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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28368: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (20): a "Venda" na literatura portuguesa dos séc. XIX e XX - Parte II: Neorrealismo (Manuel da Fonseca, Alves Redol, Fernando Namora)

 























Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Em todas as nossas terras havia uma venda, ou pelo menos uma taberna.  Multifunções na aldeia:  mercearia; drogaria;  loja de bugigangas, tachos e panelas; carvoaria;  casa de comida ou  de pasto; pensão, hospedaria (de beira de estrada),  etc. ... Mais especializada na vila, onde  havia mais oferta e maior número de estabelecimentos comerciais.  Mas, em geral, a taberna também é casa de comida, de petiscos , etc. O taberneiro não podia viver só dos " copos de três"... 

  No seu romance,  "3 x 44: Abel e Caim en Contrapé"  (Porto: Vida Económica, 2026, pp.33-36), o António Carvalho tem uma primorosa descrição da "venda da igreja", no lugar de "Emendadas" (leia-se: Medas, Gondomar), em plena II Guerra Munidal.

 Para além da função comercial (estabelecimento onde os aldeões, os vilões e até os viajantes se abasteciam do que precisavam para a sua subsistência ou viagem), a venda (misto de taberna, merceria, casa de pasto e até hospedaria) era um local de socialização por excelência. E um dos raros espaço de liberdade ou de evasão, naquela época, no Portugal provinciano do Estado Novo.

Era um espaço masculino, tal como a igreja e o lavadouro público eram territórios femininos. A mulher não entrava  na tasca, mandava o filho mais velho fazer alguma compra de  última hora. "In extremis" , entrava na tasca para trazer para casa o homem com vinho a mais.

A minha terra, uma vilória do Oeste, teria uma meia dúzia de tabernas, quando eu era puto: umas evoluiram, outras extinguiram-se.  O cheiro a sarro, a serradura no chão, a peixe frito, a vomitado e  a lixivia ainda está "entranhado" nas minhas memórias de infância... 

Uma das últimas, que eu frequentei, com o jornal diário ("Diário de Lisboa") ou um semanário ("Comércio do Funchal" ou " Notícias da Amadora") e um livro debaixo do braço, já depois de vir da Guiné, em 1971, era a "Taberna do Macaco". 

Era uma tasca icónica, e também casa de pasto, conhecida, ironicamente, por "Sociedade de Geografia", por nela ter assento a "nata" local dos "colarinhos brancos", a pequena burguesia do funcionalismo público  (câmara municipal, tribunal,  finanças, conservatórias, grémios, etc.). Funcionava como tertúlia, ao fim da tarde, depois de fecharem os serviços. Também servia de escritório para os solicitadores...

A expressão, "Sociedade de Geografia",  é atribuída a um poeta local, o saudoso Mariano Vicente (1917-1977), homem de fino trato, de verbo fácil,  autodidata,  que era contabalista da firma José Maria Carvalho, e  que foi escritor, jornalista, poeta de talento, e um dos raros lourinhanenses que se assumia publicamente como figura da oposição democrática local. Seria depois autarca a seguir ao 25 de Abril.  Infelizmente morreu cedo,  aos 60 anos.

O topónimo, "Taberna do Macaco", advinha-lhe da existência de um pobre babuíno ("macaco-cão", no crioulo da Guiné), trazido por antigo combatente  lourinhanense, no regresso da guerra de Angola, logo no início. 

Do alto do seu poiso, numa trave de eucalipto, o bicho assistia a acaloradas partidas de chinquilho, jogatanas de sueca ou de bisca, e também a umas rodadas de "tinto", acompanhando os pratinhos de salada de polvo ou postas de moreia e de "arraial" fritas.

  Morreu no exílio e, por certo, de saudade dos cafezais do Norte de Angola, o macaco. E sem nunca ter ouvido discussões, em voz alta, sobre a guerra do ultramar, tema que era tabu.

