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domingo, 20 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28363: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (56): batatada de peixe seco num dos almoços das vindimas da Quinta de Candoz

 





Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > Vindimas > 18 de setembro de 2026 > Batatada de peixe seco (raia, safio, cação, sapata...) "by chef Alice"...( Na primeira foto, o peixe já demolhado, como o bacalhau.)


Fotos (e legenda): © Luís Graça (2023). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI].


1. Já não é a primeira vez que a gente traz peixe seco da Lourinhã para as vindimas  da Quinta de Candoz... É uma prato festivo (e com muita "sustância", como diria o cavador de enxada de antigamente). Prato que, por isso, fica bem nas "serviçadas".  

Quem já o provou, pela primeira vez, aqui no Norte, há dois ou três anos, gostou e aprovou. São saberes e sabores antigos, provavelmente tão ou mais antigos que o bacalhau escalado, salgado e seco ao sol. Era o governinho da mulher do pescador e do lavrador das aldeias ribeirinhas da Lourinhã, antes da chegada da electricidade e da arca frigorífica. Tal como aqui é o porco que era guardado na salgadeira, e que tinha que dar para o ano todo, até à próxima matança, no início do inverno.

Desta vez a dose era generosa, dava bem para 8 comedores. (Obrigado, Jaime, por teres sido o internmediário na transação.) E diversificada: tinha raia, sapata (cada vez mais rara), safio (aqui diz-se "congro"), cação... O nosso "vagomestre" merece chapa 5. E a "chef" Alice, com tão boa matéria-prima, só teve cozer, à parte, a batata (com pele), a cebola (muita!) e os ovos (ingrediente facultativo, mas que fica bonito, na travessa e na fotografia).

Serve-se com muito azeite e vinagre. E repete-se. Pode ser acompanhado com um vinho verde tinto, "carrascão",,,que a gente agora já não faz, na Quinta de Candoz. Mas ainda se arranja por aqui...

Tudo isto, caros amigos, não é para vos fazer inveja. É só para vos dizer que no céu não há disto. E é bom a gente começar a tratar de um lugarzinho, à direita ou à esquerda de Deus Pai (ideologias à parte)... E, a propósito, ainda hoje, por coincidência, tive dois telefonemas de antigos colegas (e amigos) das lides académcias. Há uma dezenas de anos que não sabiam de mim. E em vão ligavam para um antigo número de telemóvel ou escrevima um endereço de email, descontinuado. Um deles, que sempre foi muito brincalhão, mostrou-se exuberanhte e feliz por, finalmente, saber do meu paradeiro e ouvir a minha voz

- Porra, pá, constava para aí que já tinhas "ido...para a terra"!

Ao que, refeito da surpresa, retorqui:

- Em boa verdade, tenho andado de terra em terra. Agora estou em Candoz, nas vindimas, que já acabaram ontem...E, se queres que te diga, não estou com pressa de me despedir da Terra da Alegria... Nem ainda escrevi o poema que alguém há de ler no meu enterro...

O que vale é que eu não sou supersticioso... E vamos marcar um almoço para fazer a prova de de vida. Obrigado, Carlos, obrigado, Prista, pelo vosso cuidado.  Parafraseando o Marc Twain,  a notícia da minha morte foi manifestamente exagerada... 
___________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 26 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28214: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (55): Mafé e Baguitch (Henk Heggens, médico neerlandês, especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, Fulacunda e Bissau, 1980/84)

terça-feira, 28 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)


    Hoje há "Arroz especial... com mafé", anunciou o vagomestre


1. Não há ninguém como o Beja Santos para, de uma penada só , abrir um livro na página "x" e apresentá-lo ao leitor numa bandeja apetecível, como se tratasse do melhor manjar do mundo.  

Leitor voraz, compulsivo, desde criança, já deve ter lido centenas e centenas de milhares de páginas na sua vida. Não conheço ninguém como ele: bibliófilo e bibliófago... Metaforicamente falando, ele adora e devora livros... Confesso, nunca o vi beber (nem comer),  o que era raro entre a milicianagem de Bambadinca...

Tome-se como exemplo este excerto da sua nota de leitura  do livro de contos do Alberto Branquinho, ("Cambança Final", 2013), poste P12248 (*). 

Num livro de 222 páginas (na prática 160, com as folhas em branco) com cerca de  6 dezenas de contos ou microcontos (2 páginas e meia, em média, cada um), ele é um autêntico "garimpeiro", capaz de descobrir, com o seu olho clínico de lince, uma preciosidade, uma pérola, uma gema, uma obra-prima:

(...) "O confrade Alberto Branquinho reservou-me uma das mais agradáveis surpresas da primeira metade de 2013: 'Cambança Final', Edição Vírgula, deste ano, é mais do que um livro da maturidade da escrita, revela uma grande mestria na linha do conto e no saber dedilhar as teclas dos sentimentos humanos no contexto de uma guerra.

