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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 . P27617: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte III: O nº 27, do Colégio Seráfico


Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que durante a guerra colonial será capelão militar, 

No capº IV  daquele trabalho académico, ele narra e comenta em 3 dezenas de páginas a história de vida de Francisco Caboz, o mesmo é dizer, a sua autobiografia. 

 Nos dois postes anteriores (*),  ele apresentou-nos. sucintamente,   a sua terra, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e  o avô materno  (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara)... 

O avô e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram na sua decisão de "quer ser padre".

É uma história de vida, sofrida bem dura, em tempos muito difíceis (antes, durante e depoois da II Guerra Mundial), que merece ser conhecida dos nossos leitores. O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46,  completou a 4ª classe e seguiu para o seminário dos franciscanos (em Montariol, em Braga). 

A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica  

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)

Francisco Caboz é o "alter ego" do Horácio Fermandes, entretanto falecido, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos). 

O Horácio Fernandes seria ordenado padre em 1959. Foi alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969), tendo terminado a sua comissão no HM 241 com uma crise de paludismo. 

Andou ainda na marinha mercante (transporte de ytropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós, Maria Augusta e Maria da Anunciação (nascidas na década de 1860) eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).

A história de vida do Horácio é a de muitos de nós, que fizemos o percurso clássico de mobilidade social através da educação, num Portugal rural e pobre dos anos 40/50/60.  Os seminários regulares e diocesanos foram uma  estratégia de sobrevivência e ascensão social para jovens de origens humildes, que não tinham acesso ao sistema de educação, elistista, e socioespacialmente  segregador, do Estado Novo (liceus que sõ existiam nas capitais de distrito e univerdades localizadas em Lisboa, Coimbra e Porto).


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte III:  O nº 27, do Colégio Seráfico  

por Horácio Fernandes


4.O Seminário

 4.1. O Angélico


A ideia de ser padre começou a ganhar vulto, quando se repercutiram à volta de mim calorosos incentivos. Era a professora que repetia que gostava de que algum aluno seu fosse padre e o meu avô, para quem a sua maior dita era ter um neto padre. 

O ser padre aparecia-me como a única saída, para ultrapassar as limitações da minha família de parcos recursos, concentrar em mim as atenções das pessoas que me rodeavam e ser o herói de meu avô. 

É neste contexto que respondo às perguntas insistentes se quero ser padre com o «sim».

A minha única dúvida era se os padres eram «capados», como tinha ouvido dizer a alguns rapazes mais velhos. Desfeita esta dúvida, com uma consulta ao meu tio, que me assegurou que não, ficaram ultrapassados todos os obstáculos.

Este «sim» mobiliza imediatamente em redor de mim todas as atenções, não só da minha família, como das devotas da terra. 

O meu avô retirou debaixo do colchão mais umas notitas, fruto das suas economias, para ajudar a comprar o enxoval para o futuro «ministro» de Deus. As senhoras devotas de Arribas do Mar ofereceram-se para confeccionar alguma roupa e marcar outras,  pois a partir daí tinha um número atribuído pelo Seminário, o 27. 

Mesmo assim, faltavam muitas peças do longo «enxoval» pedido. Meu pai viu-sé obrigado a contrair um empréstimo e fui pagar apenas a mensalidade mínima: cinquenta escudos.
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Com a cabeça cheia de das histórias de missionários, que a professora lia na aula às quartas feiras e os meus 10 anos, lá fui eu, juntamente com mais dois colegas, de abalada até ao Colégio Angélico, que distava mais de 300 quilómetros. 

A acompanhar-me em tão longa viagem de comboio, ia meu pai e a irmã de um desses colegas.

A viagem teve o seu quê de novidade e de cansaço. Chegámos cerca das 10 horas da noite, à última estação de caminho de ferro, que distava cerca de 4 bons quilómetros do Colégio. 

Uma carrejona levou as malas dos meus colegas e o meu saco às riscas, onde levava o enxoval, num carrinho de mão,  e nós fomos atrás dela. Nas subidas, ainda ajudávamos a empurrar o carro.

Como já tinha tocado a sineta para o silêncio obrigatório, o irmão porteiro levou-nos à secção da enfermaria, para não perturbar os outros e mandou meu pai e a irmã do meu colega de regresso à cidade, porque ali era clausura e não podiam entrar pessoas estranhas à comunidade.

 Depois de nos entregarem a Deus lá foram atrás da carrejona, à procura de comida e dormida e fui-me deitar.

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4.1.1 A domesticação do corpo e espírito em vários cenários

 
A domesticação de Francisco, embora operada dia a dia, obedecia a rituais próprios e estava centrada em quatro cenários: 

  • o refeitório, 
  • a camarata, 
  • o salão de estudo 
  • e a sala de aulas. 


Panopticamente situados, os Prefeitos tudo comandavam e vigiavam: comandavam através de gestos ou sinais sonoros, como apito, campainha, sineta, palmas,  e vigiavam todas as conversas, passos e procedimentos dos alunos. 

E quando não podiam estar presentes, o que era raro, lá estava o mais velho ou os graixas, como eram conhecidos os preferidos, prontos a comunicá-lo ao Prefeito.

Desde que Francisco entrou no Colégio Angélico, uma cortina panóptica correu-se sobre o seu quotidiano. A partir daqui, é barro para ser moldado, já não por uma professora catequista, mas pelos oleiros sagrados. 