Sem preocupações de sermos exaustivos, nem muito menos originais, vamos continuar a procurar referências literárias à "Venda" que, no séc. XX, passa a ser sobretudo a "Taberna" (ou a "Tasca"), e que sobreviveu até ao 25 de Abril de 1974. (*) 

Neorrealismo português (meados do século XX):  a representação da venda e da taberna 


Há aqui uma profunda viragem ideológica e estética, em relação ao romantismo e ao naturalismo do séc. XIX.   

O espaço perde quase por completo a conotação pitoresca, folclórica,  romântica ou até pícara do séc. XIX e as primeiras décadas do séc. XX,  para se converter no foco da consciência de "classe", do desespero e da opressão social. (Para já fica de fora desta análise, a  taberna dos bairros populares de Lisboa, intimamente ligada à história do fado.)

Se no séc. XIX a venda, no interior do país, era o poiso do viajante, do almocreve, etc., a par do  local das bisbilhotices da aldeia mas também o sítio onde chegavam, atrasadas, as notícias da capital, é no romance neorrealista que ela assume mais nitidamente três funções fundamentais:

(i) espaço da servidão financeira: é onde o camponês, o ganhão, o jornaleiro, oo cavador de enxada, o mineiro ou o operário gasta a sua féria, jorna ou salário, vende a sua força de trabalho a eito (aos agentes da "praça da jorna", aos recrutadores de mão-de-obra), empenha a pouca terra que tem ou amanha, acumula a dívida do "fiado" na caderneta da loja, ficando, enfim,  acorrentado ao comerciante ("vendeiro" ou "taberneiro" ) ou ao lavrador abastado;

(ii)  "válvula de escape" do alcoolismo: o álcool (o vinho e o bagaço) surge como um anestésico amargo contra a miséria, o cansaço do trabalho esgotante e o desemprego sazonal (e nomeadamente no inverno);

(iii) fórum da solidariedade e da revolta de "classe": é na penumbra da venda ou da taberna, longe dos olhos daos patrões, das autoridades e das polícias ( a GNR, a PVDE / PIDE), que nascem os sussurros de greve,  de incitações á revolta , a solidariedade entre o proletariado (urbano e rual)  e a tomada de consciência política.

Três autores, entre outros, podem ser aqui citados, ligados à estética neorrealista. São hoje, injustamente, tratados como "escritores menores", sobretudo pela crítica académica. Ou, pelo menos, estão já esquecidos, apesar da existência, em Vila Franca de Xira, do Museu do Neorrealismo.

Acrescente-se, a propósito, que aescolha de Vila Franca de Xira não foi casual; a região do Ribatejo, as lezírias, o trabalho duro no campo e no Tejo, a conflitualidade social  etc., serviu de cenário e inspiração direta para obras estruturantes como o romance Gaibéus (1939) de Alves Redol, ou o Cerromaior, de Manuel da Fonseca (1943), que são  justamente considerados dois  marcos fundadores do movimento neorrealista;  o museu consolida essa ligação identitária entre o território e a criação literária.


Manuel da Fonseca (Santiago do cacém, 1911 - Lisboa, 1993)


  • Manuel da Fonseca: a taberna alentejana como palco do drama social


Manuel da Fonseca, alentejano de Santiago do Cacém,  foi talvez quem melhor terá captado a atmosfera densa e dramática das vendas / tabernas das vilas e montes do Alentejo. Retrata o Alentejo com um tom lírico e social, onde a venda é um símbolo da comunidade e da identidade local.  A taberna é um refúgio escuro de homens de chapéu enterrado até às orelhas.

Obras de referência: Cerromaior (1943), Seara de Vento (1958)

A venda e a taberna são espaços de convívio popular, onde se retratam os costumes e as dificuldades do mundo rural alentejano. 

Em Aldeia Nova, a venda da aldeia é um local onde se reúnem os trabalhadores agrícolas, trocando histórias e queixas. Na venda, entre copos de vinho e conversas arrastadas, os homens da aldeia falavam das secas, dos patrões, e das promessas não cumpridas.

Em Seara de Vento, a mercearia é um espaço de resistência cultural, onde se preservam tradições orais.

