Lourinhã > Ribamar/Porto Dinheiro ou Atalaia/Porto das Barcas ? > c. 1920 > A família Maçarico tinha um estaleiro de construção naval, em Ribamar. Com a industrialização e a modernização dos estaleiros navais, o avô paterno do Horácio Fernandes acabou por emigrar para a América, nos anos 20. Nunca mais voltou nem deu notícias, deixando na terra a mulher e três filhos menores, entre eles o pai do Horácio. Soube-se, muito mais tarde, que tinha morrido na Califórnia.
Fonte: Cortesia do Espaço Museológico de Ribamar: Olhar o Mar (Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)
1. Na sua dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), Horácio Fernandes descreve, nas páginas 102-106, a sua terra, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã, que é também a terra da minha bisavó paterna, Maria Augusta (Maçarico) (1864-c.1938), que foi casar na vila e sede de concelho, Lourinhã, com um negociante de peixe, Francisco José de Sousa); a Maria Augusta, por sua vez, era irmã da Maria da Anunciação, bisavó paterna do Horácio].
Descreve igualmente as 3 figuras da família que o marcaram: o pai, a mãe, o avô materno (nascido por volta de 1875)...
O avô paterno, Fernandes (Maçarico), nunca o chegaria a conhecer: quando disse a Missa Nova, em 1959, ele já tinha morrido na América.
É uma história de vida, bem dura, em tempos muito difíceis, que merece ser conhecida dos nossos leitores. O Horácio nasceu em 1935.
A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica (aqui resumida, na sua dissertação de mestrado, em pouco mais de 3 dezenas de páginas).
Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].
Excertos da dissertação de mestrado "Francisco Caboz: de angélico ao trânsfuga: uma autobiografia" (FPCE / UP, 1995)
CAPITULO 4º - A CONSTRUÇÃO DA VOCAÇÃO, A MISSÃO E A DESCONSTRUÇÃO DO HABITUS (pp. 102-136)
«Casinha de pobre,
Lareira de altar,
Borralho quentinho
E tudo a rezar. »
(...) "Este capítulo tem um registo assumidamente duplo: é fenomenológico, biográfico, no tratar a vida de Francisco Caboz, tal como ela foi vivida por si e dita; é sociológico, analítico, na medida em que é significativa de uma ordem económica social e política. Da dialéctica das duas resultará, porventura, a nosso ver, a proficuidade do método que utilizamos." (...) (pág. 102)
1- Arribas do Mar
Arribas do Mar, aldeia de Francisco Caboz, estava predestinada a ser viveiro de três vocações sacerdotais nos anos 30/40. Isolada entre dois concelhos «saloios», Lourinhã e Torres Vedras, a agricultura de subsistência e a pesca sazonal eram os seus únicos recursos.
Lisboa, que distava 50 Km, ficava muito longe, já que as estradas que lhe davam acesso eram intransitáveis e o percurso inseguro, sujeitos os transeuntes a frequentes assaltos. Só a pé ou a cavalo é que era possível transpor tão curta-longa distância. O mar era a única saída possível.
Sempre com o credo-na-boca se o mar embravece, esta gente é ao mesmo tempo desconfiada, crente e devota. Quase todos analfabetos, prostam-se e veneram, temendo alguém que é mais do que eles e que constantemente os ameaça. Santos, bruxos, mulheres de virtude, todos são requisitados em marés de azar: doenças dos homens e dos animais, do corpo e da alma, amores estragados e maresias.
A escola existia, mas secundariamente em relação à omnipresença do Mar: o mais importante era saber:
- fazer um "côvo" para apanhar lagosta, lavagante ou navalheira;
- fazer um camaroeiro e uma sartela para atrair o peixe na maré vazia;
- consertar uma rede;
- medir os fundões em braças;
- lançar a poita;
- manejar a vela, o remo e o leme;
- «safar a tralha», o que não se aprendia nos bancos da escola.
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(Continua)
(Seleção, edição, revisão / fixação de texto, título: LG)
Capa da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, 147 pp. (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).
















1 comentário:
João Crisóstomo
Caríssimo Luís Graça,
Este post e especialmente o PDF <> é o melhor presente de Natal que eu podia desejar ( e imaginar, porque não o conhecia sequer). Creio que não serei o único a pensar assim. Bem hajas.
João
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