E aquela guerra foi a nossa, estamos todos lá, do atirador ao condutor, do cripto ao enfermeiro. (...)

Nada de pieguices quando há explosões onde os corpos se desfazem, até porque a natureza se encarrega de limpar a destruição, como escreve magistralmente no conto 'Despojos':

'Ia recomeçar a andar e olhou para o chão. Viu, junto ao tronco de uma árvore, três ou quatro formigas grandes, pretas que, com as pinças da cabeça cravadas, tentavam arrastar um pedaço de carne, ainda com um farrapo de farda camuflada agarrado.' (...)

Mata virgem e lama, água e o céu estrelado, chuvas diluvianas, frases em crioulo e a propósito, a linguagem de caserna na justa conta, o caminhar noturno, a solidão mesmo quando temos muita gente à volta. E uma enorme capacidade de trazer a pilhéria e o tom zombeteiro que obriga a uma boa gargalhada. (...).

Não é para todos esta capacidade de relevar o pícaro quando se marcha a arrastar o corpo, no auge do sofrimento. É um dom saber descrever um acontecimento corrente para um soldado branco que assusta o africano, tomando-o por feitiçaria, anda por ali o abismo cultural. 

Porque Alberto Branquinho, como na montanha russa, traça uma atmosfera de pânico, põe ali todos os traços da brutalidade e finaliza com um toque de facécia. 

O plausível diverte e comove. O furriel Melo vai tomar banho, avista uma cobra, foge espavorido a tapar as pudendas, não para de gritar e alguém comenta: 'Acho que a gaja deu uma dentada na picha do furriel cripto'.

O conto 'Arroz Especial'  é a profundidade do insólito, com nojo toda aquela gente vai descobrir que andou a comer (...) o impensável .

 O vagomestre e o cozinheiro têm uma enorme densidade que atravessa estes contos, são mal vistos, são detestados e, no entanto, são convocados para o prodígio de alimentar na mais extrema das monotonias, mesmo quando a cozinha é periodicamente escavacada e o brio profissional sobrepõe-se à virtude militar (...)".

Este conto, por ser de  antologia, merece ser partilhado e chegar a um público mais vasto, até por que a edição é já de 2013, e depois disso o autor já publicou mais outros oito livros, sendo o último uma espécie de autoantologia, "Inventarium Vitae" (**),  onde recupera alguns dos melhores contos do "Cambança Final", mas não este, o "Arroz Especial"...  

Alterámos ligeiramente o título, para efeitos de publicação nesta série ("Humor de Caserna") (***) e neste poste:

Arroz especial... com mafé

por Alberto Branquinho


Fonte: Excertos de Alberto Branquinho, "Cambança Final (Lisboa: Vírgula, 2013, pp.  85-89) (Com a devida vénia)
____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 4 de novembro de 20130 > Guiné 63/74 - P12248: Notas de leitura (531): "Cambança Final", contos de Alberto Branquinho (Mário Beja Santos)

(**) Vd. poste de 21 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

(***) Último poste da série > 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

domingo, 26 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28214: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (55): Mafé e Baguitch (Henk Heggens, médico neerlandês, especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, Fulacunda e Bissau, 1980/84)














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Fotos: Henk Eggens (2025)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Texto enviado para publicação no nosso blogue por Henk Eggens, médico neerlandês, especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública):


Data - sábado, 25/07, 11:19 (há 1 dia)
Assunto - Mafé e baguitch

Olá, Luís,

Gostei da história sobre as riquezas culinárias da Guiné (*). Deixou-me com água na boca e trouxe-me boas recordações. Achei, no entanto, que faltavam dois pratos emblemáticos da gastronomia guineense: a mafé e a baguitch.

Consultei o meu amigo Steven, que viveu muitos anos na Guiné, e recorri também à IA. Com base nisso, escrevi o texto em anexo, para tua apreciação e eventual publicação como comentário ao artigo referido.

Bom fim de semana!

Henk



Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Fulacunda > 1980 > "Casa do médico, Land Rover do projeto, mota da noiva e carro 404 privado".

Foto: (e legenda) © Henk Eggens (2024). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar: LG/HE]



Foto nº 2 

2.  O meu amigo e colega da saúde pública 
Henk Eggens  (ainda não nos conhecemos pessoalmente, ao vivo e a cores...) é:

(i)  neerlandês, médico especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública), cidadão do mundo;

(ii) já percorreu os quatro continentes como cooperante em saúde;

(iii) esteve 4 anos na Guiné-Bissau (incluindo dois anos em Fulacunda) (Fotos nº 1 e 2) (1980/84);

(iv) antes tinha estado em Cabinda, Angola (1976/78); também trabalhou na Indonésia;

(v) fala e escreve o português e o crioul0 guineense;

(vi) está reformado (Foto nº 3);

Foto nº 3

(vii) é um apaixonado por Portugal, a Guiné-Bissau, Angola, a lusofonia...