Seara de Vento (1952):

A taberna é o centro gravitacional onde a fome e a opressão dos ceifeiros desempregados se condensam:

(...) "A taberna estava cheia de uma fumaça densa que fazia doer os olhos. Homens de braços cruzados, encostados ao balcão de madeira gasta, ouviam em silêncio. Não havia dinheiro para o vinho, nem sequer para o fiado. O taberneiro olhava de lado, com a caderneta das dívidas aberta sobre a gaveta do tinto. Ali, no escuro daquele compartimento que cheirava a aguardente e a suor antigo, a raiva dos homens não fazia barulho: crescia por dentro, devagar, como o fogo na ceifa." (...)

Cerromaior (1943) / O Fogo e as Cinzas (1951) (contos) 

Nas suas narrativas curtas, as vendas de beira-estrada alentejanas são descritas com um lirismo duro: o jogo da bisca, o murmúrio dos homens sós e o olhar vigilante dos proprietários rurais (ou dos seus maiorais ou manajeiros) que controlam quem bebe, quem fuma, quem se avia quem fala...

Em Cerromaior (1943), a venda, o café e o clube são três lugares distintos, social e espacialmente segregados:

(...)  " - Então, por cá Maltês ?

Maltês não respondeu, entretido em arranjar as calças em volta da corda que lhe servia de cinto, A seguir torceu as pontas  do colete, que pingaram para o chão escuro da venda, e uniu-o, ajeitando-o sobre o  peito arqueado.

Chegou-se ao balcão.

- Enche-me um dos grandes, Brissos.

O homem da venda olhou-o, inquisitivo. Maltês aparou-lhe o olhar, sereno,  como se não temesse nem devesse. O Brissos curvou-se, encheu o copo. Maltês esvaziou-o. Pediu outro. O sol aparecia, luminoso,  por entre a   chuva miúda que abrandava. Voltou atrás, jogou a manta paar o ombro. Rapidamente, à laia de despedida, disse:

- Mete na conta, Brissos. " (...)



Alves Redol (Vila Franca de Xira, -1911- Vila Franca de Xira, 1969)


  • Alves Redol: o feitor, o fiado e o trabalho duro

Em Alves Redol, o pioneiro do movimento com Gaibéus (1939), a venda e a taberna no Ribatejo e na lezíria  surgem intimamente ligadas à exploração do trabalho agrícola sazonal.  São espaços fundamentais no Ribatejo rural, onde se retratam as condições de vida dos trabalhadores do campo (gaibéus, ceifeiros) e do rio (avieiros). 

Além dos Gaibéus, outras obras de referência são Barranco de Cegos (1961) e Avieiros (1942)

 Em Gaibéus, a venda é descrita como um local de encontro dos trabalhadores, onde se trocam notícias, se bebe vinho e se tecem intrigas. A venda era o "coração da aldeia",  ali se falava dos patrões, das jornas, das colheitas,  dos conflitos, e até dos amores e desamores  que excitavam corpos e inebriavam almas.

Alves Redol documenta o Ribatejo com um olhar neorrealista, onde a venda é um microcosmo da vida rural e das tensões sociais.A venda à beira da estrada é um motivo recorrente, simbolizando a marginalidade e a luta pela sobrevivência

Em Barranco de Cegos, a mercearia é um espaço de resistência e solidariedade entre os mais pobres.

Em Avieiros, a taberna à beira do rio é um local de abrigos para os corpos cansados  para os trabalhadores do Tejo.

Gaibéus (1939):

(...) "A loja do senhor Tomé era o coração faminto da aldeia. Vendia-se lá de tudo: desde o petrópio para os candeeiros ao bacalhau duro como tábua. Mas o que mais pesava na loja era o lápis do vendedor a apontar no caderno as somas do fiado dos camponeses. Cada côdea de pão levada para casa vinha carregada com os juros da miséria. Na taberna ao lado, os ceifeiros ribatejanos afogavam a mágoa do salário de fome em quartilhos de tinto carrascão." (...)

