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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos


Lourinhã > Ribamar > c. 1959 > Da esquerda para a direita  os então padres franciscanos (Ofm - Ordem dos Frades Menores)  Horácio Neto Fernandes (1935-2025) e Júlio Alberto Maçarico Fernandes (1934 -  falecido, no Canadá, em data desconhecida)


De acordo com o   "livro da família Maçarico", tanto o Horácio  como o Júlio eram meus parentes: no caso do Horácio,  as nossas bisavós paternas, Maria da Anunciação e Maria Augusta,  nascidas por volta de 1860, eram irmãs;  no caso do Júlio, o  seu avô materno, Manuel Filipe Maçariço, era o primeiro dos cinco irmãos, machos, da Maria da Anunciação e da Maria Augusta.  
Um outro irmão do clã Maçarico foi  José Martinho.



 José Martinho ficou conhecido por Frei José de Cristo (Ribamar, Lourinhã, 1861 - Varatojo, Torres Vedras, 1937). Vestiu o hábito aos 16 anos, em 1888, iniciando assim o Noviciado. Trabalhou e deixou obra artística em vários conventos  (Montariol, Braga; Colégio de Tuy, Galiza; Varatojo, Torres Vedras) como carpinteiro-entalhador, arte que já vinha da famíla. Morreu aos 76 anos, com quase meio século de vida religiosa. Era tio-avô do Júlio, e tio-bisavô do Horácio (e meu...). 

O Júlio foi missionário, OFM, em Moçambique (João Belo, Mavila, Zvala, Maxixe). Regressou à metrópole em 1970. Saiu da ordem, franciscana, nessa altura. Emigrou para o Canadá, lá casou e lá morreu, em data que desconheço.

Fui de resto à missa nova de ambos, em agosto de 1959, com uma semana de intervalo. Eu tinha 12 anos. Lembro-me da terra (casas, ruas...) toda engalanada com ramos de palmeira, eucalipto, flores, numa alegria indescritível. Ainda não havia igreja, na altura Ribamar nem sequer era freguesia. Começava-se a ganhar bom dinheiro com a pesca da lagosta. E os filhos da terra deixaram de ir para o Varatojo, começavam a estudar no Externato Dom Lourenço, na sede do concelho, Lourinhã, inaugurado em 1958.

Há um quarto Maçarico, o João Maria Maçarico, nascido em 1937, que também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico.


Ribamar da Lourinhã era uma terra vizinha de Varatojo, sofrendo portanto a sua influência. A restauração da Província Portuguesa da Ordem Franciscana ou dos Frades Menores (OFM) oficializou-se no final de 1891, após a extinção das ordens religiosas em 1834. Embora tenham sido expulsos, os franciscanos organizaram o seu regresso progressivo, celebrando o 1.º centenário desta restauração em 1991. Mas em 1888 o "Maçario" José Martinho já era noviço no Varatojo.

A família Maçarico tinha tradição na arte da construção naval e da capintaria. (LG)

Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002,  pag.123.

PS - Américo Maçarico (foto à direita, acima),     que era 1º ten ref da Armada, morreu  aos 80 anos, em Ribamar, em finais de 2024.  Nasceu em Ribamar, em 1943. Fez diversas comissões no ultramar:   Angola (1964/66), Moçambique (1967/69), Timor (1972/74).Tinha mais de 41 anos de serviço na Armada. Passou à reserva em 1999.


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 

No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  seis postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em 1959).

(vii) até ser mobilizado para a Guiné, em 1967, ele conta-nos, muito sucintamente, o que foi a sua vida. 


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Testemunho de uma época. Autópsia de uma "total institution" que eram os ainda os seminários das ordens regulares, e nomeadamente da Ordem dos Frades Menores (OFM): Montariol / Braga, Varatojo / Torers Vedras, Leiria, Carnide / Lisboa...

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga. 

Até ser ordenado padre,  passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre,  ainda antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã. 

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e  Estado Novo (1926-1974).

14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.


Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro.  




História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII:   Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

por Horácio Fernandes


4. 5. Ordenação e Missa Nova (12)

Seis meses antes, juntamente com mais 4  colegas, entre eles o meu primo (13), comecei a aprender as cerimónias da Missa, com a ajuda de um Mestre  de Cerimónias. 

Não cabia em mim de contente. Ia  ser a minha verdadeira entronização em Arribas do Mar [lRibamar, Lourinhã], perante os olhares atónitos daquela gente. 

