desenvoltura e a desinição dos/das MC ou "rappers", e sobretudo da malta nada e criada em Luanda.  De resto, a dedicatória que consta do seu livro, diz muito: "Para os meus de sangue e coração. Para os meus de rua e coração". 

Mas vamos  continuar a falar deste seu primeiro livro, onde ela resto usa (e abusa...) do "calão" falado por estes jovens portugueses: contei até agora umas boas 6 dezenas de vocábulos e expressões idiomáticas, tais como 
  • pretugueses,
  •  xaxar, 
  • bazar,
  •  estigar, 
  • bazeza, 
  • metal, 
  • metaleiro, 
  • wannabe, 
  • canucas, 
  • castanhas, 
  • latons (mulatos), 
  • brownskin,  
  • curtir bué, 
  • madie, 
  • nha kamba, 
  • sista, 
  • boelo, 
  • pula, 
  • ganda filme, 
  • beber uma jola,  
  • birra,
  • bater mal, 
  • desconseguir, 
  • desligar a ficha,  
  • playa,  
  • baggy, etc.

Mekié, mana ?... Romance, diz o editor. Diário, dário de bordo de um "pretuguês", acrescento eu.  Para já citemos algumas das 49 entradas ou pequenos capítulos do livro que lá li e reli (entre parènteses, o níumero da página):

(...) Quem sou eu (9) | 
O Budjurra até é bacano (16) | 
Nem és muito escuro (18) | 
Tu agora chamas-te Arrastão, Budjurra (29) | 
No call-center, licenciado (42) | 
Querias tu ser cabo-verdiano, Budjurra (50) | 
Desmistificar o Black Power (56) | 
O teu amigo morreu, Budjurra (81) | 
Achas que sabes dançar, Budjurra ? (89) |  
Senhor sénior Budjurra (103) | 
O teu Escuro tem tanta Luz, Budjurra (127) | 
As tuas pequenas coisas, Mwafrika (135) | 
Tu não tens humor negro, Budjurra (142) | 
Os suspeitos do costume (145) | 
Voltar para onde nunca estiveste, Budjurra (160) | 
"Ser negro" - Gutto (172) | 
De Cabral a Budjurra (175). (...)

(Continua)

_______________

Nota do editor:

Último poste da série > 10 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26481: Notas de leitura (1771): A colonização portuguesa, um balanço de historiadores em livro editado em finais de 1975 (5) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26326: Manuscrito(s) (Luías Graça) (264 ): Volta sempre, Irmão Sol




Praia da Areia Branca >  Varanda do GAPAB - VIGIA > 29 de dezembro de 2024 > Pôr do sol no Mar do Serro

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2024). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Volta sempre, Irmão Sol

por Luís Graça


O pôr do sol não tem metafísica nenhuma... 

Depois de ti,  Galileu Galilei... 

Mas uma dia a Terra irá cansar-se de tanto girar à volta do Sol...  

Convinha teres alguma teoria sobre isso, Galileu... 


São Francisco chamava-lhe Irmão Sol... 

Era um rapaz mais velho do que tu...

Mas geocêntrico. 

Bolas, o Sol estava a quase a 150 milhões de quilómetros

de distância de ti, Galileu...

E do Franscisco.

Sem nenhum de vocês o saberem.

Mesmo assim, aquecia-te, dava-te luz, desafiava-te, Galileu. 

E quiseram com ele atear uma fogueira, 

para te queimar, pobre Galileu.

E encheu de encanto e magia, 

místicos como o Francisco... 

Á borla, nesse tempo... 


Ainda não há eólicas no Mar do Serro, 

nem painéis solares no Paimogo da minha infância.

Nem plataformas petrolíferas.

Nem porta-drones do Mal... 

Mas, até quando, Galileu ?

Deixa dormir o teu/nosso Irmão Sol, Francisco.

Até amanhã. 

E que volte sempre.

E que nos proteja do inverno nuclear.