Em Fanga (1943), Redol explora a figura do pequeno comerciante da venda que, embora pertencendo ao povo, atua muitas vezes como intermediário e instrumento de pressão dos grandes latifundiários sobre os camponeses enfraquecidos pelas dívidas.

 

Fernmando Namora (Condeixa-A-Nova, 1919 - Lisboa, 1989)


  • Fernando Namora: a  taberna das Beiras vista pelo João Semana

Em Fernando Namora, particularmente nos romances de ambiente rural da Beira Baixa e Serra da Estrela, a venda e a taberna surgem vistas através do olhar do médico de aldeia, o "João Seamana", que testemunha a degradação física e moral causada pelas condições de vida.

Retalhos da Vida de um Médico (1949/1963):

(...) "A taberna do Ti Bento era um antro enfumaçado onde a gente da serra se ia encharcar em vinho roxo para esquecer a geada e a fome. O ar era irrespirável, impregnado do cheiro a sardinha assada, a sabão e a roupas encharcadas pela chuva. 

Naquela penumbra, entre um gole e uma praga, viam-se os rostos chupados pela maleita e pela tuberculose. Para aquela gente, a taberna não era um vício: era o único posto de socorro contra a dor de viver." (...)

Mina de S. Francisco (1946):

Nas zonas de mineração do volfrâmio, a venda torna-se a "loja da empresa" ou o estabelecimento explorador onde o mineiro deixa o magro salário do mês antes mesmo de o receber, trocando o seu suor por víveres de péssima qualidade. (A ação do romance situa-se no Fundão.)

Síntese das diferenças estéticas sobre a venda / taberna  na literatura dos séc. XIX e XX

(i) Século XIX (Camilo, Eça)

  • Ambiente: pitoresco, acolhedor, idílico, pícro ou tragicómico.
  • Vinho: elemento de folguedo, apetite e convívio rústico.
  • Função: pousada de viajante, troca de notícias da capital.
  • Protagonistas: almocreves, fidalgos, morgados e estalajadeiros/as.

(ii) Século XX (Neorrealismo) (Alves Redol, Manuel da Fonseca)

  • Ambiente: denso, enfumaçado, claustrofóbico e tenso.
  • Vinho: anestésico contra o desemprego, a fome, o frio e o desespero.
  • Função: mecanismo de endividamento e controlo social.
  • Protagonistas: ceifeiros, jornaleiros, operários, mineiros e o "fiador".

 
 Conclusão: A "Venda/Taberna" como Símbolo Literário

A "venda" (merceria, taberna, loja) na literatura portuguesa dos séculos XIX e XX assume múltiplas funções: 

 (i) espaço social (local de encontro, convívio e trocas) (Eça, Camilo, Alves Redol);

(ii) crítica social (retrato das desigualdades e conflitos de classe) (neorrealismo: Alves Redol, Manuel da Fonseca); 

(iii) cenário etnográfico (descrição dos costumes e da vida rural (Camilo, Aquilino); (

iv) símbolo de resistência possivel e espaço de solidariedade entre os mais pobres (Manuel da Fonseca, Alves Redol).
 
Pesquisa: LG + Museu do Neorrealisno + Wikipedia + IA (ChapGPT, Mistral)
Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG
 ____________________

Nota do editor LG:


Guiné 61/74 - P28367: Agenda cultural (932): Feira do Livro de Fafe, Biblioteca Municipal, 24/9/2026, 5ª feira, 16h00: apresentação do livro do Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não Esquecemos os Jovens Militares do Concelho da Lourinhã Mortos na Guerra Colonial"

 


Cartaz com o anúncio do livro do nosso camarada e amigo Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, 1º CCP / BCP 21 (Angola, 1970/72), que vai ser apresentado no dia 24 de setembro, quinta feira, às 16h00, na Biblioteca Municipal de Fafe, no âmbito da Feira do Livro de Fafe, 1ª edição, 2026. 