A cerimónia na Sé Catedral de Lisboa, com  a assistência dos meus pais e de muita gente de  Arribas do Mar, foi o primeiro passo de uma corrida  alucinante, que ia durar todo o mês de agosto de  1959. 

Depois, foi a primeira missa no convento [na Luz, Carnide, Lisboa], com  os recém-ordenados. Todos queriam participar e  beijar-me as mãos, ainda recém-ungidas e sentia-me  importante. 

De casa recebia cartas a revelar-me todos os  preparativos da grande festa. O meu primo  [Júlio Fernandes],celebraria num domingo e eu no seguinte. Uma  festa não ensombrava a outra. A minha festa, asseguravam-me, era mais de todo o povo.

- 124 -

A Missa Nova, na minha terra, foi além de todas as expectativas. A cerca de um quilómetro de distância, foi toda a população esperar-me com foguetes e procissão a preceito. 

Estavam presentes as autoridades da terra e o meu padrinho de Missa Nova foi o Presidente da Câmara [João Ferreira da Costa, presidente da edilidade, entre 1958 e 1970].    

A missa foi cantada, pelos meus colegas que vieram acompanhar-me. O significado foi maior, porque foi no local da futura igreja, com toda a solenidade. A minha família era cumprimentada por todos e recebeu também as honrarias. Eu nem sabia para onde me havia de voltar, com tanta gente a querer beijar-me a mão de recém-sacerdote.

Seguiu-se o almoço para dezenas de convidados, no recinto, à frente da minha casa toda engalanada e servido pelas pessoas da terra. As despesas foram todas cobertas com ofertas do povo de Arribas do Mar. 

Não me enganara. O povo aderiu entusiasticamente. Tudo se conjugou, portanto, para ser uma festa de arromba. Dormi essa noite em casa dos meus pais, mas ao outro dia vieram buscar-me. 

Regressava agora ao quotidiano do ser padre.

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Nota do autor:

(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado

Nota do editor LG

(13)  Falhou esta nota de riodapé. O primeiro era o Júlio Alberto Maçario Fernandes, que seria missionártio OFM em Moçambique, até 1970.

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4. 5. Depois de 13 anos de inculcação do 'habitus' sacerdotal, Francisco com 23 anos feitos já não era o jovem tímido de fato preto e chapéu na cabeça, mas sentia segurança da própria legitimação.

Francisco assumia que foi escolhido e  ungido para sempre (Tu es sacerdos in aeternumentre 47 companheiros e detinha o poder simbólico de administrador do sagrado: perdoar pecados, fazer filhos de Deus pelo baptismo, celebrar a Eucaristia, pregar a palavra de Deus.

Tinham-lhe inculcado que a sua presença era requerida pelos pobres pagãos, que lá longe, em África, pediam, suplicantes, a graça do baptismo para poderem ir para o céu. Sem pensar em compensações terrenas, havia de ser querido pelos fiéis e combatido pelos infiéis, por ser o representante da Santa Igreja «a Nossa Mãe".

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As representações de criança transformaram-se em realidade e não obstante o duro caminho que teve de encetar,  sentia-se recompensado.

À medida que se aproximava o momento da Ordenação, Francisco sentia todo o protogonismo de quem tinha sido vencedor. Tinha conseguido ser o herói não só do seu avô, como dos devotos que tinham confiado nele.

Afinal era a mesma geração que o viu ir para o Seminário, agora mais amadurecida e com mais dinheiro. O povo de Arribas do Mar, culturalmente, mantinha ainda a subordinação ao sagrado, embora estivesse a dar os primeiros passos na senda do progresso económico. O motor substiuira a vela e os barcos de maior calado ganharam outra autonomia. Com a descoberta de novos bancos de pesca e equipados de novas tecnologias, as estadias de 8 e 15 dias em Sesimbra, Cascais, Setúbal e Algarve, abriram brechas no seu ruralismo fechado.

Francisco, alheado dos problemas sociais e vestido do seu duplo hábito, apenas via o povo cristão que era preciso alimentar da palavra de Deus. As suas representações do ser padre e missionário estavam ainda intactas. Afinal, pensava, tinha valido a pena tantos sacrifícios

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5.  Missão

A lógica da instituição era geralmente encaminhar os padres mais novos para os Colégios, os tidos como mais «observantes» (14)  para Mestres de noviços e coristas, e os restantes para as Missões. Para Prefeitos de Disciplina eram escolhidos os maiores domesticadores, sem qualquer formação em Pedagogia. Desta normalidade, ficavam de fora os favoritos na instituição, que, ou por mérito próprio, ou com algum patrocínio,tinha acesso aos saberes da Igreja, numa Universidade transnacional, trampolim mais directo para o poder.

