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domingo, 3 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27983: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte III: semana de 17 a 23 de fevereiro: finalmente a caminho de Boebau... de "motor" (motorizada)


Timor Leste > Fevereiro de 2018 > Escola São Francisco de Assis (ESFA), em Boebau, Manati, Liquiçá, inaugurada em 19 de março de 2018. E os difíceis acessos a Boebau (na foto nº 2, o Rui Chamusco teve de se apear da moto, ei-lo em segundo plano, à frente da moto e do condutor). Sáo cerca de 50 km, de Dili até Boebau, na montanha, que podem demorar 4 a 5 horas, na época da monção. Entretanto foi comorada uma viatura com tração âs quatro rodas... E os melhores têm vindo a melhorar...

Foto da página do Facebook da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste (com a devida vénia...)


1. Estamos a publicar excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor Leste (fazem parte de um ficheiro em pdf, de 273 páginas, com todas as suas crónicas de viagem àquele país lusófomo, desde 2016, e que ele disponibilizou aos membros da ASTIL e demais amigos, em 28 de maio de 2025).

Já publicámos excertos das crónicas da I viaggem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).   Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Este ano de 2026, irá por razões de saúde.

Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral


Entendam, caros leitores, a publicação desta série como uma pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez perto de 250 mil quilómetros de avião, desde 2016, por solidariedade com o povo timorense e  as crianças de Boebau, nas montanhas de Liquiçá (um topónimo que tem uma carga emocional muito grande para os timorenses que sofreram a brutakl ocupação inmdonésia, de 1975 a 2002, mas também para os portugueses que lá estavam na II Guerra Mundial) (**)

É também uma forma de a gente não se esquecer dos timorenses..., para que os timorenses, por sua vez, não se esqueçam de nós. Ser solidário com quem é solidário é também uma das nossas formas de ser estar dos amigos e camaradas da Guiné, alguns dos quais também são amigos de Timor-Leste.

O Rui é membro da  Tabanca Grande ( nº 886), de 10 de maio de 2024. E preside à ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste. com sede em Coimbra. O João Crisóstomo,  o "nosso régulo" da Tabanca da Diáspora Lusófona, é também membro da ASTIL, fundada por Rui Chamusco, Gaspar Sobral e Glória Sobral.

O Rui tem tido problemas de saúde que o obrigaram a fazer uma intervenção cirúrgica, delicada, no Hospital Curry Cabral. Estava na Lourinhã a recuperar. Mas voltou a sentir-se mal e está de novo internado. O João Crisóstomo acaba de me telefonar de Nova Iorque, visivelmente preocupado. Fazemos votos para que o Rui recupere de novo, e rapidamente, de mais este susto. 


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 17 a 23 de fevereiro

por Rui Chamusco


Rui Chamusco,
Lourinhã (2017)

17.02.2019, domingo  - Do outro lado do mundo

Hoje, domingo, dou comigo a pensar no outro lado do mundo, mais concretamente nos territórios que frequento: Malcata, Sabugal, Lourinhã. A estas horas oiço os sinos a tocar, vejo as pessoas apressadas a caminho da igreja, espreito os homens na Torrinha pondo as conversas em dia. 

Dizem que no Sabugal, o domingo é o dia mais morto da semana, porque lhe falta a maioria da juventude das escolas, mas sei que por lá também os sinos tocam ao domingo e as pessoas são devotas e vão às igrejas.

Já na Lourinhã, ouço o ruído das ondas, vejo o frenesim da gente que enche os
supermercados para se aviar, sinto o prazer de tomar um café na praia e de curtir algum tempo ao sabor do sol e da brisa do mar.

Neste outro lado do mundo, em Ailok Laran-Dili, é um regalo ver quem passa, crianças, jovens e alguns adultos bem anafaiados porque vão à catequese e à missa.

Muita juventude que, crente nos ensinamentos que lhes transmitem, procura nas celebrações religiosas ocasião para manifestar a sua fé, rezando mas sobretudo cantando. E mesmo que a fé que temos não seja mola suficiente para nos levar a esses locais, muitas vezes por comodismo, vale bem a pena aproximarmo-nos para ouvir e saborear os seus cânticos, as suas melodias e harmonias.

E, porque hoje é domingo, estamos em sintonia e em sinfonia, graças à música, com os dois lados do mundo, com o universo...

17.02.2019 - Ai haunek e a malária

Esta tarde aprendi mais uma receita., para combater a malária. Mesmo em frente, de quem olha da varanda da casa (em construção) vê-se uma árvore de grande porte, que por isso mesmo ressalta aos nossos olhos. Quis saber que árvore é aquela. E entao o Eustáquio deu-me uma verdadeira lição sobre a mesma. Chama-se Ai haunek, e produz kerosina. 

Antigamente faziam-se pratos da sua madeira. Os rebentos novos das folhas cozem-se e podem ser acompanhadas com arroz. A casca do tronco é cozida e o chá daí resultante é bebido para combater a malária.

Tantos ensinamentos, a partir de uma boa utilização da natureza. E nós a pensar que já sabíamos tudo! Vai lá, vai...

18.02.2019, segunda feira  - Estes “pequenos heróis”!...

Esta tarde, junto ao Pateo, encontramos algo que aqui em Dili é habitual. Um senhor de pequena estatura, carregando aos ombros creio que dez frutos de kulo, tentando vender a sua mercadoria. Cada fruto pesa no mínimo uns seis quilos, que multiplicado por dez vai aproximadamente para os cinquenta quilos. 

Era impressionante olhar para esta figura franzina com tanto peso às costas. De modo que disse ao Gaspar para lhe comprarmos um fruto a fim de aliviarmos o homem. 

Pediu dez dólares, mas vendeu por cinco. Em curta conversa ficamos a saber de que, este “pequeno herói” veio assim carregado desde Dare, que fica a três-quatro quilómetros daqui, e assim tem passado o dia vergado ao peso deste apreciado fruto que mais parece uma grande pinha.

Despediu-se de nós profundamente reconhecido pelo nosso gesto, com pequenas vénias e palavras onde os seus olhos diziam tudo. Que sacrifícios esta gente passa para poder ter uns dólares no bolso...