Recorde-.se aqui algumas datas-chave da sua história de vida:

Jaime Silva (foto ao lado):

(i) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;
(ii) cumpriu o serviço militar obrigatório (jan 1969 / jul 1972);
(iii) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, fev 1970 /jul 72;
(iv) foi condecorado com a medalha de Cruz de Guerra de 3ª Classe;
(v) licenciado em Educação Física (ISEF / UTL, 1978);
(vi) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura" (1986-1997);
(vii) viveu lá durante cerca de 4 décadas; e lá nasceram os seus filhos Pedro e Sofia;
(viii) é professor de educação física, reformado (Escola Secundária e Escola Superior de Educação de Fafe);
(ix) é membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(x) tem 145 de referências, no nosso blogue;
(xi) tem página pessoal do Facebook;
(xii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1) (prefácio, de Luís Graça: O direito a não ficar na 'vala comum do esquecimento', pp. 21-27: posfácio, de Joaquim Pinto de Carvalho: Entre as brumas da memória..., pp. 229-233);

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28254: Manuscrito(s) (Luís Graça) (292): talvez um dia


Lourinhã > Praia da Areia Branca - GAPAB - Grupo dos Amigos da Praia da Areia Branca > Varanda do Vigia > 9 de agosto de 2026, 20:26 > Pôr do sol. Ao fundo, do lado direito as Berlengas e o cabo Carvoeiro.

Foto (e legenda) © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & camaradas da Guine]


Talvez um dia

por Luís Graça


talvez um dia o sol 
volte a girar à volta da terra

talvez um dia a gente não aguente
a fé inabalável na ciência

talvez um dia tu percas a fé 
e a decência 
e o controlo dos esfíncteres 

talvez um dia Galileu Galilei jure que não 
e o Ptolomeu diga que sim, 
muito simplesmente

talvez um dia tu caias na armadilha, 
antipessoal, 
de querer viver (e)ternamente 

talvez um dia se descarte, 
afinal, 
a dúvida metódica de Descartes 

talvez um dia a gente se desidrate 
até à útima gota 
d'água 

talvez um dia o sol 
caia
a pique 
sobre
a tua
cabeça 

talvez um dia,
com mágoa, 
tu deixes de pensar
e de ter um sitio para onde  ir,

e logo desistas  de existir

praia da areia branca | vigia
7 de agosto de 2026
(no 50º aniversário de casados do Luís & Alice)

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Nota do editor LG:

Último poset da série > 29 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28225: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: Ainda o conventinho da Arrábida... Salazar gostava de lá ir... E eu também gosto.

sábado, 18 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28192: Humor de caserna ( 280): Treze sextilhas e um refrão para o nosso mano Jaime Silva, agora octogenário (Luís Graça)


Porto Santo > 2 de outubro de 2024 > Jaime e Laura

Foto (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


Vinheta nº 11 da BD dedicada ao Jaime Silva, que no passado dia 17 de julho celebrar o seu 80º aniversário


1. Mail que enviei ao Jaime Silva, esta manhã, às o9:08

Jaime: toma lá a(s) foto(s) que serviu/ram para fazer a vinheta 11 da tua BD...Mando também uma foto da Dina, 2017...Por limitações técnicas, não pude mandar mais do que 3 ou 4 fotos para a geração gráfica feita por IA, sob "prompting" meu (e orientação editorial: tens que lhe fornecer o guião)..


Uso a IA dos pobrezinhos (sem assinatura, a versão Pro ou Plus)..Por exemplo, não tinha nenhuma foto do teu pai... E das tuas manas, só da Esmeralda...Mas é preciso aprender a trabalhar com estas ferramentas... E gastar um bom par de horas para fazer "brincadeiras" como esta (que é uma homenagem à tua pessoa, espero que não tenhas levado a mal)...