_________________

Nota do editor:

Último poste da série > 23 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26302: Manuscrito(s) (Luís Graça) (263): Neste Natal não mandei cartões de boas festas a ninguém

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26276: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (33): Um presépio de há 60 anos, na Lourinhã, com um Menino Jesus muito "elétrico"... (Horácio Mateus, 1950-2013)

 


 Capa do livro "Apontamentos de Etnografia", de Horácio Mateus (1950-2013). Lourinhâ: GEAL - Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã, 2014, 56 pp.  (Foto da capa: o autor) (Com a devida vénia...)






1.  Fez este ano 40 anos o Museu da Lourinhã. `À sua criação e à sua história está indissoluvelmente ligada a figura do lourinhanse Horácio Mateus (1950-2013). Meu conterrâneo, amigo e vizinho, já não foi à guerra, fez a tropa. 

Em vida, foi etnólogo, espeleólogo, arqueólogo, paleontólogo, museólogo...Amador. Por paixão. Por muito amar a sua terra, a sua gente, o seu património cultural, material e imaterial.

C0mo  eu disse na oração fúnebre, aquando da sua despedida terrena, ele foi "um exemplo de paixão pela vida, pela terra, / pelos seres que o habitam ou habitaram, / pelas artes e ofícios dos nossos antepassados, / pelas pedras das suas casas, / pelos muros dos seus caminhos, / pelas árvores dos seus campos"... Cultivou "a paixão pela história, / pela ciência, /pela cultura, / pelo património de todos nós" (*)

"Não gostava de escrever", dizia a viúva, infelizmemnte também já desaparecida, a Isabel Mateus (1950-2021). Mas, com muito amor foi ela quem juntou e organizou  estes apontamentos de etnografia, histórias e notas que oo Horácio  foi 5registanbdo na memória e fixando no papel, associadas à riquíssima coleção etnográfica do museu, cuja recolha se deve em grande parte a ele... 

Mas mais do que as peças, em risco de se perderem para sempre (da bicleta do ourives ambulante aos rótulos e e recipientes da "fábrica de pirolitos",  ou das ferramentas dos correeiros e dos ferradores), interessavam-lhe as histórias dos seus donos, a começar pelo seu pai que  era o "pitrolino" (vendedor ambulante de petróleo, azeite, sabão, aguardente e outros produtos de uso doméstico)  e pelo sr. Garcia, taberneiro e amola-tesouras, galego de Ourennse, fugido  da guerra civil espanhola de 1936-1939...


Brasão de armas da Lourinhã

Histórias que foram as da nossa infància, como a do presépio que se montava todos os anos (e ainda hoje de monta) na Igreja Matriz da Lourinhã. Em homenagem ao meu amigo, e para enriquecer a série "Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços" (**), foi repescar esta história do presépio, que remonta à primeira metade da década de 1960, já a guerra tinha "rebentado" em Angola, e depois na Guiné e em Moçambique, e já a Lourinhã tinha alguns dos seus filhos mortos, feridos e até aprisionados (como foi o caso da Índia, em finais de 1961),

O Vigário aqui referido era o padre António Pereira Escudeiro (Tomar, 1917-Lisboa, 1994), que veio de Alcanena para a Lourinhã em 1953 (e onde permaneceu até 1983). (Fundou e dirigiu na Lourinhã,  os jornais quinzenários regionalistas "Redes e Moinhos, em 1954, e depois o "Alvorada", em  1960; fundou e dirigiu também o Externato Dom Lourenço, em 1958. Quanto ao outro protagonista da história, era o José Andrade de Carvalho, hoje veterinário.









Excerto do livro "Apontamentos de Etnografia", de Horácio Mateus (1950-2013). Lourinhã: GEAL - Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã, 2014. pág. 31. (Com a devida vénia...)

___________________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de > 19 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21918: Manuscrito(s) (Luís Graça) (199): Elegia para Isabel Mateus (Soure, 1950 - Lourinhã, 2021)

(**) Último poste da série > 1 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26220: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (32): da "pubela"... ao vidrão, sem esquecer a "cesta-secção" e a "poubellication" (Luís Graça)


sábado, 2 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26109: Manuscrito(s) (Luís Graça) (260): Ao fim da tarde, ao pôr do sol no Atlântico, lembramos neste dia todos os nossos mortos queridos







Lourinhã > Praia do Areal Sul >2 de novembro de 2024 > Pôr do sol

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2024). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Hoje é Dia dos Fiéis Defuntos, Dia de Finados ou Dia dos Mortos, segundo o calendário litúrgico da Igreja Católica. Mas outras igrejas cristãs também celebram o dia dos mortos: além dos católicos,os anglicanos, os ortodosos, os metodistas...