Gaspar Sobral,
 Lourinhã (2017)

18.02.2019 - Dia de festa...

Faz hoje 69 anos que o Gaspar veio ao mundo, logo de madrugada, o segundo de sete irmãos desta grande família Sobral. E por morte do irmão mais velho, o José Sobral, Gaspar é neste momento respeitado como o chefe deste clã familiar.

Foi preciso que os outros, eu incluído, se lembrassem desta efeméride, porque o
Gaspar nem se lembrava que fazia anos. Então logo de manhã, ao sair do seu quarto,
lá estava eu a cantar-lhe os parabéns e a dar-lhe um abraço apertado.

 Não sei se durante o dia se lembrou mais alguma vez de que faz anos no dia 18 de Fevereiro. Aparentemente não. Mal sabia ele o que lhe estava preparado logo à noite, após a nossa chegada de Dili. Um bolo de anos personificado, também com as velas 69, com champanhe e tudo, 
e boa parte da família a festejar o homenageado. 

Durante a tarde, eu,  o Eustáquio e a Adobe (sua mulher),  fomos às compras e, mesmo viajando connosco, o Gaspar de nada desconfiou. Por isso nada estranho a sua euforia quando, em direto para Portugal, mostrava à Glória (mulher) e à Bene (filha) o ambiente festivo que aqui se estava a viver.

Pois é meu amigo! Os amigos são para as ocasiões. E fazer 69 anos de vida só acontece uma vez. Muitas felicidades e muitos anos de vida!...

18.02.2019 - a fúria da Ribeira Malôa

Em tempo de inverno, quase todos os dias chove em Timor. Esta tarde foi mais uma das chuvadas habituais. Mas eis que sou alertado para ir ver a ribeira Malôa que passa aqui mesmo ao lado.

Impressionante! Como é que, com mais ou menos uma hora de chuva, se acumulou tanta água no leito desra ribeira, que está quase sempre seca? Mas a prova estava à vista. Dos lados de Dare, vinha correndo com tanta força, aos turbilhões, que ninguém ousava qualquer desafio ou brincadeira. Era perigoso demais. De modo que todos nos limitávamos a ver e a comentar. Por acaso consegui documentar a situação fazendo pequenos videos no meu iphone. 

À noite, vimos a ribeira que atravessa a cidade de Dili, já com o seu caudal mais suave, mas mesmo assim impressionante. E se há males que vêm por bem, esta enxurrada de hoje teve o condão de limpar todo o leito desta ribeira, que normalmente está cheio de porcaria, nomeadamente plásticos e latas.

Claro que todo este lixo teve que ser despejado nalgum lado. E está-se mesmo a ver que esta lixeira foi para o mar. Infelizmente continuamos a entupir os oceanos. Tão mal que tratamos o mar!...

18.02.2019 - Encontro de amigos

Pela segunda vez combinamos encontrar-nos: eu, o Rui Pedro [comandante de fragata Rui Pedro Ferreira, destacado em Timor-Leste, em serviço durante um ano, e que tem ascendentes com origem em Malcata, Sabugal],  o Gaspar, o Eustáquio num pequeno restaurante à beira mar, em jantar (peixe assado, claro está!) e sobretudo em amena conversa que nos une e motiva a nossa presença neste canto do mundo.

Tudo veio à baila: histórias de família, ligações com Malcata, andanças de cada um, sobretudo do Gaspar. Perguntou-lhe o Rui Pedro "como é que foi a ter a Malcata?” E então o Gaspar, que nasceu em Timor, percorreu uma boa parte do mundo para tentar explicar a sua aterragem em Malcata, Sabugal: Lisboa, Angola, Lisboa, Castelo Branco, Fundão, Sabugal, Malcata, Coimbra... Claro que o Gaspar demorou muito mais tempo a explicar.

E para não faltar nada, uma chamada de Portugal para o iphone do Rui Pedro: A
Susana, sua namorada. Tivemos o prazer de nos conhecermos a tantos quilómetros de distância. Desejo-vos todo o bem do mundo porque, pelo que me apercebi, vocês são duas pessoas extraordinárias.

É de salientar, sempre que nos encontramos, a paixão e o entusiasmo com que todos falamos de Timor, das suas gentes, e dos projetos que cada um tem em mãos e tenta pôr em ação. Aprendemos sempre muito uns com os outros. Por isso tenho a certeza de que estes pequenos encontros irão continuar.



19.02.2019, terça feira  - As obras da casa do Vitor

Hoje poderemos dizer que é o princípio da reconstrução da casa do Sr. Vitor, ainda
que os primeiros trabalhos sejam de destruição. Com efeito, depois de uma visita ao local, onde podemos falar com os principais intervenientes, os filhos do Vitor (o
Francisco até é pedreiro), chegou-se à conclusão de que a primeira coisa a fazer seria abater uma árvore, a manga que ocupa boa parte do terreno destinado à reconstrução.

Feito o negócio com um cortador profissional, procedeu-se de imediato ao corte,
A seguir virão as carradas de pedra e de areia que lhes permitirá fazer a base. Então
para que se saiba, o acordo ficou assim: a Astil, através de doações de alguns sócios e outros amigos mais sensabilizados que contribuiram expressamente para esta obra, suportará as despesas dos materiais, e os filhos e amigos da família Vitor oferecem a mão de obra. 

Foi-nos dito pelo filho Francisco que, se os materiais não faltarem, mais ou menos daqui a três meses a casa estará pronta, em condições de ser habitada.

Neste momento uma grande chuvada, com trovoada e tudo, está descarregando aqui, em Ailok Laran. Mas a grande árvore já está no chão, e acredito que a boa vontade dos que estão envolvidos neste caso irá fazer com que a obra avance. De todas as formas, cá estarei eu para impulsionar esta obra solidária e para vos transmitir as notícias relativas à mesma.

20.02.2019, quarta feira  - Notícias matinais

Depois da chuvada torrencial de ontem à tarde ficamos com alguma apreensão do que teria sucedido por este país fora. Logo de manhã, não tardaram algumas notíciasarrasadoras. Na estrada entre Tibar e Liquiçá, um avião bimotor, talvez um taxi do governo pois ostenta na sua cauda a bandeira timorense, está, aparentemente sem consequências trágicas, embatido, notando-se bem os estragos nas suas asas depois de uma aterragem forçada.