A interiorização dos rituais do prémio,  do castigo, do silêncio, da subordinação, do aniquilamento do self vão reconvertê-lo de homem velho em homem novo, «criado em justiça, verdade e santidade» (S. Paulo).

O «mandato» do sistema de ensino salazarista para o subsistema de ensino convencional (ver cap. II da dissertação), resulta num aniquilamento do corpo e alma do Francisco e a inculcação de um habitus que o transforme num ser passivo, obediente, conformado, interiormente reconstruído, para ser administrador do sagrado. Tem de deixar de ser Francisco e converter-se numa caricatura de «fradinho» e «padrezinho», traçado pelas hierarquias eclesiásticas, em conúbio com o regime salazarista.

Esta moldagem consistia em cortar com todas as amarras que o ligavam ao mundo, e fazer de cada angélico um eterno devedor do subsistema.

 Para isso, impunha-se o apagamento de todas as referências relacionadas com a sua identidade pessoal e  familiar: correspondência, datas de aniversário, apelidos de família, pares e amigos, opções pessoais, respeitantes à sua apresentação pública, como o cabelo e as vestes [5].

- 110 - 

Em troca, passava a ser um barro moldável nas mãos da instituição religiosa. Os novos pais eram os superiores, representantes de Deus e eleitos com evocação do Espírito Santo. Os amigos eram os Santos, preferencialmente os da respectiva família religiosa, cujas referências biográficas, ainda que reinventadas,  eram exploradas até à exaustão.

O ensino confessional hierarquizava também as mulheres pela excelência simbólica. As não consagradas as Deus eram as inimigas do corpo e da alma dos homens. Aos eleitos, vocacionados, os melhores, ficava vedado subordinar-se aos encantos femeninos. De outro modo, perderiam a supremacia do seu status. Por isso, havia que subalternizá-las, para que o homem não perdesse a excelência da masculinidade. 

Traduzido em linguagem simbólica, o Angélico tinha de combater os três principais inimigos da alma: mundo, demónio e carne.

Cenário 1 [Refeitório]

O dia começava impreterivelmente ao som de uma sineta. Era, aprendi depois, o toque  regulamentar para a formatura em direcção à igreja  para a missa matinal.

 Vesti-me à pressa e mandaram me juntar aos cerca de 200 rapazes que   desciam as escadas em silêncio. Assisti à missa, ainda meio estremunhado, fazendo os gestos que os outros faziam e de novo me integrei na formatura  para o refeitório, em absoluto silêncio e braços  cruzados, como os outros.

O refeitório dos alunos  era um amplo salão, com mesas de madeira surrada,  sem qualquer revestimento, onde,  três vezes por dia,  os alunos comiam em pratos e chávenas de  alumínio, todas amachucadas dos trambolhões e  algumas sem pegas.

Quando os outros viraram a chávena atacaram o meio «papo seco»,  também fiz o mesmo.

De repente, à palavra mágica «prosit» (seja útil!),  pronunciada pelo Prefeito, o silêncio quebrou-se , uma torrente de vozes inundou o salão.

(Continua) 

Cenário 2 [Camarata]

Ao outro dia de manhã acordei às 5 horas e 45 minutos da manhã, excepto aos domingos em que me era concedido o privilégio de ficar na cama, mais uma saborosa hora. 

Um bater de palmas cadenciado indicava que o dia ia começar. De Inverno custava tanto sair do quente para o cimento da camarata! Mas nem S. António me valia!

Se não saltava logo da cama, ou ficava a dormir porque não ouvia as palmas,  tinha uma visita inesperada: a sandália do Prefeito dava um pontapé na perna da cama de ferro que me abalava todo, ou era pegado por uma orelha, apertando pouco a pouco, até que era atirado para fora. 

Meio autómato, devido ao sono, e debaixo dos lençóis, trocava as calças do pijama pelas costumeiras para não faltar a santa modéstia,  como mandava o Regulamento.

(Continua)

- 111 - 

 [5] As únicas referências documentais a Francisco Caboz que se conservam no Colégio Angélico, para além das pautas de classificação escolar, são ; a data de entrada, 3/10/46; o número de ordem 1117; a filiação, local de nascimento e a diocese ( «Livro de Matrículas do Colégio Angélico», 1938-1960).

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Cenário 1 [Refeitório] (continuação)

Os encarregados recebiam as cafeteiras, por um balcão fechado, que separava o refeitório dos padres,   dos alunos e da cozinha. 

Começaram a encher as chávenas, sob o olhar vigilante do Prefeito, não fosse algum servir-se duas vezes de «banacau», uma mistura de leite com um pó a saber a cacau.

 Mesmo assim, para mim,  cujo pequeno almoço era geralmente um bocado de pão com o resto do peixe cozido de véspera, sabia bem. Todos eram obrigados a beber, sem pestanejar. 

Olhava para tudo aquilo, meio pasmado, quando um colega me perguntou de que terra era. Eu disse, ingenuamente, que era da Lourinhã. «Da Lourinhã?!...» replicou o outro numa risota. «Então és da Terra dos Parvos!». Num instante, o remoque foi repetido por toda a mesa: «olha, é da Lourinhã!...». 

Eu nem os ouvia, tão absorto estava na observação de tudo. Só despertei, quando o Prefeito bateu as palmas. Como se tivesse tocado a corneta de um batalhão, todos emudeceram e a ordem veio peremptória:

«Os angélicos que chegaram ontem à noite, vão à portaria buscar as malas!»

Na portaria, esperava-me novamente o meu pai que, entretanto, calcorreara o longo e íngreme caminho da véspera, desde a cidade até ao cimo do monte, onde se erguia o Colégio Angélico.