(vii) vive em Portugal,  em Santa Comba Dão;

(viii) a sua companheira é luso-brasileira; 

(ix)  foi administrador e editor de Portugal Portal (em neerlandês,  muito virado para a comunidade lusófona nos Países Baixos); e onde tem publicado textos do nosso blogue, com a devida autorização dos autores e editores;

(x) tem 10 referências no nosso blogue;

 Quero reforçar o meu o convite, endereçado já há tempos,  para, de pleno direito, ele  passar a integrar a Tabanca Grande, como amigo da Guiné...  

Não foi combatente, em nenhum conflito armado, felizmente para ele, mas dedicou pelo menos seis  anos da sua vida a dois povos lusófonos,  guineense e angolano, e numa época particularmente difícil. 

O facto de ter sido administrador e editor (e hoje continuar como colaborador) do  Portugal Portal vem reforçar ainda mais a ideia de que ele é um mediador cultural por excelência. Há pessoas que passam por um país, muitas com chorudos vistos Gold; outras criam pontes entre países. O Henk pertence claramente ao segundo grupo.  Vive, conhece, assimila, traduz, divulga, aproxima culturas e ainda leva textos do nosso blogue a leitores neerlandeses e portugueses emigrados na sua terra. É uma forma discreta, mas muito eficaz, de diplomacia cultural. E sobretudo cultivar e aprofundar a amizade entre povos (Portugal, Países-Baixos, Guiné-Bissau, Angola).

Naturalmente, que a sua presença, à sombra do nosso poilão,  só pode honrar-nos e enriquecer  o nosso blogue e as nossas memórias da Guiné.

Pedi à minha menina IA do ChatGPT para lhe fazer uma BD: não é uma biografia, mas uma pequena narrativa gastronómica e humana; e o estilo gráfico é o habitual, de que eu mais gosto, e que  temos vindo a apurar, a linha clara franco-belga. 

Esta BD não será apenas sobre o mafé ou o baguitch, será sobre algo muito mais importante,  a capacidade que um prato de comida tem de criar laços duradouros entre pessoas de países diferentes. Como acontece com o nosso bacalhau ou com as nossas sardinhas assadas...
 
O Henk (não o vou tratar cerimoniosamente por dr. Eggens), merece esta homenagem. Não apenas por ter sido cooperante médico, mas porque faz parte daquele grupo discreto de estrangeiros que ajudaram a criar pontes entre Portugal, a Guiné-Bissau e o resto do mundo. A presença dele na Tabanca Grande será inteiramente natural e vem enriquecer a ainda esta comunidade de memória, amizade e afetos. Espero que ele aceite, formalmente, este meu/nosso convite.


Mafé e baguitch: mais dois sabores da Guiné

por Henk Eggens

Mafé

O mafé é, provavelmente, o prato mais viajado da cozinha da África Ocidental. As suas raízes
mergulham no Mali, onde os povos mandinga e bambara o preparavam sob o nome
de domodah ou tigadegena,  literalmente, "molho de amendoim".

Foi durante o período colonial, quando a produção de amendoim foi fortemente incentivada em toda a região, que o prato se espalhou para o Senegal, a Gâmbia e, mais a sul, para a Guiné e a Guiné-Bissau, ganhando em cada país uma variante própria.

A base do mafé é sempre a mesma: um creme espesso de amendoim moído ou manteiga de
amendoim, engrossado com tomate e cebola refogados, por vezes com um fio de óleo de palma.

A esta base junta-se carne  (vaca, borrego ou frango) ou peixe, deixados a apurar lentamente
até a carne se soltar e o molho ganhar aquela textura aveludada e ligeiramente adocicada que
caracteriza o prato. Legumes como cenoura, couve, batata-doce ou mandioca são frequentemente cozidos no mesmo tacho, absorvendo o sabor amendoado do molho. 

Serve-se, invariavelmente, com arroz branco, que recolhe o molho como só o arroz sabe fazer.

Na Guiné-Bissau, o termo "mafé" tem um sentido mais lato: designa, de forma genérica, os
molhos e caldos que acompanham a bianda (o arroz cozido que é a base da alimentação),
preparados com peixe, marisco, frango ou carne. 

Mas quando um guineense pensa especificamente no primo do mafé senegalês, pensa no Caldo de Mancarra, o caldo de amendoim que é um dos pratos mais típicos e queridos do país: frango ou peixe estufado lentamente num molho cremoso de amendoim, tomate e limão, com a malagueta sempre por perto para dar aquele toque de fogo que a cozinha guineense tanto aprecia.