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Nota do autor:

(14) Que, no discurso simbólico, significa, mais conformados com o 'habitus'.

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Francisco, pautado pela normalidade, nunca questionou as tarefas que lhe destinavam os Superiores. Construira, contudo, a par das suas representações simbólicas, o desejo de ajudar a família. O 'habitus', contrariamente ao estatuído, não tinha desenraizado Francisco da primeira instância de socialização. O sangue falava mais alto que o 'habitus'.

Verdadeiramente, Francisco nunca interiorizou que tinha deixado a sua família, e tinha se integrado na família institucional, onde foi domesticado. Nunca lhe deram o afecto e o carinho de uma família. Os superiores não eram os pais. Eram os chefes. A casa não era dele, por mais que no Noviciado e Coristado lhe tentassem meter isso na cabeça. Aí comia e dormia e passava a maior parte do tempo, mas isso não bastava para a considerar sua casa. Nunca encontrou aí um espaço familiar, mas um lugar em que alguém mandava e obrigava a cumprir os Regulamentos e os outros obedeciam, ou procuravam refúgio em famílias amigas.

 O poder sacralizado dos Superiores, envolto em cenários simbólicos de investidura medieval, nunca foram interiorizados por Francisco. A família religiosa, eclesial, nunca substituiu a geneológica. Desde que o desenraizaram das suas raizes familiares, viveu sempre órfão, agarrado às suas representações.

A missão trazia ainda o inevitável contacto com os problemas afectivos da vida real, que tão zelosamente tinham sido escondidos no Colégio Angélico,  Noviciado e Coristado. Os maiores clientes habituais de Francisco eram do sexo feminino, que procuravam na relação espiritual o alívio catársico e simbólico para as suas preocupações e angústias.

Contudo, o 'habitus', estava ainda vigilante qual Prefeito, embora imperceptivelmente fosse abalando as estrumas panópticas ab intra e ab extra.

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Cenário 1 - Professor no Externato,   Capelão de freiras nos dias úteis e servidor   de famílias ricas aos domingos.

O lugar que os Superiores me   destinaram, sem o mínimo de interferência da   minha parte, foi o de professor no Externato,  que funcionava no rés-do-chão do Seminário [em Leiria]

Fui incumbido de dar aulas de Ciências   da Natureza, disciplina em que tinha que estudar   mais que os alunos. Contudo, à força de   persistentes apelos à memória, os meus   alunos não fizeram má figura no liceu.  

Nos dias de semana, o despertar era às  7 horas e ia celebrar missa a um Colégio de  freiras. Ao domingo, levantava-me ainda mais  cedo, pois havia que celebrar missa para os  lados de Setúbal, numa quinta de pessoas muito importantes no meio financeiro (14A),.

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Sempre com a veste regulamentar e sandálias nos pés descalços, fosse inverno ou verão, apanhava o eléctrico até à Baixa, descia a pé até ao Terreiro do Paço e aí tomava o barco para Cacilhas. Depois era a camioneta para uma vila próximo de Setúbal  onde um empregado da quinta me esperava numa furgoneta de caixa aberta.

Cheio de entusiasmo fazia todos os domingos, e dias santos este percurso para; celebrar missa para meia dúzia de criados. Os patrões, a quem estavam reservados genuflexórios de veludo, só assistiam à missa, nas festas principais do ano, mas, assim, ficavam com a consciência tranquila.

No Natal e Páscoa pedia licença para ir um ou dois dias antes, pernoitando numa casa anexa dos hóspedes. Aproveitava para ensaiar cânticos com o pessoal da quinta. 

Numa festa de Natal fiquei muito admirado, porque pedi a uma filha dos senhores para acompanhar os cânticos ao órgão da capela e recebi, como resposta, que não acompanhava os criados.

Conservo, contudo, outras recordações: futuros pretendentes aos tronos europeus e embaixadores participavam nas recepções. Só foi uma vez convidado a estar presente e, não obstante a amabilidade de todos, senti-se usado como um adereço desnecessário.