Uma desagradável surpresa nos esperava: a irmã do meu colega foi notificada que seu irmão tinha sido rejeitado, porque tinham recebido informações de que a mãe, viúva recente, se tinha amantizado com outro homem. 

A decepção para todos foi enorme. Passados uns dias, foi mesmo despedido.

Mas, nova provação havia de me bater à porta. Depois das férias do Natal, fui chamado ao Prefeito. Ainda lembrado da rejeição do meu colega e porque quando o meu pai me chamava, ou a professora, era para me castigar, lá fui a tremer e não me enganei. 

Disse-me que me tinha de ir embora,  porque meu pai tinha escrito a avisar que não podia pagar a mensalidade que já era mínima.

-112 - 

Sem palavras, comecei a chorar. Por essa razão ou por outra,  mandou-me lá ir no dia seguinte. Comunicou-me, então, que uma benfeitora   do Fundão, que nunca cheguei a conhecer, ficaria  minha madrinha e pagaria a mensalidade, ficando  eu com a obrigação de lhe escrever uma carta  a agradecer, no fim de cada trimestre.  

Fiquei aliviado de um peso de toneladas.

É verdade que sentia muitas saudades da família, mas, às escondidas, ia fazendo versos à terra e à minha mãe, num caderninho que guardava religiosamente dos Prefeitos. Ir-me embora, naquela altura, era dar um tremendo desgosto a toda a família, ao meu avô e a todos os que me ajudaram a ir para o Seminário. 

Por isso, agarrei-me àquela tábua de salvação. A minha vontade era corresponder a tanta bondade dos benfeitores, sem olhar a sacrifícios. Sentia-me um eterno devedor.


Cenário 2 [Camarata] (continuação)

Depois, saltava da cama, punha a toalha ao pescoço e ia a correr à casa de banho e ao lavatório lavar a cara e os dentes. Sempre em rigoroso silêncio, que na camarata era ainda mais exigente.  

Os mais apressados já estavam na formatura para a igreja, não sem antes pedirem a bênção ao Prefeito, beijando-lhe a mão. Este, aos que eram da sua predileção, geralmente dispensados de varrer o Colégio, por serem encarregados, nomeados por si, retribuía com um sorriso, ou dizendo umas graças. Aos outros estendia, impassível, a mão para a beijarem.

Dentro do rol dos sacrifícios, havia o duche em água gelada, ao sábado, fosse inverno ou verão, pois não havia em todo o Colégio água aquecida para os angélicos. 

Ninguém podia apresentar-se diante dos outros em roupas interiores.  Os banhos eram devidamente vigiados, em compartimentos fechados, com chuveiro individual e com o tempo controlado, não fosse algum angélico aproveitar o tempo para coisas indecentes.

Outro pecado que não constava da minha lista e que agora era considerado o mais grave, pois acarretava quase sempre imediata expulsão, eram as chamadas «amizades particulares». 

Os Prefeitos andavam sempre à cata dos incautos. Era perigoso ser amigo de alguém, a não ser do Prefeito. Nos meus inocentes 12 e 13 anos andava distraído com os jogos, a que sempre aderia por gosto e nunca fui acusado por isso. 

Porém, alguns meus colegas que não gostavam muito de jogar à pela, bandeiras, andebol ou voleibol, foram bem incomodados. 

Aliás, as restrições à livre circulação eram evidentes: 

- 112 - 

  • era proibido falar com os padres ou irmãos; 
  • era proibido andar apenas dois alunos; 
  • era proibido  sair campo de recreio; 
  • era proibido gozar  a bela  sombra das árvores da mata;
  •  era proibido ir buscar as bolas, quando estas passavam a rede para os castanheiros do fundo; 
  • era proibido ir à camarata ou ao sótão,  durante o dia; 
  • era proibido ficar muito tempo a tomar banho,
  •  e, até se vigiava o tempo que o aluno   demorava na casa de banho.

Cenário 3 [Salão de estudo] 

 
No salão de estudo, enfileiravam-se as cerca de 200 cadeiras individuais, com uma tampa que  levantava, resguardando um compartimento, onde  se colocavam os livros e os cadernos.

 Todos  os  sábados, devia fazer a limpeza à minha carteira,  deixá-la aberta para trás, para que o Prefeito passasse revista.

  Aliás, fui conduzido a este salão  tal como tinha entrado: atrás dos outros

Na minha qualidade de n° 27  que o Prefeito baptizou de Caboz, coube-me uma carteira, onde guardei os  livros emprestados pelo Colégio, alguns já meio desfeitos. Os cadernos eram adquiridos pela   Prefeitura e englobados nas despesas gerais, a enviar trimestralmente aos meus pais.  

No sótão, onde se guardavam as malas, o ritual foi um pouco diferente. Apenas tinha trazido um grande saco que minha mãe retirara do enxoval    e recebi uma mala velha do comum, onde depositei a roupa que trazia.

- 114 - 

Mas a arrumação não ficou por aqui. Deram-me ainda o lugar n° 27 no refeitório, na capela, na camarata e no cacifo aberto do salão de recreio para guardar o calçado e na formatura depois de o  medirem a rigor e ir ao corte de cabelo, segundo as normas do Colégio.

 Sob a jurisdição de um angélico mais velho, o padrinho, aprendi a fazer a cama. Com o inverno à porta, faltavam-me os cobertores e a colcha,  que eram caros.