Em Comoro, na zona circundante da praia, um bis / bus ( pequeno autocarro que
transporta pessoas e bens para as terras mais distantes) foi arrastada pela corrente da ribeira Maloa, causando o pânico nos seus ocupantes e em todos os que de fora
presenciavam o acontecimento. A preocupação e a curiosidade de todos era saber se tinha havido vítimas e quantas. E perante tanta ansiedade o jornalista que comentava a reportagem informou: “não houve vítimas.” Houve, sim, um grande susto, e possivelmente a perda de alguns bens que, como bem sabemos, são transportados sem o mínimo de condições de segurança.

Pois é! Ninguém brinca com as forças da natureza... E todo o cuidado é pouco...


23.02.2019, sábado - A caminho de Boebau

Sempre que se toma a decisão de ir a Boebau há um certo frenesim e um nervoso
miudinho em preparar as mochilas e o meio de viajar. O mais comum é o “motor”
(motorizada). Mas tudo serve: motor, carreta, anguna... Só de avião ou de barco não se pode lá chegar.

Hoje a partida de Ailok Laran  [o  bairro de Díli onde o Eustáquio e a Adobe, e onde o Rui fica], pelas 16.00 horas, foi em três “motores”  [motorizadas];

Bartolo + Gaspar, Venâncio + Rui, Akesu + Adobe. 

Chegamos às 18.30 horas. Tivemos muita sorte, porque durante a viagem não choveu, coisa que aconteceu cinco minutos depois de arrivarmos. Tudo bem, embora convenhamos que, com setenta e dois anos em cima, esta viagens deixem as suas marcas e mazelas corporais. Vale-nos ao menos a boa vontade, mas vamos lá a ver até quando esta massa corporal suportará estas agruras.


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o acesso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar), bem da ASTILMB. Em 2019 ainda não havia a casa dos professores, o que já há.
 
Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


23.02.2019 - Sabores e dissabores

O dia de hoje foi destinado particularmente a inteirar-nos da situação da escola, ouvindo alguns dos seus agentes para podermos tirar algumas conclusões que ajudem a resolver alguns conflitos. 

Não tem sido fácil tomar decisões, pois uma das partes não apareceu na reunião previamente convocada. Temos muitas questões a esclarecer, mas estou convencido que com a boa fé e a vontade de todos tudo se resolverá.

Neste momento, das 75 crianças inscritas só 40 crianças do ensino pré escolar frequentam a escola São Francisco. Todas as outras foram matriculadas na escola de Kilo, que é a escola mais próxima. Há uma certa revolta dos pais destas crianças porque se sentem enganadas. Disseram-lhes que esta escola era para os seus filhos, e afinal têm que frequentar a outra escola. Claro que a solução não está nas nossas mãos, ainda que procuremos junto de instituições e particularmente junto do ministério de educação timorense, ajuda e resolução destes problemas. 

Mas neste momento, a ASTILMB (ASTIL Manati / Boebau,  a ASTIL local) não tem capacidade para motivar e pagar a professores que queiram lecionar em Boebau. Ainda não podemos oferecer condições mínimas de habitabilidade a professores voluntários ou contratados

. A Escola de São Francisco de Assis tem o estatuto de ensino privado / particular. E embora estatutariamente contemple o ensino pré-escolar e o ensino primário (ensino básico), ainda não temos capacidade de resposta para todas as necessidades desta famílias e destes alunos.

Por outro lado, custa-nos a entender alguma ingerência do ensino público, na pessoa da professora Rita, no nosso ensino que é particular / privado. Ainda não percebemos porque aparece esta professora como coordenadora da nossa escola. Vamos tudo fazer por esclarecer esta situação.

Como se vê, há problemas em todo o lado. Compete-nos tudo fazer por resolvê-los... e encontrarmos soluções adequadas.

23.02.2019 - Amanhã é dia de festa...

Esta tarde há alguma azáfema em preparar a receção aos visitantes. Uma visita pré- anunciada e muito esperada: o Padre frei Fernando Alberto, provincial dos missionários capuchinhos em Portugal, o frei Tinoco, da fraternidade dos capuchinhos de Tíbar, e o Rui Pedro, comandante de fragata em serviço em Timor Leste,  vêm cumprir a promessa que me fizeram: visitar a Escola de São Francisco em Manati/ Boebau (ESFAMB).

Do programa consta a celebração da missa dominical, que aqui, por sorte, tem lugar uma vez por ano. Também a igreja abandona os seus fiéis. Porque o acesso é difícil; porque não há padre; porque... Razões esfarrapadas a quererem justificar atitudes comodistas.

Por isso amanhã será dia de festa, e tudo se prepara para que assim seja. Não há igreja, não há sinos a badalar, mas esta gente já espalhou a notícia por todo o ladoUm bom grupo de voluntãrios estão preparando devidamente o local. As canas enormes de bambú e as lonas que as sobrepôem já são visíveis. E amanhã de manhã se fará o resto.

(Continua)

(Revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos: LG)
______________

Notas do editor LG:

(**) Liquiçã, um topónimo doloroso: carrega uma forte carga simbólica e emocional para dois grupos diferentes: para os timorenses, como lugar de violência extrema no final da ocupação indonésia; para os portugueses, como um dos cenários da experiência traumática da ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial.

(i) Para os timorenses (ocupação indonésia, 1975–2002)

Liquiçá (cidade e sede e município) tornou-se um símbolo de sofrimento sobretudo por causa do que aconteceu em 1999, já no fim da ocupação indonésia. A chamada Massacre de Liquiçá ocorreu em abril desse ano, quando milícias pró-indonésias, com apoio ou tolerância de setores das forças de segurança, atacaram civis que se tinham refugiado numa igreja. Houve dezenas de mortos (o número exato continua debatido, há quem fale em duas centenas), e o episódio ficou como um dos mais marcantes da violência que antecedeu o referendo de independência organizado pela ONU.