Baguitch

Se o mafé é conforto num prato, o baguitch é a assinatura verde da mesa guineense. Prepara-se a partir das folhas da hibisco-azedo, Hibiscus sabdariffa, uma planta arbustiva que cresce por quase toda a África Ocidental e que na Guiné-Bissau é conhecida por baguiche ou baguitchi (noutras paragens lusófonas chama-se-lhe vinagreira, e em inglês, roselle; no Senegal vizinho, é a planta do famoso bissap, a bebida de hibisco que ali se bebe gelada.

A preparação do baguitch é simples e ao mesmo tempo trabalhosa. As folhas frescas são primeiro cozidas em água, depois escorridas,. guardando-se muitas vezes essa água, rica em sabor, para usar como base de outros pratos, e batidas à mão com um garfo até se transformarem numa pasta homogénea, quase cremosa. 

É comum juntar-se-lhe um ou dois quiabos já cozidos, que ajudam a engrossar ainda mais a mistura e lhe dão aquela textura ligeiramente viscosa tão característica dos molhos da região. O resultado é um acompanhamento de sabor ácido e terroso, muito distinto do doce do mafé, que se serve tradicionalmente ao lado do arroz branco, do frango grelhado nas brasas e de um pouco de malagueta bem pilada.

(Revisão / fixação de texto: LG)

__________________

Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 25 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28210: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (54): o caldo de chabéu é acompanhado com arroz, que é o rei à mesa; o funge é um prato angolano, lembra-nos o Cherno Baldé

Guiné 61/74 - P28213: Em bom português nos entendemos (33)_ a palavra "mafé", usada na culinária da Guiné-Bissau (crioulo, que vem do mandinga "mafen"): o velho pescador sai na sua canoa "à procura de mafé" (=acompanhamento da bianda, que pode ser peixe,marisco ou carne)

 


Excerto do "O Nosso Livro:  1ª Classe",  ediado pelo PAIGC (1970), "A Pesca",  pág. 34


1. O que dizer aqui, neste contexto, o termo "mafé" ? 

O velho Ali, de manhã cedinho, vai na sua canoa pescar nos "pequenos rios" que levam as suas águas ao rio Cacine (afluentes). 

"Ele sai à procura de mafé para os seus valentes filhos — os guerrilheiros." (Negritos nossos).

À primeira vista, para um leitor português, "mafé" faz pensar imediatamente no conhecido prato da África Ocidental (o mafé do Senegal ou do Mali, um guisado com molho de manteiga de  amendoim, "o caldo de mancarra", hoje também um dos pratos típicos da gastronomia da Guiné-Bissau). 

Mas não é esse o significado aqui. Neste contexto, "mafé" parece ser usado no sentido de "mantimentos para comer", "alimento", "comida", "conduto"... E mais concretamente peixe,  destinado neste caso a alimentar os guerrilheiros do PAIGC. 

O rio Cacine e os seus afluentes eram ricos em peixe, como eu próprio pude comprovar em março de 2008, quando voltei à Guiné, e mais concretamente ao Cantanhez.

Vejamos: o  título da lição é "A pesca"; toda ela descreve Ali a ir à pesca; o objetivo da pesca é abastecer os guerrilheiros. A frase "à procura de mafé" só pode, pois,  ser tomada como sinónimo de "à procura de alimento". 

Na segunda parte, descreve-se a sua bravura: ele não medo dos "jacarés" (leia-se: crocodilos, não há jacarés em África...) nem dos "colonialistas", com os seus canhões e aviões. Tem uma missão a cumprir, o que faz com orgulho.

O vocábulo "mafé" vem do crioulo, que por sua vez deriva de "mafen", uma palavra da língua mandinga.  Era usado na época com o significado genérico de "comida" ou "conduto", e não apenas de "caldo de mancarra".  

Os manuais escolares do PAIGC recorriam frequentemente a vocabulário crioulo ou africanizado, mesmo quando o resto do texto era em português.

Há, porém, uma hipótese ainda mais interessante. Na Guiné-Bissau, hoje, "mafé"  designa genericamente  "conduto" que acompanha o arroz, isto é, o caldo de peixe,  galinha, de carne de caça, de marisco, de legumes,etc.,  que acompanha o arroz  ("caldo de mancarra". "caldo de chabéu" e outros pratos). 

Nesse caso, a frase ganha uma precisão etnográfica muito bonita:

"Ele sai à procura de mafé" = "ele sai à procura do peixe que servirá de acompanhamento ao arroz/bianda  dos guerrilheiros."

Isto faz todo o sentido, porque o arroz era (e continua a ser) a base da alimentação guineense, sendo o peixe (mas também o marisco, a carne de frango, ou de caça, etc.) o respetivo mafé, isto é, o acompanhamento sob a forma de caldo.

Aliás, era nesse sentido que eu entendia o termo "mafé", usado pelos meus soldados fulas da CCAÇ 12, em 1969/71, em Bambadinca: hoje "ca tem mafé na bianda" (hoje é arroz com arroz, sem conduto).