 A conselho do preceptor, lá me dirigi novamente ao comum, onde me arranjaram um cobertor de papa e uma colcha meio desfiada. Não era suficiente, mas com a roupa de vestir a fazer peso aos pés e um pijama de flanela, lá me fui aguentando. 

Em altas camaratas viradas a sul e a poente, rasgadas por amplas janelas, onde o vento era rei e senhor e sem qualquer conforto, só o Menino Jesus que presidia no meio da camarata ao sonho dos angélicos, ao colo de Santo António, não tinha frio, porque era de pedra!

- 113 - 

Cenário 4 [Sala de aulas] 


As salas de aula,  de inverno, viradas a norte,  eram outro suplício. Desconfortáveis, com pavimento de cimento e sem qualquer aquecimento, largas janelas mal calafetadas e que deixavam entrar o frio e a chuva gélida vinda dos lados da serra da Espinheira. 

Sem agasalhos suficientes, tiritava de frio. Nem a calça de pijama e dois pares de camisolas de interiores que trazia às escondidas, por debaixo da bata castanha, às riscas, que era o uniforme em dias de semana, me valiam. 

E o inesperado aconteceu: numa das aulas , o professor que era ao mesmo tempo de Música e de Matemática, bem nutrido, aliás dos poucos que se dignavam rir para os alunos, mas que, quando se zangava, dava estalos de arrombar a cara ao mais valente, pôs-me em plena aula o epíteto de «engelhado». 

- 113 - 

Foi uma risota para os outros colegas, geralmente mais bem enroupados que eu. 

Um acidente inesperado veio em meu socorro: um colega, ruído de saudades, fugiu do Colégio, de noite, e seguindo pela via férrea, foi desembarcar sozinho e a pé, à estação de Nine, sua terra natal. Por sorte, deixou o sobretudo.

 Estava regulamentado que quem abandonasse o Colégio, não tinha direito ao enxoval, ficando para o comum: desta vez, fui o beneficiado.

 Depois de suplicar humildemente e de apanhar o sermão do costume, sobre o enxoval que devia ter trazido e não trouxe, lá me dispensaram o sobretudo.

Mas não foi tudo. Em lugar dos sapatos pretos do uniforme, tinha trazido apenas dois pares de botas pretas, dadas pelo meu padrinho, sapateiro, que me recomendou que as engraxasse para passarem por sapatos. 

Na revista da quinta feira e domingo era um castigo! Com os alunos alinhados militarmente, eu bem me escondia atrás dos outros, para que o Prefeito não me visse as botas. A princípio, ainda passava, porque as calças encobriam; mas quanto mais crescia, mais se viam as caneleiras das botas. 

Sistematicamente, era rejeitado para o passeio e aos domingos levava uma descompostura, ou o castigo de ficar a varrer o salão.

- 114 - 
(Continua)

Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto:  Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 109-114  (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parêrnteses retos, bold, itálicos, título: LG)


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Nota do editor LG:


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27609: In Memoriam (567): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): "Maldita pátria amada, odiada, esquecida, / e quase sempre perdoada, / que tantos filhos pariste e rejeitaste!" (Luís Graça)



Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > O Horácio Fernandes e, em segundo plano, à esquerda  o Jaime Silva. (A Tabanca de Porto Dinheiro não existe mais, desde que morreu o seu régulo, o Eduardo Jorge Ferreira, 1953-2019).


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
Vista da tasca da Ti Augusta, sobranceira à praia e ao mar 


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
Embarcações de pesca artesanal, todas cokm nomes de... mulher


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
A tasca da Ti Augusta,  na altura explorada por um filho, sargento da marinha reformado.


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > Tasca da Ti Augusta > 
A famosa sopa de navalheiras.

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados 


Praia do Porto Dinheiro

por Luís Graça

À memória dos meus antepassados Maçaricos
marinheiros, mareantes, navegantes, mariscadores
pescadores, peixeiros, mercadores, missionários, 
construtores navais... desde Quinhentos

Ao António Fernandes (Patas, também Maçarico)
último construtor naval de Ribamar, Lourinhã,
que irá morrer na Califórnia, talvez nos anos 50.

E ao seu neto, e meu primo e camarada,
Horácio Fernandes (1935-2025).
capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor de "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)

Porto Dinheiro:
um espesso nevoeiro cobre as falésias e os caniçais.
Até aqui 
chegavam,   à tua praia, as galés dos romanos
e os barcos dos piratas de perna de pau.
Não sei se o sítio tem padroeiro ou orago, 
mas por certo que por aqui passava o caminho atlântico 
de Santiago.

Aqui deito contas à vida,
aqui conto as marcas do tempo,
aqui lanço a âncora para escrever o meu testamento vital.
Aqui fui carpinteiro de naus,
aqui, Plínio, o Velho,
poderia ter fundado a paleontologia.
Mas, não: morreria em 69 depois de Cristo 
a observar a  erupção do Vesúvio.

À tua esquerda, a praia do Valmitão.
Ou do Vale do Ermitão.
Podia ter sido ilha de corsário ou baía de tubarão,
mas a ter bandeira, só a preta, com caveira.

Porto Dinheiro:

Horácio Fernandes
(1935-2025)
Finisterra, p
órtico do tempo, 
és gare, és algar,
porto dos portos das Atlântidas perdidas!

Foste estaleiro de vasos de guerra,
galeões, naus e caravelas
por haver ou nunca havidas,
diz o livro do almoxarife.