Ao fim do mês era portador de um cheque para o Seminário, não sei de quanto; porque nunca abri o envelope. Por vezes, aparecia péla quinta um capelão militar, amigo do filho dos senhores, que cumpria o serviço militar, mas não me ligava. Alinhava com o filho do patrão a transpor obstáculos de terra batida, em jeito de diversão, onde os carros novos saiam todos amachucados. Conservo, sim, na memória, um ou outro  passeio, nas alamedas da quinta, de charrete,  com o filho do caseiro, a meu pedido.  

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Entretanto um pensamento me  perseguia: ajudar a minha família endividada. A primeira coisa que fiz, foi pedir uma entrevista ao Provedor  Misericórdia de Lisboa. Expus-lhe a minha   situação e consegui uma bolsa de estudo para a minha irmã, que tinha com grande sacrifício   de meus pais tirado o 2º ano e queria ser enfermeira. 

Entretanto, a mais nova, também   quis estudar. Como os meus pais não podiam  custear os estudos, arranjei uma família algarvia, sem filhos, que a recebeu. Pode assim estudar o 1 ° e 2o anos, sem nada pagar.  

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Nota do editor LG:

(14A) No livro de 2009, o Horácio Fernandes diz que se tratava da Herdade da Comporta.
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Cenário 2 -Prefeito de Disciplina no Colégio Angélico

 Entretanto, abriu outro Colégio Angélico na região Centro para captar novas vocações. Sob pressão das instâncias internacionais da Igreja (...),  os alunos passaram a fazer exame ao liceu, em regime de  ensino doméstico. Registei o meu Diploma do Ensino Natureza Particular no Liceu Nacional da cidade   [Leiria] e fui assumir o cargo de Prefeito aos 26 anos, tendo como Subprefeito um colega mais novo.

 No mesmo edifício havia ainda um asilo, onde era Director também um colega. Quando me nomearam,sem me consultar, tomei conhecimento que o Colégio  tinha um ano de experiência liceal, mas sem resultados satisfatórios, sobretudo a Ciências e Matemática. Era preciso reabilitar a sua imagem.

- 126 - 

O primeiro contacto com Colégio Angélico ficou-me bem marcado na memória. Comecei a receber umas cartas dirigidas ao «Senhor Padre Prefeito» e abri-as. Era a correspondência dos alunos para o meu antecessor. 

Abri uma ou duas e fiquei boquiaberto: os alunos, na sua inocência falavam de momentos de intimidade, que me deixaram estupefacto. Aconselhei-me com o colega e. a partir daí, todas as cartas dirigidas ao ex-Prefeito eram queimadas, sem as abrir.

Estava-se em 1962 e tinha 26 anos, Tomei a peito a tarefa, mas não descurei a promoção social e material da minha família. Trouxe para essa cidade a minha irmã mais nova, para prosseguir a Escola Comercial. Dormia em casa de uma senhora amiga, mas preparava as lições e almoçava no Colégio Angélico.

Era preciso mostrar resultados no liceu, a qualquer custo. Aceitei o desafio e obrigava os alunos a multiplicarem as horas de estudo. 

Os métodos para conseguir manter cerca de 100 alunos em silêncio e a estudar, horas a fio, num largo salão, eram os mesmos com que tinha sido formado: disciplinação a todo o custo. 

Assumi o papel de Prefeito e os métodos que sempre vira praticar. Afinal os Regulamentos eram os mesmos: o ritual da formatura, do silêncio, da domesticação do corpo e espírito. 

Por feitio próprio, não me isolava dos alunos e jogava a bola com eles. Contudo, o Prefeito era o guardião da disciplinação e os castigos dependiam unicamente da representação que ele fazia do delito e tinha sempre razão.

A Ciências já vinha treinado do Externato, mas a Matemática tinha grandes dificuldades. Assumi o desafio de a reaprender e obtive óptimos resultados no liceu, à custa da repetição e mecanização dos exercícios do Palma Fernandes.

Mesmo assim, era um pouco diferente do Colégio Angélico, onde estudara os primeiros cinco anos [em Montariol, Braga]. Os tempos era outros. Os alunos tinham mais contactos com as famílias. Iam a férias do Natal, Páscoa e fim do ano lectivo e podiam receber visitas eisair com familiares, ao fim de semana. Eram quase todos filhos de emigrantes.

- 127 -

Esta preocupação pela minha fámília, levou a que muitas vezes deixasse o Colégio ao fim da tarde, em conluio com o meu colega,  e fosse visitar os meus pais, de camioneta, a cerca de 130 quilómetros.