Portanto, podemos grafar o termo com este significado: " Ele sai à procura de mafé (peixe para alimentação, o acompanhamento do arroz) para os seus valentes filhos, os guerrilheiros."

Logo, há que acrescentar aos dicionários de português: Mafé, substantivo de dois géneros ou só masculino (?): 1. [Guiné-Bissau] [Culinária] Molho ou caldo, geralmente feito de carne, peixe ou marisco (ex.: o mafé serve de acompanhamento à bianda); 2. Acompanhamento do arroz ("bianda"), geralmente peixe ou carne; por extensão, alimento, conduto.


2. Significado de mafé como vem grafado nos dicionários de português:

2.1. Priberam - Dicionário da Língua Portuguesa:

Mafé (lê-se: (maˈfɛ)
substantivo de dois géneros
[Guiné-Bissau] [Culinária] Molho ou caldo, geralmente feito de carne, peixe ou marisco (ex.: o mafé serve de acompanhamento à bianda).

2.2. Infopédia - Dicionários Porto Editora

Mafé (lê-se: maˈfɛ)
nome masculino
Guiné.Bissau | Culinária | Prato tradicional à base de carne ou de peixe cozido num molho de manteiga (de amendoim, na época colonial).

Etimologia: do crioulo guineense mafé, do mandinga mafen.


Vd. tambéem >Wikipedia > Mafê



Capa de "O Nosso Livro: 1ª Classe... Exemplar capturado pelo nosso camarada Manuel Maia no Cantanhez, possivelmente em finais de 1972 ou princípios de 1973 (Op Grande Empresa).

 Vê-se que esse exemplar teve muito uso. A capa teve de ser reforçada com uns improvisados adesivos (aparentemente autocolantes, que acompanhavam embalagens de apoio humanitário, vindas do exterior). Sabe-se que foram feitos, na Suécia, 20 mil exemplares deste livro, em edição de 1970.

"Neste mesmo dia apanhei ainda duas cartas, uma escrita em árabe e outra em crioulo", diz.nos o nosso camarada Manuel Maia, ex-fur mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4610, Bissum Naga, Cafal Balanta e Cafine (1972/74).

Sabemos que primeira edição de O Nosso Livro: 1.ª Classe foi publicada em 1970, em Uppsala, Suécia (e não em 1964,  como já temos lido). Há alguma confusão bibliográfica porque o projeto pedagógico do PAIGC começou em 1964, mas o manual com esta capa e este título pertence à edição de 1970.

A confusão resulta de haver dois livros diferentes:

(i) 1964 > O Nosso Primeiro Livro de Leitura: é o primeiro manual de alfabetização elaborado pelo PAIGC; preparado na Escola Piloto de Conacri, sob coordenação pedagógica de Lilica Boal; o manuscrito foi terminado em 1964 e inicialmente impresso com apoio internacional (há fontes que referem a RDA; outras indicam que a impressão passou depois para a Suécia).

(ii) 1970 > O Nosso Livro: 1.ª Classe: edição revista e ampliada; impressa em Uppsala (Suécia); é esta a edição cuja capa apresentamos em cima ("Nosso Livro: 1.ª Classe", menino junto ao quadro, "Amo a minha Terra", "3+2=5", assinatura "P.A.I.G.C.").

Quanto ao exemplar do Manuel Maia, tudo indica que é precisamente um desses exemplares da edição de 1970. O facto de ter sido capturado no Cantanhez em finais de 1972 ou princípios de 1973, na sequência da ocupação do Cantanhez,  encaixa perfeitamente: nessa altura o manual estava já amplamente distribuído nas escolas das  chamadas "zonas libertadas".

O número de 20 mil exemplares para a primeira edição sueca é referido em diversos estudos sobre o sistema educativo do PAIGC e é perfeitamente plausível, tendo em conta o financiamento sueco e a expansão da rede escolar nas zonas libertadas. A Suécia foi, de longe, o principal parceiro do PAIGC na produção de material escolar.

Há muita informação contraditória sobre estes manuais do PAIGC.

Um pequeno pormenor interessante da capa: a frase "Amo a minha Terra" sintetiza bem a filosofia do manual. O ensino da leitura estava intimamente ligado à formação cívica, política e ideológica da população e dos guerrilheiros. As primeiras frases não eram neutras, como nos antigos livros portugueses ("A mãe amassa a massa"), mas procuravam associar desde cedo a alfabetização ao sentimento nacional e à "luta de libertação", prosseguida pelo PAIGC.

Este exemplar é particularmente valioso porque mostra sinais de utilização real: a lombada reforçada com fitas adesivas; os remendos feitos com material de embalagem proveniente da ajuda internacional; o desgaste da capa.