Esse período insere-se na mais vasta ocupação indonésia de Timor-Leste, que causou enorme destruição, deslocamentos forçados e perda de vidas. Por isso, Liquiçá permanece um lugar de memória dolorosa para muitos timorenses.

(ii) Para os portugueses (II Guerra Mundial, 1942-1945):

Durante a Segunda Guerra Mundial, Timor, terriotório sob administração portuguesa, foi invadido pelo Japão em 1942, apesar da neutralidade de Portugal. Em consequência da ocupação japonesa de Timor, militares portugueses e civis foram capturados e internados.

Liquiçá foi um dos locais onde existiram campos de internamento e onde passaram prisioneiros portugueses (e também outros, incluindo timorenses e aliados). As condições eram duríssimas ( fome, doença e trabalho forçado) e muitos não sobreviveram. Embora não seja o único local associado a esse sofrimento (Aileu é também lembrado pelo massacre de 1/10/1942, perpretado pelas "colunas negras"),

 Liquiçá também faz parte das nossas geografias emocionais.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27815: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (16): apesar da guerra, não valia tudo


Aerogramas - Arquivo do Jaime Silva

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Jaime Silva (foto ao lado):

(i) cumpriu o serviço militar obrigatório (jan 1969 / jul 1972);

(ii) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, fev 1970 /jul 72;

(iii) foi condecorado com a medalha de  Cruz de Guerra de 3ª Classe;

(iv) licenciado  em Educação Física (ISEF / UTL, 1978);

(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;

(vi) é professor de educação física, reformado (Escola Secundária e Escola Superior de Educação de Fafe);

(vii) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;

(viii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(ix) tem c. 140 de referências, no nosso blogue;

(x) tem página pessoal do Facebook;

(xi) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), de que temos estado a reproduzir alguns excertos (*).



Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (16): apesar da guerra, não valia tudo

por Jaime Silva

Durante os dois anos e meio da minha Comissão de Serviço, ao comando do 3.º Pelotão da 1ª CCP do BCP21 (Angola, 1970/72), nenhum paraquedista, sob o meu comando, cometeu, alguma vez, qualquer atrocidade perante a população civil capturada ou matou qualquer guerrilheiro gratuitamente, à exceção, evidentemente, das situações de confronto direto entre nós, em que sobrevive quem dispara primeiro!

Mas eu vi. Eu presenciei. Para alguns, não foi sempre assim!

Eu, não esqueci… a violência gratuita em contexto de guerra!

Para terminar este ponto de memória gostaria de o fazer destacando duas componentes da guerra que se continuam a misturar nas minhas memórias e recordações da experiência vivida na guerra.

Por um lado, quero salientar que, apesar das marcas mais pesadas da guerra como as que descrevi, não esqueço um único momento do meu percurso na guerra, integrado numa unidade militar, cujo clima se caracterizava pelo rigor militar e pela responsabilidade exigida e assumida por todos na concretização das missões a executar. 

Desse tempo, guardo na memória, o espírito de camaradagem e interajuda que unia todos os jovens do 3.º pelotão que, sob o meu comando, calcorreámos as matas do Norte e Leste de Angola: “ninguém fica para trás” - era o nosso lema. 

Tal, como tenho presente, também, os dois homens sob os quais eu respondia hierarquicamente: o comandante de companhia [csp cap pqdt  Ferreira Pinto] e os comandante de batalhão [cor pqdt Rafael Durão e cor pqdt Urbano Seixas] - militares rigorosos e intransigentes no cumprimento de cada uma das missões. 

 Apesar das circunstâncias, é justo realçar que foram homens, sempre preocupados com o bem-estar de cada um dos militares sob o seu comando.

Por outro lado, e, para encerrar a lente dos retalhos e dores das minhas memórias de guerra, relembro do  texto de Diogo Picão, meu sobrinho, músico, compositor e letrista (foto à esquerda),  já aqui reproduzido em 2 de agosto de 2020 (**),  por me parecer que contém um olhar acutilante sobre a escuta “inacabada” das minhas estórias. 

Na verdade, são as estórias que “demoram a morrer” nas pessoas que as viveram.

_____________

Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 95/96.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)
________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 10 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27723: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (15): a minha decisão de não atacar mulheres e crianças

(**) Vd. poste de 2 de agosto de 2020 > Guiné 61/74 - P21216: Blogues da nossa blogosfera (134): Diogo Picão: "A guerra do meu tio"

O Diogo Pião tem dois tios que foram à guerra, o tio materno, o Jaime Silva,  ex-alferes paraquedista (BCP 21, Angola, 1970/72); e o  tio paterno, o José F. Picão Oliveira, ex-fur mil inf,  que esteve no leste da Guiné, em especial na zona fronteiriça, a ferro e fogo, em 1973/74 (CCAÇ 3545 / BCC 3883, Canquelifá, 1972/74).

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27704 Tabanca da Diáspora Lusófona (39): (In)confidências: fui para Montariol, em 1954, com 10 anos, pela mão do João Maria Maçarico (n. 1937), e para a tropa aos 19, em 1964... (João Crisóstomo, Nova Iorque)



EUA > Nova Iorque > Mineola > 2018 > Vilma Kracun Crisóstomo e João Crisóstomo,   na Parada alusiva ao Dia de Portugal,  em Mineola, NY, 10 de junho de 2018: 



1. Mensagem do nosso John Crisóstomo, o luso-americano régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona   (*) 

João Crisóstomo, membro da nossa Tabanca Grande, com 290  referências no blogue, a viver em Queens, Nova Iorque, ativista social, ex-alf mil inf, CCAÇ CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).


Data - 4 fev 2026 08:17
Assunto - Comentário ao poste P 27695 (**)

Pus-me a escrever um comentário ao poste 27695 e depois ficou tão grande que não tive coragem de o publicar

Permito-me uma “confissão", uma conversa com os meus camaradas, pois que, como irmãos que somos pelo que todos experimentámos, sei que a maioria vai compreender e aceitar este meu “desabafo", que talvez seja coisa que suceda com outros também. 

Creio que um dos muitos benefícios que este blogue tem proporcionado a muita gente, é exactamente o de uma "catarse" terapêutica (do grego kátharsis, "purificação"). A mim, pelo menos, tem-me ajudado.