Tem "corte, costura, borracha, emendas"... Fico admirado como a IA "aprende" também comigo, com os humanos... Já temos uma relação de "grande cumplicidade" e, mesmo em modo gratuito (não Plus) dão-me mais tempo de "antena" (no interesse deles, porque lhes ponho questões difíceis...e sou muito crítico; há uns tempos atrás não me fariam "bonecos" que pudessem violar a privacidade, como é o caso presente...esta vinheta nº 11, por exemplo, mas não identifico a Laura, não uso o seu nome profissional, ou o apelido...)

Ontem, foi bonita a festa, mano!...Um número redondo, muito amor, amizade, companheirismo, camaradagem, alegria...Três gerações...Poesia e música, no fim. E um jantar em cheio, com arroz de sapateira, saborosíssima e abundante com a assinatura do "chef" Inocêncio (ex-Café Nicola, Lourinhã).

Parabéns, tens uma bela família!... E amigos, bons (onde me incluo). Luís


2. Aqui vão os versinhos que foram ontem cantados (com esceção das estrofes 10 e 11) com a música da cançãoo tradicional açoriana, "Pona aqui o seu pezinho...". Músicos: Rogério Ferreira (voz e viola),Francisco (Xico) Costa (cavaquinho), Pinto de Carvalho (bandolim e voz), Leonor Ferreira, Esmeralda Costa, Maria do Céu Pintéuse Luís Graça (vozes)-


Sextilhas e um refrão para o nosso mano Jaime, agora octogenário

1. Nasci em quarenta e seis,
Não valia cinco réis,
Seria um gato esfolado,
Que o Zé Rei, nosso vizinho,
Me tratava por Jaiminho,
E me queria, adotado.

2. "Ponha aqui o seu menino,
Vou-lhe dar outro destino,
Nesta casa de fartura,
Irá ser o meu herdeiro,
Não me falta é dinheiro,
O que me falta é ternura".

3. Mas a minha catequista
P'ra ficar com Deus benquista
Mandou-me p'ro seminário
E o meu pai, seu jornaleiro,
Pôs o filho em primeiro
E livrou-me do seu calvário.

4. Deus olhou-me e sorriu:
"Este, padre não saiu,
Vai p'ra Angola, mobilizado,
Dilatar o império e a fé"...
Safei-me d'ir p'ra Guiné,
Castigo mais desgraçado.

5. Ó minha mãe, vou partir
Mas prometo que torno a vir,
Não tens que pagar promessa;
Paraquedista não chora,
Tem também a sua hora,
Mas seus medos não confessa.

6. Voltei vivo à minha terra,
Sem mostrar a cruz de guerra;
A Fátima tive qu' ir,
Minha mãe e mana a pé,
Eu atrás, sem grande fé,
Com vontade de fugir.

7. Boina verde, subi aos céus,
Sonhos cumpri e são meus,
Professor fui, com prazer;
Em Fafe fiz a morada,
Casei com a Dina adorada,
Reaprendi a viver.

8. Nasceram Pedro e Sofia,
Minha maior alegria,
Hoje cada um doutor;
Se algum diploma alcancei,
Foi o orgulho que conquistei
Por lhes valer tanto amor.

9. Aos fafenses mostrei valor,
Também fui vereador,
Do desporto e da cultura;
Orquestras e andebol
Foram a clave de sol
Das minhas lutas n' altura.

10. Veio a dura despedida, 
Com a Dina a perder a vida,
Depois do Alzheimer sofrer;
Fiquei só, sem grande alarde,
Quem ama nunca é cobarde,
Há o ganhar e o perder.

11. Cupido, maroto e fino,
'Inda arrumou o destino
Deste jovem do Seixal;
Veio a Laura, de mansinho,
Dar mais pica ao meu caminho,
Com conversa de coisa e tal.

12. Gosto muito de falar,
De cavaquinho tocar,
Além do golfe, qu' é burguês,
Sou do signo Caranguejo,
A saúde é o qu' mais desejo,
E até me chamam Marquês.

13. Se Deus me der mais uns anos,
Quero vivê-los, meus manos,
Com juízo e coração;
Não quero entrar pr'a História,
Não me tirem a memória,
E nem, já agora,... a t*são!