Do ponto de vista da história da educação, estes sinais contam quase tanto como o próprio texto. Revelam que não era um exemplar de arquivo, novinho em folha, ainda a cheirar a tinta, mas um livro efetivamente usado por crianças numa escola do mato (ou pelo próprios guerrilheiros, que andavam a aprender português).

Foto (e legenda): © Manuel Maia (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 7 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27994: Em bom português nos entendemos (32): Ainda a papaia e o mamão: são da mesma espécie botànica, frutos da Carica papaya, ...mas de variedades diferentes

sábado, 25 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28210: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (54): o caldo de chabéu é acompanhado com arroz, que é o rei à mesa; o funge é um prato angolano, lembra-nos o Cherno Baldé

 









Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Aqui vai uma ilustração em BD do caldo de chabéu, prato tradicional da Guiné-Bissau que é servido com arroz e nunca com funge... Pode de peixe ou de carne ( frango, cabrito...). 

 Como nos esclareceu,  e bem, o nosso Cherno Baldé, o funge é angolano, não é guineense. Damos a mão à palmatória, a calinada é do nosso editor e da  menina da IA que é americana e, como tal, sabe pouco de geografia; metemos os dois a pata na poça, ao fazer a ilustração a quatro mãos.

Agora, sim, sai, corrigida, como prometido, a BD: longe de nós, eu e ela, querermos arranjar um  problema "diplomático" entre os nossos amigos lusófonos, guineenses e angolanos. 

Declaração de interesses do editor LG: nunca comi funge na Guiné, em 1969/71 nem em 2008; comi sim, na ilha de Luanda, quando lá ia em trabalho (a partir 2003). 

Mas nada impede os nossos "chefs" modernos, contratados pelos nossos vagomestres , de pôr o caldo de chabéu a acompanhar com o funge angolano, prato tradicional que é feito à base de farinha de mandioca (ou de milho) e água. ( O segredo está na força do braço para bater a massa e evitar grumos, diz o "chef angolano.) Mas na Guiné, ontem e hoje, quem era (e é) rei, á mesa, é o arroz.

Vamos pedir ao nosso amigo e colaborador permanente, o Cherno Baldé, que valide esta ilustração. A IA está sempre a aprender connosco. E nós com o Cherno Baldé. 

E depois do funge, a menina da IA  meteu outras duas "calinadas": no meu/nosso tempo, nas tabancas da Guiné não  se comia de colher, garfo e faca, nem havia pratos individuais...Comia-se à mão, todos à volta de um grande alguidar, de alumínio ou de  esmalte...

Por influência dos "tugas", já havia uma ou outra família (com homens que eram milícias ou militares) que tinha colheres...Por outro lado, a criançada (os "djubis" e as "bajudinhas") também não comiam com os adultos. E as mulheres, se não erro, também comiam àparte... 

Além disso, o peixe ou a carne (galinha, frango) era cortado aos pedacos. Não faz sentido o peixe ir inteiro para o tacho, não havendo facas nem garfos... 

Foram detalhes que tivemos de corrigir, eu e a menina IA. Mas esperamos o veredito do nosso crítico de Bissau.

Julgo que hoje na Guiné-Bissau seja mais cómodo comer de garfo e faca ou pelo menos com colher (no caso do caldo de chabéu, com arroz)...

2. Curiosidade etnocêntrica: o trio completo de talheres (garfo, faca e colher) passou a fazer parte da mesa em Portugal de forma regular a partir do século XVII para a alta nobreza, mas a sua generalização para toda a população só aconteceu no século XIX, com a Revolução Industrial.
 
 Em 1836, o rei consorte D. Fernando II (de Saxe-Coburgo-Gota) convenceu a rainha D. Maria II a oficializar o uso do garfo em todos os banquetes da corte.

 Com a Revolução Industrial e a produção em massa de metais mais baratos (como a alpaca e o banho de prata), os faqueiros completos tornaram-se acessíveis à burguesia e depois às classes laboriosas. Foram lentas mudanças de hábitos à mesa,  impulsionados também por novas regras de higiene e de saúde pública.

Ainda me lembro, nos anos 50, quando ia à "festa da matança do porco", no Nadrupe, Lourinhã, a casa dos meus tidos maternos, de toda a gente, pequenos e graúdos, comerem, de garfo de ferro (!), de uma enorme terrina (!)... Os putos, menos hábeis e menos lestos, ficavam sempre prejudicados na "corrida"... 