Anexo ao Colégio, havia o Seminário de Filosofia. Estava-se nos anos 60 e os Coristas com quem ia por vezes jogar futebol, andavam em autêntica revolução. De noite, tiravam o hábito e iam às escondidas para o cinema da cidade. Tinham um jornal clandestino, 'O Esgravilhão', onde criticavam os Mestres e as normas. Faziam piqueniques com produtos furtados ao Seminário, à noite, durante o silêncio e ninguém conseguia contê-los. 

Iniciara-se a assim a revolta que iria continuar pelos anos 60 e multiplicar as deserções (...).

Como Prefeito do Colégio Angélico, estava relacionado com as famílias dos alunos, com os clientes do Seminário e com o pessoal feminino que trabalhava para o asilo e o Colégio. Era o primeiro contacto informal, mas assumido, com o sexo feminino, depois da repressão de 13 anos.

- 128 -  


Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 124 -128 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, bold, itálicos, título: LG)

(Continua)

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Nota do editor LG:

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Vd. postes anteriores: 




terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre


Lisboa > Carnide > Seminário Franciscano da Luz > "O Seminário de Nossa Senhora da Conceição da Luz, vulgarmente conhecido como Seminário da Luz, ou Seminário Franciscano, ocupa um antigo palácio neoclássico, mandado construir em 1878 por Jacinto José de Oliveira. Os frades da Ordem Franciscana adquiriram o palácio em 1939 e, no ano seguinte, iniciaram obras de ampliação e adaptação às novas funções. A fachada principal, virada a ocidente, aberta sobre o Largo da Luz, é densamente decorada"




Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).

Horácio Fernandes,  falecido no passado mês de novembro, foi capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor do livro de cariz autobiográfico "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 


No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz,  seu "alter ego".  Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas,  cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer  37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  cinco  postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv)   os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia  (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela)  e depois de  Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em 1959).

2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Testemunho de uma época. Autópsia de uma "total institution".

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4a. classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga. 
.
Até ser ordenado padre,  passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre,  antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã. 

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e  Estado Novo (1926-1974).

14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

O nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.

 
Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós,  paternas, nascidas na década de 1860, eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).

Recorde.se que, além do Horácio Neto Fernandes (nº 42,  de uma lista de 113 capelães militares) houve mais seis da Ordem dos Frades Menores (OFM), que estiveram no CTIG (de 1961 a 1974). Eis os nomes, por ordem alfabética:

  • José António Correia Pereira (nº 84): de 26/3/1972 a 21/3/1974;
  • José de Sousa Brandão (nº 79): de 25/9/1871 a 22/12/1973;
  • José Marques Henriques (nº 97): de 28/4/1974 a 9/10/1974):
  • Manuel Gonçalves (nº 58): de 19/7/1969 a 30/6/1971;
  • Manuel Maria F. da Silva Estrela (nº 11): de 27/9/1963 a 14/8/1965;
  • Manuel Pereira Gonçalves (nº 91): de 28/5/1968 a 29/6/1974)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI:  Corista de filosofia e teologia e depois  padre 

por Horácio Fernandes


4.3. - Corista de Filosofia

A minha transição do Noviciado para o Coristado foi aos 17 anos [em Leiria, no Convento da Portela ou de Sáo Francisco ].

Na minha qualidade de professo de votos simples, tinha uma cela mais moderna, com uma varanda colectiva, era assíduo ao coro, três vezes por dia, participava nas festas litúrgicas e tinha a obrigação do estudo. 

Embora continuasse a acompanhar os padres em algumas funções religiosas, já era permitido ir a Fátima, a pé, nos dias treze, onde por vezes me encontrava com a família e conterrâneos.

O tempo de lazer também se alterou: às quintas feiras deslocava-me ao campo de futebol, ou a uma quinta próxima e jogava futebol, ou tomava banho no rio. 

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Quanto a férias grandes, no primeiro ano fui 15 dias para o santuário dos Remédios, em Peniche. Era proibido tomar banho individualmente no mar e não podíamos tirar o hábito na povoação, nem falar com pessoas estranhas.

Como alguns não resistissem à tentação de falar com pessoas estranhas e tomar banho às escondidas, fomos daí a pouco proibidos de continuar.

Destes três anos, recordo, sobretudo, o segundo e o terceiro. No segundo fomos todos castigados a passar as férias grandes no Colégio Angélico, bem guardados por um ex-Prefeito, porque no primeiro ano em que fomos passar férias aos Remédios, Peniche,  não cumprimos as determinações superiores, no que respeita ao contacto com estranhos. Alguns falaram, sobretudo com um grupo de enfermeiras católicas que ali perto passava férias. 