É que tenho vindo a seguir, mais ou menos, os postes relacionados com o saudoso Horácio Fermandes (1935-2025) e sei que devia fazer uns comentários ao muito que se tem escrito. E não o tenho feito. "Desculpas de mau pagador" nunca são boas, por melhores que elas sejam e por mais voltas que se lhe deem; e portanto não mereço desculpas.

Não sei se virei “bipolar”, pois de vez em quando tenho momentos de muita energia para logo voltar ao mesmo marasmo. Explicarei apenas que,  de há bastante tempo,  já me sinto muito em baixo e é sempre com esforço que faço algo.

Mas este poste de ontem (**) menciona o nome dum quarto Maçarico, desconhecido  até aqui,  e que eu conheço bem. 

Como o Luís Graça descreve, o João Maria Maçarico era de Ribamar e a casa dele era mesmo junto da casa do Horácio. Eu conhecia-o bem assim como o pai (mas não me lembro da mãe ) e o irmão, o Veríssimo, que emigrou para o Canadá. 

Por instruções do Padre António Alves Sabino, que era meu primo direito e que era na altura subprefeito do colégio de Montariol, o João Maria Maçarico veio-me buscar a minha casa e levou-me pela mão, literalmente, que para que os meus pais ficassem descansados. Foi no dia 7 de setembro de 1954. Eu era muito novo.

O facto do meu aniversário de nascimento ser em fins de junho levou a que eu fosse sempre muito jovem em relação aos meus colegas de cursos. Isso sucedeu até na minha entrada para a tropa onde entrei muito novo em comparação com os outros que entraram nesse dia. É que,  ao sair do seminário de Leiria,  logo verifiquei que não conseguia arranjar qualquer trabalho. Meus pais tinham dificuldades e eu queria trabalhar imediatamente mas não conseguia nada. 



João Maria Maçarico (*):  nascido em 1937, também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico

Foto: cortesia de : Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002.


Recordo-me que entre outros lugares onde fui pedir emprego, foi ao gerente do Banco Nacional Ultramarino (BNU) em Torres Vedras. A resposta foi a mesma que me davam em toda a parte: "faça a tropa primeiro” e depois venha falar comigo. E por isso informei-me como devia fazer para cumprir o serviço militar logo que pudesse. Fui a Santarém e aceitaram-me logo, dando-me as devidas instruções para o fazer. Entrei em Mafra,  em janeiro de 1964,  aos 19 anos! Fiz 20 anos em junho desse ano.

Ainda sobre o João Maria Maçarico: ele veio a minha casa para me acompanhar nessa primeira e longa viagem de comboio de Torres Vedras a Braga. E da estação do comboio de Braga até ao colégio de Montariol onde chegãmos à noite desse mesmo dia e me “entregou" ao meu primo.

Devo dizer que pouco ou muito pouco me valeu o facto de eu ser primo do subprefeito: vivi e sofri física e mentalmente o mesmo que o Horácio viveu e descreve no seu livro “Francisco Caboz : a construção e desconstrução de um padre”.

Eu e o João Maçarico estivemos juntos dois anos em Montariol. Depois disso,  porque ele andava sempre três anos à minha frente,  eu apenas sabia notícias dele pela família. Só o vim a reencontrar anos mais tarde,  quando soube que ele trabalhava em Lisboa na companhia de telefones (TLP, mais tarde Portugal Telecom).

E depois outra vez em 2018 ou 2019: eu soube que havia um encontro de antigos alunos em Ourém e eu quis lá ir. Convidei o Rui Chamusco e fomos. Quando lá chegámos, foi-nos dito que o encontro era apenas por vídeo, embora fossemos bem-vindos se quisessemos participar nesses encontro. E quando através dos écrãs se fizeram as apresentações e eu ouvi o nome do João Maria Maçarico,  eu interrompi para perguntar se este era o João Maria Maçarico, de  Ribamar, Lourinhã. 

Depois ficámos em contacto,  soube que ele tinha feito o serviço militar em Moçambique em 1966/67, como alferes miliciano. Mas um encontro pessoal como eu queria,  nunca foi possível e acabei por perder o contacto pois ele deixou de atender o telefone. 

Este ano, já depois do Ano Novo, quando estive em Portugal soube pela Carmitas, irmã mais nova do Horácio,  que ele está internado num lar na zona do Oeste, na Marquiteira, não longe da casa onde nasceu. Mas foi tudo o que me soube dizer.

PS1 - Estou quase a acabar de ler o livro “Os Có Boys” do Luís da Cruz Ferreira, que comprei no encontro da Magnífica Tabanca da Linha, em 14 de janeiro deste ano,  Não vou fazer comentários sobre ele pois nunca saberei fazer pertinentes comentários como os muitos que foram feitos nos postes dedicados a este livro.

Entre estes,  o teu comentário "as suas observações críticas (mesmo que 'anedóticas') sobre o quotidiano da tropa naquela época merecem, só por si, uma nota de leitura à parte” resume tudo o que se pode dizer. Acrescentarei da minha parte que o Luís Ferreira tem a minha muita admiração.
 
PS2 - Li também algures (agora não encontro onde!) um comentário/resposta a um outro do António Graça de Abreu e sua esposa em que sugeres ou pões a ideia de virem um dia "à casa do João e da Vilma" … Mas que grande ideia!

Quanto a vocês… nós e a nossa casa estamos à vossa espera desde o primeiro dia em que os encontrámos. E,  quanto a eles, eu convidei-os logo no primeiro encontro que tive com eles, se me não engano foi em Algés na primeira vez que lá fui. Se o facto de eles vierem,  ajuda a que tu e a Alice venham finalmente … Abençoados sejam todos, vai ser mesmo “manga de ronco” …

Um grande abraço nosso,
João e Vilma

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 12 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27310: Tabanca da Diáspora Lusófona (38): Parabéns, João & Vilma, acabados de se unir com a benção de Deus, na igreja eslovena de São Ciro, Nova Iorque...Hoje, âs 10h30 locais, 15h30, em Lisboa.