3. Confesso que gosto do estilo gráfico que eu e a IA concordámos em adoptar (embora possa levantar questões delicadas relacionados com eventual plágio, extrativismo, violação da propriedade intelectual)...No caso desta BD, as especificações foram:
  • estilo gráfico: linha clara franco-belga (Hergé, Jacques Ferrandez, Juillard);
  • cores quentes, próprias da África Ocidental;
  • grande rigor etnográfico;
  • utensílios de alumínio gastos pelo uso;
  • panelas sobre três pedras ou pequeno fogareiro;
  • cajueiro verdadeiro (não coqueiros...);
  • roupa simples do quotidiano;
  • sem exotismos nem caricaturas.
A resposta, a meu ver, é simples: eu sou livre de desenhar e pintar "à Picasso" (estilo Picasso). Não posso é, ética e legalmente:  (i) copiar um quadro dele e assiná-lo como seu; (ii) fazer uma obra tão próxima de uma obra concreta sua que seja uma reprodução disfarçada; e, por fim, (iii) induzir o público a pensar que é um Picasso autêntico.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28197: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (53): o caldo de chabéu e o funge (receitas tradicionais)

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Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: LG + ChatGPT
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


Guiné-Bissau> Bijagós > Bubaque > Bijana > Chabéu. Foto: Patrício Ribeiro (2026)


1. O caldo de chabéu (também conhecido como
tchebem, em crioulo) é um prato tradicional da Guiné-Bissau, feito com a fruta da palmeira dendém.

Leva cerca de 1 hora e 30 minutos a preparar, à moda tradicional. Aqui fica uma sugestão de receita(s) para os nossos "vagomestres" (*).

Ingredientes

  • 500 g de chabéu (fruta do dendém)
  • 1 kg de carne (vaca), peixe fresco ou galinha
  • Raízes e vegetais a gosto (mandioca, sukulbebem, repolho/couve)
  • Temperos: cebola, tomate, alho, malagueta/gindungo e sal

Modo de Preparação 

(i) Cozer a fruta: coze o chabéu em água até que os caroços se comecem a soltar; escorre a água, guardando-a num recipiente à parte.

(ii) Esmagar: esmaga o chabéu num pilão até a pele e o caroço se separarem da polpa.

(iii) Extrair o caldo: passe a massa por água fria e coa num passador fino, espremendo bem. Volta a pilar e coar se necessário, até obter um caldo grosso e vermelho.

(iv) Preparar a carne/peixe: Num outro tacho, refoga a cebola, o tomate e o alho; junta a carne (ou peixe/galinha), tempera com sal e gindungo, e deixa estufar.

(v) Juntar tudo: adiciona os vegetais cortados e o caldo de chabéu ao tacho da carne. Deixa ferver em lume brando até que a carne e a mandioca estejam tenras. Serve quente. 

2. Não tendo nós, aqui em Portugal, o chabéu propriamente dito, temos de recorrer ao supermeracado...e comprar um garrafa de óleo de dendém.


Aqui vai então a receita refinada e exata utilizando o óleo de dendém de garrafa. Esta versão reduz o tempo de preparação para cerca de 45 minutos.

Ingredientes
(Versão prática)
  • Óleo de dendém: 150 ml (aproximadamente 2/3 de chávena)
  • Água quente: 1 litro
  • Proteína: 1 kg de carne de vaca (em cubos), galinha ou peixe firme
  • Vegetais: 1 mandioca média (em pedaços), 1/2 repolho e quiabos a gosto
  • Base: 1 cebola grande picada, 2 dentes de alho picados e 2 tomates maduros picados
  • Tempero: 1 malagueta (gindungo), sal e 1 cubo de caldo de carne (opcional)
Modo de preparação:

(i) Selar a carne: num tacho grande, deite 2 colheres de sopa do óleo de dendém; refogas a cebola, o alho e o tomate até murcharem; juntas a carne e deixas dourar por 5 minutos. 

(ii) Criar o caldo: temperas com sal, gindungo e o cubo de caldo;  vertes o restante óleo de dendém e adicionas imediatamente 1 litro de água quente; mexes bem para emulsionar.

(iii) Cozer os vegetais: juntas a mandioca e o repolho ao tacho; tapas e deixas ferver em lume médio-baixo durante 20 a 25 minutos (até a carne e a mandioca estarem quase tenras).

(iv) Apurar: adicionas os quiabos nos últimos 10 minutos; deixe o caldo destapado em lume brando para reduzir e engrossar ligeiramente.

O caldo deve ficar aveludado, com uma cor alaranjada escura e os sabores bem concentrados.
Podes acompanhar este caldo com arroz branco solto... ou acompanhar comn funge (vd. receita a seguir)

PS - Atenção: o óleo de palma (ou dendê ou dendém) é o óleo vegetal mais consumido do mundo. Embora seja extremamente eficiente (produzindo até 6 vezes mais óleo por hectare que outras culturas), a sua expansão descontrolada tem causado forte desflorestação em regiões tropicais como o Sudeste Asiático, ameaçando habitats de espécies como os orangotangos do Bornéu. Portanto, há questões sociais e ambientais a ponderar quando se compra o óleo (ou azeite) de dendém ou produtos feitos com recurso a este fruto, como cosméticos, etc. 