Em todas as comunidades humanas, há rituais de celebração da morte e dos mortos... Sem quaisquer preocupações metafísicas, acabo de tirar essas fotos do pôr do sol  na minha terra, banhada pelo Atlântico.  Num fim de tarde, magnífico, e com um mar sereno... e tentando abstrair-me do facto de há 150 milhões de anos a duna onde me sento,  não existir, nem esta praia, nem este mar, nem a terra que me viu nascer, nem as Berlengas aqui à minha direita... 

É impossível, contudo,  neste sábado, dia 2 de novembro de 2024, e a esta hora mágica do fim de tarde, até por força das nossas tradições e da nossa cultura, não nos lembrarmos de todos os nossos entes queridos, que conhecemos em vida,  da família aos vizinhos, dos colegas de escola e de trabalho aos camaradas de armas, dos amigos aos compatriotas mais ilustres, enfim, de todos aqueles que da lei da morte já se libertaram (citando o maior de todos os nossos vates, o Luís Vaz de Camões, cujo quinto centenário de nascimento começámos a celebrar este ano)... 

Estão também no nosso pensamento  os membros da Tabanca Grande que já se despediram da Terra da Alegria... São já 150, nestes últimos 20 anos da nossa existência.  O último dos quais,  a nossa querida Regina Gouveia (1945-2024).

À boa maneira romana, rogamos a todos os deuses de todos os panteões, criados por todas as culturas humanas, para que os nossos queridos mortos possam descansar em paz, e que o sol continue a iluminar e a aquecer o nosso planeta, a nossa frágil casa comum... (LG)

______________

Nota do editor:

Último poste da série > 29 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26092: Manuscrito(s) (Luís Graça) (259): Porto Santo, e a África aqui tão perto - Parte IV

sábado, 12 de outubro de 2024

Guiné 61/74 - P26038: Cinco anos de saudade: Eduardo Jorge Ferreira (1952-2019): familiares, amigos, vizinhos, condiscípulos, colegas companheiros e camaradas recordam-no todos os anos na famosa caldeirada à pescador, dia 14, na festa de N. Sra. de Monserrate, Ribamar, Lourinhã

 


O saudoso régulo da Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã,
Eduardo Jorge Pinto Ferreira (Lourinhã, Vimeiro, 1 de outubro de 1952 - Torres Vedras, 
23 novembro de 2019).  Foto: LG (2017)

Membro da nossa Tabanca Grande em 31 de agosto de 2011.




1. Coube a uma comissão "adhoc" de amigos, condiscípulos e camaradas do Eduardo Jorge Ferreira (1952-2019) manter esta tradição: estarmos juntos, e comermos uma caldeirada à pescador,  na segunda feira da segunda semana de outubro de cada ano, nas festas de Nossa Senhora de Monserrate, na vila de Ribamar, concelho da Lourinhã. 
Este ano calha no dia 14.

A comissão "adhoc" tem apenas uma legitimidade afetiva:  foi "nomeada" pelo Eduardo, por "delegação, a título póstumo"... E os nomeados aceitaram a incumbência por um  dever (sagrado) de amizade, companheirismo e camaradagem. 

E uma tradição, inaugurada por ele há muitos anos (e só interrompida em 2020 e 2021, com a sua morte, na véspera da pandemia), quando era professor e depois diretor da Escola Básica de Ribamar, do Agrupamento de Escolas de Dom Lourenço Vicente, Lourinhã. (Ele ainda organizou o encontro de 2019; morreria, a seguir, inglória e estupidamente, numa intervenção de cirurgia ambulatória numa clínica privada.)

 Este ano ano, se fosse vivo, o Eduardo Jorge Ferreira, que foi alf mil PA - Polícia Aérea, BA 12, Bissalanca, 1973/74, já teria feito  72 anos no passado dia 1.