(**) Vd. poste de 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos


Lourinhã > Ribamar > c. 1959 > Da esquerda para a direita  os então padres franciscanos (Ofm - Ordem dos Frades Menores)  Horácio Neto Fernandes (1935-2025) e Júlio Alberto Maçarico Fernandes (1934 -  falecido, no Canadá, em data desconhecida)


De acordo com o   "livro da família Maçarico", tanto o Horácio  como o Júlio eram meus parentes: no caso do Horácio,  as nossas bisavós paternas, Maria da Anunciação e Maria Augusta,  nascidas por volta de 1860, eram irmãs;  no caso do Júlio, o  seu avô materno, Manuel Filipe Maçariço, era o primeiro dos cinco irmãos, machos, da Maria da Anunciação e da Maria Augusta.  
Um outro irmão do clã Maçarico foi  José Martinho.



 José Martinho ficou conhecido por Frei José de Cristo (Ribamar, Lourinhã, 1861 - Varatojo, Torres Vedras, 1937). Vestiu o hábito aos 16 anos, em 1888, iniciando assim o Noviciado. Trabalhou e deixou obra artística em vários conventos  (Montariol, Braga; Colégio de Tuy, Galiza; Varatojo, Torres Vedras) como carpinteiro-entalhador, arte que já vinha da famíla. Morreu aos 76 anos, com quase meio século de vida religiosa. Era tio-avô do Júlio, e tio-bisavô do Horácio (e meu...). 

O Júlio foi missionário, OFM, em Moçambique (João Belo, Mavila, Zvala, Maxixe). Regressou à metrópole em 1970. Saiu da ordem, franciscana, nessa altura. Emigrou para o Canadá, lá casou e lá morreu, em data que desconheço.

Fui de resto à missa nova de ambos, em agosto de 1959, com uma semana de intervalo. Eu tinha 12 anos. Lembro-me da terra (casas, ruas...) toda engalanada com ramos de palmeira, eucalipto, flores, numa alegria indescritível. Ainda não havia igreja, na altura Ribamar nem sequer era freguesia. Começava-se a ganhar bom dinheiro com a pesca da lagosta. E os filhos da terra deixaram de ir para o Varatojo, começavam a estudar no Externato Dom Lourenço, na sede do concelho, Lourinhã, inaugurado em 1958.

Há um quarto Maçarico, o João Maria Maçarico, nascido em 1937, que também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico.


Ribamar da Lourinhã era uma terra vizinha de Varatojo, sofrendo portanto a sua influência. A restauração da Província Portuguesa da Ordem Franciscana ou dos Frades Menores (OFM) oficializou-se no final de 1891, após a extinção das ordens religiosas em 1834. Embora tenham sido expulsos, os franciscanos organizaram o seu regresso progressivo, celebrando o 1.º centenário desta restauração em 1991. Mas em 1888 o "Maçario" José Martinho já era noviço no Varatojo.

A família Maçarico tinha tradição na arte da construção naval e da capintaria. (LG)

Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002,  pag.123.

PS - Américo Maçarico (foto à direita, acima),     que era 1º ten ref da Armada, morreu  aos 80 anos, em Ribamar, em finais de 2024.  Nasceu em Ribamar, em 1943. Fez diversas comissões no ultramar:   Angola (1964/66), Moçambique (1967/69), Timor (1972/74).Tinha mais de 41 anos de serviço na Armada. Passou à reserva em 1999.


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 

No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  seis postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em 1959).

(vii) até ser mobilizado para a Guiné, em 1967, ele conta-nos, muito sucintamente, o que foi a sua vida. 


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Testemunho de uma época. Autópsia de uma "total institution" que eram os ainda os seminários das ordens regulares, e nomeadamente da Ordem dos Frades Menores (OFM): Montariol / Braga, Varatojo / Torers Vedras, Leiria, Carnide / Lisboa...

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga. 

Até ser ordenado padre,  passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre,  ainda antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã. 

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e  Estado Novo (1926-1974).

14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.


Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro.  




História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII:   Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

por Horácio Fernandes


4. 5. Ordenação e Missa Nova (12)

Seis meses antes, juntamente com mais 4  colegas, entre eles o meu primo (13), comecei a aprender as cerimónias da Missa, com a ajuda de um Mestre  de Cerimónias. 

Não cabia em mim de contente. Ia  ser a minha verdadeira entronização em Arribas do Mar [lRibamar, Lourinhã], perante os olhares atónitos daquela gente. 

A cerimónia na Sé Catedral de Lisboa, com  a assistência dos meus pais e de muita gente de  Arribas do Mar, foi o primeiro passo de uma corrida  alucinante, que ia durar todo o mês de agosto de  1959. 

Depois, foi a primeira missa no convento [na Luz, Carnide, Lisboa], com  os recém-ordenados. Todos queriam participar e  beijar-me as mãos, ainda recém-ungidas e sentia-me  importante. 

De casa recebia cartas a revelar-me todos os  preparativos da grande festa. O meu primo  [Júlio Fernandes],celebraria num domingo e eu no seguinte. Uma  festa não ensombrava a outra. A minha festa, asseguravam-me, era mais de todo o povo.

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A Missa Nova, na minha terra, foi além de todas as expectativas. A cerca de um quilómetro de distância, foi toda a população esperar-me com foguetes e procissão a preceito. 

Estavam presentes as autoridades da terra e o meu padrinho de Missa Nova foi o Presidente da Câmara [João Ferreira da Costa, presidente da edilidade, entre 1958 e 1970].    

A missa foi cantada, pelos meus colegas que vieram acompanhar-me. O significado foi maior, porque foi no local da futura igreja, com toda a solenidade. A minha família era cumprimentada por todos e recebeu também as honrarias. Eu nem sabia para onde me havia de voltar, com tanta gente a querer beijar-me a mão de recém-sacerdote.

Seguiu-se o almoço para dezenas de convidados, no recinto, à frente da minha casa toda engalanada e servido pelas pessoas da terra. As despesas foram todas cobertas com ofertas do povo de Arribas do Mar. 

Não me enganara. O povo aderiu entusiasticamente. Tudo se conjugou, portanto, para ser uma festa de arromba. Dormi essa noite em casa dos meus pais, mas ao outro dia vieram buscar-me. 

Regressava agora ao quotidiano do ser padre.