Também era proibido tirar o hábito e alguns andavam sem hábito e com calças. Igualmente faltavam ao Coro' que, embora simplificado, não era dispensado.

Foi baseados nestes argumentos que os superiores, no ano seguinte, nos obrigaram a passar as férias grandes no Colégio Angélico [em Montariol, Braga ], o que foi interpretado como um castigo.

Com o Colégio deserto, dávamos longos passeios a pé, e cumpridas as obrigações do Coro jogávamos a bola e líamos. 

Podíamos utilizar a biblioteca dos padres, mas tínhamos que registar o livro. Aconteceu que alguns deram com o armário dos livros proibidos, aberto,  e leram freneticamente os livros que nunca tinham lido, mas só ouvido falar. 

Durante uns dias, até darem por isso, foi um corropio para a biblioteca, buscar os romances de Camilo, Eça, Alexandre Dumas e outros .

Os Coristas começaram a faltar ao Coro e a deitarem-se muito tarde. De manhã, ou não apareciam, ou apareciam cheios de sono. 

Eu também fui dos que aproveitei. Agarrei-me ao «Crime do Padre Amaro» e devorei-o numa noite. Seguiram-se outros do mesmo autor. 

Cheio de remorsos, fui-me confessar a um padre velhinho, que me aconselhou a ir embora, face aos maus pensamentos que não me largavam. Porque estava agarrado aquilo, fui então a outro que me aconselhou a esperar até ver se os maus pensamentos abalavam.

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Entretanto; alguém deu o alarme e  os que registaram os livros, conforme as ordens que tinham recebido, foram severamente castigados e proibidos de gozar férias no ano seguinte.

Eu não cheguei a cumprir o castigo, porque entretanto   adoeci. Estive oito meses de cama, sempre na minha cela, com uma pneumonia e depois com uma osteamilite  , sem poder deslocar-me à portaria, nem poder receber  visita da família.

 Apenas o Director Espiritual me visitava  a miúdo, para me tentar convencer que era uma provação   passageira de Deus, para me purificar. Além dele, só podiam   entrar na minha cela o irmão enfermeiro e esporadicamente   um médico, amigo do Seminário.

Os colegas apenas espreitavam à porta, pois era expressamente proibido entrar nas celas alheias. O meu colega de lado, a quem por vezes incomodava para ir chamar o irmão enfermeiro,  se demorasse mais algum tempo, ouvia o ralhete do Mestre:

- Vossa Caridade não sabe que é proibido entrar nas celas uns dos outros?

Com temperaturas altas e sem poder dessedentar-me por imposição médica, dava largas à imaginação, sonhando com missões e missionários. Vivia angustiado, sobretudo pelo perigo de não poder continuar ou perder o ano. Contudo, acreditava que,  se fora escolhido por Deus, ele me havia de curar, sem deixar sequelas.

Agarrado como estava ao sonho de ser missionário, para mim esse era o maior drama. Afinal consegui passar o ano, embora de muletas, sendo operado à perna esquerda, já no ano  de Teologia, em 1956.

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4.3. Os três anos de Filosofia foram passados já num convento de linhas arquitectónicas mais modernas e panopticamente menos rigoroso.

 Tratava-se de inculcação dos saberes da Filosofia tradicional católica, como fundamento dos estudos de Teologia, a ciência por excelência: Philosophia ancila Theologiae [a Filosofia serva da Teologia, LG ].

Embora as chamadas Ordenações Peculiares continuassem em vigor e se cumprisse as normas de disciplinação e as disciplinas, notou-se uma maior flexibilização. 

O corpo docente, do qual alguns dos quais tiraram a Filosofia nas universidades católicas estrangeiras, estava mais aberto ao exterior. Embora conservando a matriz doutrinária ortodoxa, estavam mais preocupados em esgrimir argumentos contra as posições tomistas e inculcar as especificidades escotistas. Os mais novos faziam gala das suas intervenções no meio intelectual e os mais velhos remoíam sebentas repetitivas.

O sistema panóptico, reforçado no Noviciado, começou a dar mostras de algum abrandamento na Filosofia. Já éramos clérigos professos e de votos simples, feitos por 3 anos. Este facto dava-nos algum status, diante dos irmãos leigos e donatos.

A situação geográfica do convento também favorecia mais os contactos com o exterior. Os pregadores e missionários faziam da casa ponto de passagem obrigatória para o santuário de Fátima.