Para segunda feira, dia 14, já temos 75 inscrições para o nosso convívio anual, que reune sobretudo antigos colegas de seminário da região Oeste.Estará presente a viúva, Conceição Ferreira (que também "bebeu a água do Geba", o pai trabalhou nos Correios de Bissau  nos anos 60/70). Alguns membros da Tabanca Grande também não vão faltar: Luís Graça, Alice Carneiro, Jaime Silva, Joaquim Pinto Carvalho, Jorge Pinto, Carlos Silvério, Estêvão Henriques...

Estão encomendados 35  tachos de caldeirada (para 2 pessoas)... (O prazo de inscrição para caldeiirada terminou na 5ª feira à noite; mas há outros pratos muito bons, como o espadarte grelhado, o arroz de tamboril, a feijoada do mar , etc.: estamos em terra de pescadores!)

 A festa de Ribamar é um dos grandes acontecimentos sociais do concelho da Lourinhã.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Guiné 61/74 - P25885: Contributo para o estudo da participação dos militares de Fafe na Guerra do Ultramar : uma visão pessoal (Excertos) (Jaime Silva) - Parte VI: Depoimento: Osvaldo Freitas de Sousa, de Fafe, atira-se ao rio para salvar o seu camarada da Lourinhã, José Henriques Mateus

 

José Henriques Mateus (Lourinhã, Areia Branca, 1944 - Guiné, Rio Tompar, região de Tombali, 1966)


 SILVA, Jaime Bonifácio da - Contributo para o estudo da participação dos militares de Fafe na Guerra do Ultramar : uma visão pessoal.

In:  Artur Ferreira Coimbra... [et al.]; "O concelho de Fafe e a Guerra Colonial : 1961-1974 : contributos para a sua história". [Fafe] : Núcleo de Artes e Letras de Fafe, 2014, pp. 23-84.


1. Estamos a reproduzir, por cortesia do autor (e com algumas correções de pormenor), excertos do extenso estudo do nosso camarada e amigo Jaime Silva, sobre os 41 mortos do concelho de Fafe, na guerra do ultramar / guerra colonial. A última parte do capítulo é dedicada a testemunhpos e depoimentos recolhos pelo autor (pp. 67/72).






Jaime Bonifácio Marques da Silva (n. 1946): 

(i) foi alf mil paraquedista, BCP 21 (Angola, 1970/72); (ii) tem uma cruz de guerra por feitos em combate; (iii) viveu em Angola até 1974; (iv) licenciatura em Ciências do Desporto (UTL/ISEF) e pós-graduação em Envelhecimento, Atividade Física e Autonomia Funcional (UL/FMH); (v) professor de educação física reformado, no ensino secundário e no ensino superior ; (vi) autarca em Fafe, em dois mandatos (1987/97), com o pelouro de desporto e cultura; (vii) vive atualmente entre a Lourinhã, donde é natural, e o Norte; (viii) é membro da nossa Tabanca Grande desde 31/1/2014; (ix) tem 85 referências no nosso blogue.



Brasão da CCAV 1484 (Nhacra e Catió, 1965/67)



Contributo para o estudo da participação dos militares de Fafe na Guerra do Ultramar – Uma visão pessoal [Excertos] 

Parte VII:   Depoimento 2. Osvaldo de Fafe atira-se ao rio para salvar camarada da Lourinhã. (pp. 72/74)

No dia 10 de setembro de 1966, já no final da operação Pirilampo”, o primeiro-cabo radiotelegrafista Osvaldo Freitas de Sousa atirou-se ao rio Tombar, na Guiné, para tentar salvar o seu camarada de pelotão, soldado José Henriques Mateus, natural do lugar da Areia Branca, pertencente à freguesia e concelho da Lourinhã, e meu colega da escola primária do Seixal.

Tal como o Osvaldo, o José Henriques Mateus, soldado n.º 6951665, pertencia à CCAV 1484 / BCAÇ 1858, mobilizada pelo RC 7, e sediada em Catió. 