Hoje já não se constroem mais catedrais
nas tuas fossas submarinas
nem moinhos de vento  no teu recife de corais,
nem traineiras de grosso cavername
nas rampas das tuas arribas fósseis.

Dóceis são as ondas com que afagas
a pele e apagas
a púbis das raparigas.

Porto Dinheiro: 
o irresistível apelo das algas
que são as hormonas do mar,
espigas, chicotes, valquírias, ninfas, najas, canibais,
que vêm do fundo dos tempos imemoriais
para seduzir os filhos dos homens,
inebriar as suas almas, 
enlear os seus corpos.

Ah!, quantos dos teus não ficaram insepultos
a muitas milhas náuticas de casa!

Porto Dinheiro, Ribamar, Porto das Barcas, Atalaia, Lourinhã:
tens a tua quota-parte na história trágico-marítima de Portugal.
entre 1968 a 2000,  Hades, o rei dos infernos,
contabilizou seis naufrágios de barcos de pesca
e neles morreram três dezenas dos  teus filhos:
Deus é Pai, Certa, Altar de Deus, 
Arca de Deus, Amor de Filhos, Orca II...

Há ainda olhos que perscrutam a linha do horizonte
e rasgam a colina de neblina, por detrás das Berlengas.
O Mar do Cerro, dizia o meu velho.
É de lá que vêm piratas e corsários, 
monstros, mostrengas, adamastores,
dissauros, loucos menestréis, 
contadores de lendas, mouras encantadas, 
mercadores, invasores, conquistadores,
vikings e outros predadores... 

E os bretões com os seus barcos a vapor, 
que vinham aqui pescar lagostas entre as duas grandes guerras,
mais o Bateau ivre, do Rimbaud!

É de lá, do mar fundo,  que vêm os portadores da peste…
Mercator ergo pestiferus, de que Deus nos livre!

Deste nomes de fêmeas aos teus barcos que são machos,
máquinas fálicas de lavrar e violar
o vento, a água, o ar,
Jessica, Mafalda, Sofia,
Inês, Patrícia, Maria.

Porto Dinheiro:
formidáveis muralhas de palavras e moluscos
emparedam-me vivo
na canícula desta tarde de verão.
em que espero em vão 
os mercadores fenícios,
as legiões romanas, 
devidamente equipadas e alinhadas nas suas galeras,
ou as hordas bárbaras, teutónicas, a cavalo, blindado.
Ou, cara ou coroa, 
o simples mensageiro da paz,
o carteiro que me há-de trazer a carta a Garcia,
com a solução alquímica da vida
ou o algoritmo da felicidade
ou a password do sítio 
A gruta de Alibabá e os 40 ladrões.


Porto Dinheiro:
estou sentado na esplanada da tasca da Ti Augusta,
que eu ainda conheci em vida,
depois de saborear uma sopa de navalheiras,
e comer uma posta de arraia frita,
e beber um copo de branco, em vidro fosco e grosso,
recuando ao tempo dos meus avoengos Maçaricos
que tinham tempo e vagar para viver e morrer cedo.
E eram pescadores de moreira e safio.

E aqui penso em como a vida às vezes é tão simples,
se descartada da econometria, 
da sociometria 
e da psicometria…
e da geometria variável do poder.

Dizem que aqui reinou o rei Midas,
o mesmo que transformava lagostas e algas em barras de ouro.

Porto Dinheiro,
dos casais por detrás das tuas colinas,
onde a tua gente se escondia dos piratas e corsários,
até ao mar imenso,
por aqui andaram, Horácio,  os nossos antepassados.


Um dia há de desaparecer nas Américas

o último carpinteiro de naus, 

António Fernandes
 (c. 1890 - c. 1950)
caravelas e traineiras.
Não sobreviveu à industrialização da construção naval
nem à crise do capitalismo dos anos 20.
Já não te lembras dele.
Nem ele chegou a ver netos 
nem filhos com barba,
morreu longe, na Califórnia, 
na diáspora, no exílio, no desterro.
Nunca mais voltou nem deu notícias.
Era Patas e era Maçarico, meu parente, 
teu avô, Horácio.

Maldita pátria amada, odiada, esquecida, 
e quase sempre perdoada,
que tantos filhos pariste e rejeitaste!

Luís Graça (18/11/2011). Revisto em 5/1/026

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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69)

Vd. poste de2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27595: In Memoriam (565): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): Do Colégio Seráfico a Capelão Militar do BART 1913 (Catió, 1967/69) (Beja Santos)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27607: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte II: A escola primária e a comunhão solene


Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025)


António Fernandes (Maçarico), avô paterno do Horácio. Era filho de Maria da Anunciação (Maçarico) e de Manuel Fernandes. Deve ter nascido em finais do séc. XIX e emigrado para a América nos anos 20. O Horácio nunca o chegou a conhecer. Foi o avô materno, o Ti João das Velas de Santa Bárbara, sacristão, quem marcou a sua infància, e o apoiou na sua decisão de ir para a escola primária e depois para o seminário, única forma de escapar à pobreza naquele tempo. (Ediçãp da foto e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio - Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor. 2002, pag.132. 



1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes.

No capº 4º, ele narra e comenta em 3 dezenas de páginas a sua história de vida.  No poste anterior,  ele apresentou-nos. sucintamente,   a sua terra, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e  o avô materno  (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesai, o Ti João das Velas de Santa Bárbara)... 

O avô paterno, Fernandes (Maçarico),  nunca o chegaria a conhecer: quando disse a Missa Nova, em 1959, ele já tinha morrido na América.