Esta relativa abertura não nos impedia de viver alheados da situação sócio-política nacional ou internacional. 

Sem acesso aos meios de comunicação, uma das grandes lutas a nível interno era contra a proibição de usar calças, por debaixo do hábito. Os mais «modernos» achavam um costume medieval, desadequado. Argumentavam que a tradução em espanhol da Regra falava em 'panetones' e não tinha tradução directa em português. Por isso, alguns interpretavam como calças e os mais observantes como cuecas ou ceroulas. O mesmo acontecia com a túnica que os mais modernos substituíam por camisa.

Esta luta transbordava nas conversas e nas aulas. Acendia-se, quando algum corista mais atrevido era apanhado pelo Mestre com um par de calças arregaçadas  debaixo do hábito, ou quando passavam pelo   Coristado missionários em férias ou pregadores, que, geralmente, eram menos observantes e mais liberais no trajar. 

Embora  os Mestres evitassem o contacto dos Coristas  com eles, era inevitável, o que me fazia   questionar porque para uns havia uma Regra  e para outros outra. Resposta não a encontrava, mas estas e outras interrogações   não abalavam a confiança na instituição. O  'habitus' estava bem arreigado.

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4.4. Corista de Teologia e Padre

Acometido pela doença, aos 20 anos, novamente o  estatuto de devedor de benefícios me acompanhou.

 Primeiro  aos superiores, por me terem tratado durante a longa doença,  aos professores por me deixarem fazer exame em Setembro  e novamente aos superiores, quando sofri a intervenção cirúrgica   ao fémur, já em Lisboa. 

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Apenas no  2º no de Teologia a minha vida de corista seguiu o seu ritmo de estudo normal, quando recebi a Prima Tonsura (8).

No primeiro ano de Teologia, quase não  saí do Seminário, porque andava amparado em muletas. Por isso,  ocupava todo o tempo no estudo e nas aulas. 

Olhando à distância, recordo algumas impressões deixadas por  professores e Mestres de Coristas. 

Havia o professor de História da Igreja que, sob uma máscara de dignidade, debitava sempre as mesmas anedotas sobre os jesuítas, para Corista rir. Era o professor de Direito Canónico,  que, no seu palmo e meio, não conseguia encarar os alunos de frente. Era o professor de Moral que mandava fechar as janelas e persianas e às escuras, apressadamente, explicava os pecados contra o Matrimónio e as respectivas sanções canónicas.

A partir do 2º ano de Teologia e já quase totalmente recuperado, substituía o passeio semanal pela catequese nas escolas primárias dos bairros sociais próximos. 

Para mais facilmente  captar a atenção das crianças, utilizava projector e diapositivos alusivos aos temas do catecismo a que eles chamavam cinema. Era um trabalho novo e, cheio  entusiasmo como estava, entregava-me a ele com alma e coração.  

O contacto com as crianças das escolas primárias era  uma novidade. Às quintas e sábados, lá ia carregado de pagelas, distribuindo «santinhos» pelos bairros pobres.

A preparação para as ordens menores (9), ordens maiores (10) e votos solenes (11) era concomitante com o estudo  aturado das Disciplinas Teológicas.  

Empenhado nestas tarefas,  vivia as notícias da terra que falavam do entusiasmo de todos os conterrâneos, na minha próxima Missa Nova.

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4.4.  A última etapa da Teologia foi um gradativo caminhar para o sacerdócio (13).

 Não obstante o Curso Teológico ser ministrado em Lisboa, estava completamente arredado da problemática política ou social.  

O rádio só podia funcionar na sala dos padres, a que não tínhamos acesso e,  mesmo  ali, só depois do jantar e da ceia. Terminado o recreio,  era fechada sem contemplações e só se podia abrir com licença expressa do superior 'toties quoties' (Ordenações Peculiares, 1943: 12).(**)

Circunscritos ao microcosmo do Seminário, a mundividência dos Coristas não ultrapassava os altos muros da quinta. 

Acesso aos meios de comunicação social não tinha, e as notícias chegavam-me filtradas pela tripla censura: política, eclesiástica e do próprio 'habitus'.  

Em contrapartida, este Seminário de Teologia tinha padres muito importantes que tinham um estatuto à parte e quase só apareciam na comunidade, nas festas. 

Os mais «respeitáveis» eram geralmente os mais próximos de famílias importantes da finança, política ou da cultura, e, que, por intermédio deles, eram«benfeitores» do Seminário. 