O Mateus desapareceu no decorrer de uma operação de combate, a Op Pirilampo, quando no final da operação o seu pelotão atravessava o rio Tompar, agarrados a uma corda, previamente estendida de uma a outra margem do rio. 

Quando chegou a vez do Mateus, e já em pleno caudal do rio, a corda partiu-se, sendo este arrastado pela corrente, nunca mais aparecendo o seu corpo, apesar dos esforços dos camaradas para o resgatar. Uma semana depois, no decorrer de uma outra operação no mesmo local, apareceu parte da camisa. Pensa-se que foi arrastado e comido por um crocodilo.

Ao consultar o processo individual do meu colega de escola Mateus (Zé Valente, era a sua alcunha) no Arquivo Geral do Exército, em Lisboa, no passado dia 14 de janeiro de 2014, deparo-me com o nome do Osvaldo, natural de Fafe, como uma das testemunhas ouvidas no Processo de Averiguações do acidente (o mundo é mesmo pequeno!)

O processo de averiguações foi mandado instaurar pelo Chefe de Estado Maior, ten cor Fernando Rebelo de Andrade em 14. 9. 66 e mandado organizar no Quartel em Catió em 22.9.66 ao alf mil José Rosa de Oliveira Calvário,  do Serviço de Material  (SM) por despacho do cmdt do BCAÇ 1858,  ten cor  Silva Ramos.

O comandante de CCAV 1484, Virgílio Fernando Pinto, capitão de infantaria e comandante interino da companhia, indicou como testemunhas o 1º cabo radiotelegrafista Osvaldo Freitas de Sousa,  o alf mil cav Fernando Pereira Silva Miguel, que participaram na Op Pirilampo, e um terceiro que tinha participado nas buscas do corpo do sinistrado, alf mil cav José Moutinho Soares Franco Avillez.

Declarou o Osvaldo (transcrição do relatório):

(...) E vindo à minha presença a segunda testemunha e perguntado sobre a sua identidade, disse, chamar-se Osvaldo Freitas de Sousa, filho de Manuel de Sousa (falecido) e de Maria da Conceição de Freitas, de vinte e um anos, solteiro, natural da freguesia e Vila de Fafe, e ser primeiro-cabo radiotelegrafista número n.º 1055/65 da Companhia de Cavalaria número 1484, jurou pela sua honra e sua consciência que haveria de dizer a verdade e só a verdade sobre o que lhe fosse perguntado e aos costumes disse nada. 

E tendo-lhe sido perguntado sobre o que consta notícia da alínea dois, da nota treze mil novecentos e dezanove, traço, A, Processo cento e trinta e um, ponto três, disse: - “que se encontrava, quando do acidente, na extremidade da corda que atravessava o rio para apoio da sua passagem, a ajudar seus camaradas a saltarem para a margem. E que quando o sinistrado se encontrava a meio da travessia, agarrado à corda, esta se rebentou. Ao ver que o seu camarada se afundava jogou-se à água para tentar agarrá-lo. Mais disse que conseguiu chegar junto do mesmo, e que agarrou-o ainda por um ombro, embora ele já se encontrasse submerso. 

Mais disse que começou a gritar pelo que foi ouvido pelos seus camaradas, os quais se lançaram à água tentando auxiliá-lo. Que um deles (talvez um milícia – não o reconheceu devido à pouca visibilidade) o segurou quando ele já se encontrava também prestes a ser arrastado para o fundo, devido ao peso do corpo do sinistrado. E que em virtude de se encontrar agarrado não conseguiu sustê-lo por mais tempo. 

Mais disse que depois em companhia de outros camaradas, tentou detetar o corpo que nunca mais foi visto. Que levaram cerca de trinta minutos em buscas, mergulhando e inspecionando a zona, pelo que eram impossibilitados pela escuridão, pela forte corrente das águas e também por estas se encontrarem turvas. 

E mais disse que após todo este tempo de buscas regressaram a quartéis. E mais não disse. E sendo-lhe lidas as suas declarações as achou conforme, ratificou e as vai assinar.

O Oficial - José Rosa de Oliveira Calvário (Alf mil do SM)