É uma história de vida, bem dura, em tempos muito difíceis, que merece ser conhecida dos nossos leitores. O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46,  cpmpletou a 4ª classe e seguiu para o seminário dos franciscanos (em Montariol, Braga). A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica  

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].

Francisco Caboz é o "alter ego" do Horácio Fermandes, entretanto falecido, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos). (O livro está esgotado.)

O Horácio Fernandes  seria ordenado padre em 1959. Foi capelão  no exército e na marinha mercante. Deixou o sacerdócio em 1972. Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavóis. Maria Augusta e Maria da Anunciação (nascidas na década de 1860) eram irmãs, e pertenciam ao clã Maçaricos.


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte II:  A escola primária e a comunhão solene (1942-1946)

por Horácio Fernandes


3. Quando fiz sete anos    entrei para a escola, porque, não obstante fazer falta para tomar conta de minha irmã, doente cardíaca, esse o desejo de meu avô. Alimentava a esperança de ter um neto padre e insistiu com o meu pai.

 Aliás, eu não tinha sido habituado às lides do campo nem do mar, porque, como mais velho, tinha de tomar conta dos irmãos: aos dias de semana, paira a minha mãe trabalhar no campo e ao domingo ir à missa.

Na terceira [1944/45] e quarta classe [1945/46] , as coisas mudaram. Veio uma professora oficial de Lisboa e foi morar na residência anexa à escola, construída pelo povo. Vivia sozinha com sua mãe e um cãozinho de luxo.

 Meu pai, quando matava o porco, ou trazia um peixe melhor, mandava-me levá-lo ao Senhor Prior e à professora, cuja mãe me mimoseava com um pacotinho de bolachas.

Uma vez, faltou dinheiro da Gaixa Escolar, que era para ajudar os alunos mais pobres a comprarem o material escolar, e a professora interrompeu imediatamente as aulas. 

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Como dissemos no 2° capítulo, e em síntese, o sistema educativo salazarista não tinha preocupações de qualidade. Na sua lógica de privilegiar a doutrinação sobre a qualificação pedagógica (...), arregimentou pessoas de «bons costumes», a quem não exigia habilitação escolar para além da 4ª classe, a quem deu o estatuto de «regentes». (1)

Interessado apenas na alfabetização e não na escolarização, o regime investiu nestas figuras, a quem pagava pouco, mantendo-as mais facilmente na subordinação. 

Em Arribas do Mar, numa escola construída pelo povo, em 1932, houve apenas «regentes» até 1944, que ministravam a 1ª, 2 e 3ª classe. 

Quem quisesse tirar a 4ª  classe tinha de andar todos os dias 16 quilómetros [Lourinhã, ir e vir] , sem estradas nem meios de comunicação.

(1) Decreto n° 20604, de 30 de novembro de 1931.

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Os alunos ficaram aterrados e todos se interrogavam de quem seria o culpado. Como ninguém se acusasse, a professora usou o seguinte estratagema: deu meia hora de intervalo para que o culpado fosse buscar o dinheiro e depois obrigou os alunos a desfilarem, um de cada vez, com as janelas fechadas, para que o culpado repusesse a importância subtraída na respectiva Caixa. 

No fim desta operação, felizmente para todos, a importância estava reposta. Reuniu os alunos e disse-lhes:

«O que tirou o dinheiro e o repôs, até agora só reparou metade do pecado que cometeu. Agora tem de se ir confessar ao Senhor Prior, para que Deus lhe perdoe.» 

A tarde, levou todos os alunos à confissão.

A vingança dos que abandonavam a escola, também não se fez esperar. Passado um ano, começou a ir lá aos fins de semana outro professor de Lisboa namorá-la. Como era de baixa estatura, os 'rapazes vingavam-se nele, chamando-lhe «rapazeco» e correndo atrás dele e gritando, como faziam os maiores aos mais pequenos: «capa-se ! capa-se!».

À quarta feira, tínhamos catequese na escola e, ao sábado, aulas de Mocidade Portuguesa. A professora passava revista às nossas cabeças e às mãos. Se não estivessem limpas, ela própria fazia a limpeza.

Não se importava que fôssemos descalços, ou remendados, mas tínhamos de ir limpos. Se não fôssemos, não nos deixava entrar, e não se contentava com as desculpas da mãe do aluno e obrigava o pai, ao outro dia, justificar a falta. Na terceira e quarta classe, ao fim do dia, levava-nos para casa e dava-nos aulas até ao entardecer e de Inverno pela noite dentro.

Nas revisões para os exames, dava um pacote de 5 bolachas a quem lhe fizesse 5 problemas certos e quem não desse erros, dava reguadas aos outros. Eu combinava com o meu primo, que era bom a problemas, mas fraco a ditados.Por isso, eu, que não dava tantos erros, batia-lhe com pouca força e ele dava-me bolachas.

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A  primeira e segunda classe de Francisco foram atribuladas. Estava-se em 1942. As professoras «regentes» faltavam muito e ensinavam pouco. Com o mísero vencimento que auferiam (2) tinham de prover à subsistência da sua família e dar aulas de manhã aos rapazes e de tarde às raparigas da 1ª, 2ª e 3* classe.

Quem valeu a Francisco foi a «Menina Luísa», que tinha sido governanta do Senhor Prior e levava as crianças para casa para as ensinar. Como morava perto da sua casa, ia para lá todas as tardes fazer cópias e contas, pagando o seu pai com o melhor peixe do seu quinhão.

No ano lectivo 1944/45, Arribas do Mar passou de Posto Escolar para escola oficial e foi criado um lugar do quadro para uma professora. Chamava «paraquedista» à «regente» escolar que a antecedeu e assumiu-se como o 'alter ego' do Senhor Prior (3). Autêntica «missionária», a escola com ela era a fiel reprodutora do 'construtum' salazarista.

Cada lição do compêndio era reforçada com um sermão, sobre as obrigações de cada um para com Deus e seus representantes: pais, professores, padres e autoridades. Às quartas feiras à tarde, não obstante o atraso no programa, ministrava aos alunos a catequese para a comunhão solene. A escola era complemento da catequese.


 (2) «Se os regentes escolares que recebem 250$00 mensais, exceptuando as férias grandes, recebessem todo o ano, seriam equiparados a auxiliares de limpeza e guardas das sentinas da Ex.ma Câmara do Porto e ficariam abaixo dos varredores de 3ª lasse que auferem uns 330$00» (Dr. Pires de Lima, 1942,/« SAMPAIO, 1976: 200).

(3)  Ver Pinto, "Professor da Escola do Magistério do Porto", s.d.

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Começava com muitos alunos da terceira e quarta e no meio do ano já nem estavam metade. Os outros iam-se espontaneamente embora, mas ela também não fazia nada para os reter, porque dizia: «não quero cá os burros». 

À custa da régua, cana e bater com a cabeça no quadro decorávamos todos os caminhos de ferro, rios e serras do Continente Ilhas e Colónias, mesmo sem saber onde se localizavam. 

Todos os dias esperávamos por ela no alpendre da escola, às 9 horas em ponto, e saudávamo-la em silêncio, estendendo o braço à lusito, com um «Bom dia Senhora Professora !». Depois, em fila militar, entrávamos no átrio coberto, que antecedia a sala de aula, cantando em coro o hino da Mocidade Portuguesa: «lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim (...)».

Ficávamos de cabeça baixa e olhos no chão, quando, depois das orações, chamava alguém ao quadro. O silêncio era de morte. Quando ela dava um sorriso, o que era raro, parecia que era dia de festa. O sinal exterior de que algo estava a correr mal era uma veia saliente que tinha junto aos olhos. Quando crescia, era sinal de tempestade.

Das poucas vezes que a vi sorrir, foi quando foram anunciados os resultados do exame da 4`ª classe, realizados na Lourinhã e passaram os cinco alunos que levou a exame, dos 8 que tinham começado a 4ª classe. 

Mas foi sol de pouca dura, porque ainda faltava o exame para a Comunhão Solene que ia ser feito pelo senhor Prior e ela dava-lhe tanta ou mais importância, que ao da quarta classe.

Perguntava, muitas vezes, quem queria ser padre e tinha uma devoção especial por Santo António de Lisboa. Quando tinha algum tempo livre, lia-nos as vidas dos santos da sua devoção.

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Entregou-se totalmente à escola e aos alunos. Exigente, cumpridora, católica devota, tomou sobre os seus ombros civilizar aquela gente ainda rude. 

No primeiro ano em que entrou, para conseguir mais um lugar de «regente», matriculou 88 alunos, da 1ª à 4* classe (4). Contudo, efectivamente começaram as aulas apenas 43 alunos: 26 da primeira e segunda classe e 17 da segunda e terceira classe. 

Os rapazes eram obrigados a vestir bata castanha e as raparigas bata branca.

No ano seguinte foi criado, mas não preenchido, mais um lugar de «regente» em Arribas do Mar. A professora ficou novamente sobrecarregada com 65 alunos, dos quais 17 fizeram exame: 12 do primeiro grau e 5 do segundo grau. 

Toda a gente a temia, mais que ao Regedor ou ao Cabo de Ordens, naturais de Arribas do Mar.

Muito reservada, dava-se apenas com duas ou três famílias, sendo intransigente quanto ao que chamava as «obrigações».

A escola elitista do regime seleccionava os «melhores», prefigurando uma sociedade, em que os pobres, submissos e dependentes,  eram alimentados dos valores simbólicos que os «eleitos» administravam. Para isso, recrutava dos meios rurais matéria-prima, que depois de estruturada pelo 'habitus' (cap. 3º ) e com o patrocínio dos «melhores»,  os benfeitores, iriam reproduzir os valores do sistema. Em contrapartida, adquiriam novo status social. 

Dos 4 rapazes e uma rapariga, que com Francisco fizeram o exame da 4ª classe, três foram para o Seminário e um para pescador. A única rapariga foi para costureira.


(4) Números retirados do Registo da Vida Oficial do Professor Primário, organizado por Manuel Pinto de Sousa, 1930. Porto (documento preenchido pela professora).

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto:  Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 106-108  (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, paraènteses retos, bold, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27598: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte I: Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno)

sábado, 3 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27598: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte I: Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno)


Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025)

Lourinhã > Ribamar/Porto Dinheiro ou Atalaia/Porto das Barcas ? > c. 1920 > A família Maçarico tinha um estaleiro de construção naval, em Ribamar. Com a industrialização e a modernização dos estaleiros navais, o avô paterno do Horácio Fernandes acabou por emigrar para a América, nos anos 20.  Nunca mais voltou nem deu notícias, deixando na terra a mulher e três filhos menores, entre eles o pai do Horácio.  Soube-se, muito mais tarde (por volta de 1959, quando o Horácio estava para ser ordenado padre e o seu passado da família foi escrutinado, por denúncia)  que já tinha morrido na Califórnia.

Fonte: Cortesia do Espaço Museológico de Ribamar: Olhar o Mar (Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. Na sua dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), Horácio Fernandes descreve, nas páginas 102-106,   a sua terra, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã, que é também a terra da minha bisavó paterna, Maria Augusta (Maçarico) (1864-c.1938), que era irmã da Maria da Anunciação, bisavó paterna do Horácio].

Descreve igualmente as 3 figuras da família que o marcaram: o pai, José Fenandes Nazaré;  a mãe, Elvira Neto; e o avô materno, sacristão  (nascido por volta de 1875)... 

O avô paterno, António Fernandes (Maçarico),  nunca o chegaria a conhecer: quando oo Horácio disse a Missa Nova, em 1959, ele já tinha morrido na América, na Califórnia. Foi um dos últimos construtores navais de Ribamar.

O Horácio nasceu em 1935. É uma história de vida, bem dura, em tempos muito difíceis, que merece ser conhecida dos nossos leitores. 

 A maior parte de nós, que nasceu já dez ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica (aqui resumida, na sua dissertação de mestrado,  em pouco mais de 3 dezenas de páginas). 

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].

Francisco Caboz é o "alter ego" do Horácio Fermandes, entretanto falecido, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos). (O livro está esgotado, não sei se os herdeiros terão intenção de fazer uma 2ª edição ou reimpressão.)

O Horácio Fernandes vestiu o hábito franciscano, tendo sido ordenado padre em 1959. Foi capelão  no exército e na marinha mercante. Deixou o sacerdócio em 1972. Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro.

Lourinhã > c. 1920 > Alvarina de Jesus Sousa, da família Maçarico. Morreu em 1922, de tuberculose, a terrível doença da época. Era filha de Francisco José Sousa, da Lourinhã, comerciante de peixe, e de Maria Augusta, de Ribamar.



Maria Augusta de Sousa  (Ribamar, 1864- Lourinhã, c.1934). S/ d.

A  avó materna do meu pai Luís Henriques (1920-2012), Maria Augusta, nasceu em 28 de outubro de 1864, em Ribamar, ou melhor, em Casais de Ribamar, hoje integrados na vila de Ribamar. Pertencia ao clã Maçarico: filha de Manuel Filipe e Maria Gertrudes. ( A sua ascendência está documentada até, pelo menos, a meados do séc. XVIII.)  

Veio a  casar na Lourinhã, com um peixeiro, Francisco José de Sousa (1864-1939). O casal teve 7 filhos.   Terá morrido com “cerca de 88 anos”, segundo o meu pai, ou seja no início dos anos 50, o que ponho em dúvida. Já li ou ouvi  algures outras datas: 1920, 1934…

Fotos: arquivo da família.

 

Excertos da dissertação de mestrado "Francisco Caboz: de angélico ao trânsfuga: uma autobiografia" (FPCE / UP, 1995) 

CAPITULO 4º - A CONSTRUÇÃO DA VOCAÇÃO, A MISSÃO E A DESCONSTRUÇÃO DO HABITUS (pp. 102-136)


Parte I -  Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno) (pp. 102/106)

«Casinha de pobre,
Lareira de altar,
Borralho quentinho
E tudo a rezar. »

 (Afonso Lopes Vieira)

(...) "Este capítulo tem um registo assumidamente duplo: é fenomenológico, biográfico, no tratar a vida de Francisco Caboz, tal como ela foi vivida por si e dita; é sociológico, analítico, na medida em que é significativa de uma ordem económica social e política. Da dialéctica das duas resultará, porventura, a nosso ver, a proficuidade do método que utilizamos." (...) (pág. 102)


1- Arribas do Mar

Arribas do Mar, aldeia de Francisco Caboz, estava predestinada a ser viveiro de três vocações sacerdotais nos anos 30/40. Isolada entre dois concelhos «saloios», Lourinhã e Torres Vedras, a agricultura de subsistência e a pesca sazonal eram os seus únicos recursos.

Lisboa, que distava 50 Km, ficava muito longe, já que as estradas que lhe davam acesso eram intransitáveis e o percurso inseguro, sujeitos os transeuntes a frequentes assaltos. Só a pé ou a cavalo é que era possível transpor tão curta-longa distância. O mar era a única saída possível.

Sempre com o credo-na-boca se o mar embravece, esta gente é ao mesmo tempo desconfiada, crente e devota. Quase todos analfabetos, prostam-se e veneram, temendo alguém que é mais do que eles e que constantemente os ameaça. Santos, bruxos, mulheres de virtude, todos são requisitados em marés de azar: doenças dos homens e dos animais, do corpo e da alma, amores estragados e maresias.

A escola existia, mas secundariamente em relação à omnipresença do Mar: o mais importante era saber:

  • fazer um "côvo" para apanhar lagosta, lavagante ou navalheira;
  • fazer um camaroeiro e uma sartela para atrair o peixe na maré vazia;
  •  consertar uma rede;
  • medir os fundões em braças;
  • lançar a poita;
  • manejar a vela, o remo e o leme;
  •  «safar a tralha», o que não se aprendia nos bancos da escola.
A aldeia de Francisco era, digamos assim, a realização nas suas potencialidades mais substantivas do salazarismo, enquanto projecto político: imobilismo social, pobre, conformada, trabalhadora, disciplinada vivendo o quotidiano ao ritmo do anti-quotidiano (...).

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2. A família de Francisco



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(Continua)

(Seleção, edição, revisão / fixação de texto, título: LG)


Capa da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto:  Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, 147 pp. (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).