Refrão / Coro


Põe aqui o teu pezinho,
Devagar, devagarinho,
Que já és octogenário,
Obrigado p'la amizade,
E esta bela irmandade
No dia de aniversário.




17 de julho de 2026

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Nota do editor LG:

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28189: E as nossas palmas vão para... (36): O Jaime Bonifácio Marques da Silva, natural do Seixal da Lourinhã e filho adotivo de Fafe, ex-alf mil pqdt, BCP 21 (Angola, 1970/72), que celebra hoje o seu 80º aniversário









A promessa da mãe, se o filho viesse são e salvo





Lourinhã, Seixal, 17 de julho de 2017, na festa dos 71 anos do Jaime. Aldina Silva (Fafe, 1946-Lourinhã, 2022). Foto: LG





Hoje, no 80º aniversário, a família e os amigos da Lourinhã, Peniche e Bombarral (Luís Graça, Joaquim Pinto de Carvalho, Rogério Ferreira, Laurentino Marteleira, João Pereira, Paulo,  Xico Manel, João Miguel, João Batista, entre outros, além do Fernando Castro, antigo dirugente da AVECO), vão-lhe fazer uma pequena homenagem, no jantar (reservado) a realizar na Associação Cultural, Recreativa e Desportiva do Lugar das Matas, servido pelo "chef" Inocêncio (ex-Café Nicola,Lourinhã).


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Portal UTW  - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27731: E as nossas palmas vão para... (35): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16.º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algés, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte VII

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28179: Humor de caserna (279): Uff, primeiro que minha voz chegasse, dos CTT de Bambadinca, na Spinolândia, à Lourinhã, a 4 mil km de distância!...(Luís Graça)

















Prompting e orientação editorial: Luís Graça
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 13 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].



1. A maior parte de nós (talvez 4 em cada 5) nunca telefonou para casa, quando esteve ao serviço da Pátria na Guiné... Telefonar era um luxo. A maior parte da malta, sobretudo os da "província",  ainda não tinha telefónico fixo em casa... E depois era um exercício "penoso e moroso", além de caro, tentar ligar do mato para Portugal... Para um SOS, mais valia um telegrama ou até uma aerograma: era muito mais barato!" (*).

Em nunca sequer tentei ligar em 22 meses de "desterro". Mas estou a tentar reconstituir o meu "circuito de voz", se por acaso tivesse querido telefonar dos CTT de Bambadinca para os meus pais na Lourinhã... 

Com a ajuda da IA, e depois de muitas "calinadas" de parte a parte, lá chegámos a esta BD  que resulta de várias versões, colagens e emendas... A IA nunca contou com a sabotagem dos postos telegráficos por parte do partido do senhor engenheiro Amílcar Cabral, que era agrónomo mas devia perceber alguma coisa de telegrafia e telefonia com fios (de cobre), proque os mandou cortar... Eu, pela minha parte, que não sou engenheiro nem muito menos percebo de transmissões, estava piamente convencido de que em 1969 havia cabos submarinos  a ligar a Guiné à nossa terra (à beira-mar plantada). Fiz confusão, o meu pai é que foi para o Mindelo, Cabo Verde, em 1941, para guardar os cabos submarinos...(**)

Em 1969, não havia nenhum cabo submarino ligado à Guiné, nem telegráfico, nem muito menos coaxial.

O cabo submarino que existia em Bolama,  lançado em 1893 pela companhia britânica West African Telegraph Company,já tinha sido abandonado e desativado décadas antes (o tráfego comercial de cabos telegráficos para aquela zona da costa africana foi sendo progressivamente desligado à medida que as estações de rádio entraram em cena na primeira metade do século XX). E cabos coaxiais submarinos na Guiné?|... Nunca existiram até ao fim da guerra.

O circuito histórico exato de 1969 era o seguinte: as comunicações de Bambadinca para a Lourinhã dependiam a 100% da via aérea (rádio) na sua primeira e mais longa etapa.