Por outro lado, há problemas de saúde a considerar. O uso do azeite de dendém deve ser moderado, tendo benefícios e malefícios.


Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Sector de Bedanda > Cananima > Simpósio Internacional de Guileje (Bissua, 1-7 de março de 2008  > 2 de Março de 2008 >  O famoso óleo de palma do Cantanhez. A sua cor vermelha intensa deve-se às características da variedade do chabéu (termo científico, Elaeis guineenses), que é rico em caroteno.


Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Sector de Bedanda > Cananima > Simpósio Internacional de Guileje (Bissua, 1-7 de março de 2008  > 2 de Março de 2008 >

A saudosa Cadidjatu Candé, da comissão organizadora do Simpósio Internacional de Guileje e colaborada da ONG AD - Acção para o Desenvolvimento, servindo um fabuloso "caldo de chabéu" (arroz com filetes de peixe do rio Cacine e óleo de palma local, que tem fama de ser o mais saboroso do país, devido à qualidade da matéria-prima e às técnicas e condições de produção, artesanal. (**)

Na imagem, um diplomata português, o nº 2 da Embaixada Portuguesa, que integrava a nossa caravana (e cujo nome, por lapso, não registei, lapso de que peço desculpa).

Um dos pratos que foi servido no almoço de domingo, aos participantes do Simpósio Internacional de Guileje, foi peixe de chabéu, do Rio Cacine, do melhor que comi em África... Durante a guerra colonial, na zona leste, em Bambadinca, só conheci  o desgraçado peixe da bolanha que sabia  a lodo.... "Chabéu de frango" comi algmnas vezes, delicioso, na casa do comerciante de Bambadinca, o Rodrigo Rendeiro.  O "frango de chabéu" da dona Auá Seidi, mulher do Fernando Rendeiro, ficpou-me no goto. O funge só comi em Angola...

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís  Graça & Camaradas da Guiné] 


3. O funge (ou fufu) tradicional que acompanha o caldo de chabéu é feito à base de farinha de mandioca (ou de milho) e água. O segredo está na força do braço para bater a massa e evitar grumos
. 

Mas atenção: como nos esclarece e bem, o nosso Cherno Baldé, o funge é angolano, não é guineense. (Temos aqui uma "calinada" da IA que é americana e, como tal, não sabe degeografia; ,etemos os dois a pata na poça, ao fazer a ilustração a quatro mãos; vou fazer um outro poste, a corrigir: não quero arranjar nenhum problema diplomático entre os meus amigos angolanos e os guineenses.)

Funge e fufu...Origem dos termos: (i) funge: é o termo utilizado na culinária de Angola e de São Tomé e Príncipe para designar a papa feita de farinha de milho ou de mandioca;  (ii) fufu: tem origem na África Ocidental (Gana e Nigéria) e refere-se à massa elástica feita a partir de inhame, banana-da-terra ou mandioca cozidos e pilados

Esta receita (de funge)  rende 4 porções e fica pronta em apenas 20 minutos.

Ingredientes

  • Farinha de mandioca torrada ou fina: 250 gramas
  • Água: 1 litro
  • Sal: 1 colher de café (opcional, já que o caldo é bem temperado)
Modo de preparação:

(i) Aquecer a água: coloca 800 ml de água numa panela alta com o sal e leve ao lume até ferver.

(ii) Dissolver a farinha: numa tigela à parte, mistura os 250 g de farinha de mandioca com os restantes 200 ml de água fria; mexe bem até formar uma papa lisa e sem caroços.

(iii) Misturar: assim que a água da panela estiver a ferver, verte a papa de farinha lentamente, mexendo sempre e vigorosamente com uma colher de pau (ou um bastão de funge).

(iv) Bater o funge: baixa o lume para o mínimo; usa a colher de pau para esmagar a massa contra as paredes da panela; faz  movimentos circulares rápidos e fortes (isto garante que a massa fique elástica e homogénea).

(v) Cozimento final: deixa cozer em lume muito brando por mais 5 a 8 minutos, mexendo de vez em quando. O funge está pronto quando estiver brilhante, translúcido e a soltar-se do fundo da panela.

Como servir:

(i) molha uma tigela pequena em água fria;
(ii)  coloca uma porção de funge quente lá dentro;:
(iii) abana a tigela em círculos para moldar uma bola perfeita;
(iv) coloca no prato e verte o caldo de chabéu bem quente por cima.

Pesquisa: LG +  Fundação Slow Food para a Biodiversidade +  IA (ChatGPT / Open AI)
Condensação, revisão de texto, negritos: LG
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Notas do editor LG:´
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(*) Último poste da série > 9 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28086: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (52): Favas com peixe frito à moda de Monchique (comidas numa tasca de Portimão, em 26/5/2026)

(**) Vd. postes de: