A ideia de ser padre começou a ganhar vulto, quando se repercutiram à volta de mim calorosos incentivos. Era a professora que repetia que gostava de que algum aluno seu fosse padre e o meu avô, para quem a sua maior dita era ter um neto padre.
O ser padre aparecia-me como a única saída, para ultrapassar as limitações da minha família de parcos recursos, concentrar em mim as atenções das pessoas que me rodeavam e ser o herói de meu avô.
É neste contexto que respondo às perguntas insistentes se quero ser padre com o «sim».
A minha única dúvida era se os padres eram «capados», como tinha ouvido dizer a alguns rapazes mais velhos. Desfeita esta dúvida, com uma consulta ao meu tio, que me assegurou que não, ficaram ultrapassados todos os obstáculos.
Este «sim» mobiliza imediatamente em redor de mim todas as atenções, não só da minha família, como das devotas da terra.
O meu avô retirou debaixo do colchão mais umas notitas, fruto das suas economias, para ajudar a comprar o enxoval para o futuro «ministro» de Deus. As senhoras devotas de Arribas do Mar ofereceram-se para confeccionar alguma roupa e marcar outras, pois a partir daí tinha um número atribuído pelo Seminário, o 27.
Mesmo assim, faltavam muitas peças do longo «enxoval» pedido. Meu pai viu-sé obrigado a contrair um empréstimo e fui pagar apenas a mensalidade mínima: cinquenta escudos.
_________________________________________________________
Com a cabeça cheia de das histórias de missionários, que a professora lia na aula às quartas feiras e os meus 10 anos, lá fui eu, juntamente com mais dois colegas, de abalada até ao Colégio Angélico, que distava mais de 300 quilómetros.
A acompanhar-me em tão longa viagem de comboio, ia meu pai e a irmã de um desses colegas.
A viagem teve o seu quê de novidade e de cansaço. Chegámos cerca das 10 horas da noite, à última estação de caminho de ferro, que distava cerca de 4 bons quilómetros do Colégio.
Uma carrejona levou as malas dos meus colegas e o meu saco às riscas, onde levava o enxoval, num carrinho de mão, e nós fomos atrás dela. Nas subidas, ainda ajudávamos a empurrar o carro.
Como já tinha tocado a sineta para o silêncio obrigatório, o irmão porteiro levou-nos à secção da enfermaria, para não perturbar os outros e mandou meu pai e a irmã do meu colega de regresso à cidade, porque ali era clausura e não podiam entrar pessoas estranhas à comunidade.
Depois de nos entregarem a Deus lá foram atrás da carrejona, à procura de comida e dormida e fui-me deitar.
- 109 -
_________________________________________________________
4.1.1 A domesticação do corpo e espírito em vários cenários
A domesticação de Francisco, embora operada dia a dia, obedecia a rituais próprios e estava centrada em quatro cenários:
- o refeitório,
- a camarata,
- o salão de estudo
- e a sala de aulas.
Panopticamente situados, os Prefeitos tudo comandavam e vigiavam: comandavam através de gestos ou sinais sonoros, como apito, campainha, sineta, palmas, e vigiavam todas as conversas, passos e procedimentos dos alunos.
E quando não podiam estar presentes, o que era raro, lá estava o mais velho ou os graixas, como eram conhecidos os preferidos, prontos a comunicá-lo ao Prefeito.
Desde que Francisco entrou no Colégio Angélico, uma cortina panóptica correu-se sobre o seu quotidiano. A partir daqui, é barro para ser moldado, já não por uma professora catequista, mas pelos oleiros sagrados.
A interiorização dos rituais do prémio, do castigo, do silêncio, da subordinação, do aniquilamento do self vão reconvertê-lo de homem velho em homem novo, «criado em justiça, verdade e santidade» (S. Paulo).
O «mandato» do sistema de ensino salazarista para o subsistema de ensino convencional (ver cap. II da dissertação), resulta num aniquilamento do corpo e alma do Francisco e a inculcação de um habitus que o transforme num ser passivo, obediente, conformado, interiormente reconstruído, para ser administrador do sagrado. Tem de deixar de ser Francisco e converter-se numa caricatura de «fradinho» e «padrezinho», traçado pelas hierarquias eclesiásticas, em conúbio com o regime salazarista.
Esta moldagem consistia em cortar com todas as amarras que o ligavam ao mundo, e fazer de cada angélico um eterno devedor do subsistema.
Para isso, impunha-se o apagamento de todas as referências relacionadas com a sua identidade pessoal e familiar: correspondência, datas de aniversário, apelidos de família, pares e amigos, opções pessoais, respeitantes à sua apresentação pública, como o cabelo e as vestes [5].
- 110 -
Em troca, passava a ser um barro moldável nas mãos da instituição religiosa. Os novos pais eram os superiores, representantes de Deus e eleitos com evocação do Espírito Santo. Os amigos eram os Santos, preferencialmente os da respectiva família religiosa, cujas referências biográficas, ainda que reinventadas, eram exploradas até à exaustão.
O ensino confessional hierarquizava também as mulheres pela excelência simbólica. As não consagradas as Deus eram as inimigas do corpo e da alma dos homens. Aos eleitos, vocacionados, os melhores, ficava vedado subordinar-se aos encantos femeninos. De outro modo, perderiam a supremacia do seu status. Por isso, havia que subalternizá-las, para que o homem não perdesse a excelência da masculinidade.
Traduzido em linguagem simbólica, o Angélico tinha de combater os três principais inimigos da alma: mundo, demónio e carne.
Cenário 1 [Refeitório]
O dia começava impreterivelmente ao som de uma sineta. Era, aprendi depois, o toque regulamentar para a formatura em direcção à igreja para a missa matinal.
Vesti-me à pressa e mandaram me juntar aos cerca de 200 rapazes que desciam as escadas em silêncio. Assisti à missa, ainda meio estremunhado, fazendo os gestos que os outros faziam e de novo me integrei na formatura para o refeitório, em absoluto silêncio e braços cruzados, como os outros.
O refeitório dos alunos era um amplo salão, com mesas de madeira surrada, sem qualquer revestimento, onde, três vezes por dia, os alunos comiam em pratos e chávenas de alumínio, todas amachucadas dos trambolhões e algumas sem pegas.
Quando os outros viraram a chávena atacaram o meio «papo seco», também fiz o mesmo.
De repente, à palavra mágica «prosit» (seja útil!), pronunciada pelo Prefeito, o silêncio quebrou-se , uma torrente de vozes inundou o salão.
(Continua)
Cenário 2 [Camarata]
Ao outro dia de manhã acordei às 5 horas e 45 minutos da manhã, excepto aos domingos em que me era concedido o privilégio de ficar na cama, mais uma saborosa hora.
Um bater de palmas cadenciado indicava que o dia ia começar. De Inverno custava tanto sair do quente para o cimento da camarata! Mas nem S. António me valia!
Se não saltava logo da cama, ou ficava a dormir porque não ouvia as palmas, tinha uma visita inesperada: a sandália do Prefeito dava um pontapé na perna da cama de ferro que me abalava todo, ou era pegado por uma orelha, apertando pouco a pouco, até que era atirado para fora.
Meio autómato, devido ao sono, e debaixo dos lençóis, trocava as calças do pijama pelas costumeiras para não faltar a santa modéstia, como mandava o Regulamento.
(Continua)
- 111 -
[5] As únicas referências documentais a Francisco Caboz que se conservam no Colégio Angélico, para além das pautas de classificação escolar, são ; a data de entrada, 3/10/46; o número de ordem 1117; a filiação, local de nascimento e a diocese ( «Livro de Matrículas do Colégio Angélico», 1938-1960).
_____________________________________________________________________________
Cenário 1 [Refeitório] (continuação)
Os encarregados recebiam as cafeteiras, por um balcão fechado, que separava o refeitório dos padres, dos alunos e da cozinha.
Começaram a encher as chávenas, sob o olhar vigilante do Prefeito, não fosse algum servir-se duas vezes de «banacau», uma mistura de leite com um pó a saber a cacau.
Mesmo assim, para mim, cujo pequeno almoço era geralmente um bocado de pão com o resto do peixe cozido de véspera, sabia bem. Todos eram obrigados a beber, sem pestanejar.
Olhava para tudo aquilo, meio pasmado, quando um colega me perguntou de que terra era. Eu disse, ingenuamente, que era da Lourinhã. «Da Lourinhã?!...» replicou o outro numa risota. «Então és da Terra dos Parvos!». Num instante, o remoque foi repetido por toda a mesa: «olha, é da Lourinhã!...».
Eu nem os ouvia, tão absorto estava na observação de tudo. Só despertei, quando o Prefeito bateu as palmas. Como se tivesse tocado a corneta de um batalhão, todos emudeceram e a ordem veio peremptória:
«Os angélicos que chegaram ontem à noite, vão à portaria buscar as malas!»
Na portaria, esperava-me novamente o meu pai que, entretanto, calcorreara o longo e íngreme caminho da véspera, desde a cidade até ao cimo do monte, onde se erguia o Colégio Angélico.
Uma desagradável surpresa nos esperava: a irmã do meu colega foi notificada que seu irmão tinha sido rejeitado, porque tinham recebido informações de que a mãe, viúva recente, se tinha amantizado com outro homem.
A decepção para todos foi enorme. Passados uns dias, foi mesmo despedido.
Mas, nova provação havia de me bater à porta. Depois das férias do Natal, fui chamado ao Prefeito. Ainda lembrado da rejeição do meu colega e porque quando o meu pai me chamava, ou a professora, era para me castigar, lá fui a tremer e não me enganei.
Disse-me que me tinha de ir embora, porque meu pai tinha escrito a avisar que não podia pagar a mensalidade que já era mínima.
-112 -
Sem palavras, comecei a chorar. Por essa razão ou por outra, mandou-me lá ir no dia seguinte. Comunicou-me, então, que uma benfeitora do Fundão, que nunca cheguei a conhecer, ficaria minha madrinha e pagaria a mensalidade, ficando eu com a obrigação de lhe escrever uma carta a agradecer, no fim de cada trimestre.
Fiquei aliviado de um peso de toneladas.
É verdade que sentia muitas saudades da família, mas, às escondidas, ia fazendo versos à terra e à minha mãe, num caderninho que guardava religiosamente dos Prefeitos. Ir-me embora, naquela altura, era dar um tremendo desgosto a toda a família, ao meu avô e a todos os que me ajudaram a ir para o Seminário.
Por isso, agarrei-me àquela tábua de salvação. A minha vontade era corresponder a tanta bondade dos benfeitores, sem olhar a sacrifícios. Sentia-me um eterno devedor.
Cenário 2 [Camarata] (continuação)
Depois, saltava da cama, punha a toalha ao pescoço e ia a correr à casa de banho e ao lavatório lavar a cara e os dentes. Sempre em rigoroso silêncio, que na camarata era ainda mais exigente.
Os mais apressados já estavam na formatura para a igreja, não sem antes pedirem a bênção ao Prefeito, beijando-lhe a mão. Este, aos que eram da sua predileção, geralmente dispensados de varrer o Colégio, por serem encarregados, nomeados por si, retribuía com um sorriso, ou dizendo umas graças. Aos outros estendia, impassível, a mão para a beijarem.
Dentro do rol dos sacrifícios, havia o duche em água gelada, ao sábado, fosse inverno ou verão, pois não havia em todo o Colégio água aquecida para os angélicos.
Ninguém podia apresentar-se diante dos outros em roupas interiores. Os banhos eram devidamente vigiados, em compartimentos fechados, com chuveiro individual e com o tempo controlado, não fosse algum angélico aproveitar o tempo para coisas indecentes.
Outro pecado que não constava da minha lista e que agora era considerado o mais grave, pois acarretava quase sempre imediata expulsão, eram as chamadas «amizades particulares».
Os Prefeitos andavam sempre à cata dos incautos. Era perigoso ser amigo de alguém, a não ser do Prefeito. Nos meus inocentes 12 e 13 anos andava distraído com os jogos, a que sempre aderia por gosto e nunca fui acusado por isso.
Porém, alguns meus colegas que não gostavam muito de jogar à pela, bandeiras, andebol ou voleibol, foram bem incomodados.
Aliás, as restrições à livre circulação eram evidentes:
- 112 -
- era proibido falar com os padres ou irmãos;
- era proibido andar apenas dois alunos;
- era proibido sair campo de recreio;
- era proibido gozar a bela sombra das árvores da mata;
- era proibido ir buscar as bolas, quando estas passavam a rede para os castanheiros do fundo;
- era proibido ir à camarata ou ao sótão, durante o dia;
- era proibido ficar muito tempo a tomar banho,
- e, até se vigiava o tempo que o aluno demorava na casa de banho.
Cenário 3 [Salão de estudo]
No salão de estudo, enfileiravam-se as cerca de 200 cadeiras individuais, com uma tampa que levantava, resguardando um compartimento, onde se colocavam os livros e os cadernos.
Todos os sábados, devia fazer a limpeza à minha carteira, deixá-la aberta para trás, para que o Prefeito passasse revista.
Aliás, fui conduzido a este salão tal como tinha entrado: atrás dos outros.
Na minha qualidade de n° 27 que o Prefeito baptizou de Caboz, coube-me uma carteira, onde guardei os livros emprestados pelo Colégio, alguns já meio desfeitos. Os cadernos eram adquiridos pela Prefeitura e englobados nas despesas gerais, a enviar trimestralmente aos meus pais.
No sótão, onde se guardavam as malas, o ritual foi um pouco diferente. Apenas tinha trazido um grande saco que minha mãe retirara do enxoval e recebi uma mala velha do comum, onde depositei a roupa que trazia.
- 114 -
Mas a arrumação não ficou por aqui. Deram-me ainda o lugar n° 27 no refeitório, na capela, na camarata e no cacifo aberto do salão de recreio para guardar o calçado e na formatura depois de o medirem a rigor e ir ao corte de cabelo, segundo as normas do Colégio.
Sob a jurisdição de um angélico mais velho, o padrinho, aprendi a fazer a cama. Com o inverno à porta, faltavam-me os cobertores e a colcha, que eram caros.
A conselho do preceptor, lá me dirigi novamente ao comum, onde me arranjaram um cobertor de papa e uma colcha meio desfiada. Não era suficiente, mas com a roupa de vestir a fazer peso aos pés e um pijama de flanela, lá me fui aguentando.
Em altas camaratas viradas a sul e a poente, rasgadas por amplas janelas, onde o vento era rei e senhor e sem qualquer conforto, só o Menino Jesus que presidia no meio da camarata ao sonho dos angélicos, ao colo de Santo António, não tinha frio, porque era de pedra!
- 113 -
Cenário 4 [Sala de aulas]
As salas de aula, de inverno, viradas a norte, eram outro suplício. Desconfortáveis, com pavimento de cimento e sem qualquer aquecimento, largas janelas mal calafetadas e que deixavam entrar o frio e a chuva gélida vinda dos lados da serra da Espinheira.
Sem agasalhos suficientes, tiritava de frio. Nem a calça de pijama e dois pares de camisolas de interiores que trazia às escondidas, por debaixo da bata castanha, às riscas, que era o uniforme em dias de semana, me valiam.
E o inesperado aconteceu: numa das aulas , o professor que era ao mesmo tempo de Música e de Matemática, bem nutrido, aliás dos poucos que se dignavam rir para os alunos, mas que, quando se zangava, dava estalos de arrombar a cara ao mais valente, pôs-me em plena aula o epíteto de «engelhado».
- 113 -
Foi uma risota para os outros colegas, geralmente mais bem enroupados que eu.
Um acidente inesperado veio em meu socorro: um colega, ruído de saudades, fugiu do Colégio, de noite, e seguindo pela via férrea, foi desembarcar sozinho e a pé, à estação de Nine, sua terra natal. Por sorte, deixou o sobretudo.
Estava regulamentado que quem abandonasse o Colégio, não tinha direito ao enxoval, ficando para o comum: desta vez, fui o beneficiado.
Depois de suplicar humildemente e de apanhar o sermão do costume, sobre o enxoval que devia ter trazido e não trouxe, lá me dispensaram o sobretudo.
Mas não foi tudo. Em lugar dos sapatos pretos do uniforme, tinha trazido apenas dois pares de botas pretas, dadas pelo meu padrinho, sapateiro, que me recomendou que as engraxasse para passarem por sapatos.
Na revista da quinta feira e domingo era um castigo! Com os alunos alinhados militarmente, eu bem me escondia atrás dos outros, para que o Prefeito não me visse as botas. A princípio, ainda passava, porque as calças encobriam; mas quanto mais crescia, mais se viam as caneleiras das botas.
Sistematicamente, era rejeitado para o passeio e aos domingos levava uma descompostura, ou o castigo de ficar a varrer o salão.
- 114 -
(Continua)
Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 109-114 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).
(Seleção, revisão / fixação de texto, parêrnteses retos, bold, itálicos, título: LG)
_______________________
Nota do editor LG:
1 comentário:
João Crisóstomo
Se eu soubesse escrever como o Horácio, ou soubesse comentar como faz o nosso Luís Graça, eu "teria muito a contar" . Ou não. Porque o que eu podia contar o Horácio já o fez, tendo passado e vivido o mesmo que eu. É que as nossas meninices foram quase "gémeas": nos tempos de escola primária... no mesmo colégio nas mesmas circunstancias ( algumas vezes parece que ele está a falar de mim... só que eu nesta altura ainda nem o conhecia!) nos mesmos conventos de Varatojo e Portela ( Leiria) ... A partir daí já as nossas vidas foram um pouco diferentes, pois eu ao "acabar a filosofia" desisti e saí; e ele continuou e foi mesmo padre. Mas foi neste convento da Portela que nos conhecemos; ele já era padre, prefeito duma escola primária que funcionava nesse convento, e eu era então ainda simples " estudante de filosofia", vivendo o que ele mesmo tinha experimentado/vivido alguns anos atrás...
Os meus filhos pedem-me por vezes para eu escrever sobre o que foi a minha meninice e juventude. E eu não o faço, mas sempre lhes digo para lerem o livro do Horácio " Construção e desconstrução de um padre' . Sem eu saber, ele escreveu por nós dois...
João Crisóstomo
Enviar um comentário