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Nota do autor:

(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado

Nota do editor LG

(13)  Falhou esta nota de riodapé. O primeiro era o Júlio Alberto Maçario Fernandes, que seria missionártio OFM em Moçambique, até 1970.

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4. 5. Depois de 13 anos de inculcação do 'habitus' sacerdotal, Francisco com 23 anos feitos já não era o jovem tímido de fato preto e chapéu na cabeça, mas sentia segurança da própria legitimação.

Francisco assumia que foi escolhido e  ungido para sempre (Tu es sacerdos in aeternumentre 47 companheiros e detinha o poder simbólico de administrador do sagrado: perdoar pecados, fazer filhos de Deus pelo baptismo, celebrar a Eucaristia, pregar a palavra de Deus.

Tinham-lhe inculcado que a sua presença era requerida pelos pobres pagãos, que lá longe, em África, pediam, suplicantes, a graça do baptismo para poderem ir para o céu. Sem pensar em compensações terrenas, havia de ser querido pelos fiéis e combatido pelos infiéis, por ser o representante da Santa Igreja «a Nossa Mãe".

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As representações de criança transformaram-se em realidade e não obstante o duro caminho que teve de encetar,  sentia-se recompensado.

À medida que se aproximava o momento da Ordenação, Francisco sentia todo o protogonismo de quem tinha sido vencedor. Tinha conseguido ser o herói não só do seu avô, como dos devotos que tinham confiado nele.

Afinal era a mesma geração que o viu ir para o Seminário, agora mais amadurecida e com mais dinheiro. O povo de Arribas do Mar, culturalmente, mantinha ainda a subordinação ao sagrado, embora estivesse a dar os primeiros passos na senda do progresso económico. O motor substiuira a vela e os barcos de maior calado ganharam outra autonomia. Com a descoberta de novos bancos de pesca e equipados de novas tecnologias, as estadias de 8 e 15 dias em Sesimbra, Cascais, Setúbal e Algarve, abriram brechas no seu ruralismo fechado.

Francisco, alheado dos problemas sociais e vestido do seu duplo hábito, apenas via o povo cristão que era preciso alimentar da palavra de Deus. As suas representações do ser padre e missionário estavam ainda intactas. Afinal, pensava, tinha valido a pena tantos sacrifícios

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5.  Missão

A lógica da instituição era geralmente encaminhar os padres mais novos para os Colégios, os tidos como mais «observantes» (14)  para Mestres de noviços e coristas, e os restantes para as Missões. Para Prefeitos de Disciplina eram escolhidos os maiores domesticadores, sem qualquer formação em Pedagogia. Desta normalidade, ficavam de fora os favoritos na instituição, que, ou por mérito próprio, ou com algum patrocínio,tinha acesso aos saberes da Igreja, numa Universidade transnacional, trampolim mais directo para o poder.

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Nota do autor:

(14) Que, no discurso simbólico, significa, mais conformados com o 'habitus'.

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Francisco, pautado pela normalidade, nunca questionou as tarefas que lhe destinavam os Superiores. Construira, contudo, a par das suas representações simbólicas, o desejo de ajudar a família. O 'habitus', contrariamente ao estatuído, não tinha desenraizado Francisco da primeira instância de socialização. O sangue falava mais alto que o 'habitus'.

Verdadeiramente, Francisco nunca interiorizou que tinha deixado a sua família, e tinha se integrado na família institucional, onde foi domesticado. Nunca lhe deram o afecto e o carinho de uma família. Os superiores não eram os pais. Eram os chefes. A casa não era dele, por mais que no Noviciado e Coristado lhe tentassem meter isso na cabeça. Aí comia e dormia e passava a maior parte do tempo, mas isso não bastava para a considerar sua casa. Nunca encontrou aí um espaço familiar, mas um lugar em que alguém mandava e obrigava a cumprir os Regulamentos e os outros obedeciam, ou procuravam refúgio em famílias amigas.

 O poder sacralizado dos Superiores, envolto em cenários simbólicos de investidura medieval, nunca foram interiorizados por Francisco. A família religiosa, eclesial, nunca substituiu a geneológica. Desde que o desenraizaram das suas raizes familiares, viveu sempre órfão, agarrado às suas representações.

A missão trazia ainda o inevitável contacto com os problemas afectivos da vida real, que tão zelosamente tinham sido escondidos no Colégio Angélico,  Noviciado e Coristado. Os maiores clientes habituais de Francisco eram do sexo feminino, que procuravam na relação espiritual o alívio catársico e simbólico para as suas preocupações e angústias.

Contudo, o 'habitus', estava ainda vigilante qual Prefeito, embora imperceptivelmente fosse abalando as estrumas panópticas ab intra e ab extra.

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Cenário 1 - Professor no Externato,   Capelão de freiras nos dias úteis e servidor   de famílias ricas aos domingos.

O lugar que os Superiores me   destinaram, sem o mínimo de interferência da   minha parte, foi o de professor no Externato,  que funcionava no rés-do-chão do Seminário [em Leiria]

Fui incumbido de dar aulas de Ciências   da Natureza, disciplina em que tinha que estudar   mais que os alunos. Contudo, à força de   persistentes apelos à memória, os meus   alunos não fizeram má figura no liceu.  

Nos dias de semana, o despertar era às  7 horas e ia celebrar missa a um Colégio de  freiras. Ao domingo, levantava-me ainda mais  cedo, pois havia que celebrar missa para os  lados de Setúbal, numa quinta de pessoas muito importantes no meio financeiro (14A),.

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Sempre com a veste regulamentar e sandálias nos pés descalços, fosse inverno ou verão, apanhava o eléctrico até à Baixa, descia a pé até ao Terreiro do Paço e aí tomava o barco para Cacilhas. Depois era a camioneta para uma vila próximo de Setúbal  onde um empregado da quinta me esperava numa furgoneta de caixa aberta.

Cheio de entusiasmo fazia todos os domingos, e dias santos este percurso para; celebrar missa para meia dúzia de criados. Os patrões, a quem estavam reservados genuflexórios de veludo, só assistiam à missa, nas festas principais do ano, mas, assim, ficavam com a consciência tranquila.