O verdadeiro percurso daquela chamada era este:

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A antena de rádio mais alta de Bambadinca, c. 1969/70.
Vista aérea
Foto: Humbert Reis / Arquivo do Blogue Luís Graça
& Camaradas da Guiné
i)  O salto local (Bambadinca ➔ Bissau)


Como os postes telegráficos da rede civil terrestre tinham sido cortados e sabotados pelo PAIGC logo no início do conflito, o posto dos CTT de Bambadinca dependia de um posto emissor de rádio HF (instalado no quartel, dentro do perímetro de arame farpado, pior razóes de segurança)

A minha voz saía de Bambadinca pelo éter e era captada em Bissau pela estação central dos CTT.



(ii) O grande salto transatlântico (Bissau ➔ Lisboa via Rádio Marconi)

Aqui entra  a  tecnologia da época. A central de Bissau não injetava nada num cabo submarino. O sinal era retransmitido por potentes emissores de onda curta (HF) da Companhia Portuguesa Rádio Marconi (CPRM) instalados na Guiné.

A minha voz viajava por propagação ionosférica;  as ondas de rádio subiam, batiam na ionosfera (a camada alta da atmosfera), faziam ricochete e voltavam a descer, cruzando os 4 mil quilómetros de distância em frações de segundo até serem captadas pelas gigantescas antenas de receção da Marconi em Portugal (como a mítica Estação de Receção de Alfragide ou de Vendas Novas).

(iii) A rede terrestre (Lisboa ➔ Lourinhã)

Só quando o sinal de rádio vindo de Bissau aterrava nas antenas da Marconi em Portugal Continental é que ele era transformado em sinal elétrico de linha telefónica:

A Marconi passava a chamada para a rede dos CTT em Lisboa.

A partir de Lisboa, a chamada seguia pelos cabos aéreos de cobre ou feixes hertzianos terrestres nacionais, subindo pela Estremadura até chegar à central manual dos CTT da Lourinhã, onde a telefonista finalmente completava a ligação para o destinatário.

2. Porque é que era tão difícil e instável a ligação Guiné-Portugal ?   Uma verdadeira "lotaria"!

Não havia a estabilidade de um cabo submarino debaixo de água. Dependia-se inteiramente do estado do tempo e da atividade solar. Se a ionosfera estivesse instável, a chamada "caía", o ruído estático tapava a voz e os operadores tinham de ficar horas à espera que a frequência "abrisse".

Havia pouquíssimos canais de rádio disponíveis na Marconi para o tráfego civil/militar simultâneo, o que gerava as célebres listas de espera de dias nos postos dos CTT do mato.

Afinal, o único fio que nos unia, a nós militares,  à metrópole era, ironicamente, invisível e passava pelas ondas de rádio (e não por nenhum cabo submarino, como alguns de nós pensávamos).

(Pesquisa: LG + Fundação Portuguesa das Comunicações + IA (Gemini / Google)
Condensaçáo, revisã / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG.:

(*) Último poste da série > 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28155: Humor de caserna (278): Na Spinolândia, namorar não era proibido... o preço da chamada telefónica para a metrópole é que era proibitivo!... Que o diga o Humberto Reis, o nosso "cartógrafo" e "ranger" (que está agora no "estaleiro", e a quem desejamos rápida recuperação)

(**) Em 1941,  diz a IA/Google, os cabos submarinos amarrados na zona do Mindelo (ilha de São Vicente, Cabo Verde) pertenciam a duas empresas principais: a Western Telegraph Company (de capital britânico) e a Italcable (de capital italiano). 

A ilha assumiu grande importância geoestratégica durante a Segunda Guerra Mundial devido à sua infraestrutura de comunicações: (i) Cabos Britânicos: eram os mais antigos e numerosos, sendo perados pela Western Telegraph Company: aziam as conexões cruciais do Império Britânico ligando Portugal continental (Carcavelos), Madeira, Brasil, e a costa ocidental de África;  (ii) Cabos Italianos: operados pela Italcable, cabos ligavam a Itália à América do Sul, passando por Cabo Verde (com amarração na praia da Matiota).