Estes «benfeitores» tinham direito a missa particular nas suas quintas, não fossem os serviçais cometer o  pecado de faltarem ao preceito dominical, ouvindo as homilias de domesticação.

Geograficamente bem situado, o Seminário era um interposto espiritual entre o poder terrestre e o celestial, para muitas famílias   ricas do regime que ali iam procurar o passaporte para o anti-quotidiano.

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 Talvez por  isso estive, quase completamente, alheado do momento quente   das eleições de 1959 (***).

 Lembro-me,  apenas, que me mandaram  e fui votar duas vezes: uma de manhã e outra de tarde na Junta de Freguesia, porque estava em causa o derrube de Salazar pelos «comunistas».

Igualmente me lembro de ter ido de hábito, como era do Regulamento, à Baixa Lisboeta, ver o cortejo, durante a visita da Rainha da Inglaterra a Portugal. Foi das poucas vezes em que não fomos acompanhados pelo Mestre.

Outra recordação que conservo viva,  foi o castigo aplicado pelo Mestre de Coristas, algum tempo antes do retiro para a ordenação sacerdotal, no convento onde tinha feito o Noviciado. 

Admoestado, por estar com um colega a falar nas escadas, em tempo de silêncio, retorqui-lhe que ele estava a espiar-nos debaixo das escadas. Ele não gostou e só fomos fazer o retiro obrigatório para a Ordenação, dois dias depois,  o  que nos nos obrigou  a acabá-lo depois dos outros três colegas.

Felizmente, este percalço não atrasou à Ordenação, pois estava tudo a ser ultimado na minha terra para a Missa Nova (12).

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______________


Notas do autor:

(7) Reza colectiva do Breviário, seis vezes por dia e que tinha a seguinte designação: Matinas, Prima, Tércia, Sexta, Noa, Vésperas e Completas.

(8) Ordem menor que consistia em cortar uma madeixa de cabelo no alto da cabeça, vulgarmente chamada coroa: «Feito o exame do 1º ano de Teologia, devem os alunos requerer a Prima- Tonsura, as ordens menores durante o 2°  ano e o Subdiaconado ao sair do 3º ano, se lho permitir a idade, por forma que possam receber o Presbiterado no fim do 4º ano, tanto quanto deles dependa. (Regulamento do Processo de Ordenação e programa do exame do Cânone 996).

(9) Assim chamadas por não implicarem a incardinação à Ordem, Congregação Religiosa ou Diocese.

(10) Assim chamadas pela excelência das funções, a que dão acesso. São o Subdiaconado, Diaconado e Presbiterado ou Sacerdócio. 

Nenhum ordenando podia receber o Subdiaconado sem ter o chamado título canónico, que era um património suficiente para a sua sustentação. Esta suficiência era aferida pelo correspondente «ao ordenado dum professor de instrução primária, quando provido definitivamente» (Parágrafo 2o do Cânone 479 do cap. Ill das Constituições Sinodais da Diocese de Lamego, 1954).

(11) Os votos solenes era o juramento que os candidatos ao sacerdócio das Ordens e Congregações Religiosas faziam e através dos quais eram recebidos a título definitivo na instituição.

(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação. Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado.

(13) Vd. nota (10).


(Continua)

Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 120-124 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, negritos,  itálicos, título: LG)
_________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. postes anteriores: 



17 de janeiro de 2026 Guiné 61/74 - P27642: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir

20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27651: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V: O noviço

(**) A exressão latina "toties quoties" quer dizer em português  "tantas vezes quantas" ou "tantas indulgências plenárias quantos os terços (ou orações) que rezar".

É uma locução usada principalmente no contexto litúrgico católico para indicar uma indulgência plenária /ou um benefício) que pode ser ganha repetidamente ("tantas vezes quantas" se cumprir a condição).

(***) Lapso do autor,  que trocou o ano; queria referir-se às eleições presidenciais de 1958, a 8 de junho, em que o regime de Salazar foi posto à prova:  num escasso milhão de votos (cerca de 70% dos recenseados), Américo Tomás foi eleito  com 75%, contra Humberto Delgado (23%), graças também à fraude (como o próprio Horácio Fernandes, de resto,  aqui candidamente exemplifica : votou duas vezes, uma de manhã e outra tarde).

Os franciscanos, vítimas do anticlericalismo primário da ( e expulsos pela) República em 1910, eram naturalmente gratos e afetos ao Estado Novo.