No Natal e Páscoa pedia licença para ir um ou dois dias antes, pernoitando numa casa anexa dos hóspedes. Aproveitava para ensaiar cânticos com o pessoal da quinta. 

Numa festa de Natal fiquei muito admirado, porque pedi a uma filha dos senhores para acompanhar os cânticos ao órgão da capela e recebi, como resposta, que não acompanhava os criados.

Conservo, contudo, outras recordações: futuros pretendentes aos tronos europeus e embaixadores participavam nas recepções. Só foi uma vez convidado a estar presente e, não obstante a amabilidade de todos, senti-se usado como um adereço desnecessário.

Ao fim do mês era portador de um cheque para o Seminário, não sei de quanto; porque nunca abri o envelope. Por vezes, aparecia péla quinta um capelão militar, amigo do filho dos senhores, que cumpria o serviço militar, mas não me ligava. Alinhava com o filho do patrão a transpor obstáculos de terra batida, em jeito de diversão, onde os carros novos saiam todos amachucados. Conservo, sim, na memória, um ou outro  passeio, nas alamedas da quinta, de charrete,  com o filho do caseiro, a meu pedido.  

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Entretanto um pensamento me  perseguia: ajudar a minha família endividada. A primeira coisa que fiz, foi pedir uma entrevista ao Provedor  Misericórdia de Lisboa. Expus-lhe a minha   situação e consegui uma bolsa de estudo para a minha irmã, que tinha com grande sacrifício   de meus pais tirado o 2º ano e queria ser enfermeira. 

Entretanto, a mais nova, também   quis estudar. Como os meus pais não podiam  custear os estudos, arranjei uma família algarvia, sem filhos, que a recebeu. Pode assim estudar o 1 ° e 2o anos, sem nada pagar.  

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Nota do editor LG:

(14A) No livro de 2009, o Horácio Fernandes diz que se tratava da Herdade da Comporta.
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Cenário 2 -Prefeito de Disciplina no Colégio Angélico

 Entretanto, abriu outro Colégio Angélico na região Centro para captar novas vocações. Sob pressão das instâncias internacionais da Igreja (...),  os alunos passaram a fazer exame ao liceu, em regime de  ensino doméstico. Registei o meu Diploma do Ensino Natureza Particular no Liceu Nacional da cidade   [Leiria] e fui assumir o cargo de Prefeito aos 26 anos, tendo como Subprefeito um colega mais novo.

 No mesmo edifício havia ainda um asilo, onde era Director também um colega. Quando me nomearam,sem me consultar, tomei conhecimento que o Colégio  tinha um ano de experiência liceal, mas sem resultados satisfatórios, sobretudo a Ciências e Matemática. Era preciso reabilitar a sua imagem.

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O primeiro contacto com Colégio Angélico ficou-me bem marcado na memória. Comecei a receber umas cartas dirigidas ao «Senhor Padre Prefeito» e abri-as. Era a correspondência dos alunos para o meu antecessor. 

Abri uma ou duas e fiquei boquiaberto: os alunos, na sua inocência falavam de momentos de intimidade, que me deixaram estupefacto. Aconselhei-me com o colega e. a partir daí, todas as cartas dirigidas ao ex-Prefeito eram queimadas, sem as abrir.

Estava-se em 1962 e tinha 26 anos, Tomei a peito a tarefa, mas não descurei a promoção social e material da minha família. Trouxe para essa cidade a minha irmã mais nova, para prosseguir a Escola Comercial. Dormia em casa de uma senhora amiga, mas preparava as lições e almoçava no Colégio Angélico.

Era preciso mostrar resultados no liceu, a qualquer custo. Aceitei o desafio e obrigava os alunos a multiplicarem as horas de estudo. 

Os métodos para conseguir manter cerca de 100 alunos em silêncio e a estudar, horas a fio, num largo salão, eram os mesmos com que tinha sido formado: disciplinação a todo o custo. 

Assumi o papel de Prefeito e os métodos que sempre vira praticar. Afinal os Regulamentos eram os mesmos: o ritual da formatura, do silêncio, da domesticação do corpo e espírito. 

Por feitio próprio, não me isolava dos alunos e jogava a bola com eles. Contudo, o Prefeito era o guardião da disciplinação e os castigos dependiam unicamente da representação que ele fazia do delito e tinha sempre razão.

A Ciências já vinha treinado do Externato, mas a Matemática tinha grandes dificuldades. Assumi o desafio de a reaprender e obtive óptimos resultados no liceu, à custa da repetição e mecanização dos exercícios do Palma Fernandes.

Mesmo assim, era um pouco diferente do Colégio Angélico, onde estudara os primeiros cinco anos [em Montariol, Braga]. Os tempos era outros. Os alunos tinham mais contactos com as famílias. Iam a férias do Natal, Páscoa e fim do ano lectivo e podiam receber visitas eisair com familiares, ao fim de semana. Eram quase todos filhos de emigrantes.

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Esta preocupação pela minha fámília, levou a que muitas vezes deixasse o Colégio ao fim da tarde, em conluio com o meu colega,  e fosse visitar os meus pais, de camioneta, a cerca de 130 quilómetros.

Anexo ao Colégio, havia o Seminário de Filosofia. Estava-se nos anos 60 e os Coristas com quem ia por vezes jogar futebol, andavam em autêntica revolução. De noite, tiravam o hábito e iam às escondidas para o cinema da cidade. Tinham um jornal clandestino, 'O Esgravilhão', onde criticavam os Mestres e as normas. Faziam piqueniques com produtos furtados ao Seminário, à noite, durante o silêncio e ninguém conseguia contê-los. 

Iniciara-se a assim a revolta que iria continuar pelos anos 60 e multiplicar as deserções (...).

Como Prefeito do Colégio Angélico, estava relacionado com as famílias dos alunos, com os clientes do Seminário e com o pessoal feminino que trabalhava para o asilo e o Colégio. Era o primeiro contacto informal, mas assumido, com o sexo feminino, depois da repressão de 13 anos.

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 124 -128 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, bold, itálicos, título: LG)

(Continua)

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Nota do editor LG:

Último poste ds série > 27 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre
 
Vd. postes anteriores: